Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 10: Os Bolinhos Estragados

Ukyou levou Maomao até uma mansão no meio da cidade. Na capital, quanto mais ao norte se ia, melhor era a segurança pública, e era ali que ficava a maioria das casas da classe média.

Uma das casas parecia mais desgastada pelo tempo do que as outras. Ela devia ter sido esplêndida à sua maneira um dia, mas agora faltavam algumas telhas no telhado, e a parede de barro tinha cedido em certos pontos, revelando a estrutura de bambu por baixo. Não parecia apenas o efeito do tempo, mas sim descuido na manutenção por parte do dono.

— Aqui, é esta — disse Ukyou, batendo na porta da casa decadente. — Desculpa, mas não posso ir mais longe do que isso. A madame vai me dar uma bronca se eu não voltar. — disse ele.

— Sim, eu entendo — respondeu Maomao, mas entrou na casa com certa curiosidade. Ukyou parecia mesmo um homem ocupado. — O que é isso? — ela se perguntou em voz alta ao entrar. Apesar do estado deplorável da parte externa da casa, o interior estava surpreendentemente limpo e organizado.

Mas não foi isso que a surpreendeu. Foram as paredes. Elas estavam pintadas de branco e cobertas com estuque, sobre o qual havia pinturas. Um pomar de pêssegos se estendia por uma parede inteira, mas não havia três heróis devorando os frutos, e sim uma bela mulher. Seu corpo lembrava levemente um pêssego, o cabelo era negro como a noite, e dentes brancos apareciam entre lábios tão suculentos quanto o fruto que ela mordia.

Ela era a própria essência de uma imortal da aldeia dos pêssegos.

[Kessel: A Maomao está se referindo ao Jardim dos Pêssegos Imortais, segundo a mitologia taoísta. É uma lenda extremamente popular na China, que com o passar dos tempos, alcançou o seu auge com a criação de uma fábula, pelo famoso poeta Tao Yuanming, conhecida como “A Primavera em Flor de Pêssego”, que altera a ideia original da mitologia taoísta de um jardim para um vilarejo escondido em uma floresta, onde imortais vivem escondidos da sociedade, se alimentando dos pêssegos que crescem lá.]

Esse tipo de coisa só se faz quando se tem um patrocinador, pensou Maomao. Meimei havia dito que o homem pintava mulheres bonitas, mas Maomao nunca imaginou algo tão espetacular. Ela examinou a parede de perto, as superfícies pintadas tinham um brilho peculiar, diferente das pinturas às quais ela estava acostumada. Ela estava prestes a passar o dedo pela parede para descobrir de que material se tratava quando ouviu passos apressados.

— Sardenta! Ei, Sardenta! O que você está fazendo parada aí? Vem ver ele, rápido! — era Chou-u, com o rosto pálido.

Droga, é verdade. Maomao tinha o péssimo hábito de se concentrar completamente em tudo que chamava sua atenção. Ela deixou que Chou-u a arrastasse pela casa até chegarem a algo que parecia uma sala de estar. O lugar estava cheio de objetos variados: pós coloridos (provavelmente pigmentos), cascas de ovo (por algum motivo), um pó branco que ela supôs ser estuque e outra substância para engrossá-lo.

Bem no centro da sala, um homem estava deitado em um sofá. Outro homem, com uma expressão preocupada, estava ao lado dele. O homem no sofá parecia exausto e não tinha barba; e sua palidez tinha ido além do pálido; ele estava praticamente branco. A única cor em sua pele parecia estar nas pontas dos dedos, manchadas de tinta. O homem ao lado parecia meticuloso, exceto pelo fato de que suas mãos também estavam sujas.

— Você precisa ver o mestre! — disse Chou-u.

O “mestre” devia ser o famoso artista progressista. Ao lado do sofá havia um balde cheio de vômito.

Maomao começou a examinar o homem. Seus braços e pernas se contraíam ocasionalmente. Ela abriu seus olhos e observou as pupilas e verificou o seu pulso. Pelo que ela podia perceber, ele apresentava todos os sinais de intoxicação alimentar.

— Quais são os sintomas dele? — perguntou ela.

— Acho que ele ficou vomitando e com diarreia por bastante tempo — disse Chou-u.

— Quando finalmente passou, ele começou a sentir calafrios, então eu o deitei — acrescentou o homem ao lado.

— E quem é você? — perguntou Maomao.

— Ele é colega de trabalho do mestre! Vamos, anda logo!

Chou-u podia pressioná-la o quanto quisesse, mas havia limites para o que Maomao podia fazer. Se ela não soubesse qual toxina estava envolvida, ela não poderia tratá-lo. Ainda assim, se era verdade que o homem vomitou e teve diarreia, havia algo que certamente lhe faltava.

— Chou-u, traga para mim sal e açúcar. Se não tiver em casa, consiga em outro lugar — disse Maomao, tirando uma bolsinha de moedas das dobras de sua roupa e jogando para ele.

— Entendi — disse ele, saindo apressado. Talvez ele não pudesse correr bem por causa do corpo parcialmente paralisado, mas ao menos dava conta de uma tarefa dessas.

— Vou usar a cozinha — disse Maomao ao colega de trabalho, que assentiu.

Ela foi até a cozinha e olhou para dentro do jarro para se certificar de que a água ainda estava boa. Ela preferia fervê-la, mas não havia tempo.

— Essa água é fresca? — perguntou ela.

— Foi comprada ontem de um vendedor de água potável, então deve estar boa — respondeu o homem.

Sim, se eles compraram a água, então devia ser segura. Em áreas mais precárias da cidade talvez não fosse assim, mas ali era improvável alguém vender algo adulterado. Maomao achou que podiam descartar, com bastante segurança, a possibilidade de que o artista tivesse bebido água contaminada. Ela pegou um pouco com uma concha, cheirou e depois provou; pelo que percebeu, o cheiro e o gosto eram normais. A casa podia não parecer grande coisa, mas ao menos podiam pagar por água de qualidade.

— Você tem alguma ideia do que pode ter acontecido? — perguntou Maomao ao homem meticuloso.

— Acho que sim — disse ele. Apesar do desespero, ele teve presença de espírito suficiente, e educação suficiente, para oferecer uma cadeira a ela. Ele, por sua vez, se sentou em um barril. — Ele não se importa em comer comida estragada, é um péssimo hábito que ele tem. Suspeito que seja isso.

Então, intoxicação alimentar, como Maomao pensou.

— Ele encontrou uns bolinhos recheados que havia comido. Eles estavam com gosto estranho, então cuspimos na hora, mas ele insistiu que ficariam bons se cozinhássemos mais e acabou comendo tudo.

— Quem é “nós”?

— Ah, o garoto estava com a gente.

O garoto? Devia ser como chamavam Chou-u.

A comida estragada não voltava a ser boa só por ser cozida um pouco mais. O elemento tóxico da deterioração geralmente permanecia. Um bolinho mofado, por exemplo, ainda podia ser venenoso mesmo depois de retirar o mofo. Mas poucas pessoas se preocupavam com isso. Às vezes, elas não tinham o luxo de se preocupar com um pouco de veneno, quando enfrentavam a escolha entre comer comida estragada ou não comer nada.

— Argh! O que eu vou fazer? Mesmo que ele volte a trabalhar na pintura, não vai terminar a tempo! — o homem passou os dedos por uma grande tela encostada em uma parede. Estava pintada de branco e tinha um esboço, o contorno tênue de uma mulher. Sem dúvida, o próximo passo seria pintá-la, tornando a imagem cada vez mais realista à medida que as cores se tornavam mais vivas. — Ele prometeu que ficaria pronta em dez dias!

Dez dias? Então havia um prazo envolvido.

— Voltei! — disse Chou-u, entrando com açúcar e sal, que entregou a Maomao. Ela misturou os ingredientes na água que havia preparado, misturou eles e depois pegou um pouco de algodão que trazia consigo e o mergulhou no líquido. Deixou a água escorrer do tecido para a boca do homem, administrando o líquido várias vezes.

Ela ficou em dúvida entre mantê-lo aquecido ou induzir febre. Pelo menos as roupas sujas que ele vestia no momento não absorveriam o seu suor. Ela pediu que o trocassem por uma roupa de algodão que pudesse absorver a transpiração. Ficar deitado em um sofá também não devia estar fazendo muito bem a ele; ela preparou uma cama de verdade e, em seguida, começou a preparar um remédio para o estômago.

O homem vomitou mais duas vezes enquanto ela fazia tudo isso, mas não havia muito mais o que vomitar; apenas o cheiro ácido do estômago dominava o ambiente.

Talvez manter o suor sob controle e dar líquidos estivesse surtindo efeito, pois à noite ele parecia mais calmo e os espasmos haviam cessado. Maomao, Chou-u e o colega de trabalho do homem estavam exaustos. Não havia nada naquela casa além de materiais de pintura, e até deixar o quarto utilizável exigiu ajuda dos vizinhos. O colchão era duro como um biscoito de arroz velho e igualmente mofado. Que tipo de vida aquele homem estava levando?

Maomao e Chou-u estavam cada um largados em uma cadeira. O sofá onde o mestre estava deitado agora estava livre, mas ninguém tinha vontade de usá-lo antes de uma boa limpeza.

— Você acha que ele vai ficar bem, Sardenta? — perguntou Chou-u, preocupado.

— Provavelmente — respondeu ela. Era impossível ter certeza, mas, se nada inesperado acontecesse, ela achava que o homem recobraria a consciência. Eles teriam que mantê-lo em repouso por um tempo e dar alimentos que ajudassem na digestão. Mas a casa nem tinha arroz suficiente para fazer um mingau ralo; eles teriam que sair para comprar um pouco. Aliás, também não havia panelas decentes para cozinhar.

Avaliando a situação com perspicácia, o outro homem disse: — Vou buscar arroz e uma panela de barro na minha casa. — Não devia ser fácil; ele também estava cansado. Será que ele era tão próximo do dono desta casa?

— O que o nosso paciente costuma comer, afinal? — murmurou Maomao.

Ela falava mais consigo mesma, mas Chou-u respondeu:

— O mestre sempre compra comida em barracas de rua, ou às vezes os vizinhos dão comida pra ele. Hoje foram aqueles bolinhos.

— Isso explica o estado em que ele se encontra — disse Maomao, recebendo um olhar de desgosto de Chou-u. — O quê?

— Nada. Só estava pensando naquilo que a gente comeu hoje. Eu e o outro cara dividimos os bolinhos com o mestre, mas estavam tão nojentos que cuspimos. Mas achei estranhos antes mesmo de provar. Uma coisa estranha, por exemplo, foi a maneira como o mestre disse “não me lembro de ter visto isso por aqui” ao ver os bolinhos na mesa. Aquilo podia ser um alerta, mas ainda assim o artista os ofereceu aos convidados.

— Acho que foi gentileza da parte dele querer ser hospitaleiro, mas tem muita coisa aqui que ele não devia comer — disse Chou-u, pouco impressionado. Sempre diziam que artistas eram excêntricos, e parecia ser verdade.

Maomao apoiou os cotovelos no braço da cadeira e colocou o queixo nas mãos.

— Me surpreende você sequer ter colocado algo assim na boca.

— Bem, o outro cara disse que ia comer também, e eles até pareciam bons.

O outro cara, ou seja, o colega de trabalho. Chou-u vivia com fome, então era do tipo que comia qualquer coisa minimamente comestível. Dava até para duvidar se ele realmente tinha sido filho de uma família nobre.

— Mas estava tão amargo! Acho que talvez o recheio de feijão tivesse estragado ou algo assim — disse ele.

— Amargo? — perguntou Maomao.

— Sim, horrível! Eu fiz tipo “ugh!” e cuspi. O outro cara também.

Então parecia normal, mas era amargo? Maomao cruzou os braços, inclinando a cabeça.

— Estava mesmo amargo? Não estava mais com sabor azedo?

— Sim, estava amargo. “Azedo” não é a palavra que eu usaria.

— E o recheio não tinha cheiro estranho nenhum?

— Se tivesse, provavelmente eu nem teria comido.

Chou-u havia tirado os sapatos e balançava os pés. A janela estava aberta para ventilar o ambiente, que estava um pouco úmido. A noite havia caído; Maomao encontrou uma lamparina e a acendeu. Era uma luminária de aparência incomum, desde as suas tintas até a iluminação, aquele artista parecia gostar de coisas importadas, mas ela usava óleo de peixe, então Maomao estava acostumada ao cheiro. (Na verdade, a gata Maomao tinha começado a lamber o óleo recentemente; isso estava virando um problema.)

— O recheio tinha alguma coisa parecida com fios? Alguma coisa grudada nele?

— Grudada nele? Bem, agora que você falou... — Chou-u pareceu se lembrar de algo. — Talvez parecesse um pouco viscoso. Eu cuspi tão rápido que não tenho certeza. O outro cara disse que estava estragado e me mandou cuspir. Lavamos a boca com água e não engolimos nada.

Maomao ficou perplexa.

— Mas não acho que aqueles bolinhos ficariam melhores só por cozinhar mais. Será que tem algo errado com a língua do mestre? — perguntou Chou-u, olhando para o homem adormecido com frustração.

Algo de errado com a língua, pensou Maomao. Ela começava a ver uma luz no fim do túnel.

— O que vocês fizeram com o que sobrou? — perguntou ela.

— Jogamos fora! Estão na lata de lixo lá fora. O mestre ficou todo irritado por desperdiçarmos comida, mas pelo menos não foi tentar pegar de volta do lixo.

Assim que Maomao ouviu isso, pegou a lamparina e saiu, encontrando a caixa de madeira onde o lixo era guardado. Um cheiro horrível vinha de lá, o lixo ainda estava lá dentro. Bem no topo havia dois bolinhos meio comidos. Maomao ficou aliviada por ter chegado antes que os homens levassem tudo para servir de comida aos porcos.

— Eca! O que você está fazendo? Isso é nojento! — disse Chou-u ao vê-la revirando o lixo.

Mas Maomao não teve qualquer hesitação em pegar um bolinho amassado com as próprias mãos. Ela observou o recheio e identificou carne de porco moída e vários tipos de vegetais. Ela separou o bolinho, tentando entender exatamente o que havia dentro dele.

Chou-u a observava.

— Sardenta... Por favor, pare de sorrir enquanto mexe em uma lixeira. Isso é muito bizarro.

Um sorriso devia ter surgido em seu rosto sem que ela percebesse. Se estava sorrindo, era de empolgação, ela não conseguia ignorar aquela sensação.

— Foi isso que o seu mestre ou quem quer que seja cozinhou e comeu?

— Sim. Tenho certeza de que ele não tem paladar ou algo assim. O sabor era horrível, mas ele não parava de dizer que estava delicioso.

Uma hipótese começava a se formar na mente de Maomao.

— E aquele outro cara? Por que ele veio aqui hoje?

— Acho que pra impedir o mestre. O mestre jurou que, quando terminasse o trabalho, iria partir para uma viagem imediatamente. — Chou-u olhou para baixo, desanimado.

— Que tipo de viagem?

— Bem, ele disse que estudou pintura no oeste uma vez, há muito tempo. Lá ele viu uma mulher linda e nunca mais a esqueceu. É por isso que ele só pinta mulheres, segundo ele.

O oeste? Isso a fez lembrar que a lamparina, as tintas, tudo tinha um ar estrangeiro.

— O outro cara vive dizendo que não tem como uma mulher que ele viu décadas atrás ainda estar por aí, mas o mestre está desesperado para encontrá-la de novo.

O tempo não era gentil; não importava o quão bela fosse, nenhuma mulher escapava do envelhecimento. Até mesmo uma dama que um dia chorou lágrimas de pérola podia se tornar uma velha gananciosa e enrugada. Se existisse uma mulher que não envelhecia, teria que ser uma imortal ou uma fada, ou algo do tipo.

— M-Mas o que diabos você está fazendo?!

Falando do diabo, o “outro cara” havia voltado com arroz e uma panela. Ele ficou tão chocado que deixou a panela cair e correu até eles.

Na escuridão, coberta de lixo, Maomao devia parecer assustadora. E ela ainda não havia apagado aquele sorriso inquietante do rosto. Até ela achava estranho estar sorrindo tanto, mas não conseguia parar. Em vez disso, sorriu para o homem, segurando punhados de lixo em ambas as mãos. Depois olhou para Chou-u.

— Chou-u, você pode ir para casa. Um dos criados deve vir te buscar em breve.

Ela imaginava que Ukyou, sendo atencioso como era, apareceria para ver o que estava acontecendo agora que já era noite. Ele poderia pedir a alguém que o substituísse no trabalho.

— O quê? Nem pensar que eu vou embora agora!

— Você deve estar cansado. Pelo menos vá dormir até alguém vir te buscar.

— Tá, mas... lave as mãos, Sardenta. — Ele não tinha uma resposta melhor,  sinal de que estava exausto. Ele bocejou e entrou na casa.

— Sinceramente... o que você está fazendo? — perguntou novamente o parceiro do pintor, observando Maomao à distância. Ele olhava para o lixo em suas mãos.

— Posso conversar com você por alguns minutos? Vou lavar as mãos primeiro. — Maomao deixou o lixo de lado e foi até o poço.

 

Maomao e o homem estavam sentados novamente na cozinha, enquanto Chou-u e o mestre dormiam no outro cômodo. Eles falavam em voz baixa para não acordá-los.

— Sobre o que você queria conversar? — perguntou o homem.

— Você entende de cogumelos venenosos? — disse Maomao.

— Não achei que a conversa fosse por esse caminho — disse o homem, mas ele não conseguia encará-la diretamente.

Algumas coisas nesse caso pareceram estranhas para Maomao. Para começar, o esperado era que algo estragado tivesse gosto azedo. Claro, algumas coisas podiam ficar amargas ao apodrecer, mas o amargor não era suficiente para garantir que fosse comida estragada. E se o gosto era ruim a ponto de fazer os outros dois cuspirem, por que não incomodou o velho mestre?

Havia também a questão de onde os bolinhos tinham vindo.

— Você sabia que existem certos cogumelos que são amargos quando crus, mas perdem o gosto desagradável depois de cozidos? Além disso, esses cogumelos são venenosos, e costumam causar intoxicação alimentar nesta época do ano.

Esse tipo específico de cogumelo era frequentemente confundido com variedades comestíveis usadas na culinária. A superfície era levemente viscosa, o que batia com a descrição de Chou-u, assim como os que Maomao tinha visto no recheio dos bolinhos no lixo.

Se tivessem comprado a comida em uma barraca de rua ou algo assim, talvez houvesse um alvoroço público a respeito, mas, de qualquer forma, ninguém continuaria comendo algo que tivesse um gosto realmente horrível.

Será que tinham comprado a comida com alguém da vizinhança? Mas não se tinha ouvido falar de ninguém com dor de estômago, alguém lhes teria contado se fosse o caso.

Nem a hipótese da barraca, nem a do bairro pareciam prováveis.

— Posso perguntar quem trouxe os bolinhos? — disse Maomao. Ela olhou para as pinturas de mulheres bonitas que cobriam as paredes. Cada uma parecia uma imortal deslumbrante, com características distintas e individuais, sugerindo que o artista havia usado uma modelo diferente para cada uma.

O prazo para o trabalho que o artista estava realizando se aproximava, e quando terminasse, o mestre havia afirmado que partiria para o oeste. Este homem aqui vinha tentando impedi-lo. Ele alegava ser um colega, mas não havia nada nele que realmente o identificasse como artista.

— O que você está insinuando? Foi apenas uma intoxicação alimentar — disse o homem.

— Sim, foi isso mesmo. Intoxicação alimentar causada por alguns cogumelos.

Os bolinhos não estavam realmente estragados, mas estavam envenenados, e já estavam assim desde o início.

— Por que você fez isso? — perguntou Maomao. — Por que colocou veneno nos bolinhos? Por que estava tão desesperado para fazer parecer um acidente a ponto de envolver até mesmo Chou-u?

— E-Eu não sei do que você está falando.

— Não me parece que você queria matá-lo — disse Maomao, e o homem não respondeu. — Na verdade, acho que você não quer que ele morra. Estou errada?

O homem ficou em silêncio por um momento, depois fechou os olhos e soltou um longo suspiro. — O veneno foi mais forte do que eu esperava. — Esse homem é do tipo direto ao ponto, aquilo soava praticamente como uma confissão. — Fui errado em envolver o garoto nisso, mas se isso o salvou, então fico feliz por ter feito isso.

Maomao não sabia o que teria feito se ele fosse um homem do tipo violento. Mas ele permanecia calmo; acima de tudo, parecia preocupado com o velho pintor. Em seu rosto, havia uma mistura de alívio e arrependimento.

— Vejo o quanto você está aliviado por ele estar bem. Então por que envenená-lo? — perguntou Maomao.

— Porque ele ia embora! Não parava de falar dessa viagem ao oeste, mas ele não pretendia voltar!

— Ele ia se mudar para lá de vez?

— Sim. Ele está obcecado com isso... de novo.

O homem se levantou e foi até o outro cômodo ao lado. Ele observou as pinturas expostas com carinho, depois seguiu para a outra sala mais ao fundo. Essa sala também tinha as paredes cobertas de retratos de mulheres bonitas.

— Essas pinturas são deslumbrantes — disse Maomao, semicerrando os olhos. Ocorreu-lhe que, se uma certa beleza elegante estivesse ali, ele praticamente se misturaria ao ambiente. (Um pensamento irrelevante, se é que alguma vez houve um!) Ele provavelmente já estava soterrado de trabalho no palácio agora. — Ouvi dizer que há até comerciantes interessados nas obras dele. Se ele aceitasse encomendas, poderia viver confortavelmente.

— Sim, mas ele não pode entregar uma pintura antes de terminá-la.

— E essa viagem para o oeste... ele falou disso com você?

— Sim, mas ele insistiu que era apenas uma viagem. Acho que ele sentiu que precisava mentir até para mim. Deve ser mentira, caso contrário, por que ele levaria seis meses para se preparar?

Esse homem só queria causar uma intoxicação leve ao artista, uma desculpa para adiar o prazo de entrega. Maomao, que foi praticamente arrastada até a capital do oeste, sabia que qualquer viagem ainda mais para o oeste exigiria preparativos consideráveis. Um documento de identidade para cruzar a fronteira, uma caravana para transportá-lo. Se perdesse a oportunidade, teria praticamente que recomeçar do zero. Era exatamente isso que aquele homem esperava que acontecesse.

— Droga... Isso é horrível. Achei que ele fosse morrer de verdade. — O homem colocou a cabeça entre as mãos e murmurou: — Por favor... não morra...

Ele estava genuinamente preocupado.

— Você não podia ter usado um veneno mais suave? — perguntou Maomao, embora percebesse que poderia soar estranho falar de qualquer veneno como sendo suave.

— Não — disse o homem. — Ele tem um estômago de ferro e uma constituição igual.

Era justamente aquele estômago incansável que fazia o artista acreditar que qualquer coisa podia ser comida se bem preparada, e que havia convencido aquele homem de que somente um veneno bom e forte daria conta do recado.

Por isso ele precisou de Chou-u, para dar credibilidade à ideia de intoxicação alimentar. Com um terceiro confirmando que os bolinhos estavam estragados, ninguém suspeitaria de outra coisa quando o pintor passasse mal.

Maomao quase não conseguia acreditar.

— Por que você não conversou com ele, então?

— Eu conversei! Mais de uma vez. No começo, ele nem me contou o plano dele.

Mas com o tempo, o artista havia enfrentado dificuldades ao tentar providenciar tudo o que precisava para a viagem e recorreu a esse homem em busca de ajuda.  Mesmo assim, ele permaneceu calado sobre sua intenção de se mudar.

Esse homem dizia ser pintor, mas na verdade era apenas assistente no trabalho do mestre. Ele misturava tintas, comprava pigmentos e procurava comerciantes interessados em adquirir as pinturas do mestre.

— Eu não passo de um ajudante. Sem o mestre, não sou capaz de fazer nada!

— Você realmente acredita nisso? — perguntou Maomao.

O mestre era certamente um pintor talentoso, mas, como ser humano, parecia que lhe faltava algo, e pessoas assim costumam acabar mortas em algum campo em pouco tempo. Elas precisavam de assistentes como este.

— Aprendi algumas coisas conversando com tantos comerciantes, e tentei contar a ele sobre isso — disse o homem. Ele tinha ouvido dizer que coisas estranhas estavam acontecendo no oeste, que ainda eram apenas sinais precursores, mas, se os rumores fossem verdadeiros, seria melhor manter a discrição por enquanto. — Mas ele insistiu que, se fosse esse o caso, precisava partir, e que era agora ou nunca.

Em vez de desistir de ir para o oeste, o mestre redobrou seus preparativos. Ele já havia se encontrado com o líder de uma caravana, então não havia como aquele homem interferir por esse lado.

Na sala escura, havia uma grande tela coberta por um lençol branco.

— Ele já tinha desistido dessa ideia antes... mas então ele viu uma mulher linda, e isso reacendeu sua obsessão — disse o homem, afastando o pano.

Os olhos de Maomao se arregalaram.

— Mas isso é...

— Uma mulher muito parecida com a imortal que ele encontrou no oeste, segundo ele. Não é a mesma mulher, mas a semelhança foi tanta que trouxe todas as lembranças de volta que ele tinha. Eu não posso culpá-lo. Como alguém poderia esquecer alguém assim?

É disso que se trata? Maomao pensou, com suor frio escorrendo pelo pescoço.

— O mestre disse que ela era uma sacerdotisa que viu em Shaoh — explicou o homem.

A pintura retratava uma mulher de cabelos brancos e olhos vermelhos.

[Kessel: A nossa vilã mais uma vez sendo mencionada de uma forma misteriosa. Tudo gira ao redor da Dama Branca, ao que parece...]


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