Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 9: De Volta ao Lar

O cavalo relinchou ao parar diante da Casa Verdigris.

Foi uma viagem longa, pensou Maomao, descendo da carruagem e fazendo um aceno educado ao cocheiro. Ele descarregou a bagagem dela com um baque. Entre as coisas estavam as roupas consideradas necessárias para a viagem, que agora eram dela, além de alguns produtos exclusivos e remédios incomuns da capital ocidental, e uma quantidade gigantesca de batatas.

— Maomao, minha nossa... Está planejando abrir um novo negócio? — a velha madame se aproximou, com um cachimbo preso em sua mão enrugada. — Já fiquei satisfeita por terem nos mandado arroz, mas queria que você pensasse na quantidade. O armazém não aguenta mais nada!

Ela pegou uma das batatas secas de um cesto. Ainda estava crua, mas começando a brotar, então teria de servir como batata-semente.

Depois do confronto na vila do médico charlatão, Maomao pelo menos conseguiu tanto arroz quanto estavam dispostos a vender. Ela avisou a madame por carta, o primeiro lote já devia ter chegado.

— E o que é isso? — perguntou a madame, olhando para uma batata coberta com um pó branco.

Maomao a pegou, arrancou um pedaço e colocou na boca. Para uma batata, era surpreendentemente doce, quase tanto quanto uma castanha seca.

A madame também pegou um pedaço e mastigou. Seus olhos se estreitaram.

— Seria melhor assar um pouco antes. Está um pouco dura para mim. — Ela chamou um dos criados, ordenando que levasse o cesto.

— Ninguém disse que você podia ficar com todas — disse Maomao.

— Ninguém precisava dizer. Eu sei muito bem que você e Chou-u não conseguem comer tudo isso sozinhos. Estou te ajudando, e olha só você. Nem um agradecimento me dá.

Claramente, o último mês e meio não tinha diminuído nem um pouco a avareza da madame.

Mas Maomao não ia aceitar isso quieta.

— Até mesmo um ano de aluguel grátis para a farmácia sairia barato por todo aquele arroz, não acha? — disse ela. Praticamente uma troca. Ela tinha escrito na carta que, em vez de pagar diretamente pelo arroz, a madame poderia conceder aluguel gratuito a ela. O fato da velha não ter dito nada, Maomao considerou como concordância.

— Tá, tá. Isso é outra coisa. Você conseguiu essas de graça, não foi? Então compartilhe com os vizinhos — disse a madame. — Eeeei, pessoal, a Maomao voltou! E trouxe lembrancinhas!

A velha nunca dava trégua! Seu grito atraiu um grupo de cortesãs. O trabalho tinha acabado e elas deveriam estar descansando, mas o instinto interesseiro falava mais alto.

— Sardenta! — Chou-u surgiu correndo do meio da multidão, com Zulin seguindo  obedientemente seu “chefe”. Mas havia outra coisa com eles... — Nossa, você demorou mesmo! Você sai assim do nada e depois não volta por quase dois meses?! Isso não estava no acordo!

Pois é, Maomao também não tinha planejado isso. Mas o que mais a incomodava, era a criatura atrás deles.

— Ei, o que é isso atrás de você? — exigiu ela, olhando para Chou-u.

— Não me diga que você esqueceu quem é a Zulin! Que insensível!

— Não é disso que estou falando. Atrás dela. — Maomao apontou para uma gata malhada que estava sentada, se limpando.

— Como assim, você não lembra da Maomao? Nossa, que frieza — disse Chou-u.

— Ah, pode acreditar, eu me lembro dela — respondeu Maomao. Mas aquela bolinha de pelos devia estar na vila do charlatão. O que estava fazendo ali, no distrito dos prazeres? — O que eu quero saber é: por que ela está aqui?

Foi a madame quem respondeu:

— Ela veio junto com o arroz! Não dava pra mandar a gata de volta sozinha, não é? Enfim — acrescentou —, eu tinha acabado de ver uns ratos no armazém, então acho que ela pode ficar por um tempo. E ela é amigável, e faz sucesso com os clientes. Só precisamos dar um jeito no hábito dela de roubar acompanhamentos no jantar.

A madame era uma mulher prática. Ela nunca manteria um animal de estimação, mas um animal que pudesse ser útil, isso já era aceitável.

Maomao (a garota) lançou um olhar sombrio para Maomao (a gata). A bolinha de pelos estreitou os olhos, bocejou um pouco e disse: — Miiiiau!

Naquele momento, alguém saiu cambaleando da farmácia.

— V-Você voltou? — perguntou o homem, Sazen. Maomao havia deixado a loja sob responsabilidade dele enquanto ela estivesse fora. Ele nunca foi  um homem com aparência muito robusta, mas agora parecia abatido, com uma barba desalinhada no rosto. Ele cambaleou até Maomao e desabou no chão. — A loja... é toda sua... — ele conseguiu dizer, antes de desmaiar.

Chou-u cutucou ele com um graveto que tinha arranjado em algum lugar.

— Pare com isso — disse a madame, ordenando a um criado que tirasse Sazen do caminho.

— As pessoas começaram a pegar resfriado por todos os lados enquanto você estava fora, Sardenta. Usamos todo o remédio que você deixou pronto antes de sair, mas as pessoas continuaram pedindo mais — contou Chou-u a Maomao.

Maomao assentiu: fazia sentido. As pessoas frequentemente adoeciam na mudança de estação, por isso não houve remédio suficiente, mesmo ela tendo feito mais do que achava que iria precisar. Poucas pessoas no distrito dos prazeres podiam pagar um médico de verdade, tomar algum remédio era o máximo que conseguiam fazer. E muitas delas nem isso conseguiam fazer.

— Alguns deles eram bem insistentes — acrescentou Chou-u. — Teve um que até roubou remédio, porque disse que tinha ganhado de graça no ano passado!

O velho de Maomao provavelmente tinha dado para ele, um mau hábito que ele tinha. Ele distribuía remédio de graça a qualquer um que aparecesse chorando, e, depois que você dava remédio uma vez, todo mundo queria de graça. Sem dúvida, ele tinha distribuído o estoque da loja generosamente até a madame perceber.

Maomao entrou na farmácia. Ela viu um almofariz e um pilão com um remédio pela metade, junto de um livro de medicina no chão. Ela pegou o livro e folheou as páginas, que estavam manchadas, como se Sazen as tivesse tocado com dedos sujos. Normalmente, ela teria dado uma bronca nele por não tratar o livro com o devido respeito, mas, ao vê-lo ali jogado, não conseguiu dizer nada.

Talvez eu tenha dado sorte com ele, pensou ela. Ele não era muito habilidoso, mas também não desistia facilmente. Era isso que realmente importava.

Maomao vasculhou as gavetas do armário de remédios, fazendo um levantamento do que precisava ser reabastecido. Depois começou a limpar o chão bagunçado.

 

O ambiente da loja estava úmido. O tempo tinha passado enquanto ela se ocupava com a limpeza após sua ausência, e agora era começo do verão. A chuva caía continuamente, sem sinal de que iria dar trégua. Um jovem, herdeiro de uma importante casa mercantil, passou com uma cortesã que Maomao conhecia, caminhando sob um guarda-chuva como se quisesse mostrar que aquela estação também tinha seu charme. A mulher provavelmente odiava molhar as roupas, mas não perderia a chance de sair. As atividades das cortesãs podiam ser bastante limitadas: o bordel era como uma gaiola, e elas eram os pequenos pássaros dentro dela.

— Dá até pra ouvir os grilos aqui dentro — disse Meimei, com um olhar ressentido para a mulher lá fora. Ela mastigava uma batata seca com seus lábios exuberantes. As batatas ficavam bem saborosas se aquecidas por alguns minutos para amolecer. Eram doces à sua maneira, não como aqueles petiscos cheios de açúcar ou mel.

— Foi muito difícil para o pobre Sazen também — acrescentou ela. Epidemias à parte, talvez ele não tivesse desabado se a viagem de Maomao tivesse sido em outra época do ano. Sazen, que tinha tendência a se sentir responsável nos momentos mais inesperados, aparentemente até abriu mão de dormir para preparar ervas medicinais suficientes.

— Você não precisa dormir um pouco, irmã? — perguntou Maomao. Ela tinha certeza de que Meimei havia trabalhado na noite anterior. A mulher mais velha tinha acabado de sair do banho, e seu cabelo ainda estava molhado. Dormir na hora certa também fazia parte do trabalho de uma cortesã. Além disso, uma cortesã de alto nível como Meimei tinha treinos à tarde para manter suas habilidades afiadas.

Mas Meimei apenas mastigou preguiçosamente a batata e observou Maomao com atenção.

— Escute, ontem, meu patrono...

— Sim?

Pelo que Maomao lembrava, Meimei tinha três patronos. Um era funcionário civil, e os outros dois eram mercadores; todos gostavam de jogos de tabuleiro.

— Ele disse que eu deveria ir até a casa dele — disse Meimei. Ir até a casa dele: em outras palavras, ele queria levá-la para viver com ele. Se estava falando assim, não era apenas um convite para um passeio.

— Ele quer te comprar?

— É o que parece.

Para uma cortesã, ser comprada era equivalente a se casar. Era a oportunidade de ser libertada da gaiola do bordel. Mas Meimei não parecia feliz com isso. Maomao entendia: o gosto dela para homens era extraordinariamente ruim.

— Esse cliente é problema? — perguntou Maomao.

— Não, eu não diria isso.

— A madame é contra?

— Ah, ela adorou a ideia.

Isso poderia parecer simples, mas aquela decisão influenciaria o resto da vida de Meimei. Maomao podia imaginar que ela não queria decidir levianamente. Não era uma escolha que pudesse ser desfeita facilmente depois de tomada.

Meimei ainda era uma cortesã popular, mas quem sabia por quanto tempo isso duraria? A idade era uma barreira inevitável para algumas nessa profissão, e a maioria das mulheres já teria se aposentado há muito tempo.

— Esse homem... a esposa dele faleceu, mas ele tem filhos — explicou Meimei.

— Hmm. — Maomao não pareceu particularmente interessada. Não tinha sido sua intenção soar com tanta indiferença, mas de repente se pegou imaginando o estrategista excêntrico. No fim, ela lhe deu uma bebida alcoólica para apagá-lo e então fugiu antes que ele acordasse. Lahan foi com ela, ansioso para voltar à capital e coordenar a questão das batatas. Rikuson acabou ficando para trás, como uma pessoa que perdeu na pedra papel e tesoura. O estrategista andava murmurando novamente, enquanto dormia, sobre fazer um livro, e naquele momento provavelmente estava ignorando todo o trabalho para se concentrar nisso.

Maomao se perguntou se Meimei ainda nutria sentimentos por alguém como ele. Será que ela sabia que já não havia mais uma cortesã comprada na casa dele? Por um instante, Maomao pensou em contar à irmã mais velha, mas a informação parecia tão propensa a complicar a vida de Meimei mais ainda, que  então ela decidiu ficar em silêncio.

— Crianças não costumam gostar muito de mim — disse Meimei.

— Não dá pra simplesmente ignorar eles? — respondeu Maomao.

— Ideia interessante... — Por algum motivo, ela parecia estar analisando Maomao. Ela já tinha terminado de comer a batata e limpava a gordura dos dedos com um lenço. — Falando em crianças, onde está aquele seu pirralho travesso? — perguntou ela, tentando mudar de assunto.

— Chou-u? Não faço ideia. Provavelmente com o Ukyou ou o Sazen.

— Hm. Tem algo que eu gostaria que ele desenhasse para mim.

— Pornô?

Meimei sorriu e beliscou a bochecha de Maomao com carinho. Maomao se arrependeu da pergunta; percebeu que aquele tipo de piada combinava mais com Pairin.

— Eu achei que todo mundo já estaria cansado dele a essa altura, mas a popularidade dele parece surpreendentemente duradoura — disse Maomao, esfregando a bochecha avermelhada. Chou-u vinha fazendo sucesso desenhando retratos das cortesãs e dos criados, mas Maomao achava que o interesse era movido principalmente pela novidade.

— Claro. Aquele garoto é talentoso. — Meimei saiu da farmácia e foi até o balcão, onde pegou um leque dobrável. A armação de bambu era coberta com papel de boa qualidade e decorada com a imagem de um gato brincando com uma bola. O animal era malhado, talvez Chou-u tivesse usado Maomao como modelo, e, apesar das poucas linhas usadas no desenho, parecia surpreendentemente vivo.

Justo naquele momento, quase como se soubesse que estavam falando dela… Maomao, a gata, apareceu; sua cauda se ergueu e ela soltou um: — Miau!

— Quando o negócio de retratos começou a perder força, o garoto começou a inventar coisas assim — disse Meimei. — Ele sabia que muitas cortesãs gostavam de gatos. Eu me perguntei por que ele vivia seguindo a Maomao para todo lado... e então ele fez isso!

Maomao (a garota, desta vez) não disse nada. Chou-u realmente era dedicado. E, embora a armação do leque fosse antiga, o papel era novo. Ele devia tê-lo renovado com material enviado da vila do charlatão. Ou seja, o papel foi dado a ele, e ele restaurou a armação, em outras palavras, os materiais foram de graça.

Maomao teve que admitir que a habilidade de desenho de Chou-u parecia ter melhorado bastante, talvez fosse apenas o crescimento e amadurecimento rápidos das crianças. Antes, ela tinha certeza de que os desenhos dele eram mais superficiais.

— Ah, é verdade — acho que o garoto está aprendendo com um pintor — disse Meimei.

— Isso é novidade pra mim. — Maomao franziu a testa.

— Você ficou muito tempo no oeste. Um cliente de uma grande casa mercantil trouxe esse sujeito… um pintor de vanguarda, ou pelo menos foi o que ele disse.

— Ah — respondeu Maomao. Era uma história comum: pessoas ricas compravam pinturas ou cerâmicas o tempo todo; era quase um esporte para elas. Quando isso não bastava, cercavam-se dos artistas cujas obras mais apreciavam. Um hobby caro, acessível apenas aos ricos.

— Acredite se quiser, ele disse que apresentaria o cara à Joka — acrescentou Meimei.

— Credo!

Joka era uma das “três princesas” da Casa Verdigris, mas detestava homens. Funcionários civis ou estudantes talvez conseguissem falar com ela sobre poesia ou exames civis, mas pintura definitivamente não era a praia dela.

— E não é só isso — disse Meimei. — Esse pintor? Acontece que ele é especializado em retratos de mulheres bonitas. — O abatimento  que ela tinha antes havia desaparecido, substituído por um sorriso e gestos animados, cheios de fofoca.

— Imagino que nossa querida irmã não tenha reagido muito bem — disse Maomao.

— Ah, não mesmo! Ela ficou furiosa. E você sabe o que ela faz quando fica com raiva: ela escreve poesia. Aí uma cortesã novata e ignorante copiou um dos poemas da Joka na íntegra e mandou para um cliente! Foi um escândalo!

Joka era especialista em poemas e letras de música, mas era preciso ter cuidado com o que ela escrevia quando estava irritada. À primeira vista, os versos podiam parecer belos, mas estavam encharcados de veneno. Não se podia deixá-la escrever para clientes nesses momentos, a madame fazia questão de revisar suas cartas quando ela estava de mau humor.

Se o apetite de Pairin por homens podia torná-la difícil de lidar, Joka estava no extremo oposto, e era igualmente problemática.

Maomao, a gata, se enroscou nas pernas de Meimei e miou pedindo comida. Meimei a pegou no colo, colocando-a sobre os joelhos fazendo-lhe carinho sob o queixo.

— Então é com esse pintor que o Chou-u está aprendendo? — perguntou Maomao (não a gata).

[Kessel: kkkkkkkkkkkkk. Eu amo como a Natsu sempre deixa claro que é a Maomao (a garota) falando, e não Maomao (a gata)!]

— Uhum. A Joka estava determinada a mandar aquela carta venenosa, e usou o Chou-u como mensageiro.

Ao que parecia, o Senhor Mercador queria desesperadamente que o Senhor Pintor fizesse um retrato de Joka. A ideia era que ele fizesse um esboço quando a encontrasse e depois finalizasse a obra mais tarde. Simples. Mas Joka não tinha a menor intenção de ficar parada sendo observada. Em vez disso, conduziu toda a reunião atrás de um biombo, rude, mas eficaz.

Sem se deixar abater, o mercador e o pintor deixaram seu endereço e imploraram para que Joka entrasse em contato. Normalmente, uma carta seria entregue por uma cortesã aprendiz acompanhada de um criado, mas uma garota jovem não podia levar uma mensagem tão venenosa, então Joka chamou Chou-u. Uma maneira conveniente de contornar a inspeção da madame.

Chou-u entregou a carta, tudo certo até aí, mas também se interessou pelas pinturas do homem e começou a passar tempo com ele.

— Ele pode até estar lá hoje — disse Meimei.

— E depois de eu avisar para ele não sair — resmungou Maomao. Ela queria que os outros entendessem o que significava cuidar de Chou-u. Ele ainda arrastava uma perna, se algo acontecesse, seria difícil para ele reagir.

— Eeei! Maomao! — ela ouviu Ukyou chamar.

Maomao se levantou, ignorando a gata, que tinha se virado de barriga para cima, pedindo comida.

— O que foi? — respondeu ela. Ukyou parecia aflito.

— É o Chou-u!

— O que ele aprontou dessa vez? — Maomao franziu a testa, como se não estivesse nem um pouco surpresa.

— Por favor, só vem comigo — disse Ukyou, pegando sua mão. — Um amigo dele está morrendo!

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora