Volume 7
Prólogo
Jazgul ficou boquiaberta de espanto diante do maior barco que já tinha visto em sua vida.

O barco iria descer o rio, sair para o mar e então viajaria até um país vizinho, foi o que lhe disseram. Jazgul passaria muitos dias no barco, mais dias do que ela conseguia contar nos dedos das duas mãos (que era o máximo que Jazgul sabia contar). Havia muitas pessoas ao redor que tinham vindo se despedir deles.
O barco era esplêndido. Ela nunca sonhou que um dia poderia andar em uma embarcação assim. Ela vinha de uma família pobre, seus pais não lhe deram nada além de seu nome e refeições mais escassas a cada dia. Então, por fim, eles a venderam como escrava.
Jazgul não conseguia falar. Ela conseguia ouvir, mas, por algum motivo, não tinha voz desde o dia em que nasceu. Ela podia trabalhar, embora talvez não tão duro quanto muitas pessoas. Mas sua família não tinha meios para sustentá-la.
Jazgul tinha certeza de que se tornaria uma “concubina”. Ela não era tão feia, e, embora seu nariz fosse um pouco achatado, bem, sua aparência no geral era charmosa o suficiente para compensar isso. Sim, ser uma concubina a deixaria feliz. Não era como ser uma “prostituta”; essas tinham que trabalhar o tempo todo, todos os dias. Uma concubina, segundo ela tinha ouvido, tinha que agradar apenas um homem.
Assim, quando foi levada à grande casa, ela ficou radiante, certa de que estava prestes a se tornar uma concubina.
— Que prazer tê-la aqui.
Foi com essa saudação que ela foi recebida naquela casa. Ela tinha ouvido dizer que o dono era um velho pervertido, mas nada poderia estar mais longe da verdade. Em vez disso, ela se viu servindo alguém muito, muito encantador. Alguém com cabelos brancos, puros, e levemente rechonchudo.
Ninguém se incomodava com o fato de Jazgul não poder falar e não saber ler ou escrever. Em vez disso, deram a ela papel caro e muita tinta, e disseram que, se não pudesse escrever, deveria desenhar.
Ela aprendeu suas funções com dedicação para poder ser útil naquele lugar e, enquanto aprendia, pôde comer bastante comida e vestir roupas bonitas. Ela descobriu que servia alguém muito gentil e que desenhar era muito divertido. Ela desenhava a paisagem lá fora, ou o dono da casa, ou os servos mais antigos. E, de vez em quando, desenhava algo que tinha visto em um sonho. Uma vez, sonhou que andava em um barco, um tão grande quanto o que estava diante dela agora. Quando desenhou aquela imagem, o dono disse que era especialmente boa.
Sim, ela tinha encontrado um trabalho muito bom.
Perguntaram se ela queria ir com sua senhora em um barco para um país distante, e ela decidiu que queria. Ela já tinha estado em um barco uma vez, depois de ter sido vendida como escrava, mas tinha sido horrível. Este barco parecia muito mais divertido. Ela não tinha passado mal nem mesmo no barco de escravos, então achava que não haveria problema com esse. Mas a pessoa a quem servia era frágil e fraca, então Jazgul teria que trabalhar ainda mais e ser ainda mais enérgica.
Ela deduziu que a pessoa a quem servia estava doente, com a pele pálida, cabelos brancos e olhos vermelhos como a polpa de uma fruta. Uma pele que ficava vermelha e queimava sob o sol do meio-dia, essa pessoa não conseguia suportar nem lugares muito iluminados. Mas pele e cabelo brancos e olhos vermelhos eram sinais de alguém escolhido por Deus, e isso os tornava especiais. Sua senhora insistia que essas características não eram um fardo. Jazgul achava sua senhora sortuda e, como se pudesse ler seus pensamentos, uma mão pálida se estendeu e acariciou sua garganta, e disseram a ela que também era especial. Ela tinha algo ainda mais especial do que uma voz. O pensamento a deixou muito feliz.
A pessoa a quem Jazgul servia era muito importante, alguém que tinha a confiança do rei. Por que alguém tão importante teria que ir para tão longe? A razão era o trabalho. Ela era tão especial que podia fazer coisas que o rei não podia.
Jazgul servia alguém muito inteligente, que lhe ensinava muitas coisas diferentes, mas ela percebeu que as outras damas de companhia começaram a lhe lançar olhares desagradáveis se passasse tempo demais com a senhora, então ela não podia ficar ali por muito tempo.
— Ei, está pronta? — chamou um homem corpulento que devia ser um dos marinheiros.
Jazgul quase saltava de animação. Ela estava ansiosa para entrar no barco. Será que essa terra distante e estranha estaria cheia de vegetação exuberante como a que ela viu em seu sonho?
— Jazgul.
Uma voz a chamou, e ela se sobressaltou: sua senhora estava ali, usando um véu para evitar o sol. Seu rosto estava coberto com uma grande quantidade de pomada, e uma assistente permanecia diligentemente ao seu lado com um guarda-sol. A mulher, porém, precisava ficar na ponta dos pés, sua senhora era quase uma cabeça mais alta que a dama de companhia.
— Sacerdotisa honrada, por favor, embarque rapidamente, se puder. Sua pele vai queimar.
— Sim, eu entendo.
O sol escaldante era assustador, mas a brisa lá fora era agradável. Olhos vermelhos se estreitaram contra a luz.
Jazgul tinha ouvido de fontes confiáveis que a sacerdotisa já tinha mais de quarenta anos. Idade suficiente para alguém ser avó ou avô na vila de Jazgul, onde as pessoas raramente viviam muito. Na verdade, os pais de Jazgul tinham mais ou menos essa idade. A pele deles era queimada de sol e enrugada por longos anos de trabalho no campo e cuidando do gado. A pele bonita da sacerdotisa parecia bastante jovem em comparação. Talvez ela fosse mais magra há muito tempo, mas agora tinha um leve volume na barriga. Isso era sinal de riqueza e, na vila de Jazgul, seria considerado muito bonito.
— Este país para onde vamos… ele tem muito mais água do que Shaoh.
Jazgul assentiu obedientemente. As outras damas de companhia já tinham lhe contado isso quando ela decidiu ir.
— Lá eles cultivam trigo e arroz, e tudo é muito verde.
O cultivo de grãos era um luxo; mesmo aqueles que os cultivavam viam a maior parte do fruto de seu trabalho ser levada como impostos, e nunca chegavam a prová-los. O centro urbano de Shaoh fervilhava com o comércio, mas não era preciso ir muito longe para encontrar inúmeras vilas miseráveis. Quando os insetos começaram a se multiplicar, a fome veio logo em seguida. A própria Jazgul tinha sido vendida porque sua família não conseguia produzir comida suficiente.
Era muito importante que se tornassem amigos de um país que tinha muita comida. Era por isso que a sacerdotisa honrada estava fazendo essa longa jornada. Eles falavam uma língua diferente nesse novo país, mas Jazgul não podia falar de qualquer forma, então não precisaria conversar. Ainda assim, teria que se concentrar em aprender a ouvir.
A sacerdotisa olhou para Jazgul e afagou sua cabeça. Jazgul fechou os olhos e sorriu como um cabritinho satisfeito.
— Me pergunto, que tipo de sonho você teve ontem à noite?
Ela sonhou que caminhava por uma cidade cheia de águas belas. Mais tarde, no barco, teria tempo para desenhar um quadro.
Enquanto os marinheiros se agitavam, preparando-se para partir, Jazgul, as outras mulheres e a sacerdotisa seguiram para a cabine.
[Kessel: Interessante introdução dessa personagem. Ansioso para ler o que a Jazgul vai aprontar!]
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