Volume 7
Capítulo 11: Antes das Celebrações
Era pleno verão, e havia um clima festivo na capital. Visitantes vindos de terras estrangeiras faziam o dinheiro circular livremente. Eventos e acontecimentos naturalmente se acumulavam até que uma festa espontânea e não oficial tomasse forma.
Celebrações não eram algo inerentemente ruim. Elas deixavam todos mais animados e felizes, tanto na corte quanto fora dela. E como essa animação se manifestava dentro dos muros do palácio?
— Excesso de trabalho. — Esse foi o veredito com uma única palavra dado pelo médico ao burocrata de rosto pálido. O homem tinha olheiras profundas e um olhar vazio. — Certifique-se de dormir um pouco. Você vai acabar trabalhando até morrer, literalmente.
Dormir era tão importante. As pessoas achavam que conseguiam passar um ou dois dias sem sono, mas isso acaba cobrando seu preço, voltando para assombrá-las, à medida que envelheciam. Houve uma época em que Jinshi também estava dormindo perigosamente pouco. Toda vez que ele ia ao distrito dos prazeres, Maomao o fazia tirar um cochilo.
Abrir um negócio na capital significava conseguir permissão da burocracia. Barracas de rua podiam surgir por impulso, mas uma loja de verdade exigia autorizações, pelo menos por causa dos impostos. Se alguém fosse pego tentando escapar dessa papelada toda, o melhor que podia esperar era uma multa pesada, ou até prisão.
Os festivais sempre atraíam multidões. Estrangeiros estavam chegando, o que significava que mercadorias de comércio seriam mais facilmente encontradas, e muita gente tinha ido à capital esperando colocar as mãos nelas. Tudo isso significava que os oficiais civis estavam atolados em papelada manhã, tarde e noite.
Os soldados também estavam ocupados. A frequência das visitas do estrategista excêntrico diminuíram, pelo menos nisso Maomao se sentiu grata. Por outro lado, talvez fosse mais correto dizer que, depois do incidente de intoxicação alimentar, os subordinados dele tinham montado algo parecido com uma caçada para mantê-lo sob controle.
Mais pessoas significava mais potencial para crimes, e era trabalho dos soldados reforçar a segurança pública. Entre o fato de poderem simplesmente transformar o tempo de treinamento em trabalho e o fato de geralmente serem acéfalos brutamontes, havia muito menos soldados desmaiando do que os infelizes burocratas. Em compensação, havia mais feridos.
— Argh! Não dá para você tomar um pouco mais de cuidado?! — reclamou um soldado enquanto Yao passava remédio em um corte de quase três sun (9cm) de comprimento.
É só um arranhão, Maomao pensou. O soldado disse que tinha se ferido ao confrontar um homem que havia aberto uma barraca sem permissão e estava vendendo medicamentos suspeitos. Quando tentaram fechar o negócio, ele puxou uma faca contra eles.
— Sinto muito — Yao disse calmamente, embora Maomao percebesse seus lábios se contraindo. Ela não parecia irritada, mas sim como se estivesse segurando as lágrimas.
En’en discretamente foi ajudar. Ela ofereceu um copo ao soldado.
— Isso deve aliviar a dor — disse ela, embora Maomao tivesse quase certeza de que ela simplesmente pegou um copo de chá gelado de cevada.
Os médicos ainda raramente deixavam as jovens lidarem com os pacientes, mas tinham uma opinião bastante positiva sobre pequenos gestos atenciosos como os de En’en. Diziam até que as reclamações sobre o consultório médico diminuíram.
E o que Maomao estava fazendo? Ela estava ocupada preparando remédios. Os médicos acharam que ela ao menos podia receber a tarefa de produzir pomadas simples e, desde que ela reprimisse sua vontade de criar misturas mais exóticas, aquilo não era tão ruim. Era o lugar certo para ela: ela não tinha nem a atitude nem, comparada às outras duas, a aparência necessária para lidar com pacientes.
— Maomao, a pomada? — Desde o incidente com os biscoitos, En’en passou a falar com Maomao de um jeito visivelmente mais informal. A mudança de atitude dela levou Yao a conversar um pouco mais com Maomao também, então talvez En’en tivesse feito aquilo para melhorar o comportamento infantil da senhora dela. Talvez.
— Aqui está a pomada — Maomao respondeu. Quando ela estava prestes a entregar o remédio, ela lançou um olhar para o paciente. Era o soldado chorão. Ele fazia um escândalo enorme por causa de um ferimento tão pequeno. Sem dizer nada, Maomao pegou uma pomada que tinha escondida nas dobras das suas vestes e trocou pela pomada que estava prestes a entregar a En’en.
A oportunidade perfeita. Um paciente tão expressivo seria ideal para testar sua nova pomada.
Maomao se assustou com uma voz vindo atrás dela: — O que você pensa que está fazendo? — Ela se virou e encontrou um médico idoso encarando-a com reprovação. — Você acabou de trocar esses remédios, não foi?
— Ora, do que o senhor está falando? — ela perguntou. Ela tentou soar o mais inocente possível, mas o médico pegou a pomada experimental dela. Ainda encarando ela feio, ele passou um dedo pela substância.
— Tem alguma coisa aqui. Alguma mistura incomum.
— Repito, senhor, do que está falando?
Dessa vez, a tentativa de despistá-lo só lhe rendeu um cascudo na cabeça.
— Para sua informação, Luomen nos pediu para sermos especialmente rígidos com você. — Seria difícil escapar de alguém que conhecia o pai dela. Esse médico era o mais rigoroso do escritório médico e ele já suspeitava que ela tinha conseguido a posição graças às suas conexões familiares. — O que você colocou nisso?
Depois de um momento, Maomao respondeu: — Um pouquinho de sapo. — Ela ouviu dizer que óleo de sapo fazia bem e quis experimentar, mas se mostrou difícil extrair óleo de sapos e, no fim das contas, aquilo que o médico segurava era tudo que ela conseguiu produzir. — Ouvi dizer que usam óleo de sapo como remédio em países estrangeiros.
— Ah, ouviu, foi? Pois eu nunca ouvi falar.
Na verdade, Maomao também não. Ela só achou que talvez pudesse causar algum efeito. Teve o cuidado de escolher um sapo não venenoso e confirmou que não havia efeitos colaterais aparentes testando em si mesma. Ela não era selvagem o suficiente para fazer outra pessoa experimentar uma mistura cuja toxicidade nem tinha verificado.
— De qualquer forma, vou confiscar isso.
— O quê? Não!
E assim seu remédio foi tomado dela. E depois dela ter passado a folga inteira vasculhando arrozais!
— Você disse... sapo? — Yao perguntou, com o rosto pálido. Ela parecia incapaz de acreditar no que tinha ouvido. — Você colocaria sapos em remédios? Deve haver alguma coisa errada com você!
Maomao enfiou o dedo em um ouvido e a ignorou. Talvez ela tivesse passado dos limites, porque En’en deu uma cotovelada nela. E então ela disse:
— Entendo que talvez você não esteja acostumada com esse tipo de coisa, mas sapos são uma refeição bem comum entre o povo.
Yao pareceu ainda mais incrédula do que antes. Ela se virou para En’en como se perguntasse se aquilo podia mesmo ser verdade.
— Ela está certa, milady. As pessoas comem sapos com frequência. Talvez também se interesse em saber que às vezes pessoas tentam vender carne de cobra fatiada como se fossem peixes.
O pouco de cor que restava no rosto de Yao desapareceu ao ouvir sobre as cobras.
— Não se preocupe, vou garantir que nenhuma cobra apareça na sua mesa — En’en assegurou.
— Eu ficaria perfeitamente feliz em vê-las na minha mesa — Maomao comentou.
A quantidade absurda de espinhas pequenas podia dar algum trabalho para comer, mas bastava fritar bem e ficava ótimo. Se o cheiro incomodasse, ervas aromáticas ou medicinais resolveriam. Na verdade, Maomao carregava alguns espetinhos de carne seca de cobra consigo como lanche caso sentisse fome. Ela tirou um da bolsa e o ofereceu silenciosamente para Yao, mas Yao apenas balançou a cabeça e virou-se, abatida, para a parede. Maomao deu de ombros e guardou o espetinho de volta.
— Nada de moleza, senhoritas! — repreendeu o médico, e as três abandonaram a conversa e voltaram ao trabalho.
Maomao e as outras almoçaram em um refeitório próximo. A comida era gratuita e até permitiam repetir, mas, se você não quisesse o que estavam servindo, precisava trazer sua própria refeição ou lanche.
As damas da corte comiam separadas dos homens. Normalmente, Yao agia quase com indiferença em relação a Maomao, mas, na hora das refeições, ela se aproximava um pouco mais por causa do ambiente do refeitório.
Seja no palácio interno ou no distrito dos prazeres, existia um lado das mulheres que só aparecia quando estavam entre outras mulheres. Quando as damas ficavam em seu próprio canto do salão, longe dos olhos e ouvidos masculinos, era aí que as conversas realmente começavam.
— Eu desisto. Eu simplesmente não aguento soldados. Ele ganha bem, mas sempre está ocupado, e grande parte do dinheiro dele vai embora na quantidade absurda de comida que ele precisa comer. Ele nem sequer me leva para uma refeição decente!
— Argh, que horror. Mas oficiais civis também não são grande coisa. Sabe aquele que puxou conversa comigo outro dia? Lembra dele? Bem, foi gentil da parte dele me chamar, mas... argh. Não acho que eu tenha qualquer assunto em comum com um homem que construiu a vida organizando estante atrás de estante de livros mofados! Nem posso aceitar o grampo que ele me deu. É tão antiquado que eu morreria antes de usar aquilo!
— Ah, aceita logo. Eu te conheço… você vai acabar penhorando de qualquer jeito.
Muitas damas da corte vinham de famílias importantes, mas suas personalidades nem sempre eram tão refinadas quanto a educação que receberam. Era uma realidade difícil para uma jovem genuinamente elegante e correta.
Maomao geralmente escolhia um lugar em um canto do refeitório, e Yao corria atrás dela onde quer que ela fosse. Ela sabia que, se Maomao estivesse ali, as damas mais cruéis, especialmente as hostis às recém-nomeadas assistentes médicas, manteriam distância.
Eu só tentei avisá-las direito, Maomao pensou, mas agora elas nem chegavam perto dela. Era como se fosse o Pavilhão Cristal outra vez.
Então, o que tinha acontecido? Havia uma dama da corte que decidiu atacar preventivamente as jovens assistentes médicas que ela considerava ingênuas. Ela apareceu acompanhada por uma comitiva de bajuladoras, parecendo muito com Yao no começo. Mas, enquanto Yao demonstrava claramente paixão pelo seu trabalho, essa mulher dava a impressão de estar no palácio principalmente na esperança de encontrar um marido. Pela forma como ela aparecia com um homem diferente em cada refeição, era quase como se tivesse orgulho de ser uma mulher de reputação duvidosa.
Maomao não conseguiu deixar de notar uma irritação ao redor da boca da mulher.
— Parece que você tem um número considerável de parceiros — ela disse. — Você está ciente dos riscos de doenças? — Ela só estava se certificando.
[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Delicada como um elefante!]
— Eu nunca ficaria com um homem doente! — a mulher respondeu. Então Maomao explicou como doenças sexualmente transmissíveis podiam existir de forma latente, e que, mesmo que o parceiro dela não estivesse doente, uma das outras parceiras dele poderia estar, e a doença ainda assim seria transmitida. Afinal, ela não era a única que podia sair dormindo com várias pessoas. Por fim, Maomao explicou que várias doenças sexualmente transmissíveis podiam ser transmitidas ao mesmo tempo.
— Você anda se sentindo cansada? — ela perguntou. — Algum inchaço ou dor nas partes íntimas? Ou sangramento, talvez?
Conforme Maomao continuava o interrogatório, a mulher foi ficando cada vez mais pálida até finalmente ir embora dali. Talvez, Maomao refletiu que talvez tenha sido um erro lidar com ela da mesma forma que lidava com as cortesãs da Casa Verdigris. Mas, se aquela mulher não recebesse tratamento logo, o nariz dela poderia apodrecer e cair.
[Noelle: Maomao dando um aulão de DSTs para nós, falando de sífilis e HPV hein, e a mulher passando vergonha kkkkk | PS: se protejam galera, doença não tem cara e nem classe social! Ah e por último, hoje em dia ao invés de DSTs, vocês podem encontrar a sigla atualizada para IST: infecções sexualmente transmissíveis.]
Maomao estava falando com a mulher com toda a sinceridade, mas, enquanto isso, o rosto de Yao estava vermelho como um tomate. En’en aparentemente não sabia muito sobre doenças sexualmente transmissíveis, porque ficou anotando tudo diligentemente.
Agora, voltando ao presente. A refeição daquele dia era mingau de arroz, sopa e um dos vários acompanhamentos disponíveis. A escolha dos acompanhamentos era livre, mas quem chegasse tarde podia acabar sem o favorito. Nós mencionamos as pequenas quantidades de comida, mas isso acontecia porque, em geral, refeições completas eram servidas apenas de manhã e à noite. O serviço da tarde era praticamente um grande lanche.
Como acompanhamento, Maomao escolheu frango cozido no vapor com vegetais frios. Pratos com carne eram populares e sempre acabavam rápido nas mãos de quem chegava cedo. As outras duas jovens pegaram a mesma coisa.
— Só para você saber, eu não estou te copiando — Yao disse.
Eu nem disse que você estava, Maomao pensou. À sua maneira, o comportamento dela tinha certo charme e, desde que percebeu isso, Maomao começou a desenvolver certa afeição pela outra dama da corte. Era muito mais fácil lidar com ela do que com uma bajuladora que escondia suas verdadeiras intenções.
Os outros acompanhamentos incluíam peixe e algum prato com vinagre. O peixe realmente parecia um pouco com carne de cobra, se olhassem bem; talvez fosse por isso que Yao não quis comer ele. Por mais cruel que fosse, perceber isso fez Maomao sentir vontade de provocar a jovem um pouquinho. Elas se acomodaram no canto de sempre, mas, enquanto Maomao normalmente comia em silêncio, naquele dia ela disse:
— Dizem que algum tipo de dignitário estrangeiro vai chegar, não é? — Aquilo tinha sido o assunto do momento recentemente. — Você sabia que, no deserto, cobras e lagartos são considerados importantes fontes de nutrientes? As pessoas comem isso o tempo todo por lá.
[Noelle: “Dignitário” é uma pessoa importante que ocupa um cargo elevado, geralmente ligado ao governo, à nobreza, à diplomacia ou à religião, Pode ser um embaixador, príncipe, ministro ou enviado oficial estrangeiro ou até um emissário entre outros.]
A cultura alimentar variava de lugar para lugar, algo que qualquer um descobriria rapidamente ao viajar para o oeste, e algo que Maomao tinha aprendido em primeira mão durante sua viagem para a capital do oeste. Ela não teve exatamente a oportunidade de realizar um passeio turístico, mas havia muitas comidas estranhas nas barracas de rua. Maomao se lembrava calorosamente de Suirei, que detestava cobras e insetos, ficando completamente desesperada.
— Maomao — En’en disse, lançando-lhe um olhar de reprovação.
A colher de Yao congelou no ar.
— Não estou mais com fome — ela disse, abaixando a colher.
Parecia que Maomao tinha ido longe demais.
— Lady Yao, você precisa comer — En’en falou.
— Talvez eu tenha apetite para comer um lanche — Yao respondeu, ainda parecendo emburrada.
En’en pensou por um instante, então pegou um embrulho de pano. Ao abri-lo, revelou um cilindro de bambu, um cantil. As porções da cafeteria nunca eram suficientes para o apetite voraz de Yao, e En’en sempre vinha preparada com algo extra.
— Você pode comer isso depois de terminar sua refeição — ela disse, olhando para Yao.
Yao resmungou, mas voltou a comer o seu mingau.
Ela sabe mesmo lidar com ela, Maomao pensou. Quanto ao conteúdo do cantil, En’en pegou uma tigela e despejou nele algo doce, translúcido e úmido.
— Esse é o seu lanche? — Maomao perguntou. Yao realmente era rica: aquilo era uma iguaria luxuosa. A sobremesa perfeita para o verão. Inclusive aparecia de vez em quando nas refeições noturnas da Imperatriz Gyokuyou.
— É a sobremesa favorita da Lady Yao — En’en disse.
Ela acompanhou a fala levando um dedo aos lábios, percebendo corretamente que Maomao sabia o que era a sobremesa.
E eu pensando que ela estava cuidando da Yao! O que ela estava fazendo era cruel. Será que isso também fazia parte da ideia dela de ajudar Yao a amadurecer?
— Humm! Está um pouco morno, mas continua delicioso! — Yao disse, devorando o doce gelatinoso com entusiasmo.
O nome do prato? Hasma. E os ingredientes? Órgãos reprodutivos de sapo. Pelo bem de Yao, Maomao decidiu não dizer nada.
[Noelle: Gente sério, pesquisem a foto, não tem como isso ser gostoso não kkkkkkkkkkkkkkkkk SOS]
[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Tô falando, essas duas são demais!]
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