Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 6: Estrategista Abatido!

Maomao suspirou enquanto lavava roupas sob o sol escaldante. Aquilo era realmente um enorme incômodo. Não a lavagem em si, não. A situação em que ela tinha se metido desde que Aylin lhes deu aquele enigma e elas o resolveram. Durante toda a manhã, Yao e En’en lançavam olhares fulminantes em sua direção, garantindo que ela não as entregasse.

Então eu também estou nisso, hein...

Isso explicava por que En’en estava bem ao seu lado, com o balde encostado ao de Maomao. Ela trabalhava diligentemente em algumas ataduras e, como tinha se antecipado e preparado um pouco de polpa de saboneteira, os curativos ficavam bem limpos.

Depois de lavadas, as ataduras seriam fervidas. O sangue podia conter toxinas, e entrar em contato com o sangue de outra pessoa ou ingeri-lo podia espalhar infecções. Além disso, havia também as doenças sexualmente transmissíveis, cujos estragos Maomao conhecia bem demais.

Yao tinha saído com os oficiais médicos; eles iam ensiná-la a comprar medicamentos.

Eu queria ter ido nessa viagem, pensou Maomao, mas ela tinha sido deixada para trás, junto com En’en, que achava que Maomao não devia ficar sozinha. Era terrivelmente entediante. Tão entediante que, pouco depois, ela se pegou querendo descontar isso na companheira.

— Achei que lavar roupa fosse trabalho de servas — disse ela.

— Eu nunca disse isso — respondeu En’en, e era verdade, quem dizia isso eram as damas da corte agora dispensadas. Maomao se perguntou como elas estavam se virando ultimamente. Como nem Yao nem En’en pareciam particularmente abaladas com a partida delas, parecia que não eram exatamente velhas amigas, mas sim bajuladoras que tentavam se aproximar de Yao ao descobrirem sua origem familiar. Infelizmente para elas, Yao não era do tipo que se arriscaria por oportunistas.

— Eu queria ter ido fazer compras — resmungou Maomao.

— Eu também — disse En’en. — Na verdade, podiam ter levado só você, por mim tudo bem. — Ou seja, ela só queria estar com Yao. No fim, nenhuma das duas estava exatamente satisfeita, então Maomao decidiu parar de reclamar.

Elas estavam torcendo as ataduras lavadas e colocando-as em um balde quando várias pessoas correram para dentro do escritório médico. Maomao estreitou os olhos, tentando ver o que estava acontecendo, e percebeu que carregavam alguém em uma maca.

— Um ferido? — perguntou Maomao, enquanto ela e En’en voltavam para o consultório com os baldes. Como os médicos de verdade estavam fora fazendo compras, o aprendiz era o único responsável pelo lugar, então acharam melhor verificar o que estava acontecendo.

— Ah! É... — O aprendiz estava em pânico, sem saber o que fazer. Dada a proximidade com o acampamento militar, homens feridos não eram incomuns ali, e até mesmo o aprendiz já deveria estar acostumado com isso. Quando Maomao conseguiu se espremer entre as pessoas e viu quem estava na maca, porém, não conseguiu conter sua repulsa. — Ugh!

Quem mais poderia ser senão o excêntrico de monóculo, deitado na maca, contorcendo-se de dor.

— Disseram que ele foi envenenado — informou o aprendiz, com o rosto pálido.

— Inacreditável... — Relutante, Maomao examinou o estrategista excêntrico. Ele estava pálido e tremendo, segurando o estômago. O que estava tudo bem, até que...

— E-eu não consigo segurar...

Diante disso, como era de se esperar, os carregadores da maca empalideceram, levantaram-no rapidamente e correram para o banheiro. Vamos poupar detalhes de qual extremidade “aquilo” saiu.

Isso se repetiu em ondas durante a hora seguinte, até que o estado do estrategista finalmente se estabilizou. Expelir tanto líquido o deixou desidratado, então Maomao e os outros lhe deram água com sal e açúcar misturados, para facilitar a absorção. Para constar, foi o aprendiz que administrou a bebida; Maomao apenas observou. Ela sabia que seria ainda mais fácil para ele beber se misturassem um pouco de suco, mas não se sentia obrigada a ir tão longe. Pelo menos ele conseguiu ingerir a água. Quando se tratava de vômito e diarreia, manter-se hidratado era essencial.

Quando tudo se acalmou um pouco, Maomao pegou uma panela, pretendendo ferver as ataduras limpas, mas foi interrompida quando Lahan entrou correndo.

— Recebi a notícia de que meu honrado pai desmaiou! — disse ele.

Maomao limitou-se a apontar para a sala onde o excêntrico dormia. A multidão de subordinados havia diminuído para apenas um, deixado para vigiá-lo, e o aprendiz tinha saído para chamar os médicos de volta. Maomao não culpava o rapaz por ficar abalado, mas suspeitava que não era uma boa ideia deixar um consultório médico tão importante sob a supervisão de duas damas da corte.

En’en lançou um olhar curioso para Maomao enquanto despejava água na panela.

— Você o conhece?

— Infelizmente.

— Parece que você também tem alguma ligação com o Grande Comandante Kan. Posso perguntar…

— Nenhuma relação. — Maomao começou a preparar o fogo de forma deliberada.

— Se você não quiser falar sobre isso, tudo bem — disse En’en, mas havia algo em sua voz. Ela estava perguntando… mas provavelmente já tinha investigado por conta própria.

É tudo culpa daquele velho maldito, pensou Maomao. Seria muito mais fácil fingir ignorância se ele não estivesse sempre rondando o local de trabalho delas.

Lahan voltou da enfermaria quando as ataduras já ferviam bem.

— Não vejo meu tio-avô — disse ele.

— Ele saiu para fazer compras hoje. Provavelmente não volta por mais algumas horas. E acho que os outros médicos estão em outro consultório médico.

— Hum...

Por mais excêntrico que fosse, o estrategista ainda era uma pessoa bastante importante, e talvez fosse melhor manter sua indisposição em segredo. Ainda assim, apesar do estado dele, provavelmente o trouxeram ali na esperança de chamar o velho de Maomao, Luomen.

— Disseram que ele foi envenenado — comentou En’en, enquanto Lahan cruzava os braços. Maomao percebeu como era incomum ver En’en tomando iniciativa assim.

— Sim, é isso mesmo — disse Lahan. — Mas meu honrado pai não é qualquer um. Quem conseguiria envenená-lo?

— Certamente há mais de algumas pessoas com rancor dele — disse Maomao, em tom relativamente educado. Ela poderia ter falado com menos formalidade com Lahan, mas com En’en ali, decidiu medir as palavras. Afinal, alguém que subiu tão alto quanto o estrategista, e em parte derrubando o próprio pai, certamente acumulava tantos ressentimentos quanto estrelas no céu.

— Meu pai é um excelente juiz de caráter, se nada mais. Não acredito que ele manteria por perto alguém capaz de envenená-lo.

— Eu concordo com você. Se tirar dele a capacidade de julgar pessoas, sobra só um velho começando a cheirar a velhice— disse Maomao.

— Que rude. Ele sabe jogar Go e Shogi, sabia?

— Vocês dois são terríveis — disse En’en calmamente, mexendo o conteúdo da panela com hashis. Ela era bonita o bastante para que Lahan claramente achasse que valia a pena conversar com ela. Pelo brilho dos óculos dele, quase dava para vê-lo transformando o corpo dela em uma série de números. Seu olhar estava ficando perigosamente pervertido, então Maomao lhe deu um belo tapa na cabeça.

[Kessel: kkkkkkkkkk. Toma!]

— Peço desculpas se a pergunta soar inadequada vinda de alguém de fora, mas, para referência futura, talvez pudesse nos dizer com o que ele foi envenenado? — disse En’en.

— Boa pergunta — respondeu Maomao. — Todos estão dizendo que ele foi envenenado, mas será que isso não é simplesmente por causa de comida estragada?  Será que ele comeu alguma coisa que encontrou no chão?

— Tenho um guarda vigiando-o o tempo todo para garantir que isso não aconteça — disse Lahan, orgulhoso.

É mesmo?

— É... Com licença...

Eles se viraram ao ouvir a voz e encontraram o soldado que havia sido designado para vigiar o estrategista excêntrico. Ele era bem magro e tinha um ar retraído.

Rikuson também era um rapaz bonito, lembrou-se Maomao. Ajudante de campo do estrategista era um cargo militar, mas sem dúvida envolvia muita papelada. Pensando bem, ela percebeu que mal tinha visto Rikuson recentemente. Será que ele tinha sido afastado do estrategista?

— Anotei o que pediram — disse o soldado. Ele lhes entregou um pedaço de papel gasto, com alguns caracteres borrados. Ali estava descrito o que o excêntrico tinha feito e comido nos últimos dias.

— Vejamos. Imediatamente antes do incidente ele estava... Cof cof. Bem, sinto pena do Príncipe da Lua. Parece que meu honrado pai estava importunando-o novamente — disse Lahan.

Em outras palavras, pouco antes de passar mal, o excêntrico estava incomodando Jinshi. Às vezes parecia que aquele sujeito nem tinha trabalho, exceto quando parecia que tinha. Ocasionalmente, ele assinava algum documento importante ou tomava uma decisão rápida sobre pessoal. Ele poderia ser útil em uma guerra, mas em tempos de paz era menos útil que uma lanterna ao meio-dia. E além de inútil, ainda incomodava os outros.

— Aqui diz que ele comeu um bolo lunar e bebeu um pouco de suco, e que ofereceu o bolo ao Príncipe da Lua. Também diz que ficou irritado por não lhe terem oferecido chá.

— Isso mesmo. O príncipe estava tão belo como sempre, se me permite dizer — respondeu o assistente do estrategista, com os olhos brilhando. Mais uma vítima de Jinshi.

De qualquer forma, alguém poderia tentar envenenar Jinshi, mas Maomao não acreditava que Jinshi envenenaria outra pessoa.

— Maomao, de quanto veneno estamos falando aqui? — perguntou Lahan.

— Não há uma resposta única. Depende do veneno. Além disso, com alguns venenos a vítima pode parecer melhorar, só para os efeitos voltarem depois e causarem a morte. — Ela lançou um olhar para a enfermaria. O rosto do assistente estava pálido. — Embora eu ache que ele vai ficar bem. — ela acrescentou.

— Seu jeito de lidar com os pacientes deixa a desejar — resmungou Lahan. Ele colocou o papel sobre a mesa. Antes de visitar Jinshi, o estrategista aparentemente estava relaxando em um pavilhão ao ar livre em um dos jardins do palácio. Com a brisa fresca e o rio ao lado, era um de seus lugares favoritos. Ele tinha levado um lanche, um pão cozido no vapor, que estava comendo.

— Parasita — murmurou Maomao.

— Talvez seja um bom momento para não dizer tudo o que pensamos — repreendeu En’en, mas, no fundo, Maomao tinha certeza de que ela concordava. O excêntrico havia chegado trinta minutos atrasado ao trabalho naquela manhã, privilégio típico de chefes. No café da manhã, ele tinha comido mingau com batata-doce e um bolo lunar.

— Só coisas doces — comentou En’en.

— Ele vai desenvolver diabetes — disse Maomao.

— Meu honrado tio-avô disse a mesma coisa para ele — respondeu Lahan. — Aliás, Maomao, já tem alguma ideia? — Ele a observava atentamente. Normalmente ele recorreria ao pai dela, mas como ele não estava ali, Lahan não tinha escolha a não ser Maomao. Sem dúvida, o envenenamento de um oficial militar era um caso que queriam resolver o mais rápido possível.

— Se ainda houver algo da comida que ele estava comendo, talvez eu consiga descobrir alguma coisa — disse ela.

— Receio que não. Ele comeu tudo.

— É... — o assistente falou timidamente novamente. — Ainda restam alguns goles do suco que ele estava bebendo...

— Pode trazer aqui? Agora mesmo? — perguntou Maomao.

— Sim, senhora.

O assistente saiu da sala, mas logo voltou; demorou exatamente o mesmo tempo que as ataduras fervidas levaram para secar.

— Aqui está — disse ele. Entregou um recipiente de vidro com uma tampa de madeira, cerca de um terço cheio de um líquido pálido. Pela coloração, parecia suco de uva diluído em água para facilitar o consumo.

— É bem grande — comentou En’en, olhando o recipiente com interesse. Não devia ser fácil carregá-lo o tempo todo, mas como o excêntrico sempre bebia suco em vez de água ou chá, provavelmente precisava disso.

— Não acredito que esteja envenenado — disse o assistente.

— Por que acha isso? — perguntou Maomao.

— Porque eu também bebi um pouco. Além disso, seria extremamente difícil colocar veneno em um recipiente que nunca sai do lado dele.

— Então acho que podemos ignorar isso — disse Lahan, pegando a garrafa e colocando-a sobre a mesa.

— É bonita, não é? — disse En’en.

— Não tão bonita quanto você — respondeu Lahan com naturalidade. Que sujeito ridículo. Ele mesmo não era grande coisa, mas nunca perdia a chance de dar em cima de uma garota bonita.

En’en limitou-se a dizer — Obrigada — e sorriu com cortesia. Totalmente profissional. Era óbvio que ela não tinha o menor interesse naquele homem de cabelo despenteado.

Enquanto isso, Maomao examinava a garrafa de vidro, observando o líquido em seu interior.

— Hum? — ela inclinou a cabeça. — Isto aqui é realmente uma peça impressionante.

— Concordo, senhorita. Acredito que o Mestre Rikuson tenha dado isso a ele. Ele gosta bastante dela.

— Falando no Mestre Rikuson, não o vejo ultimamente. O que aconteceu com ele? — a oportunidade perfeita para fazer a pergunta que estava em sua mente.

— Ah. Ele foi para a capital do oeste. Esta garrafa foi seu presente de despedida ao estrategista. Eu sou seu sucessor, e devo dizer que ele deixou um padrão difícil de alcançar. — O assistente abaixou a cabeça.

— Você não sabia? — disse Lahan.

— Não sabia mesmo. — Ela e Rikuson tinham estado na capital do oeste recentemente. E agora ele tinha voltado?

— Com o Mestre Gyokuen vindo para a capital, ele solicitou que alguém familiarizado com os assuntos das regiões centrais fosse enviado para o oeste em seu lugar. O Mestre Rikuson foi atender a esse pedido — explicou o assistente.

Gyokuen: o pai da Imperatriz Gyokuyou. Como pai da Imperatriz, era esperado que ele fosse ao centro do país. Maomao achou que parecia um pouco repentino, mas tinha ouvido que o filho da Imperatriz Gyokuyou, ou seja, o neto de Gyokuen e, se tudo permanecesse como estava, o futuro imperador, seria apresentado formalmente em breve.

A apresentação do Príncipe Herdeiro seria um evento grandioso, com convidados importantes de outras nações, então Gyokuen não poderia deixar de comparecer, mesmo sendo a pessoa mais poderosa da capital do oeste e mesmo que fosse uma longa viagem.

— Ele insistiu, e receio que não estávamos em posição de recusar — disse Lahan. — E ele era tão útil... — Lahan conhecia bem Rikuson e parecia claramente abatido com sua partida. O antigo assistente do estrategista conseguia lembrar qualquer rosto que visse uma única vez, o que o tornava um excelente complemento para o excêntrico, que mal conseguia distinguir um rosto de outro.

En’en provavelmente não acompanhava nem metade da conversa, mas ainda assim escutava sem muito interesse. Ela parecia ter potencial para ser uma excelente dama de companhia, pois sabia se manter discreta nos momentos certos, embora também fosse intimidador não saber o quanto ela realmente entendia da conversa.

— Certo, voltando ao assunto. Sobre quem envenenou o estrategista... — disse Lahan.

— Ah, eu já descobri isso — disse Maomao casualmente, ainda com os olhos fixos na garrafa.

— O quê?! — exclamaram os outros três ao mesmo tempo.

— Então, quem diabos foi? — exigiu Lahan, ajustando os óculos no rosto.

— O próprio excêntrico — respondeu Maomao. Ela bateu levemente na garrafa com a ponta do dedo; ela emitiu um som delicado, e o suco ondulou.

— Você enlouqueceu. Posso afirmar com certeza que meu honrado pai jamais tentaria suicídio. Mesmo que leve outros a isso.

— Que horror — comentou En’en.

— Ainda assim, foi ele quem colocou, bem aqui, neste suco — disse Maomao.

— E-espera um pouco. Não parecia haver nada dentro. Ele colocou alguma coisa sem que eu visse? — perguntou o assistente.

— Colocou, sim. E bem na frente dos seus olhos. — Maomao apontou para a boca da garrafa, vedada por uma tampa de madeira. — Pergunta: sei que ele sempre carrega esse suco, mas ele costuma ter um copo também?

— Não, ele bebe direto da garrafa.

— E você fez o mesmo?

— Claro que não! Quando o acompanhei de volta à mansão ontem à noite, compramos o suco no caminho. Foi quando ele me ofereceu um pouco. — Era comum comprar bebidas usando recipientes próprios. O estrategista provavelmente tinha lavado uma garrafa vazia e a enchido com suco.

— Então vocês compraram isso ontem, certo?

— Sim, isso mesmo.

Agora ela tinha certeza: o estrategista tinha se envenenado.

— Então? Que tipo de veneno ele usou? Se isso é o que você chama de piada, então deixe seu querido irmão mais velho te avisar que você foi longe demais — disse Lahan.

— Quem é meu “irmão mais velho”? — retrucou Maomao, esquecendo por um momento da formalidade. Ela lançou um olhar para En’en, que tinha uma expressão de eu sabia. Realmente ela devia ter investigado sobre ela. Maomao pigarreou e recuperou a compostura. — É o mesmo veneno que todos carregamos conosco. Aqui — disse, apontando para a boca. Mais especificamente, para o que havia dentro. — Saliva.

— Saliva?

Se o estrategista não estivesse bebendo de um copo, então estava bebendo diretamente da garrafa, e parte de sua saliva acabava se misturando de volta ao suco.

— E o que poderia haver de venenoso na saliva? — perguntou Lahan.

— Sabe quando um cachorro morde sua mão e, se você não tratar, ela incha? É a mesma coisa. A saliva de cães e humanos não é idêntica, mas ambas podem ser tóxicas. — E se o “veneno” tivesse nutrientes para se alimentar, ele se multiplicaria. — Se ele ficou relaxando em um pavilhão aberto numa noite quente, carregando esse suco para todo lado sem resfriá-lo, então o que está ali dentro vai se multiplicar até se tornar prejudicial.

A garrafa de vidro parecia ser especialmente boa para reter o calor. Maomao já havia usado um aquário de peixinhos dourados para concentrar a luz do sol, e ela suspeitava que essa garrafa pudesse fazer algo muito semelhante.

[Noelle: Lembram da herança do ferreiro que ela desvendou lá nos primeiros livros e tinha o aquário? Ela está se lembrando disso!]

— As pessoas sabem que o peixe apodrece se for deixado ao ar livre, mas, por alguma razão, nunca imaginam que uma bebida possa estragar em apenas meio dia. Mas isso acontece. E aí você acaba tendo… — ela gesticulou na direção do estrategista indisposto — ...muitos problemas.

— Problemas, sim... — Lahan cruzou os braços, pensando em como explicaria aquilo.

— Não seria mais fácil dizer que ele comeu algo que encontrou por aí? Parece mais crível — sugeriu o assistente, relutante, já que isso não ajudaria na reputação do estrategista.

— Não. Quando descobrirem que o conteúdo da garrafa estava “envenenado”, a situação se explicará sozinha. Maomao, prove o suco para verificar o veneno. Sei que isso é sua especialidade — disse Lahan.

— Nem pensar.

— Por quê não? Normalmente você mal consegue se conter para não provar um veneno.

— Porque não vou beber algo em que aquele velho colocou a boca. Você quer experimentar?

Lahan ficou em silêncio por um momento, mas sua expressão era de completa compreensão. Por fim, ele disse:

— Você não poderia ser um pouco mais gentil com ele? Ele ainda está de luto, você sabe.

— Não quero alimentar o ego dele — respondeu Maomao, secamente.

Todo aquele incidente tinha sido um enorme incômodo.

[Kessel: Poxa… </3 - toda vez que fico triste com a forma em que a Maomao trata o pai dela.]

 

Pouco depois, os oficiais médicos retornaram.

— Oh céus, sério? — disse o velho de Maomao, exasperado ao ouvir a história. En’en, por sua vez, parecia desanimada; Yao estava preenchendo a papelada das compras e ainda demoraria a voltar.

O estrategista excêntrico parecia basicamente bem, então Maomao o mandou para casa. Mais especificamente, mandou levá-lo embora enquanto ainda dormia, para evitar mais dores de cabeça caso acordasse.

Pelo menos os médicos tinham voltado, mas agora ela estava encarregada de separar e organizar os medicamentos que haviam comprado. Maomao gostava desse trabalho, mas depois de tudo o que aconteceu, estava exausta.

— Que dia cansativo — disse En’en.

— É — respondeu Maomao. En’en parecia mais disposta a conversar com ela naquele dia, talvez por causa da ausência de Yao. Ela era naturalmente reservada e pouco expressiva, então nunca tinha ido diretamente atrás de Maomao, que agora percebia que En’en não necessariamente desgostava dela. Provavelmente só falava pouco quando Yao estava por perto, pelo mesmo motivo que Maomao também falava pouco.

Porque conversar dá trabalho.

Talvez fossem bem parecidas, na verdade.

— Acho que devo me desculpar por algumas coisas até agora — disse En’en, enquanto organizava remédios em uma gaveta.

— Como assim? — perguntou Maomao.

— Pela forma como tenho agido. Sei que não fui muito gentil com você. Quanto à Lady Yao... Bem, só posso pedir que seja compreensiva com ela. Ela tinha tanta certeza de que entraria nesse trabalho como a melhor da turma, mas aqui está você.

— A melhor da turma?

— Você não sabia? A pessoa que tirar a melhor nota receberá uma faixa de cabelo de cor diferente.

— Ah. — Maomao lembrou que apenas a sua faixa era mais escura. Não, eu não sabia...

Ela tinha deixado a escolha da roupa totalmente nas mãos de Gaoshun, e quando ele lhe trouxe uma muda de roupa, a madame não lhe deu espaço para explicações. Agora se sentia um pouco culpada, mas também surpresa. Achava que tinha passado na prova por um triz.

— Deixando de lado a parte de conhecimentos gerais, na parte especializada, acertar metade das questões já é considerado bom — disse En’en.

Conhecimentos gerais? Seriam história e poesia, aquelas matérias que Maomao estudou a contragosto? Ela tinha se esforçado tanto nelas!

— A Lady Yao jurava que acertou todas as questões gerais, então deve ter perdido para você na parte especializada. Eu também estava confiante na minha nota, então admito que, no início, pensei que você tivesse sido aceita por conexões familiares.

— Era disso que se tratava? — disse Maomao. Seu único arrependimento era que, se realmente tivesse ido tão bem, poderia ter estudado menos. Não que isso mudasse muito; desde que foi vendida pela velha, não tinha tido escolha. — Sou apotecária por vocação, sabe...

— Sim, eu sei. Você provou isso hoje. Mas não acho que isso vá aliviar a frustração da Lady Yao.

Maomao conseguia entender e não tinha necessariamente nenhum problema com pessoas assim. Ela certamente preferia isso a Yao tentar bajulá-la. O problema era que esse tipo de comportamento era facilmente mal interpretado pelos outros. Como Yao vinha da melhor família entre as novas damas da corte, as outras se sentiam obrigadas a segui-la.

— Ela não é uma pessoa ruim — disse En’en. — Espero que não guarde ressentimento. — A forma como En’en lidava com a situação era surpreendentemente madura. Maomao não tinha perguntado sua idade, mas suspeitava que fossem da mesma idade. Então En’en acrescentou: — A Lady Yao tem apenas quinze anos. Ainda precisa amadurecer um pouco.

— Você disse quinze? — Isso a tornava quatro anos mais nova que Maomao, e ainda assim seu corpo era tão desenvolvido! — Ela é bem... desenvolvida para a idade. (Maomao não especificou em que sentido)

— Sim, eu me esforcei bastante para ajudá-la a crescer — respondeu En’en, com um tom estranhamente orgulhoso.

Se ela tem só quinze anos, então não posso culpá-la tanto, pensou Maomao, embora suspeitasse que, se dissesse em voz alta que Yao ainda era um pouco imatura, En’en ficaria irritada.

Ainda havia uma questão. En’en era claramente a acompanhante de Yao, mas também era bastante inteligente por si só, prova disso era que sabia um pouco da língua do oeste , algo que nem Yao dominava.

— Posso perguntar uma coisa? — disse Maomao.

— Sim, o quê?

— Se eu não estivesse aqui, a Lady Yao ainda não teria sido a melhor da turma, certo? Teria sido você.

Um sorriso forçado surgiu no rosto de En’en. Enquanto guardava outro remédio na gaveta, ela disse:

— Isso jamais aconteceria.

Jamais, é?

Colar para aumentar a própria nota já era um problema, mas errar de propósito questões que sabia responder? Isso nem era exatamente trapaça.

En’en era educada e cautelosa, mas Maomao percebeu que precisava ficar atenta perto dela. Ela era uma jovem bastante astuta.

[Noelle: Como um capítulo complementa o outro hein? E o Kessel tinha razão, a indireta de ter parentes ajudando não era para Maomao e Luomen, mas para Yao, que ficou irritada de não ser a melhor da turma. Nossa apotecária com a faixa diferente foi a melhor da turma, nós, Gaoshun e Jinshi estamos orgulhosos dela hein? <3]


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