Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 7: As Intenções de Aylin

Cerca de uma vez a cada dez dias, um dos médicos do palácio externo, principalmente o pai de Maomao, visitava o palácio interno. O sistema era simples o suficiente. As concubinas de alto escalão eram atendidas uma vez por mês, enquanto as concubinas de médio e baixo escalão recebiam exames a cada três meses. Ainda assim, atender todas era um desafio considerável, mas, se Luomen foi incumbido a isso, então ele teria que cumprir.

Já fazia nove dias desde a última visita deles ao palácio interno. Nove dias perfeitamente normais para Maomao, exceto pelas duas damas da corte que a vigiavam constantemente.

Se havia algum problema, era que qualquer carta que chegasse até ela era examinada. Felizmente, nenhuma delas vinha diretamente de Jinshi; geralmente chegavam em nome de Gaoshun. Além disso (não que isso importasse para ela), parecia que Basen tinha voltado ao trabalho. A recuperação dele parecia anormalmente rápida, considerando a gravidade dos ferimentos.

Talvez sua constituição seja simplesmente diferente. Um dia, ela esperava poder testar a capacidade de recuperação dele com a de outras pessoas.

Uma carta de Sazen chegou informando que a farmácia estava indo muito bem, embora ele também reclamasse que Kokuyou era irritante. Sim, Maomao sabia que ele podia ser irritantemente alegre, mas Sazen teria que lidar com isso.

De vez em quando, pinturas da gata Maomao vinham misturadas com as cartas; essas eram enviadas por Chou-u. No lugar de um selo pessoal, as almofadinhas das patas de Maomao eram pressionadas nas imagens com tinta escarlate. Os arranhões nas fotos sugeriam que ela as assinava sob coação.

[Noelle: Ai que foofooo kkk]

Sob o pretexto de uma inspeção cuidadosa, Yao analisou uma das pinturas da gata com especial atenção. Depois de um tempo, ela devolveu a Maomao com relutância. Mais tarde, En’en perguntou se Maomao não daria a pintura da gata para ela; Maomao suspeitou que acabaria indo parar nas mãos de Yao.

Yao e En’en pareciam achar que a “mulher pálida” era apenas um codinome. Aquilo parecia incomodar En’en, mas Yao não dava muita importância, então En’en não insistiu no assunto.

A mulher pálida... Maomao tinha quase certeza de que era a mesma pessoa que ela conhecia como a Dama Branca, embora não pudesse ter certeza absoluta.

Se não for... Ela pensou no pintor que ela havia salvado de um envenenamento alimentar. Na casa dele havia um quadro de uma mulher bonita, com cabelos brancos e olhos vermelhos, alguém que ele dizia ter visto nas regiões do oeste. Será que poderia ser a mulher à qual Aylin, que também vinha de Shaoh, se referia?

Mas então, por que o enigma? Não, tinha que ser a Dama Branca, pensou Maomao, balançando a cabeça. Ainda assim, a mulher do quadro não saía de sua mente. Será que havia alguma ligação?

Sua pergunta seria respondida no dia seguinte, quando vissem Aylin novamente.

 

Havia pouco menos de cem mulheres no palácio interno com o título de concubina. Rumores sempre circulavam quando uma concubina de alto escalão deixava o palácio, mas concubinas de baixo escalão frequentemente partiam sem que ninguém comentasse. Às vezes eram dadas em casamento a oficiais merecedores, ou devolvidas às suas famílias, sem nunca terem sido visitadas pelo Imperador. Muitas das mulheres do palácio zombavam da ideia de sair dali, mas isso não incomodava Maomao particularmente.

Maomao, Yao e En’en estavam com Luomen e o médico charlatão, fazendo as rondas pelo palácio interno. Era a segunda vez delas nessa função. Eles encontraram o quarto com a flor e o número indicado na etiqueta. Pertencia a uma concubina de baixo escalão, mas a porta tinha um pano preto, sinal de luto indicando que a dona do aposento havia morrido.

— Você acha que ela estava doente? — perguntou Yao. Mas aquela era uma das mulheres que o pai de Maomao havia examinado na última visita, e ele não havia notado nada. O que sugeria...

— Suicídio, eu suspeito — disse Maomao. Não era algo tão incomum. Desde que a morte fosse claramente autoinfligida, sem sinais de crime, o palácio interno mal reagia. Não era exatamente algo cotidiano, mas também não era nada que causasse alvoroço.

As damas do palácio interno podiam representar todos os tipos de “flores”, mas a maioria chegava convencida de sua própria beleza. Muitas tinham uma autoestima exagerada, e não eram poucas que foram levadas ao desespero pela diferença entre suas expectativas e a realidade do palácio interno.

O grupo ouviu algumas damas cochichando: — Dizem que ela era viciada em álcool. — Elas estavam tão envolvidas na fofoca que não perceberam o grupo de médicos bem ao lado. Assim que viram os jalecos brancos, voltaram correndo para seus postos.

Isso realmente é um cemitério de mulheres... Ou melhor, um campo de batalha, pensou Maomao. Aquelas que eram derrotadas em batalha não tinham outra escolha a não ser desaparecer. Em certo nível, as servas podiam ser consideradas mais livres do que as concubinas. Podiam trabalhar como condenadas, mas tinham um tempo de serviço definido. Se conseguissem aguentar o tempo suficiente,  voltariam a ver o mundo além dos muros do palácio.

O plano do dia era visitar os aposentos das concubinas de baixo escalão e, por último, ir até a residência de Aylin. Inicialmente não pretendiam vê-la, já que haviam ido até ela na última vez, mas o plano mudou por um pedido pessoal dela mesma. Será que ela não estava se sentindo bem? Ou havia algo que ela queria saber?

 

Primeiro, eles chegaram ao quarto de uma concubina de baixo escalão com o símbolo de uma camélia na porta.

— Não, não tenho nenhum problema em particular — disse a concubina, que exalava um cheiro forte de perfume, enquanto uma de suas damas a abanava. O cheiro forte vinha até eles, fazendo Maomao querer franzir o nariz. Era verão, e ainda assim o quarto estava completamente fechado, impedindo que o odor se dissipasse.

Que azar o dela. Ela tem o tipo de corpo preferido de Sua Majestade. Mesmo sob o robe da concubina, cujo colarinho estava cuidadosamente fechado, ficava claro que ela era voluptuosa. Seus traços faciais davam um ar um pouco agressivo para ela, mas ela parecia bastante inteligente. Bem dentro do leque de interesses do sempre enérgico Imperador.

Maomao deu uma olhada furtiva no caderno do charlatão. Estava aberto na página com o nome da concubina de cheiro forte que estavam diante deles, junto com anotações sobre doenças que ela havia sofrido no passado, sem falar na quantidade de visitas que ela havia recebido de Sua Majestade.

Eu sabia. Ela é o tipo dele.

Apenas uma dessas visitas estava registrada. Ela suspeitou que o cheiro forte de perfume havia impedido novas visitas dele. O aroma parecia ser algum produto importado. Era uma pena, um toque leve dele atrás das orelhas poderia ter sido bastante agradável.

Pode parecer direto demais, até rude, mas no palácio interno sempre se registravam as visitas noturnas do Imperador, que precisavam ser relatadas ao médico. Mas o fato de ser obrigatório não tornava isso menos difícil às vezes. Como no caso da Imperatriz Gyokuyou. Sua Majestade às vezes visitava o Pavilhão Jade a cada três noites. Não era só aparência, ah, definitivamente não era, mas alguém precisava ficar do lado de fora do quarto para garantir. A função geralmente cabia a Hongniang, a dama de companhia chefe de Gyokuyou, mas quando o Imperador vinha em noites consecutivas ou o trabalho ficava pesado demais, Maomao às vezes assumia o posto.

Eu tinha a vantagem de já estar acostumada com esse tipo de coisa no distrito dos prazeres…

Pelo que Maomao conseguia deduzir, o Imperador e Gyokuyou estavam envolvidos em atividades bem avançadas. Só os ruídos que podiam ser ouvidos através da parede... Para Hongniang, com mais de trinta anos e ainda solteira, devia ser um teste de resistência.

[Noelle: Coitada da Hongniang pensa, nunca fez nada e ter que ficar ouvindo kkkkkkkkkkkkk mds]

O simples fato de manterem registros dessas coisas já provava que aquilo não era o mundo exterior. Maomao suspeitava que as visitas a essa concubina de baixo escalão não voltariam a acontecer, mas aquela única visita a deixou altiva e orgulhosa, embora aos olhos de Maomao, isso só a tornasse ainda mais triste. Aquela única noite colocou o mundo além do palácio interno praticamente fora de seu alcance.

Talvez, se não fosse por esse fedor.. Era tão exagerado que Maomao se perguntou se havia algo errado com o nariz da mulher. E, de fato, parecia haver: os lábios pequenos e bem formados da concubina se abriam constantemente; parecia mais que ela respirava pela boca.

Os seres vivos normalmente respiram pelo nariz, como cães e gatos, e normalmente, os humanos. Se ela respirava pela boca, poderia indicar que seu nariz estava obstruído, e, se isso acontecesse desde a infância, poderia afetar o alinhamento dos dentes.

O alinhamento dos dentes dela... Maomao refletiu. Seu velho estava apenas examinando a boca da mulher, evidentemente tendo o mesmo pensamento, mas os dentes dela eram relativamente alinhados.

— Você espirra com frequência? — perguntou Luomen.

— Sim.

— Seu nariz costuma ficar entupido?

— Frequentemente, especialmente da primavera até o início do verão. E ainda mais desde que vim para o palácio interno.

— Tem dificuldade para dormir?

— Eu dormiria bem, se meu nariz não ficasse entupido.

Luomen fez algumas anotações. O charlatão estava simplesmente parado observando, então Maomao tomou a iniciativa de pegar o estojo de remédios e a entregou ao pai. Ele tirou algo para inflamação nasal.

— Tente usar isto. Pare se isso atrapalhar seu sono. Você também pode urinar com mais frequência, mas não acho que isso seja um problema. — Então ele acrescentou: — Acho que o perfume que você está usando atualmente pode não estar fazendo bem a você. Se for usar, use apenas um pouquinho, ou considere trocar por outro tipo.

— Tudo bem — disse a concubina. Talvez sua docilidade viesse da gratidão por ele ter entendido o problema do nariz dela.

Maomao sabia que, se ela havia percebido algo, seu velho certamente também havia percebido. Além disso, ele conseguiu dizer à concubina que seu perfume estava forte demais da forma mais gentil possível. Embora, se ele não tivesse dito, quando o nariz dela melhorasse, ela provavelmente perceberia sozinha o exagero.

Depois que saíram do quarto, Luomen começou a inspecionar o jardim, onde flores coloridas de verão estavam por toda parte. — De onde será que essa concubina veio? — ele disse.

O charlatão folheou seu caderno.

— Ela é do extremo noroeste, perto do deserto. Ah, o clima lá deve ser muito desagradável.

O pai de Maomao se virou lentamente para ela e para as outras duas assistentes.

— Bem, vamos transformar isso em um momento de aprendizado certo? O que vocês acham que causou a rinite da senhora? — Seu enigma veio acompanhado de um sorriso gentil. A mão de Maomao já estava se levantando quando ela percebeu o olhar dele e ela a abaixou. Ele não estava perguntando para ela, mas para Yao e En’en.

Lentamente, Yao levantou a mão.

— É porque o quarto estava abafado?

De fato, o aposento estava completamente fechado; essa era uma das razões para o cheiro não se dissipar.

Isso não deve ter ajudado, pensou Maomao. O quarto parecia limpo, mas não parecia que a concubina recebia muito ar fresco. E eles não tinham visto o quarto de dormir dela; havia a possibilidade de estar empoeirado.

— Também é possível que o quarto dela não esteja em condições higiênicas — continuou Yao. — Se o lugar onde ela dorme estiver sujo, pode gerar insetos que prejudicam o corpo.

Era possível, mas Maomao não achava que fosse esse o caso. Aquela concubina não parecia alguém que tivesse desistido de chamar a atenção do Imperador. Se ela esperava uma visita imperial, não deixaria de manter o quarto limpo e pronto. Até mesmo o perfume exagerado era, em certa medida, uma tentativa de se embelezar. Ela simplesmente não sabia quando parar, graças ao nariz entupido.

Maomao observou as plantas crescendo no jardim. A concubina disse que a inflamação piorava da primavera ao início do verão. Ela se agachou e arrancou um pouco de grama à beira do caminho. Artemísia. Maomao a conhecia bem; usava frequentemente em tratamentos de moxabustão. Era uma planta comum ali, mas ela suspeitava que provavelmente não no lugar de origem da concubina.

Enquanto Maomao permanecia agachada, pensativa, seu pai pegou a planta de sua mão, como se ela fosse uma criança travessa.

— Tenho certeza de que o quarto da concubina está em ordem. Sem dúvida ela o mantém assim para estar pronta caso Sua Majestade decida visitá-la a qualquer momento. Especialmente considerando que ela já recebeu uma visita dele.

Yao pareceu contrariada por ser informada (ainda que indiretamente) de que estava errada.

Luomen, no entanto, sabia como amenizar um ego ferido.

— Você estava focando nas coisas certas. Doenças frequentemente surgem da falta de higiene, especialmente nos quartos.

Agora Yao parecia confusa: elogios são bons, mas... um elogio de um eunuco... é bom?

Eu teria acertado a resposta, pensou Maomao. Podia ser algo pouco maduro, afinal, Yao era mais nova que ela, mas o pai adotivo de Maomao era uma das poucas pessoas cuja aprovação ela desejava.

— No entanto, espirros também podem ser causados por ervas e flores como estas — continuou Luomen. Não era a mesma coisa que um resfriado; pólen e esporos podiam entrar no corpo e provocar crises de espirros ou um fluxo aparentemente interminável de coriza. — O pólen pode causar estragos no corpo. Daí os espirros.

Era incomum Luomen expor os fatos de forma tão direta quando lidava com Maomao. Foi o suficiente para fazê-la se perguntar se havia algo mais acontecendo com aquela mulher. Mas não: a abordagem direta provavelmente era mais fácil para Yao e En’en; até mesmo o charlatão olhava para Luomen com admiração nada disfarçada.

Você deveria ser um dos professores! Pensou ela, olhando para ele.

A mão de Yao se ergueu lentamente de novo.

— Hum... Se o pólen “causa estragos” no corpo, por que nem todos nós estamos espirrando? — perguntou ela.

Luomen sorriu.

— Uma boa pergunta. Assim como há pessoas que pegam resfriado com mais facilidade do que outras, há aquelas cujos corpos não são afetados pelo pólen. Também é possível que seu corpo passe a reagir de repente, mesmo que antes não reagisse. Por exemplo, se você já estiver debilitada por outra condição. Uma longa viagem de um país distante para uma terra desconhecida, por exemplo.

Assim como aquela concubina.

Eu já sabia disso tudo, resmungou Maomao por dentro. Seu pai olhou para ela com um ar de desculpa. Esperava-se que médicos transmitissem ensinamentos enigmáticos, dos quais os alunos teriam que extrair a verdade por conta própria, mas o pai de Maomao não era assim. Ele era gentil o bastante para explicar as coisas de forma que qualquer um pudesse entender.

Ainda assim, aquilo incomodava um pouco, mas Maomao também podia agir como uma adulta, mesmo que nem sempre gostasse disso. Ela se forçou a assumir novamente uma expressão neutra mais uma vez enquanto se dirigiam à residência da próxima concubina.

 

Depois de atenderem cerca de dez outras concubinas, finalmente voltaram a Aylin. Maomao achava difícil, de algum modo, pensar nela como “Concubina Aylin”. Não por ela ser estrangeira. (Se fosse o caso, teria tido a mesma dificuldade com a Imperatriz Gyokuyou.) Não, Maomao tinha dificuldade com o título de Aylin por um motivo simples: ela não acreditava que Aylin realmente tivesse ido ao palácio interno como concubina.

Uma dama de companhia abriu a porta para eles, exatamente como uma dama de companhia deveria fazer, e eles foram conduzidos à mesma sala da última vez. Pouco antes de entrarem, Maomao sentiu En’en puxar sua manga. Sim, sim, eu sei, pensou ela. Maomao era uma cúmplice, mas Yao faria o papel de líder. Maomao achava que En’en seria melhor improvisando, mas não era assim que as coisas funcionavam ali. O papel de En’en era apoiar Yao.

A primeira questão era quando abordar o assunto. O rosto de Aylin estava vermelho e febril; Maomao não fazia ideia se era encenação ou uma condição real, mas certamente explicava por que ela havia pedido especificamente por eles, e o rubor dava ao seu rosto uma beleza marcante por si só.

Meu Deus, que peito grande, pensou Maomao.

[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkk. Maomao!]

Como estava indisposta, a concubina vestia algo equivalente a roupas de dormir. Uma de suas damas parecia querer protestar sobre a falta de decoro. Maomao percebeu En’en comparando discretamente o busto de Aylin com o de Yao, mas isso ela guardaria para si mesma. Será que En’en esperava ajudar Yao a “crescer” ainda mais?

— Vou medir seu pulso, então — disse Luomen educadamente. Por mais encantadora que a concubina parecesse, os homens ali não tinham meios de reagir. De qualquer forma, eram um velho e um homem ainda mais velho, suas libidos já estavam há muito tempo adormecidas.

Luomen avaliou os sintomas da mulher e então preparou um remédio: ela reclamava de rigidez no pescoço, então ele fez uma mistura à base de araruta.

— Você só está com um resfriado — disse ele. — O ambiente desconhecido deve estar sendo estressante para você.

— Muito obrigada. Depois da sua última visita, fiquei feliz em descobrir que os médicos daqui usam mais do que cantos e encantamentos — disse Aylin, com uma expressão de admiração.

— Alguns médicos praticam esse tipo de medicina. Acontece apenas que eu não — respondeu Luomen, recusando-se a criticar diretamente práticas populares como “cantos e encantamentos”.

— Claro, deve haver alguns.

— Se preferir práticas mágicas, posso trazer alguém especializado nisso.

Aylin balançou a cabeça.

— Não; na verdade, fiquei muito satisfeita por não encontrar nada do tipo. Já servi como aprendiz de sacerdotisa, sabe, e prefiro não me ver submetida aos rituais de outra fé.

— Ah, eu não sabia. Sim, se você segue a fé das sacerdotisas, isso é certamente compreensível.

O Imperador não era cruel a ponto de obrigar suas mulheres a abandonarem suas crenças ao entrarem no palácio interno. Desde que praticassem suas religiões de forma discreta, ele estava disposto a ignorar.

Ela abandonou seu país…

Mas parecia que a fé não podia ser deixada de lado tão facilmente.

— Estou familiarizado com o culto das sacerdotisas de Shaoh. O que você faz durante os rituais aqui? — perguntou Luomen, referindo-se às cerimônias sagradas realizadas ocasionalmente no palácio interno.

— Não há problema. Desde que me seja permitido participar, seguirei os costumes do meu novo lar.

Uma resposta bastante flexível.

Yao se remexia enquanto ouvia a conversa, claramente sentindo que estava perdendo a chance de falar com a concubina. Do jeito que estava, talvez fosse melhor nem tentar falar com ela.

A marca de um bom subordinado, porém, é saber intervir nesses momentos. O exame médico foi interrompido por um estalo distinto: o som de En’en (sempre sem expressão) mordendo um dos biscoitos de arroz levemente tostados que haviam sido colocados na mesa junto com o chá.

— En’en! — exclamou Yao. Já que ela havia falado, não era necessário que Luomen ou o charlatão interviessem, mas Maomao sabia que En’en nunca faria algo tão indelicado normalmente.

— Minhas sinceras desculpas. Eles pareciam tão convidativos — disse En’en.

— Não se preocupe. É por isso que estão aí — disse Aylin, ainda com um ar lânguido.

Ao ouvir isso, En’en lançou um olhar para Yao como quem diz que era isso que estava esperando. Só então Yao pareceu perceber o que a outra estava fazendo.

— Sim, realmente parecem deliciosos — disse ela. — Quase tão bons quanto aqueles doces que a senhora nos deu da última vez. Eles eram bem incomuns, aqueles biscoitos de cor pálida.

Os biscoitos realmente tinham um formato estranho, mas não eram pálidos. Yao estava tentando comunicar que haviam decifrado o código.

A expressão de Aylin não mudou, embora algumas damas de companhia parecessem confusas. Talvez elas não soubessem dos papéis dentro dos biscoitos, ou talvez tivessem sido informadas de que eram apenas mensagens de sorte.

— Fico feliz que tenham gostado. Fazer doces é um dos meus hobbies. Preparei mais para hoje. Espero que levem com vocês — disse Aylin, com um leve sorriso cruzando o seu rosto. O sorriso não revelou se ela havia entendido o significado do que Yao tentou dizer, mas as jovens mal podiam esperar para descobrir que tipo de guloseimas receberiam desta vez da concubina.

 

Os doces que Aylin lhes deu dessa vez não continham enigmas, como as três assistentes médicas confirmaram ao se reunirem depois do trabalho no palácio interno. Em vez disso, os doces continham uma carta, instruindo-as a ir a um restaurante perto do dormitório. O fato da mesma carta estar nos três biscoitos sugeria que estavam certas em pensar que precisavam passar no teste juntas ou não passar de forma alguma.

Muitos dos estabelecimentos na parte norte da capital eram luxuosos, e o local indicado na carta era uma elegante casa de bebidas. Muitos funcionários públicos do governo frequentavam o lugar, por isso havia várias salas privadas disponíveis.

— Sou só eu, ou parecemos deslocadas aqui? — disse Yao. Era, novamente, um estabelecimento de bebidas, e um bem sofisticado, e apesar da riqueza de sua família, não era o tipo de lugar que Yao, com apenas quinze anos, era familiarizada.

Também não era o tipo de lugar que três mulheres costumavam frequentar sozinhas. A maioria dos clientes eram homens, sendo as garçonetes as únicas mulheres à vista. Uma pessoa comum provavelmente aconselharia as garotas a manter distância, embora Maomao, acostumada com bebidas e bêbados do distrito dos prazeres, não se incomodasse com os olhares frios que elas recebiam. Pelo menos ninguém parecia bêbado o suficiente para perder a razão.

Elas foram recebidas por uma garçonete com maquiagem extravagante.

— Posso ajudar? — perguntou ela, educada, mas claramente sem considerá-las clientes em potencial. Talvez ela achasse que elas estavam ali procurando trabalho.

— Somos clientes do oeste — disse Maomao, exatamente como instruído na carta. A garçonete entendeu o recado e as conduziu para dentro.

 

Mal haviam se acomodado na sala privada quando Maomao sentiu o corpo relaxar ao deixar a tensão escapar.

— Olá — disse um homem pequeno, de cabelo despenteado e óculos, tomando um licor de frutas, ou melhor, provavelmente suco de frutas. Era o sobrinho e filho adotivo do estrategista excêntrico, Lahan. Havia outro homem ali também, alguém que Lahan às vezes levava como guarda-costas, mas Maomao nunca o tinha visto dizer uma palavra e achava seguro ignorá-lo.

— Ora, você é…

— Você conhece esse homem?

En’en havia encontrado Lahan quando o estrategista desmaiou outro dia, mas Yao estava fora do escritório médico naquele momento e não o conhecia.

— Fico muito feliz que tenham chegado aqui em segurança. Não sei o que teria feito se não tivesse vindo — disse Lahan.

— Eu vou embora — disse Maomao, virando-se imediatamente.

Yao segurou seu braço.

— Por que você vai embora? Você também conhece ele? — O ponto de interrogação era praticamente visível sobre sua cabeça enquanto ela olhava de Maomao para Lahan e de volta.

— Este é o Mestre Lahan — explicou En’en. — Veja, Maomao é filha do Grande Comandante Kan.

O título completo do estrategista excêntrico! Ela realmente fez sua lição de casa, percebeu Maomao, franzindo o cenho. Ela recorreu à sua habitual insistência:

— Ele é um estranho.

Enquanto isso, Lahan parecia completamente despreocupado.

— Estou impressionado que você saiba disso — ele disse a En’en, com admiração genuína.

— Eu naturalmente investigaria qualquer pessoa que insistisse em aparecer com tanta frequência. Mesmo que pareça haver certa aprovação tácita de suas ações.

Maldito excêntrico! Maomao xingou o estrategista em silêncio. Ele era sempre um incômodo. Ela ouviu dizer que, desde que ele conseguiu se envenenar com a comida, seus subordinados o vigiavam de perto a cada refeição.

— E este homem é o filho do Grande Comandante — disse En’en.

— Então ele é seu irmão mais velho? — disse Yao, olhando para Maomao com curiosidade.

— Isso mesmo — disse Lahan.

— Isso está completamente errado — disse Maomao.

— Afinal, qual é a verdade?! — disse Yao. Maomao estava determinada a manter Yao, pelo menos, fora da teia de Lahan. Mas a outra continuou: — Então você sempre teve alguém dentro da organização. — Ela estava enganada, mas não da forma que Maomao temia. E quem poderia culpá-la, ao descobrir que um conhecido de Maomao era o líder por trás de tudo?

Foi Lahan quem interveio.

— Isso está errado. Não temos utilidade para alguém que não consegue resolver um enigma tão simples quanto aquele, mesmo que seja meu parente. Afinal, se enviássemos alguém sem cérebro funcional para essa situação, só tornaríamos tudo mais perigoso para todos. — Ele estreitou seus olhos já naturalmente felinos por trás dos grandes óculos redondos.

Maomao sabia que ele não estava simplesmente a defendendo; era o que ele realmente pensava. Este era o homem que havia traído a própria família e os expulsado de casa. Este era Lahan.

Havia um arqueamento leve nos lábios de En’en; Maomao achou que era um sorriso, mas, se fosse, era claramente sarcástico. Talvez ela tivesse ouvido rumores sobre Lahan, sobre que tipo de pessoa ele era. Ela certamente parecia mais experiente do que Yao, que ainda inclinava a cabeça em confusão.

Talvez ela precise ser assim para ajudar sua senhora, que é mais protegida...

Então ela era a pessoa certa para o trabalho.

— Mas por que ficar parado conversando quando podemos fazer isso enquanto comemos? Sentem-se, sentem-se, e vamos ter uma refeição agradável.

Maomao, ainda visivelmente irritada, sentou-se. Graças à sua posição social, a refeição provavelmente seria por conta de Lahan. Ela aproveitaria a oportunidade para pedir o prato mais caro do cardápio.

 

— Então é isso — disse Lahan, e, embora seu tom fosse leve, o conteúdo de sua explicação parecia bastante problemático. Com certeza justificava reservar uma sala VIP privada em um restaurante luxuoso. O que ele havia dito não podia sair daquelas quatro paredes.

Em linhas gerais, a história era mais ou menos assim: Lahan havia ajudado Aylin a entrar no palácio interno. Isso Maomao já sabia. Aylin alegava que um inimigo político estava tentando tomar o poder e que sua vida corria perigo. Seu pedido para que Li exportasse comida para Shaoh havia sido, de certa forma, uma tentativa de garantir sua sobrevivência: em tempos de fome, ter acesso a suprimentos de alimento poderia significar que ela se tornaria poderosa. Ela provavelmente esperava que isso fosse uma carta importante em seu jogo.

— Mas, no fim, nem isso abalou seus inimigos — disse Lahan. O povo podia ser assustador quando enfurecido, mas nenhuma arma era útil se você fosse assassinado antes de usá-la. Então, em vez disso, Aylin escolheu entrar no palácio interno de Li. Assim, externamente, Li não estava oferecendo asilo político a ela; na verdade, poderia até parecer que ela estava fortalecendo laços com uma nação vizinha.

Maomao fez uma expressão pensativa.

— Alguma pergunta? — perguntou Lahan.

— Não, só estava pensando que as mulheres parecem se sair excepcionalmente bem em Shaoh.

Uma situação como a de Aylin seria praticamente impensável em Li, simplesmente porque, fora do palácio interno, uma mulher não poderia aspirar a subir mais na hierarquia do que um homem. Mesmo servir como dama da corte era, na maioria das vezes, algo feito para se tornar uma noiva mais atraente. As mulheres podiam ser ferramentas importantes em casamentos políticos, é verdade, mas raramente tinham a influência que Aylin parecia ter.

— O quê, você não sabia disso? — disse Yao, rindo, satisfeita por saber algo que Maomao não sabia pela primeira vez. Ela estava claramente ansiosa para explicar. Maomao começava a achar certo charme na personalidade dela. — O país de Shaoh é sustentado por dois pilares — disse Yao. — Um é o rei, e o outro é a sacerdotisa.

Maomao já tinha ouvido falar um pouco sobre a sacerdotisa de Shaoh. Suas previsões podiam influenciar a política do país, e era disso que consistia a fé, às vezes chamada de “culto das sacerdotisas”.

— Isso mesmo. Você sabe bastante — disse Lahan. Yao e En’en eram ambas jovens bonitas, e ele certamente gostava de conversar com elas.

— Tradicionalmente, o rei tem a palavra final em assuntos políticos, porque a sacerdotisa sempre foi uma jovem, mais como uma imagem ou símbolo. Mas nos últimos anos isso mudou — disse Yao. No passado, as sacerdotisas raramente serviam por mais de alguns anos, talvez uma década, no máximo, pois, por definição, apenas garotas que ainda não tinham menstruado podiam ocupar o cargo de sacerdotisa. — Mas a sacerdotisa atual já está na casa dos quarenta, mais velha que o rei, o que significa que ela pode se intrometer em coisas que antes não ousaria. Na verdade, isso aumentou a influência política das mulheres em todo Shaoh.

— Entendo — disse Maomao. Ela já conhecia partes dessa história, mas aquilo colocava tudo sob uma nova perspectiva.

Quarenta anos e ainda não teve a primeira menstruação? Isso definitivamente chamou a atenção de Maomao. Era muito incomum, mas não impossível; podia ser causado por vários fatores. Maomao não sabia como a sacerdotisa se sentia em relação a isso, mas, quanto a ela, estava profundamente interessada.

— Isso já aconteceu antes? — perguntou ela.

— A resposta para essa pergunta está diretamente ligada ao motivo de estarmos aqui, então vou continuar a partir daí — disse Lahan, mastigando uma fatia fina de orelha de porco. — Já houve casos no passado. No entanto, quando sua “visita” não ocorre, uma nova sacerdotisa sempre é escolhida depois que a atual completa vinte anos.

Isso fazia sentido tanto politicamente quanto simbolicamente.

— Então como a sacerdotisa atual conseguiu permanecer no cargo por tanto tempo? — perguntou Maomao.

— Ela é especial.

Lahan tirou um pedaço de papel de dentro das bordas do seu manto. Parecia uma pintura clássica de uma mulher bonita, exceto que o cabelo parecia apenas esboçado. Lembrava o retrato que o artista havia feito da mulher de cabelos brancos e olhos vermelhos.

— A sacerdotisa atual é albina. Existem várias condições para que uma criança seja escolhida como sacerdotisa, mas as candidatas mais reverenciadas são as crianças “pálidas”.

Uma albina: rara até mesmo entre sacerdotisas. Tão venerada que podia manter sua posição apesar de todos os precedentes. Maomao não disse nada, mas finalmente conectou os pontos.

Você quer saber a verdade sobre a mulher pálida?

Ela pensou na pintura da bela mulher pálida que o artista encontrou no oeste. Poderia ser essa sacerdotisa? A idade batia perfeitamente.

Dizia-se que pessoas albinas não possuíam o que normalmente dava cor à pele. Às vezes, crianças “pálidas” nasciam por puro acaso, mas algumas linhagens tinham maior tendência a produzi-las. Ainda assim, eram tão raras em Shaoh quanto em Li.

— A sacerdotisa está atualmente indisposta por causa de uma doença — disse Lahan. — Ela veio ao nosso país para tratamento médico, mas nenhum homem, nem mesmo um eunuco, pode tocá-la.

— Daí o motivo das damas da corte servirem como assistentes médicas.

— Exatamente. Vindo de tão longe, há uma longa viagem envolvida, sem falar no risco de causar um incidente internacional se algo der errado. Precisávamos de pessoas que soubessem improvisar.

Isso explicava por que o teste tinha sido tão incomum.

— E se nenhuma de nós tivesse passado no teste? — perguntou En’en.

— Então teríamos que pedir a outra pessoa para ir. Um último recurso, claro.

Maomao pensava em quem poderiam ter enviado quando se lembrou de uma certa pessoa bonita que ficava muito bem com roupas masculinas. Com exceção de sua origem, Suirei era a candidata mais adequada em todos os aspectos. Provavelmente ela era considerada o último recurso porque, no fim das contas, ainda era uma prisioneira.

— Se me permite dizer, a concubina Aylin parecia bastante preocupada com a sacerdotisa e sua doença. Isso seria porque a sacerdotisa funciona como um contrapeso aos inimigos políticos dela? — disse En’en.

— Você entendeu a ideia geral — respondeu Lahan. Bem, era uma resposta ambígua. Era verdade que não havia nada contraditório no que Lahan dizia, mas ainda assim algo incomodava Maomao. As mentiras mais eficazes eram construídas sobre um núcleo de verdade. Ela suspeitava que, embora Lahan não estivesse mentindo, também não estava contando tudo.

Devo insistir no assunto? Maomao refletiu. Mas não, se não tomasse cuidado, En’en ou até mesmo Yao poderiam perceber. Em vez disso, decidiu permanecer em silêncio por enquanto.


Kessel: Muito interessante saber mais sobre como Shaoh funciona! Vocês gostaram também dessa ideia de um rei e uma sacerdotisa religiosa no comando do país? Bom, mesmo que não tenham gostado, se pelo menos se interessaram... tenho uma sugestão para vocês, hehe! Que tal dar uma chance para Raven of the Inner Palace? É uma light novel que também se passa na China imperial, e no palácio interno, tal qual Diários de uma Apotecária! E bem, ao lerem, entenderão melhor o que essa dinâmica de poder de Shaoh tem haver com Raven!

Caso queiram dar uma oportunidade, fica aqui o link: Raven of the Inner Palace


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