Volume 6
Capítulo 13: Escândalo (Parte 1)
Alguns dias depois, Sazen procurou ela com uma história inquietante. Ele surgiu na loja, com o rosto tenso, dizendo que queria conversar. Maomao se perguntou sobre o que ele poderia querer falar, mas acabou sendo nada menos que sobre a Concubina Lishu.
— Se uma concubina do palácio interno estivesse se encontrando em segredo com um homem, ela seria condenada à morte?
A pergunta surgiu completamente do nada, e Maomao só conseguiu soltar um confuso:
— Hã?
Sazen pareceu considerar a reação dela vagamente ofensiva; ele bateu o pé no chão e disse:
— Seria ou não seria? Eu sou um caipira ignorante; só me responde!
O olhar dele era penetrante. Maomao percebeu que sua reação não tinha sido das melhores. Ela sabia que Sazen já tinha servido ao clã Shi e, embora não tivesse lealdade aos antigos senhores, ela suspeitava que ele ainda tinha algum apego por Loulan.
— Acho que, em casos de infidelidade, isso seria meio inevitável, não? Uma dama comum do palácio é uma coisa, mas você está falando de uma concubina. Mas por que está falando disso? O que aconteceu para surgir esse assunto?
Sazen cerrou os lábios e evitou encará-la.
— Ouvi isso no mercado... dizem que o Imperador está se preparando para subjugar outro clã.
— Será que é por acaso o clã U?
— Não faço ideia. Mas ouvi dizer que é por causa de uma concubina de alto escalão que tem só dezesseis anos.
Maomao não disse nada, mas teve vontade de levar as mãos à cabeça. Se até Sazen tinha ouvido falar disso, então provavelmente todo mundo na capital já sabia. Ela tinha sido clara em seu relatório ao afirmar que a Concubina Lishu era inocente. Qualquer que fosse o plano da antiga dama de companhia-chefe da concubina, Maomao tentou dizer a si mesma que não daria em muita coisa. Mas parecia que ela estava errada.
Normalmente, ela enviaria uma carta para Jinshi e esperaria que ele resolvesse, mas agora não havia tempo.
— Ei, ei! — Sazen gritou quando ela se levantou de um pulo.
— Vou precisar que você cuide da loja por um tempo.
— O quê? De novo?!
Maomao saiu apressada em direção ao lado norte da capital. Era lá que ficava o palácio, junto com todo um distrito de residências de alto padrão. Uma delas era uma das vilas de Sua Majestade, onde morava Ah-Duo, ela própria era uma concubina de alto escalão.
— Lady Ah-Duo está? — perguntou Maomao ao guarda, embora soubesse que ele não simplesmente a deixaria entrar.
— A senhorita tem um agendamento oficial? — perguntou o guarda. O fato dele falar com tanta educação com uma simples apotecária, e que, aliás, não estava particularmente bem vestida, provavelmente era porque ele se lembrava de Maomao de outras visitas. Mas isso não seria suficiente para deixá-la entrar.
— Receio que não, senhor, mas eu preciso muito falar com Lady Ah-Duo.
— Desculpe, regras são regras. Não posso simplesmente deixar você entrar — disse o guarda, parecendo genuinamente arrependido.
Por um instante, Maomao pensou em forçar a passagem enquanto ele estava distraído com a própria culpa, mas sabia muito bem que isso só terminaria com ela presa.
— Ao menos poderia levar um recado meu para ela?
— Receio que ela não esteja aqui no momento...
Maomao fez uma careta, como se tivesse mordido algo extremamente amargo. Se era para simplesmente voltar para casa, então nem deveria ter vindo.
Será que a Suirei está aqui? Pensou ela, mas logo descartou a ideia. Suirei não deveria sequer existir oficialmente. Ela não encontraria Maomao sozinha e, mesmo que encontrasse, provavelmente não tinha autoridade para convocar Ah-Duo.
— Eu poderia esperar aqui? — perguntou Maomao, decidida a ficar ali até Ah-Duo voltar.
Cerca de uma hora depois uma carruagem chegou à vila. O guarda teve a gentileza de avisar Maomao, que estava sentada à sombra de uma árvore. Ela se levantou em um salto e correu até o veículo; o rosto de Ah-Duo apareceu na janela.
— Ora, que surpresa. Sempre achei que você fosse mais sensata do que isso — disse Ah-Duo. E era verdade: alguns anos antes, Maomao provavelmente não iria até Ah-Duo dessa maneira. Ela teria considerado que o palácio tinha seus próprios meios de manter o equilíbrio e que o Imperador parecia especialmente cuidadoso com Lishu, de modo que nada muito grave aconteceria com ela.
Mas naquele momento, em sua imaginação, a imagem de Lishu se sobrepunha com a senhora do clã Shi, que havia sido aniquilado. Talvez fosse isso que a tivesse deixado tão comovida com a situação.
— Vamos conversar lá dentro — disse Ah-Duo. — Tenho certeza de que você deve estar com sede depois de esperar tanto tempo nesse calor.
— Obrigada, milady — disse Maomao, curvando-se profundamente, antes de entrarem na vila.
— Então já há rumores no mercado. As notícias se espalharam mais rápido do que eu esperava.
Ah-Duo se sentou com as pernas e os braços cruzados. Em qualquer outra pessoa, a postura pareceria autoritária, mas nela soava estranhamente natural, nada ofensiva. Uma dama de companhia serviu chá, mas desapareceu tão discretamente que Maomao mal percebeu. Ela tinha achado que, ao menos, Suirei estaria presente, mas não havia sinal dela.
Hesitante, ela disse:
— Posso entender, pelo seu tom, milady, que os rumores são verdadeiros?
— O que é verdade é que, no momento, ela está confinada em um pavilhão separado — respondeu Ah-Duo. A concubina não estava sendo tratada exatamente como uma criminosa, mas, na prática, estava sob prisão.
— A senhora conseguiu falar com a Concubina Lishu?
— Consegui. Ela insiste que não escreveu nenhuma carta de amor, mas, ao mesmo tempo — acrescentou Ah-Duo — a carta em questão claramente foi escrita por ela.
Isso fez Maomao hesitar.
— Essas coisas não se contradizem?
— Não. Parece que o texto foi copiado de um romance.
Então é isso. Os romances que as mulheres do palácio tanto adoravam eram cheios de histórias de amor, trechos que, isoladamente, poderiam muito bem parecer cartas românticas.
— A concubina ficou bastante chocada. Ela disse que estava copiando a história para uma mulher do palácio com quem tinha feito amizade recentemente.
Maomao baixou o olhar. Lishu acreditava que, pouco a pouco, estava conquistando aliados.
Uma mulher que não sabia ler provavelmente era de baixa posição. Ao copiar a história, Lishu tentava, à sua maneira meio desajeitada, fazer amizade. Copiar um texto podia parecer algo simples, mas exigia tempo e esforço, e, como Lishu fazia isso sem pedir nada em troca, ela provavelmente acreditava que isso fortaleceria o vínculo entre elas. Ela deve ter ficado muito feliz com a ideia.
Apenas para acabar sendo traída, pensou Maomao. Ou será que a outra mulher se aproximou dela já com essa intenção? De qualquer forma, era algo bem traiçoeiro.
— Não seria possível apresentar uma cópia do livro original que foi utilizado?
— O problema é que… todos os livros que entram no palácio interno passam pela censura, que mantém uma cópia arquivada de referência. Mas nenhum deles corresponde a esse texto.
— Quer dizer que não passou pela censura?
— Exatamente. Alguém o contrabandeou para dentro.
Bom... isso era um problema. Ainda assim, algo incomodava Maomao.
— O que aconteceu com a mulher que pediu para a concubina copiar o livro? Onde ela está? E, aliás, como uma mulher que não sabe ler conseguiu um livro que nem passou pela censura?
— Suponho que ela já foi embora. — disse Ah-Duo. Enquanto a Concubina Lishu estava em viagem, cerca de cem mulheres encerraram seu período de serviço e deixaram o palácio interno. Essa mulher misteriosa era uma delas.
— E depois que ela partiu?
— Nós a procuramos, claro. Mas nunca a encontramos. Ela nem era oficialmente serva da concubina. Parece que elas se aproximaram quando ela fazia pequenos trabalhos a pedido da concubina. Mesmo que a encontrássemos, ela poderia simplesmente fingir que não sabia de nada. Ela pode ter feito tudo já pensando no fim do contrato.
Se isso tivesse sido premeditado, seria difícil para a mulher ter agido sozinha. Maomao tentou organizar o que sabia. Mas uma coisa era certa: se uma concubina de alto escalão como Lishu começasse a se aproximar de uma serva de baixa posição, suas rivais não ficariam em silêncio, especialmente sua antiga dama de companhia-chefe.
Então, uma serva prestes a deixar o serviço se aproximou de Lishu e pediu que ela copiasse um texto romântico de um livro. Um livro que não tinha passado pela censura. Algo que uma criada analfabeta jamais teria normalmente.
— Estou pensando que outra pessoa usou a criada para convencer a concubina a copiar o trecho. O que acha, Lady Ah-Duo? — perguntou Maomao. Ela não gostava de trabalhar baseando-se inteiramente em suas próprias suposições, ela esperava que Ah-Duo pudesse corroborar sua intuição.
— Concordo — disse Ah-Duo mas logo acrescentou — A dama da concubina afirmou que encontrou a “carta” no quarto dela, mas na verdade ela foi encontrada em outro lugar, em algum lugar fora do palácio interno.
— Será que ela realmente foi enviada a algum nobre em algum lugar?
Se ainda estivesse nos aposentos de Lishu, seria fácil dizer que ela pretendia enviá-la ao Imperador: problema resolvido. Mas, estando nas mãos de outro homem, ficava difícil negar a acusação de infidelidade.
— Infelizmente, sim. É por isso que se trata de um escândalo tão grande e que ela está presa agora. O homem em questão é filho de um servo, alguém que encontrou a concubina várias vezes ao longo da vida. Ele nega qualquer envolvimento, mas a carta foi encontrada na casa dele.
O homem podia alegar inocência o quanto quisesse; encontrar provas como aquelas em sua própria propriedade era bastante comprometedor. Aparentemente a antiga dama de companhia-chefe alegava que havia algo entre esse homem e a concubina desde que ela voltou do convento ao palácio interno, e insistiu para que ele fosse investigado. Ela deixou a Concubina Lishu completamente encurralada.
Mas isso não faz sentido!
— Como ela teria enviado a carta? Achei que a censura verificasse tudo, até correspondências enviadas para a família — disse Maomao. Por isso, certa vez, alguém tentou usar substâncias químicas nos bastões de madeira como código, e por que as cartas da Imperatriz Gyokuyou para sua família eram tão enigmáticas ao transmitir as informações que continham.
— A carta estava dobrada bem pequena. Deve ter sido escondida entre alguns itens enviados para casa, para o rapaz pegá-la primeiro.
Não era impossível. Mas algo ainda parecia errado.
Talvez Maomao estivesse tão confusa porque estava ouvindo tudo de Ah-Duo. O que ela realmente queria era ouvir diretamente das pessoas envolvidas.
— Acha que alguém poderia conseguir para mim uma conversa com a Concubina Lishu, ou até com esse jovem? — ela perguntou.
Exatamente naquele momento, alguém bateu à porta, e um servo apareceu, hesitante.
— O que foi? — perguntou Ah-Duo, e o servo olhou para Maomao, como se não soubesse o que fazer.
— O Mestre Basen está aqui procurando pela Lady Maomao. — Era como se ele estivesse esperando o momento certo para falar.
Basen ofereceu apenas um cumprimento superficial a Ah-Duo antes de arrastar Maomao dali.
— Se me permite perguntar, senhor, o que exatamente você pensa que está fazendo? — questionou Maomao.
Basen tinha vindo a cavalo, recusando até mesmo em usar uma carruagem, e os dois chamavam atenção por onde passavam pela cidade, com Maomao agarrada atrás dele. Pelo menos ela tinha um pano para cobrir o rosto.
— Você ouviu sobre a Concubina Lishu? — ele disse.
— Sim...
— Então você já deve ter percebido. Você deve ter algum jeito de provar a inocência dela.
Maomao achava que entendia o que Basen queria dizer, mas algo ainda a incomodava.
— Eu mesmo não posso encontrá-la. Disseram para eu procurar alguém que fosse no meu lugar — ele explicou.
Uma mulher sob suspeita de infidelidade realmente teria dificuldade em se encontrar com um homem, isso era verdade. Por mais que Basen tivesse sido praticamente um salvador para ela, Maomao decidiu provocar aquele homem cabeça-dura.
— Disseram? Foi o Jinshi? — perguntou ela.
— Eu... estou usando meu próprio julgamento.
— Ah, entendi.
Sim, havia algo que incomodava Maomao, mas, como ela não queria irritar a pessoa que controlava o cavalo, ela guardou aquilo para si por enquanto.
A Concubina Lishu havia sido transferida do pavilhão onde estava alguns dias antes. O edifício era semelhante ao que ela tinha no palácio interno, o que mostrava que ela ainda era tratada de acordo com sua posição, mas agora ela havia sido levada para a parte oeste da cidade, e sua nova residência era menos um palácio e mais uma torre.
Parecia algo como uma pagoda que se veria em um templo, só que em escala maior, com seis andares e vários telhados sobrepostos. Embora faltasse um pouco de cor, isso só a tornava ainda mais imponente. A impressão era reforçada pelo círculo de árvores gigantes ao redor do lugar. Era, sem dúvida, uma construção impressionante, mas um alojamento bastante inadequado para uma concubina real. Os homens robustos que montavam guarda na entrada não tornavam o lugar mais convidativo.
[Kessel: Lembram da pagoda do capítulo 2? Aquele edifício de onde a noiva flutuante “se jogou” para fingir a sua morte.]
— Na época da imperatriz reinante, um cortesão poderoso que se voltou contra ela foi trazido para cá sob o pretexto de uma doença incurável — explicou Basen a Maomao. — Disseram que o trouxeram para tentar um novo tratamento. Foi para este mesmo lugar que os irmãos do antigo imperador foram levados quando contraíram a doença que os matou. Todos encontraram seu fim nesta torre.
Então este lugar tem um passado. Maomao quase disse isso em voz alta, mas se conteve. A história triste tirava toda a imponência do lugar, transformando-o em nada mais do que uma prisão sombria. Será que foi a Sua Majestade quem ordenou isso? Ela se perguntou. Maomao sempre acreditou que, à sua maneira, ele tinha certa parcialidade por Lishu.
— Se conseguirmos encontrar uma forma de derrubar as provas contra ela, ela pode sair daqui — disse Basen. Ou seja, ele queria que Maomao falasse com a concubina e descobrisse a verdade.
Para a sorte dele, Maomao queria exatamente a mesma coisa.
Ainda assim, havia uma coisa que ela precisava confirmar primeiro. Ela afastou o pano do rosto para encará-lo diretamente.
— Vou fazer o que você pede, Mestre Basen, porque também discordo do tratamento dado à Concubina Lishu.
Maomao sentia compaixão de vez em quando. No início, ela achou que Lishu não passava de uma princesinha desagradável, mas ao ver a jovem sofrer infortúnios repetidamente, acabou desenvolvendo certa simpatia por ela. Certamente ninguém poderia culpar Maomao por tentar fazer alguma coisinha para ajudar a concubina. No palácio interno, Maomao servia à então Concubina Gyokuyou, então não podia defender Lishu abertamente, mas agora isso já não era um problema.
Mas e quanto a Basen?
— Então estamos fazendo isso não por ordem do Mestre Jinshi, mas por decisão sua? — ela perguntou.
— Sim.
— E o que motiva esse comportamento, senhor?
Era a pergunta óbvia. Tão óbvia, na verdade, que ela não tinha conseguido fazê-la, embora estivesse em sua mente.
— Quem não gostaria de ajudar uma concubina inocente em apuros? — respondeu Basen.
— E como você sabe que ela é inocente? — disse Maomao, sem rodeios.
Lishu e Basen tinham acabado de se conhecer na viagem recente. Eles se viram no banquete, sim, mas não tiveram chance de conversar. Fora isso, mal tiveram oportunidade de se ver durante o trajeto, a única vez em que ficaram frente a frente foi durante o ataque do leão. Mesmo assim, mal haviam trocado palavras; na maior parte do tempo, Basen limitou-se a bombardear Maomao com perguntas sobre Lishu. E agora ele estava agindo para ajudar aquela jovem sem nenhuma ordem oficial, por conta própria. Por quê?
Eu preferia que ele não estivesse fazendo isso.
Existiam pessoas no mundo que faziam algo extremamente problemático: se apaixonavam à primeira vista. Ignoravam completamente personalidade e posição social, deixando o amor surgir apenas pela aparência de uma pessoa. Maomao tinha certeza: naquele momento, Basen estava sendo guiado exatamente por esse tipo de sentimento irritante.
É verdade que ela sabia que ele se deixava levar pelas emoções de vez em quando, mas, na maior parte do tempo, Basen estava bem ciente de seu papel como assistente de Jinshi. E agir por conta própria para provar a inocência de Lishu definitivamente não fazia parte desse papel.
Diante disso, Maomao quis deixar algo bem claro:
— Mesmo que consigamos provar a inocência da concubina, o melhor que você pode esperar é que ela volte ao palácio interno.
— Sim... eu sei disso.
Ela era uma flor que florescia em um pico alto demais para ele alcançar em toda a sua vida. Será que reconhecer isso seria suficiente para fazê-lo desistir?
— Se você está sendo sincero, então tudo bem. — Ainda havia muitas coisas que Maomao gostaria de dizer, mas decidiu parar por ali. Ela não tinha mais vontade do que qualquer outra pessoa de se envolver nesse tipo de assunto.
Isso acontecia às vezes com clientes: eles se apaixonavam perdidamente por uma cortesã à primeira vista, passavam a frequentar o bordel constantemente, gastando cada moeda que tinham com ela. Mas, quando o dinheiro acabava, o amor também desaparecia. E os homens que não entendiam isso começavam a culpar a cortesã, ridicularizá-la, às vezes até ficavam furiosos e tentavam matá-la.
Há poucas coisas mais perturbadoras do que um homem rindo alto em um quarto ensanguentado.
Se iam se apaixonar por uma mulher que escondia as olheiras com maquiagem, marcas de noites sem dormir entretendo clientes, o mínimo seria que fossem fiéis a esse sentimento. Se não percebiam no que estavam se metendo, a culpa era deles por entregarem o coração com tanta facilidade.
Maomao olhou para Basen, implorando em silêncio para que ele não fosse um desses homens.
— Eu sei — disse Basen, mais para si mesmo do que para ela. As palavras soaram pesadas em sua boca, e Maomao continuou a encará-lo com severidade enquanto entravam na prisão.
— A senhora está bem, milady? — perguntou Maomao à Concubina Lishu, embora soubesse que era impossível que estivesse. Ao entrarem na torre, receberam uma plaquinha de madeira com o horário escrito e foram informados de que poderiam falar com Lishu até o próximo toque do sino.
A construção era peculiar: uma escada e corredores rodeavam o exterior, enquanto o interior era dividido inteiramente em quartos individuais. Os aposentos de Lishu ocupavam dois cômodos simples e conectados no terceiro andar. Maomao se perguntou se havia alguém nos andares superiores, mas aparentemente não.
Lishu assentiu, o rosto pálido. Sua principal dama de companhia estava ao lado, mas, pelo que Maomao podia ver, não havia outras criadas. O quarto era bem equipado para uma cela de prisioneira, mas, para alguém da nobreza, devia ser profundamente humilhante.
Será que muitas pessoas enlouqueceram e morreram nesta sala? Maomao pensou nisso, mas sabia que não deveria dizer em voz alta, isso só faria o rosto de Lishu perder ainda mais cor. Em vez disso, ela perguntou:
— Posso saber se sua menstruação já veio?
— Sim... finalmente — disse Lishu, olhando para o chão, envergonhada. Isso não significava necessariamente que ela se sentia melhor fisicamente, mas oferecia o consolo de que não teria de se submeter a mais exames por parte de ninguém, sob o pretexto de que o trabalho de Maomao era suspeito. Pelo menos, demonstrava de forma conclusiva que ela não estava grávida.
— Poderia me dizer que tipo de relação você tem com o homem que estava com a carta?
— Não é uma carta. É só algo que eu copiei — respondeu a concubina. Maomao preferiu interpretar isso como uma negação de qualquer envolvimento com o homem, por mais vaga que a resposta pudesse ter sido. — Ele é filho de um servo. Tudo o que ele fez foi cuidar de mim algumas vezes quando eu era pequena. A última vez que o vi foi na mansão, quando voltei do convento. Minha ama disse que ele tinha se tornado um homem sério e maduro.
Nada disso que Lishi falava parecia ser mentira, e Maomao estava inclinada a acreditar na concubina.
— Eu nunca enviei cartas para ele e a única razão pela qual mandei alguma coisa para casa foi porque enviaram um presente a Sua Majestade, e ele achou que devíamos enviar algo em troca. Eu, pessoalmente, não lhes enviaria nada. O mais próximo que chego de receber uma carta deles é quando meu pai me passa alguma notícia por meio da minha ama.
A ironia era que a situação deixou Lishu muito mais falante do que o normal. Mas sempre que seus olhos dela encontravam os de Maomao, ela desviava o olhar. Isso era típico dela, então Maomao não se incomodou.
— Ouvi dizer que a carta estava escondida entre uma entrega destinada à sua família. Você acha isso possível? — perguntou ela.
— É impossível dizer — respondeu, não Lishu, mas sua dama de companhia. — A maior parte do que Lady Lishu envia à família são presentes de Sua Majestade. Alguém da casa dela deve buscá-los assim que o palácio interno termina o processamento.
Não havia regra sobre quem deveria buscá-los, mas parecia que era o filho do servo. Em outras palavras, nada podia ser provado, mas também nada podia ser descartado. Se a antiga chefe das damas de companhia queria desacreditá-la, era natural investigar isso.
— E não há sinal de que a antiga chefe das damas tenha enviado algo para alguém? — perguntou Maomao. Mas tanto Lishu quanto sua atual chefe de damas balançaram a cabeça negativamente.
— Eu sei, pelo menos, ela não enviou nada depois que eu escrevi aquela cópia — disse Lishu. Se a antiga chefe das damas, tão autoritária, não tinha enviado nada, então suas subordinadas também não poderiam ter feito isso. De qualquer forma, havia registros dessas coisas no palácio interno, então seria fácil verificar. Como, então, a cópia escrita à mão por Lishu foi parar na casa do jovem?
— Ela afirma que essa “carta” foi colocada junto com a remessa, mas estou com dificuldade de imaginar como ela foi parar lá dentro — disse Maomao. Não seria possível embrulhar nada com aquele papel. Talvez tivesse sido colocado entre o material de proteção usado para evitar que os objetos quebrassem?
— Aparentemente, estava bem enrolado, quase como uma corda. O papel que vimos estava muito sujo e bastante rasgado — respondeu a chefe das damas.
— Entendo...
Isso tornava tudo muito mais fácil para o culpado. Mesmo que a pessoa errada encontrasse a carta, não saberia o que havia dentro; pensaria que era apenas um pedaço de corda e a trataria como tal. E se a jogasse fora? Seria simples recuperá-la depois. Na verdade, qualquer pessoa da casa da Concubina Lishu poderia fazer isso sem levantar suspeitas.
— Algo mudou depois que você escreveu aquele texto?
A concubina e sua dama de companhia principal trocaram um olhar. Ambas inclinaram a cabeça com ar interrogativo, como se dissessem: bem, sim e não. Elas não conseguiam se lembrar direito.
Supondo, por uma questão de argumentação, que a antiga chefe das damas fosse mesmo a culpada (as evidências parecem apontar nessa direção), ainda assim seria difícil executar tudo isso sozinha. Ela devia ter um cúmplice fora do palácio interno. Como os dois se comunicaram?
Podemos pensar nisso depois, disse Maomao a si mesma. O tempo estava acabando, e havia outra coisa que ela queria perguntar.
— Só mais uma coisa — disse ela, tirando um pedaço de papel e um estojo portátil de escrita. — Sobre aquele romance que a criada pediu para você copiar. Pode escrever tudo o que lembrar sobre ele?
Ela começou imediatamente a preparar a tinta.
○●○
— Não gostaria de um pouco de chá, Lady Lishu? — perguntou a chefe das damas da concubina, Kanan. Como já vinha perguntando. Como continuava perguntando. Mas Lishu balançou a cabeça. Ela não tinha nada para fazer além de beber chá, mas sentia que, se bebesse mais, seu estômago ficaria embrulhado.
Kanan era a única dama de companhia ali com Lishu. Uma só era suficiente, dadas as circunstâncias; mas o mais humilhante era que ninguém tinha dito explicitamente que ela não poderia trazer as outras. Apenas Kanan tinha se disposto a acompanhá-la até ali.
Lishu começava a achar que finalmente estava se aproximando um pouco das outras damas, mas aquilo aparentemente não passava de uma ilusão. Especialmente no caso da criada para quem ela havia copiado um romance porque a garota não sabia ler, e por causa disso agora Lishu era tratada como criminosa. Era o suficiente para fazê-la querer chorar, mas chorar só tornaria tudo mais difícil para Kanan, a única pessoa que permaneceu ao seu lado.
Ali, em sua torre, Lishu não tinha distrações, nem sequer janelas; não havia forma de passar o tempo. Suas únicas opções eram comer ou dormir. Quase nenhuma luz entrava no quarto, de modo que, mesmo durante o dia, era necessário acender velas para enxergar. A penumbra constante só piorava sua tristeza.
As únicas pessoas que tinham ido visitá-la foram a apotecária, aquela que já havia servido no palácio interno, e seu pai, Uryuu, uma única vez. Lishu foi enviada para a torre logo depois que Ah-Duo chegou, então não esperava ver a ex-concubina tão cedo. Quanto ao pai, a única pergunta dele foi:
— Então você realmente não fez aquela estupidez?
— Não, senhor — respondeu Lishu, com a voz fraca. Foi tudo o que ela conseguiu dizer.
A apotecária havia provado que Uryuu era de fato seu pai, mas rancores acumulados por tanto tempo não desapareciam de uma hora para outra, como nas peças de teatro. Talvez ele finalmente acreditasse que ela era sua filha, mas ele também tinha outros filhos. Ele rejeitou a mãe dela; por que de repente demonstraria afeto pela filha que teve com ela? Lishu sempre soube que nada mudaria, mas ainda assim doía encarar a realidade.
— Vou guardar isso, milady — disse Kanan, recolhendo o serviço de chá e saindo do quarto. Não havia água nos aposentos de Lishu, então qualquer limpeza precisava ser feita em um andar inferior. Kanan tinha certa liberdade para se locomover, mas Lishu precisava permanecer no terceiro andar. Se ela descesse, seria apenas com permissão do seu guarda.
Lishu suspirou e se deitou sobre a mesa. O prédio antigo rangia e estalava a cada movimento. Os andares superiores pareciam estar em condições ainda piores, e às vezes ela temia que o teto simplesmente desabasse um dia.
Parecia haver mais alguém preso ali além dela. Como a escada ficava do lado de fora do edifício, para chegar aos andares superiores era preciso passar pelos quartos inferiores, e várias vezes por dia alguém, que não era Lishu nem Kanan, subia as escadas. Kanan disse que essa pessoa carregava comida ou roupas, então devia haver alguém lá em cima na mesma situação que Lishu.
Mas ela não tinha como descobrir quem era, e, mesmo que tivesse, talvez fosse melhor não saber.
Sem mais nada para fazer, Lishu pensou em tentar dormir um pouco, mas então ouviu um barulho vindo de cima. Olhou para o teto, surpresa. Era um prédio antigo; devia haver ratos por ali. Mas qualquer um ficaria apreensivo em um quarto escuro e silencioso. Lishu ficou tão assustada que pensou em sair um pouco para o corredor.
Tum, tum, tum. Ratos não fazem barulhos assim. Lishu ainda estava com medo, mas agora também sentia uma estranha curiosidade. Os sons pareciam vir do quarto ao lado, no andar de cima, então ela pegou a colcha da cama, colocou sobre a cabeça e espiou cautelosamente pela porta.
— V-Você é só um ratinho, né? Faz “chii”!
Era um pedido ridículo. Antes, quando Lishu ainda não percebia o desprezo das suas damas de companhia, ela costumava agir com arrogância diante das criadas que iam ao seu pavilhão, fazendo exatamente esse tipo de exigência infantil. Disseram a ela que precisava se impor diante dessas pessoas para que soubessem seu lugar, e ela acreditou nisso sem questionar. Não era de se estranhar que as criadas não gostassem dela; ela não sabia fazer nada sozinha e ainda ficava dando ordens.
O som abafado cessou, mas, no instante em que Lishu soltava um suspiro de alívio, ouviu-se um estrondo enorme, acompanhado pelo tilintar de algo quebrando. Assustada, ela caiu sentada no chão.
E então ouviu algo muito além de um simples guincho.
— Olá? — disse uma voz. — Tem alguém aí?
[Kessel: Convocamos aqui, de forma oficial, as apotecárias e os apotecários que se alistarão no Grande Exército de Proteção a Lishu, GEPL. Deixe sua assinatura abaixo para confirmar o alistamento e vamos as trincheiras, senhoras e senhores! Ninguém vai derrubar a nossa Concubina Virtuosa assim não!]
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