Volume 5
Epílogo
Realmente está frio, pensou Maomao. Ela tinha um xale leve sobre os ombros, mas ainda assim tremia. Definitivamente se arrependia de não ter tomado mais uma taça de vinho.
Teria sido mais quente dentro do prédio, mas, sinceramente, havia problemas demais ali. Ela se preocupava com o que aconteceria com o leão agora que seu nariz estava quebrado, mas não se sentia compassiva o suficiente para ajudar o grande felino correndo o risco de ser devorada. Sim, o leão era apenas um pobre animal enjaulado e colocado em exibição, mas mesmo assim havia atacado alguém. Lahan, no entanto, achava que seria um desperdício não tentar consertar a criatura, e tentou convencer Maomao a fazer o trabalho. Ao que parecia, ele via a fera desgrenhada como mais uma bela coleção de números, e não parava de falar sobre como o nariz quebrado arruinava aquela beleza. Foi aí que ela escapou para fora.
O céu parecia tão vasto. Não havia lua, o que fazia as estrelas brilharem ainda mais. Três delas brilhavam mais que todas, formando um triângulo no firmamento. Talvez aquelas estrelas fossem os dois amantes, e o rio que os separava.
Queria que resolvessem logo tudo lá dentro. Maomao estava pensando se haveria uma maneira de voltar furtivamente para a mansão de Gyokuen quando ouviu passos atrás dela.
— Seu estimado primo está procurando por você.
— Não há problema algum em simplesmente ignorá-lo. — Então Maomao não tinha sido a única a fugir do tumulto. — Você não tem mais trabalho para fazer? — ela perguntou. Tudo bem, Basen havia roubado a cena quando o leão atacou, mas certamente aquele homem ainda podia ser útil.
— Está esperando que eu morra de tanto trabalhar?
— Nem pensar.
Jinshi, que de fato havia escapado de suas responsabilidades, não pareceu acreditar muito na sinceridade dela. O banco de madeira rangeu suavemente quando ele se sentou ao lado dela. Então colocou algo entre os dois. Parecia um pedaço de metal.
— Basen estava certo — disse Jinshi. — Era fraco. Ferro de boa qualidade teria resistido melhor. Havia várias maneiras de fundir ferro, e, se fosse feito incorretamente, o interior podia ficar oco, enfraquecendo a estrutura. — É quase como se alguém quisesse que quebrasse.
— Uma ideia inquietante.
Havia algo que também incomodava Maomao: a forma como o leão foi direto na Concubina Lishu, como se a estivesse mirando especificamente nela. Parecia que ele ignorou Maomao em favor da concubina.
Só porque estava faminto? Pensou ela. Era uma possibilidade. Talvez porque ela segurava carne. Outra possibilidade. Mas Maomao não conseguia parar de pensar no perfume com que a concubina estava impregnada. Algo tão forte certamente seria perceptível para um animal selvagem. E se fosse isso que tivesse atraído a atenção do leão? Maomao ficou ali, pensando em silêncio.
— Ei, não fica quieta assim — disse Jinshi depois de um momento.
Ele já devia saber muito bem que Maomao raramente iniciava uma conversa. Por que tinha decidido se sentar ao lado dela, afinal? Já devia parar de enrolar e voltar ao trabalho.
— Imagino que você esteja desejando que eu volte a trabalhar — disse Jinshi.
— Eu, senhor? Nunca.
Às vezes ele sabia o que ela estava pensando; esse era o problema. Maomao precisou se esforçar para não deixar o rosto se contorcer em uma careta.
— Se eu voltar, duas coisas podem acontecer. Ou eu vou ter que trabalhar, ou vou ser cercado por mulheres.
— Homens menos populares poderiam pedir sua cabeça por ouvir você reclamar disso.
Homens que tinham dinheiro, status e beleza eram simplesmente diferentes. Numa noite sem lua como aquela, ele devia tomar mais cuidado.
— O que elas realmente querem é o sangue imperial, não acha? — disse Jinshi. Ou seja, seus filhos, ela supôs. Ou talvez sua própria vida.
— Acho que pelo menos metade disso é pela sua aparência, senhor.
— Não diga isso. — Jinshi franziu a testa como se tivesse engolido um inseto particularmente desagradável. Por algum motivo, mesmo possuindo uma beleza que superava praticamente qualquer pessoa que Maomao já tinha visto, ele parecia ter algum tipo de complexo de inferioridade em relação a isso. Seus dedos tocaram a cicatriz na bochecha. Aquela marca em sua beleza era lamentada por todos, mas seria impressão dela, ou ele quase parecia gostar dela?
Maomao, honestamente, não se incomodava com a cicatriz. Nenhum humano era perfeito. E a aparência de Jinshi era tão impecável que escondia o que havia por dentro. O que havia de errado com essa pequena alteração? Além disso, podia ser uma cicatriz, mas foi seu pai quem a suturou, e, naturalmente, fez um excelente trabalho. Cada vez que Maomao aplicava pomada ou maquiagem na bochecha de Jinshi, o que não era raro, sentia a marca se tornar menos evidente sob seus dedos.
— Eu preferiria dizer que meu rosto foi queimado e continuar usando aquela maquiagem — disse Jinshi.
— Com o tempo, a cor deixaria de sair, senhor. Mas, se o senhor quer uma queimadura, posso ajudar. — Ela poderia usá-lo como cobaia para seus remédios contra queimaduras ao mesmo tempo.
— Pare com isso. — Depois de vinte dias usando a maquiagem, ainda era possível ver um leve tom avermelhado na bochecha de Jinshi; ele vinha usando um pouco de pó branco para disfarçar. — Se eu realmente me queimasse, acho que Gaoshun entraria em colapso. Mas admito que, de certo modo, seria mais fácil. A maquiagem é um tanto incômoda. Ainda assim, tenho me sentido bastante relaxado durante esta viagem.
Ele parecia se referir ao fato de que nenhuma garota da cidade se aproximaria voluntariamente de um homem sombrio com o rosto queimado; e, ao mesmo tempo, estava livre de seu trabalho habitual. Enquanto isso, Maomao sentia que não tinha feito nada além de observar a paisagem pela janela da carruagem enquanto ficava cada vez mais com o traseiro dolorido. Só de pensar na viagem de volta já ficava desanimada.
— Gostaria de treinar mais sua equitação? Sei que está cansada da carruagem — disse ele.
— Sim, mas eu preferia apenas uma cama de verdade. — Ela tinha trabalhado nisso durante a viagem. O problema era que raramente tinha a chance de usá-la, já que outras pessoas, muito satisfeitas com seu trabalho, sempre acabavam deitadas nela.
— Ah! Sim, espero que consiga deixá-la ainda mais confortável do que antes.
Uma pontada de irritação percorreu Maomao. Jinshi era o maior culpado por roubar seu lugar de dormir. Ele cavalgava o quanto queria e, quando se cansava, vinha se jogar ali. Não era à toa que achava a viagem relaxante!
— Sua Majestade me disse para tentar aproveitar esta viagem — disse Jinshi, com um leve sorriso torto. — E fazer uma boa escolha.
Que escolha era essa não foi dito em voz alta: ele se referia à escolha de uma noiva. Muitas mulheres haviam sido reunidas ali exatamente para isso. Qualquer decisão envolveria política. Poderia afetar até o governo do país. Ele poderia fortalecer laços com um país vizinho ou ganhar apoio de uma facção interna. O próprio status de Jinshi poderia mudar dependendo do que decidisse. O fato de Sei-i-shu ter cedido o local para tudo aquilo deixava a mensagem clara: alinhe-se ao oeste. Isso provavelmente também explicava por que Uryuu trouxe sua outra filha.
Quem será que ele vai escolher? Pensou Maomao. Não que isso realmente importasse para ela. Era apenas uma simples apotecária. Pelo menos era assim que ela via.
Mal registrou algo roçando seus dedos quando uma mão segurou seu pulso. Ele a puxou até que suas mãos ficassem palma com palma, os dedos entrelaçados. A outra mão era bem maior que a dela, e mais áspera. Dedos longos apertaram sua mão, impedindo-a de escapar.
— Talvez o senhor pudesse ser tão gentil a ponto de me soltar?
— Mas, se eu soltar, você não vai fugir?
— O senhor pretende fazer algo de que eu precise fugir?
— Você às vezes me faz ter vontade de te bater. — Jinshi olhou para Maomao como um animal selvagem caçando sua presa. Sua expressão a fez pensar em um cão faminto. Não era o rosto do eunuco Jinshi, nem do irmão mais novo do Imperador. Era alguém diferente.
— Não no rosto. Seria muito óbvio.
— Eu não ia realmente te bater.
— Eu sei, senhor.
Jinshi não era do tipo que levantaria a mão contra uma jovem. Não, espere, na verdade, era sim, para fazê-las vomitar quando tomava veneno.
— Sei que o senhor não faria nada pior do que me imobilizar e me forçar a esvaziar o estômago.
— Você pediu por isso. Por que diabos você beberia veneno?!
— Não sei bem como responder isso.
A experiência em primeira mão era muito mais marcante do que apenas perguntar. Só isso. Maomao não era mais inteligente que a média, apenas um pouco mais... dedicada. E, quando se tratava de emoção, ela até tinha menos do que a maioria. Sentia tristeza e felicidade, raiva e alegria, menos intensamente do que as pessoas comuns, mas estavam ali. Mas havia outras emoções que as pessoas supostamente possuíam e que Maomao ainda não compreendia.
Ela podia sentir o pulso de Jinshi na palma da mão dele. Ele começava a suar, e o ponto onde suas mãos se tocavam estava úmido. Ela ergueu o olhar e viu longos cílios sobre os olhos da cor de obsidiana. Aqueles olhos a observavam intensamente, tão de perto que ela podia se ver refletida neles.
As cortesãs tinham um ditado: uma vez que você conhece, é o inferno. Mas os homens também tinham um: era justamente para conhecer que eles iam até lá. Aquela palavra, simples, de quatro letras, às vezes considerada vulgar, às vezes apenas um jogo, mas alguns diziam que era impossível viver sem ela.
A mão livre de Jinshi foi até a cabeça de Maomao, seus dedos acariciando seu cabelo, mas pararam atrás de sua cabeça. — Você está mesmo usando isso — disse ele. Sua mão encontrou o enfeite de cabelo, a peça de prata com a lua e a papoula. Maomao pensou que talvez tivesse vindo de Lahan, mas aparentemente não. Não era à toa que todos tinham ficado tão intrigados com aquilo.
— Ah, então foi o senhor, Mestre Jinshi? A lua é bonita, mas a papoula é uma escolha bem questionável. — Ela pensava na Dama Branca. A flor no enfeite parecia uma versão maior da papoula comum, mas tecnicamente era uma papoula do ópio. Podia ser usada para produzir a droga.
— Por favor. Mandei fazer isso antes de partirmos nesta viagem. Para substituir o outro. — A voz dele veio de cima dela, seu queixo apoiado em sua cabeça. Seus dedos brincavam com seu cabelo, e ela sentia sua respiração. Qualquer pessoa que os visse poderia facilmente pensar que estavam em um abraço íntimo.
— Mestre Jinshi, por favor, mantenha distância.
— E por que eu faria isso?
— O que o senhor fará se alguém nos vir?
Eles não deviam ser os únicos a terem escapado do banquete. As árvores os protegiam da visão, mas não havia garantia de que alguém não passaria por ali. Jinshi, mais do que ninguém, sabia exatamente o motivo daquele banquete.
— Senhor, a Concubina Lishu não é sua sobrinha. O senhor não precisa se preocupar com proximidade de sangue — disse Maomao com calma. O rosto de Jinshi, porém, se fechou ainda mais. Maomao continuou: — Ela não seria a escolha mais segura?
Ela esqueceria completamente o momento em que viu Lishu e Basen trocando olhares. Sim, fingiria que nunca aconteceu. Mesmo que algo viesse a florescer entre eles, não teria significado. Era melhor agir como se nunca tivesse existido.
— A escolha segura? Nem pensar!
A voz de Jinshi em seu ouvido era como uma lâmina fria. Seus dedos pararam de deslizar pelo cabelo dela e desceram até a nuca, envolvendo-se ao redor de sua garganta. Dedos longos e finos que começaram a pressionar.
— Está doendo...
— Ah, é?
Eu já te disse que dói. No entanto, o aperto de Jinshi só ficou mais forte. Ele pegou a outra mão, com os dedos ainda entrelaçados aos de Maomao, e a torceu para trás das costas dela. Esse idiota vai deslocar meu braço.

Com a garganta comprimida e o braço torcido, o rosto de Maomao se contorceu de dor. Ela inclinou a cabeça para trás na esperança de conseguir puxar um pouco de ar, a boca abrindo e fechando como a de um peixe. Ela devia estar com a aparência ridícula, e lá estava Jinshi, olhando para ela de cima.
Até que, finalmente…
Maomao inspirou avidamente o ar que lhe era oferecido. O aroma das flores lhe fez cócegas nas narinas. Maomao pensou que o hálito de uma ninfa celestial teria cheiro de pêssego, mas era jasmim. Seus lábios finos estavam quentes e um pouco secos.
A mão que a havia estrangulado se moveu para sustentar a parte de trás de sua cabeça, enquanto a outra se soltava de seus dedos e passava a envolver sua cintura.
A mão que havia apertado seu pescoço agora segurava a nuca dela; a outra mão a puxava pela cintura. Ela não soube dizer quanto tempo ficaram assim. Talvez ele pensasse que sua respiração circulava por todo o corpo dela; ele olhou para Maomao com uma expressão um tanto vitoriosa. Enxugou as lágrimas do rosto de Maomao, que brotaram enquanto ela lutava para respirar.
Foi então que Maomao sentiu um lampejo de raiva intensa. — Eu disse que, se fosse me matar, devia fazer isso com veneno — disse ela.
— Eu me recuso a deixar você se envenenar — respondeu Jinshi, os dedos traçando os lábios dela. — Você não pode fingir que não sabia que era uma das candidatas. Por mais que eu tenha certeza de que você gostaria. — Ele não tinha terminado: — Afinal, quem era aquele homem? Tenho certeza de que você não é dançarina.
Então ele estava observando eles!
— Eu só estava pagando pela minha bebida — disse Maomao. — Não foi caro. — Ela tentou desviar o olhar, mas com a mão dele segurando sua cabeça, era impossível. Maomao pensava rápido, tentando encontrar qualquer saída para aquela situação. — Exatamente para que você achava que eu poderia ser útil?
— Lahan acompanhou você, não foi? É isso que todos os outros vão ver.
Maomao entendeu onde Jinshi queria chegar. Talvez fosse até mesmo o que Lahan estivesse contando desde o início. Ela sentiu a raiva novamente; teria que esmagar bem os dedos dos pés dele mais tarde.
A família La era única entre os clãs renomados por não ter nenhuma facção na corte. Dava para argumentar que isso fazia de Maomao uma escolha segura, à sua maneira, como Rikuson havia dito. Havia apenas um problema.
— Você faria de você-sabe-quem um inimigo.
Ela se referia ao esquisito do monóculo, claro. Só de imaginar o que teria acontecido se ele estivesse ali. Teria feito um escândalo tão grande que um leão solto pareceria brincadeira de criança em comparação.
Jinshi estremeceu (como não estremeceria?), mas logo passou.
— Nós íamos continuar isso mais tarde, não íamos?
Mais uma vez, Maomao foi contida e pressionada contra o banco, amassando seu penteado. Ela sentiu algo além da respiração dele entrar em sua boca, vindo de seus lábios. Ela olhou de perto em seus olhos de obsidiana bestiais. Brilhavam mais que qualquer estrela; contudo, também eram opacos. Este homem deveria viver uma vida de luxo, sem privações; no entanto, ocasionalmente, havia uma fome por algo que ele tentava saciar.
Por que ele não escolhe outra pessoa?
Tinha que haver alguém capaz de dar a Jinshi o que ele buscava. Certamente havia muitas que queriam isso. Por que ele precisava se dar ao trabalho de escolher alguém que não tinha exatamente esse desejo?
Ela queria fugir. Aquilo só traria mais problemas, mais incertezas. Queria desviar de tudo isso, mas aqueles olhos, olhos de um cão indomado, não a deixariam escapar. Ele iria devorá-la, tudo em busca de algo que nem estava ali. Maomao só conseguia encará-lo de volta com olhos vazios, como os de uma marionete ou boneca.
Isso parecia apenas agitar ainda mais a ansiedade do cão; ele apoiou todo o seu peso sobre Maomao como se fosse esmagá-la. Então agora ele quer me sufocar, pensou ela. Ele devia pesar o dobro dela. Ela sabia que as cortesãs às vezes atendiam clientes três vezes maiores do que elas. Será que não doía? Mas mesmo que doesse, o que sua irmã Pairin, uma profissional entre profissionais, acharia de uma reclamação dessas?
— Você não pode deixar ele tomar a iniciativa só porque ele é o cliente. — Maomao lembrou-se de tê-la ouvido dizer isso uma vez, um conselho acompanhado de um gesto insinuante. Foi quando ela ensinava a Maomao o ofício de cortesã (muito contra a vontade da mais jovem).
Maomao não disse nada. Sinceramente, talvez fosse melhor permanecer imóvel e silenciosa, como uma boneca. Ou talvez não. O que se pode dizer é o seguinte: lembrar de Pairin significava lembrar das técnicas que ela havia ensinado, que havia incutido nela apesar de seus protestos; havia levado Maomao quase às lágrimas, até que ela conseguisse executá-las à satisfação da irmã. Até que aquelas técnicas se tornaram não apenas uma resposta, mas uma reação instintiva. Portanto, que fique claro que Maomao não poderia ser responsabilizada pelo que estava prestes a fazer. O que isso significa? Significa...
Maomao engoliu em seco a saliva que se acumulava em sua boca. Ela entreabriu os lábios, como se o convidasse, mas, em vez disso, deslizou a língua para dentro da boca dele.
Jinshi exibiu uma expressão de surpresa e alegria, mas não durou muito. Seu corpo se contraiu em reação, e seu aperto em Maomao afrouxou. Logo seu corpo reagiu com leves espasmos, e o aperto sobre Maomao se afrouxou.
Mais uma vez, Maomao não tinha culpa; estava fora de seu controle.
Maomao apenas demonstrou a Jinshi as habilidades mais requintadas de uma profissional do distrito dos prazeres.
○●○
Por quanto tempo alguém ficava preso a uma promessa antiga feita na infância, como uma brincadeira?
Ah-Duo riu sozinha. Estava sentada sobre uma pedra fria no jardim, um cobertor sobre os ombros e uma bebida na mão. O ar noturno realmente esfriava ali na capital arenosa. Um bom álcool forte era exatamente o que ela precisava.
Ela já havia colocado a Concubina Lishu, quase febril de tensão, para dormir. Agora aproveitava a bebida que não teve chance de saborear antes.
— Não tenho interesse em ninguém além de você como minha noiva.
Não faça promessas que não pode cumprir, disse em pensamento. Você não tem autoridade para isso. Ela sabia muito bem que alguns dos conselheiros mais próximos dele o pressionaram depois que ela perdeu a capacidade de ter filhos. E suas próprias mãos não estavam exatamente limpas. Ela havia tentado fazer sua gentil e bela amiga ser infiel.
Sua pobre amiga foi forçada a um casamento com um parceiro escolhido por outros, apenas para perpetuar a linhagem familiar. Por que não ignorar isso, pensou Ah-Duo. Por que não ser uma flor que floresce no topo da nação?
Mas não aconteceu como ela imaginava. A conversa terminou com sua amiga estapeando o rosto de Ah-Duo com toda a força e chorando: — Não zombe de mim!
Ah-Duo conhecia aquela jovem como alguém gentil. Bela. Inteligente. Preparou para ela um lugar muito melhor, mais adequado, e ainda assim só a deixou furiosa.
Ah-Duo simplesmente não entendia o coração feminino. Talvez fosse porque ela mesma já não era mais uma mulher, ou talvez nunca tivesse entendido. De qualquer forma, percebeu que feriu profundamente o orgulho da amiga.
Ela se tornou concubina como extensão da amizade, sem amor. E então teve um filho. Ah-Duo sempre pensou ser uma versão distorcida do que uma mulher deveria ser, mas aparentemente ainda possuía o chamado instinto materno. Ela amou a criança que gerou ao custo do próprio ventre mais do que qualquer outra coisa. O bebê era enrugado como um macaquinho; agitava as mãos, tão pequenas que pareciam frágeis demais, e chorava por leite.
Havia uma ama de leite, mas Ah-Duo insistiu em segurar o próprio filho. Tentou amamentá-lo, mas não havia leite suficiente. Seu corpo já não era mais o de uma mulher.
O bebê foi devolvido à ama.
Tomada pelo desespero, Ah-Duo só pensava na criança. Pensava apenas em como ajudá-la a sobreviver. E tomou uma decisão. — Eles são tão parecidos. — Seu filho e o tio nasceram quase ao mesmo tempo. Preocupada com a dificuldade do bebê em ganhar peso, Ah-Duo reuniu coragem para visitar a sogra. — Vocês poderiam trocá-los, e ninguém perceberia.
Disse meio em tom de brincadeira, meio a sério, avaliando a reação da outra mulher. Todas as criadas e amas haviam sido dispensadas do quarto.
— Talvez você esteja certa. Poderia cuidar dele, por favor? — disse a sogra, pegando o filho de Ah-Duo. Ela removeu as faixas, preparando-se para trocar a fralda. Enquanto isso, Ah-Duo pegou o cunhado e fez o mesmo, substituindo a fralda pela que trouxe.
Ambas haviam acabado de dar à luz e sentiam como se faltasse um pedaço do coração. Não havia nada nos olhos de Anshi ao olhar para o próprio filho. Ninguém parecia notar, pois ela mantinha sempre um sorriso. Mas olhava para o bebê de Ah-Duo com calor genuíno. Talvez amasse o filho do marido como não conseguia amar o próprio. Talvez por isso não disse nada quando Ah-Duo saiu levando a criança nos braços. Trocaram os bebês saudáveis como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Mais tarde, a criança que Ah-Duo criava morreu. Talvez, sem a troca, tivesse vivido. Ah-Duo lamentou a perda, pois passou a amar a criança, mas também se consolou sabendo que seu próprio filho estava vivo. O filho de Anshi morreu sem o amor da própria mãe, com seu lugar usurpado por seu sobrinho, antes mesmo de poder lamentar o próprio destino.
A morte abalou tanto Ah-Duo quanto Anshi. O pequeno encrenqueiro que sempre dava trabalho às criadas já era crescido o suficiente para perceber, mas jovem demais para lidar com aquilo, e acabou descontando de alguma forma. Um médico foi banido do palácio interno.
O destino, porém, era curioso: a filha adotiva desse médico agora era a favorita de seu filho. Havia princesas estrangeiras, a filha da casa da Imperatriz Gyokuyou, a Concubina Lishu, a garota em questão e, para completar, Suirei também. Ah-Duo não a trouxe por capricho. Ela tinha seus... problemas, mas em termos de linhagem era tão qualificada quanto as outras. Se isso fosse revelado ali, causaria grande comoção.
Ah-Duo deu outra risada.
Uma promessa de infância. Era só isso, e ainda assim ele tentava cumpri-la. Mesmo assim, ele não conseguiu recusar um pedido da pequena lua, Yue. Ele escolheu uma flor do vasto jardim do palácio interno e deu a Yue um irmãozinho. O motivo de tê-lo enviado como eunuco ao palácio interno, seria punição por uma promessa quebrada? Ou compaixão, uma forma de permitir que ele visse Ah-Duo mais vezes?
Fosse como fosse, Ah-Duo aproveitava ao máximo a oportunidade para provocar o adorável eunuco cada vez que ele a visitava. Era a coisa mais deliciosa.
No fim, foi afastada de sua posição entre as Quatro Damas, mas agora vivia em uma vila e o ouvia reclamar. Preferia que aquele velho rabugento mandasse alguém mais jovem em seu lugar. Ficou feliz que as crianças pudessem morar com ela. Sim, a juventude era maravilhosa. E era tão divertido provocar Suirei.
Mas havia outra coisa que Ah-Duo não podia esquecer, uma segunda promessa de infância. Um voto feito quando ainda não pensava em status ou posição.
— Claro, por que não? Posso muito bem deixar você me tornar mãe da nação.
E o idiota concordou na hora. Será que ele entendeu o que realmente ela estava dizendo? E ainda se lembrava disso agora, com uma grande flor do oeste como Imperatriz?
— Vamos ver o que vai acontecer — disse Ah-Duo para si mesma, girando a bebida na taça, decidida a observar Yue e descobrir qual flor ele escolheria.
[Noelle: Gente chocada, eu sabia que ela tinha trocado os filhos, mas eu não sabia que a imperatriz mãe também havia concordado! Kkkk então ela sabe também!]
[Kessel: Que epílogo! E finalmente tivemos o primeiro beijo de JinMao, não só um, como três de uma vez! Interessante a abordagem da Natsu Hyüga aqui, fugindo do padrão romântico que se espera de um primeiro beijo. Jinshi foi impulsivo, rude e até mesmo violento, por que não? Vamos ver como o próximo volume vai evoluir essa relação deles, porque agora eles definitivamente cruzaram uma linha que não se pode voltar atrás. Não se pode mais colocar a desculpa no acaso para o que aconteceu: gostando ou não, querendo ou não, eles se beijaram!]
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