Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 6

Capítulo 15: Escândalo (Parte 3)

— Eu não consigo entender isso!

Essa foi a única avaliação que Maomao conseguiu fazer do livro no qual tinha gastado tanto dinheiro. Ela o leu duas vezes, achando que talvez tivesse perdido a parte interessante na primeira leitura. Ainda confusa, copiou o livro inteiro à mão. E foi o máximo que ela conseguiu chegar.

— Eu simplesmente não consigo entender.

Isso ia além de achar o livro interessante ou não. O problema era uma questão de emoções. Como experimento, ela mostrou o livro às cortesãs da Casa Verdigris, e imediatamente começou uma disputa entre elas para lê-lo, todas com os olhos brilhando. Elas não parecia importar que o texto estivesse cheio de caracteres incorretos, ou que partes claramente tivessem sido mal traduzidas. Ainda assim, era incrivelmente atraente para elas.

Um rapaz e uma moça de casas rivais se encontram em um banquete e se apaixonam à primeira vista. Tudo ia bem, até que o rapaz discute com alguém da família da garota e o mata. Isso só piora ainda mais a relação entre as duas famílias, mas não impede que os jovens amantes, ardendo de paixão, se casem.

Apesar da rigidez da tradução, era o comportamento dos protagonistas que realmente deixava Maomao perplexa, ambos movidos pelos impulsos da juventude. No fim da história, os dois acabam mortos por causa de um simples mal-entendido. Eles poderiam ter evitado tudo isso, pensou Maomao, se tivessem sido um pouco mais metódicos ao se manterem em contato e explicar um ao outro o que pretendiam fazer.

Mas quando ela expressou essa opinião às cortesãs maravilhadas, recebeu uma declaração efusiva com punhos cerrados por parte delas:

— Isso só mostra o quão ardente e apaixonado era o amor deles!

Outra a segurou pelos ombros e explicou:

— Está vendo? São justamente esses caprichos do destino que fazem a tragédia brilhar tão intensamente!

Maomao não entendeu absolutamente nada disso.

Então era isso que a Concubina Lishu estava copiando? Será que ela via algo de especialmente atraente nisso?

Maomao já tinha enviado uma mensagem a Jinshi sobre o livro; o texto que estava com ela agora era uma cópia que ela havia feito em uma única noite. Não tinha ilustrações, mas, amarrado com uma simples corda, lembrava um pouco um livro de verdade. Ainda assim, como teve ajuda de Chou-u, o papel não estava exatamente uniforme, e o produto final tinha, bem, digamos, personalidade.

— Eu disse que ia fazer desenhos! — reclamou Chou-u.

— Talvez da próxima vez. Só tenta cortar o papel reto, pode ser?

Ela passou todo o tempo em discussões desse tipo. Enquanto isso, por mais que esperasse, os assuntos envolvendo a Concubina Lishu não pareciam avançar. Na verdade, parecia que nada estava acontecendo.

Ainda assim, ela recebeu uma mensagem de Lahan. Ele disse que em breve teria um “encontro com o oeste” e perguntou se ela queria participar.

“O oeste” provavelmente significava a emissária de cabelos dourados, aquela que lhes apresentou a ousada escolha entre ajuda material e asilo político. Lahan e a emissária já tinham tido uma conversa, mas ele alegava que nada havia sido resolvido ainda. Maomao estava presente, mas, com toda aquela conversa de política e negócios, não pôde contribuir muito além de ocupar uma cadeira.

Por isso, ela recusou o novo convite. E se o estrategista excêntrico ouvisse falar e resolvesse aparecer? Ao que tudo indicava, ele andava ocupado ultimamente escrevendo algum tipo de livro sobre Go. Quando precisava de uma pausa, ia causar problemas no escritório médico.

Ele devia era fazer o próprio trabalho, pensou Maomao. Até lhe ocorreu que, pelo menos em tempos de paz, o trabalho da equipe dele talvez até fluísse melhor sem sua presença, mas, enquanto ele estava no escritório, Maomao sabia que estava segura, então preferia que ele ficasse por lá. Além disso, sentia pena da equipe médica, que tinha de suportar suas visitas frequentes.

— Não tenho tido nenhum trabalho de verdade ultimamente — disse Maomao com um grande suspiro. Às vezes, ela se ocupava preparando estoques dos medicamentos que usava com frequência, mas ultimamente havia poucas oportunidades de testar drogas incomuns ou criar novas fórmulas. Frequentemente precisava deixar a loja nas mãos de outros para atender tarefas que, francamente, estavam fora de sua função, e isso fazia seu ofício principal ficar estagnado. Não ajudava o fato de ainda ter que ensinar Sazen enquanto produzia a maior parte de seus remédios.

Ela só queria experimentar algo incomum de vez em quando. Criar um novo composto farmacêutico e descobrir seus efeitos. Ela já vinha utilizando os medicamentos que comprou na capital do oeste, mas isso a fazia se perguntar se não existia algo ainda mais incomum por aí, mais interessante.

Sobre o armário de remédios havia três pequenos vasos, um dos quais tinha um broto verde do tamanho de uma ponta de dedo crescendo. Ali estavam as sementes de cacto que ela havia plantado. Como vinham de um clima seco, ela não as regava muito. Ela tinha a sensação de que, quando crescessem, poderiam ter várias utilidades, mas pensar que talvez levasse anos até descobrir quais eram quase a fazia desmaiar.

Talvez eu tenha sorte e encontre um fígado de baiacu jogado por aí ou algo assim, pensou distraidamente, olhando para os vasos.

A porta bateu, e ela ergueu o olhar, perguntando-se quem seria. O visitante havia deixado algo cair aos seus pés. Algo embrulhado em tecido, parecia um galho. Maomao estendeu a mão, os olhos brilhando. Era um chifre de cervo! E não só isso, ainda estava macio. Um chifre em crescimento, não um que já tivesse calcificado e caído quando o cervo trocou por outro. Tinha quase um shaku (30 cm) de comprimento, e ela sabia exatamente o que era.

— Um chifre aveludado! — exclamou ela.

Era o chifre recém-formado de um cervo. Esse frescor, isso era o mais importante na hora de vendê-los, eram “colhidos” no início da primavera, e as pontas eram especialmente valorizadas e caras. Sim, a ponta estava presente naquele. Era bem longo, mas, pela maciez e pela penugem que o cobria, ainda devia ter bastante potência medicinal.

O brilho nos olhos de Maomao vinha acompanhado de um fio de baba escorrendo de sua boca. Vendedores ambulantes às vezes tentavam vender chifre aveludado, mas sempre em pó, e, apesar de afirmarem que vendiam “apenas produtos da mais alta qualidade”, era óbvio que outras partes além da ponta eram misturadas. Ainda assim, não faltavam clientes que, acreditando que aquilo ainda tinha propriedades medicinais, queriam uma dose antes de visitar as cortesãs. Diziam que o remédio era muito eficaz para clientes masculinos.

Imagine só quanto remédio ela poderia fazer com um chifre daquele tamanho!

[Noelle: Tadalafina natural kkkkkkk]

Primeiro vou precisar de água fervente, para matar qualquer inseto e coagular o sangue, pensou ela, olhando com carinho para seu prêmio, quando uma grande mão surgiu de lado e envolveu o tecido novamente ao redor do chifre, arrancando-o dela.

Ei, tire as mãos daí! Maomao levantou o olhar, a irritação evidente no rosto, e deu de cara com alguém que não via há muito tempo. A pessoa exibia um sorriso que poderia facilmente ser confundido com o de uma gentil ninfa celestial, mas a cicatriz que descia por sua bochecha direita deixava claro que era mais do que apenas beleza idealizada.

— Já faz um bom tempo, Mestre Jinshi — disse ela.

Já haviam se passado quase dois meses desde o retorno da capital do oeste, período em que não se viram. Eles trocaram algumas cartas, mas sempre sobre negócios, e eram sempre Basen ou algum mensageiro anônimo que levava as palavras de Jinshi ao distrito dos prazeres.

Ela achou que ele parecia um pouco mais magro que antes. Talvez ele tenha perdido peso com o calor dos últimos dias.

— Você está dormindo bem? — ela perguntou. Apesar de sua beleza extraordinária, esse nobre tinha uma tendência preocupante a trabalhar demais, e frequentemente parecia à beira do colapso.

— Essa é a primeira coisa que você me diz? E o que pensa que está fazendo com essa mão?

Jinshi olhava para a mão de Maomao com evidente exasperação. Os dedos dela se recusavam a soltar o chifre de veludo; ela segurava o pacote com firmeza e tentava puxá-lo em sua direção.

— Pensei que talvez fosse para mim, senhor.

— Foi exatamente por isso que eu trouxe.

— Então, se puder me entregar. Por favor.

— De algum jeito, acho que já não quero mais isso...

Uma sentença de morte! Maomao agarrou o tecido com as duas mãos e puxou. Jinshi ergueu o chifre acima da cabeça, provocando ela; Maomao saltou tentando alcançá-lo, mas ele era um bom shaku (30 cm) mais alto do que ela e não havia chance dela conseguir.

Filho de uma…!

Apesar do seu monólogo interior cheio de maldições, ela na verdade se sentia um pouco mais tranquila, pois esse era o mesmo tipo de recompensa que Jinshi sempre lhe oferecia.

Mas de repente ela sentiu o corpo inclinar no meio de um salto. Por um instante, ela viu o teto, até que o rosto de Jinshi apareceu acima dela. O sorriso gentil havia desaparecido; em seu lugar, um brilho duro nos olhos a atravessava como uma lâmina. Ele a derrubou enquanto ela saltava para alcançar o chifre e a segurou com a mão livre.

— Mestre Jinshi. O chifre, por favor.

De alguma forma, foi a única coisa que ela conseguiu dizer. Talvez, se dissesse qualquer outra coisa, não seria Maomao.

— Ouça o que tenho a dizer, e então eu penso no assunto.

— Por favor, troque “penso no assunto” por “vou te entregar”.

Apenas “pensar no assunto” era um compromisso muito vago quando se tratava de alguém socialmente superior a ela, e isso a preocupava. Ela não queria uma oferta da qual ele pudesse se retratar a qualquer momento; ela queria uma garantia.

— Está bem... eu te entrego, mas ouça o que tenho a dizer.

— Se tudo o que preciso fazer é ouvir, então tudo bem.

Ele estreitou os olhos para ela, mas não protestou o que ela interpretou (um tanto unilateralmente) como concordância.

— Já que estamos nisso, posso pedir que me solte? — disse ela.

— Recuso.

Sem chance. Então ela teria que ouvi-lo naquela posição inclinada, com as costas apoiadas no joelho dele. Ela pensou em pedir ajuda, mas a porta e as janelas estavam fechadas. E, mesmo que estivessem abertas, os outros moradores da Casa Verdigris provavelmente teriam apenas ficado olhando com um sorriso, então talvez não fizesse diferença.

Talvez Chou-u apareça, pensou Maomao com esperança, mas seu adorável pestinha estava fora naquele dia, aprendendo a desenhar com o professor. Ukyou ou Sazen, quem estivesse livre o levou e depois o buscaria. O fato da madame permitir isso era prova de que ela acreditava que, no futuro, os desenhos de Chou-u poderiam ser úteis.

Jinshi continuava olhando para Maomao com a expressão de uma fera prestes a morder, mas ao menos foi direto ao ponto:

— Está pronta para aceitar... o que eu propus?

Para ser justa, ele nunca tinha proposto nada diretamente. Mas nem mesmo Maomao era tão burra a ponto de não entender a que ele se referia. Na noite do banquete na capital do oeste, Jinshi lhe revelou o verdadeiro motivo de tê-la levado. Bem, não exatamente em palavras claras, mas era correto entender que ele queria se casar com ela.

A vida não era como nas histórias, na vida real não era preciso estar perdidamente apaixonado por alguém para se casar com essa pessoa. Pessoas poderosas frequentemente se casavam como parte de jogos de poder; e até mesmo plebeus podiam fazê-lo por necessidade, como um agricultor que precisava de mais mãos no campo. Se ambos ganhassem algo com a união ou ao menos se um agradasse ao outro, não era necessário que os dois estivessem apaixonados. Desde que não fosse algo completamente desagradável, talvez o melhor fosse aceitar.

Embora ele tenha gostos estranhos...

Certamente Jinshi poderia escolher entre inúmeras mulheres nobres e belas. Quem escolheria uma erva daninha como a azedinha quando estava cercado de peônias e rosas? Devia haver alguém mais adequado para ele do que Maomao.

Como a Concubina Lishu! Claro, ela estava atualmente sob suspeita de infidelidade e mantida sob vigilância, mas, desde que Jinshi soubesse que ela era inocente, onde estaria o problema? As pessoas diriam o que quisessem, por mais cruel que fosse, mas Jinshi certamente não era do tipo que acreditaria nisso.

Ainda assim, ali estava ele, insistindo mais uma vez em sua investida, o próximo ato daquele pequeno drama entre eles. Ela esperava desesperadamente que ele não a estrangulasse de novo. Desta vez, ele poderia ir até o fim.

— Você me odeia tanto assim? — perguntou ele, agora com uma expressão menos de cão selvagem e mais de filhote. Amor, ódio: algumas pessoas queriam que o mundo fosse tão preto e branco. Por que ele não lhe dava a opção de uma zona cinzenta?

— Acho que não odeio você exatamente — disse ela. Talvez até tivesse uma impressão favorável dele. Certamente o via de forma mais positiva do que quando se conheceram.

Jinshi franziu os lábios, claramente insatisfeito com a resposta evasiva. Talvez ele esperasse que ela dissesse diretamente que o amava, mas, sinceramente, Maomao ainda não conseguia pronunciar essas palavras. No máximo, ela podia admitir que nutria certo afeto por ele.

Em vez disso, ela disse:

— O fungo da lagarta me deixou muito feliz.

— É só isso que você vai dizer?

— Além disso, os bezoares de boi foram muito úteis.

— E o que mais?

— E eu quero aquele chifre aveludado.

Ela estendeu a mão para o embrulho, que Jinshi havia escondido atrás das costas, mas ele pressionou a palma contra o abdômen dela, impedindo que ela se levantasse. Sem conseguir alcançá-lo, ela começou a chutar as pernas de frustração e, dessa vez, ele segurou seu tornozelo. Ela ainda tentava entender o que ele pretendia quando ele passou a ponta do dedo mínimo pelo dorso do pé dela.

— Ngh?! — Maomao engasgou, se contorcendo. Os inúmeros experimentos que ela conduziu ao longo da vida a tornaram pouco sensível à dor, e a convivência com suas irmãs mais velhas a deixou praticamente imune a questões de natureza sexual, mas até Maomao tinha pontos fracos. O dorso do pé, assim como suas costas, era completamente vulnerável a um toque leve.

— M-Mestre Jinshi... Isso... não é... justo!

— Justo? Não sei do que você está falando — disse ele, enquanto seus dedos deslizavam novamente. Como ele sabia disso? Quando aquele segredo veio à tona? Por que Jinshi conhecia o ponto fraco de Maomao?

— Me solta. V-Você é indecente.

— Você parece ser a única preocupada com isso.

Ela odiava aquela indiferença fingida. Sério, como ele sabia disso? Poucas pessoas conheciam essa vulnerabilidade dela. A madame, Pairin, e...

Então ela se lembrou da dama de companhia sempre controlada, já em sua maturidade, e seus olhos se arregalaram. Suiren já a tinha punido uma vez fazendo cócegas nela com um espanador, mas tinha sido só uma brincadeira, e parou imediatamente; Maomao não achava que tivesse revelado o quanto aquele ponto era sensível.

E pensar que Suiren descobriu isso com um único momento, ela era realmente assustadora.

As cócegas agora desciam pelo pé dela; Maomao rangeu os dentes e se contorceu, pressionando os lábios para não emitir nenhum som. Mas não conseguiu completamente.

Os dedos longos deslizaram até o arco do pé, arrancando um movimento brusco dela, e então foram para o outro calcanhar. As cócegas continuavam se movendo antes que ela pudesse se acostumar a qualquer ponto, dedos, peito do pé, tornozelo, até a panturrilha.

Jinshi olhava para ela de cima, sorrindo, completamente no controle da situação. Ele parecia apreciar a visão de Maomao se debatendo como um peixe, apesar de seus esforços para se conter. Em tom provocador, ele tocou novamente o peito do pé dela, que já estava arqueado como um arco.

Ela nunca imaginou que ele fosse se vingar daquela forma. Por fim, incapaz de conter-se, o riso escapou. O livro sobre a mesa que Maomao estava copiando caiu no chão. Talvez percebendo que tinha ido longe demais, Jinshi finalmente a soltou.

Maomao recuperou o fôlego, ajeitou o manto e enxugou as lágrimas que se acumularam em seus olhos. Ao vê-la assim, Jinshi engoliu em seco; ele parecia em conflito e evitava encará-la. Em vez disso, seu olhar pousou no livro, que ele apanhou.

— Você já leu isso, Mestre Jinshi?

— Já.

— O que achou?

Havia um sorriso irônico no rosto de Jinshi, ele parecia sentir exatamente o mesmo que Maomao sobre o livro. Ele entendia perfeitamente o que significava, para alguém de origem nobre, agir guiado por impulsos românticos. Se não entendesse, ele não teria conseguido trabalhar no palácio interno por tantos anos.

— Acho que devia haver outra forma.

— Falar assim faria você ser desprezado por todas as mulheres do mundo.

— Exceto por você, suponho.

A impulsividade da juventude gerava paixões ardentes, e um amor que terminava em tragédia era considerado belo justamente por isso. O texto dizia que a jovem da história tinha treze anos, mas, sendo uma tradução do oeste, isso provavelmente equivaleria a quatorze ou quinze no sistema de Li, onde se envelhece no início de cada ano. Ainda assim, ela era jovem, jovem o bastante para ser dominada pelas emoções, o que tornava difícil descartar a história por completo.

Maomao jamais teria feito algo assim, naquela idade, ela já estava completamente moldada pela lógica do distrito dos prazeres. E Jinshi já estaria estabelecido no palácio interno. Ambos passaram aquela fase mais impressionável em ambientes que, à sua maneira, eram bastante semelhantes.

— Fico pensando se eu seria capaz de algo assim, se tivesse crescido em outro lugar — disse Jinshi, e Maomao percebeu que ele falava com sinceridade. Ela não podia negar que era possível. Mas, no fim, não passava de uma hipótese.

Em vez de responder, ela murmurou: — Eu não quero ser inimiga. — Jinshi lançou-lhe um olhar de rabo de olho, como se perguntasse a quem ela se referia. — Da Imperatriz Gyokuyou — disse ela.

Será que Jinshi entenderia o que ela estava dizendo? Se não, tudo bem, pensou Maomao. Havia coisas que nem mesmo ele sabia.

— Você…

Ele parecia prestes a perguntar-lhe outra coisa quando um cavalo relinchou lá fora. Ouviu-se o som de passos apressados e, em seguida, alguém gritou: — Mestre Jinka! — Era um nome que ele já havia usado antes ao visitar o distrito dos prazeres.

Jinshi franziu o cenho, perguntando-se o que era desta vez, e abriu a porta. Um homem estava ali, ofegante, um dos servos que frequentemente acompanhavam Jinshi e Basen. — Perdoe-me, senhor! — disse ele, ajoelhando-se rapidamente antes de se aproximar um pouco mais. Ele olhou ao redor, como se não quisesse que Maomao ouvisse o que ele tinha a dizer. — É sobre o assunto da flor branca.

— Então ela é mais do que bem-vinda para ouvir sobre isso — disse Jinshi.

Maomao inclinou a cabeça, confusa com o código, mas o servo logo esclareceu:

— A Concubina Lishu fugiu de seu quarto na torre e está no andar mais alto — disse ele, com o rosto tomado pelo horror.

○●○

Vamos fazer uma rápida viagem ao passado.

 

Um aroma agridoce pairava no quarto. Lishu estava sentada em um canto, abraçada a si mesma, envolta num cobertor.

— Não tem um cheiro estranho aqui ultimamente? — perguntou Kanan mas Lishu balançou a cabeça negativamente. O cano não estava mais saindo do teto; Sotei, com quem ela conversava até instantes antes, havia se retirado ao ouvir os passos de Kanan. Kanan examinou o teto deteriorado e disse que chamaria alguém para consertá-lo, mas Lishu insistiu para que não fizesse. Ela não queria estranhos entrando no quarto e, além disso, o lugar inteiro estava em ruínas; consertar aquele ponto não mudaria nada. Felizmente, Kanan cedeu.

— Lady Lishu, sua refeição está pronta. — Lishu ouviu o barulho da bandeja sendo colocada sobre a mesa, mas ela sabia que era apenas mingau frio e sopa. Às vezes, a porção de acompanhamento também era miserável. No começo, ela até esperava por aquela comida simples, mas ultimamente já não se importava. Ela forçava-se a comer metade, porque Kanan estava observando, mas até isso era difícil. Talvez fosse por passar todos os dias trancada naquele quarto, com ainda menos coisas para fazer do que tinha no palácio interno.

— Não fique encolhida no canto. Venha para onde há luz — disse Kanan. Mas não havia luz ali. Havia uma janela no outro cômodo que dava para o corredor,  o que era, sem dúvida, um pouquinho melhor do que o quarto em que Lishu se encontrava naquele momento, mas era só isso. Ela podia sair e andar de uma escada à outra, mas isso não significava muita coisa.

Lishu levantou-se com dificuldade. O cansaço era esmagador. Ela se arrastou até a cadeira e mergulhou a colher no mingau viscoso. Hoje estava sem tempero, com apenas uma pitada de sal quase imperceptível. Ela pensou que um pouco de vinagre preto poderia ajudar, mas não havia nenhum.

— Me desculpe, milady. Devo ter esquecido — disse Kanan, inclinando-se profundamente. O pedido de desculpas parecia sincero, mas Lishu não pôde deixar de notar que ela usava um manto diferente do que usava antes. Quanto tempo Lishu levou, desde que chegou aqui, para perceber que Kanan trocava de roupa toda vez que ia buscar a comida dela? O novo manto tinha aparência e estampa semelhantes ao antigo, como se Kanan esperasse que Lishu não percebesse a diferença.

Mas cada vez mais, Lishu desconfiava dela. Lishu estava nessa situação por causa de um livro que uma criada lhe deu para copiar. Suspeitava fortemente que sua antiga chefe das damas de companhia estivesse por trás disso. Ambas as pessoas em quem ela antes acreditava estarem a servindo fielmente.

A própria Kanan já havia feito parte do grupo de damas que zombavam de Lishu, mas mudou de opinião depois que alguém tentou envenená-la durante uma festa no jardim. E era verdade que, desde então, ela passou a tratar sua senhora com muito mais gentileza, a ponto de Lishu insistir para que Kanan se tornasse sua dama-de-companhia-chefe, e não apenas uma provadora de comida.

Mas será que Kanan realmente fez tudo isso para o bem de Lishu? Quando assumiu o cargo de chefe das damas de companhia Kanan tinha autoridade mínima; as outras damas de companhia muitas vezes simplesmente a ignoravam. Ela persistiu e deu o melhor de si, porém, ou pelo menos era o que Lishu acreditava. Mas será que isso era verdade? Será que ela não fingia ser compreensiva, apenas para voltar e relatar o que ouvia em segredo para entreter as outras?

Não podia ser verdade, podia? Se fosse, ela nunca teria seguido Lishu até esta torre.

Ela tentou desesperadamente afastar esses pensamentos, mas eles não a deixavam em paz. Em vez de balançar a cabeça, levou a colher à boca… e mordeu algo duro.

Ela cuspiu no lenço, encontrando arroz, vestígios de sangue e uma pedrinha do tamanho da ponta do dedo.

— Lady Lishu! — disse Kanan, preocupada. Talvez alguma areia tivesse entrado na comida por acidente, mas aquilo era grande demais para ser um grão de areia.

Incapaz de focar os olhos, Lishu mexeu o mingau com a colher. Duas, três, quatro… havia pedrinhas demais no fundo da tigela para descartar como um acidente.

— Vou buscar outra tigela agora mesmo! — disse Kanan, tentando pegar o mingau, mas Lishu a impediu.

— Eu não quero mais isso.

Ela não tinha apetite. Não queria engolir mais aquele mingau frio e repulsivo.

— Lady Lishu...

— Eu não quero! Eu não quero! Eu não quero!

Lishu sacudiu a cabeça freneticamente e varreu a comida da mesa. A tigela e a bandeja caíram com estrondo, espalhando sopa e acompanhamentos por todo lado. Ela puxou os cabelos, o nariz começou a escorrer, e então começou a chorar, de forma desesperada.

— Por quê?! Por que é sempre comigo?!

Desprezada pelo pai, atormentada pela meia-irmã, enviada duas vezes ao palácio interno como uma ferramenta política. Tudo isso tinha sido horrível, mas ela suportou. Ela pensou que talvez, se ficasse quieta e fizesse o que mandavam, seu pai pudesse ser gentil com ela. Essa esperança se desfez com os rumores de que ela era uma filha ilegítima. Descobriu-se que ela era, sim, sangue do pai, mas a atitude dele não mudou nem um pouco. Isso mesmo, aquilo o corroía. Ele não suportava o fato de vir de um ramo secundário, enquanto a mãe de Lishu era da família principal. Era por isso que ele lhe enviava apenas as damas de companhia mais cruéis. Talvez ele estivesse por trás de todos os problemas que ela sofreu até agora.

Lishu não tinha nascido para ser uma concubina de alto escalão, mas ali estava ela, e precisava ou se erguer e se deixar comparar com as outras concubinas, ou tentar se encolher até se tornar invisível. Essas eram suas únicas opções. Na festa do jardim, seu pai nem sequer tentou falar com ela.

Se ele não a queria, então por que a teve? Ele se divertia vendo Lishu sofrer naquele limbo? Talvez todos se divertissem. Seu pai, sua meia-irmã, suas damas de companhia, a criada, Kanan, todos... Todos eles…

[Kessel: Muito triste ler isso tudo. Tenho muita dó da Lishu. Espero de verdade que a Natsu dê um futuro melhor para ela.]

Com um sobressalto, Lishu percebeu que tudo ao seu redor estava um caos. A tigela de mingau estava quebrada, a mesa virada, e sua cadeira no chão. Tudo que não estava preso estava espalhado pelo piso, e Kanan estava em um canto, escondendo o rosto com as mãos cobertas de grãos de arroz. Um prato jazia despedaçado aos pés dela. Lishu tinha jogado aquilo nela? Havia uma fina linha vermelha na bochecha de Kanan, e sua expressão, ao tentar avaliar Lishu, era de puro terror.

O sangue de Lishu gelou. Ela nunca teve a intenção de fazer aquilo. Ainda assim, era a única que poderia ter virado o quarto daquele jeito. Sua mente ficou em branco, e ela começou a suar intensamente.

— Vá...

— Lady Lishu...

— Saia daqui, por favor. E não volte! — Ela bateu na parede com força, bateu os pés e gritou. Ela não queria fazer aquilo. Mas era a única coisa que conseguia sair da sua boca.

— Sinto muito — disse Kanan. — Vou me trocar… — Ela olhou com tristeza para o quarto revirado e então saiu.

Quando os passos de Kanan desapareceram, Lishu se deixou cair no chão. Seus olhos, ao encarar o teto, estavam turvos de lágrimas. Ela não queria fazer aquilo, então por que fez? Sentiu como se precisasse atacar alguém, antes que fosse atacada de novo, e, na ansiedade, descontou em Kanan.

O rosto de Lishu devia estar um desastre. Ela queria chorar convulsivamente, mas, se começasse a chorar, alguém poderia aparecer. Em vez disso, abraçou os joelhos com força.

Lishu? Lishu! — veio a voz do cômodo ao lado. O cano atravessava o teto, e Sotei falava com ela. Com aqueles ouvidos, ela devia ter escutado toda a conversa humilhante. — O que está acontecendo? Parece que sua dama de companhia foi embora.

— Não é nada — disse Lishu, voltando a se sentar junto à cômoda. O cheiro agridoce a acalmava, e a voz abafada de Sotei suavizou sua ansiedade.

Ela se perguntou quem era Sotei.

Tive uma ideia, Lishu.

— Qual é, Sotei?

Vão trocar a guarda em breve. Que tal você subir aqui?

Sua voz era doce, agradável. Em qualquer outro momento, Lishu teria hesitado, indecisa, e então recusado. Mas agora... agora ela não tinha forças para isso. Ela não tinha motivos para recusar a sugestão de Sotei.

 

Lishu encostou o ouvido na porta e prestou atenção aos passos. Ela ouviu os passos descendo do andar de cima, passando por ela e continuaram descendo. Ouviu o próprio coração bater, tão alto que teve medo de que o guarda que passava percebesse. Ela tentou conter a respiração. Não era como se o guarda fosse achar estranho ouvir um som naquele momento, mas o que Lishu estava prestes a fazer a deixava em absoluto estado de ansiedade.

Ela ouviu os passos chegarem ao fim da escada; ouviu uma porta abrir e fechar. Tentando acalmar o coração acelerado, Lishu saiu pela porta.

Ela deu um passo lento no corredor. Segurava os sapatos na mão para não fazer barulho. Subiu as escadas, degrau por degrau, e abriu a porta, bem devagar, para não emitir nenhum som.

O andar acima estava ainda mais deteriorado que o onde Lishu vivia. Pelo menos seus aposentos eram varridos, mas aquele nível parecia tomado pela poeira. Ela calçou os sapatos e olhou ao redor. Havia vários quartos ali, mas apenas um tinha a porta entreaberta. Ainda lutando contra o coração disparado, Lishu bateu na porta.

— Sotei?

Não houve resposta. Lishu já ia se virar, achando que era o quarto errado, quando algo a envolveu por trás.

— Ha ha! Bem-vinda à minha humilde morada. — A voz de uma jovem, agora sem som abafado, soou em seu ouvido. A mão que a segurava era delicada e pálida, com veias azuladas. — Nem imagina há quanto tempo estou esperando. — Ela tinha aquele mesmo cheiro único, doce e amargo ao mesmo tempo. O mesmo que vinha flutuando até Lishu através do teto.

— Sotei? — perguntou Lishu novamente, sentindo arrepios na nuca. Sotei parecia apoiar o queixo na cabeça de Lishu, e algo fazia cócegas em sua nuca. Era um feixe branco, fios de seda finíssimos. Talvez uma espécie de adorno.

— Sua pele é tão bonita, Lishu. Uma cor saudável, mas não queimada de sol. — A ponta do dedo de Sotei deslizou pela bochecha de Lishu. — E esse cabelo preto lindo. Você tem alguém que se importa o suficiente para penteá-lo por você, mesmo num lugar como este. Que inveja! Ah, mas que comilona bagunceira, hein? Tem um grão de arroz aqui.

Seus dedos delicados retiraram o grão preso no cabelo de Lishu, devagar, quase como se o raspassem, e então o deixaram cair no chão. Em alguns pontos, seus dedos estavam vermelhos, pareciam queimaduras que estavam apenas começando a cicatrizar.

— Sinto tanta pena de você — disse Sotei. — Sua mãe morreu quando você ainda era um bebê, você foi usada como ferramenta política praticamente desde que aprendeu a andar. Rejeitada pela família, ridicularizada pelas próprias damas de companhia...

Sim! Sim, aquela era a história de Lishu.

— É realmente uma tragédia. Ninguém te entende. Por que será que você é sempre a vítima?

A voz suave e o aroma envolveram Lishu. Ela sentia o calor daquele corpo pálido. Já fazia tanto tempo desde que alguém esteve tão perto dela. Sentia como se pudesse simplesmente derreter.

— Todos são horríveis com você. Você é tão doce e gentil, e tudo o que fazem é te intimidar e transformar sua vida em um pesadelo.

Lishu, quase se dissolvendo naquele cheiro adocicado, assentiu às palavras de Sotei. Sim, era isso mesmo. Estavam sempre implicando com ela. Ignorando-a. Usando-a.

O que Lishu fez de errado?

Por tanto tempo agora...

Por tanto tempo...

Uma pergunta incompleta surgiu na mente confusa de Lishu. Quando, ela se perguntou, tinha contado a Sotei sobre seu pai?

— Todos te deixam sozinha para comer comida fria em um quarto sombrio. Inacreditável.

Quando ela tinha mencionado que a comida estava fria? A dúvida surgiu, mas ela não conseguia pensar direito. Sentiu, porém, o abraço de Sotei afrouxar, e conseguiu se virar, finalmente encarando alguém que até então conhecia apenas como uma voz.

— O quê? Por que está me olhando assim? Tem algo no meu rosto?

A garota sorridente diante de Lishu tinha uma aparência que ela nunca tinha visto antes. Era bonita, à sua maneira. O corpo lembrava um pêssego, os lábios cheios e vermelhos como cerejas. Mas a pele parecia... sem cor. As pessoas do oeste tinham pele clara, mas aquilo era muito, muito mais pálido. Lishu nunca conseguiria deixar a própria pele tão branca, não importava quanto pó aplicasse. O cabelo de Sotei também lembrava o de uma idosa. Era aquele cabelo que Lishu tinha tomado por um adorno, fios que caíam retos pelas costas.

— Eu pareço estranha para você? — perguntou Sotei. Suas sobrancelhas, franzindo-se lentamente, também eram brancas. E seus olhos... eram vermelhos como rubis.

No caminho até a capital do oeste, Lishu ouviu rumores de que havia uma mulher como uma imortal dos mitos, causando confusão em cada região e manipulando os poderosos da capital na palma da mão.

— É você. A Dama Branca...

— Então você sabe de mim. Isso nos torna iguais, não é? — Sotei enrolou o cabelo de Lishu no dedo. — Porque eu também sei sobre você. Só não imaginei que acabaríamos no mesmo lugar. — Ela sorriu, então puxou o cabelo de Lishu. — Esse cabelo preto... tenho inveja dele!

Lishu não conseguiu falar.

— E sua pele saudável! Você pode sair ao sol e ela não inflama nem queima.

Ainda assim, Lishu permaneceu em silêncio.

— Eu não suporto nem a luz de uma janela. Você reclamava da escuridão, Lishu? Da penumbra? Aqueles cantos sombrios são os únicos onde eu consigo sobreviver!

Os olhos de Sotei se estreitaram, fixos em Lishu.

— Tenho algo para te dizer. Todo o tormento que você sofreu? Você não pode culpar ninguém por isso. É tudo culpa sua! — Dedos finos dançaram pela bochecha de Lishu, ásperos, arranhando sua pele. — Você nunca precisou passar fome quando era pequena, e vestiu todas aquelas roupas bonitas sem questionar. Mas você só fica sentada sem fazer nada, não é, Lishu? Devia saber que, se não pode se proteger, vai virar um alvo.

Agora os dedos beliscavam sua bochecha, cravando-se na pele, até as unhas deixarem marcas.

— Dá nojo só de olhar para você. — Uma expressão de profundo desprezo tomou o rosto de Sotei, tão brutal quanto suas palavras. Lishu se encolheu. — É repugnante só ver você aí.

O olhar frio de Sotei fez o coração de Lishu falhar uma batida. Lembrava tantos olhares que já viu antes. O do pai, o da meia-irmã, o das damas...

Os dentes de Lishu começaram a bater. Sentia como se fosse ser sugada por aqueles olhos vermelhos. Acima dela, ouviu algo se arrastando, como insetos. Soava como as vozes das criadas e servos, espalhando histórias sobre ela e a condenando pelas costas.

— Não... Pare… — Lishu balançou a cabeça; levou a mão à bochecha, que devia estar marcada de arranhões, e olhou para Sotei com medo.

Os lábios de Sotei se torceram.

— Repugnante... É como olhar para o meu antigo eu.

Lishu já não tinha esperança de entender o que Sotei dizia. Começou a correr, desesperada para sair dali. Ela disparou pelo corredor em ruínas, e subiu as escadas. Como Sotei disse, a porta para o andar seguinte não estava trancada. Lishu continuou correndo, cada vez mais alto. Perdeu a conta de quantos andares subiu. A barra de seu manto estava imunda, e o rangido do assoalho se tornava ensurdecedor.

Ela viu uma porta diferente das outras. Para começar, tinha uma fechadura, mas estava apodrecida. Lishu segurou a maçaneta. A porta era pesada, mas ela a abriu e se deparou com um céu cinzento e pesado. Sem dúvida, os governantes do passado, olhando toda a capital daquele ponto com uma taça de vinho na mão, acreditavam que sua glória duraria para sempre.

Era uma varanda, embora devastada pelo tempo. Lishu deu um passo cauteloso e sentiu a madeira ceder sob seus pés.

Normalmente, ela estaria paralisada de medo, mas agora ela avançava, um passo vacilante de cada vez. O corrimão estava igualmente deteriorado; toda a pintura tinha descascado. O vento soprava, chicoteando seu rosto e bagunçando seu cabelo.

Lishu via os pássaros voando. Eles pareciam tão livres. Ela estendeu a mão em direção a eles, mas, claro, não podia alcançá-los.

Ela olhou para a própria mão, que agarrava o vazio do céu.


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