Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 1: A Capital do Oeste — Quarto Dia

A luz do sol que atravessava as cortinas forçou as pesadas pálpebras de Maomao a se abrirem. A cama (com um dossel elegante), o ar claro e luminoso, e a mobília elaborada lembraram mais uma vez que ela não estava em sua casa, na capital.

Quero... dormir... mais...

Ela se sentou, esfregando os olhos. As noites eram tão frias que ela dormia sob vários cobertores pesados e algum tipo de pele, mas assim que o sol nascia, o calor se tornava sufocante. Um dos cobertores já estava no chão, e os pés de Maomao tinham escapado para fora das cobertas.

Ela achava que tinha ouvido gritos no meio da noite; aquilo a despertou, e depois disso dormiu apenas de forma leve. Quem faria uma coisa dessas? Que vizinhos insuportáveis.

O café da manhã deveria chegar em breve. Maomao ficou feliz por não precisarem se reunir a todos para comer, provavelmente uma cortesia com os hóspedes de ressaca. Decidindo se trocar antes que a criada chegasse, Maomao tirou sua roupa de dormir e vestiu uma roupa escolhida ao acaso de um cabide.

Hoje ela usava uma saia comum e uma blusa de mangas curtas sob um tecido leve que caía por cima. A melhor coisa era como a roupa deixava o corpo respirar. Bordados discretos na gola e na barra davam um ar ocidental. O grampo de cabelo de prata estava sobre a mesa.

Hum...

Maomao não o colocou na cabeça, preferindo usar um simples laço para prender o cabelo. Ainda assim, guardou o prendedor entre as dobras da roupa para não perdê-lo. Ela sempre carregava um pequeno pacote com remédios, bandagens e coisas do tipo, então apenas o adicionou ali.

A batida na porta veio no momento em que ela terminava de se trocar. — Entre — disse ela, e uma criada entrou empurrando um carrinho com o café da manhã. O cardápio estava um pouco mais simples do que o habitual, talvez levando em conta o grande banquete da noite anterior.

Maomao deu algumas colheradas no mingau simples e estava pensando que um pouco de vinagre preto poderia melhorar o sabor quando uma batida muito forte ecoou na porta. Maomao despejou um pouco de vinagre no mingau, deu uma colherada e então, sem esconder o incômodo, disse: — Entre.

— Eu juraria que você demorou um pouco mais para responder — disse Basen ao entrar. Havia um homem com ele, mas não era Jinshi. Sem saber bem como se sentir quanto a isso, Maomao engoliu a comida e fingiu não entender do que ele falava.

— Deve ter sido sua imaginação, tenho certeza — disse ela.

— Está tomando café da manhã? — perguntou Basen. Não que isso parecesse motivá-lo a sair. Alguma coisa, pensou Maomao, deve ter acontecido.

Ela pousou os hashis e olhou para ele. — O que está acontecendo? — Sua mão direita estava enfaixada, a mesma que Maomao tratou na noite anterior. Ele estava tão cheio de adrenalina que nem o inchaço nem o fato do osso estar quebrado pareciam incomodá-lo. Havia o tipo de pessoa teimosa... e havia o teimoso.

Basen respirou fundo e então tirou um pacote de pano das dobras de seu manto. Ele o colocou sobre a mesa e o abriu, revelando outro pacote, este de papel oleado. Mal ele o desembrulhou, o nariz de Maomao formigou e ela recuou.

O odor ofensivo vinha de um frasco de cerâmica dentro do pacote. — Isso é perfume, por acaso? — perguntou ela. Ela já tinha sentido aquele cheiro antes, era o mesmo que tinha sido derramado sobre a Consorte Lishu no banquete. — Onde conseguiu isso?

— Engraçado você perguntar isso — disse Basen. Sua expressão estava tensa; ele claramente segurava um acesso de raiva. — Lady Ah-Duo nos trouxe.

— E onde ela conseguiu?

— Disse que um de seus guardas encontrou. Tarde da noite passada, uma criada da meia-irmã da Concubina Lishu estava com isso. Ela estava caminhando quando, por algum motivo, um cachorro de rua a atacou, e o guarda por acaso a ajudou.

Por acaso, é?

Quais eram as chances do guarda estar ali por coincidência? Mesmo tão longe da capital, por que uma criada estaria andando sozinha? A conclusão lógica seria que o guarda foi enviado para segui-la porque Ah-Duo desconfiava dela. Mas não havia motivo para dizer isso em voz alta.

— O vira-lata parecia estranhamente agitado e, apesar da presença de outras pessoas, ignorou completamente todos. Foi direto para essa criada.

— Está dizendo que esse perfume foi o motivo disso? — insistiu Maomao, cobrindo o nariz com um pano enquanto pegava o frasco. Cerâmica não era algo raro. Ninguém fazia frascos de perfume de cerâmica apenas por estilo, então seria difícil rastrear sua origem. — Isso implicaria que o perfume jogado na Concubina Lishu ontem à noite pertencia à meia-irmã dela, certo? E esse cheiro, pelo visto, tem o efeito colateral de agitar animais selvagens.

— Acho que isso está quase certo — disse Basen.

A meia-irmã teria comprado o perfume apenas como uma brincadeira? Maomao não duvidaria. Mas ela odiava Lishu o suficiente para querer se livrar dela? E mesmo que tivesse motivo, Maomao duvidava que ela e a criada tivessem habilidade para manipular as grades da jaula do leão.

Ela considerou a possibilidade de o pai de Lishu, Uryuu, ter ajudado, mas essa teoria também deixava dúvidas. Se queriam se livrar de Lishu, era um método extremamente indireto. Havia maneiras muito mais simples. Acima de tudo, o risco era grande demais. Ainda assim, havia algo que Maomao queria confirmar.

— Então vocês estão considerando a meia-irmã da concubina como a culpada?

Basen hesitou. — Não podemos afirmar com certeza. Mas se nada mudar, é onde provavelmente chegaremos. — Uma forma cuidadosamente vaga de dizer. Isso não era típico para Basen. Normalmente ele seria muito mais direto. Maomao esperaria um “Sim! Ela deve ser punida!”

Em vez disso, ele continuou: — A meia-irmã afirma que era só para ser uma brincadeira. Diz que alguém que conheceu na cidade há alguns dias lhe deu o perfume. Disseram que atrairia insetos desagradáveis, e que isso seria engraçado. Ela jura que não esperava envolver um leão...

Então ela admitia sua malícia contra Lishu. Só não tinha planejado o leão. Se tudo isso fosse verdade, como isso mudava as coisas?

— Se ela também esteve envolvida na armadilha da jaula, isso vai além de uma brincadeira — disse Maomao. Havia muitas autoridades no banquete além de Lishu; ela teria colocado todos em perigo. Se realmente eles estivesse mirando apenas na concubina, talvez ainda se safasse. Lishu era uma parente, afinal, e poderia moderar a punição. A meia-irmã talvez não saísse ilesa, mas poderia ser apenas um castigo leve.

— Você tem razão. E não só a meia-irmã, mas Sir Uryuu e até a própria Concubina Lishu podem acabar sofrendo as consequências — disse Basen.

— Você acha que será só isso? — perguntou Maomao. Ela esperava algo bem pior. Muitos convidados importantes de outro país estavam presentes, aquilo poderia virar um incidente internacional. Parecia ingênuo imaginar que apenas o culpado seria punido.

Basen lançou-lhe um olhar azedo. — Por que essas coisas sempre acontecem com a Concubina Lishu? — disse ele. Era difícil saber se falava consigo mesmo ou com Maomao, e ela não sabia bem o que dizer, então permaneceu em silêncio. Mas pensou:  Talvez ela só tenha nascido assim.

Maomao não gostava de atribuir tudo ao “destino”, mas parecia que algumas pessoas tinham mais sorte do que outras. Ela pensou especialmente em seu pai adotivo, Luomen. Ele era mais inteligente e capaz que qualquer um, mas parecia não ter sorte alguma. Agora estava de volta ao palácio, mas isso só fez o estrategista raposa aparecer com frequência para incomodá-lo, interrompendo o seu trabalho. A situação devia estar ruim se ele comentou isso em cartas. Ele escreveu que, recentemente, um de seus armários de remédios foi completamente revirado. Maomao não fazia ideia do porquê.

— Não é tudo isso simplesmente triste demais? — disse Basen.

Ele está realmente preocupado com ela, pensou Maomao, mas decidiu não comentar. Falar sobre o que era melhor ignorar só traria mais dor de cabeça.

Ainda assim, era verdade que a concubina, à sua maneira, tinha seus problemas. No fundo, ela sempre se deixava levar. Maomao sabia que isso era inevitável, foi assim que Lishu foi criada. Ainda assim, não conseguia deixar de pensar na jovem que foi ao distrito dos prazeres para se vender como cortesã. Ela fez isso para cortar laços com o pai, ajudar a irmã a comer e sair da lama. Maomao não conseguia odiar alguém assim.

Se a concubina tivesse metade dessa determinação... talvez tivesse sofrido menos bullying da meia-irmã e não fosse tão ridicularizada no palácio interno.

Enfim, já era o bastante de preliminares. Era hora de Maomao descobrir por que exatamente Basen veio até ela. — Há algo que gostaria que eu fizesse, senhor? — perguntou ela.

— Sim... há — disse Basen, tirando um papel. Parecia um cartaz de procurado, mas algo intrigou Maomao.

— O que isso significa?

— É o que eu gostaria de saber. Essa é a mulher que ela disse ter dado o perfume a ela.

O desenho realmente parecia retratar uma mulher, mas seu rosto estava coberto, deixando visíveis apenas os olhos. Para compensar, o corpo inteiro estava desenhado, mas as roupas poderiam ser facilmente trocadas.

— Ela é uma comerciante?

— Não. Pelo visto, ela só começou a conversar com a meia-irmã enquanto ela fazia compras na cidade.

Na cidade, é? Maomao ouviu a história de Basen com desconfiança.

— A mulher disse que trabalhava com perfumes e recomendou vários aromas diferentes à meia-irmã. Esse era um deles. — Supostamente, a “comerciante” disse que o perfume poderia atrair homens, mas que deveria ser usado com cuidado. O cheiro seria forte demais se não fosse diluído, e algumas pessoas até usavam para pregar peças. Foi daí que a meia-irmã tirou a ideia.

— Essa história é meio vaga — disse Maomao.

— Concordo. Não temos muito com o que trabalhar. E encontrar essa vendedora seria difícil.

Maomao estreitou os olhos, examinando o desenho. A roupa, típica da capital ocidental, protege contra areia e poeira, cobrindo quase todo o corpo, ou seja, escondia características físicas. Mas os olhos atentos de Maomao notaram algo específico. — Para um desenho tão simples, os adornos nos sapatos têm muitos detalhes.

Basen olhou de novo a imagem. — Agora que você falou... é verdade. E o tamanho dos pés parece estranho em relação ao resto do corpo.

— Você acha que há alguma chance dela ter tido pés enfaixados? — perguntou Maomao.

— Pés enfaixados?

Era uma prática para reduzir artificialmente o tamanho dos pés. Algumas mulheres do palácio tinham passado por isso, era comum no norte, mas e no oeste? Se a meia-irmã não tinha dado muita importância ao assunto, isso sugeria que enfaixar os pés não era incomum.

— Pode verificar melhor esse desenho para mim?

— Vou verificar — disse Basen, recolhendo o papel. Ele estava prestes a sair quando voltou, como se lembrasse de algo. — A propósito...

— Sim, senhor?

— O mestre Jinshi está... estranho desde ontem.  Por acaso você sabe de alguma coisa sobre isso? Acho que, normalmente, ele mesmo teria vindo trazer um recado como este, mas, em vez disso, preferiu me enviar.

Maomao não respondeu.

— Você ouviu algo sobre ele... estar sob pressão? De alguém? Alguma coisa?

Maomao desviou o olhar. Basen estava certo, ela sabia que ele normalmente nunca viria até ela, a menos que Jinshi tivesse pedido especificamente.

Ela decidiu fingir que não sabia de nada. — Quem sabe? — disse ela. —  Talvez esteja cansado. Foi uma viagem longa.

 

O relatório de Basen voltou em menos de trinta minutos. A meia-irmã insistia à sua dama de companhia que “não teve nada a ver com isso” e “nunca quis que isso acontecesse”, mas, sinceramente, Maomao não se importava. Basen voltou irritado, visivelmente furioso com toda a situação.

— É exatamente como você disse — ele lhe contou. A mulher realmente tinha os pés enfaixados e usava sapatos especiais por causa disso, um detalhe marcante que ficava na memória, e que a meia-irmã enfatizou inconscientemente ao descrevê-la para o artista, mesmo sem dizer explicitamente que ela tinha os pés enfaixados. — Isso reduz bastante as possibilidades.

— Para poucas pessoas, eu diria, senhor — respondeu Maomao.

— Acha mesmo?

Em Li, o costume de enfaixar os pés existia principalmente no norte; ali no oeste, na verdade, quase não existia. Assim, se alguém com os pés enfaixados aparecesse na capital ocidental, era seguro presumir que vinha do norte. Ou, no mínimo, que sua família tinha se estabelecido ali há poucas gerações.

— O importante é que a família dela já seguia esse costume.

Basen pareceu desconfiado. — Você não acha que ela poderia ser uma viajante?

Maomao balançou a cabeça diante da ideia. — Se fosse, teria que ser filha de uma família rica o bastante para enviá-la com conforto, como a Concubina Lishu.

Era um longo caminho até a capital do oeste, e o enfaixamento torcia os pés em formas que, convenhamos, não eram nada propícias para caminhar em solo arenoso. O processo envolvia impedir o crescimento dos pés desde a infância, mantendo-os amarrados por toda a vida para que não aumentassem. Eles precisavam ser desinfetados a cada poucos dias, motivo pelo qual Maomao vendia álcool para cortesãs com os pés enfaixados.

Tudo isso significava que, se alguém nascido na capital do oeste tinha os pés enfaixados, ela certamente pertencia a uma família grande ou rica o suficiente para manter a tradição.

— E você tem certeza disso?

— Não me responsabilizo por nada. Só apresentei o que considero a possibilidade mais provável com base nas informações que recebi.

Ela não podia deixar que esperassem perfeição dela. Se só aceitassem respostas corretas, então Maomao não teria escolha a não ser se calar e dizer que não sabia de nada.

— Certo — disse Basen após um momento, resignado com as condições dela. Por fim, ele deixou o quarto.

Maomao bocejou e se sentou na cama, pensando em voltar a se acomodar.

Perfeição... É, difícil. A própria Maomao ainda tinha várias dúvidas. A meia-irmã autoritária de Lishu realmente se dignaria a falar com alguém que acabou de conhecer, ainda mais comprar algo dessa pessoa? E como aquela vendedora misteriosa sabia sobre ela? Era coincidência demais.

Hmm...

Tanto faz. Maomao decidiu voltar a dormir. Estava tão cansada que mal conseguia pensar. Deitou-se, mas o grampo de cabelo contra seu peito a incomodou. Pensou em tirá-lo, mas não queria deixá-lo em algum lugar onde pudesse vê-lo.

Sem dizer nada, Maomao se virou para o outro lado e fechou os olhos imediatamente.


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