Volume 7
Capítulo 10: Operações Secretas
O ar úmido e abafado era desagradável, a umidade fazia com que o cabelo grudasse na nuca dele. Jinshi estava sentado em seu escritório, encarando a pilha de documentos com um desejo crescente de fugir.
Havia poucas coisas mais deprimentes do que lidar com tarefas administrativas enfadonhas durante a estação quente e chuvosa. Jinshi afastou o cabelo da nuca, endireitou-se na cadeira e folheou algumas páginas. Os caracteres estavam um pouco borrados; talvez alguém tivesse manuseado o papel com as mãos suadas. Ele soltou um suspiro e pegou a xícara de chá, servida fria, que estava no canto de sua mesa.
Ele fez o chá ondular dentro da xícara. Quando aquilo tinha aparecido ali? Ele tinha a impressão de que alguém havia deixado a xícara enquanto ele tinha ido ao banheiro, alguns minutos antes.
— Quem colocou este chá aqui? — ele perguntou ao oficial que estava no escritório com ele. Gaoshun tinha voltado para junto do Imperador e não estava mais ali. Basen retornaria quando estivesse totalmente recuperado. Enquanto isso, Jinshi estava fazendo uso de um burocrata com um talento especial para papelada.

— Uma dama da corte trouxe enquanto o senhor estava longe do seu assento.
Jinshi era apenas humano; às vezes, a natureza chamava até mesmo ele. Mas uma dama da corte externa, ainda por cima, esperar exatamente esse momento para trazer chá... aquilo era estranho. Havia sempre um guarda posicionado à porta de seu escritório — exceto quando Jinshi saía, como para usar o banheiro. Nesses casos, o guarda o acompanhava. Talvez a mulher soubesse.
O escritório de Jinshi normalmente era proibido para as damas da corte. Na época em que fingia ser um eunuco, havia até brigas entre as mulheres para decidir quem levaria seu chá. Mesmo depois de deixar o palácio interno, algumas mulheres às vezes escondiam fios de cabelo ou unhas em seus lanches como amuleto de amor, ou simplesmente invadiam o local quando ele estava sozinho e arrancavam as próprias roupas. Só problemas. O burocrata designado para ele podia até ser bom com papelada, mas parecia não conhecer os detalhes da situação de Jinshi.
Jinshi abriu uma gaveta de sua escrivaninha e tirou um objeto embrulhado em pano. Com movimentos cuidadosos, ele o desembrulhou, revelando uma colher de prata, que segurou pelo pano antes de usá-la para mexer o chá.
O brilho da prata logo ficou opaco. Jinshi ao menos ficou grato por quem o atacou ter usado um veneno tão óbvio.
O sangue sumiu do rosto do oficial ao observar aquilo. Na verdade, Jinshi queria que ele visse, para avaliar sua reação. Pelo menos o homem entendia o que a prata manchada significava. Parecia que realmente ele não sabia nada sobre o veneno.
Jinshi entregou a colher ao guarda na porta, que nem piscou ao reembrulhar o utensílio e colocá-lo nas dobras de suas vestes. Seu substituto chegaria em breve. Provavelmente ele passaria a colher adiante depois disso.
— Você consegue descrever a mulher que trouxe isto? — perguntou Jinshi ao burocrata.
— B-Bem... — começou o homem. Ele estava completamente transtornado e não conseguiu fornecer muita informação útil. Ela era “jovem”, não muito alta. Pelo menos aquilo provava uma coisa: o homem era dedicado ao trabalho. Ele estava tão focado na papelada que nem prestou atenção especial à mulher que entrou. Jinshi notou, por acaso, que havia uma xícara de chá na mesa do burocrata também — meio vazia.
Suspiro. Muito bem. Jinshi pegou outra colher e mexeu no chá do oficial, mas dessa vez não houve reação.
— Você está seguro — disse ele.
Um alívio evidente passou pelo rosto do homem antes que ele se encolhesse, claramente constrangido.
Jinshi não estava com disposição para repreendê-lo. Ele só queria alguém que cuidasse da papelada. Aquele homem parecia competente o suficiente, e além disso, nunca olhava para Jinshi como se tivesse segundas intenções. Tudo o que Jinshi precisava era que ele fizesse um trabalho decente até Basen voltar.
— Tire isso da cabeça. Ainda há trabalho a fazer — disse Jinshi. Ele colocou o chá envenenado em um canto da mesa e voltou aos documentos. Seu assistente, ainda pálido como um cadáver, retornou à própria mesa.
Jinshi tentou não deixar que o outro homem percebesse enquanto ele soltava um suspiro.
Seus dias eram agitados, tensos. Ele já tinha perdido a noção de quanto tempo havia passado desde que deixou de fingir ser um eunuco. Meses. Fazer parte da corte propriamente dita significava muito, muito mais trabalho, e parecia que ele dormia menos a cada dia. Pelo menos, antes, conseguia escapar para a cidade a cada dez dias ou algo assim, para respirar um pouco, mas agora, nem isso acontecia mais.
Jinshi tinha terminado seu trabalho do dia e estava sentado em um sofá em seu quarto. Já havia jantado e tomado banho, então só restava ir dormir. Mas ele não estava com vontade, não depois do que aconteceu naquela tarde.
— Que tal algumas frutas, Mestre Jinshi? — sua sempre atenciosa dama de companhia, Suiren, trouxe-lhe fatias de pêra, cada uma em seu próprio espetinho.
— Me dê — disse ele. Talvez soasse um pouco infantil, mas aquela era sua ama de leite, uma mulher que o conhecia desde antes do seu desmame. Estava somente os dois; ela não ficaria chateada.
Ele colocou um pedaço de pêra na boca, apreciando a crocância e o sabor leve e doce. O suco era fresco e revigorante ao descer pela garganta. Pensou em pedir uma taça de vinho, mas decidiu que, naquela noite, aquilo bastava.
— Você deve estar tão cansado. Nem tem ido à cidade ultimamente, nem em seus dias de folga. Seu trabalho está consumindo todo o seu tempo e energia — disse Suiren.
— Sim, bem, é o que acontece quando o trabalho não tem fim. Acho que, daqui para frente, vou precisar de mais assistentes.
— E de mais damas de companhia, eu acrescentaria.
A ama de leite de Jinshi estava à beira da velhice, e às vezes comentava como os anos pesavam sobre ela. Ele gostaria de contratar mais damas de companhia, mas, dadas as circunstâncias, não era fácil.
— Ah, como eu queria que Maomao voltasse! — disse Suiren.
Eu também, pensou Jinshi, mas apenas balançou a cabeça. Ele sabia que isso não era possível.
— Tenho certeza de que ela sabe que você a faria trabalhar feito uma condenada de novo.
— Ora, qual o sentido de contratar alguém que não consegue fazer o próprio trabalho? — respondeu Suiren, com uma voz tão doce quanto suas palavras eram duras. Ela podia ser muito gentil com Jinshi, mas dizia-se que toda dama de companhia sob seu comando a considerava um monstro. — Preciso dizer, a quantidade de trabalho que faço todos os dias é demais para estes ossos velhos — continuou ela, esfregando os ombros de forma exagerada. — Ah, se ao menos você se apressasse e escolhesse uma concubina, Mestre Jinshi, nem que fosse só uma, minha vida seria um pouco mais fácil...
Jinshi só conseguiu esboçar um sorriso seco.
— Você não se preocupa que, se eu escolhesse a mulher errada, seu trabalho só aumentaria?
— De forma alguma. Isso tornaria muito mais fácil contratar novas damas de companhia. É porque elas cobiçam a posição de sua esposa que vêm atrás de você com tanto fervor. Não que eu imagine que esse tipo de pessoa irá desaparecer, mas poderíamos reduzir significativamente o número delas.
Ela falava como se estivesse se referindo a pragas de jardim.
Quando Suiren começava a falar de concubinas, havia apenas uma pessoa em quem Jinshi pensava. Ele sabia que ela considerava toda aquela ideia nada além de problema. Talvez fosse diferente se ela fosse a filha reclusa de alguma família rica, mas para alguém que já tinha meios de se sustentar e viver a própria vida, tornar-se concubina de Jinshi só poderia ser sufocante.
[Kessel: Ê, Maomao… As orelhas estão quentes? Tá espirrando?]

— Jovem mestre — disse Suiren, com tristeza, ao observar a expressão sombria de Jinshi. — Antes de servi-lo, eu servi Sua Majestade. Talvez eu não fosse tão próxima dele quanto sou de você, mas eu o conhecia.
— Posso imaginar.
— A primeira concubina dele, a Lady Ah-Duo, passou por momentos bem difíceis! Sei que ela sofreu assédio de muitas mulheres.
Jinshi pensou na bela dama que se vestia com roupas masculinas e agora vivia reclusa. Era difícil imaginá-la como alvo de provocações maldosas.
— Elas podiam ser terrivelmente cruéis. Foi tão ruim que cheguei a pensar em intervir, até que, de repente, percebi que todas passaram a segui-la.
Jinshi não respondeu. Então Ah-Duo sempre foi Ah-Duo.
— No começo, quando Sua Majestade procurou a Lady Ah-Duo, achei que fosse algum tipo de brincadeira. Ela era como uma irmã de leite para ele, praticamente um dos rapazes. Eles ainda brincavam de pega-pega até sabe-se lá quando.
Sim, Jinshi já tinha ouvido dizer que, se tivesse nascido homem, Ah-Duo teria sido o braço direito do Imperador.
— Com todo o respeito à Imperatriz Gyokuyou, devo dizer que Sua Majestade ficou profundamente desapontado ao perceber que aquela que ele realmente queria ao seu lado não estava em posição de estar ali.
— Onde quer chegar com isso? — disse Jinshi, finalmente.
— Oh, em nada. Apenas os devaneios de uma velha. Eu só esperava que você escolhesse um caminho que não lhe deixasse arrependimentos.
Com isso, Suiren pegou o prato, no qual restava apenas uma fatia de pêra, e saiu do quarto.
— Sem arrependimentos... — murmurou Jinshi.
Aquilo não seria fácil.
[Kessel: Suiren!!!! A voz da sabedoria, tudo que o Jinshi precisava ouvir!]
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