Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Prólogo

Jinshi fitava o braseiro crepitante. Iria ser mais uma noite fria. Basen colocou mais algumas brasas no fogo. 

Fazia um frio cortante na capital do oeste depois que o sol se punha. A mudança brusca em relação ao calor do dia era suficiente para deixar algumas pessoas doentes. Mas não Jinshi. Ele não estava exatamente acostumado às noites dessa região arenosa, mas, no momento, preferia o frio.

Jinshi estava recostado em um sofá, com uma expressão melancólica no rosto. Sobre a mesa à sua frente, uma xícara de água quente com mel e cítricos permanecia intocada. Ele estava com sede, mas não conseguia se obrigar a beber. Não queria abrir mão da sensação que ainda permanecia em seus lábios.

Ele deixou os dedos roçarem sua boca, como se quisesse confirmar o que a havia tocado apenas uma hora antes. Seu corpo estava tomado por uma mistura de calor e melancolia que não parecia desaparecer.

Ele ainda conseguia ver ao fechar os olhos: o rosto dela olhando para ele, as estrelas sendo a única luz. Ele não tinha conseguido vê-la bem, e ainda assim parecia se lembrar com tanta clareza. Seus olhos, normalmente abatidos, estavam apagados, mas sua boca brilhava quente e úmida. Um fio se estendeu daquela umidade e então se rompeu. Tinha acabado, percebeu Jinshi com uma mistura de decepção e alívio.

E então veio o arrependimento.

A sua parceira estava completamente à vontade. Não corou, nem desviou o olhar envergonhada. Apenas encarava calmamente, friamente, o homem embaixo dela, depois passou a língua pelos lábios, recolhendo o fio de saliva. Não saboreou o momento, apenas eliminou qualquer vestígio, como se nada tivesse acontecido. O seu corpo pequeno montava o de Jinshi, que tinha facilmente o dobro do seu tamanho, com sua mão pousada sobre o peito dele. Ela podia sentir o coração dele, mas ele não conseguia sentir o dela.

O que ela pensou ao sentir aquilo disparar daquele jeito?

Era óbvio à primeira vista. O vento agitava seus cabelos, criando ondas. Seus olhos se estreitaram, e ela olhou para ele. Seus lábios sedutores se curvaram. 

— Ora, ora. Já acabou? — parecia perguntar, embora não dissesse nada. O seu sorriso deixava claro o quanto ainda ela tinha de sobra.

Isso significava que ele havia perdido.

Os ombros de Jinshi caíram ao lembrar disso. Ele tentou dar alguma resposta à altura, mas a garota apotecária simplesmente disse — Com licença — e foi embora como se nada tivesse acontecido. Alegou ter ouvido seu primo a chamando; era como se não tivesse mais nada a fazer ali. Ela demonstraria mais emoção com a mordida de um cachorro. Ou com uma picada de mosquito.

Jinshi soltou um suspiro ao voltar à realidade.

— Eu sabia, senhor. O senhor não está se sentindo bem, está? — disse seu assistente, Basen. Se Jinshi dissesse que estava bem, Basen insistiria em saber se algo tinha acontecido. E se dissesse que não estava bem, Basen provavelmente assumiria a responsabilidade de cuidar dele e não sairia do quarto.

Havia momentos em que Jinshi queria ficar sozinho, ele sempre se perguntava por que Basen não herdou a intuição do pai, Gaoshun, para perceber isso. O jovem podia ser um tanto obtuso.

Mas Jinshi não era o único estranho naquele dia. Basen também parecia diferente. Suas bochechas estavam mais vermelhas que o normal, não como alguém com boa circulação, mas como alguém empolgado com algo. Talvez fosse a luta contra o leão. Um curativo envolvia sua mão direita, a que segurou a barra de ferro. Estava inchada; quando a garota apotecária viu aquilo, declarou — Está quebrado — e imediatamente começou a examiná-lo, embora provavelmente tivesse dúvidas sobre aquele jovem obtuso.

— Você parece mais cansado do que eu hoje, Basen. Deveria ir descansar.

— De forma alguma, senhor; não depois do que aconteceu. Quem sabe se não tentam algo de novo? — respondeu ele com seriedade. Jinshi realmente, realmente queria que ele entendesse a indireta.

Jinshi pegou a água com mel, mas não bebeu, apenas deixou o calor aquecer suas mãos. Mesmo que vestisse roupas de dormir e fosse para a cama, Basen provavelmente não sairia. Havia outro sofá no quarto com uma almofada que podia servir de travesseiro, se necessário.

Jinshi não conseguia dormir, e parecia que Basen também não. Era a adrenalina de lutar contra um animal grande ou outra coisa completamente diferente? Havia mais do que o costumeiro cenho franzido; os lábios de Basen estavam torcidos em uma expressão tensa. Alguma lembrança parecia surgir em sua mente, e toda vez ele piscava, então balançava a cabeça de repente, como se quisesse se livrar dela. Era muito suspeito.

Uma das coisas estranhas sobre os humanos é como se acalmam ao ver alguém pior do que eles. Jinshi soltou outro suspiro profundo. Ele não podia continuar assim. O banquete da noite podia ter acabado, mas ainda havia mais reuniões no dia seguinte. Ele decidiu recuperar o equilíbrio. Mas percebeu que ficar sozinho não seria a melhor forma de organizar seus pensamentos. Em vez disso, disse:

— Basen.

— Sim, Mestre Jinshi? — respondeu Basen, usando o nome falso de Jinshi. Aquilo era o mais fácil para Jinshi. Se Basen não fosse chamá-lo pelo nome verdadeiro, como fazia quando eram crianças, então essa era a segunda melhor opção.

[Kessel: Lembrando que o nome verdadeiro de Jinshi é Ka Zuigetsu.]

— Você já conseguiu conquistar alguém?

Francamente, Basen não era a melhor escolha para falar sobre esse tipo de assunto, mas Jinshi não buscava uma resposta séria. Ele mesmo podia responder suas perguntas; só queria falar em voz alta para não ficar girando em círculos. Basen não precisava entender exatamente, bastava responder sim, não, ou resmungar de vez em quando.

— Er... como assim, senhor? O senhor falou com tantas pessoas desde que chegamos que não sei a quem pode estar se referindo...

Era verdade: muitas mulheres haviam falado com Jinshi desde sua chegada à capital do oeste. Quantas? Melhor nem dizer.

— Você não precisa terminar esse pensamento — disse Jinshi.

Basen franziu a testa. — Não estou na sua posição, senhor, e não tenho muita experiência nesses assuntos. Embora, no futuro, eu possa acabar adquirindo alguma, querendo ou não.

Provavelmente ele ainda não tinha passado por isso, pelo menos não ainda. Mesmo que se vissem poucas vezes ao ano desde que Jinshi entrou no palácio interno, ainda eram irmãos de leite e amigos de confiança. Jinshi sabia que Basen não se sentia muito à vontade perto de mulheres, quanto mais femininas elas fossem, menos ele queria lidar com elas. O fato dele conseguir conversar normalmente com a garota apotecária sugeria que ele não a via dessa forma, embora Jinshi estivesse dividido sobre se isso era bom ou ruim. Não era misoginia, mas sim um sinal de quão profundamente as experiências iniciais de Basen o haviam influenciado. Um infortúnio causado por suas características particulares.

Basen respondeu à pergunta de Jinshi acariciando o queixo. 

— Só posso dizer que acho que isso depende da pessoa. Há muitas com quem não me sinto totalmente confortável. Mas a situação também importa. O quanto a outra pessoa é de confiança e competente afeta o andamento da conversa, e vice-versa. E o senhor lida com tantas pessoas ao mesmo tempo, Mestre Jinshi... isso não é cansativo?

— “Tantas ao mesmo tempo”? Acho que você está me superestimando. 

Jinshi não esperava uma resposta tão direta. Ele sorriu com ironia ao se ouvir descrito como alguém dominado pela luxúria. Pensando bem, Basen vinha frequentando bastante o distrito dos prazeres no lugar de Gaoshun. Será que ele teria adquirido alguma experiência? Jinshi sabia o quanto a dona daquele bordel era astuta. Ela muito bem poderia ter tentado convencer Basen a utilizar os serviços.

Jinshi olhou para Basen, dividido. A Casa Verdigris era um bordel de alto nível, com cortesãs excelentes. E Basen idealizava as mulheres, mesmo não sendo bom em conversar com elas. As damas educadas, e de mão firme, daquele lugar poderiam surpreendentemente combinar com ele.

Jinshi engoliu em seco.

— Basen... aconteceu alguma coisa? Na Casa Verdigris?

— Q-Que pergunta é essa de repente?! — disse Basen, surpreso. Ele era um péssimo mentiroso, francamente, não era o melhor assistente para política. Mas isso era exatamente o que permitia que Jinshi relaxasse perto dele. — Não aconteceu nada — insistiu Basen. — E, além disso, eu consigo me virar quando preciso!

“Me virar”? Uma escolha de palavras um tanto inquietante, mas sim, Basen era capaz quando necessário. Jinshi reconhecia isso. Ele engoliu seco novamente, percebendo que precisava rever sua visão sobre o irmão de leite.

— O que houve, Mestre Jinshi? Aconteceu algo com você?

— Não. É só que há alguém que eu gostaria muito de superar — disse Jinshi, embora tivesse dificuldade para dizer isso. Ele estava longe de ser habilidoso o suficiente para lidar com “tantas” mulheres ao mesmo tempo, e queria evitar inflar ainda mais a opinião de Basen sobre suas habilidades. Ele continuou:

— Eu achava que sabia jogar esse jogo. Essa pessoa pode ser elegante, mas, na prática, eu deveria estar em vantagem e talvez eu tenha confiado demais nisso. Essa ilusão foi completamente destruída hoje, e isso me deixou me sentindo bastante patético.

Ele talvez nem sempre tivesse muita autoconfiança, mas tinha alguma. Não conseguia contar quantas mulheres se aproximaram dele nos seis anos no palácio interno, e isso lhe deu a crença, um tanto arrogante, de que poderia fazê-las dançar na palma de sua mão.

Basen o olhava com leve espanto.

— Essa pessoa deve ser muito habilidosa, senhor, para fazê-lo dizer isso.

— Sim... — Pelo menos Basen não parecia saber de quem ele falava. Ainda bem. — Discutimos por algo trivial. — disse ele — Eu comecei a discussão... e perdi.

Basen pareceu confuso por um momento, então disse:

— Ah! —  como se tudo fizesse sentido para ele. — O senhor perdeu? Ahh... então é isso que o senhor quer dizer... Um rival, senhor? Que sujeito grosseiro!

Ele podia ser perspicaz nos momentos mais inesperados. Talvez fosse até ofensivo dizer que Jinshi se surpreendeu ao perceber que Basen entendia o que significava rivalidade amorosa. Mas aquele Rikuson, (era esse o nome, certo?) podia parecer só mais um rosto bonito, mas não devia ser subestimado.

Ele era subordinado direto do estrategista Lakan, mas não era com ele que Jinshi se preocupava.

— Então havia alguém naquele banquete capaz de fazer até o senhor admitir derrota, Mestre Jinshi — disse Basen baixinho, com um ar profundamente pensativo.

— Não me elogie, por favor. Sei que ainda sou jovem. Meu oponente é como um salgueiro, ou... como empurrar uma cortina. Não importa o quanto eu pressione ou ataque, ele apenas se adapta ao movimento.

A questão era: o que alguém inexperiente como ele deveria fazer? A única coisa que ajudaria seria adquirir um pouco dessa experiência, supôs ele, mas como? Ele não podia sair por aí tentando conquistar outra mulher, mas também não parecia sensato ir a um bordel simplesmente porque, supostamente, não haveria consequências.

Foi então que Basen disse algo inesperado:

— Posso ajudar de alguma forma?

— Como é? — disse Jinshi quase derrubando a água. Ele sabia que Basen era hétero, então como ele podia dizer aquilo?

E ainda assim, Basen continuou:

— Admito que não sou muito capaz. Sei bem que o senhor é muito mais habilidoso do que eu, Mestre Jinshi. Mas faço essa sugestão pensando que deve ser melhor do que ficar aí sem fazer nada.

— Basen...

Sim, ele estava certo. E, se fosse com Basen... bem, de certa forma, não contava, não é? Devia ser isso que o jovem devia estar pensando. Bem, mas… não, espere. Havia algo estranho ali.

— Posso não ter habilidade, mas confio na minha resistência, no quanto eu consigo aguentar — disse Basen.

— R-Resistência? Eu realmente não acho que...

Não, Jinshi não podia continuar essa conversa. Ele hesitou. Talvez Basen tivesse aprendido alguma coisa distorcida na Casa Verdigris. Deveria contar a Gaoshun?

Basen, porém, olhava para Jinshi com seriedade absoluta. Parecia animado, mas não como antes.

— Pense nisso apenas como um treino, senhor. Nada mais. Posso não ser quem o senhor tem em mente, mas... finja que sou.

Jinshi ficou pensativo, e então agiu. Colocou a xícara na mesa, levantou-se do sofá e lentamente, aproximou-se e ficou em pé diante de Basen.

— Devemos ir para outro lugar, senhor? Aqui está meio apertado.

— Não, há espaço suficiente.

Não era como se precisassem usar a cama. E definitivamente não queria que ninguém os visse, então precisava terminar isso enquanto ainda estavam naquele quarto.

Basen era cerca de dois sun mais baixo que Jinshi, ele desejou que fosse mais sete.

[Kessel: 1 Sun = 3,33 Centímetros. Logo, ele é quase 7 cm mais baixo que o Jinshi!]

Jinshi se aproximou, e Basen recuou. O que era isso? Ele se comportava exatamente como a pessoa que Jinshi estava imaginando!

— Mestre Jinshi?

— Está tudo bem. Perfeito assim.

— Eu... estou de mãos vazias...

— Eu também.

Sim... Agora que pensava nisso, ele já tinha ouvido falar de vários utensílios e artifícios, mas nunca imaginou que Basen sugeriria algo assim. Definitivamente ensinaram coisas perversas a ele no distrito dos prazeres. Mas talvez fosse melhor não contar a Gaoshun.

Tudo bem. Não havia mais motivo para Jinshi hesitar, então. Não havia motivo para ser excessivamente contido.

Cada vez que Jinshi se aproximava, Basen abria espaço novamente, não com o desequilíbrio da garota apotecária, mas com a agilidade de um soldado treinado.

— Mestre Jinshi?

— Essa pessoa nunca toma a iniciativa, apenas responde ao que fazem com ela.

— Então, Mestre Jinshi, eu deveria…?

Basen o olhava para Jinshi profundamente preocupado; já estava encostado na parede. Jinshi já tinha feito isso antes, podia até chamar de sua especialidade.

Com Basen praticamente encurralado, Jinshi apoiou a mão com firmeza na parede.

Bam!

— Me-Mestre Jinshi...

— Não. Fique quieto.

Jinshi concentrou sua imaginação: não estava visualizando seu irmão de leite, mas a pessoa a quem mais desejava. Ele precisava agir antes que a boca falasse, aquela boca que normalmente era tão pouco articulada, mas que se tornava loquaz e perspicaz nos momentos mais inusitados. Ele segurou o queixo de Basen com a mão livre e pressionou o polegar contra seus lábios.

— M-M-M... — Basen ficou completamente pálido, e, daquela distância, Jinshi viu que estava coberto de suor. Por que ele parecia tão preocupado? Aquilo tinha sido ideia dele!  De alguma forma, ele quase parecia não ter esperado que nada disso acontecesse.

Será que houve algum engano ali? Algum mal-entendido crucial e grave?

Talvez fosse a tensão que ambos estavam sentindo, nenhum dos dois percebeu o som de vozes bem ali do lado de fora. E, bem quando Jinshi estava prestes a juntar as peças, a porta da sala se abriu com um estrondo tremendo.

— Já faz tempo desde que bebemos juntos! E eu capturei uma presa fascinante na minha rede! — anunciou uma voz alegre, mas de gênero neutro.

— La-Lady Ah-Duo! — gritou um guarda, mas a adorável pessoa vestida com roupas masculinas já havia entrado no quarto. Um cheiro de álcool a acompanhava; parecia ter começado a beber sozinha antes de lembrar de convidar Jinshi. Era assim desde o palácio interno, sempre tentando fazê-lo beber com ela. Talvez estivesse um pouco alterada, porque sua entrada foi, no mínimo, abrupta.

E o momento que ela escolheu para fazer isso não poderia ser pior.

Jinshi estava praticamente sobre Basen, que estava preso contra a parede, com os dedos de Jinshi roçando seus lábios em um gesto inconfundivelmente íntimo.

Basen suava e estava completamente pálido.

Os dois guardas que tentavam conter Ah-Duo cobriram os olhos com as mãos, espiando por entre os dedos. Quanto a Ah-Duo, seus olhos se arregalaram e sua boca se abriu.

— Ah! — disse ela. — É verdade. Você não precisa escolher uma flor. Acho que me enganei.

Com isso, ela recuou e fechou a porta educadamente.

Nem Jinshi nem Basen disseram nada, mas, após um momento de silêncio, a mansão You, mergulhada na escuridão, foi preenchida pelos gritos de dois homens discutindo entre si.

[Noelle: Pensa na decepção da mamãe Ah-Duo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk esse prólogo foi de zero a mil kkkkk]

[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Melhor prólogo já escrito! Jinshi é o nosso último romântico.]


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