Volume 6
Capítulo 14: Escândalo (Parte 2)
Kessel: O uso do itálico neste capítulo tem um tom diferente do habitual. Quando usado durante um travessão, continuem considerando que é um(a) personagem falando, e não um pensamento.
Exemplo: — Bom dia, apotecários(as)!
— Você se lembra de algum livro como este? — perguntou Maomao, mostrando o resumo que Lishu tinha escrito ao velho homem que era dono da livraria. Ela tentou fazer Lishu anotar a essência da história e algumas de suas impressões; não houve tempo para mais nada. Infelizmente, entre as coisas que Lishu não conseguiu lembrar sobre o livro estava o título. Ela tinha apenas copiado a parte que a criada pediu, e deu ao restante do livro apenas uma leitura superficial.
Não havia muito que Maomao pudesse fazer. Para provar que a “carta” incriminadora era, na verdade, o manuscrito de um livro, elas teriam que encontrar o livro de onde ela tinha sido copiada. Lishu disse que o exemplar que recebeu era manuscrito, não impresso, mas tinha uma capa atraente, sugerindo que talvez fosse um produto à venda, apenas com distribuição limitada.
— Hum... Parece uma história de amor comum para mim, embora eu não preste muita atenção nesse tipo de coisa.
— Acho difícil acreditar que você não folheie ao menos o que vende.
— Ahh, há tantos livros hoje em dia. E meus olhos já não são como antes. — O livreiro bocejou. Ele já estava praticamente aposentado; seu filho cuidava da maior parte do negócio. Era óbvio que ele queria que Maomao se apressasse e fosse embora para poder tirar um cochilo.
Ele não estava errado ao dizer que a história soava como um romance padrão, mas havia um tom político nela, o tipo de coisa que chamaria a atenção dos censores. A história dizia que um jovem e uma jovem de famílias nobres rivais se apaixonaram à primeira vista e, depois, blá, blá, blá, terminou em tragédia.
Maomao levou a mão à testa, aquilo não a estava levando a lugar nenhum. Havia outras duas livrarias na capital, ambas menores que aquela. Ela poderia até ter que procurar livrarias em outras cidades.
Sua inquietação foi interrompida por um homem que entrou carregando um grande fardo nas costas.
— Olá — disse ele para Maomao.
— Ah, você voltou — disse o velho. Esse devia ser o filho dele.
— O que está fazendo, pai? — perguntou o homem mais jovem, largando a carga e lançando um olhar desconfiado ao mais velho. — Não está tratando os clientes como incômodo de novo, está?
O rapaz conhecia bem o pai.
— Ela estava me perturbando perguntando se eu reconhecia este livro. Eu não leio cada maldita página que passa por aqui, sabia!
— Deixe-me ver — disse o filho do livreiro, pegando o resumo de Lishu e semicerrando os olhos para lê-lo. — Ah, este aqui...
Ele se ajoelhou e começou a revirar o pacote que tinha trazido consigo, retirando um livro específico. A capa mostrava um jovem e uma jovem, mas havia algo um pouco estranho na imagem.
Ele entregou o livro a Maomao, que imediatamente começou a ler. Mesmo passando os olhos rapidamente pelas páginas, ficou claro que aquilo se parecia com a história que Lishu havia descrito. Então ela parou em uma página específica. — Isto aqui... — disse ela. Era muito parecido com um trecho que Lishu escreveu de memória. Parecido, mas alguns detalhes eram diferentes, as palavras exatas eram diferentes. O significado, no entanto, era praticamente o mesmo.
— Sim, tem umas coisas estranhas aí, né? Dizem que é uma tradução de uma peça muito popular no oeste.
— Uma peça? No oeste?
— Claro. Algumas das descrições soam meio esquisitas, não acha? Quem traduziu não sabia como era o mundo dos nobres daquela região, então mudou nomes, costumes e tudo mais para parecer com os nossos. Depois, cada pessoa que copiou fez mais mudanças conforme achava melhor.
Isso fez Maomao olhar novamente para o resumo da concubina. Lishu incluiu o nome de um dos personagens principais, e aquilo a incomodou, porque não soava como um nome comum. Agora ela percebeu que se tratava de um nome ocidental, transcrito diretamente para o idioma deles com caracteres arbitrários.
Ela folheou o livro novamente, procurando aquele nome incomum, mas não o encontrou. Encontrou, porém, outro trecho muito parecido, embora com nomes completamente comuns.
— Hum. Talvez ela tenha lido uma versão mais antiga deste livro. Mas este aqui já é considerado bem antigo — disse o filho.
— Onde posso conseguir uma cópia disto? — perguntou Maomao.
— Eu comprei de um copista. Acho que disseram que chegou no verão passado. Estamos pensando em imprimir, então, se for tentar comprar agora, vamos te expulsar daqui.
Em outras palavras, a concubina Lishu provavelmente usou uma cópia que circulava antes do verão passado. Maomao parou de repente: não tinha acontecido outra coisa no palácio interno por aquela época?
— A caravana...
— Hum? O que foi?
— Essa garota gosta mesmo de falar sozinha, não é? — comentou o velho livreiro. Ele e o filho olharam para Maomao, mas ela tinha outras coisas em mente.
A caravana poderia ter trazido livros traduzidos do oeste. E a carga não teria sido inspecionada com muito rigor, como descobriram no incidente com os abortivos logo após a visita da caravana. Teria sido fácil conseguir um ou dois livros enquanto as damas de companhia das concubinas de alto escalão faziam suas compras.
— Então, o quê? — disse Maomao. — Alguém simplesmente encontra esse livro entre as mercadorias da caravana, compra e tenta usá-lo para derrubá-la? E a carta, então? Havia alguém de dentro envolvido?
— Não faço a menor ideia do que você está balbuciando. Você é mesmo estranha...
— Pai, seja educado.
Maomao pensou intensamente, ignorando a conversa, mas não conseguiu juntar as peças, não naquele momento.
— Me dê isto — disse ela, estendendo o livro ao livreiro.
— Dez peças de prata — resmungou o velho, olhando para os próprios pés.
— Isso é um roubo! Não é nenhum pergaminho luxuoso. A capa é horrível, cheia de erros… parece que o copista fez isso da noite para o dia! — Maomao não era ingênua a ponto de pagar o que ele pediu.
— Não, pai, não está à venda! Vamos usar isso para imprimir! — disse o filho, colocando-se entre Maomao e o pai.
— Duas peças de prata! Um meio-termo justo? — disse Maomao.
— Nove peças de prata. E meia.
— Estou dizendo, isso não está à venda!
Após cerca de trinta minutos de discussão, Maomao conseguiu o livro por seis peças de prata e deixou a loja sob o olhar ressentido do filho.
○●○
Mais um dia começava. Mais um dia em que não havia nada a fazer além de comer e dormir.
— Que tal este manto hoje, Lady Lishu? — perguntou Kanan, segurando uma roupa azul. Era uma das favoritas de Lishu, mas ela estava tão deprimida que não conseguia reunir ânimo para escolher roupas.
— Está bem. Pode ser esse — disse ela. Estava cansada demais para pedir a Kanan algo diferente. Assim que ela se trocou, Kanan foi preparar o café da manhã. A água ficava no andar abaixo do de Lishu, mas a comida era preparada em um local completamente separado. Kanan parecia fazer todo o possível para voltar rápido com as refeições de Lishu, mas elas sempre chegavam frias, e Lishu acabava tomando sopa morna.
— Vou sair um momento, então — disse Kanan. Ela deixou o quarto, e Lishu conseguia ouvir seus passos descendo as escadas. Não havia nada para fazer até que ela voltasse, mas, nos últimos dias, aqueles momentos não pareciam vazios.
— Lishu, você está aí? — perguntou uma voz vinda do quarto ao lado. Lishu, abraçando o travesseiro, foi até o outro cômodo e se sentou, encostando-se em uma cômoda. Ainda segurando o travesseiro, ela olhou para o teto. Havia um pequeno cano estranho saindo de um dos vários buracos que surgiram na madeira deteriorada. Os corredores e escadas, por onde todos passavam, eram mantidos em condições razoáveis, mas parecia que ninguém dedicava tempo para verificar cada quarto com cuidado.
— Estou aqui, Sotei — chamou Lishu. Em resposta, um aroma desceu pelo teto, ao mesmo tempo doce e amargo, bastante incomum. No começo pareceu estranho para Lishu, mas acabou se tornando reconfortante. Sem dúvida era algum perfume usado pela pessoa acima dela.
Essa pessoa era uma jovem dama, como Lishu, e, assim como ela, estava presa naquela torre por motivos além de seu controle. Ela disse que seu nome era Sotei e falou com Lishu pela primeira vez alguns dias antes. Sua voz era fraca e trêmula, mas ela conseguiu arrancar uma parte apodrecida do chão, abrir passagem pelo teto enfraquecido e enfiar aquele cano até o quarto de Lishu. Claramente era uma pessoa muito, muito mais forte que Lishu.
A concubina ficou surpresa, na verdade, aterrorizada, na primeira vez que ouviu a voz vinda de cima, mas, ao perceber que não era um rato nem um fantasma, e sim uma jovem de sua idade, se abriu para ela com uma rapidez surpreendente. Se havia algo que Lishu tinha de sobra, era tempo. Antes que percebesse, contou a Sotei seu nome, mas, para seu alívio, não houve reação especial. Talvez Sotei não soubesse quem era Lishu.
[Noelle: Essa menina não aprende né, foi presa por ser enganada por pessoas e agora confiando rapidamente em outra, a carência e a inocência prejudicando ela novamente…]
[Kessel: Apotecários(as), temos uma traidora entre nós. Prendam a herege!]
— O que será que vão servir hoje? — perguntou Sotei.
— Ontem foi mingau de cinco sabores, então espero que hoje seja frango e ovo. Queria que parassem de servir tantos frutos do mar...
Era estranho como, sem nada mais para fazer, simplesmente comer se tornava uma forma de entretenimento.
— Verdade, você não pode comer frutos do mar, né? Mas são tão bons!
— Alguns eu posso comer. Mas sempre me sinto meio estranha com isso...
Quase tão estranho para a concubina Lishu era o fato de nunca faltar assunto para falar com Sotei. Talvez fosse porque não podiam se ver.
Lishu nunca perguntou diretamente por qual razão Sotei estava na pagoda, mas, quando Lishu comentou que havia sido trancada por acusações vagas, Sotei disse de forma espontânea que estava em situação semelhante.
— Realmente não há nada para fazer por aqui, né? Tanto tempo livre e nada para preencher — disse Sotei.
— Nem me fale. Nunca fiquei tão atenta ao som de passos na vida.
— Eu sei exatamente como é! Você sabe quem deve ser, é o som da sua refeição chegando, e você reage exatamente assim!
— Que gulosa! — disse Lishu, ouvindo risadinhas em resposta. — Você tem uma audição muito boa, Sotei. Deve ter me ouvido aqui embaixo… e foi por isso que falou comigo.
Apesar da estrutura antiga, captar uma voz do andar abaixo exigiria uma audição bastante aguçada. Lishu mal ouvia o que acontecia acima dela.
— É verdade, acho que tenho uma audição bem apurada. Por exemplo, consigo dizer que alguém está subindo as escadas neste momento.
Lishu se concentrou e escutou, e de fato havia passos se aproximando. Ela tinha certeza de que era Kanan, mas os passos passaram direto por seus aposentos, continuando a subir.
— Espere um segundo — disse Sotei. Ela se afastou por um momento, e houve um barulho enquanto voltava. — Uau, isso está quente! Desculpa te dizer isso, mas hoje é mingau de frutos do mar.
— Argh. O que tem nele?
— Acho que são camarões secos. E isso aqui deve ser um pouco de carne de porco...
— Acho que consigo comer isso... — Não eram seus pratos favoritos, mas ela podia comer ou morrer de fome. Se fizesse escândalo por causa da comida, só tornaria a vida de Kanan mais difícil.
Falando em Kanan, pensou Lishu, ela estava demorando. Quanto tempo levava para trazer o café da manhã? O de Sotei já tinha chegado. Na verdade, Lishu percebeu que Kanan vinha demorando mais nos últimos dias, mas, quando ela voltava, as conversas com Sotei tinham que parar, então a concubina estava disposta a ignorar os atrasos.
Do pequeno cano no teto, Lishu podia ouvir Sotei comendo. Ela dizia não ter damas de companhia com ela, mas alguém devia ter trazido a comida rapidamente para o mingau ainda estar quente.
— Ei, Lishu, quer saber uma coisa?
— O quê?
— É sobre este andar. — Lishu estava no terceiro andar da pagoda, com Sotei acima dela, no quarto. Do lado de fora, a torre parecia ter dez andares ou mais. — Dizem que nada acima do quarto andar é usado há décadas, então está ainda mais deteriorado do que onde estamos. Você precisa passar pelos guardas para descer, mas como ninguém usa os andares de cima, não há ninguém para impedir você de subir.
— Uau sério?
— Sério. Talvez seja porque não dá para escapar dos andares superiores.
Havia janelas ao redor da torre, mas mesmo que alguém conseguisse quebrá-las e passar, ainda havia a altura a considerar. Lishu, pelo menos, não achava que conseguiria uma escada para ajudá-la a descer, nem queria tentar. Uma fuga tão chamativa nunca passaria despercebida pelos guardas.
Mas o problema maior era que, mesmo que Lishu conseguisse sair, não havia para onde ir. Ela continuava esperando que Lady Ah-Duo viesse visitá-la, mas a antiga concubina nunca tinha aparecido na torre. Ainda nem tinham se passado dez dias desde o último encontro delas, e Lishu sabia que seria infantil reclamar disso.
Também não houve nenhum contato da apotecária ou do pai de Lishu. Era fácil dizer que não fazia tanto tempo, mas cada dia que passava aumentava mais ainda a ansiedade de Lishu. Se não tivesse Sotei para conversar, ela achava que já teria enlouquecido.
— Tive uma ideia. Quer tentar ir até os andares de cima?
Aquela sugestão, naquele momento, fez o coração de Lishu disparar.
— O quê? O que você quer dizer com andares de cima?
— O guarda entre o terceiro e o quarto andar é trocado três vezes por dia. O guarda de plantão desce para chamar o próximo, e por alguns minutos não tem ninguém lá. Eles não trocam todos os guardas ao mesmo tempo, claro, então você não pode descer… mas pode subir. Eu posso fazer isso a qualquer momento. Não tem ninguém acima do quarto andar.
Ela podia subir.
— Dá para ver toda a capital lá de cima. Por que não dar uma olhada? Qual é o problema?
Lishu não respondeu imediatamente. Enquanto as palavras de Sotei desciam até ela, vinham acompanhadas daquele cheiro quase doce, quase amargo. Lishu sentiu que gostaria muito de conhecer a capital, mas, por enquanto, não deu um único passo.
— Eu tenho uma dama de companhia comigo — disse ela. — Se eu desaparecesse, ela perceberia na hora.
— Você não contou sobre mim para ela. Por quê?
Lishu achou difícil responder àquela pergunta. Uma voz vinda do teto parecia algo complicado de explicar, e ela temia que Kanan tentasse impedi-la de falar com Sotei.
[Noelle: E com razão né, você se mete em cada encrenca por conta da inocência…]
— Você está preocupada com o que ela pensaria disso? Ela, uma dama de companhia que te deixa sozinha enquanto aproveita a liberdade longe desta torre?
Um arrepio percorreu a espinha de Lishu, mas ela não pôde negar o que Sotei dizia. Lishu sabia muito bem que havia apenas uma Kanan, sua principal dama de companhia, e ela não podia ficar com Lishu o tempo todo, todos os dias. E, ainda assim, naquele exato momento, ela não estaria lá fora, aproveitando o ar livre, enquanto Lishu definhava ali?
A concubina balançou a cabeça com força, como se tentasse afastar o pensamento.
— Não é isso que ela está fazendo!
— Não. Não, claro que não. Ela é bondosa demais para te deixar aqui e simplesmente te esquecer, Lishu. — Sotei pareceu tentar suavizar o que disse, talvez por bondade para Lishu. — Eu só queria que você pudesse ver a vista daqui de cima. Queria poder compartilhar isso com você. Se mudar de ideia, é só subir aqui. Diga à sua dama de companhia para tirar meio dia de folga… isso deve ser o suficiente. Eles trocam os guardas às...
Lishu ficou olhando para o chão, ouvindo Sotei explicar os horários das trocas de guarda. Depois, Sotei saiu para limpar a refeição, retirando o cano do teto para que Kanan não percebesse.
Passos soaram novamente, e desta vez era Kanan, que entrou dizendo:
— Desculpe por deixá-la esperando por tanto tempo, Lady Lishu.
Havia suor em seu rosto, mas em algum momento ela ainda encontrou tempo para trocar de roupa, incluindo uma nova faixa.
Kanan colocou o café da manhã de Lishu sobre a mesa, e a concubina pegou a tigela, usando uma folha de lótus e começando a comer o detestável mingau de frutos do mar. Estava completamente frio, uma papa espessa que gruda na boca, densa, pegajosa e sem sabor.
[Noelle: Só eu que acho que alguém está fazendo a Kanan se atrasar?]
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