Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 21: A Confissão da Sacerdotisa

Maomao pegou outra colherada antes que a assistente da sacerdotisa arrancasse a tigela de mingau de suas mãos.

— O-O que você pensa que está fazendo?! — exigiu ela.

— Simples. Estou provando para ver se tem veneno — respondeu Maomao, voltando a usar sua própria língua. A assistente tinha feito primeiro, claramente, o shaohnês de Maomao não era lá essas coisas. Francamente, ela estava feliz por conduzir essa conversa em sua língua nativa. — Me devolva esse mingau, por favor. Ainda não terminei de examiná-lo. Ou pretende deixar a honrada sacerdotisa comer o restante?

A assistente permaneceu em silêncio, o que Maomao tomou como permissão para continuar.

— Preciso dizer que estou impressionada, embora talvez não devesse estar. A forma como conseguiu colocar as mãos naquele veneno sem deixar rastros.

— Você não tem provas! — A assistente franziu a testa, mas apenas por um segundo; logo ela recuperou sua compostura inabalável. Naturalmente qualquer pessoa envolvida em uma conspiração tão extensa precisava ser uma boa atriz. A sacerdotisa também parecia impassível.

Faz sentido, pensou Maomao. Ela nunca iria simplesmente soltar uma confissão tão convenientemente.

— Então, você poderia ter a gentileza de esperar um instante? — disse Maomao. — Se o mingau estiver envenenado, devo começar a apresentar sintomas a qualquer instante. Como não sei quão súbitos ou intensos podem ser os efeitos do veneno, por favor, deixem-me terminar o restante. — Ela estendeu a mão, mas a assistente não fez menção de entregar a tigela. — Havia apenas um pedaço de cogumelo na colherada que comi! Isso nem chega perto de uma dose letal! Anda, me dê isso!

— Você não pode estar falando sério. Se acha que está envenenado, cuspa!

— Não vou fazer tal coisa — disse Maomao. Ela tirou algumas anotações das dobras de seu manto.

— O que é isso? — perguntou a assistente.

— As anotações feitas por uma dama da corte chamada Yao, aquela que estava provando a comida da honrada sacerdotisa para detectar veneno. Ela é uma aluna muito dedicada, e uma das coisas que ensinei a ela foi que, se um alimento tivesse um cheiro estranho, ela não deveria comê-lo. Se a concubina Aylin tivesse colocado o pó de incenso na comida, Yao teria sentido o cheiro. Ela pode não ter muita experiência, mas não cometeria um erro tão básico.

As anotações continham observações detalhadas de vários dias antes do jantar.

— Ela registrou cuidadosamente tudo o que a honrada sacerdotisa comeu. No café da manhã do dia do jantar formal, ao que parece, ela comeu um mingau muito parecido com este aqui.

As notas diziam: Manhã. Mingau c/ cogumelos.

— Tenho certeza de que vocês conheciam muito bem os efeitos do veneno. E calcularam o momento para que os sintomas aparecessem logo após o jantar. E posso arriscar dizer que vocês estavam com um pouco de culpa? Vocês usaram uma quantidade exata para que, com os cuidados adequados, Yao ainda pudesse ser salva.

Yao estava muito melhor agora. Não havia como saber se seus órgãos internos teriam sequelas permanentes, mas pelo menos ela já não corria risco imediato de vida. En’en também estava muito mais tranquila.

— Receio que você não esteja fazendo sentido algum. A criminosa já confessou o crime, não foi?

— Sim, ela confessou. Posso presumir que foi hoje que vocês receberam a notícia de que a culpada havia sido encontrada e punida? Foi por isso que Sua Senhoria se sentiu segura o bastante para seguir em frente com o suicídio.

Já que Aylin precisava assumir a culpa, a sacerdotisa só podia tirar a própria vida depois que a culpa da concubina estivesse garantida. Talvez fosse por isso que ela escolheu um veneno capaz de provocar uma segunda “onda” de sintomas. Melhor ainda para ela: se morresse depois que Aylin fosse oficialmente confirmada como criminosa, sua morte provavelmente seria encoberta. Ninguém queria que Li acabasse tropeçando na verdadeira culpada por acidente.

Maomao olhou para as duas mulheres. Calmas, frias. Não acho que tentariam me silenciar aqui e agora… Lahan estava esperando na vila da sacerdotisa. Eles tinham enviado um mensageiro para chamar o pai de Maomao, e ela esperava que chegassem em breve. Não seria fácil me calar... mas ter os planos arruinados nessa altura certamente não deve agradá-las.

Ela entendia. Sabia que não tinha nada a ganhar fazendo aquilo. O tom ameaçador que usou não era realmente sobre expor os planos delas, mas apenas uma jogada inicial, uma forma de fazê-las ouvi-la.

— Honrada sacerdotisa. Acredito que a senhora e a concubina Aylin se conhecem bem, não é? — disse Maomao.

— Sim — respondeu a sacerdotisa. — Houve um tempo, muito tempo atrás, em que ela poderia ter se tornado minha sucessora. — Um olhar de tristeza atravessou seu rosto.

Eu sabia.

Aylin estava tentando proteger a sacerdotisa. Ela faria isso se a sacerdotisa realmente estivesse tentando jogar toda a culpa sobre ela? Sabendo da relação entre as duas, parecia possível que esse fosse o plano desde o momento em que Aylin chegou ao palácio interno.

— Isso vai levá-la à forca, sabia? — disse Maomao.

A sacerdotisa vacilou diante dessas palavras. Comparada à assistente, deixava bastante a desejar como atriz. Se Maomao queria fazer uma das duas quebrar, a sacerdotisa parecia o alvo mais promissor.

— Não sei como fazem as coisas em Shaoh, mas em Li, assassinato, mesmo tentativa de assassinato, é punido com a morte. Ela dedicou a vida inteira à senhora. Você vai simplesmente deixar que eles a matem?

Nenhuma das duas mulheres respondeu.

— Vai mesmo? Concubina Aylin, a mulher que a senhora educou para que pudesse ter um futuro. E agora é a própria senhora quem vai arrancar esse futuro dela?

Ainda assim, Maomao não conseguiu reação alguma. Inútil. Como imaginei. Mas enquanto tentava decidir o que dizer a seguir, a cabeça da sacerdotisa caiu enquanto ela permanecia sentada na cama, e ela deixou escapar algo parecido com um gemido.

— H-Honrada sacerdotisa — disse a assistente.

— O que eu deveria ter feito? — perguntou a sacerdotisa. As palavras não carregavam nenhuma da autoridade de seu cargo; soavam suplicantes. Frágeis como fios de seda, como se uma brisa pudesse levá-las embora. Quando a sacerdotisa voltou a falar novamente, foi em shaohnês. Maomao se esforçou para acompanhar. — Desde o momento em que nasci, minha vida foi distorcida, e tudo o que pude fazer foi seguir o caminho traçado para mim. Eu não tinha nada, nada além de ser a sacerdotisa. Então pensei que ao menos poderia continuar sendo a sacerdotisa até o fim.

— Honrada sacerdotisa! — disse a atendente, sacudindo-a, mas ela continuou sua confissão em um shaohnês fluente, salpicado aqui e ali por palavras ocasionais na língua de Li. Era basicamente como Maomao havia imaginado. A facção real de Shaoh via a sacerdotisa, já bastante poderosa naquele ponto, como um obstáculo e queria removê-la de seu cargo. Talvez ela pudesse suportar apenas isso, mas também pretendiam entregá-la em casamento depois que fosse deposta. Era compreensível que tivesse entrado em pânico.

— Acho que desejavam arrastar a sacerdotisa de volta ao chão — disse ela na língua de Li, carregando um forte sotaque. — Aquela criança me odiava tanto. Ayla...

Ayla... pensou Maomao.

A outra emissária. Então nem tudo o que Aylin disse era invenção. Ela tinha misturado habilmente alguns fatos reais também. Talvez o ciúme de Ayla pela posição da sacerdotisa fosse o que alimentou seu ressentimento contra pessoas albinas. Isso explicaria por que ela usou a Dama Branca daquela forma.

Não estava claro se a facção real tinha alguma noção de quem a sacerdotisa realmente era, ou se apenas desejavam degradar a mulher sagrada ao transformá-la em uma noiva comum depois de removê-la do cargo. De qualquer forma, simplesmente nomear uma nova sacerdotisa reduziria drasticamente o poder do posto.

Maomao não tinha dito especificamente que a sacerdotisa era, na verdade, um homem, mas pelo contexto provavelmente entenderam que ela sabia. As emoções estavam à flor da pele, e talvez aquilo tivesse sido um deslize de linguagem. Maomao não sentiu vontade alguma de chamar atenção para isso.

— Foi Aylin quem falou disso comigo pela primeira vez — disse a sacerdotisa. Aylin e Ayla eram como irmãs, e Aylin revelou que tinha descoberto o que a outra estava planejando. Seu plano de usar a Dama Branca.

— Porque, para ela, a sacerdotisa era alguém especial — acrescentou a assistente. Aylin conhecia bem os costumes de Li. Sabia, por exemplo, que se a sacerdotisa morresse fora das fronteiras de Shaoh, seus restos mortais seriam enviados de volta para sua terra natal, e que, em Li, o costume era enterrar os mortos, enquanto a cremação era reservada aos criminosos. Uma simples diferença cultural. Em Shaoh, acreditavam que cremar a sacerdotisa a devolvia ao sol, de onde ela tinha vindo.

E se tudo o que querem são alguns fragmentos de ossos, pensou Maomao, basta que Aylin devolva pedaços que não revelem o sexo da sacerdotisa. A morte da sacerdotisa deixaria Li em dívida com Shaoh, mesmo que a assassina fosse outra pessoa de Shaoh. Em contrapartida, Shaoh se veria livre da problemática sacerdotisa. O rei certamente ficaria satisfeito com isso.

— Não daria tudo no mesmo, desde que você desaparecesse? — perguntou Maomao à sacerdotisa.

— Não — respondeu ela. — Eu posso partir, mas haverá outra sacerdotisa.

Então é isso. Outra jovem que ainda não tivesse menstruado seria encontrada e colocada no posto de sacerdotisa, enquanto a assistente, ao retornar de Li, seria o verdadeiro poder por trás dela.

— A próxima sacerdotisa é muito mais capaz do que eu. É por isso que posso entregar o cargo a ela.

Maomao se perguntou o que fazia a atual sacerdotisa ter tanta certeza de que sua sucessora era mais adequada do que alguém com mais de quarenta anos de idade e experiência. Ela guardou suas dúvidas para si.

— Não haverá problemas sem mim.

Dessa vez, Maomao não conseguiu se conter.

— Tem mesmo tanta certeza disso? — perguntou. — Isso só vale se tudo acontecer exatamente como você prevê. Já pensou no que pode acontecer se Sua Majestade descobrir seu plano e se enfurecer?

Tudo o que a sacerdotisa tinha dito até então beneficiava Shaoh, e apenas Shaoh. Li, que acabaria arcando com toda a situação, não ganharia nada. Nem mesmo com Aylin e a sacerdotisa sacrificando suas próprias vidas. A sacerdotisa estava pensando no bem de seu país, mas faria isso às custas de outro.

— O que pretendiam fazer se Yao morresse? — Pelo menos para essa pergunta, Maomao queria uma resposta. Ela bateu nas anotações de Yao. O que Yao tinha feito de errado? Elas conseguiriam responder isso?

— B-Bem... Bem...

As duas mulheres claramente se sentiam culpadas. Sabiam que não podiam usar um veneno fraco demais, ou o plano talvez não funcionasse. Para tornar plausível a morte da sacerdotisa, precisavam demonstrar que havia um veneno potente envolvido. Sim, tentaram reduzir seus efeitos, mas um único erro poderia ter custado a vida de Yao.

— O plano de vocês era Shaoh colher todos os benefícios enquanto Li arcava com todas as consequências? Porque, se for isso, eu não vou ficar calada — disse Maomao.

— Mesmo que eu morra? — perguntou a sacerdotisa depois de um longo silêncio.

Eu odeio quando as pessoas acham que tudo termina só porque morreram! — Era praticamente se recusar a encarar as consequências do que tinham feito. Maomao se sentiu melhor depois de finalmente dizer aquilo que mais queria dizer.

De repente, lembrou-se de uma jovem alegre que amava insetos. Uma jovem que desapareceu na neve e nunca mais foi encontrada. Às vezes, Maomao ainda olhava as vitrines das lojas, imaginando se algum dia encontraria o prendedor de cabelo que tinha dado àquela garota.

[Kessel: Nããããão, vou chorar!!! Shisui…..]

— Como pode ter certeza, honrada sacerdotisa, de que Shaoh não começará a fazer exigências a Li depois que você se for?

— Achei que talvez vocês cedessem a alguns desejos de Shaoh.

— Como o quê? Comida?

— Isso seria uma das coisas, sim. E pensei também... Talvez vocês fossem persuadidos a entregar a mulher pálida, aquela que acredito que estejam mantendo sob custódia.

— Quer dizer... a Dama Branca?

A Dama Branca não podia ser filha da sacerdotisa. Isso era impossível. Agora que penso nisso, Aylin insinuou a mesma coisa desde o começo. Então qual era a relação entre as duas? No mínimo, parecia provável que a Dama Branca fosse de Shaoh, considerando que Ayla a estava usando.

— Por direito, aquela garota deveria ter sido criada para se tornar a próxima sacerdotisa — disse a sacerdotisa. A Dama Branca tinha nascido na aldeia das sacerdotisas; ela e a atual ocupante do cargo possuíam laços de sangue. Mesmo considerando que crianças albinas pareciam nascer com mais frequência naquela linhagem, ainda havia algo que a distinguia. — Se eu simplesmente tivesse deixado meu cargo e o entregue a ela, nada disso teria acontecido. Mas, porque senti que precisava me agarrar à minha posição, mandei a criança pálida de volta para sua casa.

De alguma forma, aquilo acabou levando a menina a viajar para outro país e causar problemas, até terminar tratada como uma criminosa comum.

— Eu tinha medo de que, se descobrissem que havia outra criança albina destinada a herdar o posto de sacerdotisa, isso só causaria ainda mais conflitos. Então pedi que ela fosse criada em segredo. Mas então...

— Então ela virou uma peça no jogo de outra pessoa.

— Sim. Foi usada por Ayla, que queria me destruir. Cerca de cinco anos atrás, ouvi dizer que a garota tinha sido levada embora. — A sacerdotisa encarou o chão, profundamente abatida. A criança não conseguiu se tornar sacerdotisa, e não havia nenhum outro lugar para onde pudesse ir.

— Uau. Você realmente só causou problemas ao nosso país — disse Maomao.

— Cuidado com o que fala! — disparou a atendente, perdendo a compostura em um instante de fúria. A sacerdotisa, porém, a conteve. As duas pareciam se equilibrar; quanto mais emocional uma ficava, mais calma a outra se tornava. Agiam como parceiras que se conheciam e trabalhavam juntas havia muito tempo.

— Estou apenas lhe dizendo a verdade — disse a sacerdotisa.

— Eu sei. Mas considere passar o resto da vida tentando reparar o que fez.

Era a única coisa que Maomao conseguia dizer, a única sugestão que encontrou mesmo depois de pensar muito. Se aquilo não alcançasse a sacerdotisa, então não haveria mais nada que pudesse fazer.

Ela encarou a mulher diretamente.

— Morra por mim. Desta vez, de verdade.

[Kessel: Maomao! Eita. O que diabos ela vai aprontar?!?!?!]


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