Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 7: O Clã La (Parte 2)

— Fiquei me perguntando o que estaria acontecendo… — Rikuson soltou um suspiro. Ele finalmente conseguiu entrar na mansão, e o avô e a mãe de Lahan agora estavam isolados em uma sala separada. Rikuson tomou a decisão assim que viu o estado exausto do estrategista. De fato, ele era mais um dos excelentes subordinados que aquele maluco tinha conseguido para si.

— Sinto muito. Se meu irmão Lakan tivesse recuperado a sanidade mais cedo, tudo isso poderia ter acabado muito mais rápido — disse o pai de Lahan, com um tom de cansaço na voz. Maomao sentiu uma estranha afinidade por ele, talvez porque ele se parecesse tanto com Luomen, não em aparência, mas em algo menos tangível.

Achando que a sala “prisão” não era exatamente acolhedora, eles se mudaram para outra parte da casa. No momento, Lahan, o pai dele, Maomao, Rikuson e o estrategista estavam todos juntos, junto com vários homens que Rikuson trouxe consigo. Maomao se sentiu um pouco mal por eles terem vindo de tão longe quando, no fim das contas, não tinham sido necessários. Rikuson daria apenas a versão oficial, ou seja, que tinham vindo buscar seu superior de volta para casa, mas não havia dúvida de que os homens estavam ali para intimidar.

Maomao, por sua vez, não queria estar na mesma sala que o estrategista maluco, mas sabia que não podia ser exigente naquele momento. Mas em um piscar de olhos ele já estava ao lado dela, tagarelando sobre alguma coisa. Ela desejou que ele simplesmente calasse a boca. Sabia que deveria ter pena dele em seu estado debilitado, mas descobriu que simplesmente não conseguia.

— Maomao, deveríamos mandar fazer um vestido para você qualquer dia desses. Vamos comprar um monte de tecido da melhor qualidade e podemos mandar fazer um grampo de cabelo também! — disse o estrategista. Maomao não disse nada.

— E então podemos nos arrumar bem e ir assistir a um espetáculo! Sim, vamos fazer isso!

Maomao não disse nada.

— Você gosta de livros, não gosta, Maomao? Tive uma ideia: por que se limitar em só lê-los? E se você mesma fizesse um livro?

Mesmo ela ignorando ele, ele não desistia. Ela quase se contorceu à ideia de fazer o próprio livro, mas conseguiu reprimir a reação.

[Noelle: Ai gente, eu fico com pena dele, quero ver ela dando uma chance a ele <3 … ele é maluco mas tem o coração bom.]

— Irmão mais velho, estamos tentando conversar aqui. Talvez você pudesse ficar em silêncio por um momento? — o pai de Lahan, irmão mais novo do estrategista, tentou contê-lo, mas sem muita convicção. Nem Lahan, o filho adotivo do estrategista, nem Rikuson, seu subordinado, podiam ser duros demais com ele. Então, por fim, todos os olhares na sala se voltaram para Maomao. Ela franziu bastante o cenho, mas estava encurralada.

Ela fungou e fez uma careta de desgosto exagerado.

— Você fede. Está cheirando como um cachorro selvagem que ficou na chuva — disse ela.

O estrategista levou a própria manga ao nariz e cheirou. Então olhou para o pai de Lahan.

— Onde fica o banho?

— Saia deste quarto, vire à direita, fica no fim do corredor. Vou pedir aos criados que preparem para você imediatamente.

— Sim, por favor. Imediatamente — disse o estrategista, e saiu da sala.

— E não esqueça de escovar os dentes — Maomao gritou atrás dele. — Só para garantir. Se tivessem sorte, não o veriam por pelo menos uma hora.

— Acho que é difícil ter uma filha — comentou o pai de Lahan, com tristeza. — Não que eu tenha conseguido lidar com ele sozinho.

— Só de assistir já dá um aperto no coração — concordou Rikuson, tomando um gole de chá.

— Seja como for, você chegou bem rápido — disse Lahan a ele. — Achei que ainda levaria mais tempo.

Lahan estava hospedado em uma estalagem perto do cais, e ele devia saber que, quando ele e Maomao não voltassem, Rikuson ficaria desconfiado e iria até a mansão. Mas nem mesmo um dia inteiro tinha passado desde que eles partiram, um intervalo de tempo bastante curto.

— Recebi uma dica — respondeu Rikuson, gesticulando para o pai de Lahan.

— Não exatamente de mim — disse o homem. — Outra pessoa foi contar a eles. Alguém que nem sempre admite seus verdadeiros sentimentos. — O pai de Lahan olhou pela janela, onde o irmão mais velho de Lahan podia ser visto arrastando uma trepadeira verde sem ânimo. — Ele reclama de ter que fazer trabalho de agricultor, mas veja como é dedicado a isso. Não, ele nem sempre é honesto sobre o que sente, mas é um bom garoto.

— Ele é só... ok. Acho que não é uma pessoa ruim — disse Maomao.

— Meu irmão mais velho não é exatamente um exemplo de virtude, mas também não é capaz de praticar o mal de verdade — acrescentou Lahan.

— Erm, vocês dois não estão exatamente cheios de elogios — disse Rikuson, observando o jovem nos campos com um toque de pena.

— Dizem que o pai existe para o filho e o neto, mas não me parece assim. Aquele garoto possui menos vocação ainda para a política do que eu — disse o pai de Lahan. Com a pele bronzeada e o corpo robusto, ele parecia que poderia ter sido um soldado muito competente, mas, no fim das contas, a personalidade falava mais alto.

Às vezes, uma pessoa era mais adequada à enxada do que à espada ou à lança. Aquele homem parecia um verdadeiro agricultor.

— Ainda assim, fico me perguntando — disse Lahan, inclinando a cabeça. — Por que trazer isso à tona agora? Se estavam esperando as provas da corrupção do vovô serem apagadas, eu esperaria que agissem antes. — Maomao não tinha certeza de que aquilo era muito inteligente de se dizer com Rikuson ali, mas aparentemente não havia problema.

— Uma pergunta pertinente. Lakan chamou seu avô por causa de sua nova noiva. E isso, por si só, não era problema. Normalmente, acho que meu pai simplesmente o ignoraria e não iria à capital. Exceto... — o pai de Lahan tirou um pedaço de corda trançada das dobras de suas vestes. Embora seus dedos sujos de terra a tivessem escurecido, era claro que originalmente era branca. Era muito parecida com a que a mãe de Lahan usava no pulso.

— Estou tão cansada dessas coisas — disse Maomao, olhando deliberadamente para o outro lado.

— Humm... eu ainda nem disse nada sobre isso — disse o pai de Lahan, parecendo confuso.

— Nem precisa. Deixa eu adivinhar: sua esposa caiu na influência de alguma vidente ou algo do tipo.

— É exatamente isso.

— E ela perguntou como aquele maluco estava.

— Não sei ao certo. Mas descobrimos que não havia ninguém por perto dele...

O filho adotivo do maluco, Lahan, e seu assistente próximo, Rikuson, estavam ambos na capital do oeste. Mesmo que o estrategista desaparecesse, as duas pessoas mais propensas a notar não estavam por perto.

Frustrada, Maomao pegou algo sobre a mesa. O criado aparentemente trouxe para acompanhar o chá. Parecia uma espécie de rabanete seco e achatado, com pó branco por cima. O fato de estar em um prato indicava que provavelmente era comida. Era doce, mas mastigável; tinha uma textura fibrosa, mas não era desagradável.

Será que isso é batata-doce?

Maomao já tinha comido batata-doce processada antes, mas quase sempre algo cozido no vapor ou na forma de purê. Essa parecia ter sido cozida e depois desidratada.

— Isso é bem bom. Estou certa de que é batata-doce? — ela perguntou.

— Ah! — exclamou Lahan, inclinando-se para frente como se tivesse se lembrado de algo de repente. — Isso mesmo! Pai… você disse algo sobre uma batata interessante?

— Hum? Batata? Ah! Sim. Sim, suponho que sim.

Lahan pegou um pouco do petisco do prato de Maomao.

— Você disse que talvez tivesse uma ideia… estava falando disso?

— Hum. É batata cozida no vapor e seca. Sem açúcar, sem mel, mas é mais doce que castanhas ou abóbora, não é? — Ele gesticulou para fora da janela, como se dissesse: está ali. Maomao tinha se perguntado o que havia nos campos, eram essas batatas.

Lahan estreitou os olhos e ajustou os óculos.

— Quanto vocês estão cultivando?

— Estamos tentando expandir o máximo possível. Não queremos desperdiçar nenhum dos campos.

— Parece que vocês não têm mão de obra o suficiente.

— Alguns agricultores da região vêm nos ajudar. Temos mais batatas do que sabemos o que fazer com elas. — Eles pareciam felizes em ajudar em troca de todas as batatas que pudessem levar. — Ah! Mas não se preocupe. Não vendemos no mercado aberto, como você disse, Lahan. Quando vendemos, garantimos que seja apenas o produto, não batatas cruas.

— Nesse caso, tudo bem.

Maomao se viu perplexa com a conversa. Lahan e seu pai estavam tentando monopolizar o mercado de batata-doce? Era culpa de Lahan que ela só tivesse visto batata-doce como ingrediente, nunca crua? Ela teria cultivado algumas batatas-doces para si mesma com todo o prazer, se tivesse conseguido colocar as mãos em uma crua.

— Ainda assim, é um desperdício — disse o pai de Lahan. — Temos mais batatas do que precisamos. O celeiro está cheio. Bem, admito que os porcos estão bem felizes em tê-las como ração. Acho que isso até melhorou a qualidade da carne deles também.

Se eles tinham tantas batatas-doces assim, por que não paravam de cultivá-las?

— No ano passado, um tan produziu duzentos shin (750 quilos) de batata-doce — disse o pai de Lahan.

— Duzentos shin?! — exclamou Maomao.

[Kessel: Um tan representa cerca de mil metros quadrados, ou 0,1 hectares!]

— Quatro vezes mais do que uma colheita comum de arroz — disse Lahan. — Em parte graças às experiências do pai, tenho certeza, mas ainda assim… incrível, não é?

— Essa planta é exclusiva desta região? — perguntou Maomao, inclinando-se em direção ao pai de Lahan.

— De forma alguma. Há muito tempo, comprei um broto que pensei ser uma glória-da-manhã cara e interessante, mas vinha do sul. Acabou sendo uma planta diferente, embora semelhante. Algo que se cultiva com raiz, não com sementes. Não consegui fazê-la florescer, e fiquei obcecado em tentar tirar uma flor dela. — Ele olhou pela janela. — Depois que viemos para cá, tivemos bastante espaço nos campos. Eu sabia que flores às vezes só desabrocham sob condições específicas, mas também podem produzir subprodutos incomuns. Como isto. — Ele pegou um pedaço da batata seca.

Intrigado, ele começou a fazer diversos experimentos com a raiz de várias maneiras.

— Quando aprofundei mais ainda no assunto, descobri que isso era um tubérculo chamado batata-doce: mais doce que castanhas e capaz de crescer até em solo pobre. Acho que eu posso ser a única pessoa em todo o país cultivando isso. Lahan me disse para não deixar nenhuma batata-semente sair da vila, e é o que tenho feito.

A essa altura, Maomao começava a entender o que Lahan queria de seu pai. Tinha a ver com o que a emissária de Shaoh havia dito: provisões ou asilo. Escolha uma opção. Além disso, serviria como contramedida para a praga de insetos que em breve os atingiria. Lahan, ela suspeitava, queria usar as batatas de seu pai para resolver ambos os problemas, mas, por maior que fosse a produção daqueles campos, não havia como ser suficiente para alimentar um país inteiro. Mesmo que houvesse batatas-semente restantes, não parecia uma solução viável.

Mas o pai de Lahan deu a resposta.

— Você não precisa usar somente a raiz. Pode usar os caules também. Provavelmente funcionaria, desde que fossem plantados frescos.

— Caules, senhor? — perguntou Maomao.

Havia maneiras de cultivar plantas além de sementes ou batatas, um caule cortado poderia funcionar, desde que criasse raízes. Se conseguissem fazer isso, talvez pudessem esperar, digamos, dez vezes mais produção. Tá, tá, não conte com o ovo antes da galinha. Ainda assim, não seria suficiente. Mas diferente do arroz, os insetos não atacariam as batatas. Isso era uma grande vantagem.

— Pai, tenho um favor a lhe pedir — disse Lahan, e então passou a descrever mais ou menos o que Maomao imaginava. Ele queria comprar todas as batatas-doces, além de batatas-semente e brotos também. E queria que seu pai lhe dissesse a melhor forma de cultivá-las, se possível. No fim, parecia que ele queria bastante coisa.

Maomao achou Lahan um tanto presunçoso, ainda que estivesse falando com o próprio pai, mas o “pai” continuou sorrindo. Sem nem pensar muito, ele disse: — Claro, ficarei feliz em ajudar. — Ele se recostou na cadeira, moeu um pouco de tinta e começou a escrever as instruções.

Maomao, franzindo a testa, disse:

— Tem certeza disso? Se não estabelecer algumas regras agora, pode acabar saindo no prejuízo.

— Cuidado com o que fala! — protestou Lahan.

— Hahaha! Eu disse que tínhamos mais do que sabíamos o que fazer. Se deixarem o suficiente para distribuir aos outros agricultores, já está bom. E, ah... se os nossos impostos não fossem tão altos, eu também ficaria feliz com isso.

Isso só fez Maomao franzir ainda mais a testa. Ela olhou para Lahan, mas ele estava sorrindo, claramente fazendo cálculos de cabeça. Maomao pegou o pincel da mão do pai de Lahan.

— O que você está fazendo? — ele perguntou.

Ela começou a escrever um contrato, o pincel se movendo com traços rápidos e decididos.

— Primeiro, precisamos definir o preço das batatas, assim como dos brotos. Se você vai ensinar os métodos de cultivo, isto é à parte, um extra.

— Claro que vou pagar por isso — disse Lahan, como se aquilo fosse óbvio até para ele. Mesmo assim, Maomao não conseguiu simplesmente deixar a situação como estava. Lahan parecia demais com seu pai adotivo.

Lahan leu o contrato que Maomao havia feito com uma expressão insatisfeita; ele parecia estar reconsiderando como lidar com os valores.

Então ouviu-se um baque, e um homem coberto de lama entrou.

— Consegui, pai — disse ele.

— Excelente. Pode deixar aí.

Era o irmão mais velho de Lahan, carregando um balde com uma trepadeira verde dentro. Pelo menos um deles devia ter percebido que Lahan poderia estar interessado naquilo, os preparativos deles foram bem minuciosos.

O pai de Lahan pegou a trepadeira. — Elas ficam mais saborosas se você não deixar as ramas crescerem demais. É preciso podar as raízes de tempos em tempos. — Ele mostrou a planta para Maomao. — Você pode cozinhar as ramas excedentes. Acho bem gostosas, mas meu pai não concorda.

Saborosas ou não, uma cultura que crescia até em solo pobre, podia ser cultivada em trepadeiras e ainda tinha partes comestíveis? Era como se tivesse sido feita sob medida para evitar a fome. Claro, mesmo que começassem agora, não havia como saber quanto conseguiriam colher, mas, pelo que foi dito, certamente produziriam mais disso do que de arroz, mesmo que não fosse suficiente.

Então era por isso que Lahan tinha sido tão receptivo às propostas da emissária.

— Devíamos ter começado a vender mais cedo — disse Maomao, arrancando sorrisos irônicos de Lahan e de seu pai. Sem dúvida, Lahan tinha mandado não colocar a colheita no mercado porque sabia que seria um negócio lucrativo.

— Meu pai não gostou muito da ideia. Ficava reclamando de ter que agir como um agricultor — disse o pai de Lahan. Parecia um pouco tarde para se preocupar com isso, cercado por todos aqueles campos. — Além disso, se você vende uma grande quantidade de uma cultura nova, acaba tendo dor de cabeça com impostos.

Era verdade que vender sempre implicava em tributação. Alimentos básicos como arroz e trigo eram taxados com base na produção, variando de região para região.

— Já os vegetais... nesses casos, eles cobram apenas uma porcentagem do que realmente é levado ao mercado.

— Porque coisas que estragam... bem, se tentar armazenar, acabam apodrecendo.

Era melhor taxar depois que a mercadoria fosse convertida em dinheiro. Em qual categoria aquelas batatas se encaixariam? Batatas, em si, duravam algum tempo. Se inundassem o mercado com batatas cruas sem cuidado, poderiam sofrer uma taxação pesada.

— Para ser sincero, se temos um monte delas sobrando, nem faz muita diferença se levarem como imposto — observou o pai de Lahan.

— Ora, pai, é importante economizar nos impostos.

Maomao lançou um olhar para Lahan: que coisa de se dizer, vindo de quem estava do lado que cobrava. Já o pai de Lahan parecia estar realmente aproveitando a vida no campo. Pelo físico, Maomao achava que ele teria se saído bem como soldado, mas ali estava ele.

— Parece que você gosta da sua vida aqui — comentou ela casualmente.

O pai de Lahan sorriu, com os olhos brilhando. — Gosto, sim. Tanto que quase me sinto culpado por isso. — Ele mexeu na raiz da batata enquanto falava. — Com todo respeito aos meus pais, sou grato ao meu irmão mais velho, Lakan. Se não fosse por ele, eu nunca teria experimentado o prazer de uma vida tranquila no campo.

— Pense nos problemas que ele causou às pessoas ao redor — disse Lahan. O estrategista excêntrico havia expulsado o próprio pai, o chefe do clã, e o meio-irmão mais novo da capital para tomar o comando da família. Depois, adotou o sobrinho Lahan. Era tudo o que Maomao sabia sobre o assunto, mas acreditava que fosse verdade.

Acontece que, para o pai de Lahan, aquele exílio acabou sendo uma bênção disfarçada.

— Eu gosto daqui — disse ele. — Quanto mais você cultiva, mais pode colher. Na capital, o máximo que você podia cultivar eram plantas em vasos. — Seu sorriso o fazia parecer muito mais jovem que sua idade. — Se o que estamos fazendo aqui pode salvar pessoas da fome, então eu digo: levem o quanto precisarem! Que o país inteiro cultive batatas! — Ele estava realmente empolgado com isso.

[Noelle: Estão vendo por que o clã La é o meu favorito? Pessoal doido, mas do coração bom kkk]

— Não acho que o avô vai compartilhar do seu entusiasmo — disse Lahan.

— Bem, não há muito o que fazer quanto a isso. Dez anos no exílio não diminuíram nem um pouco o orgulho dele. A vida dele vai continuar como sempre foi, dolorosamente entediante, pelo menos no ponto de vista dele. — Houve um lampejo surpreendente de frieza nos olhos do homem.

— Ele sempre gostou de acumular números nada elegantes — disse Lahan. Ele calculava o tamanho do campo e quantos brotos de batata poderia plantar. As mudas cortadas durariam vários dias se fossem mantidas na água.

A realidade era que, mesmo começando um campo agora, não havia garantia de colheita ainda naquele ano. Assim como não existia remédio milagroso, também não existiam respostas perfeitas na política. Era preciso pesar os prós e contras e decidir o que seria mais vantajoso.

Justo quando pensavam no que fariam, a porta se abriu com força.

— Maomaaaao! Já tomei banho!

O estrategista entrou, completamente nu, exceto por uma mínima camada de roupa de baixo. Esquisito era pouco, aquilo já era doentio. Ele nem parecia ter se secado direito; sua pele e cabelo ainda estavam pingando.

Sem se dar ao trabalho de esconder o incômodo, Maomao despejou um pouco do chá já frio em uma xícara, depois tirou um pequeno frasco de suas vestes e adicionou algumas gotas ao líquido. Em seguida, ela ofereceu ao estrategista.

— M… M… Maomao! Você está me servindo chá?!

— Por favor, beba um pouco.

Os olhos do estrategista se encheram de lágrimas de emoção enquanto ele pegava a xícara e virava o conteúdo de uma vez.

Houve um breve silêncio. Assim que ele terminou de beber, um tremor percorreu o seu corpo, e então ele desabou no chão.

— Você envenenou ele! — exclamou Lahan.

— É só álcool — respondeu Maomao. O estrategista sempre foi fraco para bebida. Na verdade, ela achava que ele parecia ainda menos resistente do que antes.

Sem o menor interesse em continuar vendo o corpo nu dele, ela trouxe um cobertor do quarto e o colocou por cima dele. Lahan e Rikuson carregaram o maluco até o sofá com expressões de exasperação.

— Talvez eu tenha tido sorte por só ter filhos homens — disse o pai de Lahan com um sorriso irônico.

O maluco sorria de um jeito inquietante.

— ...fazer um... — ele murmurou, arrastando as palavras durante o sono.

— O que o senhor disse? — perguntou Rikuson, inclinando-se mais perto.

— Eu vou fazer um… de Go…

Rikuson ficou confuso.

— Por algum motivo, ele quer fazer um livro de Go — disse ele, parecendo não entender muito bem. Maomao, porém, olhou para a mesa. Lahan havia preservado a partida anterior como um registro de jogo.

Supostamente existiam muitos outros registros de partidas entre o maluco e sua cortesã, o suficiente para preencher um livro.

Hum...

O estrategista adormecido parecia muito tranquilo. Maomao esperava que ele estivesse mais abatido com tudo aquilo, mas não parecia ser o caso. Não havia sinal de que ele estivesse oprimido pela dor; ele continuava sendo o mesmo excêntrico maluco de sempre, seguindo em frente.

— Normalmente, quando alguém compra uma cortesã, faz dela sua amante. Assim, não precisa da aprovação dos pais, o que teria sido conveniente, considerando a relação entre meu respeitável pai adotivo e meu avô — disse Lahan a Maomao.

— Sim, e daí?

— Mesmo assim, ele quis fazer uma apresentação formal, a ponto de chamar meu avô, que ele tinha deixado aqui por tanto tempo. Esta mulher é minha esposa, era o que ele queria dizer. De forma clara e inequívoca.

— Lakan sempre foi um romântico — disse o pai de Lahan.

— Sim, ótimo. — Maomao sentou-se em uma cadeira, como se quisesse deixar claro que nada daquilo tinha a ver com ela. Pegou a raiz de batata do balde e deu uma mordida de teste. — É horrível crua — disse, jogando-a de volta no balde com uma careta.


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