Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 8: O Fim da Jornada de Lishu

— Foi uma longa viagem, mas está quase no fim — disse Ah-Duo, enquanto estava no convés do navio e apreciava a brisa.

— Sim. — A Concubina Lishu mantinha um aperto firme no corrimão. Seu enjoo do mar estava muito melhor agora, mas ela sempre temia que um balanço repentino do barco a fizesse perder o equilíbrio, então não soltava. Ah-Duo sorriu diante do comportamento dela; Lishu respondeu com um bico, subitamente envergonhada.

Com elas no convés naquele momento estavam uma dama de companhia, a jovem que Ah-Duo chamava de Rei, e dois guarda-costas.

[Noelle: Quando Ah-Duo chama a Suirei de Rei, é um nome mesmo, na tradução não vem como “King” de Rei/Realeza, mas um nome comum, só para ficar claro.]

Rei vestia roupas masculinas, mas parecia ser uma mulher. Lishu tinha ficado desconcertada perto de Rei no início, mas depois de um tempo percebeu o que estava acontecendo. Como Ah-Duo também usava roupas masculinas, as duas formavam uma dupla encantadora juntas. Ambas eram altas e magras, ao mesmo tempo bonitas e descoladas. Lishu mal conseguia conter um suspiro ao olhar para elas, de admiração por uma, e de decepção por não ter a beleza natural da outra.

Lishu tinha dezesseis anos e gostaria de dizer que ainda estava crescendo, mas tinha parado de crescer no ano passado, e seu corpo parecia pouco propenso a se tornar mais feminino dali em diante. Ela tinha ouvido dizer que leite de vaca podia ajudar com isso, e por um tempo tentou beber, mas aquilo sempre lhe embrulhava o estômago, e no fim ela desistiu.

Para seu desgosto, suas damas de companhia descobriram suas idas e vindas ao banheiro. Ela sabia que a chamavam de coisas como “a concubina inútil” e “a concubina troféu” pelas costas. Isso a deixava triste e com raiva, claro que deixava, mas o que ela poderia dizer? Ela sabia que era verdade. Pelo menos agora ela estava ciente dos apelidos. Mesmo isso já era melhor, muito melhor, do que não ter ideia do que suas damas diziam, como se estivesse dançando para elas como uma boba da corte.

Os pensamentos de Lishu devem ter transparecido em seu rosto, porque Ah-Duo perguntou:

 — Você vai ficar bem ao voltar para o palácio interno?

Ops! Pensou a concubina, e forçou os lábios a se curvarem em um sorriso. — Vou ficar bem.

Ela tinha aliadas agora, mesmo que poucas. Junto de sua chefe das damas de companhia, várias outras damas de Lishu recentemente começaram a tratá-la com mais consideração. A criada que vinha buscar a roupa suja também conversava com ela às vezes. Lishu conseguia imaginar perfeitamente o que sua antiga chefe das damas de companhia pensava ao vê-la falar com alguém de origem tão humilde, mas desde a repreensão que ela recebeu após tentar tomar o espelho de Lishu, a mulher estava muito mais quieta.

A criada da lavanderia contou a Lishu que havia um livro que amava, mas não sabia ler, então Lishu vinha copiando-o para ela sem contar às outras damas de companhia. Era um segredo pequeno, considerando o que os segredos costumam ser, mas com tão pouca agitação no palácio interno, já era o bastante para fazer o coração disparar.

Enquanto isso, Ah-Duo olhava para Lishu com preocupação. 

— E você consegue cumprir suas obrigações?

— Eu... vou ficar bem — disse Lishu outra vez.

Suas obrigações: em outras palavras, seu dever como concubina. Às vezes isso significava oficiar cerimônias, mas Lishu sabia que não era a isso que Ah-Duo se referia. Ela falava das visitas do Imperador.

Até então, Sua Majestade nunca tinha ordenado que Lishu fosse para sua cama por causa da idade dela. Mas agora ela tinha dezesseis anos, não era mais “jovem demais”. Quando aquela viagem terminasse, uma dessas visitas estaria à sua espera.

— Você é filha do senhor Uryuu. O que aconteceu nesta viagem não precisa afetar você. Tenho certeza de que ainda pode conversar com o Príncipe da Noite.

O Príncipe da Noite: o homem que antes usava a identidade do eunuco Jinshi no palácio interno. Descobriu-se que essa identidade era apenas um disfarce;  na verdade, ele era alguém cujo nome mal podia ser pronunciado. As pessoas se referiam a ele como “o irmão mais novo do Imperador” ou “o Príncipe da Noite”.

[Noelle: Confesso que sinto falta da autora se referir ao Jinshi como o príncipe da lua.]

Mas, quanto a esse assunto, Lishu só conseguiu balançar a cabeça. Sim, ela ficou bastante encantada por ele quando ele ainda estava no palácio interno. Um jovem que parecia ter saído de uma pintura, que sempre tinha um sorriso gentil até mesmo para ela? Ela sabia muito bem que aquilo não passava de cortesia, por ela ser uma concubina de alto escalão, mas ainda assim a deixava feliz ter alguém que a chamasse pelo nome e dissesse coisas gentis sobre ela.

Antes, muito tempo atrás, quando ainda era imatura e ignorante, Lishu poderia ter respondido com alegria. A ideia de que alguém tão belo, alguém por quem ela tinha se encantado tanto, pudesse vir a se tornar seu marido era como um sonho.

Mas Lishu entendia: o sorriso cativante do jovem era algo que ele podia e iria mostrar a qualquer pessoa. Ela percebeu isso já fazia quase um ano.

Foi no momento em que viu o sorriso despreocupado do irmão mais novo do Imperador, não aquele sorriso de ninfa celestial, mas o de um jovem comum. Lishu nunca o tinha visto antes, e aquilo a atingiu com a dolorosa percepção de que ela não era especial para ele.

— Eu não poderia. Seria um desperdício ele comigo — disse.

Ah-Duo sorriu de lado ao ouvir isso. 

— Ho ho. Então está feliz sendo uma concubina de alto escalão do Imperador?

— Ah! Não foi isso que eu…! — Lishu agitou as mãos, como se pudesse afastar a ideia. Ela sentia que nem sequer era digna de ser concubina de Sua Majestade. A Imperatriz Gyokuyou e a Concubina Lihua pareciam, para Lishu, como se vivessem acima das nuvens, tão distantes dela que, quando ela se sentava ao lado delas nos banquetes, sempre se perguntava se era realmente aceitável que ela estivesse ali. Às vezes ela percebia que agia de forma mais autoritária do que precisava com suas damas de companhia, em uma tentativa de sustentar a própria confiança. Só de pensar nisso, ela ardia de vergonha.

— Não? Então o que quis dizer, se me permite perguntar? — Ah-Duo lhe lançou um sorriso provocador.

Lishu inflou as bochechas, mas não muito. Estranhamente, ela nunca achava desagradável quando Ah-Duo a provocava.

Lishu pensava que havia alguém mais adequado para o Príncipe da Noite, assim como havia para o Imperador. Ela ficou em silêncio por um longo momento.

— O que foi? O gato comeu sua língua? — disse Ah-Duo, com os olhos brilhando, mas Lishu continuou apenas a encará-la em silêncio. Ah-Duo parecia um jovem bonito, mas era uma mulher. Houve um tempo em que ela tinha sido a única concubina de Sua Majestade.

Tanto a Imperatriz Gyokuyou, com o encanto exótico de seus cabelos vermelhos e olhos verdes, quanto a Concubina Lihua, que era como uma rosa em flor e ainda por cima inteligente, eram dignas de serem o centro do jardim de Sua Majestade. Mas, quando Lishu se perguntava quem era a mais adequada de todas para estar ao lado do Imperador, sua mente voltava à época em que Sua Majestade ainda era o herdeiro. Às vezes ele aparecia para roubar um doce enquanto Ah-Duo e Lishu tomavam chá juntas, e a colocava em seu colo. Naquela época, Lishu era uma criança ignorante e o chamava de Tio Barbudo. Isso fazia surgir um sorriso irônico no rosto de Sua Majestade, enquanto Ah-Duo ria sem parar.

Agora, aquilo parecia inimaginável.

Lishu costumava beliscar algum doce enquanto os observava, pensando: então é assim que um marido e uma mulher se parecem. Ela achava que eles combinavam melhor do que qualquer outro casal no mundo.

Talvez fosse por isso que ela não conseguia se convencer a aceitar aquilo, mesmo sabendo que era inevitável. Sabendo que já era inevitável desde o momento em que se tornou uma concubina.

Lishu era e seria apenas mais um obstáculo entre Ah-Duo e o Imperador. Ela sabia que o amor na vida real nunca era tão belo quanto nos pergaminhos ilustrados, que era para isso que tinha nascido. Ainda assim, temia que Ah-Duo, a quem tanto admirava, viesse a desprezá-la por causa disso. Chegava até a pensar que Ah-Duo ainda poderia ser uma concubina se Lishu não tivesse ido para o palácio interno.

Mas em sua mente, isso também não significava que ela deveria se tornar esposa do Príncipe da Noite. No fim das contas, sentia-se apenas sendo levada pela vida, sem saber o que realmente queria. Ela conhecia o amor, ou talvez “amor”, pelos pergaminhos e romances, mas não entendia o que aquilo realmente era.

— Já dá para ver a capital — disse Ah-Duo. Ainda que turva à distância, já era possível distinguir a vasta muralha externa que cercava o palácio. — Vou voltar para nossos aposentos. Quero organizar minhas coisas.

Ah-Duo mantinha apenas o mínimo de criadas necessário; ela cuidava de si mesma na maior parte do tempo. Isso a tornava extremamente impressionante aos olhos de Lishu.

— Eu também! — Lishu soltou o corrimão e fez menção de seguir Ah-Duo. — Ai! — exclamou ela.

A madeira do corrimão parecia um pouco áspera, pois uma farpa perfurou sua palma. Ela tentou pressionar o local com o dedo para tirá-la, mas só conseguiu fazer a mão sangrar. Frustrada com a dor repentina, outra lembrança veio à tona.

Um servo do Príncipe da Noite tinha salvado Lishu em duas ocasiões, a primeira de bandidos, a segunda de uma fera selvagem de terras estrangeiras. Na primeira ocasião, ele havia afugentado os bandidos com facilidade, mas Lishu, encolhida atrás dele, não conseguiu ver seu rosto. Foi somente quando o leão atacou que ela o viu cara a cara pela primeira vez. Ela tinha imaginado que ele seria mais velho, mas percebeu que a diferença de idade entre eles não deviam ser mais de cinco anos. Depois, ela ouviu dizer que ele era membro do clã Ma.

O jovem tinha ferido a mão, teria sido por causa do golpe com toda a força que ele deferiu contra o leão? E ele estava sendo tratado; Rei tentou cuidar dele, mas ele recusou. Mas a jovem apotecária percebeu e fez os primeiros socorros apesar das objeções dele. A apotecária era tão distante, e o jovem, apesar de resmungar, deixou que ela o tratasse. Lishu percebeu que eles deviam ser bons amigos, e esse pensamento a deixou triste.

Mais de uma vez durante a estadia, ela pensou se deveria agradecê-lo, mas no fim ficou tão envergonhada por ele tê-la visto em um estado tão lamentável que não conseguiu criar coragem para falar com ele. O jovem podia ser servo de outra pessoa, mas também vinha de uma família respeitável. Talvez ele a visse como uma menina sem modos. Ela desejou ao menos poder lhe enviar uma carta, mas sua posição não permitia isso. E, mesmo que permitisse, sabia que não o faria. Simplesmente não tinha coragem.

Uma onda de tristeza tomou conta de Lishu. Ela voltou para sua cabine, olhando para a farpa em sua mão.

 

— Acho que aqui nos despedimos por um tempo — disse Ah-Duo com leveza ao subir em outra carruagem. Originalmente, elas deveriam se separar no porto, mas Lishu implorou e conseguiu convencê-la a dividir uma carruagem até a capital. Ela realmente queria poder ficar com Ah-Duo até o palácio, mas desistiu da ideia. Ah-Duo talvez cedesse, mas Lishu percebeu sua própria acompanhante ficando cada vez mais desconfortável. Ela decidiu não incomodar Ah-Duo mais do que isso.

Lishu observou Ah-Duo pela janela da carruagem enquanto ela partia, e então seu próprio transporte seguiu de volta ao palácio interno. As seis semanas de viagem, às quais não estava acostumada, foram difíceis para ela. Passou dias e dias em carruagens ou navios, sentindo a pele queimar sob o sol forte. Houve insetos, e, para completar, foi atacada primeiro por bandidos e depois por um leão. Era como se tudo desse errado de uma vez.

Ainda assim, a verdade era que ela tinha se divertido. A vida no palácio interno oferecia todo tipo de conforto, mas era entediante. Lishu estava feliz por finalmente rever suas damas de companhia depois de tanto tempo, embora soubesse que entre elas havia algumas que não gostavam muito dela. Mas sem elas, Lishu nunca teria conseguido manter sua dignidade como concubina.

Ela olhou para a dama de companhia ao seu lado, desde o ataque do leão, a mulher a servia com uma expressão de medo no rosto. Ela tinha sido designada para atender Lishu por seu pai, mas praticamente a ignorava, talvez por ordens da meia-irmã de Lishu, ou talvez por acreditar nos rumores de que a concubina era filha ilegítima. Talvez ambos. Secretamente, Lishu sentia alívio por saber que a mulher não voltaria com ela ao palácio interno.

A carruagem passou pelo portão do palácio, o cocheiro apresentando um selo que servia como autorização de entrada no lugar de um documento escrito.

Lishu supôs que seguiriam direto para o palácio interno, então se surpreendeu quando a carruagem parou ainda a certa distância do portão. — O que está acontecendo? — perguntou ela à dama de companhia.

Insegura, a mulher tentou espiar o cocheiro, depois voltou a olhar para Lishu com o mesmo desconforto. — Parece que desejam falar com a senhora.

Naquele momento, várias mulheres de meia-idade entraram na carruagem. Lishu não as tinha visto no palácio interno, pelas roupas, supôs que fossem damas da corte que serviam no palácio principal.

— Lady Lishu — disse a que estava no centro, ajoelhando-se diante dela. — Pedimos nossas mais humildes desculpas, mas, pelo próximo mês, será solicitado que a senhora viva fora do palácio interno. Ela ergueu a cabeça e olhou Lishu diretamente nos olhos.

[Kessel: Ih. Tadinha da Lishu, sempre acontece algo com ela. kkkkkk]


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