Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 20: Mingau de Cogumelos

A brisa era úmida. Muito mais fresca do que o clima de onde ela vinha, ela não conseguia se acostumar com a sensação na pele. Mas o sol aqui era menos intenso. Mesmo dentro de casa, ela percebia. Conseguia fazer caminhadas um pouco mais longas do que o normal, e isso a deixava feliz.

Ela relembrou as aventuras que teve nos últimos meses. Antes, passava todo o tempo em sua residência, sendo venerada. Já estava acostumada com as pessoas a adorando, mas aquilo podia se tornar entediante. Estava preparada para entregar sua posição a qualquer um que a quisesse, porém, sua própria existência impedia que isso acontecesse. Sacerdotisa, era como a chamavam, e fazia tanto tempo que ela já não lembrava mais do próprio nome. Se abdicasse de seu assento agora, nem sequer saberia como chamar a si mesma.

E agora, finalmente, tudo estava chegando ao fim. Esse lento período de tempo tinha sido o último adiamento.

Seu quarto estava mergulhado na escuridão por causa de várias cortinas. Houve um farfalhar de tecido na penumbra. Por um instante, ela se perguntou o que era, mas então viu uma garota espiando ela. Seu nome era Jazgul. Significava “flor da primavera”. A garota, nascida sem voz, tinha sido trazida até ela cerca de um ano antes.

Talvez fosse indelicado perguntar por quais caminhos ela tinha acabado junto da sacerdotisa. Ela era bonita à sua maneira, mas seus membros longos denunciavam desnutrição. Não sabia ler nem escrever, mas conseguia ouvir e entendia o que lhe diziam. Quanto à falta de habilidades, isso era justamente o que a sacerdotisa precisava.

A sacerdotisa chamou Jazgul com um gesto, e a garota se aproximou feliz. Não havia visitas hoje. Já fazia alguns dias que a sacerdotisa estava doente na cama, incapaz de dar atenção a Jazgul. Agora sentia que precisava compensar isso.

Ela sorriu para Jazgul quando a garota se aproximou. Saiu da cama e trouxe alguns itens de um lado do quarto. Entre eles havia pigmento. A sacerdotisa mergulhou o dedo na substância vermelha e a espalhou na testa de Jazgul, contornando a tatuagem em seu rosto para destacá-la. Jazgul apenas ficou parada e deixou que ela trabalhasse, claramente satisfeita. Talvez fosse por sua falta de instrução, ou pelo fato de nunca conversar, mas parecia ainda mais jovem do que aparentava.

Depois de pintar o rosto de Jazgul, a sacerdotisa pegou várias folhas de papel de couro de carneiro, preparou tinta e entregou à garota a pena de uma ave aquática.

— Que tipo de sonho você sonhou hoje?

Jazgul começou um desenho vacilante. Incapaz tanto de falar quanto de escrever, aquelas figuras simples eram seu único meio de comunicação. Quando desenhava, ficava completamente absorta naquilo. Mas ela não podia permanecer no quarto da sacerdotisa. Na verdade, logo seria hora da refeição.

— Volte para o seu quarto — disse a sacerdotisa , recolhendo o papel e a tinta e entregando-os para Jazgul. Mas o papel era grande demais para a garota carregar, e algumas folhas caíram. Enquanto se apressava para pegá-las, ela ergueu os olhos para a sacerdotisa, implorando silenciosamente para ficar com ela, mas havia coisas que nem mesmo a sacerdotisa podia mudar. Ela acariciou a cabeça de Jazgul, ainda mais gentilmente do que de costume. — Você não pode ficar comigo para sempre. Eu sei que consegue desenhar sozinha.

Jazgul assentiu, e a sacerdotisa sorriu. Poucos momentos depois que a criança saiu do quarto, a assistente de pele bronzeada entrou. A sacerdotisa a chamava de “oráculo”. A palavra tinha um significado muito parecido com “sacerdotisa”, e, assim como ela, o oráculo também havia esquecido o próprio nome. Já fazia quase vinte anos desde que tinha assumido o lugar do oráculo anterior.

A sacerdotisa se lembrou de algo que o oráculo anterior lhe disse: que a palavra para “sacerdotisa ” era homófona de outra palavra, uma que significava “filha dos deuses”. Era apropriado que alguém chamado oráculo servisse à filha dos deuses, afinal, não era dever de um oráculo ouvir as vozes divinas?

Em algum momento, a “filha dos deuses” tinha se tornado a “sacerdotisa do santuário”. Seria porque apenas mulheres eram escolhidas para o cargo? Ou porque só mulheres tinham restado? Ela não sabia. Ainda assim, sentia que era certo e apropriado que ela própria fosse a “sacerdotisa”. Ela tinha sido encontrada pelo oráculo anterior quando era muito jovem. Na verdade, vivia no palácio da sacerdotisa desde antes de conseguir se lembrar.

Disseram-lhe que ela era especial. Seu cabelo branco, sua pele branca e seus olhos vermelhos. Diziam que a ausência de cor em seu corpo permitia que ouvisse as vozes dos deuses com mais clareza. Cada um de seus movimentos passou a ser tratado como profecia, interpretado e explicado pelo oráculo. Todos sabiam que as previsões de uma pálida donzela do santuário se realizariam. Ela era a única pessoa para quem nem mesmo o rei ousava olhar diretamente; mal era humana, sentada entre as sombras de seu palácio, entronizada como uma deusa.

Uma sacerdotisa não precisava de instrução. Sua própria existência era suprema. Ao longo dos séculos, os oráculos jamais deram às sacerdotisas algo sequer parecido com educação. Ainda assim, foi exatamente isso que o oráculo anterior fez por esta sacerdotisa. Talvez ela fosse apenas um pouco... diferente. Ela ensinou a sacerdotisa a ler e escrever, deu-lhe letras.

Nada disso mudava o fato de que a sacerdotisa não sabia nada sobre o mundo exterior.

Ela sabia que não poderia mais ocupar seu cargo depois que começasse a menstruar, mas o que não sabia era o que aconteceria com ela após ser destronada. Incapaz de imaginar o destino que a aguardava, completou dez anos, depois quinze.

A menstruação chegava em momentos diferentes para cada pessoa, e ela tinha ouvido dizer que havia existido sacerdotisas no passado para quem ela nunca vinha. Por isso, não questionou sua própria ausência de menstruação, apenas continuou como sacerdotisa. Ainda assim, não pôde deixar de perceber que havia outras coisas em seu corpo que a diferenciavam. Para começar, ela não se desenvolvia como as mulheres. Seus seios nunca cresceram, embora seus braços e pernas continuassem ficando mais longos. Até alguém tão protegida quanto ela conhecia as diferenças entre homens e mulheres. Quando perguntou ao oráculo, ouviu apenas:

— Você é especial.

Mas depois disso, percebeu que começaram a lhe dar comidas novas e desconhecidas. Seu peito começou a crescer, mas seu sangue ainda nunca veio.

Os meses e anos passaram enquanto ela continuava ignorante, incapaz de compreender. Sua fama como sacerdotisa crescia, assim como o número de pessoas que buscavam seus presságios. Disseram-lhe que, durante a adivinhação, podia fazer o que quisesse, mas não deveria falar. O oráculo falaria tudo em seu nome.

O oráculo que lhe contou tudo isso, que fez tudo isso por ela, finalmente encontrou seu fim quando a sacerdotisa tinha vinte anos. Simplesmente chegou a sua hora, mas, como nunca tinha visto ninguém morrer, a sacerdotisa não compreendeu completamente. O velho oráculo doente foi substituído por este novo, sua neta. Antes de morrer, o antigo oráculo contou à sacerdotisa por que sua menstruação nunca começou, por que seu corpo não se comportava como o de uma mulher.

A sacerdotisa, disse ela, nasceu em uma pequena aldeia, um raro lugar de vegetação exuberante entre as terras áridas de Shaoh. Ela foi estabelecida como um refúgio onde as sacerdotisas que deixavam seu cargo podiam se aposentar, e muitos dos aldeões carregavam nas veias o sangue de gerações de sacerdotisas. Algumas dessas sacerdotisas também deviam ser pálidas. Foi lá que a atual sacerdotisa nasceu… um homem.

Pareceu ridículo quando o oráculo revelou a verdade. Como uma piada cruel. Mas o oráculo simplesmente continuou falando com sua voz enrugada e rachada. Disse que o rei daquela época era um rei mau. Shaoh prosperava como uma rota comercial, mas ele tinha ideias absurdas sobre fazer guerra contra outras terras. Seus conselheiros tentaram fazê-lo desistir, mas ele era jovem, impulsivo e não escutava.

A sacerdotisa era o outro pilar, aquele capaz de conter o rei. Porém, a sacerdotisa daquela época não possuía a força de vontade necessária e, por causa da idade, parecia prestes a se aposentar de qualquer forma. Se uma nova sacerdotisa surgisse, talvez pudesse enfrentar o rei. Especialmente se fosse aquela figura mais sagrada de todas, uma sacerdotisa pálida.

Então o oráculo usou a sacerdotisa para cortar as pernas daquele rei tolo. Ela fez da sacerdotisa não um homem. Ele foi castrado ao mesmo tempo que os cabritos machos.

Agora uma mulher, a sacerdotisa foi apresentada ao rei. Ao que parecia, ela chorou diante do ambiente desconhecido, não há nada de estranho em um bebê berrando, mas o oráculo aproveitou o momento para declarar o rei inapto.

As revelações pareciam invalidar toda a vida da sacerdotisa. Em um único instante, seus vinte anos no cargo se tornaram uma mentira. Ela sempre acreditou ser especial, mas agora sabia que não passava de uma peça usada para destronar o rei. Ela desejou poder repreender o oráculo moribundo, despejar sua fúria e vergonha. Porém, a sacerdotisa foi tão isolada do mundo que nem sequer sabia quais palavras usar em um momento como aquele. E de que adiantaria, afinal? Até o pouco conhecimento que possuía, o oráculo lhe deu em uma tentativa de aliviar a própria consciência.

Após a morte do oráculo anterior, a sacerdotisa foi viver perto da aldeia onde nasceu, sob o pretexto de estar “se recuperando”. O oráculo agora falecido era brilhante à sua maneira. Usou sua marionete, a sacerdotisa, ao máximo e estabilizou a política da nação. Sua neta, agora o novo oráculo, era quase tão capaz quanto a avó, mas lhe faltava experiência. Talvez fosse justo dizer que fugiram até que ela adquirisse a percepção necessária.

Havia um entendimento silencioso de que, quando um novo oráculo assumisse, a sacerdotisa também mudaria. Várias jovens de excelente linhagem foram enviadas para se tornarem aprendizes da sacerdotisa, e ela as educou, assim como o oráculo fez com ela. Talvez estivesse apenas tentando compensar o fato de tê-las enganado, mas ao menos isso servia para ampliar as possibilidades futuras delas.

Ela sabia que poderia ter entregado o assento da donzela do santuário a qualquer uma delas a qualquer momento, ainda assim não conseguia deixar de se apegar ao cargo. Afinal, tinha sido criada para ser a sacerdotisa. Nem sequer possuía um nome para chamar de seu.

Aylin era amigável com ela, mas muitas das jovens viam a sacerdotisa apenas como um obstáculo. Ayla estava entre suas inimigas, ela parecia a irmã gêmea de Aylin, mas as duas dificilmente poderiam ser mais diferentes. Mais ou menos na época em que a sacerdotisa percebeu que não podia fingir estar se recuperando para sempre, um mensageiro veio de sua aldeia. Uma criança havia nascido. Foi trazida até ela envolta em panos brancos, com a pele tão pálida que era possível enxergar os vasos sanguíneos por baixo.

 

— Honrada sacerdotisa — disse uma voz familiar, tirando-a de seu devaneio. O oráculo estava diante dela. A sacerdotisa devia ter se perdido completamente em suas lembranças. — Tem mesmo certeza disso? — perguntou o oráculo. Diante da sacerdotisa havia uma tigela de mingau de arroz. Ah, sim. Ela estava prestes a comer.

— Isso vai levantar suspeitas se eu continuar adiando — respondeu a sacerdotisa, bruscamente.

O oráculo não disse nada, mas sua expressão se tornou sombria. Como podia fazer aquela cara quando sabia de tudo? Ela fechou os punhos e olhou para o chão, recusando-se a encarar a sacerdotisa.

— Vou fazer minha refeição sozinha. Vá esperar em outro lugar. — A sacerdotisa sorriu. Ela precisava sorrir. — Eu sei que posso confiar a você tudo o que vier depois.

Ela estava prestes a levar a colher aos lábios quando percebeu uma agitação do lado de fora. Franzindo a testa, ela e o oráculo trocaram olhares, e então a porta se abriu de repente.

— Com licença! — gritou uma mulher pequena na língua Li. Um pedido ousado para alguém invadindo o quarto de uma dignitária. Ainda assim, a sacerdotisa a conhecia, era uma das assistentes médicas, a mesma que a examinou antes. Mas ela não deveria estar aqui hoje.

— C-Como ousa ser tão rude?! — disse o oráculo, tentando bloquear seu caminho. Mas a jovem desviou dela e foi direto até a sacerdotisa. O que tinha acontecido com os guardas?!

Rude, eu não. Isso. Meu trabalho! — Ela falava em shaohnês de forma hesitante. Ela aproveitou a surpresa da sacerdotisa para arrancar a colher de sua mão. Enfiou-a na própria boca e engoliu. A sacerdotisa e o oráculo empalideceram, mas a dama da corte apenas sorriu, na verdade, fechou os olhos em êxtase. Ainda sorrindo, olhou para a sacerdotisa. — Muito saboroso. Mingau de cogumelos.

Ela parecia absolutamente triunfante.


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