Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 5: Biscoitos da Sorte

Assim que Maomao voltou ao dormitório, ela tirou os doces e abriu o pano, colocando os biscoitos sobre ele. Eram sete ao todo, todos com papéis de tamanho parecido dentro deles.

Que diabos é isso?

Os caracteres pareciam uma mistura de cobras com minhocas. Eram letras do oeste, assim como as que o seu pai costumava usar; ela achava que se lembrava de que aquilo era chamado de cursiva, uma forma das letras adaptada para escrita rápida. Os papéis estavam cobertos por pequenos agrupamentos de duas ou três letras, mas não eram palavras; ao contrário da língua de Li, no oeste era preciso juntar várias letras ou elas não significavam nada. Então ela não conseguia “ler” as letras isoladas. Aquilo deveria significar alguma coisa?

Ela está nos testando, pensou Maomao. Aquela concubina realmente tinha suas excentricidades. Afinal, ela teve coragem suficiente para entrar no palácio interno quase que completamente sozinha.

Perceber que estava sendo testada irritou Maomao. Mas, mais do que isso, despertou nela a vontade de resolver o enigma.

Ela olhou dos biscoitos para os papéis e de volta. Cada papel tinha duas ou três letras, e eles não tinham cantos bem definidos, mas bordas irregulares, algumas meio inclinadas. Talvez tivessem sido rasgados. O papel estava manchado com a gordura dos biscoitos, mas, graças à boa qualidade do material, não havia se desfeito.

Isso é elaborado demais para uma simples brincadeira. O que aquela mulher quer? Maomao examinou o papel, mas não encontrou nada.

Ela ainda estava quebrando a cabeça com aquilo quando alguém bateu à porta. Ela atendeu ainda com um dos papéis na mão e encontrou Yao e En’en ali. Elas moravam no mesmo dormitório, embora isso não fizesse muita diferença para Maomao, já que elas nunca falavam com ela.

— Posso ajudar? — perguntou Maomao educadamente.

Yao, porém, parecia furiosa.

— Eu sei que você recebeu alguns doces da concubina esta tarde. Entregue-os para mim.

Engraçado, Maomao nem era especialmente apegada a doces, mas, no instante em que ouviu o tom exigente na voz de Yao, decidiu que não iria entregar os biscoitos. Para ser justa, dava para perceber que Yao não os queria como lanche. Então resolveu provocá-la um pouco.

— Sinto muito, mas eu os comi no jantar. Biscoitos do oeste são meio parecidos com papéis, não acha? Será que têm germe dentro? — Ela tentou falar como se ainda sentisse a textura estranha na boca.

O sangue sumiu do rosto de Yao, e ela praticamente avançou sobre Maomao. — Cuspa! Cuspa agora mesmo! — Ela começou a sacudi-la. Ah. Os biscoitos dela também deviam ter papel dentro. — Onde estão os outros?! Você não pode ter comido todos sem perceber!

— Lady Yao — disse En’en, finalmente interrompendo o sacolejo violento. Ela parecia tão impassível como sempre. — Acho que vejo um leve sorriso no rosto de Maomao, como se ela achasse que fez você de boba. Acredito que está sendo provocada.

Então En’en lembrava o nome de Maomao! E ainda conseguia ler suas expressões.

— Está me provocando?! É verdade?!

Agora não tem mais como esconder, pensou Maomao, ajeitando a gola e encarando Yao.

— Admito que estava me divertindo um pouco com você, mas devo apontar que você foi rude comigo primeiro. Não sei o que você tem contra mim, mas invadir o quarto de alguém e tentar pegar suas coisas é roubo, nada mais.

O que Maomao disse era perfeitamente correto e verdadeiro; ninguém poderia contestar. O sangue voltou ao rosto de Yao, deixando-a tão vermelha que parecia que vapor sairia dela como de uma chaleira. Ela respirou fundo, soltou o ar e olhou diretamente para Maomao.

— Havia algo incomum nos biscoitos que você recebeu? Se havia, quero que me entregue. Eu pago o suficiente para você comprar outro lanche.

— O que você quer dizer com “algo incomum”?

— Qualquer coisa... diferente! Tipo, tinha algo estranho dentro deles?

A ideia de ganhar um dinheiro extra agradava Maomao, mas ela não conseguia deixar de lado o enigma dos papéis misteriosos. Ela não queria simplesmente entregar os biscoitos. Parecia que Yao e En’en tinham encontrado algo parecido nos biscoitos delas, mas Maomao duvidava que fossem contar tão facilmente.

Ela olhou para En’en. A jovem desempenhava perfeitamente o papel de atendente de Yao, mas, ao encarar Maomao, parecia muito mais equilibrada do que sua senhora. Talvez eu devesse falar com ela, pensou Maomao, tentando descobrir como dar continuidade à conversa.

— Se você está perguntando se havia algo dentro dos doces que recebi, isso implica que havia algo nos seus, certo? Se me contar, eu também compartilho o que sei.

Yao não disse nada, mas parecia claramente contrariada. En’en observava atentamente as reações da sua senhora. Maomao ergueu o pedaço de papel em sua mão.

— Mostre o que encontrou, e eu mostro o restante.

Cada pedaço de papel tinha letras diferentes escritas neles. Se quisessem decifrar o significado, precisariam de todos eles,  o que significava que Maomao não tinha nenhum problema em revelar apenas um.

— Onde estão? — disse Yao.

— Você mostra os seus, eu mostro os meus — respondeu Maomao.

No fim das contas, ela e Yao eram iguais. Tinham feito o mesmo exame e ambas passaram, então diferenças de status social não deveriam importar. Muitos ainda achariam que importavam, mas ali, naquele momento, estavam em pé de igualdade.

— Lady Yao — disse En’en.

— Está bem — respondeu Yao, depois de um tempo. Ela não teve escolha a não ser concordar. — Mas não vou ter essa conversa aqui no corredor.

— Claro. Então, no meu quarto — disse Maomao.

— Não, no meu quarto! — rebateu Yao.

Maomao não poderia se importar menos com o quarto em que conversariam, mas simplesmente ceder e deixar que ela fizesse o que quisesse teria dado a iniciativa a ela.

Foi En’en quem salvou a situação de se tornar um impasse.

— Que tal usarmos uma das salas de reunião? Posso reservar uma para nós.

Ela se referia às salas de reunião do dormitório, que podiam ser usadas para negócios  e trancadas para conversas mais privadas.

— Muito bem. Vou me preparar — disse Maomao. Ela colocou o restante dos biscoitos em um pano de transporte e saíram da sala.

 

En’en conseguiu reservar uma das salas de reunião imediatamente. O espaço era grande o suficiente para pelo menos dez pessoas, o que fazia parecer enorme com apenas três ali.

— Cada uma de nós mostra o que tem ao mesmo tempo — disse Yao.

— Eu sei, eu sei — respondeu Maomao. Elas estavam em lados opostos de uma longa mesa, com En’en sentado à cabeceira.

Elas abriram os panos ao mesmo tempo, revelando pilhas de biscoitos: sete, sete e seis. Uma delas tinha menos, e era Yao, que desviou o olhar, constrangida de Maomao.

— Eu... posso ter provado um.

— Ah — disse Maomao, notando que um dos papéis estava parcialmente rasgado, com as letras úmidas. Pelo menos Yao ainda tinha sete pedaços de papel. Assim como os de Maomao, cada um tinha algumas letras.

Já En’en tinha biscoitos, mas nenhum papel.

— Você ainda não tirou os seus? — perguntou Maomao, mas En’en balançou a cabeça de forma negativa.

— Nenhum dos meus tinha sequer um pedacinho — disse ela, mostrando os buracos nos biscoitos cilíndricos. Estava claro que não havia nada dentro.

Se ela estava dizendo a verdade, então tinham sete e sete pedaços de papel, quatorze no total. Será que conseguiriam entender alguma coisa com as letras escritas neles?

Talvez se a gente alinhar tudo da maneira certa, a gente consiga ver alguma coisa? Maomao refletiu. Yao parecia ter tido a mesma ideia, pois começou a alinhar os pedaços, testando diferentes combinações. Ela dobrou levemente os de Maomao para distinguir de quem era cada um. Mas, por mais que reorganizassem, tudo o que conseguiam fazer, incluindo Maomao e En’en, sem falar em Yao, era encarar as letras, confusas.

— Consegue entender o que diz, En’en? — perguntou Yao.

— Sinto muito. Só tenho um conhecimento básico de shaohnês. Consigo manter uma conversa simples, mas isso…

[Kessel: Lembrando que o país a oeste, de onde veio a concubina que lhes entregou os biscoitos, chama-se Shaoh.]

Então Maomao estava certa: En’en observava o pai dela escrevendo durante o exame das concubinas porque ela entendia um pouco da língua.

Yao se virou para Maomao, embora não estivesse muito contente com isso.

— E você?

— Não sou muito melhor, infelizmente. Se tivesse palavras completas, talvez entendesse, mas montar a partir de fragmentos? — Ela provavelmente tinha tantas chances quanto En’en de descobrir. Enquanto organizavam e reorganizavam os papéis, ela sentia que estava prestes a entender, mas nunca chegava lá. Se continuassem tentando combinações, ela sentia que acabariam descobrindo algo, mas isso levaria uma quantidade enorme de tempo.  Sem contar que, infelizmente, as letras de um dos papéis tinham sido borradas por marcas de dentes e saliva, tornando-se ilegíveis. Talvez arrependida, Yao parecia um pouco menos autoritária agora.

— Será que há mais alguma coisa aqui que possa servir de pista? — disse Maomao, olhando para os biscoitos. Todos tinham o mesmo formato. Bem, não exatamente idênticos, mas não dava para diferenciá-los a olho nu.

— E o sabor deles? — Maomao perguntou e, em seguida, cheirou um dos biscoitos com cautela. Todos tinham o mesmo cheiro e, ao provar alguns pedaços, percebeu que também tinham o mesmo gosto: deixavam a língua levemente formigando. Devia haver gengibre na receita.

Nesse ponto, já não havia como saber qual papel tinha vindo de qual biscoito.

— Você acha que é possível que simplesmente não tenha significado nenhum? — perguntou En’en.

— Sabe, eu me lembro de ouvir falar de um templo onde eles colocavam previsões dentro dos doces — disse Yao.

Previsões. Será que as letras nas tiras de papel indicavam boa ou má sorte? Não parecia ser o caso para Maomao. — Mas, se isso deveriam ser previsões, por que uma de nós recebeu biscoitos sem nada dentro? — disse Maomao.

As outras duas assentiram. A concubina não parecia estar fazendo uma escolha deliberada sobre quem receberia qual biscoito quando os distribuiu. Mas, se não eram apenas lanches, então o que…

— Será que... — disse Maomao. Ela olhou para o pano em que os biscoitos estavam embrulhados. O dela e o de Yao eram de cores sólidas, mas o de En’en tinha um padrão. Ela analisou o desenho: havia ângulos por toda parte; o tecido parecia ter sido tingido apenas depois que o padrão foi aplicado. Ela conseguiu ver algo, muito sutil… seriam pinceladas?

— Olhem isso — disse ela, abrindo o pano sobre a mesa. Ela olhou das tiras de papel para o padrão e de volta, então começou a alinhar os papéis com os ângulos do desenho. Não demorou muito até que tivesse preenchido todos os espaços perfeitamente. — Eu sabia.

As letras formavam duas linhas compostas por várias palavras cada. Uma mensagem.

— Hum... O que está escrito? — perguntou Yao, apertando os olhos. Claramente a incomodava ser a única que não conseguia ler as palavras.

— Eu vejo “pálida” e um ponto de interrogação — disse Maomao.

— E esta aqui significa “saber”, certo? E esta... “a verdade”? — acrescentou En’en.

Entre elas, tentaram decifrar o que podiam. Mesmo com o papel desbotado e ilegível em partes, juntando o restante do contexto, acharam que conseguiam entender.

— Isso diz... “mulher”?

— Parece que sim.

Elas juntaram as cabeças e, pouco a pouco, decifraram a mensagem, até lerem: Você quer saber a verdadeira identidade da mulher pálida?

Maomao sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Ah, qual é! Ela tinha tanta certeza de que aquilo já tinha acabado. Por que isso estava voltando para assombrá-la agora?

A mulher pálida: só podia ser aquela que chamavam de Dama Branca. Mas ela deveria estar presa, incapaz de fazer qualquer coisa. Será que Aylin sabia de algo sobre ela que não contou a Jinshi ou Basen? E por que escolher revelar isso para algumas damas da corte que trabalhavam como assistentes médicas?

— Quem ou o que é a mulher pálida? — perguntou Yao, inclinando a cabeça. Pelo visto, ela não sabia da Dama Branca nem de todo o alvoroço que ela causou entre o povo.

En’en apenas continuou observando a fileira de letras em silêncio. Quanto a Maomao, ela achava que aquilo devia ser relatado a Jinshi imediatamente, mas, quando se levantou, alguém segurou seu pulso. Era En’en.

— Aonde você pensa que vai? — perguntou ela.

— Aonde? Relatar isso, claro. Temos que fazer isso, não temos? — Maomao era uma pessoa cautelosa; ela não gostava de guardar segredos perigosos só para si. O que estava fazendo era perfeitamente racional.

— Acho que é o certo contar isso a alguém — disse Yao, pela primeira vez tomando o lado de Maomao.

Maomao presumiu que En’en cederia e seguiria a decisão de Yao, mas, em vez disso, ela disse:

— Que tipo de pessoa daria um enigma desses para aprendizes médicas que acabou de conhecer? — Ela olhou para Maomao; pela forma como perguntou, quase parecia que achava que Maomao conhecia Aylin.

Eu realmente não a conheço, protestou Maomao em pensamento. Ainda assim, ela sabia de uma coisa: Aylin era uma manipuladora habilidosa. Mesmo que fossem contar isso a alguém, ela provavelmente já teria preparado alguma forma de escapar. Ou será que...

— Você acha que isso também é algum tipo de teste? — disse En’en.

— Um teste? — perguntou Maomao.

Pensando bem, parecia plausível. As candidatas a assistente médica tinham sido avaliadas de forma mais rigorosa do que as outras damas da corte, e até mesmo aquelas que passavam podiam ser dispensadas a qualquer momento se fossem consideradas inadequadas. Sim, essa possibilidade certamente existia.

Mas, por outro lado...

Se isso fosse um teste, parecia ir muito além do que normalmente se esperaria de ajudantes do setor médico. Para começar, resolvê-lo exigia algum conhecimento da língua do oeste, e, claro, nunca foi garantido que as três jovens compartilhariam as informações de seus lanches entre si. Alguém estava procurando pessoas com capacidade de considerar vários lados de uma situação e se adaptar.

Quase como...

Quase como uma espiã.

Se Jinshi tivesse alguma participação nisso, então seria possível. Mas que ligação poderia haver? Porém, se fosse mais a fundo... 

Não. Não consigo entender.

Se fosse esse o caso, eles não precisariam relatar tudo sem pensar. Podiam tentar conversar com Aylin, improvisar. Sim, podiam, mas...

— Eu vou relatar — disse Maomao.

— Você acha que eu não consigo ouvir vocês duas conversando? E se for um teste?! — exigiu Yao.

Se fosse um teste, então ela falharia; era só isso. Maomao já tinha se qualificado como assistente médica. Não achava que tirariam seu trabalho por causa disso. Francamente, ela já estava com mais tarefas do que seu limite tolerável.

— Por favor, não se preocupem. Vocês duas podem falar com a concubina à vontade.

E eu vou estar preparando remédios no setor médico.

As outras duas jovens podiam passar no teste; isso já seria mais do que suficiente. Não havia como saber o que poderiam ser chamadas a fazer se passassem nessa prova adicional.

Não tenho interesse nisso, pensou Maomao. Ela estava perfeitamente satisfeita em ficar pelo setor médico, lavando roupas, fazendo chá ou qualquer outra tarefa simples que surgisse, aprendendo novas fórmulas com seu velho e com os outros oficiais médicos. Talvez, ocasionalmente, testando-as em algum soldado que parecesse resistente e passasse por ali. Era só isso que ela realmente queria. Uma felicidade modesta, mas suficiente para ela.

As outras duas, porém, estavam com expressões assustadoras. Elas seguravam Maomao com firmeza e a encaravam. Especialmente Yao.

— Não teríamos conseguido resolver isso sem nós três juntas. Se você for contar, ela vai presumir que concordamos.

Então era isso que ela queria dizer?

— Você está nisso com a gente! — disseram Yao e En’en em uníssono.

Tudo o que Maomao pôde fazer foi erguer levemente as mãos e sorrir de forma irônica.

[Kessel: E novamente a Maomao é ‘sequestrada’... hehe! Que capítulo interessante!!!]


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