Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 16: O Banquete (Parte 2)

— Ora, ora, o que fazer?

Lahan soou francamente animado enquanto deslizava os óculos pela ponte do nariz, pensando a toda velocidade. Para ele, o pedido de asilo político da emissária provavelmente era menos interessante do que descobrir a melhor forma de fazer as negociações comerciais darem lucro. Negócios significavam fluxo de dinheiro, fluxo de mercadorias; era um mundo mergulhado em números, e isso certamente o fascinava.

— Acho que você pode responder melhor a essa pergunta do que eu.

— Independentemente do que façamos ou deixemos de fazer, não foi uma conversa fascinante? Ah. Cof, cof, sim, claro, pelo menos vou conversar com ela. Imagino que esse seja o objetivo dela.

Ele fazia tudo parecer tão simples, pensou Maomao. Insetos “trazendo catástrofe” só podiam se referir a uma praga; disso ela tinha certeza. O aumento no preço dos grãos significava ameaça de fome. A emissária com quem haviam falado era de Shaoh. Mas havia também a mulher, Ayla, que conspirava com o clã Shi. Evidentemente, Shaoh não era um bloco único. Ainda assim, um pedido de asilo político estava muito além de qualquer coisa que Maomao esperava.

Maomao não gostava de gastar tempo se preocupando com problemas alheios. E problemas de nações inteiras? Não conte com ela! Então por que, por quê, ela continuava se envolvendo em coisas assim? Eles poderiam simplesmente ter trazido Lahan e deixado por isso mesmo.

Me pergunto se ela me reconheceu, pensou Maomao. Ela se perguntou se a emissária percebeu que não era a primeira vez que elas se encontravam. Da última vez, a luz estava se apagando, mas ainda assim elas tinham ficado frente a frente. Mesmo que a mulher se lembrasse dela, certamente havia outra maneira de lidar com isso. Talvez ela só quisesse mostrar algum tipo de ligação conosco.

Se fosse esse o caso, então talvez o fato de Maomao comentar sobre isso fizesse parte dos cálculos dela. Uma forma de conter alguma outra coisa. Mas Maomao não era do tipo de fofocas nem de joguinhos. Ela estava mais interessada em ver o que estava acontecendo no salão do banquete. Por que alguém sairia para uma conversa secreta quando havia suspeitas de pessoas suspeitas à espreita?

Quando voltaram, descobriram que a comida e a conversa tinham cessado completamente, e algo novo estava acontecendo.

— Isso também é um costume ocidental? — perguntou Maomao.

Havia música tocando, e homens e mulheres estavam frente a frente, dançando ao ritmo. Bem, se é que aquilo podia ser chamado de dança, não era uma apresentação como a de um grupo profissional; era mais girar pelo salão acompanhando o ritmo da música. Era por isso, ao que parecia, que haviam pedido que homens e mulheres viessem em pares.

Eu pisaria no pé de alguém antes mesmo de perceber, pensou Maomao, certa de que aquilo era algo que ela definitivamente não queria fazer. Ela olhou para Lahan.

— Ah, não se preocupe. Eu também sou péssimo nisso.

Ainda bem que tinham isso em comum, pelo menos.

Enquanto olhavam ao redor, notaram uma multidão que havia se formado, e quem estava no meio dela, senão um homem muito familiar e muito bonito. Jinshi estava cercado, exibindo aquele sorriso celestial que Maomao já tinha visto o suficiente na época em que ele supostamente era um eunuco. Basen estava ao lado dele, mas com o cenho franzido.

Escolha infeliz de acompanhante. Basen nunca seria de grande ajuda ali; ele recuava visivelmente de cada jovem mulher que se aproximava. Com a força que tinha, provavelmente estava tão nervoso que não conseguiria dançar mesmo que o empurrassem para a pista.

Maomao esfregou o pulso onde ele a havia agarrado no dia anterior. Ainda havia marcas vermelhas, embora leves. O que ela queria saber era: se homens e mulheres deviam formar pares, o que aqueles dois estavam fazendo ali, sozinhos?

— Acredito que Lady Ah-Duo pregou uma pequena peça. Se ela se passasse por homem, haveria homens demais, não?

— Ah, entendi.

Se Jinshi acompanhasse a concubina Lishu, então Basen (que, como membro de um clã renomado, tinha o status necessário) poderia acompanhar Ah-Duo, mesmo que se sentisse um pouco estranho com isso. Mas, com todo o respeito a Jinshi e Basen, conhecendo Lishu, seria muito melhor para ela se Ah-Duo fosse sua acompanhante. Não dava para saber o que aquela meia-irmã ardilosa poderia tentar, Maomao não duvidava que ela fosse capaz, no mínimo, de colocar um escorpião na cama da concubina.

Falando nisso, será que consigo pegar alguns escorpiões grelhados para levar? Supostamente, escorpiões às vezes eram servidos ainda vivos, se debatendo, mas ela não tinha muitas esperanças de experimentar esse prato ali nem na mansão de Gyokuen. Ela fez uma nota mental para garantir isso antes de irem embora. Para grande decepção de Maomao, eles não haviam encontrado escorpiões nem outros insetos venenosos na estrada, Suirei tinha sido rigorosa demais com o repelente. Maomao achava que, no mínimo, deveriam ter visto ao menos uma dessas criaturas no caminho.

Lahan mantinha a mão no queixo, murmurando sem parar enquanto calculava.

— Parece que você teve uma conversa bastante interessante — disse alguém educadamente. Maomao ergueu os olhos e viu Rikuson, com um sorriso gentil no rosto. Ele tinha um copo na mão, que entregou a ela. Maomao cheirou com cautela e detectou um leve aroma de álcool.

— Obrigada — disse, bebendo, assumindo que um copo não faria mal. Era um vinho de frutas gaseificado que estalava ao descer; o sabor era tão bom que ela quase pôs a língua para fora de prazer. Ainda conseguia sentir as bolhas estourando na boca. — Isso é muito saboroso.

— Sim, um dos mercadores ocidentais trouxe. Ouvi dizer que é bastante precioso, e esse era o último copo. — Rikuson sorriu. De repente, Maomao teve um mau pressentimento. — Só para constar, eu não bebi nada — acrescentou ele.

Então ela sentiu ele segurar seu pulso. Assustada com a repentina ação, percebeu, porém, que, diferente de Basen, o toque dele era gentil. Ela se viu sendo puxada para onde todos giravam.

— Talvez você pudesse me conceder uma dança? — A expressão dele pareceu mudar de gentil para astuta.

Ei! Ele é subordinado daquele maluco! Maomao, incapaz de esconder completamente o que pensava, lançou-lhe um olhar severo, mas Rikuson apenas sorriu. Parecia estar se segurando para não rir alto.

— Vejo que o que ouvi era verdade — disse ele.

— Não sei de quem você ouviu isso, mas vamos nos apressar e acabar logo com isso.

— Apenas até essa música terminar.

Maomao imitou, com hesitação, o que os outros faziam; pelo menos conseguiu evitar pisar nos pés do parceiro. (Embora, se o parceiro fosse Lahan, os dedos dele provavelmente não sobreviveriam até o fim da música.)

— Você sabe por que o irmão mais novo do imperador escolheu especificamente trazer você aqui?

— Imagino que seja porque sou útil.

Rikuson colocou uma das mãos na cintura de Maomao e segurou a mão dela com a outra, ela percebeu que aquilo era o estilo ocidental, mas seria impensável na capital. Estranho como ali parecia tão normal. Engraçado como o tempo e o lugar certos podiam mudar tudo.

— Sem dúvida. Mas acho que você poderia ter uma noção um pouco mais clara do seu próprio valor — disse Rikuson, mantendo cuidadosamente o tom educado. — Isso demonstra o poder do nome La na corte.

— Sou uma simples apotecária nascida no distrito dos prazeres — disse Maomao, de forma direta. Ela não sabia o quanto Rikuson sabia, e não se importava. Para ela, aquilo era a verdade.

— Tudo bem. Mas só uma coisa. — Rikuson sorriu novamente e olhou de lado, na direção da multidão. O belo homem no centro olhava diretamente para eles. — Por favor, lembre-se de que você não é uma terceira parte desinteressada. Nunca esqueça do significado do que você usa na cabeça.

Ele quer dizer o grampo de cabelo? Pensou ela, mas Rikuson já pegava sua mão; levou lentamente os dedos dela até os lábios e os beijou. Ah, qual é..., pensou Maomao. Era o mesmo tipo de gesto que artistas itinerantes faziam, em tom de brincadeira, com as prostitutas.

[Kessel: Ih. Jinshi?!?!!? Vai deixar?!]

Assim que a música terminou, eles voltaram a ficar encostados na parede. Lahan ainda murmurava para si mesmo, fazendo cálculos, e Rikuson desapareceu em algum lugar. Maomao sentiu alguém a observando atentamente de longe, mas decidiu ignorar. Passou levemente a mão onde Rikuson a tinha beijado, então olhou ao redor.

Ela encontrou uma jovem sentada bem junto à parede; o véu sobre o rosto deixava claro que era a concubina Lishu. Não havia ninguém perto dela. A consorte parecia olhar fixamente para um homem de meia-idade que girava uma taça de álcool e conversava de forma amigável. A meia-irmã de Lishu estava com ele, sorrindo amplamente, confiante. Se o pai não tivesse duvidado da fidelidade da mãe dela, talvez Lishu também estivesse sorrindo e conversando. Talvez não tivesse se tornado a jovem tímida que era hoje.

— Posso perguntar onde está Lady Ah-Duo? — disse Maomao, aproximando-se de Lishu. Mas então levou a mão ao nariz involuntariamente. — Ah! — Lishu ergueu o olhar, tremendo um pouco. Maomao suspeitou que ela estivesse chorando sob o véu. — E também posso perguntar… que cheiro é esse, milady?

— Alguém esbarrou em mim e o frasco de perfume derramou em mim — disse ela.

O tecido volumoso e rico do vestido de Lishu parecia ter absorvido tudo, e agora aquela fragrância incomum, muito intensa, estava por toda parte. Certos perfumes eram feitos de almíscar animal e, quando bem diluídos, podiam ser agradáveis, mas em grandes quantidades… bem, cheiravam a excremento.

— Lady Ah-Duo foi preparar um quarto para mim.

— Entendo. — E a concubina Lishu, sabendo que não podia circular cheirando assim, ficou presa ali. Maomao pensou em chamar algum criado, mas não parecia haver nenhum por perto.

— Quem foi que esbarrou em você? — perguntou ela.

— Acho que Lady Ah-Duo também está procurando essa pessoa. Ela disse para eu esperar aqui.

A mesa de comida estava encostada na parede; todos os outros já tinham perdido o interesse no jantar agora frio e estavam focados em dançar, conversar ou simplesmente aparecer. Maomao pegou vários pedaços de carne e colocou em um prato. Estavam frios, sim, mas ainda bons. Começou a comer sem se importar nem um pouco em estragar o batom dos lábios.

— Quer um pouco? — perguntou ela a Lishu.

— Sim, por favor — disse a concubina, hesitante. Ela havia comido um prato de carne local no jantar formal outro dia. Podia estar frio, mas, sem mais nada para fazer, Lishu aceitou o prato.

A dança chegou ao fim, e algo bastante incomum foi trazido ao salão. Vários homens grandes e fortes puxaram para dentro da sala uma enorme coisa quadrada coberta por um pano branco, sobre um carrinho.

O que é isso? Se perguntou Maomao, arregalando levemente os olhos.

Com um gesto dramático, os homens retiraram a cobertura, revelando o que havia dentro. Um rosnado baixo ecoou, e a multidão se deparou com uma criatura marrom-avermelhada cuja presença era acentuada por sua grande juba. Mesmo deitada, era óbvio que era muito maior que qualquer pessoa.

Então não era um tigre. Não tinha listras. Um leão?

Ela nunca tinha visto um vivo, apenas a pele. Diferente da pele estendida e vazia, o animal real era avassalador. Mesmo acorrentado dentro de uma jaula de barras grossas, sua ferocidade parecia preencher o ar.

O leão, basicamente um gato gigantesco com um cachecol, olhava ao redor com irritação.

Credo…, pensou Maomao, embora observasse o “gato de cachecol” com atenção. O pelo da pele que ela tinha visto antes era mais áspero do que o de um felino comum, mas ela não tinha certeza sobre o animal vivo. O tigre, outro grande felino, tinha usos medicinais, e Maomao observava aquela nova criatura com interesse, perguntando-se se ela também poderia servir para algum remédio.

Maomao quase vibrava de curiosidade, mas Lishu tremia de medo. Cada vez que o rugido ecoava pelo salão, ela se encolhia. Era demais para a concubina tímida.

Não é como se fosse devorá-la. Bem, tudo bem, se saísse da jaula, poderia atacar alguém, mas pareciam ter tomado precauções adequadas para que o leão permanecesse onde estava.

Os homens trouxeram um prato cheio de carne crua. O leão se ergueu o máximo que podia no espaço apertado e estendeu uma pata enorme pelas barras.

— Alguém gostaria de tentar alimentá-lo? — perguntou um deles.

O leão tinha sido trazido como entretenimento e, aparentemente, estava faminto de propósito. Rosnava, ansioso pela carne, babando enquanto a língua comprida saía da boca.

Alguns espectadores interessados se aproximaram. Um deles espetou a carne em um espeto e se aproximou devagar. O leão bateu com a pata, derrubando a carne e fazendo o homem cair de costas. A multidão murmurou.

A cada pedaço de carne oferecido, a jaula era aproximada da multidão para dar uma visão melhor. Irritado por receber apenas pequenas porções, o leão voltou a rosnar.

— Devemos nos mover para outro lugar? — perguntou Maomao a Lishu, que tremia cada vez que o animal se aproximava. A esse ritmo, Maomao temia que ela pudesse desmaiar completamente quando o leão estivesse bem diante dos olhos delas. A consorte Lishu, no entanto, não se moveu.

— Você prefere ficar aqui e assistir? — perguntou Maomao.

— Eu não c-consigo… — a concubina começou a dizer, mas sua voz mal era mais alta do que o zumbido de uma mosca, e Maomao não conseguiu entender o resto do que ela estava dizendo.

— O quê foi isso?

— Não consigo me levantar…

As orelhas de Lishu, visíveis por trás do véu, estavam vermelhas. Ah… claro. Com essa concubina, ela deveria ter imaginado. Maomao não riu, nem sentiu vontade, apenas olhou ao redor, tentando encontrar Ah-Duo.

Nesse momento, o leão começou a rosnar de forma ameaçadora. A princípio, Maomao pensou que era por causa da comida, mas não era só isso. O nariz dele se movia inquieto, e ele começou a se lançar contra as barras. Vários homens puxaram as correntes, mas isso só piorou a situação. O leão bateu contra a jaula de novo, e mais uma vez, até que, com um estalo, uma das barras cedeu com um estalo, partindo-se e dando-lhe espaço suficiente para se espremer parcialmente para fora. Em seguida, uma segunda barra se partiu, e o leão ficou livre. As barras quebradas ricochetearam no animal e rolaram pelo chão acarpetado.

— Ei, alguém pare essa coisa! — gritou alguém. Mas já era tarde demais. Mesmo os homens com as correntes não conseguiram contê-lo. Foram arrastados contra as barras do outro lado; um deles teve o nariz quebrado. Os outros ainda se seguravam, mas eram arrastados juntos, incapazes de parar a fera.

Tudo aconteceu em segundos, mas pareceu uma eternidade para Maomao. O pai dela dizia que, quando alguém sente medo intenso, a percepção do tempo desacelera. Ela acabou de experimentar isso em primeira mão. Antes de perceber o que estava fazendo, ela já estava jogando o pacote de remédio que carregava nas dobras da roupa.

O leão veio correndo em sua direção. Seus olhos arregalados e avermelhados mostravam que ele estava em estado de agitação extrema; aquilo não o deteria. Fugir teria sido o certo; jogar algo foi inútil. E no tempo que Maomao levou para chegar a essa conclusão, ela percebeu que alguém estava se agarrando desesperadamente à sua manga.

Ah, merda.

Era Lishu, paralisada de medo. Aquilo não podia ser pior. Maomao poderia facilmente ter se soltado do fraco aperto da concubina. Talvez ela devesse ter feito isso. 

No instante seguinte, ela já estava rolando desajeitadamente com Lishu. Foram parar debaixo de uma mesa. Provavelmente uma ação inútil, uma única patada derrubaria não só a perna da mesa, mas provavelmente Maomao e Lishu também.

Lishu olhava para o leão, incapaz até mesmo de piscar. O véu havia caído durante a queda, e em seu rosto havia uma expressão vazia, como se tudo o que pudesse fazer fosse esperar pela morte iminente.

Aquelas garras terríveis, porém, nunca chegaram a rasgá-las ao meio.

Ninguém se moveu, exceto o leão, que levantou preguiçosamente uma pata dianteira bem alto. Mas então surgiu uma figura entre ele e Maomao. Alguém segurando uma barra de ferro quebrada. 

Antes que o leão pudesse abaixar a pata, a figura acertou-lhe o nariz com a barra de ferro. Não houve hesitação na ação, apenas uma tentativa obstinada de atingir um ponto vulnerável tanto em humanos quanto em animais. Houve um baque, e o sangue do leão voou pelo ar. A ele se juntaram fragmentos de ferro à medida que a barra se estilhaçou ainda mais. 

Mais uma vez, sem hesitar, a figura desferiu um golpe com o que restava da barra, acertando o animal entre os olhos. Em seguida, a pessoa olhou para a barra quebrada e disse, quase com indiferença: — Bom, isso não durou muito. — Era difícil dizer se ele se referia à barra de ferro ou ao leão, que se debatia com a dor do nariz quebrado. 

Era uma voz com a qual Maomao já estava bastante familiarizada durante suas viagens. Há muito tempo ela se perguntava o que aquele homem estava fazendo como assistente de Jinshi. Sempre achou que devia haver pessoas mais adequadas para a tarefa.

Mas aí estava a resposta.

Seu pulso ainda doía onde ele a havia agarrado dias antes, e provavelmente ele nem estava usando toda a sua força naquela ocasião. Afinal, ele tinha conseguido quebrar alguns membros enquanto capturava os bandidos. Como Jinshi havia dito, ele era capaz de lidar com todos eles sozinho. Ele estava certo em se preocupar se as mulheres teriam medo dele. De repente, tudo fez sentido.

Agora outra pessoa falou, alguém com uma voz encantadora: — Rápido, agora é a sua chance de recapturá-lo! — Os tratadores do leão responderam enrolando correntes nos pilares que sustentavam o edifício. Então trouxeram novas correntes para garantir que o leão ficasse completamente contido.

O homem que havia atacado o leão jogou fora a barra de ferro inútil e se abaixou, surgindo debaixo da mesa com a testa franzida. — Está tudo bem, milady? — Só então o homem percebeu que Maomao também estava ali. Ele franziu o cenho sem disfarçar. Outra coisa que Maomao vinha percebendo recentemente era que ele não a considerava entre as mulheres que ele estava encarregado de proteger.

Sua expressão mudou rapidamente de novo, porém, graças à jovem ao lado de Maomao.

Foi Basen quem havia atacado o leão usando nada além de uma barra de ferro como arma. Mas agora ele corava e não dizia mais nada. Era mais ou menos sua reação habitual a qualquer mulher mais feminina que Maomao, mas, mesmo assim, o silêncio parecia mais longo que o normal.

A Concubina Lishu, com lágrimas se acumulando nos olhos, também estava corada e não dizia nada. Uma mudança e tanto em relação à forma como seu rosto havia perdido a cor de terror diante do leão. Sua palidez mudava mais rápido que o céu ao entardecer, observou Maomao.

E, quanto à própria Maomao, ela também não dizia nada. A principal diferença entre ela e as outras duas pessoas é que seu rosto permanecia com a cor de sempre, embora o constrangimento já estivesse começando a incomodá-la.

Um... Hm. Hmmm...

O que estava acontecendo ali? A única coisa que Maomao podia afirmar com certeza era que os outros dois estavam tão ocupados corando um para o outro que, para eles, ela simplesmente não existia.

Era assim: Nas novelas ilustradas que estavam em alta no palácio interno, as histórias sempre terminavam com uma imagem do homem e da mulher juntos. Era praticamente regra. A única coisa que você nunca via em uma ilustração dessas era uma terceira pessoa.

Se toquem! Aquilo a lembrou da filha do proprietário e do sobrinho do charlatão lá na vila do papel, eles também não sabiam perceber um sinal.

Para o bem ou para o mal, o constrangimento logo se dissipou. Com o leão subjugado e levado para uma nova jaula, começou um burburinho barulhento.

— Chamem um médico! Temos um homem ferido aqui!

Isso chamou a atenção de Maomao; ela saiu apressada debaixo da mesa. A Concubina Lishu ainda encarava o vazio e nem parecia perceber que ela havia saído. Quando Maomao viu Ah-Duo se aproximando, foi uma desculpa ainda melhor para cair fora.

Ela abriu caminho até a pessoa ferida, pensando que talvez fosse um dos tratadores, mas quando chegou lá encontrou Uryuu com um arranhão na bochecha.

— Pai, seja forte! Não nos deixe! — A meia-irmã de Lishu estava agarrada ao pai, chorando como a heroína de uma tragédia.

Ah... É só um arranhão. Maomao, com um olhar irritado, ela já estava prestes a sair dali quando a meia-irmã gritou:

— Como ele ousa! Como ousa ferir meu pobre e amado pai só para deter um leão idiota!

Ao que tudo indicava, o arranhão foi causado por um pedaço de metal que voou quando Basen golpeou o animal com a barra de ferro.

— Ele feriu meu pai! Ele vai pagar por isso! — ela gritou. Era quase cômico; estava claro que ela estava menos preocupada com o bem-estar do pai do que interessada em parecer preocupada para se tornar mais atraente diante da multidão. A verdadeira questão era quem havia ferido seu querido e amado pai.

Então veio uma voz afiada como uma lâmina: — Peço desculpas por isso. — Era bela, sim, mas o que era belo também podia ser terrível. — Vejo que se incomodou com as ações do meu servo. — Era Jinshi, com um leve franzir nos lábios; Basen estava atrás dele, parecendo atordoado. Sua mão direita, a que segurou a barra de ferro, estava vermelha e inchada. — No entanto — disse Jinshi —, se ele não tivesse intervindo, a Concubina Lishu estaria em perigo. Peço que perdoe sua imprudência.

Jinshi estava sendo extremamente contido. Se fosse o caso, Uryuu é que deveria estar em dívida com ele depois de Basen ter salvado sua filha, mas Uryuu não pareceu muito impressionado. — Entendo. Meus agradecimentos, então...

A Concubina Lishu observava o pai por trás de Ah-Duo. Era óbvio que ela estava preocupada com ele, sabendo que estava ferido, mas com a irmã ali, não se dispunha a se aproximar.

Pensando bem, ainda não sabemos, sabemos? Pensou Maomao, lembrando-se do pedido que Lishu lhe fizera. Havia coisas que nem mesmo Maomao conseguia descobrir. Ela pensou que, se não conseguisse desvendar a verdade durante a viagem, talvez escrevesse uma carta ao velho para perguntar se ele conhecia alguma forma de determinar parentesco. A ligação entre pai e filho, é? Refletiu Maomao, deixando o olhar recair sobre Uryuu e a meia-irmã. A jovem parecia tentar encontrar uma maneira de desfazer o que havia dito, mas nada lhe vinha à mente, e sua boca apenas abria e fechava.

Nossa, os dentes dela são horríveis. A cárie estava bem avançada, a ponto de terem ficado negros. Talvez fossem todos aqueles doces. Na idade dela, certamente não havia mais dentes de leite; não havia como consertar isso. Maomao pensou em vender à jovem um pó para escovar os dentes para evitar que piorasse, mas, logo em seguida, outro pensamento surgiu. Quase sem perceber, ela já estava diante de Uryuu.

— O-O que você está fazendo? — perguntou a meia-irmã.

Maomao sorriu para ela. — Não sou médica, mas sou uma espécie de apotecária. — Então ela agarrou o queixo de Uryuu com força. Ele reagiu com surpresa, mas Maomao continuou: — Esse arranhão não é nada demais. Passe um pouco de saliva e vai cicatrizar, sem problema.

— Sa-Saliva?! — exclamou Uryuu.

Ela estava só brincando. Na verdade, a saliva humana podia ser tóxica, então era melhor não usá-la em procedimentos médicos.

— Mas e o interior da sua boca? — disse ela.

— Hrgh?! — Uryuu exclamou quando ela forçou sua boca a abrir.

Um leve cheiro de álcool a atingiu. Ela examinou cuidadosamente seus dentes, que eram tortos, como se esperava de um homem da idade dele.

Então Maomao sorriu novamente. — Aqui, um bônus grátis.

— O quê? — disse a meia-irmã — imediatamente antes de Maomao abrir a boca dela também à força.

Meu Deus! Escova esses dentes! Não eram só os dentes da frente, os de trás também estavam em péssimo estado. Seria por isso que ela vivia cobrindo a boca com o leque, para esconder a condição dos dentes? Era uma jovem mimada demais. Mas aquele não era o momento para pensar em tratamento odontológico eficaz.

Por fim, Maomao se levantou e foi até Lishu. — Mais um, só para garantir.

Lishu não conseguiu falar de choque quando Maomao abriu sua boca, revelando dentes pequenos e brancos. Sua ama devia ter sido disciplinada, porque seus dentes ainda estavam limpos.

— O-O que você acha que está fazendo? — exigiu a meia-irmã, mas Maomao a ignorou e voltou-se para Uryuu.

— O senhor sabe quantos dentes sua falecida esposa tinha? — perguntou.

— Como diabos eu vou saber isso? — retrucou ele, com um olhar de não faça perguntas idiotas.

— Justo — disse Maomao. — Mas ela não tinha, por acaso, falta de um dente da frente? Como o senhor?

Ao ouvir isso, a expressão de Uryuu mudou.

Em geral, adultos humanos têm entre vinte e oito e trinta e dois dentes, dependendo dos dentes do siso, os mais ao fundo, nascerem ou não. Mas, de vez em quando, alguém pode ter menos de vinte e oito dentes. Em cerca de uma em cada dez pessoas, outros dentes além dos sisos simplesmente não nascem. A razão exata para isso é desconhecida, mas muitas vezes essa característica é herdada dos pais. Uma herança, por assim dizer.

— Talvez o senhor se interesse em saber, Mestre Uryuu, que o senhor, esta jovem aqui e a Concubina Lishu estão todos sem um dente inferior da frente. Considerando como os dentes se encaixam na boca, acredito que todos nasceram assim.

Os dentes eram essenciais para uma vida saudável. Se estragassem, toxinas poderiam até entrar no corpo por meio deles e deixar a pessoa doente. Quando alguém perdia os dentes e já não conseguia comer direito, era aí que começava a definhar.

Se a chance de faltar naturalmente um dente era de uma em dez, era possível que três pessoas quaisquer estivessem entre esses dez por cento. No entanto, todos no mesmo lugar, faltando exatamente o mesmo dente relativamente incomum? Isso já parecia bem menos coincidência.

— Parentes costumam compartilhar certas características. Por exemplo, a Concubina Lishu não pode comer peixe branco. O senhor, por acaso, não tem a mesma restrição alimentar?

— Como você sabe disso? — perguntou Uryuu, desconfiado.

— Simples. Observei o quanto o senhor ficou incomodado com o prato de peixe no jantar. Duvido que um homem da sua idade e, sem dúvida, maduro, reagiria assim apenas por não gostar da comida. — Ela se lembrou de como ele havia lançado a bandeja de peixe. — E tenho certeza de que nenhum alto oficial deste país trataria alguém tão mal por simples preferências pessoais ou mal-entendidos. — Maomao sorriu de leve e olhou de Uryuu para Lishu e de volta. — Talvez o senhor pudesse demonstrar um pouco de afeto paterno pela sua outra filha de vez em quando.

Talvez, pensou ela, tivesse ido um pouco longe. Mas, a essa altura, até o ouvinte mais obtuso entenderia o ponto.

Espero que isso resolva.

Ela havia dado a melhor resposta que podia.

[Kessel: Maomao sempre com os melhores tapas na cara possíveis!]

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora