Volume 6
Capítulo 6: O Clã La (Parte 1)
Será que isso é mesmo uma boa ideia? Maomao pensou enquanto tomava seu chá em goles pequenos. A familiaridade podia ser algo perigoso, ela debilita o senso de perigo.
— Acho que isso conta como uma recepção calorosa — disse Lahan, também tomando um gole de chá.
Um homem de expressão impassível estava sentado do outro lado da mesa, de braços cruzados.
— Ora, meu querido irmão... — disse Lahan. Se fosse para acreditar em suas palavras, o homem à sua frente era seu irmão mais velho. Ele possui porte mediano, nem muito alto, traços mais ou menos comuns, e parecia não haver muito além disso nele. Pensando bem, Lahan tinha dito que o estrategista excêntrico o havia adotado, mas nunca disse que não tinha outros irmãos. Maomao simplesmente presumiu isso.
Lahan os levou até uma propriedade não muito longe do cais, perto o suficiente para ir a pé. Rikuson desceu do barco com eles, mas Lahan disse algo como “não tenho tanta certeza de trazer estranhos conosco”, e ele acabou ficando numa estalagem perto do cais. Maomao achou que ele poderia muito bem ter seguido viagem com Ah-Duo e a Concubina Lishu, mas aparentemente isso não estava nos planos.
Quanto ao eternamente alegre Kokuyou, ele disse que ia procurar uma carruagem para seguir até a capital. Se o destino quisesse, eles se encontrariam de novo.
A casa para a qual eles estavam indo não ficava na cidade; ela estava simplesmente isolada, erguida ali no meio do nada. Era uma residência razoavelmente luxuosa, mas perdida no campo. Talvez algum alto oficial da capital tivesse sido banido para ali; para alguém assim, devia ser humilhante.
Será que é mesmo certo simplesmente nós aparecermos assim?
Ao redor, Maomao via o que pareciam ser campos de cultivo por toda parte. Pequenas casas pontilhavam a paisagem ao longe, mas estavam distantes demais umas das outras para formar uma vila. A plantação era de algo que Maomao não via com frequência. Parecia semelhante à uma trepadeira, mas essa era considerada uma erva daninha, já que raramente dava frutos. Mas aquilo, fosse o que fosse, estava plantado em larga escala.
O que será que é isso?
Quando ainda estavam a caminho da casa, encontraram aquele homem na estrada. Ele lançou um olhar alarmado para eles, então os arrastou até um galpão próximo, que era onde estavam agora. Quanto ao chá, a chaleira já estava ali, e eles apenas a usaram. Não tinha cheiro estranho, então provavelmente era seguro. O sabor, porém, era incomum, talvez algo torrado. O lugar parecia uma pequena oficina voltada ao trabalho agrícola; as ferramentas bem organizadas revelavam o zelo do dono.
— O que vocês estão fazendo aqui?! — exigiu o homem.
— O que foi? O seu irmãozinho não pode fazer uma visita? — (Maomao suspeitava que Lahan estava ali porque sentiu cheiro de dinheiro.) — O pai está por aqui? Eu queria falar com ele.
— Pai?! Você quer dizer aquele seu “pai” de olhos de raposa?
— Não, estou falando do meu pai. Meu respeitável pai adotivo está na capital, para sua informação.
O irmão de Lahan se calou, até bater na porta com força.
— Saiam daqui e voltem para casa! Agora, antes que encontrem vocês!
— Você é terrível. Faz tanto tempo que você não vê seu irmãozinho.
— Você não é mais filho do meu pai.
A conversa soava vagamente absurda. Maomao abriu a tampa do bule e espiou dentro: não havia folhas de chá, mas cevada torrada. Sim, pensou, impressionada; uma forma interessante de usar isso.
Assim, Lahan tomava sua bebida com tranquilidade enquanto o irmão se irritava e mandava que ele fosse embora. Maomao, por sua vez, examinava uma trepadeira jogada num canto do galpão. Parecia ser a mesma planta cultivada do lado de fora. O caule havia sido cortado e colocado num balde. Observando com atenção, ela notou algo que pareciam raízes, então eles pretendiam replantá-la?
As folhas realmente lembravam a da trepadeira, mas aparentemente era outra coisa. Maomao começou a vasculhar as prateleiras. Havia algo naqueles campos que prendia sua atenção. Nas prateleiras, encontrou apenas baldes e trapos, então ela olhou pela janela. Apesar da sombra do galpão, viu vasos com pequenas glórias-da-manhã.
Mas também não são glória-da-manhã.
Havia muitas dessas flores atrás do galpão. Seriam apenas ornamentais? Ou talvez a família produzisse remédios com elas? As sementes de glória-da-manhã eram conhecidas como qianniuzi e eram usadas como laxante e diurético. Mas elas podiam ser bastante tóxicas, o que exigia bastante cuidado no manuseio.
Quando o irmão de Lahan percebeu Maomao olhando pela janela, ele a fechou com um estrondo.
— O que você está fazendo?!
— Nada. Só estava curiosa sobre as glórias-da-manhã.
— E afinal, quem diabos é você? — uma pergunta meio tardia.
— Ela é minha irmãzinha, querido irmão.
— Sou uma completa desconhecida, senhor.
— Qual é a verdade?! — o irmão de Lahan cerrou os punhos.
Maomao e Lahan trocaram um olhar, e então ela disse:
— Ele é bem fácil de provocar.
— Não é? Não há muitos como ele… ele realmente responde na mesma moeda quando você quer.
— Parem! Eu não entendo uma palavra do que vocês estão dizendo! — o irmão de Lahan bateu os pés no chão. Era mesmo divertido provocá-lo.
Lahan serviu mais chá e ofereceu ao outro homem, que bebeu de uma vez e jogou o copo longe, devia estar muito quente. Maomao foi buscar o recipiente de madeira.
— Excelente reação. Extremamente fiel ao esperado.
— Não é? Parece que devia haver vários assim por aí, mas são surpreendentemente raros.
— Droga, eu não entendo nada! — exclamou o irmão, com a língua tropeçando nas palavras.
Certo, já chega de se divertir às custas do irmão. Hora de voltar ao assunto.
— Você parece muito empenhado em nos expulsar daqui. Posso perguntar por quê? — disse Maomao. — Quer dizer, entendo que possa desprezar esse homem por trair a família e se juntar àquele estrategista raposa.
— Você entendeu tudo errado, irmãzinha.
— Ela entendeu quase tudo certo, mas esse não é o ponto.
— Quase certo, irmão?! — disse Lahan, genuinamente abalado. Ele realmente não tinha percebido?
Seu irmão o ignorou, voltando o olhar para Maomao.
— Ele te chama de irmãzinha. Então você é a filha de Lakan?
Maomao respondeu com uma expressão terrível. O irmão estremeceu e recuou.
— Maomao, não olhe assim para o meu querido irmão, você vai fazê-lo ter um ataque do coração. Eu disse para não fazer isso! — Lahan falava com ela como se ela fosse com uma criança, o que só a irritou ainda mais. Ela desviou o olhar dos dois e tomou mais um gole de chá.
O irmão de Lahan se sentou, respirando fundo algumas vezes. Ele abriu a boca, mas Maomao lançou a ele outro olhar fulminante, e ele levou a mão à testa e escolheu as palavras com cuidado.
— Olha, não importa quem você seja, você precisa sair daqui, o mais rápido possível. E se você for mesmo quem Lahan diz que você é, então mais ainda.
— Pelo seu tom, deduzo que isso não seja algo trivial — disse Lahan.
— Se você entende isso, então pare de discutir e vá embora.
Mas ser tratado assim só aguçava a curiosidade de qualquer um. Os óculos de Lahan brilharam.
— Irmão, o que aconteceu?
— É mais seguro não perguntar.
— Só queremos saber o que está acontecendo. Depois disso vamos embora.
— Se eu te contar, não terá como escapar.
— Irmão... — esse tipo de fala vai causar exatamente o efeito contrário, pensou Maomao.
A conversa continuou, com Lahan tentando arrancar informações. Mais cedo ou mais tarde, ela suspeitava, ele conseguiria a verdade. Mas a trama deu uma reviravolta antes disso.
A porta se abriu com estrondo, revelando um homem idoso com bengala, uma mulher de meia-idade e vários indivíduos que pareciam criados.
— Achei que ouvi barulho aqui — disse a mulher, estreitando os olhos para Maomao e Lahan. O irmão de Lahan empalideceu. — Quanto tempo, Lahan. Três anos, se não me falha a memória?
— De fato, faz bastante tempo. — Lahan deu um passo à frente e se curvou profundamente. — Mãe. Avô.
Mãe... Avô... pensou Maomao. Ou seja, aquela era a família expulsa da capital. O velho tinha o aspecto típico da idade endurecida, olhos marcados, rosto rígido, barba longa.
Quanto à mulher, ela tinha um rosto encantador, mas seus olhos estreitos faziam Maomao lembrar de um predador. Ela se parecia com a mulher do clã Shi, a mãe de Loulan. Em suma, ela era intimidadora. Suas roupas eram um tanto chamativas, e ela usava uma pulseira branca, talvez ela não estivesse atualizada com as tendências de moda.
— Vejo que trouxe uma coisinha esfarrapada com você. Quem é essa? Sua criada? — disse a mulher. Era quase obrigatório que estranhos zombassem de Maomao, e ela já estava acostumada com isso. Ela permaneceu em silêncio, mantendo os olhos no chão.
— Ora, mãe. Esta é minha irmãzinha.
— Laha…?! — o irmão mais velho tentou falar, mas tapou a boca.
— Irmãzinha... você é filha de Lakan, não é? — interrompeu o velho.
Maomao continuou olhando para o chão, mas seu rosto se contraiu em um mal humor evidente. Havia alguém ali tão incomodado com o nome quanto ela: a mãe de Lahan. Era possível até ouvir seus dentes rangendo.
— Sim... isso mesmo — interveio Lahan. Até mesmo seu irmão o encarava com incredulidade. Agora ficava claro por que ele queria tanto expulsá-los dali antes que fossem descobertos. Nesse ponto, Maomao concordava com ele: parecia que a vida teria sido mais fácil se nunca tivessem conhecido aquelas pessoas.
O velho emitiu um som abafado; isso deixou Maomao confusa por um segundo, até que ela percebeu que parecia ser uma risada.
— Ha ha ha ha. Como vocês ficaram sabendo disso?
Lahan pareceu perplexo. — Ficamos sabendo...?
Do que ele está falando? Maomao pensou, com uma expressão de confusão semelhante à de Lahan. Os outros não pareceram notar, talvez porque tanto ela quanto Lahan tinham expressões naturalmente discretas.
Sem se importar, o velho continuou:
— Se vocês vieram por causa de Lakan, esqueçam. Ele é uma casca vazia de homem. Nem sequer resistiu quando o colocamos em confinamento. Só fica murmurando sozinho. Francamente, é perturbador.
— Espera... Confinamento? — Maomao e Lahan se entreolharam.
O irmão de Lahan levou a mão à testa e soltou um longo suspiro.
— Vovô, do que exatamente o senhor está falando? — perguntou Lahan.
— Ah, não se faça de bobo. Seu pai adotivo pode ser excêntrico, mas até você começaria a suspeitar de algo quando ele não voltasse por dez dias inteiros. Foi por isso que vocês vieram, não foi?
Maomao não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas entendia que aquilo parecia um problema. E, se aquele velho, o avô de Lahan, estivesse dizendo a verdade, então aquele sujeito estava preso em algum lugar. Não que ela conseguisse acreditar nisso.
— Hmm... dez dias inteiros não significam muito para nós, vovô. Maomao e eu estamos longe da capital há mais de um mês — disse Lahan, coçando a nuca.
O velho virou-se lentamente para Maomao.
— Você está brincando.
Maomao tirou uma pequena caixa da bagagem e a abriu, revelando um vaso com uma planta bastante incomum. Era o pequeno cacto que ela havia recebido. — Vocês não encontram isso por aqui, pelo menos ainda não — disse ela. Eles também tinham geleia de groselha e algumas outras coisas, mas ela achou que um monte de comida não seria tão convincente. — Também temos peles e sedas — acrescentou ela.
A mãe e o avô de Lahan ficaram encarando a planta, algo que claramente nunca tinham visto antes. Sim, aquilo dizia com todas as letras: “lembrança do oeste”.
— Você está brincando — repetiu o avô.
— Por que mentiríamos para o senhor? — disse Lahan. — Também trouxemos charutos. Quer experimentar? — Ele também abriu parte da bagagem. Folhas de tabaco geralmente eram importadas e consideradas um item de luxo na capital, mas no oeste podiam ser obtidas por um preço baixo.
A mãe e o avô trocaram um olhar em silêncio. Por fim, o avô fez um gesto com a mão.
— Peguem eles.
Os criados atrás dele avançaram sobre Maomao e Lahan. Em pouco tempo, ambos foram capturados, ainda meio atordoados.
— Como isso foi acontecer? Como puderam me trancar? A mim! Eu achei que era da família.
— Acho que você quer dizer um traidor.
— Que grosseria! — disse Lahan, sentando-se numa cadeira. Eles estavam de fato presos, mas em um quarto bastante comum. Os móveis eram antigos, porém resistentes, e o lugar estava razoavelmente limpo. Maomao sabia disso porque passou o dedo pelas prateleiras e peitoris das janelas em busca de poeira, como uma sogra cruel, mas não encontrou nada.
— Mesmo assim... — disse Maomao. Havia muitas coisas estranhas ali. Se o avô de Lahan estivesse certo, aquele sujeito também estava preso em algum lugar daquela mansão, igualmente sob confinamento. Ele podia ser descuidado até certo ponto, mas Maomao não achava que ele teria se deixado capturar com tanta facilidade.
— Você acha que aquele velho está falando a verdade? — perguntou Maomao.
Lahan coçou o cabelo desgrenhado.
— Não dá pra ter certeza de que não seja.
— E aquele velho?
— Maomao... Tem uma coisa que eu não te contei — disse Lahan, de forma um tanto abrupta. — A cortesã que ele comprou na Casa Verdigris no ano passado... ela não estava em boas condições de saúde.
— Imagino que não.
A mulher já parecia estar à beira da morte. E quem vai lá e compra uma cortesã prestes a morrer senão aquele estrategista excêntrico?
— Foi por isso que meu respeitável pai adotivo não veio nessa viagem.
Então era por isso que Rikuson tinha insistido tanto para que Maomao fosse até a casa do estrategista? Maomao se apoiou no parapeito da janela. Havia grades de madeira, sem muita chance de fuga. Além das grades, ela via agricultores trabalhando nos campos. Afinal, o que estavam cultivando ali?
— Meu pai raramente via as pessoas como... bem, pessoas. Mas depois que acolheu aquela cortesã em casa, ele mudou drasticamente. Foi até constrangedor de ver, pra falar a verdade.
— É mesmo?
— Eles jogavam Go e Shogi todos os dias. Go, principalmente. O problema era quando ele precisava trabalhar. Ele levava um diagrama do tabuleiro com ele, fazia um movimento, mandava um mensageiro de volta pra casa colocar a peça, anotar a resposta e retornar à corte. E isso se repetia várias e várias vezes.
Sim, Maomao entendeu. Aquilo devia ser extremamente irritante. Ela sentiu pena do mensageiro.
— O mensageiro vivia ocupado... até a virada do ano. Depois disso, ele começou a ter cada vez mais tempo livre.
— Seja lá onde você quer chegar com isso, não tem nada a ver comigo.
Ela não acreditava que o estrategista excêntrico simplesmente se deixaria capturar e se afastar de uma cortesã por quem sentia algo tão forte. Em outras palavras, o tempo dela simplesmente tinha chegado. Provavelmente viveu mais do que teria vivido se tivesse permanecido no distrito dos prazeres. Talvez fosse esse pensamento que fazia Maomao parecer tão calma. Para os outros, talvez ela até parece fria, mas quem trabalha com medicina acaba lidando com a morte com frequência. Se ficasse chorando o tempo todo, nunca conseguiria atender o próximo paciente.
Embora existam aqueles que choram todas as vezes, pensou ela. Pessoas que nunca se acostumam. Pessoas que nunca aprendem a aceitar. Pessoas como seu pai adotivo. Ela achava aquilo ineficiente, até tolo, mas era exatamente por isso que o respeitava tanto.
— Não tem nada a ver com você? Não seja tão pessimista. Se aquela cortesã morreu, duvido que nem mesmo meu pai adotivo suportaria o choque.
— E você acha que aproveitaram isso para trazê-lo até aqui?
Era uma ideia absurda. Apesar de tudo, aquele sujeito era um alto oficial. Se desaparecesse por dez dias inteiros, muita gente além do filho adotivo notaria.
Quando Maomao expressou isso, Lahan respondeu:
— Quando ele comprou a cortesã, ficou duas semanas sem trabalhar. E quando voltou, ainda quase não tinha serviço esperando por ele.
Ele precisa trabalhar pra viver, droga!
Ou talvez todos os outros devessem admitir que não precisavam dele.
— A questão é a seguinte: desde que todos os outros estejam fazendo seu trabalho, a menos que haja uma crise grave, provavelmente conseguiriam continuar funcionando por uns bons seis meses antes que alguém percebesse que ele desapareceu.
Sinceramente. Por que o Imperador não demite logo esse sujeito?
Maomao começou a suspeitar que talvez o estrategista tivesse alguma vantagem sobre o governante. Ou talvez fosse apenas muito bom em escolher subordinados competentes.
— Isso soa meio... relaxado demais. Os oficiais são mais preguiçosos do que eu imaginava?
— Tudo que posso dizer é... bem, ele é meu pai — respondeu Lahan.
Maomao suspirou.
— Se eu tivesse que adivinhar, diria que o vovô e os outros prenderam o meu pai na esperança de declarar o cargo de chefe do clã vago e, assim, assumir o lugar — disse Lahan.
— Política familiar não é muito a minha área. Como decidem quem vira chefe do clã?
Ela tinha ouvido falar de que o velho excêntrico havia tomado a liderança do avô de Lahan, mas não sabia os detalhes.
— Normalmente, entre os clãs nomeados, existe um objeto que é passado junto com o título. Quem possui esse objeto é o chefe do clã, e o leva quando se apresenta no palácio. Claro, eles não vão ao palácio todos os dias, só em ocasiões especiais. Esse objeto costuma ser guardado em segurança. Quando o chefe muda, o anterior acompanha o novo para se apresentarem formalmente ao Imperador. Dizem que meu pai “roubou” a posição, mas, na verdade, esse procedimento foi seguido.
— E como ele conseguiu isso?
A julgar pelo que ela tinha visto do avô de Lahan, ele não parecia do tipo que abriria mão do cargo sem fazer alarde. Será que ele teria realmente acompanhado educadamente... bem, você sabe quem, para se encontrar com o Imperador?
— Foi simples: o vovô foi forçado a sair. Ele nunca teve apreço por números bonitos, entende.
— Deixa eu adivinhar… você encontrou as provas. — Ela até pensou em perguntar quantos anos ele tinha na época, mas preferiu não.
— O que o vovô fazia era... bem, nada mais do que mesquinharia, então só ele seria punido. O avô disse que a revelação mancharia o nome da família, mas o pai mal se importava com essas coisas.
Então o “avô” seria derrubado de sua posição de destaque, e ele poderia escolher entre agir como um criminoso ou renunciar à liderança, e foi ninguém menos que seu neto quem ajudou a colocá-lo nessa situação. Números bonitos, de fato. Lahan provavelmente se divertiu ajudando aquele velho com toda a pesquisa.
— Agora entendo por que não tratam você como família aqui.
— Como assim? Que mudança de assunto estranha...
E ele nem percebia! Sim, ele era mesmo sobrinho daquele maluco.
— Certo, mas eles viveram tranquilos aqui todo esse tempo, não? Por que agir agora?
— Consigo pensar em alguns motivos — disse Lahan, levantando os dedos para contar. — Um: documentos públicos neste país são descartados após dez anos. Ou poderia dizer que se desgastam; qualquer coisa que não seja extremamente importante simplesmente não é preservada com cuidado. O que encontrei sobre o desvio do meu avô só teria valor se comparado com esses registros. — Ele levantou outro dedo. — Dois: Eles podem ter encontrado alguma forma de pressioná-lo, algo para ameaçá-lo e se proteger, se necessário. Embora estivessem arriscando a ira dele, é claro.”
Ele se virou para Maomao, que recuou levemente. É claro que, naquele momento, a ira não recairia sobre Maomao, mas sobre a cortesã.
— Você acha que eles conseguiriam esse tipo de informação aqui tão longe? — perguntou ela.
— Calma, eu ainda não terminei — disse Lahan, levantando um terceiro dedo. — Três: alguém forneceu essa informação.
Ah. Aquilo começou a soar familiar. — Você acha que é isso que está acontecendo aqui também?
Aqui também: tanto os bandidos que atacaram a Concubina Lishu quanto a história sobre a vidente na capital ocidental a fizeram pensar na imortal “branca”. O padrão era semelhante nos dois casos.
— Só estou levantando uma possibilidade. Mas não dá pra ignorar.
Sim, ele estava certo. Não podiam ter certeza de nada, mas deviam partir do princípio de que isso era possível. Isso, no entanto, deixou Maomao com uma dúvida. — Se todos esses incidentes estiverem conectados, tem uma coisa que me incomoda — disse Maomao.
— O quê?
Ela não conseguia se livrar da sensação de que a sombra da Dama Branca pairava sobre a sucessão de eventos misteriosos dos últimos tempos, e vários aspectos deste caso pareciam indicar o mesmo autor. Mas ela se perguntou: — Tivemos casos tanto no leste quanto no oeste que parecem envolver a imortal. Você acha que ela está, de alguma forma, ligada a todos eles? — Ela teria que ser extremamente ágil. — Mesmo que assumamos que não seja a própria Dama Branca, mas sim seus agentes realizando o trabalho, a informação parece circular rápido demais.
— É verdade...
A vidente do oeste poderia ter agido de forma muito semelhante à Dama Branca, mas como ela saberia da meia-irmã da Concubina Lishu, que se encontrava bem longe, ao leste? Se elas estavam trocando informações, como estavam fazendo isso? A pergunta permanecia sem resposta.
— E se a Dama Branca tiver um cúmplice na capital? — sugeriu Lahan. Assim, ela conseguiria descobrir quem estaria viajando para o oeste.
— E como a própria existência da vidente, então? Ela já estava lá há pelo menos dez dias.
— É exatamente isso. Parece impossível — resmungou Lahan.
— Mesmo assim... — murmurou Maomao, olhando pela janela.
— Mesmo assim o quê?
— Fico me perguntando se vão nos dar comida. — disse ela, olhando para os campos. Os agricultores continuavam trabalhando com afinco.
Os receios de Maomao acabaram por ser infundados. Serviram-lhes uma refeição, e não estava nada mal. Ingredientes de boa qualidade, carne e peixe. O peixe estava um pouco salgado. Quanto mais para o interior se ia, mais comum era encontrar frutos do mar salgados. Na capital, o peixe era pescado fresco do mar e levado às tavernas a cavalo, por isso nunca se via frutos do mar em conserva por lá.
Os pãezinhos de gergelim eram surpreendentemente saborosos. O recheio não era pasta de gergelim, mas algo como castanhas trituradas ou feijão doce ou algo parecido. O recheio era espesso e doce; talvez tivessem usado mel ou xarope para dar aquela consistência.
Não, espere. Isso é… batata-doce? Ela se perguntou, mastigando a comida, pensativa. Isso fazia sentido.
Até mesmo Maomao, que não era fã de doces, comeu dois pãezinhos. Lahan devorou nada menos que cinco deles.
— Olha só você. Até fiquei impressionada. — disse Maomao.
— Para sua informação, usar o cérebro dá vontade de comer doces — respondeu Lahan, enfiando mais um pãozinho na boca.
— Será que a família daqui gosta tanto de doces assim? — perguntou Maomao.
Batata-doce era um alimento pouco comum. Por ter morado tanto na Casa Verdigris quanto no palácio interno, Maomao já as tinha visto antes, mas elas não eram fáceis de encontrar no mercado. Os demais ingredientes da refeição eram comuns, talvez as pessoas daqui fossem exigentes quanto ao recheio.
— Não muito. Pelo menos, não me lembro deles serem assim. Quer dizer, não é que eles odeiem doces, também.
— Hm. — Maomao tomou um gole do chá que tomava após a refeição. Desta vez, não tinha gosto de cevada torrada, mas sim de folhas de chá de verdade. Então, aproveitando um pensamento que lhe passou pela cabeça, ela disse: — Acho que ainda não vimos seu pai. O que será que aconteceu com ele?
— Pois é, também queria vê-lo — disse Lahan, lambendo os dedos enquanto falava. Isso lembrou Maomao do estrategista de olhos de raposa, o que lhe rendeu um olhar severo. — Você acha que ele está envolvido nisso? — ela perguntou.
— Hmm. Duvido. Meu pai adotivo só pediu que o cargo de chefe do clã fosse deixado vago. Mas rumores se espalham. Mas os boatos têm uma maneira de se espalhar, e meu avô era um homem orgulhoso. Ele percebeu que não podia mais ficar na capital. Meu pai, ele poderia ter ficado lá se quisesse. Ele simplesmente escolheu não ficar.
— Um fato com o qual sua mãe claramente não parece nada satisfeita.
Lahan sorriu com sarcasmo.
— Sim, foi o Vovô quem escolheu a minha mãe. Ela e meu pai adotivo se dão como água e óleo.
Na verdade seria mais surpreendente se fossem amigos. Maomao imaginou a mulher sarcástica e sentiu uma pontada de simpatia.
— Fico me perguntando se foi uma boa ideia nos colocarem no mesmo quarto. Espero que pelo menos nos deem lugares separados para dormir — disse Maomao.
— Se fizerem a gente dormir no mesmo quarto, quem liga? Não é como se fosse acontecer alguma coisa.
— Nisso você tem razão.
Não havia mais o que dizer sobre isso; os dois se entreolharam como se não acreditassem que estavam tendo aquela conversa.
— Falando nisso, você e o irmão mais novo do Imperador…
— Acho que vou tirar um cochilo — disse Maomao, jogando-se na cama ao lado dela.
— Ei! E eu vou dormir onde?
— Tem um sofá bem ali.
— Você devia ter mais respeito pelos mais velhos!
— Achei que os mais velhos é que deveriam mimar os jovens.
Lahan claramente tinha algum problema com esse arranjo, mas Maomao não se incomodou. Em vez disso, ela deitou-se na cama, tentando organizar os fatos em sua cabeça.
Lahan e o estrategista excêntrico de fato pareciam estar dando ao antigo chefe do clã e sua família dinheiro suficiente para viver, afinal, tinham recursos para contratar criados, embora talvez não para manter móveis de luxo de última geração ou comer comidas sofisticadas em todas as refeições. Para Maomao, parecia um acordo razoavelmente bom, mas para alguém que já viveu cercado de luxo na capital poderia muito bem considerar aquilo profundamente humilhante. A humilhação vinha se acumulando ao longo de muitos anos e agora estava prestes a explodir, mas quem havia acendido o pavio?
Maomao se lembrou da pulseira branca que a mãe de Lahan usava. Ela não a observou muito bem, mas aquilo a fez pensar em uma corda branca, torcida como uma serpente. Ela esperava que fosse apenas um mal-entendido, mas aquilo trouxe de volta lembranças desagradáveis.
Essa “imortal” é mesmo persistente, pensou Maomao. Era como um fantasma; seus rastros pareciam estar por toda parte. Era quase o bastante para convencer Maomao de que ela realmente tinha a habilidade sobrenatural de estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Maomao adormeceu desejando que alguém capturasse logo aquela mulher.
Quando percebeu, já era noite. Ela saiu do quarto bocejando e encontrou não apenas Lahan, mas também o avô dele, aquele velho detestável. Se fosse apenas o vovô, talvez ela tivesse dado um golpe nele e tentado fugir, mas havia um criado atrás dele.
O rosto do velho se contorceu ao ver Maomao. Será que ela ainda estava com o cabelo bagunçado? Ou com remela nos olhos? Talvez o travesseiro tivesse deixado marca no rosto dela e ele não gostou.
— Vamos embora — disse o avô, saindo antes que Maomao pudesse protestar. Ela e Lahan trocaram um olhar, mas como a alternativa provavelmente era serem trancados de novo, eles foram.
— Parece mesmo que você é filha de Lakan — comentou o avô, mas Maomao não respondeu; não havia motivo para isso. Ainda assim, ficou claro que a família investigou o assunto enquanto ela dormia. Ela se perguntou como eles tinham conseguido, já que ela devia ter dormido menos de quatro horas.
— O homem é um completo idiota — continuou o vovô. — Não importa o que fazemos ou dizemos, ele só fica murmurando sozinho. Ele nem tenta falar conosco. Mas o seu nome... o seu nome, pelo menos, ele lembra.
Maomao parou de andar. Aquela conversa sugeria algo sobre quem estaria no destino deles, e ela não gostou.
— Eu sei que você não é fã, mas é melhor irmos. Discutir não vai levar a nada agora — disse Lahan, e infelizmente ele estava certo. Maomao voltou a andar.
Eles se dirigiam a um prédio na extremidade da propriedade, com grandes janelas redondas protegidas com grades. Dava para ver claramente o interior, inclusive o homem sujo de meia-idade deitado no chão.
O homem estava deitado de costas, com o queixo coberto por uma barba rala e desalinhada. O cabelo caía solto atrás dele, como se tivesse sido afastado com irritação. Havia uma tigela suja ao lado dele, e grãos de arroz grudados em suas roupas e dedos, como se ele tivesse comido com as mãos ao invés de usar os hashis.
— Pai! — gritou Lahan, correndo até as grades. A visão daquele homem, claramente fora de si, deve ter despertado algo nele.
De fato, havia algo de errado com ele. A boca dele se movia, formando palavras silenciosas, ele um viciado, passando por algum tipo de abstinência. Lahan pareceu pensar a mesma coisa, pois se virou para o velho.
— Vovô, eu sei que o senhor disse que o pai não escutava, mas o senhor não deu ópio pra ele ou algo assim, deu?!
— Hmph, não posso falar sobre isso. Mas quero que ele revele a localização da herança — disse o velho, olhando Lahan com arrogância. Então abriu os braços e disse: — De qualquer forma, não fui eu que o chamei. Foi ele quem me chamou, e eu fui até a capital por causa disso. Ele já estava assim quando o encontrei.
Maomao concordou, aquilo definitivamente não era envenenamento por ópio.
— Não havia criados nem ninguém na casa. Só ele, aquele velho maluco, curvado sobre um tabuleiro de Go, murmurando sozinho.
O avô afirmou que o trouxe para cá porque não havia mais ninguém por perto.
Ninguém? Maomao refletiu. Ela olhou para Lahan; aquilo não parecia possível. — Será que ele teve que demitir todos os seus criados ou algo assim porque estava tão endividado que não conseguia pagá-los?
— Não, ele manteve o mínimo necessário. Precisava de alguém para cozinhar, limpar e cuidar da paciente. Mas... eu já imaginava que isso poderia acontecer.
A quê ele se referia? Melhor dizendo, a quem: só podia ser a cortesã que o estrategista acolheu no ano anterior. Mesmo que os criados tivessem ido embora, ela ainda estaria lá, e o estrategista de olhos de raposa não a abandonaria sozinha em casa. O fato dele estar ali, naquele estado, só podia significar que a cortesã havia morrido.
Parecia que a própria alma dele tinha abandonado o corpo, e ainda assim o corpo se movia. Ele parecia encarar algo invisível. Ele estava sentado diante de alguém que já não estava mais ali.
— Você não pode fazer alguma coisa por ele, Maomao? — perguntou Lahan. Por um instante, o estrategista tremeu, mas voltou ao murmúrio incessante. Ele estava em péssimo estado.
— Vocês são filhos dele, não são? Não fazem ideia de onde estão as joias da família?! — exigiu o velho.
— Pode gritar o quanto quiser, senhor, mas... — disse Lahan, balançando a cabeça.
Maomao foi mais direta: — Não faço a menor ideia — ela também negou com a cabeça.
— Então talvez se lembrem disso! — O velho tirou um maço de papéis das vestes. Estavam cobertos de números. — Lakan estava com isso. Esse tipo de coisa é sua especialidade, Lahan. Esses números devem indicar um lugar escondido ou algo assim!
O velho estava evidentemente convencido de que os números eram algum tipo de código. Lahan pegou o papel e olhou para ele com os olhos semicerrados. Maomao espreitou por cima do ombro dele.
Os dois perceberam imediatamente o que era. O papel tinha dois números lado a lado, e havia dezenas de páginas.
Também sabiam que aquilo não continha a resposta que o velho queria, mas não havia motivo para dizer isso ainda. Antes, precisavam lidar com o estado deplorável do estrategista. Sinceramente, Maomao teria ficado igualmente feliz em não ter nada a ver com ele, mas quanto mais cedo começassem, mais cedo terminariam.
— Você tem um tabuleiro de Go nesta casa? — ela perguntou.
— O que diabos isso tem a ver com qualquer coisa?!
— Tem ou não? — repetiu ela, sem mudar o tom. O velho resmungou e chamou um criado, que trouxe o tabuleiro e as pedras.
Eles entraram no quarto do estrategista. Quando o tabuleiro foi colocado diante dele, seus ombros estremeceram. Maomao sentou-se à sua frente, do outro lado do tabuleiro. Ela pegou as pedras pretas, enquanto Lahan colocou as brancas ao alcance dele.
Maomao pegou uma pedra preta e a colocou no tabuleiro, seguindo os números escritos no papel. Em resposta, o excêntrico pegou uma pedra branca e a posicionou no tabuleiro com um clique.
Ela acreditava que aqueles papéis eram anotações feitas por um mensageiro enquanto o estrategista e a cortesã jogavam Go. Além dos dois números, havia uma numeração sequencial no canto superior direito. Maomao simplesmente jogava de acordo com os números, e o estrategista respondia.
Maomao não era particularmente boa em Go. Ela sabia apenas que o início do jogo envolvia padrões chamados joseki, sequências de jogadas mais ou menos estabelecidas. Assim, ela podia esperar que o estrategista fizesse as mesmas jogadas que havia feito na partida real. Ela simplesmente continuou virando as páginas, jogando e virando as páginas novamente, até chegar às últimas três folhas.
Lahan, observando, inclinou a cabeça. — Essa foi uma jogada ruim. — Ele se referia à pedra que Maomao acabou de colocar, mas ela a havia jogado exatamente de acordo com o papel.
O estrategista estreitou os olhos por um instante e então, clique, fez outro movimento.
— Colocar a pedra ali... Teria que ser uma jogada de sacrifício. Mas por quê? Por que ela faria isso dessa maneira? — murmurou Lahan.
Maomao não sabia muito sobre Go, mas Lahan tinha alguma familiaridade com o jogo. Seja como for, ela simplesmente continuou jogando da maneira que o papel indicava.
Mas quando chegaram ao fim do papel, ainda estavam no meio do jogo.
— Não... você nunca cometeria um erro desses — murmurou o esquisito de monóculo. Havia grãos de arroz grudados em sua barba por fazer, e Maomao teve que reprimir a vontade de mandá-lo lavar o rosto. — Você sabe que eu não deixaria passar... então por quê?
O estrategista não fez movimento algum para jogar a pedra branca que tinha na mão; limitou-se a ficar olhando para o tabuleiro.
Após um momento de silêncio, Maomao resmungou: — Talvez ela só estivesse cansada de jogadas normais? — Ela não sabia muito sobre Go, mas, ao longo dos muitos e muitos anos de existência do jogo, havia-se estabelecido uma sabedoria popular: diante de tal situação no tabuleiro, é assim que se deve jogar. Então, o outro jogador responderia, da mesma forma, de uma maneira específica.
— De fato, o normal aqui seria isso nessa situação. Então a resposta viria aqui... e depois as pretas jogariam aqui... — O sujeito de monóculo continuava murmurando para si mesmo, brincando nervosamente com a pedra branca entre os dedos, mas então pareceu ter uma espécie de revelação. Clique. A pedra foi colocada no tabuleiro.
— Mas isso... — disse Lahan, com a expressão tornando sombria. Não parecia uma boa jogada.
Sem o papel para guiá-la, Maomao não sabia mais onde jogar, então, em vez disso, empurrou a tigela com as pedras pretas na direção do estrategista. Ele pegou uma e a colocou no tabuleiro com um clique.
Lahan, que obviamente sabia mais sobre Go do que Maomao, cruzou os braços e ficou observando. A princípio, ele parecia cético, mas uma das jogadas seguintes pareceu despertar algo em sua mente, e seus olhos se arregalaram.
— Ei! Não é hora de ficar jogando! — explodiu o avô. — Andem logo e…
— Silêncio — disse Lahan. — Agora que está ficando interessante.
Ele observava o tabuleiro com uma expressão concentrada. Ficando interessante? Aquele esquisito estava jogando contra si mesmo! Por outro lado, na sua própria mente, parecia ser outra pessoa segurando as pedras pretas. Aos poucos, a cor voltou ao rosto antes pálido.
O único som era o clique, clique das pedras no tabuleiro, jogada após jogada.
Finalmente, o excêntrico parou. — Estamos chegando ao fim da partida. — Ele pousou as peças, como se indicasse que havia terminado de jogar. Em seguida, ele semicerrou os olhos para o tabuleiro. — O resultado é bastante óbvio. Contando com cinco pontos e meio de komi, as pretas vencem por um ponto e meio.
Lahan também olhou para o tabuleiro. — Ora, vejam só. Ele está certo — disse. Evidentemente, ele era tão rápido em ler território no Go quanto em qualquer outro tipo de cálculo.
O estrategista puxou os joelhos contra o peito e apoiou o queixo sobre eles. Ele rolou uma pedra de Go entre os dedos, ainda encarando o tabuleiro. — Eu fiquei me perguntando. Continuei me perguntando... como você pôde ir embora antes de terminarmos nossa última partida? Você sempre odiou perder. Eu tinha certeza de que você não iria embora antes de terminar. — As palavras pareciam jorrar de sua boca. — E eu me perguntei: por que você faria um movimento como aquele? Tinha que ser um erro, eu tinha certeza... mesmo sabendo que você nunca cometeria um erro.
Ele estava falando consigo mesmo; o que dizia não era dirigido a nenhum deles. Ele foi interrompido pelo velho.
— Ei! Lakan! Onde estão as joias da família? Eu quero esse tesouro, agora! — Ele empurrou Lahan para o lado e se colocou à frente do estrategista excêntrico.
O estrategista ergueu os olhos para ele com um olhar sombrio por um instante e murmurou: — Você é uma pedra de Go bem barulhenta. — Mas então bateu palmas e disse: — Ah! Pai, é você?
— “Pai, é você?” Bah! Você não reconhece o rosto do seu próprio pai?!
Não era uma questão de lembrar; o homem simplesmente não conseguia distinguir um rosto do outro.
— Pai? Ah, sim... Sim, isso me lembra... — Ele soava completamente fora de si, mas tirou de dentro do seu manto um pacote envolto em tecido. — Receio estar lhe dizendo isso um tanto... ahn... tardiamente, mas eu me casei.
Dentro do pacote havia cabelo. Cerca de cinco sun de comprimento, amarrado com uma fita. Maomao sabia a quem pertencia.
[Kessel: Cada sun representa 3,3 cm em média, portanto cinco seriam cerca de 16,6 cm de cabelo.]
O avô ficou vermelho como um tomate e desferiu um golpe com a bengala na têmpora do estrategista.
— Pai! — Lahan gritou, correndo até eles. Maomao tirou um lenço das dobras da própria roupa. A bengala escorregou pela têmpora do estrategista, roçou sua bochecha e acabou atingindo seu nariz. Não foi um golpe direto no rosto, mas ainda assim seu nariz começou a sangrar.
— Você é sempre assim! Nunca escuta o que eu digo, só fica tagarelando coisas sem sentido! E bem quando penso que você está completamente absorto em si mesmo... isso! O que é isso?! — O velho apontava para o maço de papéis. — Está zombando de mim de novo?!
— Não estou zombando de você. Foi por isso que eu o chamei.
Maomao suspeitava que, pelo menos isso, fosse verdade. O homem podia se fazer de idiota na corte, mas ela tinha a sensação de que não fazia o mesmo com aquele velho. O avô de Lahan havia dito que fora convocado pelo estrategista, pensar que era por causa disso.
No entanto, isso era ver a situação do ponto de vista do estrategista. Às vezes, as pessoas simplesmente não conseguiam se entender, fossem pai e filho ou não. O velho e o estrategista excêntrico eram diferentes demais.
— Tanto faz. As joias, homem. Entregue as joias! — O velho agora estava furioso. Ele pegou a bengala novamente, e uma lâmina surgiu de dentro dela. Era uma bengala-espada. — Sabe o que vai acontecer se tentar me enrolar, não sabe?
O estrategista ergueu os olhos, mas não para a lâmina. Seu olhar estava fixo em outra coisa. — Maomao? O que você está fazendo aqui?
Então ele finalmente a notou. Talvez nunca tivesse sido tão dócil se tivesse percebido antes. Isso só mostrava o quanto ele estava concentrado no seu jogo. — Então você veio ver o seu papai!
— Não. — Maomao desejou que ele prestasse atenção na situação em que estavam. Sentindo o perigo, ela se moveu para perto da parede.
— Ah, Maomao está aqui! Hoje precisamos fazer um banquete! — disse o estrategista, apertando o tufo de cabelo. Então estendeu a mão em direção a Maomao. — Não vai dizer nada? Só uma palavra, para a sua mãe... — Ele a olhou com uma expressão estranha. Com o rosto abatido e a barba suja, de repente parecia muitos anos mais velho.
Normalmente, Maomao o ignoraria, mas agora, surpreendentemente, ela abaixou a cabeça com respeito na direção do cabelo. Não, ela não tinha nada a dizer, mas podia ao menos fazer aquilo.
— Não me ignore, droga! — o velho enfurecido berrou, brandindo sua bengala-espada. A idade já cobrava seu preço, mas ele já foi um soldado, e ainda era mais resistente do que se poderia esperar. Diante dele estavam um estrategista que delegava todo o trabalho real aos subordinados; um funcionário civil convicto cuja arma preferida era o ábaco; e Maomao, que não tinha nenhuma confiança de que seria útil em uma luta.
[Noelle: Lembrando que o ábaco é a calculadora do Lahan!]
Os três covardes se dispersaram, e só conseguiram escapar por pouco do velho e de sua bengala agitada. Criados estavam atrás do avô, mas obviamente não ajudariam ninguém. Maomao, buscando qualquer tipo de segurança, se escondeu atrás de um pilar.
E então ouviram uma voz lenta e calma:
— Guarde isso; é perigoso. E se você acabar acertando alguém?
Maomao olhou e viu o velho suspenso no ar, agitando as pernas. Ele estava pendurado pelas mãos calejadas que o seguravam pelos braços; quem o erguia era um homem de pele bronzeada pelo sol, com um lenço no pescoço. Suas roupas o identificavam como um fazendeiro, talvez o mesmo que Maomao tinha visto pela janela de seu quarto. Ele era alto, de ombros largos e muito bem constituído, mas seus olhos eram gentis e serenos.
— Ei, o que está fazendo?! Me solte!
— Sim, sim. Assim que você me entregar essa espada — disse o fazendeiro robusto, tomando a arma do velho e recolocando-a na bengala. — Quando foi que você arrumou tempo para fazer isso? — murmurou ele. Os criados, em vez de tentarem ajudar o avô, pareciam aliviados ao ver o fazendeiro.
Quem é esse? Pensou Maomao, mas sua pergunta foi logo respondida.
— Faz muito tempo, pai — disse Lahan, inclinando a cabeça.
— Ah, você parece bem. Apesar da situação complicada em que o encontrei. Aquela jovem ali... é minha sobrinha? — O fazendeiro lançou a bengala-espada para um dos criados, e seu rosto já gentil se suavizou ainda mais. O homem parecia um urso, mas sua presença era acolhedora e reconfortante.
— Posso considerar que é meu irmão mais novo que acabou de chegar? — disse o estrategista excêntrico, sorrindo.
— Pode sim, embora eu preferisse que você aprendesse a reconhecer quem eu sou algum dia — respondeu o pai de Lahan, com um sorriso irônico.
Ele ainda não havia soltado o velho, que continuava chutando. — Estou fazendo isso por você, droga! Não quer recuperar o que é seu por direito?!
— Eu? Nem um pouco.
— E você consegue viver com isso?! Seu fraco!
— É mesmo! Você sempre foi assim! — De repente, a mãe de Lahan apareceu. Ela não parecia se dar muito bem com o estrategista; devia ter ouvido a confusão e vindo ver o que estava acontecendo. O pai de Lahan pareceu desconcertado ao se ver diante de mais uma crítica.
— De que adiantaria eu assumir a chefia da família? Um tolo comandando a casa só envergonharia todo mundo.
Seu tom resignado apenas irritou ainda mais o velho e a mãe de Lahan.
— Ainda seria melhor do que aquele idiota! — o avô gritou.
O tal idiota estava sorrindo estupidamente para Maomao. Era absolutamente repugnante.
— Você não ama nosso filho? Não quer vê-lo assumir a chefia? — pressionou a mãe de Lahan.
— Mas Lahan também é nosso filho — protestou o fazendeiro. Aparentemente, o filho ao qual a mulher se referia era o irmão mais velho de Lahan, que eles haviam encontrado antes. Ao que tudo indicava, Lahan era considerado um traidor e já não era mais visto como filho por ela.
A casa parecia dividida: alguns que, até momentos atrás, seguiam as ordens do velho agora olhavam para o pai de Lahan, claramente indecisos.
— E de que adiantaria eu assumir a chefia agora, afinal? Não há ninguém para me substituir, há? — disse o pai de Lahan. Então acrescentou: — Além disso, talvez ninguém se importasse se meu querido irmão Lakan não voltasse, mas acho que Lahan faria falta. — Seu tom era sereno e gentil.
Nesse momento, um criado apareceu correndo. — Mestre! Há um homem chamado Rikuson aqui...
O avô e a mãe franziram a testa ao ouvir isso. — E daí?! Mande-o embora!
— M-Mas, senhor, ele está com vários outros homens que parecem ser... soldados...
— Sabe, acho que me lembro de haver uma guarnição por aqui — disse Lahan, como se tivesse acabado de se lembrar. Mas era uma fala ensaiada, se é que Maomao já tinha ouvido alguma.
— Droga! V-Você contou com isso quando decidiu vir aqui?!
— Oh, não, nada disso. Embora pareça que acabou sendo útil.
Seu tom despreocupado só aumentou a raiva do avô; o velho bateu na parede com a mão enrugada. — Estou cercado de idiotas! Incompetentes! Minha família inteira é uma vergonha! — Agora ele batia o pé com tanta força que parecia que atravessaria o chão. — Tenho um filho que nunca sabe com quem está falando, e outro que acha que é fazendeiro! Maldita seja a mulher que deu à luz a ambos! Eu deveria ter tido outro filho, talvez esse tivesse prestado!
A fúria do velho não dava sinais de diminuir. Ninguém queria encará-lo; diante do que ele dizia, até a mãe de Lahan torcia os lábios.
— E ainda tem o Luomen… nunca soube usar uma espada, e depois ainda se mutilou! Existe ao menos uma pessoa aqui que valha o meu tempo?!
De repente, Maomao entrou em movimento. Ela saiu de trás do pilar, pegou a tigela no chão, o resto da sopa do estrategista. No instante seguinte, ela estava na frente do vovô e, então, jogou aquela porcaria podre em cima do velho.
— O que diabos você pensa que está fazendo?! — o velho rugiu. Ele deu um tapa em Maomao com a palma da mão, deixando sua bochecha em brasa.
Maomao cambaleou para trás. — Maomao! — gritou o estrategista. Ele tentou segurá-la, mas ela desviou com facilidade. A mão do velho ela não conseguiu evitar, mas a do estrategista podia escapar sem dificuldade.
— Eu só não gostei do seu tom — disse Maomao em voz baixa. Era a coisa errada a fazer, então, se fosse punida por isso, aceitaria. Mas queria impedir esse velho de ridicularizar o seu velho. — Não vou ouvir você dizer mais uma palavra contra o meu pai adotivo. O que quero dizer é: por favor, cale a boca!
— Sua insolente atrevida! Quem você pensa que eu sou?!
Quem? Na opinião dela, era o velho que não sabia quem ele era.
— Sem aquela relíquia de família, você é apenas um velho frágil que não sabe confiar em si mesmo — disse Maomao com um sorriso. Seu lábio estava cortado, mas isso era só um detalhe insignificante.
O rosto do velho se contraiu, e a mãe de Lahan também empalideceu.
— Esqueça o nome da família. Esqueça a chefia. O que você fez com as próprias mãos de que possa se orgulhar? — perguntou Maomao.
— Ouçam só essa pirralha magricela...
O fato dele responder não com uma resposta de verdade, mas com crueldade sem sentido, já era resposta suficiente. Ele se apoiou na chefia da família, acumulando pequenas transgressões. Maomao não sabia se ele evitou a corrupção mais grave por algum senso de racionalidade ou simples covardia.
Maomao ainda tinha mais coisas que gostaria de dizer para o velho, mas então alguém se colocou entre os dois.
— Sinto muito, jovem, mas por favor. Já chega. — A voz gentil era do pai de Lahan, as sobrancelhas franzidas de preocupação. — Eu sei que você preza muito pelo seu tio, mas lembre-se de que este homem é meu pai. — Seu rosto, com um traço de tristeza, lembrava o de seu próprio velho, Luomen.
Com esforço, ela engoliu o que estava prestes a dizer.
[Kessel: Muito interessante a briga interna do Clã La. E é claro que a Maomao não ia deixar passar barato alguém falando mal do Luomen na frente dela, kkkk!]
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