Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 13: A Dama de Companhia do Irmão Mais Novo de Sua Majestade

Por vários dias depois da expedição de compras, Maomao se viu fazendo a mesma coisa dia após dia: lavando e desinfetando bandagens de curativos. As assistentes médicas já estavam ficando bem cansadas daquilo quando uma mensagem chegou. Mais especificamente, uma mensagem para En’en.

— Só para mim? — ela perguntou.

— Fico imaginando o que pode ser — disse Yao, extremamente curiosa, espiando o conteúdo. Das três, ela era a mais desenvolvida fisicamente, mas seu comportamento, incluindo seus acessos de curiosidade descarada, refletia mais sua idade do que sua aparência.

— Parece ser um aviso de uma nova designação — disse En’en. Quando viram o que estava escrito, as três franziram a testa.

Elas olharam para o médico que havia trazido o aviso.

— Bem, vocês viram. En’en vai ter outro trabalho por um tempo.

En’en foi a que fez a pior cara de todas.

— Sinto muito, senhor, mas devo dizer que reluto em me separar da Lady Yao.

— Essa designação veio de alguém para quem não se diz não — respondeu o médico. Seu tom ainda era amigável, mas claramente não havia espaço para discussão.

O que estava escrito naquele aviso perturbador?

— Então... ela recebeu ordens para servir o estimado irmão mais novo do Imperador? Pelo menos, por enquanto? — disse Yao, pegando o papel e lendo novamente.

Então ela ia tomar conta de Jinshi.

— Posso perguntar uma coisa, senhor? Por que eu? Se isso tem relação com nossos exames, Lady Yao tirou notas melhores do que eu.

Sim, porque você errou de propósito, pensou Maomao, mas foi decente o bastante para não dizer isso em voz alta.

— E eu também não acho que minha origem familiar me torne adequada para esse serviço — continuou En’en. Yao vinha de uma boa família, mas En’en era uma plebeia. Normalmente, se esperaria que as damas de companhia da família imperial viessem de lares ao menos respeitáveis. Mas Maomao achava que tinha uma ideia do motivo de En’en ter sido escolhida.

— Pelo contrário, acho que ele está evitando damas de status alto demais — disse o médico, parecendo satisfeito por saber disso. — Escolha alguém de posição elevada e há grandes chances de ela só estar tentando transformá-lo em marido.

Jinshi tinha vinte anos, um ano a mais que Maomao, e aparentava ser ainda mais velho. Certamente já tinha idade suficiente para encontrar uma esposa ou uma concubina. Na verdade, estava começando a parecer estranho ele ainda não ter feito isso.

— Com aquele rosto dele, a pessoa errada poderia transformar a vida dele em um verdadeiro pesadelo — disse o médico.

Então era exatamente como Maomao suspeitava. En’en podia ser excêntrica à sua própria maneira, mas era absolutamente devotada à sua senhora. Ela nunca faria nada absurdo com Jinshi. Na verdade, ela era tão dedicada a Yao que estava estampado em seu rosto o quanto não tinha interesse em aceitar aquele cargo. Que falta de educação.

[Kessel: A Maomao falando de falta de educação!!! Vivemos para ver isso!]

— Ouvi dizer que Maomao também estava sendo considerada... — O médico lançou um olhar para fora, onde um esquisitão de monóculo estava prensado contra a janela. Evidentemente ele havia voltado de seu afastamento. Todos pareciam já estar acostumados com ele. — ...mas alguém de alto escalão insistiu que ela não seria adequada para a posição, então ela foi removida da lista de candidatos.

No instante em que o esquisitão encarava com mais intensidade, dois subordinados dele apareceram por trás, o afastaram da janela e o arrastaram embora. Maomao desejou que ele não voltasse, mas sabia que não devia esperar mais do que alguns minutos de paz.

— Eles querem você lá amanhã. Eu sei que foi repentino — disse o médico.

En’en não respondeu. Até seu rosto permaneceu inexpressivo, mas, de alguma forma, ela ainda conseguia transmitir uma aura de absoluto desgosto pela ideia. Ela olhou para Yao em busca de ajuda, mas Yao apenas disse:

— Se é uma questão de origem familiar, não há muito o que possamos dizer.

Maomao tinha achado que ela poderia ficar com ciúmes, mas Yao aceitou aquilo com uma facilidade surpreendente diante daquela lógica. Talvez porque soubesse o quanto En’en era competente em seu trabalho.

— Eles poderiam mandar você para praticamente qualquer lugar, En’en. Espero que tudo dê muito certo — disse ela, mostrando um sorriso radiante para a outra garota.

Por um momento, Maomao pensou que talvez fosse a pequena vingança de Yao por En’en sempre manipular o tempo todo, mas não parecia ser o caso. Yao realmente estava dando sua bênção à transferência, completamente alheia ao que En’en sentia ou esperava. Yao era tipicamente ingênua.

En’en fez outra careta. Se sua senhora tivesse interferido naquele momento, talvez pudesse salvá-la, mas Yao simplesmente desejou boa sorte e seguiu em frente. O que mais En’en poderia fazer?

— Então, boa sorte por lá — disse o médico, dando um tapinha em seu ombro. En’en respondeu com um aceno desanimado.

 

— Aqui fica muito mais corrido com um par de mãos a menos — comentou Yao enquanto organizava remédios em algumas gavetas. Ela já vinha conversando mais com Maomao, e o ritmo realmente aumentou agora que En’en havia partido.

— Com certeza — disse Maomao. — En’en trabalhava duro. — Ela separava os remédios em pilhas. De vez em quando recebiam algo incomum, mas naquele dia era apenas reposição de medicamentos comuns.

— Espero que ela esteja bem... Quero acreditar que ela não seria rude com o irmão mais novo de Sua Majestade.

— Tenho certeza de que ela está bem.

— É... Você tem razão. Estamos falando da En’en. Tenho certeza de que vai dar tudo certo.

O que eu quis dizer é que ele não mandaria executá-la só por ela ser um pouco rude com ele… Maomao estava pensando menos em En’en e mais na personalidade de Jinshi. Ele nunca parecia muito disposto a punir as pessoas. Havia momentos em que suas mãos ficavam atadas e ele precisava fazer isso, mas Maomao duvidava seriamente que En’en fosse fazer algo terrível o bastante para acabar nessa situação. Contanto que ela não tente assassiná-lo ativamente.

Enquanto isso, Maomao continuaria fazendo seu trabalho normalmente.

○●○

O escritório de Jinshi estava mais cheio do que o habitual. Ele segurava sua papelada com uma mão enquanto observava os funcionários civis, soldados e damas da corte sendo apresentados a ele. Normalmente, alguém da posição de Jinshi não se daria ao trabalho de conhecer pessoalmente cada novo funcionário contratado. Tinha sido ideia dele mesmo garantir que visse cada um deles.

— Ficaremos bastante ocupados, mas tenho certeza de que vocês trabalharão duro — disse ele, sorrindo para eles. Ele não estava tentando conquistar simpatia, nem mesmo deixar seus subordinados à vontade.

Nenhuma outra pessoa ali estava sorrindo. Sorrir para alguém podia deixar uma boa impressão mas, no caso de Jinshi, também podia ser um prenúncio de desastre. Em seu primeiro dia como “eunuco” no palácio interno, um dos outros eunucos o cumprimentou com um sorriso. Gaoshun desviou o olhar por um instante, e Jinshi acabou arrastado para os arbustos. Os homens dali podiam ter perdido sua posse mais importante, mas isso não bastava para eliminar completamente seus desejos. O homem queria transformar Jinshi em seu brinquedo. Jinshi não sabia como aquilo havia começado, mas estava claro que corria perigo.

— Engraçado. Nunca consegui olhar para isso e rir — murmurou para si mesmo.

Ele socou o eunuco e fugiu, mas aprendeu que relacionamentos assim não eram incomuns entre os homens do palácio interno, que chamavam seus amantes de “cunhados”. Ele não queria pensar nisso. Infelizmente para todos os envolvidos, Jinshi não tinha interesse nesse tipo de coisa.

— Aconteceu alguma coisa, Mestre Jinshi? — perguntou Basen, que finalmente havia se recuperado dos ferimentos. Pelo que Jinshi ouviu, ele continuou o treinamento militar diário sem interrupção, mesmo com o corpo em frangalhos. Gaoshun parecia incrédulo com a resistência do próprio filho.

— Não é nada — respondeu Jinshi. Os novos funcionários pareciam seguros o suficiente. Ele ficou um tanto inquieto quando ouviu que precisavam contratar uma jovem dama de companhia, mas, até agora, tudo parecia correr bem. E agora Suiren pararia de repreendê-lo sempre que ele estivesse em seu quarto.

Ele não podia ser cauteloso demais, especialmente depois da recente tentativa de envenenamento. Precisava manter os olhos bem abertos em tudo. O próprio Jinshi esperava trazer uma certa conhecida de longa data para o cargo, mas acabou ficando com uma colega dela. Em outras palavras, uma das damas da corte do consultório médico.

Como a posição era nova, o teste tinha sido particularmente difícil, e, uma a uma, as mulheres sem aptidão para medicina foram eliminadas. Isso lhe garantia que ao menos aquela jovem sabia o que estava fazendo.

Todos teriam muito trabalho em breve, ainda mais com a apresentação do príncipe se aproximando. Jinshi também precisava voltar ao trabalho, então dispensou todos.

 

Quando a multidão saiu, Jinshi soltou um suspiro. Apenas Basen permanecia na sala, e ele deixaria passar aquele gesto.

— Gostaria que eu preparasse uma bebida para o senhor, Mestre Jinshi?

— Não, não preciso de nada. E você? Está se sentindo melhor?

— Peço sinceras desculpas, senhor, mas minhas corridas matinais ainda estão limitadas a apenas dois li (1km). Em pouco tempo voltarão ao normal.

Aquilo já parecia mais do que suficiente para Jinshi. Ele admirava as capacidades físicas de Basen.

O trabalho de Basen havia se acumulado durante sua ausência, e agora ele tentava recuperar o atraso. Ele não tinha talento para papelada, mas estava se esforçando ao máximo, o que agradava Jinshi.

— Mestre Jinshi — disse Basen, erguendo uma folha de papel. — O que deseja fazer sobre a sacerdotisa de Shaoh que está hospedada na vila?

Política podia ser um tipo muito especial de dor de cabeça. Coisas que poderiam ser facilmente comunicadas oralmente precisavam ser anunciadas em memorandos detalhados até o último detalhe. A sacerdotisa havia chegado à vila dias atrás, e só agora os documentos sobre o assunto estavam chegando?

Quanto à sacerdotisa, Jinshi havia ido apresentar seus cumprimentos formais, mas só isso. Ele estava sob a impressão de que outra pessoa cuidava do assunto, então imagine sua surpresa quando aquilo caiu em seu colo.

— Agora isso é problema meu não é? — Ele olhou para a montanha de papelada e suspirou outra vez. O que mais poderia fazer? Assuntos relacionados ao palácio interno continuavam chegando até ele, e parecia que estava recaindo sobre seus ombros (assim ele imaginou) preencher o vazio deixado pela ausência do Clã Shi.

— Você acha que todos me odeiam? — perguntou ele.

— Não, senhor. Se me permite dizer, acho que todos o adoram.

— Eu preferia que você não dissesse isso com uma cara tão séria.

— Não? Acho que todos vieram aqui por um desejo genuíno de conhecê-lo, senhor.

A pior parte era que não havia o menor traço de malícia na voz de Basen.

O motivo das damas da corte não terem permissão para entrar no escritório de Jinshi era porque muitas delas “derrubavam” seus papéis só para ter uma desculpa para prolongar o tempo ali dentro. Na verdade, alguns burocratas homens tentavam fazer a mesma coisa, tanto que, hoje em dia, qualquer um que deixasse papéis cair no escritório de Jinshi era proibido de entrar novamente.

Jinshi não considerava aquilo exatamente uma mancha na reputação dos culpados, mas, para quem via de fora, era impossível não pensar que havia algo estranho acontecendo ali dentro. Algumas pessoas começaram a imaginar que o escritório de Jinshi era um lugar onde o menor deslize recebia uma punição severa.

Apesar de tudo isso, a quantidade de papelada nunca pareceu diminuir.

— De qualquer forma, a sacerdotisa Shaoh. Sim. Os médicos ainda não foram examiná-la, foram? — perguntou Jinshi.

— Não, senhor. O plano é que o Oficial Médico Kan e as novas assistentes médicas sejam os responsáveis pelo exame.

Aquela mulher era uma dignitária estrangeira, uma sacerdotisa. Não podiam simplesmente submetê-la a um exame feito por homens, mesmo que ela estivesse ali para tratamento médico.

Eles enviariam o eunuco Kan Luomen: o pai de Maomao e tio de Lakan. As damas da corte fariam o exame de fato, enquanto Luomen daria o diagnóstico com base no que elas lhe relatassem. Um método extremamente indireto na melhor das hipóteses.

Indireto, mas necessário. Era o que a delegação Shaohnesa havia solicitado. Jinshi tinha acabado de requisitar uma das assistentes médicas para si mesmo, restando apenas duas, mas pelo menos Maomao estaria lá. Ele esperava que ela e Luomen trabalhassem bem juntos.

— Certo. Descubra os horários de todos e diga ao escritório médico para marcar um exame. De preferência um que acomode as necessidades e a disponibilidade da sacerdotisa o máximo possível.

— Sim, senhor. — Basen anotou rapidamente as ordens e as entregou a um mensageiro que aguardava do lado de fora do escritório.

— Há mais alguma coisa? — perguntou Jinshi. Ele queria resolver primeiro os assuntos mais importantes. As irritações persistentes que pareciam sempre voltar para assombrá-lo podiam esperar.

— Nada digno de nota, senhor. Ah! Exceto...

— Sim?

Basen pareceu desconfortável. — Já recebemos um pedido de transferência. — Ele estendeu o documento de transferência, que Jinshi pegou e examinou. Estava escrito com uma caligrafia extremamente refinada. Devia ter vindo de uma das pessoas que ele havia conhecido mais cedo. — Uma dama da corte chamada En’en solicita transferência de volta para o consultório médico.

— Ela era uma das assistentes médicas?

Como diziam, semelhantes atraem semelhantes. Um trabalho um tanto incomum podia atrair pessoas igualmente incomuns. Jinshi não tinha o menor interesse em manter damas de companhia demais ao seu redor, então imaginava que, assim que as outras mulheres aprendessem o serviço, talvez conseguissem se virar com uma pessoa a menos. Se essa En’en apenas aguentasse até lá, talvez realmente conseguisse o que queria.

— Com base em quê contratamos En’en? — perguntou ele.

— Ela é diligente em todos os aspectos do trabalho e excelente em dar suporte às pessoas ao redor. Também serve como dama de companhia desde os dez anos de idade, então já sabe bem como lidar com esse tipo de função. Aprende rápido, mas não demonstra nenhum desejo de ascender socialmente, o que suponho ser tanto uma qualidade quanto um defeito.

— Sim, isso parece promissor.

— Ela também... Bem, isso não é exatamente sobre as capacidades dela… —  Basen parecia sem jeito, não conseguia sequer olhar diretamente para o papel.

— Sim? Pode falar.

— Senhor. Há uma observação adicional aqui. Não é que ela se sinta desconfortável perto de homens ou que os odeie especificamente… — Ele hesitou só por um instante antes de dizer — Mas ela demonstrou certa preferência por mulheres.

Uma preferência por mulheres! Ou seja, ela se interessava romanticamente por outras mulheres apesar de ser uma mulher também.

— Ela fica! — exclamou Jinshi, jogando o pedido de transferência para o lado.

— Me-Mestre Jinshi!

— Ela é perfeita para o cargo. Não vou deixar essa escapar!

Ele abriu um enorme sorriso enquanto os dois voltavam ao trabalho.

[Noelle: kkkkkkkkkkkkkk Ele achou tesouro, lógico que não vai soltar! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk]

[Kessel: Ufa, finalmente posso conversar sobre isso! Acho muito interessante a escolha da Natsu de colocar a En’en como lésbica. Isso explica bastante a relação intrigante que a Maomao notou em alguns momentos nos outros capítulos. Alguém aqui duvida que a En’en é apaixonada pela Lady Yao? Que relação complicada essas duas têm… a En’en vive tão próxima de quem ela ama, mas ao mesmo tempo, tão distante. Em tese, elas nunca poderão viver juntas. Ou será que viverão? Ughh, quero descobrir isso logo!]


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora