Volume 7
Capítulo 12: A Criança de uma Terra Estrangeira
Kessel: Em determinado momento do capítulo, as personagens falarão em uma língua estrangeira. Dentro da Novel, há uma diferenciação tangível na forma em que a autora sinaliza isso, utilizando-se de caracteres específicos. Nessa tradução, adotaremos o sublinhado, sempre que uma personagem estiver falando em outra língua. Exemplo: Feliz dia das mães, apotecárias!
Vocês também devem ter notado, que quando surge uma unidade de medida estrangeira, eu ando acrescentando em parênteses a conversão para nossas medidas. 2 li (1km), 3 sun (9cm) e por aí vai!
— Bem movimentado hoje, não é? — disse Luomen, embora parecesse perfeitamente relaxado. Ele não estava usando o traje branco de médico hoje; vestia roupas masculinas, embora sua silhueta rechonchuda e sua expressão acolhedora ainda lhe dessem a aparência de uma senhora idosa. Ele avançava devagar, mas com firmeza, pela rua principal, apoiado em sua bengala.
— Cuidado para não tropeçar — disse Maomao, observando atentamente enquanto caminhava ao lado dele. Normalmente as ruas não eram um problema para ele, mas aquela estava especialmente cheia, ainda mais por causa do clima festivo. Para um velho senhor sem uma rótula, um simples esbarrão de um transeunte poderia bastar para fazê-lo cair no chão.
— Ah, estou bem.
— Tenho certeza de que está. Só me faça esse favor.
Normalmente Maomao teria falado de forma mais direta com o pai, mas naquele dia tentou ser mais educada. Havia outras pessoas presentes. Mais especificamente Yao e En’en, junto do médico que vivia brigando com Maomao. Também havia um soldado com eles, como guarda-costas.
O que os levou para fora dos limites do palácio? Uma ida às compras. Só Yao tinha ido da última vez, mas naquele dia as três garotas estavam juntas. Isso era em parte porque não havia muita coisa para carregar, e em parte porque o escritório médico estava ocupado demais para liberar todos os seus médicos. A última ida às compras tinha mostrado como as coisas podiam ficar complicadas sem nenhum médico presente.
Havia, possivelmente, mais um motivo também: a pessoa de quem comprariam os remédios era estrangeira. O pai de Maomao era o mais habilidoso no idioma estrangeiro entre a equipe médica, enquanto Maomao, En’en e o outro médico conheciam pelo menos um pouco da língua. Naquela viagem, Yao estava só acompanhando.
— Devíamos ter vindo de carruagem — resmungou Maomao.
— Uma carruagem? Com toda essa gente por aqui? Só atrapalharíamos os outros — disse Luomen. Ele parecia animado, mas Maomao achava cruel fazer um velho ferido andar todo esse trajeto.
Fora isso, ela estava muito feliz com a situação. Podia ficar com o pai e ainda ver remédios incomuns. Empolgante!
— Não faça nada a menos que mandemos — disse o outro médico (vamos chamá-lo de Doutor Assustador), encarando Maomao. (Ei, eu sei me comportar em público!) Já fazia tempo que ela tinha a impressão de que ele a vigiava, e desde o incidente com a pomada feita de sapo no outro dia, sua supervisão só tinha aumentado. Aliás, ela finalmente tinha começado a lembrar do nome dele recentemente. Era Doutor Liu.
— Desculpe por isso — disse Luomen, mas não contestou o outro homem. Ele ia seguir o que o Doutor Liu dissesse.
Yao parecia respeitar um pouco mais o pai de Maomao do que antes. Como sempre, En’en fazia tudo que podia para ajudar Yao, e a jovem senhora andava bastante amigável ultimamente.
Ela apenas vivia em uma bolha.
Yao tentava parecer indiferente, mas Maomao a via lançar olhares para as vitrines de tempos em tempos. Ela parecia inquieta, pronta para sair correndo; claramente não estava acostumada com tanta gente. En’en observava tudo com tanta atenção quanto Maomao, e embora mantivesse uma expressão impassível, havia algo escondido por trás daquele rosto deliberadamente neutro. Seus olhos brilhavam como se tivesse avistado um filhote de esquilo e estivesse encantada com a cena. Talvez Yao tenha sido trazida dessa vez porque os médicos acharam que ela ainda não tinha se acostumado a fazer compras na primeira vez.
Será que ela realmente leva jeito para isso? Maomao se perguntou. En’en cuidava diligentemente de Yao. Se eu tivesse que apostar, diria que ela está adorando isso. Bem, era melhor do que ter que arrastá-la à força, aos berros.
Enquanto Yao se distraía observando um artesão de doces, o grupo chegou ao destino. Era um restaurante luxuoso, um que Maomao já tinha frequentado antes. O lugar tinha várias salas privadas onde sua clientela rica podia ter conversas reservadas.
Essas salas são extremamente convenientes...
Produtos importados, mesmo que fossem só remédios, eram valiosos. Se você não tomar cuidado ao buscá-los, podia acabar sendo roubado no caminho de volta. Isso também explicava o guarda-costas.
Como ainda era meio dia, havia várias clientes mulheres no restaurante. Na hora do almoço, o lugar vendia lanches leves, e os pãezinhos recém-cozidos no vapor pareciam deliciosos.
— Por aqui, por favor.
Uma atendente os conduziu até a sala, onde um homem estrangeiro de cabelos claros os aguardava. Ele era muito peludo, exceto no queixo; usava um bigode espesso, mas nenhuma barba.
Luomen entrou na sala, mas quando Maomao e os outros tentaram segui-lo, o estrangeiro ergueu a mão. Ele e Luomen trocaram algumas palavras. O grupo estava longe demais para ouvir o que diziam, mas Maomao viu o pai balançar a cabeça e olhar para eles.
— Ele disse que só três pessoas podem entrar.
— O quê?
Três pessoas? Isso significava que Maomao e as outras duas assistentes teriam que esperar do lado de fora. Obviamente os dois médicos eram indispensáveis, e eles também iriam querer o guarda-costas por precaução.
— Na verdade, ele acha que nem devíamos ter trazido mulheres — disse o Doutor Liu. — Acho que deveríamos ter levado vocês conosco quando lidamos com aquele outro sujeito. — Os ombros de Maomao caíram. Então ela seria condenada a esperar no corredor o tempo inteiro? Nesse momento, o Doutor Liu lhe entregou um pedaço de papel. — Tenho certeza de que você sabe se virar em compras. Pode pegar algumas outras coisas para nós enquanto resolvemos isso?
O papel continha uma lista detalhada das sobremesas e guloseimas preferidas dos médicos que não tinham conseguido acompanhá-los. A lista era enorme, e Doutor Liu entregou junto uma quantidade considerável de trocados.
— Se sobrar dinheiro, você pode comprar o que quiser com ele. Doces artesanais, talvez. Voltem aqui em umas duas horas.
— Sim, senhor — respondeu Maomao. Doutor Liu não fazia nada além de brigar com ela, mas mesmo assim não deixava de providenciar doces para elas. Ele também não deixou passar despercebido o fato de Yao estar observando as barracas da rua.
— Você sabe lidar com dinheiro, não sabe? — perguntou Yao a Maomao, talvez irritada porque ela tinha sido encarregada do dinheiro.
Será que ela percebe o que está dizendo? Yao praticamente admitiu que até pouco tempo atrás nem sabia usar dinheiro. Ela parecia bastante orgulhosa do conhecimento recém-adquirido. Talvez tivessem trazido Yao justamente para ensiná-la um pouco sobre compras, pensou Maomao. Atrás dela, os olhos de En’en brilhavam, como se dissessem: “Minha senhora não é a coisa mais fofa do mundo?”
[Kessel: Sim, En’en, ela é!]
Maomao sabia que ficar com o dinheiro só renderia mais reclamações, mas também não se sentia totalmente confortável em entregá-lo a Yao. Por eliminação, passou a lista e o dinheiro para En’en. Yao ainda parecia insatisfeita, mas não iria discutir com En’en controlando a bolsa.
— Que tal começarmos pelos pãezinhos cozidos no vapor? — sugeriu En’en. Como ela estava com o dinheiro, era natural que decidisse o roteiro. Porém, quando Maomao deu uma olhada e viu o nome da loja, franziu a testa.
— Algum problema? — perguntou En’en.
— Aquele lugar sempre esgota tudo antes do almoço — respondeu, apontando para a direção da loja.
— Você ouviu ela, Lady Yao.
Ah, En’en realmente entendia as coisas rápido.
— O quê? Ouvi o quê?
Yao ainda estava completamente perdida quando Maomao segurou uma de suas mãos e En’en pegou a outra. As duas começaram a puxá-la.
— Se acabar tudo, somos nós que vamos levar bronca! — disse En’en.
Yao se assustou.
— Então vamos logo!
De mãos dadas, as três correram atrás dos pãezinhos com toda a velocidade que conseguiam.
Se tinham imaginado passar uma tarde agradável passeando pela rua principal juntas, estavam muito enganadas. Por fim, ficaram paradas à sombra de um salgueiro, Maomao, Yao e En’en, arfando sem parar.
— Os médicos devem ganhar muito bem — disse Maomao, em um tom claramente amargo, olhando para a montanha de doces em embalagens bonitas. — Tem muita coisa fresca aqui. Será que eles conseguem comer tudo antes de estragar?
Elas tinham ido ao que pareceu ser praticamente todas as lojas da cidade. Doutor Liu tinha dito que podiam gastar todo o dinheiro que sobrasse, mas ainda tinha sobrado alguma coisa?
Yao respirava com dificuldade; ela não estava acostumada a correr e estava cansada demais até para falar. En’en, sempre atenciosa, comprou um suco em uma loja próxima para ela.
Todos os lanches que tinham sido instruídas a comprar vinham de estabelecimentos famosos; Maomao reconheceu vários dos doces servidos também na Casa Verdigris. Doutor Liu provavelmente tinha dado o dinheiro a Maomao porque sabia que ela conhecia muitas das lojas.
— Acho que isso já deve bastar — disse En’en, examinando o papel. Restava apenas um nome na lista.
— Ah, aquele lugar... — Os ombros de Maomao caíram. Não era exatamente perto, e ela não estava com vontade de andar tanto. — Eles provavelmente ainda têm estoque, e ainda temos uma hora...
Ela olhou para Yao, que parecia revigorada pelo suco.
— Estou pronta para continuar — disse ela.
Maomao e En’en trocaram olhares, ambas inclinando a cabeça, pensando no que fazer.
— Posso perguntar o que você está fazendo, En’en? Vocês duas parecem... trocar sinais uma com a outra ultimamente — disse Yao.
— Eu só não gostaria que a senhorita se esforçasse demais, Lady Yao — respondeu En’en.
— Bem, que pena, porque eu vou. Eu vou, e ponto final!
— Como desejar. — En’en permaneceu impassível, mas por dentro provavelmente estava encantada com o quão adorável sua senhora era tentando parecer corajosa. De trás, Maomao conseguia ver o traseiro bem torneado de En’en tremendo de alegria.
Maomao as guiou pelo caminho.
— A loja fica em uma rua lateral um pouco afastada da avenida principal...
Era irritante estar carregando tantos pacotes. Por outro lado, Yao, ainda tentando provar que era capaz desse tipo de coisa, insistiu em carregar mais bagagem do que qualquer uma delas. Pelo menos Maomao estava em situação melhor.
Tenho que admirar a recusa dela em desistir, pensou ela. Existiam muitas pessoas satisfeitas em mandar nos outros só porque nasceram em famílias importantes. Pelo menos Yao não era assim. Maomao suspeitava que era essa mesma característica da personalidade dela que a tinha levado a tentar virar assistente médica quando fez o exame para damas da corte.
Tecnicamente, a loja para a qual elas estavam indo não era uma loja de doces. Era mais um fornecedor de ingredientes exóticos. Qualquer médico que preparasse remédios também sabia cozinhar um pouco, e aquele lugar era especializado em temperos e condimentos incomuns.
A cidade parecia muito diferente depois que elas saíram da rua principal. Elas viam mais casas de pessoas comuns enquanto atravessavam entre as lojas. Um gato bocejava à sombra de uma árvore, enquanto crianças pequenas usando babadores tentavam chamar sua atenção balançando uma espiga de capim. Havia mulheres lavando roupas no canal, e um cachorro amarrado observava uma galinha em uma gaiola que provavelmente seria o jantar daquela noite.
— É... é aqui que fica a loja? — perguntou Yao, desconfortável.
Como resposta, Maomao apontou para uma pequena placa. Nela estava escrito o nome do último lugar da lista. Yao ficou visivelmente aliviada.
— Eles deviam abrir a loja em algum lugar mais... respeitável.
— Quanto mais perto da rua principal, mais altos os impostos — disse Maomao. Quanto melhor a localização, mais pessoas passavam pela loja, e mais dinheiro o cobrador de impostos achava que podia arrancar de você. — Vamos finalizar logo essa lista — disse ela. Ela começou a andar em direção à loja, mas de repente En’en parou.
— O que foi? — perguntou Maomao.
En’en apontou para o outro lado do canal, onde viram um grupo de crianças cercando uma garotinha. Maomao pensou que talvez estivessem brincando, mas não parecia bem isso. O que estava acontecendo? Enquanto ainda tentava entender, viu alguém atravessar correndo a pequena ponte sobre o canal, era Yao.
— O que vocês estão fazendo? — ela gritou, assustando as crianças. — Vocês estão intimidando essa pobre menina!
O grito fez as crianças se dispersarem.
Ela é tão... como posso dizer? Jovem, pensou Maomao, mas mesmo assim correu atrás dela. Agora só havia uma criança parada diante de Yao: a menina que tinha sido cercada pelas outras. A vítima do bullying, se Yao estivesse certa.
— Hã? — disse Yao, confusa. — Vocês estão vendo essa garota?
Maomao olhou para o rosto da criança, e ficou confusa também.
— Parece que ela veio de outro país — disse En’en.
As roupas da menina eram do estilo típico de Li, mas seus traços não eram os comuns da região. Maomao calculou que ela tinha menos de dez anos. Seu cabelo e seus olhos eram escuros, mas sua pele era mais clara e rosada do que a deles. Ela tinha um rosto bonito, com os olhos perfeitamente alinhados e sobrancelhas bem marcadas.
A pele dela lembra a da Imperatriz Gyokuyou.
Então talvez fosse mestiça, mas Maomao entendia por que En’en tinha presumido que ela era estrangeira: havia marcas ao redor dos olhos da menina. Isso era extremamente incomum em Li, já que ali tatuagens normalmente eram aplicadas em criminosos. Poucas pessoas fariam uma por vontade própria (o que fazia de Maomao e suas sardas uma exceção notável à regra). Aquilo, porém, não era marca de crime algum. Parecia mais um tipo de proteção ou amuleto. Um padrão vermelho semelhante a uma videira.
— Você está bem? — perguntou Yao, mas a menina apenas olhou para ela com uma expressão confusa. Yao pareceu desanimada. — Acho que você não me entende… — Se ao menos conseguissem fazê-la dizer alguma palavra, mas a criança não falava nada.
— Acho que ela não consegue falar! — disse uma das crianças que Yao tinha espantado. — Ela parecia perdida, então perguntamos de onde ela era, mas ela não respondeu nada! Todo mundo tentou perguntar junto, mas acho que ela não tem voz!
Com isso, a criança saiu correndo de novo.
— Hum...
Yao tinha se mostrado tão pronta para agir, mas agora parecia sem saber o que fazer.
Não olha pra mim, pensou Maomao. Elas estavam diante de uma criança muda vinda de outro país, então não conseguiriam se comunicar mesmo que ela pudesse falar.
— O que fazemos? — perguntou Yao.
É isso que eu gostaria de saber!
Os seres humanos eram criaturas que se comunicavam por meio da linguagem. Ser privado dessa habilidade era, no mínimo, inconveniente, como Maomao e as outras estavam descobrindo.
Yao se agachou diante da menina.
— Certo, ah... Seu nome! Qual é o seu nome? — tentou perguntar. A garota continuou olhando para ela com uma expressão dócil, mas incompreensiva. Ela não disse nada, porém parecia estar ouvindo Yao, tentando entendê-la, então aparentemente ela conseguia ouvir.
Se ela conseguisse dizer alguma coisa, talvez pelo menos pudéssemos descobrir de que país ela é… Mas elas não tiveram essa sorte; a criança não soltou um único pio.
Já que tinha se envolvido naquilo, Yao estava determinada a pelo menos descobrir de onde a menina vinha, mas parecia cada vez menos esperançosa. Ela lançava olhares ocasionais para Maomao e En’en, mas En’en apenas observava, sem fazer qualquer movimento para ajudar sua senhora. Ela podia muito bem dar uma ajudinha, pensou Maomao. No começo, ela via En’en como a serva leal de Yao, mas com o tempo percebeu que a relação delas era mais complicada do que isso. Sim, Yao era muito importante para En’en, e sim, En’en a servia de forma impecável, mas...
Tinha algo um pouco... distorcido ali. Essa foi a conclusão de Maomao. Às vezes, quando alguém era fofo demais, dava vontade de provocar um pouco, mas também não era exatamente isso. Seja lá como aquilo pudesse ser descrito, o fato era que En’en observava Yao se debatendo com uma satisfação bastante evidente.

Elas iam ficar sem tempo se aquilo continuasse por muito mais tempo, então Maomao estava prestes a intervir e tentar ajudar, mas En’en se antecipou.
— Lady Yao, acho que ela não fala nossa língua. Deixe-me tentar — disse ela.
— Sim, por favor! — respondeu Yao, aliviada.
Ela obviamente estava grata pela ajuda. Talvez não ficasse tão feliz assim se percebesse que En’en estava apreciando a visão da dificuldade dela até aquele momento.
Ignorância é o quê mesmo? Maomao pensou, observando as duas com os olhos semicerrados.
En’en perguntou o nome da criança em uma língua estrangeira. Claro, existiam muitas línguas estrangeiras. Maomao falava um pouco de shaohnês e conseguia ler e escrever algumas palavras simples das línguas de regiões mais a oeste, mas era autodidata e não tinha confiança na própria pronúncia. A própria En’en admitia não saber muito mais do que Maomao, então conversar com a garota era um processo lento. Ainda assim, seus esforços fizeram os olhos da menina se arregalarem; ela começou a pular de animação. Alguma coisa, fosse o que fosse, tinha funcionado.
— Ela deve ser de Shaoh — disse En’en. Aylin tinha cabelos dourados e olhos azuis, mas nem todos daquela região eram assim. Cabelos e olhos escuros tinham mais chance de serem herdados dos pais, então era natural que preto e castanho fossem as cores mais comuns.
— Acho que ela entendeu você... mas ainda não sabemos o nome dela — disse Yao. A garotinha ainda não tinha falado uma única palavra. Em vez disso, tocou a garganta e fez um x com as mãos diante do pescoço.
— Acho que ela quer dizer que não consegue falar — disse Maomao.
Então arriscou algumas palavras em shaohnês.
— Você não consegue falar?
Dessa vez, a garota fez um círculo com as mãos, em sinal de aprovação.
Maomao pegou um galho caído no chão e rabiscou alguns caracteres na poeira para demonstrar sua ideia. Depois entregou o galho à menina.
— Você consegue escrever seu nome? — perguntou ela.
A garota balançou a cabeça. Em vez disso, desenhou uma figura, algum tipo de flor, embora fosse difícil dizer exatamente qual.
— Não parece que ela saiba escrever também — comentou Maomao.
— Então o que fazemos? — perguntou Yao.
— Me diga você — respondeu Maomao. Yao tinha sido quem se jogou na situação sem pensar. Agora parecia realmente constrangida.
A menina continuou desenhando concentrada.
— O que é isso? — perguntou Maomao.
O desenho parecia representar algum tipo de recipiente estampado.
— Você acha que é comida? — sugeriu Yao.
— Fico imaginando o que isso significa — disse En’en.
A garota bateu no desenho com o graveto.
— Talvez ela esteja procurando seja lá o que for isso — disse Yao.
Quando En’en comunicou a pergunta à criança em seu shaohnês truncado, recebeu um grande círculo como resposta. A menina então estendeu a mão. Na palma dela havia um pequeno pedaço de ouro.
— Ei, ei! — disse Maomao.
Não era muito, mas ainda era ouro. Não era o tipo de coisa que se devia mostrar para qualquer um. Ela fechou novamente a mão da garota.
— Acho que ela tem dinheiro e quer fazer compras.
— Parece isso mesmo — disse En’en.
— Sim — concordou Yao.
— Mas ainda não fazemos ideia do que ela quer comprar — disse Maomao.
Ela apontou para o desenho e perguntou:
— Você quer um recipiente como este?
A menina balançou a cabeça em negativa. Isso teria sido muito mais fácil se ela desenhasse melhor. Talvez se desenhasse pelo menos tão bem quanto Chou-u, pensou Maomao. Mas descartou a ideia. Pensar desse jeito não levaria a lugar nenhum. O desenho da garota era até muito bom para alguém tão jovem.
— Acho que parece algum tipo de comida. Alguma ideia do que seja? — perguntou Maomao. Mas elas não estavam chegando a lugar algum.
A garotinha olhou em direção ao canal, onde as crianças que Yao tinha dispersado começaram a brincar perto da água. Elas estavam pescando alguma coisa, lagostins, percebeu Maomao. Podiam ser bem saborosos se fossem limpos e cozidos direito. A garota, porém, balançava a cabeça como se dissesse que lagostins não eram o que ela queria.
— Acho que não vamos conseguir mais nada aqui. Por que não levamos ela conosco? Os oficiais médicos falam shaohnês melhor do que nós — disse Maomao.
— É verdade — concordou Yao, sem mais ideias. — Vamos, venha conosco.
Ela segurou a mão da menina.
A criança pareceu confusa, então Maomao explicou:
— Vamos levá-la até pessoas que conseguem falar melhor do que nós.
A garota balançou a cabeça de novo. Ela estava claramente tentando comunicar alguma coisa, mas como não conseguia falar, nada estava funcionando. Tudo o que podia fazer era riscar desenhos na terra.
— Isso parece um pão cozido no vapor para você? — perguntou En’en.
— Agora que você falou, parece um pouco.
Era difícil dizer; o desenho era praticamente só um círculo. Maomao e as outras inclinaram a cabeça e observaram. A garota também inclinou a cabeça, como se dissesse: Vocês ainda não entenderam?
— Talvez seja uma fruta — disse Maomao.
— É, tipo uma maçã? — disse Yao. Era verdade que o círculo tinha algo parecido com um cabinho e uma folha. Os outros desenhos também pareciam frutas e lanches, se olhassem daquela forma.
— Espera... — disse En’en. — Você quer um lanche?
A garota agitou os braços vigorosamente. Aparentemente, essa era a resposta certa.
Maomao abriu os embrulhos de pano, mostrando à menina os vários doces e petiscos que tinham comprado naquela tarde. Mas a criança balançou a cabeça para todos eles.
— Acho que compramos praticamente tudo que dá para comprar — disse Maomao. Doces assados, cozidos no vapor, doces açucarados, salgados, a lista tinha sido longa.
— Acho que o único lugar da cidade onde ainda não compramos nada é aquele último da lista.
Ela apontou para a loja, e a menina começou a pular.
— Hã?
Elas não tinham certeza de que estavam no caminho certo, mas conseguiram comunicar que iam até uma loja que vendia petiscos. A garota começou a pular ainda mais rápido.
— Ela quer que levemos ela conosco?
Parecia ser isso. Havia algo naquela loja que ela queria.
Maomao e o resto do pequeno grupo atravessaram a ponte e seguiram até o local em questão, um prédio em estilo de casa popular com uma placa do lado de fora. Estava completamente fechado, escuro e estranhamente melancólico. A garotinha provavelmente não sabia que aquele era o lugar; afinal, ela não conseguia ler a placa.
— Esse lugar vende petiscos? — perguntou Yao, profundamente desconfiada.
— Tecnicamente, não é uma loja de petiscos. É um lugar bem... peculiar — respondeu Maomao.
Ela abriu a porta com um estrondo. Elas descobriram que havia outro cliente lá dentro, junto do rechonchudo dono da loja. O cliente parecia ser uma mulher, mas muito alta, com a pele bastante bronzeada. Maomao não era boa em adivinhar a idade de estrangeiros, mas imaginou que a mulher tivesse pelo menos uns trinta e poucos anos.
Ela é estrangeira?
— Jazgul! — disse a mulher.
Jazgul? Maomao não fazia ideia do significado da palavra. A garotinha, porém, correu imediatamente até a mulher.
— Minha nossa! Onde você se meteu? — Perguntou ela em shaohnês.
Então Jazgul era o nome da menina. Parecia muito mais difícil de pronunciar do que um nome como Aylin, mesmo vindo da mesma língua.
— Então ela é a guardiã da garota? Talvez a mãe ou algo assim? — disse Maomao.
— Parece um palpite seguro... Mesmo elas não se parecendo muito — respondeu En’en.
As três estavam exaustas. Foi para isso todo aquele estresse? Jazgul comunicava alguma coisa para a mulher enquanto apontava para Maomao e as outras.
— Foram vocês que trouxeram Jazgul em segurança até aqui? — perguntou a mulher. Ela tinha sotaque, mas falava perfeitamente de forma compreensível.
— Ela estava perto do canal ali. Parecia querer petiscos — explicou Yao.
— Ah. Então foi isso que aconteceu.
Em resumo, a acompanhante de Jazgul estava ali, mas elas acabaram se separando, e a menina não sabia qual loja era qual. Irônico, considerando como estava perto.
— Preciso me desculpar. Essa criança insistiu muito em sair por aí.
Enquanto a mulher conversava, a dona da loja revirava as prateleiras, procurando o pedido dela.
— Ah, eu conheço este lugar — disse En’en ao ver o símbolo em um papel de embrulho. O papel não era de grande qualidade, mas servia ao propósito.
— E qual é a história? — perguntou Maomao.
— Nada demais. Só percebi que este lugar faz negócios com a mansão.
Presumivelmente, a casa de Yao.
— Aqui está. É tudo o que temos em estoque no momento. Serve? — perguntou a lojista.
— Humm?! — exclamou Yao ao ver o que ela segurava. Era um feixe de sapos secos, esticados e amarrados juntos como um pequeno buquê. Talvez a menina tenha visto as crianças pegando lagostins e se animado, pensando que estavam atrás de sapos. Daí a decepção dela.
Mas existem tantos tipos diferentes de sapo, pensou Maomao. Se aquilo estava sendo usado como petisco para gente rica, certamente não eram sapos que se pegavam na rua. Sapos… A palavra despertou algo em um canto da memória de Maomao, uma coisa relativamente grande que poderia ser chamada de sapo. Ela balançou a cabeça. O choque tinha sido tão grande que às vezes ainda surgia em sua mente sem aviso.
[Noelle: Espero que tenham pegado a referência em galera… o sapão kkkkkkkkkkk]
— P-Pra que servem essas coisas? — perguntou Yao.
Provavelmente um belo lanchinho refrescante de verão, pensou Maomao. A gordura nos órgãos reprodutivos de certas fêmeas de sapo que viviam no interior era gelatinosa e deliciosa, algo que Yao deveria conhecer muito bem. Melhor ela continuar sem saber.
E era isso.
— Então estrangeiros realmente comem cobras e sapos — sussurrou Yao para En’en.
— Sim, aparentemente comem — respondeu En’en, inocente como uma pomba.
Para Maomao, porém, havia um problema no que os “estrangeiros” estavam comprando naquele momento.
— Hum… — ela começou. Os sapos eram uma coisa, mas elas também haviam comprado todo o estoque de romãs (cristalizadas com açúcar em pedra) e figos secos da loja.
— Será que poderiam deixar pelo menos alguns figos para nós?
Esse era um dos itens da lista delas.
— Ah, me desculpe. De quantos vocês precisam? — perguntou a mulher.
Maomao mencionou uma quantidade, e a mulher concordou prontamente.
— Os figos estão na estação agora. Podemos conseguir mais quando quiserem. Romãs... Bem, talvez ainda seja um pouco cedo — disse a lojista.
— Muito obrigada — disse a mulher. Jazgul também curvou a cabeça educadamente.
Maomao estreitou os olhos para as compras da mulher. Gostaria de poder perguntar sobre isso. Mas não perguntou, tanto porque seria meter o nariz onde não era chamada, quanto porque não tinha certeza se compartilhavam linguagem suficiente para tornar a conversa possível.
A mulher juntou suas compras e então ficou diante de Maomao e das outras.
— Por favor, aceitem esta pequena lembrança — disse ela, oferecendo pedaços de tecido branco, um para cada uma. — Por cuidarem tão bem de Jazgul.
Então as clientes estrangeiras deixaram a loja. Maomao tocou o tecido e exclamou:
— Com licença!
Mas antes que pudesse correr atrás da mulher, a lojista disse:
— Os itens de vocês estão prontos.
Quando recolheram as compras e saíram da loja, as duas estrangeiras já tinham desaparecido.
— Por que você ficou tão agitada? — perguntou Yao.
— Este tecido — respondeu Maomao, balançando-o levemente. Parecia simples e branco, mas os cantos tinham elaborados bordados de grama e árvores. — É fresco ao toque. Imagino que seja seda.
— Sim, é seda. E daí?
Fácil para alguém criada no luxo dizer isso.
Maomao abriu as mãos e balançou a cabeça, exasperada.
— Lady Yao. Um pedaço de seda é uma recompensa extremamente generosa por algo tão simples quanto ajudar uma criança perdida. Pelo menos para pessoas comuns como nós.
— S-Sim, claro! Eu sabia disso!
Tudo bem, Yao era bem fofa. En’en mostrava um joinha para Maomao onde Yao não podia ver.
Então esses estrangeiros podem comprar todo o estoque de uma loja e distribuir seda como se fosse doce. Estamos lidando com gente muito rica. Maomao suspirou, pensando que talvez devesse ter puxado mais saco delas. Nesse momento, um sino tocou anunciando a hora.
— O-O horário! — exclamaram as três ao mesmo tempo.
Já tinham passado muito do horário em que deveriam ter voltado. Então acabaram correndo o mais rápido que conseguiam... de novo.
[Kessel: Eu tinha ficado bem curioso em como a Jazgul apareceria na história e fico contente que tenha sido dessa forma. Muito fofas!]
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