Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 11: A Fada Dançante da Água

Por que é que eu estou fazendo isso, afinal? Maomao se perguntou, fazendo um beicinho enquanto preparava o pacote embrulhado em pano. Era o tipo de coisa que ela usava ao comprar ervas medicinais. Afinal, ela não cultivava e colhia tudo sozinha. Às vezes ela recorria a um especialista, do mesmo jeito que alguém compraria seu mochi de um lugar que só faz bolinhos de arroz amassado.

Maomao procurou Sazen e o encontrou varrendo o saguão da Casa Verdigris sem muito ânimo. Ele tinha dormido por vários dias seguidos depois que Maomao voltou para casa, mas, à medida que começou a parecer mais saudável, a madame voltou a fazê-lo trabalhar mais pesado, e, enquanto isso, Maomao o fazia estudar o ofício de apotecário no tempo livre.

— Você pode cuidar da loja para mim? Vou só até a vila vizinha, volto ainda hoje à noite — disse ela, inclinando-se para fora da janela.

Sazen se encolheu e apoiou o queixo na ponta da vassoura. — Você está falando sério? E cuidar da loja é tudo o que tenho que fazer? — Sob a tutela implacável de Maomao, Sazen tinha se tornado um trabalhador bastante competente, mas parecia que ele ainda ficava receoso de assumir por muito tempo.

— Pegue as ervas penduradas no teto que já secaram e triture elas. Preserve elas como sempre fazemos.

— Sim, pode deixar. — Sazen encostou a vassoura na parede, depois enfiou a mão por baixo da camisa e coçou a barriga, o que rendeu a ele um olhar fulminante de Maomao. Ela conseguia ver a sujeira se acumulando por debaixo das unhas dele.

— E não se esqueça de lavar as mãos — acrescentou ela.

— Não precisa repetir isso duas vezes.

— Debaixo das unhas também!

Sim, Sazen aprendia rápido, mas ainda precisava se preocupar mais com a higiene. Muitos clientes reclamariam se ele não o fizesse. Maomao teria que continuar lembrando ele isso.

Será que ainda dá tempo de pegar a carruagem compartilhada? Pensou ela. Alugar uma carruagem só para si era caro. No entanto, carruagens vinham até a capital várias vezes por dia para entregar provisões e, como descarregavam sua carga ali, tinham espaço para servir de transporte compartilhado na volta. Levava tempo e era provavelmente a forma mais desconfortável de viajar, mas tinha uma vantagem inegável: era barato.

— Vai para algum lugar Sardenta? — perguntou Chou-u, mostrando os dentes da frente que estavam começando a nascer de novo. Sua fiel capanga Zulin estava ao lado dele. Maomao lançou um olhar azedo para os dois e passou por eles, saindo da farmácia. — Ei, você está indo a algum lugar, não é? — Chou-u gritou atrás dela. — É para o mercado? Se for fazer compras, eu quero ir também!

Ele pegou a gata Maomao, que estava dormindo no hall de entrada e usou a pata dela para cutucar Maomao, a humana, em um gesto de “me leva, me leva”. — Nrah! — protestou a gata.

— Vou para a floresta — disse Maomao por fim. — É um lugar chato no meio do nada.

— A floresta! Eu quero ir para a floresta! Me leva! Me leva! Me leva! — Os cutucões da gata viraram praticamente tapas. A Maomao felina não estava mais feliz com aquilo do que a humana, debatendo as patas até conseguir se soltar do aperto de Chou-u.

Em vez disso, Chou-u se jogou no chão. Maomao achava que uma criança já teria superado esse tipo de birra aos dez anos, mas talvez a criação mimada tivesse atrasado sua maturidade. Ele parecia avançado para a idade em alguns aspectos; Maomao só podia lamentar que esse não fosse um deles. Zulin se preparava para imitar seu “chefe”, mas Maomao a segurou pelo colarinho e a colocou de pé antes que ela chegasse ao chão.

— Vou te denunciar para a madame — advertiu Maomao, e Zulin ao ouvir isso, congelou e balançou a cabeça vigorosamente. Pelo visto, ela nem estava tão interessada na birra; só estava imitando Chou-u.

— Que barulho é esse aqui fora? — A madame apareceu, com um ar de cansaço. Zulin se encolheu.

— Vou buscar algumas ervas. Ele só vai atrapalhar, e a senhora sabe disso. — Ela apontou para Chou-u, que ainda rolava no chão.

A madame estreitou os olhos para Chou-u, soltou um suspiro exasperado e disse: — Ah, leve ele logo.

— O quê? — perguntou Maomao, com a insatisfação estampada no rosto. Ela tinha certeza de que a madame, uma mulher extremamente prática, veria que não havia motivo para levar um pestinha em uma viagem de trabalho.

— O quê? Não acredito! Você está falando sério, vovó? — Chou-u pulou de pé, triunfante.

Zulin começou a pular também, imitando ele, mas a madame a segurou pela cabeça. — Você não. — A cabeça de Zulin caiu em decepção. Diferente de Chou-u, que parecia receber tratamento especial a todo momento, ela era uma aprendiz. Se lhe fosse permitido ir com Maomao e Chou-u, daria um mau exemplo para as outras aprendizes. Zulin tinha vindo basicamente como um “bônus” junto com a irmã mais velha, mas, se não provasse com o tempo que podia ganhar dinheiro de alguma forma, certamente seria empurrada direto para o trabalho de cortesã.

Chou-u deu tapinhas nas costas da sua lacaia abatida. — Não se preocupe, com toda certeza eu vou trazer uma lembrancinha pra você!

— E quem vai pagar por essa lembrancinha? — Maomao interrompeu ele imediatamente.

Chou-u a ignorou e continuou se dirigindo a Zulin: — Um dia você vai poder sair também. Aguenta firme… eu ainda vou te comprar um dia!

Maomao quase se engasgou. Onde ele tinha aprendido a falar daquele jeito? E será que ele sabia que a maioria dos clientes que diziam esse tipo de coisa eram uns imprestáveis?

A madame, ignorando a tagarelice do garoto, cutucou Maomao.

— E por que exatamente eu estou levando ele? — Maomao rosnou para ela.

A madame enfiou a mão no decote e coçou a clavícula. — Você ficou fora por um tempão. Sabe como o Chou-u estava se comportando enquanto você estava fora?

Bem, é claro que ela não sabia. Provavelmente gritando e brincando, como sempre fazia.

Ele era bem próximo de Ukyou, o criado; ele podia muito bem se virar sem Maomao.

— Acredite ou não, ele ficou deprimido — disse a madame. — Pense bem. O garoto vem pra cá sem pais, e então até você deixa ele. Qualquer um ficaria chateado.

— Não é o que eu esperava ouvir de uma velha monstruosa que compraria de bom grado uma garotinha de um traficante sem pensar duas vezes — respondeu Maomao, com sarcasmo evidente na voz. Até Luomen adotá-la, ela tinha sido deixada sozinha em um quarto, ignorada por todos, não importando o quanto chorasse. E quando a pequena Maomao percebeu que chorar não levava a nada, ela simplesmente parou. Talvez fosse um dos motivos pelos quais sua expressão emocional parecia tão contida.

Ela não guardava rancor de ninguém especificamente por causa disso;  aliás, nem se lembrava pessoalmente do ocorrido. A mulher que havia dado à luz a ela tinha trabalho a fazer, assim como Pairin, que foi quem a amamentou. Na época, a Casa Verdigris estava à beira do colapso, e Maomao era alvo de certa irritação. Ela se considerava sortuda por ninguém simplesmente tê-la estrangulado.

— Se estão sendo vendidas por um traficante, então o destino delas já está decidido. É o karma dos pais delas, e não é problema meu. Mas eu as crio e educo para que possam fazer um trabalho útil. Você não acha isso muito gentil da minha parte? Lembre-se: se crescerem como inúteis que não sabem fazer nada, não vão ficar aqui.

— E quanto ao Chou-u?

— Descobrir o que fazer com ele é problema seu. Eu só estou de olho para garantir que ele não morra. Afinal, eu recebo para isso.

Aham. Maomao se perguntou, com seriedade, quanto exatamente a madame estava ganhando com isso.

— Quanto ao seu transporte, pode dispensar a carruagem compartilhada. Vou providenciar uma para você. Devia agradecer — disse a madame.

— Nossa, que generosidade da sua parte. Não vou pagar passagem, viu.

— Isso vai ajudar a cobrir as batatas — respondeu a madame, antes de ir em direção ao quarto dos criados. Maomao a observou, inclinando a cabeça, confusa.

Eu realmente não quero levar ele, pensou ela. Ela estava indo para o lugar que o homem da noite anterior havia descrito. Maomao o fez contar o que sabia sobre a mulher da tela, onde o “mestre” de Chou-u tinha visto aquela mulher de cabelos brancos e olhos vermelhos. Ela também estava curiosa sobre a história do encontro do pintor com outra mulher em Shaoh, anos atrás, mas por ora tinha outras coisas em mente.

Já fazia mais de seis meses que o pintor tinha visto a mulher em uma vila onde ele foi buscar pigmentos. Ele afirmava que ela realmente parecia uma imortal.

— Ele disse que ela dançava sobre a água — o homem contou a Maomao. A cena era tão extraordinária que o pintor achou que devia ter sonhado, em parte porque tinha ido até o lago completamente bêbado. Ele havia coletado seus pigmentos, mas já era tarde, então passou a noite na vila. Antes que percebesse, já era manhã, e ele estava dormindo em um galpão nas proximidades.

A essa altura, o mestre tinha certeza de que não era um sonho. Aquilo o fez lembrar da mulher que tinha visto há muito tempo, e ele pareceu tomar isso como algum tipo de sinal. Foi aí que começou sua conversa absurda sobre ir para o oeste.

Maomao conhecia o vilarejo para onde o pintor tinha ido; ela já tinha estado lá várias vezes para comprar remédios. Era a desculpa perfeita para ir até lá novamente. Ela lançou mais um olhar para Chou-u, que borbulhava de animação, e suspirou.

 

Depois de uma hora de viagem, entre solavancos e barulhos na carruagem, chegaram a uma vila próxima a uma floresta. Ela ficava às margens de um rio e lembrava Maomao, em certo sentido, a terra natal do charlatão. Produzia principalmente arroz e hortaliças, e os arrozais recém-plantados refletiam o céu como espelhos gigantes.

— Uau! — exclamou Chou-u, inclinando-se para fora da carruagem enquanto observava a paisagem passar. Não era uma carruagem elegante como as da nobreza; era mais uma carroça, não havia cortinas nem cobertura; havia até capas de chuva guardadas ali, caso começasse a chover.

— Cuidado, Chou-u, não se incline demais. Não venha chorar comigo se cair — gritou Ukyou, que estava sentado no banco do cocheiro. A madame tinha cumprido sua palavra, ela alugou uma carruagem, mas deixou Ukyou encarregado de conduzi-la.

O que está acontecendo aqui? Maomao pensou, olhando para Ukyou com certa irritação. Não era que ela tivesse algo contra o atencioso chefe dos criados, mas algo a incomodava enquanto observava os campos passarem. Os arrozais estavam realmente deslumbrantes nesta época do ano. O céu estava azul, sem nenhum sinal de chuva. A terra parecia tão safira quanto o céu, e havia algo misterioso e intrigante naquele mundo tingido de azul.

Chou-u puxou a manga de Maomao. — Ei, Sardenta. O que é aquilo?

Ele apontou para alguns pequenos montes de areia; em cada um havia um graveto ligado ao outro por uma corda trançada. Pareciam estar ao longo do caminho do rio que corria ao lado dos arrozais.

— Acho que serve para demarcar um espaço sagrado — disse Maomao. Ela mesma não sabia muito sobre o assunto, mas sabia que tinha relação com algum tipo de crença popular. Era para criar uma barreira que mantivesse coisas ruins afastadas. Mas o formato da corda parecia um pouco incomum, talvez uma variação local da superstição.

Ainda assim, Maomao se inclinou para fora para observar melhor. Hã? A corda realmente não parecia nada com as outras vezes em que ela tinha visto aquilo. Ela achava que costumavam ser mais simples , mas naquele ano a corda estava mais trançada que o normal, e tiras de papel branco tinham sido entrelaçadas nela. Parecia um pouco mais elaborada do que antes, mas ela também sabia que não se muda o formato de objetos rituais assim, do nada.

— Chegamos — disse Ukyou. Maomao desceu da carruagem e olhou para a floresta. — Vou dar uma volta pela vila — informou ele, apontando para o que parecia ser o único lugar com algum tipo de bebida. Provavelmente tinham ao menos um destilado caseiro. — O que você quer fazer, Chou-u?

— Hmm... — Chou-u olhou de um lado para o outro entre Maomao e Ukyou, então correu até Maomao.

Ukyou deu uma risadinha. — Acho que vou tomar uma, então. — Ele se dirigiu para o estabelecimento.

Por algum motivo, Chou-u estava agarrado ao manto de Maomao. Ela ficou com medo de que ele arrancasse sua faixa, então pegou a mão dele e o puxou em direção à casa do chefe da vila.

— Este lugar está mesmo vazio — disse Chou-u após um momento de silêncio. Era verdade, não havia quase nada ali, mas também não havia necessidade de dizer isso em voz alta, e Maomao lhe deu um leve cascudo.

Eles foram até a última casa do vilarejo, uma construção em ruínas, com vegetais pendurados sob o beiral. Provavelmente estavam secando eles para conservação, uma boa ideia, mas nessa época do ano era preciso cuidado, ou o mofo começaria a crescer nos vegetais antes que percebessem. Ao lado dos vegetais havia uma corda trançada, como uma versão menor da que tinham visto mais cedo.

Maomao calculou que fazia três anos desde a última vez que esteve ali. Seu trabalho no palácio interno a manteve afastada por muito tempo, e ela esperava que o chefe da vila ainda se lembrasse dela.

— Olá? — ela chamou, batendo à porta. Chou-u a imitou com uma batida forte, e Maomao empurrou a cabeça dele para baixo com irritação, bem quando uma jovem saiu de dentro.

— Sim? Quem é? — disse a mulher. Ela era bastante bonita para alguém que vivia tão afastada da cidade, e vestia uma roupa que parecia simples, mas resistente.

— Gostaria de falar com o chefe, se possível. Diga a ele que a discípula de Luomen, o apotecário, está aqui — disse Maomao, identificando-se não pelo próprio nome, mas pelo de seu pai. Poucos acreditariam nela se ela dissesse que era uma apotecária. Talvez com alguns anos a mais isso mudasse, mas Maomao não via motivo para se vangloriar por ser uma apotecária, então preferia usar um nome que o chefe provavelmente reconheceria.

A jovem chamou para dentro, e um homem de meia-idade apareceu, o filho do chefe, como Maomao lembrava. Ele também pareceu reconhecê-la, pois disse: — Ah, sim — e assentiu. — Receio que meu pai tenha pegado um resfriado forte no ano passado… E acabou morrendo disso, infelizmente.

— Entendo — disse Maomao. Longe dela zombar, dizendo que era “só um resfriado”. Se não tratado, um resfriado podia piorar rapidamente e virar pneumonia. Pelo que ela lembrava, o antigo chefe nunca tomava remédios, ele era um sujeito sociável que gostava de dizer que qualquer coisa se curava com uma boa bebida e uma boa noite de sono. Sua filosofia o tornava um péssimo cliente, mas Maomao nunca desgostou dele.

— Insisti para que ele visse um médico, mas... bem, agora não faz diferença — disse o filho. Então completou: — Desculpe. Chega de sentimentalismo. Você está aqui para ir à floresta?

— Sim, senhor. — Maomao lhe entregou o valor que sempre pagava, mas ele balançou a cabeça.

— Fique com isso. É melhor você entrar lá antes que o sol se ponha.

— Agradeço muito senhor... — disse Maomao, embora não pudesse deixar de se perguntar o que motivou aquela mudança.

Ela estava prestes a guardar as moedas nas dobras do manto, mas Chou-u estendeu a mão. — Sardenta! Usa isso pra me comprar doce para mim! Anda, vai!

— Você tem sua própria renda — disse ela, guardando as moedas no lugar certo e virando-se para a floresta.

— Há muitas cobras nesta época do ano. Tenha cuidado — disse o novo chefe.

— Claro, eu sei disso. E elas são excelentes ingredientes.

— Não esse tipo de cobra — respondeu ele, segurando entre os dedos a corda pendurada no beiral. Quando Maomao olhou mais de perto, viu que cada ponta da corda tinha um formato diferente. Afinava de um lado, enquanto do outro ficava mais grossa e dividida. Quase lembrava uma cobra. Na verdade, parecia muito familiar. — Se você matar uma cobra, os moradores podem te atacar — disse o chefe.

— Me atacar? Mas por quê? — A ideia era praticamente incompreensível para Maomao, cuja primeira reação ao ver uma cobra costumava ser pensar em como ela ficaria saborosa grelhada com molho de soja. Aliás, certa vez, quando ela havia capturado várias cobras ali, eles na verdade a agradeceram por ter se livrado das pragas.

O novo chefe deu um sorriso cansado. — Foi o último desejo do meu pai. Pouco antes de morrer, já muito fraco, ele chamou um xamã.

Ele devia ter chamado um médico!

Esse xamã deu ao antigo chefe um incenso para aliviar a dor, mas, em troca, pediu que ele disseminasse um ensinamento na vila. Foi então que Maomao percebeu que era daí que vinham aquelas cordas “sagradas” incomuns.

— Veja, antigamente, um deus-serpente costumava ser cultuado por aqui. Essa foi a justificativa — disse o chefe atual, ainda com aquele sorriso constrangido. Sua expressão dizia que não se discutia uma fé antiga, mas o sorriso parecia forçado.

— E o que vocês fazem com as cobras venenosas? — perguntou Maomao. As víboras eram inimigas naturais dos agricultores. Se uma delas mordesse alguém, era praticamente o fim.

Ainda sorrindo daquele jeito tenso, o chefe sussurrou: — Eu tenho matado, em segredo. Sei que alguns fiéis não aprovariam, mas o que eu posso fazer? — O chefe precisava manter as aparências. A jovem, provavelmente sua esposa, observava os visitantes com ar desconfiado. Não devia ser agradável ver o marido tendo uma conversa particular bem na frente dela.

Maomao já tinha conseguido a permissão que queria, então não tinha mais nada a fazer ali. Decidiu que era hora de ir embora.

— Vamos — disse ela.

— Sim! — respondeu Chou-u.

— Ah, tem mais uma coisa que você precisa saber — disse o chefe. — Não são só as cobras... aparentemente, os pássaros também são proibidos. Embora você provavelmente não conseguiria pegar um sem arco e flecha.

— Esse xamã parece bem exigente. Com uma regra dessas, você nem conseguiria abater uma galinha.

— A proibição é só para os pássaros que voam.

Maomao abriu as mãos e deu de ombros, aquilo não fazia sentido algum para ela. Em vez disso, ela seguiu para a floresta, com Chou-u logo atrás dela.

— Você ainda não terminou Sardenta? — perguntou Chou-u, sentado em um toco com as pernas balançando.

É por isso que eu não queria trazer ele.

Moleques como ele se entediavam rápido demais. A viagem até ali tinha sido tranquila, mas era óbvio que Chou-u viraria um peso morto mais cedo ou mais tarde. Maomao tinha certeza de que a velha a obrigou a levá-lo só para que o pestinha não atrapalhasse o trabalho dos criados. Solitário uma ova!

Maomao ignorou a tagarelice de Chou-u e em vez disso, começou a cortar algumas ervas que cresciam na raiz de uma árvore, eram incomuns, e ela não resistiu a pegar elas. Ela só precisava dos brotos frescos; mas se preocuparia com os detalhes mais tarde.

— Ei! Sardenta!

— Fique quieto. Foi você que quis vir junto — disse Maomao, enfiando algumas ervas na bolsa.

Chou-u apoiou-se nas mãos e se inclinou para frente, olhando para ela com irritação. — Mas eu estou cansado!

Eles não tinham andado muito, mas com a grama alta e as folhas caídas, o terreno era difícil para andar. Era compreensível que fosse cansativo para Chou-u, que ainda estava parcialmente paralisado. Justo, mas Maomao não ia aliviar a barra dele por causa disso. Se facilitasse agora, ele faria isso sempre.

— Então espere bem aí — disse ela. — Eu vou mais pra dentro.

— O quê? Nem pensar! — Chou-u abriu a boca em protesto. — Você vai me deixar aqui?

— Você disse que estava cansado.

— O Ukyou me carregaria nas costas!

— Foi mal, mas você é pesado demais para mim. Até mais. — Maomao seguiu andando sem hesitar. Chou-u fez uma careta, então saltou do toco. Ele realmente preferia estar com outras pessoas, como a madame havia dito. No distrito dos prazeres, ele vivia cercado pelos criados ou pelas meninas.

A floresta estava sombria por causa da vegetação densa, e ele ouviu um barulho de asas batendo. Veio acompanhado de um “huu, huu”, talvez fosse um pombo?

— Tô indo! Já tô indo, só não me deixa aqui! — gritou Chou-u, correndo atrás de Maomao, arrastando a perna. Maomao, mantendo um olho frio nele, continuou avançando na floresta.

O lugar estava cheio de árvores de diferentes tipos. Muitas eram de folhas largas; no outono, devia haver bastante nozes e frutas por ali. As florestas de coníferas eram melhores para produzir papel, mas em Li, a maioria ficava no norte.

Enquanto caminhava, Maomao encontrou uma framboesa e a colocou na boca. Chou-u encontrou outra e a imitou, o que não seria problema, exceto que isso deixou a boca dele pegajosa e vermelha. Maomao engoliu sua irritação e limpou os lábios dele, sabendo que, se ele limpasse na manga, a mancha não sairia nunca.

A cada framboesa que comia, Chou-u sorria com tristeza. — Elas são azedas — comentou ele.

— É porque elas ainda não estão maduras — disse Maomao.

Pelo visto, isso não o impediria de continuar comendo.

— Ei, Sardenta! Dá pra comer esses cogumelos? — perguntou ele, apontando para alguns fungos pequenos crescendo em um tronco seco. — Eles são do tipo comestíveis?

— Receio que não sejam muito bons. E nem sequer são venenosos. — Em outras palavras, eles não tinham nenhum interesse para Maomao. Os ombros de Chou-u caíram, desapontados.

Apesar do tom leve, Maomao não esqueceu o motivo de estar ali. Por fim, ela encontrou um pântano (no caminho, ela ainda achou alguns fungos em forma de concha, o que a deixou muito satisfeita). Taboas cresciam ao longo das margens. O pólen dessas plantas, chamado puhuang, tinha propriedades medicinais e podia ser usado para ajudar na coagulação e como diurético.

Havia uma pequena ilha no meio do pântano, e uma série de postes com cordas sagradas marcava a fronteira entre a floresta e a água, já que lugares com água eram considerados portais para o outro mundo. Talvez fosse por isso que havia um pequeno santuário na ilha. Diziam que o senhor do lago vivia ali, assumindo a forma de uma grande serpente.

Havia uma cabana à beira do pântano destinada à pessoa encarregada de cuidar do santuário, e foi para lá que Maomao e Chou-u se dirigiram. A cabana foi construída sobre estacas, para evitar a água em caso de chuva forte, mas nos últimos anos o pântano tinha recuado; dava para ver marcas nas estacas mostrando até onde a água chegava. Maomao tinha ouvido dizer que até mesmo o local onde essa pequena casa se erguia já havia sido parte do pântano, o que talvez explicasse por que o solo era mole, lamacento e difícil de atravessar. Eles aproveitaram pedras colocadas em sequência para facilitar a travessia.

Ao lado da cabana havia uma estrutura ainda menor, de onde vinha um som de arrulho, pombos, suspeitou Maomao. No início, ela pensou que fossem criados para servir de alimento, mas então ela se lembrou do que o chefe disse, se fosse verdade, era proibido comê-los. Nesse caso, talvez fossem apenas animais de estimação.

Chou-u examinava com interesse as marcas deixadas pela maré alta. Maomao subiu os degraus da cabana e espiou dentro. A pessoa lá dentro também a notou, pois logo um velho barbudo saiu da casa. Maomao já tinha lidado com ele antes, e ele também pareceu reconhecê-la.

— Faz muito tempo que não te vejo. Achei que tinha ido embora e se casado — disse o velho.

— Desculpe, ainda não.

— E mesmo assim já tem um rapazinho desses com você!

Pelo visto, ele não tinha ficado mais delicado nem mais educado nesse tempo que ela esteve fora.

Maomao o reconheceu. Ele era um velho conhecido do pai adotivo de Maomao, Luomen; eles haviam trabalhado juntos como médicos na capital, há muito tempo. Diziam que ele era bastante habilidoso, mas sua personalidade excêntrica, somada a um certo desprezo pelas pessoas, o levou a viver isolado ali. Ele dizia que passava o tempo colhendo ervas e cuidando do santuário, mas suas responsabilidades não pareciam ir muito além disso. Não havia barco na água, o que indicava que ele quase não ia até a ilha.

Eles entraram, e o velho tirou algumas ervas secas da parede, colocando-as sobre a mesa rudimentar.

— Aqui. Pegue o que precisar, mas como pode ver, isso é tudo que eu tenho.

Quando precisava de ervas fora de época ou plantas raras, o jeito mais rápido era comprá-las daquele velho. Ele até tinha puhuang, disposto sobre uma esteira feita de folhas de taboa.

O homem se acomodou em uma cadeira com um — Humpf! — e se inclinou para frente. Maomao ouviu dizer que ele era mais de dez anos mais velho que Luomen, e não tinha ficado mais jovem nos três anos desde que ela o viu pela última vez. Ainda assim, ele ainda sabia secar ervas com qualidade, e em boa quantidade, apesar da idade.

— Estou impressionada que conseguiu juntar tudo isso — disse Maomao. — E eu que já estava feliz só por ver que você não tinha ficado senil.

— Ahh, as solteironas sempre têm as línguas mais afiadas.

— Não mais que a sua — retrucou Maomao, arrancando uma gargalhada de Chou-u. Ela lançou um olhar fulminante para ele enquanto embrulhava as ervas que precisava em um pano.

— Não é tão surpreendente assim. Tenho tido ajuda ultimamente — disse o velho.

— O quê, algum pirralho da vila? Até que é um bom trabalho para uma criança — Maomao olhou deliberadamente para Chou-u ao dizer isso; ele fez beicinho para ela, num gesto de “O quê?”.

— Não, não. Alguém que peguei na capital há algum tempo. Muito competente. Olha, falando no diabo...

Eles ouviram passos subindo a escada. 

— Ei, vovô! Trouxe o que você queria! Hã? Visitas?

A voz do recém-chegado era animada, e familiar. Um jovem entrou, com um saco balançando em uma mão e um lenço enrolado como bandagem sobre um dos olhos.

É por isso que reconheço essa voz!

Era Kokuyou, o homem marcado pela varíola que, pelo que Maomao sabia, estava procurando trabalho na capital.

— Mas veja só, todo mundo dizia que não queria um médico com uma cara tão assustadora! — disse Kokuyou, soando, como sempre, como se a enxurrada de seus infortúnios simplesmente escorresse por ele. Assim que ele viu Maomao, o homem falante já começou a conversar.

— Eles se conhecem? — perguntou o velho, ao que Chou-u respondeu: — Ela praticamente coleciona caras esquisitos como ele.

Resumindo, depois de chegar à capital, Kokuyou foi de clínica em clínica, procurando um lugar para começar a trabalhar como médico. Todas as vezes que perguntavam sobre o tapa-olho e, como um idiota, ele respondia honestamente e mostrava as cicatrizes. Os médicos ignorantes o expulsavam, mandando que nunca mais voltasse, com medo de que ele transmitisse sua doença. Os menos ignorantes entendiam que a doença já não era contagiosa, mas, no fim das contas, um médico ainda estava tocando um negócio. Não havia motivo para contratar um sujeito de aparência suspeita com um tapa-olho.

O vovô estava se arrastando até a cidade para entregar algumas ervas que um médico tinha encomendado, e por coincidência, naquele exato momento, Kokuyou estava sendo expulso da mesma clínica. O velho podia ser um misantropo, mas tinha olhos para o talento médico. Conforme a idade foi desacelerando seus movimentos, ele começou a pensar em arrumar um ajudante. Ele testou os conhecimentos médicos de Kokuyou e ficou surpreso ao descobrir que o homem sabia mais do que o Vovô esperava, e foi assim que ele acabou ali. Um homem com um tapa-olho chamaria menos atenção ali do que na capital e, além disso, o médico idoso já tinha explicado tudo ao chefe da aldeia.

— Ha ha ha! A vida pode ser dura, né? Mas enfim, pelo menos eu tenho o que comer!

O velho conseguiu um bom ajudante e Kokuyou... bem, ele continuava sendo Kokuyou. Os dois pareciam felizes o suficiente.

Se eu tivesse percebido, talvez tivesse pedido para ele vir comigo, pensou Maomao, com um leve arrependimento, mas não dava para voltar no tempo. Mesmo que ela o levasse para o bordel, a madame só o faria trabalhar até a exaustão, como fez com Luomen. Talvez Kokuyou estivesse melhor ali. Além disso, Sazen finalmente estava começando a se firmar, e Maomao não queria abalar a confiança dele.

Kokuyou colocou as ervas sobre a mesa. — Fresquinhas da floresta! — disse, sorrindo.

Chou-u olhou para ele, fez uma cara de esquilo particularmente tolo e estendeu a mão. 

— O que tem debaixo do tapa-olho, moço?

— Você quer ver? — disse Kokuyou e, após um aviso (— É bem nojento!), levantou o tapa-olho.

— Ah, que nojo! — exclamou Chou-u (a educação não era seu forte) e deu um tapa no ombro de Kokuyou. — Que azar o seu, moço. Você podia fazer sucesso com os clientes, se não fosse por... isso.

— Nem me fale! E eu ainda gosto de pensar que sei lidar com pessoas — respondeu Kokuyou.

— Nossas garotas até iam gostar do seu rosto! Que desperdício.

Nossas garotas. Que beleza, pensou Maomao, mas ignorou a conversa e passou a observar as ervas com atenção. Ela estreitou os olhos ao ver uma folha grande que não reconhecia. 

— O que é isso? — perguntou.

Kokuyou se afastou da conversa com Chou-u só o tempo suficiente para responder: 

— Isso é uma folha de “incenso”.

Folha de incenso, ou seja, tabaco. A madame e as cortesãs adoravam fumar, mas, curiosamente, o hábito ainda não tinha se espalhado muito entre as pessoas comuns. Certa vez, Maomao consertou um cachimbo danificado e tentou devolvê-lo ao dono, assumindo que devia ser importante para ele.

O tabaco era um item de luxo; era o vício que mantinha até a madame, normalmente avarenta, ainda fumando. Luomen havia dito a Maomao que fumar demais fazia mal à saúde. De qualquer forma, até onde ela sabia, as folhas geralmente eram importadas, e ela só as tinha visto trituradas, por isso não reconheceu a planta à primeira vista.

— Não é tão difícil de cultivar assim na verdade — comentou o velho.

— É mesmo? — perguntou Maomao, examinando a folha com grande interesse. Ela pensava que, se conseguisse cultivar aquilo no jardim, poderia virar um negócio paralelo lucrativo. Ainda assim, duvidava que aqueles dois fossem simplesmente lhe dar sementes. Talvez conseguisse pelo menos algumas folhas, mas questionava se era uma boa ideia incentivar ainda mais o hábito de fumar entre as cortesãs oferecendo uma fonte barata de tabaco.

Não custa nada sondar, pensou ela. — Por quanto vocês venderiam isso? — perguntou ela.

— Não está à venda — disse o velho, pegando as folhas, e amarrando várias delas juntas e pendurando-as sob o beiral.

Será que é para uso próprio? Mas ela não tinha visto nenhum objeto para fumar na casa, nem nunca tinha visto o velho fumando.

Como se respondesse à pergunta silenciosa de Maomao, o velho pegou um pote do chão e o colocou sobre a mesa. Ao abrir a tampa, um cheiro forte se espalhou.

— Nossa, vovô, isso fede! — disse Chou-u, tampando o nariz de forma exagerada. Mesmo assim, ele espiou dentro e viu um líquido marrom. — Você não vai pedir pra gente... beber isso, vai?

— Não, e é melhor não beber mesmo. Isso mataria vocês na hora. Tem folhas de incenso em infusão aí dentro.

— Ugh! Por que você teria uma coisa dessas? — perguntou Chou-u, sentando-se novamente em uma caixa de madeira.

— Usamos para manter as cobras afastadas — respondeu o velho.

Maomao bateu palmas: as folhas de tabaco eram venenosas se ingeridas, e ela sabia que a toxina afetava insetos. Pela primeira vez, ocorreu-lhe que talvez também funcionasse contra cobras. Insetos eram uma coisa, mas cobras ela sempre tentava capturar, nunca tinha pensado em simplesmente afastá-las.

— É o melhor que podemos fazer com toda essa bobagem de não matar cobras. Temos que tomar cuidado, não queremos causar problemas. Mas também não queremos ser mordidos enquanto colhemos vegetais, e eu ainda crio pombos — explicou o velho.

O velho estava praticamente espumando de irritação; Kokuyou mantinha um sorriso enquanto preparava chá. Os olhos de Chou-u brilhavam ao ver pãezinhos cozidos no vapor surgirem do armário.

— Ninguém deu a mínima pra esse santuário por décadas! Agora não param de falar de um tal mensageiro do deus serpente aparecendo. É um pouco tarde demais para eles, a ponte para a ilha já está completamente destruída — disse o velho.

— Ha ha ha! Os xamãs são os piores, não são? — concordou Kokuyou, alegre. Havia, talvez, um leve traço de ressentimento pessoal naquele bom humor?

Enquanto isso, Maomao se pegou pensando em uma coisa. Independentemente do testamento do antigo chefe da aldeia, ela se perguntava se alguém em uma vila pequena como aquela realmente hesitaria tanto em matar uma cobra. Será que era mesmo por causa de uma divindade serpente que antes era cultuada ali?

— Esse xamã era realmente tão convincente assim? — perguntou ela, friamente.

O velho bufou.

— Há! Engraçado você perguntar isso. Os verdadeiros fiéis dizem que ela mudou de forma.

— Mudou de forma? — Maomao já tinha ouvido falar de raposas que se transformavam, mas uma cobra?

Não basta que as raposas possam fazer isso?

[Kessel: Raposas mudam a coloração das suas pelagens para se camuflar melhor! São uma gracinha, pesquisem aí umas imagens no google para ver!]

Ela lançou um olhar confuso para eles. Kokuyou abriu a janela da cabana, e Maomao percebeu que conseguia ver o pântano e o santuário. O vovô olhou para fora e coçou a barba rala.

— Eu não vi com meus próprios olhos. Mas dizem que a xamã...

Diziam que a xamã tinha dançado sobre a superfície da água para alcançar o santuário.

Isso só pode ser...

— Diziam que isso provava que a xamã era a mensageira do deus. — E pronto, estava explicado.

...a coisa mais suspeita que já ouvi!

Suspeita ou não, se fosse verdade, então a “mulher pálida” que o pintor tinha visto também poderia ser real.

— Essa xamã não era, por acaso, uma jovem com cabelo branco e olhos vermelhos, era?

— Não, não. Era uma jovem, sim, mas ninguém disse nada sobre ela ter essa aparência.

Chou-u ficou boquiaberto.

— Que incrível! Como ela andava sobre a água?

— Isso é fácil — disse Kokuyou. — Você só precisa dar o próximo passo antes que o pé comece a afundar. Aí faz de novo, e de novo. Um passo de cada vez. — A mentira parecia sair com naturalidade.

— Que legal!

Maomao deu um leve tapa na cabeça de Chou-u, como aviso para não ser tão ingênuo, ao mesmo tempo em que lançava um olhar fulminante para Kokuyou. Ela estava começando a achá-lo simpático e inofensivo, quando descobriu que ele era capaz de uma coisa dessas.

— Não me diga que você realmente acredita que ela podia fazer isso — disse Maomao.

— Claro que não. Mas... cof — O velho continuou coçando o queixo enquanto olhava para fora. Ele parecia dividido. — Uma vez, quando eu era jovem, eu vi exatamente isso.

— Você viu alguém dançando sobre a superfície da água? — Maomao inclinou a cabeça. Chou-u a imitou, assim como Kokuyou, por algum motivo.

— Sim. Foi antes de eu sair da aldeia. Sabe, antigamente costumava ser dever da sacerdotisa do santuário servir ao deus serpente. — A família do velho era, na verdade, parente distante do chefe da aldeia, e as jovens que serviam no santuário eram da mesma linhagem. O vovô tinha acabado de dizer que o santuário estava praticamente abandonado há décadas, mas havia uma explicação para isso. — Eles vieram procurar garotas para o palácio interno, e depois disso não sobrou nenhuma jovem por aqui.

O que mais havia para dizer? Era simples assim. Com isso, rituais que tinham sido transmitidos oralmente por gerações desapareceram, e o santuário caiu em desuso. Foi mais ou menos nessa época que o chefe anterior assumiu o cargo. Como o chefe antes dele era um homem de pouca fé, ele deixou o santuário abandonado até que ele ficou em ruínas, e até a ponte que levava à ilha até o  santuário apodreceu e desabou. Então o vovô voltou para a aldeia e se tornou o guardião do santuário, ainda que só de nome, vivendo ali nesta cabana.

— A sacerdotisa do santuário não voltou para a aldeia depois de terminar seu tempo no palácio interno? — perguntou Maomao.

— Heh. Ela sempre foi uma boa garota. Por que voltaria para um lugar como este?

Justo, pensou Maomao, imaginando Xiaolan, que tinha sido sua amiga no palácio interno. Os pais de Xiaolan a venderam para o serviço para ter uma boca a menos para alimentar. Ela entendia a realidade, e sabia que, mesmo que voltasse para casa, não haveria lugar para ela. Em vez disso, depois de sair do palácio interno, encontrou trabalho para se sustentar. Uma jovem com um mínimo de bom senso provavelmente encontraria várias maneiras de ganhar a vida melhor do que teria em uma aldeia como esta. Havia mais de uma forma de dizer que o palácio interno dava uma vantagem às mulheres na vida.

— O antigo chefe só sabia lamentar antes de morrer, mas eu achava que, se ele ia reclamar tanto, deveria ter procurado ajuda de um médico — disse o vovô.

— Ha ha ha! Essa é boa. É, tem gente assim mesmo, né? — Kokuyou riu, mas o velho lhe deu um leve cascudo. Não era tão engraçado assim.

Maomao olhou para fora.

— Não vejo nenhum barco. Como vocês atravessam? Imagino que precisem verificar o estado do santuário de vez em quando.

O vovô desenhou um círculo na mesa.

— Ao que parece, os barcos irritam a divindade. Existe até uma área específica reservada para pesca, embora tudo que você consiga pegar seja peixe-lama, então nem vale muito a pena o esforço. Por isso, o santuário fica abandonado. Fique à vontade para ir vê-lo se estiver interessada…  só não de barco.

— O quê, isso é algum tipo de enigma? — perguntou Maomao. Como ela deveria chegar à ilha sem usar um barco? Ele achava que ela podia andar sobre a água?

— O quê, você achou que seria fácil chegar a um lugar sagrado? — disse o velho, falando bobagens. — Kokuyou, leve eles. Deve dar para ver melhor a ilha da outra margem do que daqui. E aproveite para capinar os campos.

— Ah, que trabalheira — disse Kokuyou, mas mesmo assim pegou uma foice de mão.

— O tabaco cresce ali. Você não pode pegar as folhas, mas, se houver sementes, pode levar algumas. É o seu pagamento por capinar.

Maomao franziu a testa para o velho, que parecia decidido a dificultar as coisas a cada oportunidade, mas ainda assim ela também pegou uma foice.

 

O pequeno grupo de Maomao deu a volta até o outro lado do pântano. Algo que parecia folhas de lótus flutuava na superfície da água. Chou-u tinha ficado assustado com as cicatrizes de Kokuyou no começo, mas demonstrando uma capacidade de adaptação considerável, os dois já eram grandes amigos. Chou-u estava até conseguindo que o jovem médico o carregasse nas costas, embora, ao contrário dos servos, Kokuyou balançasse um pouco sob o peso de Chou-u e parecesse perigoso. Talvez o fato de só conseguir enxergar com um olho tenha prejudicado seu senso de equilíbrio.

— Lá está, ali — disse Kokuyou, quando uma ponte conectando a margem ao lado de trás da pequena ilha entrou em vista. A ponte, porém, estava apodrecida, e quase não restava nada dela. Maomao olhou para ela incrédula: até a base dela  estava se desfazendo; mal parecia capaz de sustentar uma tábua de madeira.

Kokuyou, aparentemente pensando o mesmo que Maomao, tirou uma tábua de madeira de algum lugar. — Aqui vamos — disse ele, colocando-a sobre a base instável.

— Isso é seguro? — perguntou Maomao, sentindo um desconforto crescente enquanto o observava.

— Ha ha ha, claro que é. Você se surpreenderia com o quão resistente essa coisa é. — Para demonstrar, ele pulou sobre a tábua… que imediatamente cedeu, jogando-o no pântano com um: — Opa!

— O que você tá fazendo, cara? — disse Chou-u, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar. Mas, com um som viscoso, Kokuyou afundou ainda mais. Um arrepio de medo percorreu o grupo.

— Não me diga que esse é um daqueles p-pântanos sem fundo, não é? — perguntou Kokuyou, ainda sorrindo.

Por um segundo, nem Maomao nem Chou-u disseram nada, mas após aquele instante de silêncio, todos entraram em ação. Mas quanto mais Kokuyou se debatia, mais ele afundava. Quando já estava com a água do pântano até o pescoço, Maomao conseguiu encontrar uma trepadeira robusta na mata e puxá-la, para que o homem pudesse usá-la para se puxar para fora.

— Você vai me matar do coração, senhor — disse Chou-u.

— Ha ha ha! Desculpe mal por isso — respondeu Kokuyou, coçando a nuca com a mão cheia de lama. (Assim, a única parte ainda limpa dele ficou tão suja quanto o resto.)

Maomao pegou um balde de água de irrigação de um campo próximo e o trouxe até ali, depois disso, ela optou pelo caminho mais simples: despejou tudo na cabeça dele. Kokuyou se sacudiu como um cachorro molhado.

— Ah, sim... O velho me disse que é por esse pântano que dizem que as crianças são levadas embora — disse Kokuyou.

— Credo — disse Chou-u, nada satisfeito. Não dava pra saber quantas pessoas estavam enterradas naquela lama.

Maomao olhou para a ponte em decomposição. — Eles realmente não cuidaram disso.

— Manutenção custa dinheiro. Acho que tem algo na composição da lama daqui que causa mais dano que água comum.

O pântano podia não ser literalmente sem fundo, mas era certamente mais profundo do que a altura de Kokuyou. Substituir a base da ponte regularmente teria sido um grande problema. Partes da base podiam ser vistas se estendendo bem além do pântano, sugerindo que ele já havia ocupado toda aquela área.

Uma variedade de plantas selvagens crescia ao redor do santuário na pequena ilha. Eram brilhantes e coloridas, sugerindo que podiam ser flores, mas era difícil dizer àquela distância, a única certeza era que eram cores raras naquela região. Pássaros voavam por ali com frequência; talvez as sementes tivessem chegado através de algum excremento.

— Muito bem, vamos ao trabalho — disse Kokuyou, animado apesar de ainda estar manchado de lama em alguns pontos. De repente, ele estava usando um chapéu de junco. (De onde ele tirou isso?)

O campo estava cheio de ervas daninhas; Maomao estava prestes a dizer exatamente o que pensava daquilo, mas Chou-u foi mais rápido: — Aff! — exclamou ele, deixando os ombros caírem. Depois disso, ela sentiu que não podia dizer nada. Em vez disso, dedicou-se obedientemente a arrancar as ervas daninhas, mantendo os olhos atentos a qualquer semente de tabaco. Mas não havia nenhuma.

Aquele velho bastardo, pensou ela, decidida a arrancar algumas sementes dele antes de ir embora.

Kokuyou cantarolava alegremente enquanto trabalhava, e Maomao se sentiu compelida a ajudar. Chou-u, que parecia não ter tido nenhuma intenção de ajudar desde o começo, ficou por ali juntando pedrinhas e desenhando na terra.

Por um tempo, eles se concentraram no trabalho. A umidade no pântano era alta. O solo lamacento parecia rico em nutrientes, mas, por outro lado, fazia as raízes apodrecerem rapidamente. Talvez isso explicasse a areia misturada à terra do campo. Felizmente, isso tornava as ervas fáceis de arrancar.

— Ei, você sabia? — disse Kokuyou. Ele havia parado de cantarolar, mas parecia quase falar consigo mesmo.

— O quê? — disse Maomao.

— Sobre as sacerdotisas que existiam nesta vila.

Maomao lançou um olhar confuso para ele. Como ela saberia de algo assim?

— O velho me contou que o trabalho delas era apaziguar o grande espírito serpente. Mas as sacerdotisas originalmente eram escravas.

Maomao não disse nada. Chou-u continuava desenhando, alheio à conversa deles. Kokuyou continuou, sussurrando para que apenas Maomao fosse capaz de ouvir:

— Acho que o rio costumava transbordar muito aqui. Antes de desenvolverem o controle de enchentes, os campos ficavam inundados todo ano. Às vezes até as casas ficavam submersas.

O que as pessoas faziam naqueles tempos antigos, quando eram impotentes diante de desastres naturais catastróficos? Elas recorriam a práticas sem sentido.

— Dizem que compravam escravos para usar como sacrifícios. Claro, quando havia dinheiro sobrando, quando não havia, provavelmente escolhiam alguma pobre garota da vila.

Então “sacerdotisa” era apenas um nome bonito para um sacrifício humano.

— Mas então...

Um dia, apareceu uma donzela do santuário com poderes espirituais. Diziam até que ela dançou sobre a água diante de todos os aldeões.

O “vovô” realmente se abriu com esse cara, pensou Maomao. Todas essas histórias eram novas para ela. O velho devia conhecer essas histórias por causa da ligação de sua família com as sacerdotisas.  Parecia estranho que, ao mesmo tempo, ele também fosse parente distante do chefe da aldeia.

— Acho que isso significava que, se você não tivesse esses poderes, mais cedo ou mais tarde acabaria sendo sacrificada — disse Kokuyou. Ser sacrificada ao deus disso ou ao senhor daquilo provavelmente não fazia muita diferença para quem sofria o ritual. — Mas então, justo quando ela achou que tinha escapado, acabou sendo enviada ao palácio interno!

Assim, em vez de ser oferecida ao senhor do lago, foi entregue ao senhor da terra.

Não é de se admirar que ela não quisesse voltar. Agora Maomao entendia por que a jovem nunca retornou, como o velho havia dito. Quem poderia culpá-la, se realmente sentia raiva de sua terra natal?

Maomao olhou para a água ao longe. A superfície ondulava, mas, a julgar pelo estado de Kokuyou depois de cair, lá embaixo havia principalmente lama. Ela pegou um graveto próximo e o enfiou na água. Depois que afundava na lama, era difícil puxá-lo de volta.

— Menos um pântano e mais um brejo. As medidas contra enchentes podem ter dispersado a água que entra aqui, mas talvez o encolhimento do pântano tenha deixado tudo mais lodoso — disse Maomao. Ela se levantou de onde estava agachada. — Você sabe quando o pântano começou a diminuir?

— Acho que não. Você pode tentar perguntar para o vovô — disse Kokuyou.

Maomao coçou o queixo e mexeu na lama como pôde. De repente percebeu que Chou-u estava ao seu lado, mexendo na lama também.

— Você deixou cair alguma coisa? — ele perguntou.

— Não — disse Maomao.

Chovia bastante nessa época do ano, o nível da água provavelmente ainda não estava no máximo. Isso significava que o pântano ficaria ainda mais lamacento na estação seca.

De repente, Maomao se levantou de um salto.

— O que foi, Sardenta? — perguntou Chou-u, olhando para ela, mas ela o ignorou e saiu correndo. — Ei, Sardenta!

— Hã? O que tá acontecendo? — perguntou Kokuyou. Maomao não respondeu; ela foi direto para a cabana onde o velho morava. Ela não queria perder tempo conversando com os dois, estava desesperada para testar a ideia que teve o quanto antes.

Mesmo enquanto corria, um sorriso surgiu no rosto de Maomao.

 

— Mas de onde veio isso? O que ela acha que está fazendo? — resmungou Chou-u, mas ele e Kokuyou foram atrás dela mesmo assim. Chou-u deve ter se cansado no meio do caminho, porque quando chegaram à cabana, Kokuyou o carregava nas costas.

Maomao subiu os degraus de um salto e bateu na porta. Assim que o velho abriu, ela disparou:

— Me dê algumas sementes de tabaco!

O velho estava sorvendo um prato de macarrão, quase como se estivesse comendo a própria barba.

— É por isso que você veio? Se não houver sementes no campo, azar. — Ele começou a mastigar ruidosamente o macarrão que tinha na boca.

Maomao já esperava algo assim, mas tinha uma ideia.

— E se eu dissesse que posso identificar a famosa xamã? — sussurrou ela.

A mastigação desagradável parou, e ele pousou os hashis.

— Kokuyou, venha aqui. Leve isso e distraia o garoto. — Ele pegou uma bola da prateleira e jogou para Kokuyou, que não conseguiu pegá-la e teve que correr atrás dela, com Chou-u logo atrás dele.

Com os intrusos fora, o velho fez um gesto para Maomao se sentar. Ela se acomodou numa cadeira e olhou pela janela para o pântano.

— Deixe eu arriscar um palpite: quando essa xamã apareceu, era a época do ano em que o nível da água estava baixando.

O pintor tinha visto a mulher de cabelos brancos e olhos vermelhos cerca de seis meses atrás, provavelmente na estação seca. Menos água no pântano significava mais lama.

— Isso mesmo — disse o vovô.

— E a sacerdotisa fez sua dança mais ou menos na mesma época do ano, certo?

— Não vejo o que isso tem a ver com alguma coisa.

Maomao molhou o dedo no jarro de água e começou a desenhar um mapa na mesa: um círculo representando o lago, depois a pequena ilha e a ponte. O velho deve ter achado difícil enxergar, porque ofereceu um pincel e papel. Materiais simples, mas mais visíveis. Maomao começou a desenhar.

Ela apontou para a margem mais próxima da ilha, o ponto mais distante do rio que alimentava o pântano.

— Foi mais ou menos ali que a dança da chuva foi feita?

— Sim, isso mesmo — disse o médico. O lugar podia ser visto da janela da cabana em que se encontravam.

— Essa sacerdotisa, xamã ou seja lá o que for, invocou a bênção do grande deus serpente e caminhou sobre as águas. E se eu dissesse que posso fazer a mesma coisa? — perguntou Maomao. 

O velho estreitou os olhos, claramente desconfiado.

— Já chega de bobagem. Se me permite dizer, não acho que você tenha o tipo físico para atrair o deus serpente. 

— Nossa, velho, não sabia que você era tão devoto. — Os olhos deles se encontraram. Maomao sorriu, tentando provocá-lo. Se estivesse certa, aquele velho sabia de algo, algo que não estava contando para ela.

Era quase como se ele pudesse ler sua mente.

— Luomen nunca trabalharia com uma suposição dessas — disse ele.

— É exatamente por isso que quero investigar o pântano: para comprovar essa hipótese.

O velho lançou-lhe um olhar severo, mas se levantou, como se a convidasse a segui-lo.

— Você não é do tipo que gosta de um pouco de mistério na vida, né? Não que eu possa falar muito. Numa hora dessas, o certo seria simplesmente acreditar que imortais e sacerdotisas realmente existem. — O velho praticamente cuspiu as palavras, mas então chamou os dois que brincavam com a bola lá fora: — Vão comprar alguma coisa que sirva de jantar!

Ele deu algumas moedas a Kokuyou. Evidentemente ele não achava que a bola os distrairia por muito tempo.

— Escuta aqui, garoto; esse idiota sempre acaba sendo enganado. Desculpe, mas você pode ir com ele e ficar de olho?

— Claro! Pode deixar comigo — disse Chou-u, e foi atrás de Kokuyou novamente. Maomao e o velho médico ficaram onde estavam até os dois desaparecerem de vista. Então o médico disse: — Vamos.

Ele a levou até uma área do pântano que estava cercada. Plantas flutuantes cobriam a superfície da água. Maomao franziu a testa para o terreno pantanoso, tirando os sapatos e levantando a saia enquanto caminhavam. O vovô, por sua vez, arregaçou as pernas da calça.

A água estava escura e turva.

— A sacerdotisa caminhou daqui até a ilha. Se você conseguir fazer o mesmo, eu conto tudo o que quiser saber. — Então ele baixou a voz para um sussurro ameaçador e disse: — Antes da sacerdotisa, as jovens trazidas para cá eram chamadas de sacrifícios, e eram afogadas neste pântano. Amarradas a pesos e afundadas vivas nas profundezas sem fundo. Minha bisavó me contou como tentou tapar os ouvidos enquanto as garotas choravam e soluçavam pela última vez, cada tentativa de luta arrastando-as ainda mais para a sua perdição. — Não há garantia de que você não acabe do mesmo jeito.

Podia ter sido um costume reverenciado, mas também devia ser uma visão aterrorizante para os aldeões que testemunhavam aquilo. E então eles sentiam remorso pelo que haviam feito e imploravam por perdão, embora isso já não significasse nada naquele ponto.

Pilares de pedra erguiam-se ao redor do pântano, construídos com rochas de tamanho semelhante empilhadas umas sobre as outras, com a maior de todas no topo. Algum tipo de marco funerário, talvez.

— Então, como exatamente a donzela atravessou o pântano? — perguntou o velho.

Maomao tirou um pedaço de corda que havia trazido de casa, juntamente com duas tábuas finas de madeira.

— Tudo bem se eu pegar isso emprestado?

— Faça como quiser.

— Obrigada.

Ela fez três furos em cada tábua e passou a corda por eles, criando algo que parecia sandálias improvisadas. Não eram nada impressionantes, mas ela as calçou, pensando: sandálias de arrozal seriam perfeitas agora. Esse tipo de calçado era usado por quem plantava arroz, mas desejar não a levaria a lugar nenhum.

O velho a observava com curiosidade agora, mas por enquanto ela permaneceu em silêncio. Ela arregaçou a roupa para não arrastar no chão, depois enrolou uma corda ao redor do corpo, amarrando a outra ponta a um dos pilares de pedra. Então ela começou.

— Ei, o que você está fazendo? — perguntou o vovô.

— Comprovando.

Maomao colocou o pé no pântano, ou melhor, quase o chutou, o impacto fazendo seu pé ricochetear. O velho se assustou, mas Maomao já dava o próximo passo, chutando com força. Ela repetiu isso várias vezes, avançando pelo pântano.

Ela estava, de fato, caminhando sobre a água. Não era exatamente da forma que Kokuyou havia sugerido, mas ela dava cada passo antes que o pé pudesse afundar, repetindo o processo. Era o suficiente para mantê-la na superfície.

— E então? Eu consigo andar sobre a água. — Maomao sorriu, cheia de confiança.

O velho acariciou a barba, impressionado. — Isso é algo especial, admito. — Ele pegou um longo bastão que estava por perto, deu um passo no pântano e o cravou na água. Ouviu-se um som seco e agudo. — Mas você não precisa se dar a todo esse trabalho. Há mais um monte de pedras como essa no pântano. — Ele bateu novamente no grande pilar de pedra.

— O quê? — disse Maomao, atônita. Com o espanto, ela parou de mover os pés, que imediatamente afundaram no pântano. No fim, o vovô teve que puxá-la para fora.

 

— Como você fez aquilo, afinal? — perguntou o vovô, depois de ajudá-la, agora coberta de lama.

Maomao tirou os “sapatos” e olhou para o pântano, cansada. — Quando você tem algo que não é exatamente líquido nem sólido, ele apresenta algumas propriedades especiais — disse ela. Talvez fosse mais fácil demonstrar se tivesse amido de batata à mão. Misture-o à água na proporção certa, e você pode pegá-lo com a mão, mas logo ele escorre entre os dedos.

Este pântano era muito parecido. Foi por isso que Maomao perguntou ao velho em que época do ano a sacerdotisa havia dançado sobre a água. E ela havia usado o calçado improvisado porque julgou que havia um pouco de água demais na mistura para fazer aquilo de outra forma.

Ela imaginou que alguns dos “sacrifícios” perceberam que, quando o pântano encolhia e a proporção de lama e água mudava, era possível atravessá-lo. Mas ela não estava totalmente certa.

— Um truque desses? Isso não é nada justo — disse ela.

— Os pilares de pedra afundados no pântano são túmulos dos sacrifícios mortos — respondeu o velho com firmeza. Eles estavam enterrados de forma que, mesmo na estação seca, não eram visíveis. Dez deles, ou talvez um pouco mais, sugerindo o número de mulheres que haviam sido afogadas.

— Muito tempo atrás, quando se decidiu o próximo sacrifício, o filho do chefe da aldeia contou à jovem infeliz sobre esses túmulos. — E foi assim então que a jovem quem teve o “senhor do lago” ao seu lado, tornou-se a sacerdotisa. — Isso já faz mais de cinquenta anos.

Aparentemente, o antigo chefe da aldeia não sabia sobre as pedras. Para Maomao, parecia que apenas aquele homem ali tinha conhecimento delas. Ela lançou-lhe um olhar fulminante: ele sabia o tempo todo e permaneceu em silêncio sobre o assunto. Por que faria isso, a não ser que houvesse algo pelo qual se sentisse culpado?

— A xamã era uma mulher de cabelos brancos? — perguntou Maomao novamente.

Mas outra vez o médico balançou a cabeça. — Nunca tivemos ninguém assim por aqui. — No entanto, ele tinha algo mais a acrescentar. Começou a contar que, por puro acaso, ele encontrou na capital a antiga sacerdotisa que tinha sido enviada ao palácio interno. Ela já tinha uma neta.

A antiga sacerdotisa perguntou como estava o grande deus serpente. O médico explicou que, mesmo sem sacerdotisa, melhorias no controle de enchentes fizeram com que o rio e o pântano não transbordassem mais. O deus serpente virou mera superstição, seu santuário caiu em ruínas, e ninguém mais o visitava.

— Não consigo deixar de pensar que talvez fosse melhor eu ter dito a ela que o santuário estava bem, que graças à grande serpente estávamos seguros das enchentes. Mesmo não sendo verdade — disse ele.

A antiga sacerdotisa ficou incrédula com o que ouviu. Era como se todas as sacerdotisas que haviam sido levadas às profundezas tivessem morrido em vão. O pensamento a enfureceu.

— Não muito depois, ela e a neta vieram à aldeia. A antiga sacerdotisa disse que servia a um novo deus serpente, e foi então que fez a neta atravessar o pântano.

Um novo deus serpente? Maomao pensou nas cordas sagradas brancas, na divindade serpente e na mulher de cabelos brancos que o pintor havia visto. Ela pegou o bastão e o cravou no pântano, procurando os marcos enquanto avançava em direção à pequena ilha. O velho estava certo; aquele era um método mais confiável do que o que Maomao havia tentado. Desde que seus pés estivessem firmes, era possível.

Ela saltou até a ilha. Lá havia um santuário em ruínas, ervas daninhas crescendo sem controle, e flores com pequenas pétalas vermelhas balançando ao vento. Essas flores não duravam muito; algumas pétalas já caíam, deixando as plantas sem folhas. Teriam sido plantadas ali, ou as sementes apenas chegaram por acaso naquela área? Tudo o que Maomao sabia era que aquelas plantas não deveriam estar ali.

— Papoulas? — ouviu o velho dizer, e pelo tom dava para perceber que ele as via pela primeira vez. Talvez nunca tenha ido até a ilha, mesmo sabendo como chegar.

— Posso fazer mais uma pergunta? — disse Maomao.

— Vá em frente. Agora eu conto qualquer coisa.

— Como você sabe sobre os túmulos?

O velho sorriu. — Você sabe que sou parente das sacerdotisas, o que significa que sou filho de uma escrava. Não é incomum que os poderosos de uma aldeia se envolvam com escravas.

Ele havia dito que foi o filho do chefe quem contou à antiga sacerdotisa sobre os pilares. Isso implicava que o chefe engravidou uma escrava, e que aquela criança era o próprio vovô.

— Quando o chefe se cansou dessa escrava, ela foi passada para outro aldeão, até que, por fim, quando a fome ameaçou, foi usada como sacrifício.

Para haver túmulos, alguém precisava erguê-los, cortar a pedra e empilhar rocha sobre a rocha ao longo dos anos. Sem contar carregar as pedras até lá, passando pelos outros marcadores já existentes.

— Este marcador bem diante da ilha é o último. Ele salvou minha irmãzinha de se afogar... — disse o médico.

Em vez disso, ela foi enviada ao palácio interno. Não foi a filha do chefe que partiu, mas o fruto da escrava com quem quer que ela tenha sido “entregue”. Quando voltou décadas depois, ela descobriu que os aldeões que mataram sua mãe e usaram sua vida para seus próprios fins e haviam esquecido completamente da divindade local e das mulheres sacrificadas a ela como sacerdotisas.

Maomao olhou para as folhas de tabaco na margem oposta. — Por acaso, você conseguiu isso com a antiga sacerdotisa?

— Consegui. Mas não as sementes de papoula. Ela me deu o tabaco como lembrança, pedindo dois favores em troca.

— E você pode me contar quais foram também?

— Sim, já está na hora de contar a alguém. O nível da água ainda está alto agora, então eles continuam escondidos, mas quando o outono chegar, o topo dos túmulos vai aparecer. Consegui manter todos afastados da trilha até o ano passado, mas não acho que vou conseguir mais.

A xamã seria exposta como fraude.

— O primeiro favor foi este: que eu ficasse em silêncio, mesmo sabendo o que eu sabia.

As proibições contra matar cobras ou pássaros provavelmente eram a pequena forma de vingança da xamã. Esse velho poderia se opor aos métodos dela, mas preferiu fazer vista grossa.

— O outro... — O médico idoso olhou para sua cabana sobre estacas. — O outro foi que eu deixasse ela usar livremente meu pombal.

— Pombal? Para que ela queria isso? — perguntou Maomao, inclinando a cabeça, confusa. Pensando bem, ela também ouviu pombos arrulhando na aldeia. Eles costumavam criar aves soltas?

Não matem pássaros que voam”...

Comparado à regra sobre cobras, esse aviso parecia quase um detalhe.

Maomao voltou pelos túmulos em direção à cabana. Várias vezes ela quase escorregou nas pedras lisas, mas estava com pressa para chegar ao pombal.

Ao se aproximar, seu nariz foi atingido pelo cheiro característico. Lá dentro havia várias dezenas de aves com penas verde-escuras. Elas bateram as asas, agitadas com a chegada repentina de Maomao, mas ela ignorou a reação delas. Em vez disso, pegou uma por uma e as lançou de lado.

— Ei! Deixe as pobres aves em paz! — resmungou o vovô. Então ele as via como algo mais do que comida, mas isso também não importava para Maomao naquele momento. Finalmente encontrou o que procurava. Pegou uma ave pelas costas, virou-a e arrancou o objeto preso à sua perna: um pedaço de fio branco torcido. Estava sujo em alguns pontos; provavelmente ficou assim quando o animal esteve do lado de fora.

Maomao saiu do pombal e desfez o fio. Era, na verdade, um pedaço único de tecido, bordado com caracteres que realmente pareciam um rabisco de serpente.

Eu sei que já vi isso antes, pensou Maomao. Parecia muito com o bordado do manto de rato-de-fogo que ela havia visto na loja de roupas usadas. Se você soubesse o que estava vendo, perceberia que não era apenas um padrão aleatório, era um código, baseado em caracteres das regiões do oeste.

Maomao lembrou-se da vidente da capital ocidental, de como ela usava uma pena de pombo em vez de pincel para escrever. Já fazia algum tempo que Maomao tentava entender como a Dama Branca parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo no país. Certamente a jovem não podia viajar tanto assim tão distantes. Sua aparência albina podia parecer sobrenatural, mas ela não podia usar magia como os imortais das histórias. Muito pelo contrário, com a pele sensível à luz do sol, ela não conseguiria passar muito tempo ao ar livre em regiões ensolaradas.

Então não seria a própria Dama Branca que se movia; Maomao supôs que ela comandava seus cúmplices. O problema dessa hipótese era a informação: para soltar o leão da jaula ou entrar em contato com a meia-irmã da Concubina Lishu, a Dama Branca precisaria de um meio de trocar informações rapidamente entre a capital ocidental e a capital imperial na região central. Mesmo o cavalo mais rápido levaria mais de dez dias para chegar ao oeste, e quase o mesmo tempo para voltar, mesmo indo de barco.

Como ela resolveu esse problema? Esses pombos.

— Ei, vovô, a antiga sacerdotisa vem pessoalmente visitar o pombal?

— A neta dela vem. Ela levou alguns deles consigo, disse que ia usá-los para um feitiço ou algo assim.

— E você não vai acabar ficando sem pombos?

— Não, eles sempre voltam para este pombal quando eu os solto. A menos que algum animal, ou uma pessoa, os pegue antes.

Em outras palavras, ela podia se comunicar usando a habilidade desses pombos. Maomao fechou os olhos, pensou por um instante no que deveria fazer, e então olhou para o velho. Era possível que algum mal recaísse sobre a antiga sacerdotisa e sua neta. Elas pareciam estar ligadas à Dama Branca.

Maomao estalou a língua. 

— Quer trabalhar comigo desta vez, vovô?

— O quê? Do que você está falando?

Maomao não era totalmente desprovida de decência. Ela podia simplesmente ir direto até Jinshi sem dizer mais nada ao velho, mas escolheu não fazer isso. Em vez disso, começou a negociar, tentando descobrir até onde ele iria ceder e em que ponto ele estaria disposto a chegar a um acordo.


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