Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 7

Capítulo 1: O Exame de Seleção das Damas da Corte

— Já faz um tempo.

— Sim, senhor. Muito tempo — respondeu Maomao, praticamente repetindo as palavras do homem à sua frente. Ela estava distraidamente preparando alguns remédios em sua farmácia no distrito dos prazeres quando aparece quem, senão o próprio Gaoshun, aquele que sempre a deixava com aquela sensação de confusão.

— Se me permite perguntar, senhor, o que está acontecendo? — Pelo que ela sabia, Gaoshun não era mais o assistente de Jinshi, mas servia diretamente ao Imperador. Ela se preparou: será que Sua Majestade tinha algum assunto a tratar com ela?

— Não é nada. Meu filho, maldita a sua imprudência, deveria ter vindo, mas considerando que ele se feriu recentemente da forma mais ridícula possível…

Então Gaoshun tinha vindo em seu lugar, reassumindo por um tempo o posto ao lado de Jinshi enquanto o garoto se recuperava.

— Ah. Sim, os ferimentos dele foram bem graves — disse Maomao, lembrando-se dos acontecimentos recentes: aquilo tinha causado um verdadeiro alvoroço naquela região do palácio. Ela ainda conseguia visualizar o jovem todo machucado; era doloroso só de olhar para ele.

— Sim, ele estava um desastre completo — concordou Gaoshun.

— Estou impressionada que ele tenha sobrevivido.

— Meu filho sempre foi resistente, se nada mais. — O comentário poderia soar duro, mas o “filho idiota” de Gaoshun, ou seja, Basen, tinha sofrido aqueles ferimentos enquanto cumpria seu dever. Ele sacrificou a própria saúde e bem-estar para salvar a Concubina Lishu, que havia se jogado de uma varanda sob o efeito das drogas da Dama Branca.

Foi uma atitude admirável, mas, tirando a mão direita, cada parte do corpo dele estava quebrada, arranhada ou dilacerada. Maomao, sinceramente, se surpreendia por ele ter permanecido consciente.

— Ele jurou que voltaria ao trabalho usando muletas, então tive que mantê-lo em casa à força. No momento, ele está se recuperando sob o olhar atento da mãe e da irmã mais velha.

Maomao assentiu, compreensiva, enquanto abria uma gaveta. Devia haver chá ali em algum lugar.

Gaoshun, porém, disse:

— Não precisa se preocupar comigo, Xiaomao.

— Tem certeza, senhor? Tenho alguns pãezinhos da rua principal que dizem que acabam todos os dias antes do meio-dia.

Ela os havia conseguido com as cortesãs, que disseram que planejavam dá-los às aprendizes até perceberem que não havia o suficiente e não queriam provocar uma briga. Como havia apenas uma Maomao, não haveria disputa por ciúmes.

Os pãezinhos eram feitos de massa cozida no vapor, com açúcar mascavo e inhame; eram conhecidos pela doçura delicada e pela parte externa rica e macia.

— Você me convenceu — disse Gaoshun. Ele podia parecer um soldado severo, mas tinha um gosto insaciável por doces.

[Noelle: Ai que saudade que eu estava do nosso Gaoshun e suas interações com Xiaomao <3]

Maomao preparou chá, pegando um pouco que havia feito naquela manhã e resfriando-o com água de poço. Conseguir servir uma bebida gelada a um convidado durante a estação quente era o auge do luxo. A madame não hesitou em permitir que Gaoshun fosse servido em um copo de vidro, algo normalmente reservado apenas aos seus melhores clientes. (Por sinal, Basen recebia algo um nível abaixo na escala de luxo.)

Gaoshun começou a comer o pãozinho, com um sorriso de puro contentamento no rosto. O que ele estaria fazendo ali? Certamente não tinha vindo apenas para trocar amenidades. Quando percebeu Maomao observando, Gaoshun enfiou o restante do doce na boca e rapidamente engoliu com um pouco de chá.

— Cof Cof! Se me permite ir direto ao assunto — disse ele.

Maomao imediatamente teve um mau pressentimento sobre isso.

— Tenho outro pãozinho aqui, senhor. Por favor, fique à vontade. — Ela lhe ofereceu aquele que pretendia comer ela mesma. De qualquer forma, ela preferia vinho a doces. Gaoshun era um homem atencioso, ela sabia que um dia aquele pãozinho voltaria para ela na forma de uma boa bebida.

Gaoshun devorou o segundo pãozinho e então limpou a garganta.

— Xiaomao, você tem alguma intenção de se tornar uma oficial médica?

— O senhor sabe que isso não é possível. — Mulheres não podiam se tornar médicas da corte, não sob as leis vigentes.

— Perdoe-me. Acho que formulei mal a pergunta. Você tem alguma intenção de alcançar uma posição equivalente à de uma oficial médica?

Dessa vez, Maomao não respondeu tão rapidamente. Uma posição equivalente à de uma oficial médica: em outras palavras, uma que lhe permitisse algum acesso às drogas do departamento médico. Ela tentou manter os lábios neutros, em linha reta, mas não conseguiu impedir um leve tremor.

Um brilho surgiu nos olhos de Gaoshun.

— Você também poderia testar novos medicamentos. Temos pessoas que fazem isso, sabia?

Ainda assim, Maomao permaneceu em silêncio, mas sentiu a bochecha tremer e os cantos dos lábios começarem a se erguerem.

Não! Não ceda! Tem uma armadilha nisso. Tem que ter!

A ideia inteira era boa demais para ser verdade, e isso significava que era uma armadilha. Além disso, foi Gaoshun quem trouxe a proposta. Não havia almoço grátis com ele, e ela sabia disso. Sem contar que havia a loja para pensar. Ela tinha um apotecário aprendiz, é verdade, mas ele começaria a reclamar se ela o deixasse sozinho de novo. Ele ainda estava longe de conseguir se virar por conta própria.

Certo, é aqui que eu recuso.

Gaoshun devia ter percebido que as coisas não iam bem, porque acabou falando primeiro.

— Você conhece Shaoh, certo? No oeste? Lembra-se da emissária daquele país?

— Ah... você quer dizer... — Aylin. Esse era o nome dela. Maomao e Lahan a encontraram durante a recente viagem à capital do oeste. Pensar nela fez Maomao hesitar. Essa era a mulher que havia pedido provisões ou asilo político. Mesmo antes daquele encontro no oeste, ela e uma prima dela já tinham ido a Li.

Por outro lado, Gaoshun mencionou apenas uma emissária. Talvez fosse outra pessoa. Maomao escolheu a forma mais segura de confirmar:

— O senhor se refere às duas que estavam no banquete em que o Mestre Jinshi trabalhou tanto no ano passado, certo?

Ela poderia descrevê-las como “a dupla problemática que queria tanto ver o espírito da lua de décadas atrás” sem se meter em encrenca. A dupla incluía Aylin, a mulher que ela conheceu na capital do oeste, e a outra mulher, Ayla. Tão distorcida quanto a prima, ela era uma forte suspeita de ter vendido o tipo mais recente de armas de fogo ao clã Shi. As duas eram problemas ambulantes, sem dúvida.

— Imagino que saiba que Aylin foi recentemente admitida no palácio interno como concubina de médio escalão.

— Sim, senhor. E, se me permite perguntar, isso é realmente seguro? A entrada dela pareceu bastante apressada.

— Não tenho certeza alguma. Por ser estrangeira, as outras concubinas e damas do palácio não estão nada receptivas com ela. Além disso, ela não trouxe sequer uma única criada de Shaoh. — Considerando sua posição, parecia um compromisso aceitável… mas também a fez parecer bastante solitária.

— Então é assim que isso me envolve? — perguntou Maomao. Se tivesse um status equivalente ao de uma oficial médica, poderia entrar facilmente no palácio interno.

— Normalmente, o ideal seria você entrar como dama de companhia. Mas... — A expressão de Gaoshun era de conflito.

Contra todas as probabilidades, até o ano anterior Maomao havia sido provadora de comida da Concubina… cof cof, Imperatriz Gyokuyou. Depois, ela deixou o posto e voltou ao distrito dos prazeres. Por ordem direta, é verdade, mas voltar agora como atendente de outra mulher levantaria muitas questões. Sem contar que a própria Imperatriz Gyokuyou poderia não gostar nada disso.

— Com os privilégios de uma oficial médica, você pode até voltar a servir a Imperatriz Gyokuyou como assistente. Ela ficou muito feliz com a ideia quando mencionamos isso.

— Eu ainda não concordei — disse Maomao, mas sabia que, se até a Imperatriz Gyokuyou já estava envolvida...

— Claro. Tenho aqui uma carta de recomendação da própria Imperatriz. — Completamente tranquilo, Gaoshun lhe estendeu uma carta. Era estranho; ela tinha a impressão de já ter visto algo parecido antes. — E também tenho uma do Mestre Jinshi. — Ele apresentou outra carta. O rosto de Maomao começou a tremer. — E aqui está uma de Sua Majestade.

[Kessel: É… todos querem um pedacinho da Maomao.]

— Não consigo imaginar por que Sua Majestade... — Maomao deu um passo para trás diante daquela última e mais imponente carta.

Gaoshun, com a testa franzida, fechou lentamente os olhos.

— Você se lembra de quando pedimos que fizesse o exame para damas da corte, para trabalhar no palácio externo?

— Sim. E o senhor se lembra que eu falhei miseravelmente?

Houve um breve período em que Maomao trabalhou diretamente como subordinada de Jinshi. Naquela época, ele e Gaoshun insistiram para que ela se tornasse uma dama da corte qualificada, empurrando vários livros grossos para que ela estudasse.

— Lembro. Achávamos que você passaria com facilidade. Sabíamos da sua dedicação ao estudo de medicamentos e venenos, e de como aprende rápido.

— Pois é... infelizmente, acho que decepcionei vocês.

Maomao não era exatamente mais inteligente ou melhor estudante do que qualquer outra pessoa. Ela apenas se importava menos com certas coisas que a maioria considerava importantes e direcionava essa atenção extra para o que lhe interessava.

— Só para confirmar, Xiaomao, não é que você seja incapaz de aprender coisas que não te interessam, apenas é mais difícil, certo? Por exemplo, você aprendeu sobre o distrito dos prazeres.

— Eu não tive escolha.

A madame podia parecer uma múmia ambulante, mas ainda tinha muita energia. Maomao teria sido punida se não aprendesse o que lhe ensinavam, e pior, não teria recebido comida. Seu pai, Luomen, tentou protegê-la, mas ele não tinha como vencer a madame. Assim, para sobreviver, Maomao aprendeu tudo sobre o distrito, contando com a ajuda das suas “irmãs mais velhas”.

— Muito bem, então você está dizendo que você consegue aprender quando é suficientemente pressionada. Um sentimento que, devo observar, não parece ter acontecido nem mesmo com ordens diretas do Mestre Jinshi.

Maomao recuou mais um passo.

Gaoshun segurava três cartas: de Jinshi, da Imperatriz Gyokuyou e do Imperador. Talvez não fossem comunicados oficiais, mas, mesmo assim, ela sentia que estava sendo pressionada por três das pessoas mais difíceis de contrariar em todo o país.

— De um jeito ou de outro, Xiaomao, precisamos que você passe naquele exame.

— F-Fácil falar...

Gaoshun abriu a porta da loja com um golpe seco. Um homem, aparentemente um de seus subordinados, aguardava do lado de fora com um pacote envolto em pano. Ele o trouxe para dentro e o abriu, revelando uma pilha reluzente de grãos de prata.

— Desta vez — disse Gaoshun, e Maomao percebeu a madame ao fundo, segurando um de seus bastões favoritos de disciplina e encarando a prata com olhos famintos. Estou encurralada! Maomao pensou. — Desta vez, você vai passar no exame. Sem discussão.

E assim tudo foi decidido.

[Noelle: Gente estou rachando o bico aqui de como o Gaoshun é esperto e consegue o que quer kkkkkk Maomao se lascou kkk Nunca imaginei esse desenrolar kkk]

 

O planejamento de Gaoshun era uma obra de arte. A madame já havia sido paga, a farmácia ficaria sob os cuidados do aprendiz Sazen, e Maomao receberia um quarto extra na Casa Verdigris para estudar.

De vez em quando, o pequeno pestinha Chou-u aparecia e interrompia seu trabalho, mas a madame ou os empregados sempre o agarravam pelo colarinho e o levavam embora. Era uma pena para ele, mas ele estava atrapalhando Maomao enquanto ela estudava. O que mais ele esperava?

No quarto, queimavam um incenso que supostamente aumentava a concentração, e as suaves notas de erhu e qin vinham do cômodo ao lado, onde cortesãs especialmente talentosas haviam sido escolhidas para tocar.

Diziam que estudar dava vontade de comer doces, mas, no lugar disso, ofereciam a Maomao biscoitos de arroz salgados e suco de frutas gelado.

Eles tinham pensado em tudo. Quanto isso custou? Ela se perguntou.

Custasse o que custasse, ela frequentemente se pegava querendo tirar um cochilo, mas a madame fazia rondas regulares, o que acabava com qualquer chance disso acontecer. Tendo sido uma cortesã de alto nível na juventude, ela era mais instruída do que a maioria das pessoas.

— Você não consegue recitar nem mesmo um desses poemas? — exigiu ela.

— É um exame médico! Por que tem poesia incluída nisso?! — retrucou Maomao.

[Noelle: A madame é gananciosa, mas entrega um trabalho bem feito, não é mesmo apotecários? kkkk]

Tecnicamente, ela não faria o exame para oficial médico, mas sim o de damas da corte que desejavam servir no departamento médico. Havia várias exigências para se tornar uma dama da corte, mas a damas especializadas em medicina era algo novo. Na opinião de Maomao, já que criaram uma nova área, poderiam ter aproveitado para tirar a poesia da prova.

— Isso não tem nada a ver com medicina. Tem até história… até cópia de sutras! — reclamou ela.

— Conhecer a história transforma uma pessoa de dentro para fora. E quanto melhor sua caligrafia, mais fácil será de ler. Copiar sutras é um excelente treino.

Era típico que justamente naquele momento a madame dissesse algo sensato. Maomao desejava que ela apenas falasse algo como “não perca tempo com o que não dá dinheiro”, como fazia normalmente. Talvez fosse pedir demais, considerando a quantidade de prata envolvida desta vez.

Os caracteres que a velha escrevia para Maomao copiar eram lindos. Sua mão podia agora parecer um galho seco, mas, no passado, já exibiu unhas brilhantes e dedos ágeis como peixes na água.

Homens gostavam de mulheres com caligrafia bonita. Homens gostavam de mulheres bonitas. Ela passou a vida se aperfeiçoando para agradar homens, e agora estava ali, ensinando as mesmas lições às mulheres do distrito dos prazeres. Se foi assim tão bela, por que não escolheu outro caminho? Talvez não tenha tido escolha.

Maomao expressou um pensamento que às vezes lhe vinha à mente:

— Você pode escrever caracteres lindos e ainda assim dizer coisas horríveis com eles.

Ela achou que receberia um golpe na cabeça, mas nada aconteceu. — Ninguém sabe se você é bonita ou imunda por dentro — disse a velha. — Então é melhor escrever bonito. — Em seguida, ela lançou um olhar significativo para os exemplos, como se dissesse: Agora, mãos à obra. Os caracteres perfeitos e equilibrados pareciam dignos de uma folha de respostas de um exame oficial.

— Sim, tudo bem — disse Maomao, sabendo que o bastão a aguardava se tentasse relaxar. Ela arregaçou as mangas e pegou o pincel.

 

O exame para damas da corte era aplicado com certa frequência. Diferente do exame imperial, era feito exclusivamente por jovens mulheres, que não permaneciam tanto tempo em serviço quanto os homens, o que gerava uma rotatividade constante e necessidade contínua de novas candidatas.

Em geral, as mulheres que buscavam se tornar damas da corte eram filhas de oficiais ou de famílias mercantes ricas; para elas, servir na corte era um feito a ser exibido como potencial noiva ou uma forma de encontrar um marido. Pouquíssimas se candidatavam por paixão pelo trabalho. Maomao havia experimentado certa hostilidade de algumas damas da corte quando servia como assistente de Jinshi, e sinceramente, não lhe parecia que elas levavam o trabalho tão a sério assim.

O exame aconteceu em um prédio escolar na parte norte da capital. O exame oficial do serviço civil era aplicado em outra cidade, em algum lugar ao norte da capital, mas, para uma prova realizada com tanta frequência quanto o exame de serviço feminino, era muito mais fácil fazer tudo na própria capital.

Após duas semanas de estudo ininterrupto, Maomao chegou ao exame desanimada. Havia cerca de cem pessoas ali, o que não era surpreendente, considerando que não eram apenas aspirantes a assistentes médicos que estavam presentes.

Não há muito a dizer sobre a prova em si. Ele terminou em poucas horas, e Maomao logo estava a caminho de casa. Seus documentos preliminares já haviam sido verificados, embora ela nunca tivesse esperado falhar nessa etapa. Ela quase começou a se preocupar achando que tinha passado por tratamento especial.

Não... Se eles fossem fazer isso por mim, então por que me fariam estudar tanto? Ela preferia pensar que poderia passar por mérito próprio. De qualquer forma, ela estava razoavelmente confiante no seu desempenho, se algo fosse fazê-la tropeçar, seriam a poesia clássica e a cópia de sutras, matérias pelas quais não tinha interesse algum. Francamente, se tivesse cometido algum erro em qualquer outra coisa, gostaria que a avisassem, porque o exame para assistente médico consistia em conhecimentos completamente elementares sobre medicamentos e medicina. Maomao poderia ter respondido dez vezes mais perguntas do que haviam feito no tempo previsto para a prova.

Depois de terminar as respostas rapidamente, Maomao não tinha nada em especial para fazer, então pensou em começar a caminhar para casa. E teria feito isso, se não tivesse ouvido aquela voz idiota.

— O quê? Como assim eu não posso fazer a prova?

Algum tipo de discussão estava acontecendo na frente do local do exame, envolvendo o oficial responsável e alguém que parecia ser um candidato… mas havia algo estranho naquele candidato em particular. Ele estava vestido com roupas femininas, mas era fisicamente bem grande. Claro, existiam mulheres altas, mas aquela pessoa também tinha uma voz grave... uma voz que Maomao reconhecia.

Sinto que não é a primeira vez que vejo algo assim, pensou ela. Ela queria ignorar o mau pressentimento, mas não conseguiu tirar aquela cena bizarra da cabeça.

— Por quê, senhor? Por que não vai me deixar entrar? — perguntou a “mulher”, tomando cuidado para falar com uma educação impecável. Seu rosto estava coberto por um pano, e, naquele ponto, as suspeitas de Maomao se tornaram certeza. De fato, a pessoa parecia uma mulher, se você olhasse apenas para o rosto. Tinha traços atraentes, equilibrados e delicados, sem falar na maquiagem muito bem feita. Mas claramente estava afinando a voz, e o jeito como se contorcia era particularmente desagradável.

— O que você está fazendo? — perguntou Maomao. Ela poderia ter ignorado tudo, mas ficou com pena do oficial preso no meio daquilo. Ele parecia um homem decente. Se Maomao estivesse no lugar dele, teria chamado a segurança imediatamente. — Kokuyou!

A “mulher” era, na verdade, um homem que Maomao conheceu pela primeira vez em um navio voltando da capital do oeste. Ele tinha cicatrizes de varíola em metade do rosto, que era o que o pano escondia. Ele era médico, mas, infelizmente, as cicatrizes o impediam de conseguir um trabalho decente. Por outro lado, sua personalidade idiota não podia ser atribuída ao azar.

— Ah, Maomao! Quanto tempo! Escuta, você não vai acreditar! Esse homem malvado não quer me deixar fazer a prova! — Ele piscou com o único olho visível, como quem dizia entra na brincadeira!. Ela desejou que ele não fizesse aquilo. Era perturbador.

Não faz diferença mesmo se eu quisesse entrar na brincadeira. — A prova já acabou.

— O quê? Você tá brincando! — ele gritou, levando as mãos às bochechas de forma teatral. Muito útil.

— O coitado só está fazendo o trabalho dele. Vamos — disse Maomao, puxando Kokuyou para longe do local do exame.

 

É assustador como alguém pode ser arrastado pelo fluxo dos acontecimentos: por exemplo, aquilo levou imediata e inevitavelmente Maomao a almoçar com um sujeito estranho vestido com roupas femininas. Ela queria que ele se trocasse, mas, infelizmente, ele não tinha trazido outra roupa. (Ele informou a Maomao que havia pegado o traje emprestado da esposa do chefe da vila onde estava vivendo, o que fez Maomao duvidar “dela” também.)

— E eu que finalmente achei que tinha encontrado um novo trabalho. Então o próximo exame é só daqui a dois meses, é?

— Não importa. Você não pode fazer. Não é qualificado. Embora, se estiver interessado em ser castrado, eu posso ajudar...

— Ah, por favor, não faça iiiiisso! — disse Kokuyou, recuando e se contorcendo novamente. Muito perturbador.

— Eu achei que você estava ajudando aquele velho. O que aconteceu com isso?

Até onde Maomao sabia, Kokuyou estava auxiliando um velho médico em uma vila vizinha. Eles pareciam se dar bem, mesmo que o velho também fosse meio estranho.

— O velhote não tem se sentido muito bem ultimamente. Disse que acha que vai se aposentar do trabalho médico em breve, e que eu deveria procurar outro lugar enquanto ainda é tempo.

A expressão de Maomao ficou incerta, pois ela tinha uma ideia do motivo pelo qual o velho médico poderia estar tão fraco.

— Foi aí que eu ouvi falar dessa oportunidade novinha de ser assistente no escritório médico!

Então verifique os requisitos da próxima vez!

Na verdade, ele provavelmente tinha verificado… foi por isso que apareceu vestido de mulher. Ainda assim, ela queria que ele fizesse algo a respeito disso. Ele até parecia bastante atraente e estava atraindo olhares de alguns homens ao redor. O rosto parcialmente oculto também lhe dava um ar de mistério. Mas, se ouvissem sua voz, isso acabaria com qualquer encanto.

Maomao estava comendo um pequeno pão leve, enquanto Kokuyou comia bolinhos cozidos no vapor.

— O velhote disse que me daria a casa se eu quisesse ficar na vila — comentou Kokuyou. — Também tem muitas ervas medicinais por lá.

— Então é só assumir o lugar dele. Isso parece bom para mim. Qual é o problema? — perguntou Maomao.

— Não é tão simples. O velhote era um antigo oficial médico, certo? As pessoas vinham de longe para vê-lo por causa dessa autoridade. Não acho que vão viajar de longe para ver um cara qualquer que simplesmente apareceu e assumiu o lugar.

Havia verdade nisso. Kokuyou poderia ter conquistado alguma confiança dos moradores da vila, mas um povoado tão pequeno não geraria trabalho suficiente para colocar comida na mesa. Recolher e vender ervas e preparados medicinais talvez fosse o bastante para sobreviver por pouco.

Nesse momento, Maomao levantou o dedo indicador. Esses problemas se resolvem entre si!

— Ei, você teria interesse em ir ao distrito dos prazeres algumas vezes por mês?

Kokuyou só precisou pensar por um instante.

— Se você pagar minhas despesas de viagem, claro. E seria ótimo se eu pudesse ganhar uma refeição também.

— Temos tanto arroz que podemos vender um pouco, então acho que isso não será problema. — Eles ainda tinham o arroz e o trigo que conseguiram depois dos acontecimentos na vila do médico charlatão, e agora também tinham batata doce, tantas que estavam pensando em cozinhá-las em calda e caramelizá-las.

Maomao continuou:

— Sua função seria ensinar conhecimentos medicinais e de ervas ao apotecário aprendiz de lá, além de continuar fornecendo as ervas que compramos no passado. Também vou querer que você prepare quaisquer medicamentos que o aprendiz não consiga, embora ele e nossa proprietária, a madame, precisem aprovar tudo o que você fizer. — Isso era o mínimo, considerando que ela estava basicamente pedindo a um estranho de origem desconhecida que trabalhasse para eles. — O aprendiz pode cuidar da loja, então você nem vai precisar falar com clientes.

— Ahhhh, mas eu sou um ótimo vendedor! — disse Kokuyou, se contorcendo novamente. Considerando que ele não conseguia trabalho justamente porque sua aparência afastava clientes, Maomao preferiu ignorá-lo.

— Que tal este salário? — Maomao levantou um dedo. Junto com o trabalho na vila, seria o suficiente para comer, mesmo que fosse um pouco baixo para um apotecário.

— E que tal isto? — disse Kokuyou, levantando mais alguns dedos da mão de Maomao. Então os dois caíram na risada. Maomao, porém, também lançou um olhar penetrante para ele: para alguém que agia como um idiota, ele tinha um senso de mercado bem afiado. Desistindo da contagem nos dedos, ela acabou discutindo cada detalhe do orçamento com ele. Pelo menos pôde continuar comendo seu pão enquanto fazia isso.


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