Volume 5
Capítulo 15: O Banquete (Parte 1)
Diplomacia dava muito trabalho: por exemplo, você ia até um lugar que levava mais de vinte dias para chegar, só para ficar lá por apenas cinco dias. Durante esses cinco dias, não havia fim para reuniões, cumprimentos e banquetes, de modo que as pessoas importantes estavam constantemente ocupadas; enquanto Maomao não tinha nada disso para fazer. Ela também não podia exatamente sair para passear, então estava pensando que talvez fosse estudar as plantas do jardim quando alguém bateu à sua porta.
Quem diabos é?
Ela abriu a porta e encontrou uma mulher parada ali, sorrindo. Maomao não sabia o nome dela, mas sabia quem era: a meia-irmã da Concubina Lishu. A comitiva obrigatória a acompanhava, posicionada de cada lado.
— Posso ajudá-la, senhora? — perguntou Maomao educadamente, mas pensou, o quarto da Concubina Lishu é ao lado: presta atenção! Ela já era madura o bastante para guardar esse pensamento para si mesma.
A meia-irmã olhou para Maomao e, então, soltou uma risada deliberada: — Pfft! — Alguém poderia perguntar o que havia inspirado uma risada tão irritantemente condescendente, mas ela parecia representar a avaliação geral que a mulher fazia de Maomao.
— Eu apenas pensei em me apresentar — disse a outra mulher. — Como membros de clãs renomados, imagino que possamos nos encontrar novamente no futuro.
Maomao sentiu uma expressão de desagrado cruzar seu rosto ao ouvir “clãs renomados”. Ela odiava ser tratada como parte da família, mesmo que fosse só dessa vez.
Enquanto isso, a meia-irmã olhava para a cabeça de Maomao.
— Aquele grampo de cabelo que você estava usando ontem à noite era realmente lindo — disse ela.
— Acha mesmo? Infelizmente, não tenho muito senso para o valor das coisas.
Era nisso que ela estava prestando atenção? Essas princesinhas eram terrivelmente perspicazes. Maomao percebeu que, se tentasse vender o enfeite, logo conseguiriam rastrear até ela.
— Estou ansiosa para descobrir o que você vai usar no banquete desta noite — disse a meia-irmã e, com um gesto elegante, escondeu a boca atrás de um leque de penas de pavão antes de se afastar.
Aquilo não foi exatamente uma apresentação, pensou Maomao, mas sim uma inspeção. Ela era uma das poucas jovens que haviam acompanhado a expedição rumo ao oeste, embora, pelo jantar da noite anterior, a maioria das presentes parecesse mais interessada em se insinuar para Jinshi.
Observando o balanço dos quadris da mulher enquanto ela se afastava, Maomao concluiu que aquela meia-irmã não se parecia muito com a Concubina Lishu. Se se parecesse, talvez Lishu tivesse menos dúvidas sobre sua origem. Ainda assim, se o Imperador realmente fosse o pai de Lishu, Maomao não conseguiu deixar de se perguntar se ele não poderia ter dado um uso melhor a ela. Talvez fosse um pensamento maldoso, mas havia, provavelmente, formas mais úteis de aproveitar Lishu.
Pois bem, depois de ser zombada logo pela manhã, Maomao foi até o jardim na esperança de se sentir melhor. Um jardim, alimentado pelo tão importante oásis, era uma demonstração de poder naquela terra árida. Mas Maomao suspeitava que não era algo puramente frívolo, o pai da Imperatriz Gyokuyou não parecia o tipo de homem que se entregava ao luxo apenas por capricho. Uma lição que ele passou à filha, percebeu Maomao ao lembrar da quantidade e da qualidade das criadas no Pavilhão de Jade.
E o que havia no jardim? Em um canto crescia uma planta estranha, como nada que Maomao já tivesse visto. Não se podia dizer que tinha folhas ou caules. Ao examiná-la, de olhos arregalados, ela percebeu que havia uma espécie de cera na superfície, como uma vela, e que estava coberta de espinhos finos. Parecia semelhante a uma aloe vera, mas em formato de leque. Intrigadíssima, Maomao estendeu a mão para tocá-la.
— Eu não faria isso se fosse você. Esses espinhos não saem com facilidade se te espetarem — disse alguém. A voz não soava claramente masculina nem feminina, e quando Maomao olhou na direção dela, viu uma pessoa de aparência bela vestida com roupas masculinas, agachada enquanto examinava a planta incomum. Era Suirei. Ela estava acompanhada por um jovem. À primeira vista, ele parecia um servo, mas Maomao sabia que era um guarda. Era estranho que ela sequer tivesse permissão para estar ali; aparentemente, a vigilância não era muito rigorosa.
Suirei era uma apotecária como Maomao. As duas pensavam de maneira semelhante, e nenhuma conseguia resistir à vontade de aprender mais sobre qualquer planta ou flor incomum que encontrassem.

— Certo, então o que é isso, e como se usa? — perguntou Maomao.
— Pelo que sei, chama-se cacto. Foi descoberto bem a oeste e trazido para cá como um experimento, já que dizem que é bastante resistente em climas secos. As frutas e os caules são comestíveis.
Maomao assentiu, impressionada. Suirei claramente havia se dedicado àquela planta, talvez desde que chegou ali. Ela tinha um caderno nas mãos e desenhava o cacto com diligência.
— Alguma parte dele pode ser usada para fins medicinais? — perguntou Maomao.
— Isso eu não sei dizer. Considerando a semelhança com o aloe vera, imagino que tenha alguma utilidade. Tem um pouco dele crescendo ali perto.
O acompanhante dela observava a conversa em silêncio; provavelmente memorizava cada palavra para relatar depois aos superiores.
Não que estivéssemos dizendo algo comprometedor. Estavam apenas falando de medicina.
— Se tem aloe por aqui, talvez eu consiga que me deem um pouco.
— Está sem remédio para queimaduras? — perguntou Suirei.
— Não, a dieta constante de rações portáteis deixou minha digestão meio irregular.
— Ah. Entendo.
Suirei podia parecer um jovem bonito, mas na verdade era uma mulher, mais ou menos da idade de Maomao. Ela entenderia a situação do “estômago” de uma mulher. Como o que a interessava eram os aspectos de saúde, ela não ficava constrangida à toa, o que a tornava fácil de conversar. Nesse sentido, ela e Maomao eram muito parecidas.
— Nesse caso, talvez eu deva garantir que a Concubina Lishu também tome um pouco — disse Suirei.
Maomao concordou com um som breve. Era verdade: se até ela estava sentindo os efeitos da dieta, a princesa protegida provavelmente estava sofrendo também. Lishu era tão atenciosa com os outros que muitas vezes até evitava usar o banheiro quando precisava. Pelo menos sua saúde estava sendo mais ou menos cuidada, graças ao fato de Ah-Duo estar sempre com ela.
— Pensando nos ingredientes que se encontram por aqui, talvez seja bom misturar com iogurte — disse Suirei. O produto de leite fermentado realmente ajudava a regular o organismo.
— Er... não tenho tanta certeza se isso é uma boa ideia.
— Por quê não?
Porque havia muitos alimentos que Lishu não podia comer. Peixe branco podia causar erupções, e ela não lidava bem com mel. Se dessem algo a que não estava acostumada, em vez de melhorar, poderia piorar a situação. Maomao tinha notado que Lishu evitava a maioria dos alimentos desconhecidos no jantar da noite em que chegaram à mansão.
Uma ruga surgiu na testa de Suirei enquanto ela ouvia. Maomao sabia perfeitamente como aquilo era problemático. Se Lishu tivesse nascido plebeia, provavelmente não teria passado dos sete anos. Ainda assim, ela tinha resistido bem à longa viagem; talvez merecesse uma palavra gentil e um afago na cabeça. Mas não, isso não fazia parte da natureza de Maomao.
Maomao também tinha um caderno e algo para escrever, assim como Suirei. Suirei fazia desenhos minuciosos de tudo o que não aparecia nas enciclopédias. Maomao se juntou a ela, e por um tempo as duas trabalharam em silêncio. O acompanhante de Suirei não bocejava nem uma vez; apenas as observava com um sorriso indecifrável.
Queria que aquele merdinha estivesse aqui agora, pensou Maomao, referindo-se a Chou-u. Ele era um artista talentoso, isso era certo, mas Maomao tinha certeza de que desenhar não daria sustento a ninguém. As pessoas compravam seus retratos agora porque um garoto tão jovem e tão habilidoso era novidade. Logo se cansariam.
Talvez pudéssemos fazer ele desenhar coisas eróticas? Modelos não faltavam.
O pensamento um tanto indecente de Maomao foi interrompido por algo que soou como um rugido distante. — O que será que foi isso? — perguntou ela. Parecia algum tipo de animal selvagem, e aquilo arrepiou sua pele. As aves, assustadas, levantaram voo das árvores.
— A delegação do oeste aparentemente prometeu um presente bastante interessante. Já trouxeram uma criatura chamada elefante antes — A explicação veio de ninguém menos que o acompanhante.
— Um elefante? — perguntou Maomao. Ela os tinha visto em pinturas. Eram animais enormes com narizes longos. Ela já tinha visto presas esculpidas, mas nunca um exemplar vivo. Diziam que um já foi oferecido à imperatriz reinante, mas isso foi antes de Maomao nascer.
— Foi um elefante que ouvimos agora?
— Não... talvez um tigre. — Pelo visto, o homem não sabia.
Mas trazer um tigre vivo... Maomao só tinha visto tigres na forma de peles e remédios. Faziam tapetes de padrões belíssimos, e havia um afrodisíaco (muito eficaz, como ela lembrava) feito a partir dos órgãos genitais do animal. Quão eficaz era? Digamos que, na manhã seguinte, até Pairin tinha ficado satisfeita. O remédio permitiu que o parceiro dela durasse muito tempo.
— Suspeito que veremos o animal no banquete desta noite.
— Parece muito interessante — disse Maomao, e não era apenas educação; ela falava sério. Música e dança não a interessavam muito, mas um animal vivo... isso era intrigante. Seu coração bateu um pouco mais rápido, e ela rabiscou um tigre no caderno. O guarda a observava, sorrindo.
— Os criados prepararam suco de cacto — disse ele. — Gostaria de provar?
Ora! Por que não? Não havia motivo para não provar.
O tempo passou enquanto Maomao bebia o suco e conversava com Suirei, até que chegou a tarde. Durante a conversa, às vezes ela se pegava pensando em Shisui. As duas meias-irmãs pareciam se dar bem, apesar da rivalidade entre suas mães. Ou pelo menos Shisui parecia ter um carinho especial por Suirei. Mesmo enquanto seu clã era destruído ao seu redor, ela se esforçou para salvar as crianças, e a irmã mais velha.
Não, não. Já chega de lembrar disso. Se se perder demais no passado, pode não conseguir voltar.
Quando Maomao voltou ao quarto, encontrou algumas pessoas esperando, provavelmente enviadas por Lahan. Trouxeram novos acessórios e roupas ajustadas. Uma mulher com maquiagem extravagante lançou um olhar para a aparência simples e sem adornos de Maomao e sorriu abertamente. Maomao deu um passo para trás.
Como sempre, era exaustivo ser embelezada.
O banquete estava completamente lotado de pessoas importantes. Segundo o costume ocidental, comiam em pé; uma variedade de pratos ficava disposta sobre uma mesa, e cada um pegava um prato e escolhia o que quisesse.
É praticamente um convite para envenenar tudo à vista.
Para ser sincera, aquilo tudo era bastante novo para Maomao, mas, de certa forma, isso também tornava as coisas um pouco mais fáceis.
Uma coisa que chamou sua atenção foi como parecia costume ali homens e mulheres aparecerem em pares. Muitas vezes, um homem trazia sua esposa ou amante, mas, se não tivesse uma, podia muito bem vir acompanhado de uma irmã ou outra parente. Lahan pretendia apresentar Maomao a todos como sua “irmãzinha”, mas depois de ter os dedos dos pés devidamente esmagados, decidiu chamá-la apenas de “parente”.
Por mais fácil que fosse envenenar um prato específico neste banquete, também seria difícil. Não havia como saber quem iria comer de qual prato, então seria complicado atingir alguém específico. Claro, se a intenção fosse matar indiscriminadamente, aí já era outra história.
E uma última observação: isso não tornava o trabalho de Maomao como provadora de comida muito mais difícil. Ela só precisava acompanhar seu protegido e provar pequenas porções do que ele comia. A única complicação era que isso ficava um pouco... óbvio, mas Lahan também tinha um plano para isso. Ele disse que Maomao tinha quinze anos (educadamente reduzindo alguns anos da idade dela) e estava em fase de crescimento. Maomao, sem alterar a expressão, esmagou os dedos restantes dele.
Em resumo, podia-se escolher comer ou não, e Maomao preferia que simplesmente não comessem. Mas isso não seria muito divertido para os convidados.
— Será que algo realmente vai acontecer? — perguntou Maomao.
— É só uma precaução.
— Hum. — Maomao parecia levemente divertida, mas nada interessada.
— Bem — disse Lahan, olhando para ela. — Dizem que as roupas fazem o homem, mas aparentemente o mesmo não vale para as mulheres. Pelo menos para algumas delas.
— Cala a boca.
Maomao arrastava uma saia pesada atrás de si. O traje, assim como a refeição, era mais ou menos ao estilo ocidental. Não exatamente igual, não houve tempo para algo tão preciso, mas a silhueta e o visual geral eram semelhantes, incluindo a armação rígida na cintura que dava volume à saia. Também era comum nos vestidos ocidentais apertar a cintura e destacar o decote, mas, infelizmente, Maomao não tinha muito o que mostrar e, para evitar constrangimentos, optou por usar uma blusa de mangas longas, cedendo apenas ao aperto da cintura por um cinto.
Também arrumaram seu cabelo de certa forma; ficou mais chamativo, mas ainda limitado pelo material disponível. Estava melhor do que antes, talvez, mas sofria com a comparação com o esplendor das outras presentes. Ela parecia uma simples erva-daninha em meio a um campo de rosas e peônias. Apenas uma coisa a tranquilizava naquele conjunto estranho e pouco adequado: um elegante enfeite de cabelo de prata.
— Não se preocupe tanto. Dá para te chamar pelo menos de um dente-de-leão.
Maomao não entendia como o primo conseguia ler seus pensamentos em momentos assim. Ela não disse nada, apenas lançou um olhar irritado antes de seguirem para o salão do banquete.
Sua primeira impressão foi: Que teto é esse? O salão já era enorme, mas o teto ficava muito acima de suas cabeças. Mesmo na capital, raramente se via um edifício com tamanha sensação de espaço.
Parte do teto era aberta, e estandartes tecidos, um artesanato típico da região, pendiam dali. O chão era de terra, mas estava coberto por um tapete de pelo baixo, provavelmente também característico do lugar. Era uma pena sujá-lo.
Eles estavam em um palácio não muito distante da mansão de Gyokuen; o local foi construído pelo clã outrora conhecido como Yi, e eles o ergueram com o máximo de luxo possível. Talvez isso explicasse por que, décadas antes, haviam sido privados do nome de clã e destruídos. Fizeram algo que despertou a ira da imperatriz reinante. As histórias sobre ela eram realmente assustadoras, refletiu Maomao. O atual Imperador deve ter tido uma vida difícil com ela como avó.
Já havia um grande número de convidados no salão. Muitos homens importantes, junto de jovens vestidas de forma chamativa que Maomao supôs serem suas filhas. Seus olhos brilhavam, ou talvez cintilavam fosse a palavra mais adequada. O grande favorito, isto é, Jinshi, ainda não havia chegado.
A Concubina Lishu, porém, já estava ali. Ela se destacava bastante, pois ainda usava o véu para ocultar o rosto. Ser tão visível e ao mesmo tempo tão distante do momento indicava que ela ainda não tinha feito o que veio fazer. Maomao olhou para ver quem a acompanhava e viu Ah-Duo ao seu lado, vestida como sempre com roupas masculinas.
Hmm...
Ah-Duo parecia tão convincente naquele traje que Maomao suspeitou que pouquíssimas pessoas ali perceberiam que ela era uma mulher, quanto mais uma ex-concubina do Imperador reinante. Além disso, as pessoas pareciam vê-las não como pai e filha, mas como irmãos. Algumas mulheres se aproximavam para conversar com elas. Não era à toa, pensou Maomao, que Ah-Duo tinha sido o “ídolo” das damas do palácio interno por tantos anos.
Lahan, claro, sabia que deveria cumprimentá-las, e Maomao também ofereceu uma saudação educada.
— Ora, ora. Pensei que você fosse a elegante filha de alguém — disse Ah-Duo.
— Está brincando, milady — respondeu Maomao, embora não tenha se surpreendido ao perceber que Ah-Duo era muito melhor em elogios do que Lahan. A Concubina Lishu, por sua vez, devido à presença de Lahan, permaneceu escondida atrás de Ah-Duo. Seu vestido era apropriado para sua idade, nem chamativo demais nem discreto demais, e as cores combinavam com as roupas de Ah-Duo. Talvez tenham escolhido juntas.
O perfume de Lishu, porém, não era o habitual. Talvez fosse uma forma de evitar se deixar levar pela atmosfera do lugar. Maomao gostaria de conversar mais com ela, mas elas certamente tinham coisas a fazer. Além disso, Lahan estava ali para fortalecer relações com o oeste, não para conversar com concubinas de sua própria corte.
Havia muito cabelo preto, mas também dourado, castanho e até ruivo aqui e ali. Os olhos tendiam a cores vivas, e os tipos físicos eram diferentes do que Maomao estava acostumada. Dizia-se que Sei-i-shuu tinha muita mistura com o oeste, mas muitos ali provavelmente eram emissários vindos diretamente de lá. Logo, um homem e uma mulher de cabelos castanhos-avermelhados se aproximaram de Lahan.
Não entendo uma palavra do que estão dizendo, pensou Maomao. Ela conhecia um pouco de uma língua ocidental, mas não o suficiente para conversar. Além disso, havia muitas línguas diferentes naquelas regiões, e a que ela conhecia vinha de mais longe do que onde estavam agora.
Lahan seguiu em frente, conversando palavra por palavra com esforço. Excêntrico ele podia ser, mas não era sem talentos. O homem e a mulher cumprimentaram Maomao e disseram algo educado antes de se retirarem.
— Posso ir pegar algo para comer? — perguntou Maomao. Parecia ser a única coisa que ela podia fazer no momento, além de manter o sorriso educado que aprendeu no distrito dos prazeres.
— Vá em frente. Não te trouxe aqui para socializar. Só não beba demais.
Ela estava claramente interessada na bandeja de bebidas alcoólicas que um dos criados carregava, mas Lahan já havia avisado antes para que não se embriagasse. Embora Maomao não achasse que pudesse se meter em grandes problemas com aquele álcool leve, à base de suco.
— Eu não vou ficar bêbada.
— Ouvi dizer que você esvaziou um barril no caminho até aqui.
Quem foi o dedo-duro? Só podia ter sido Jinshi ou Basen. Maomao estalou a língua.
De fato, era preciso cautela, mas será que a infame Dama Branca estava envolvida nisso? Maomao trouxe alguns medicamentos que poderiam ser úteis caso algo acontecesse, mas não tinha certeza se realmente ajudariam.
Enquanto isso, Lahan estava em seu elemento. Por trás dos óculos, seus olhos de raposa brilhavam. O sangue misto do povo de Shaoh produzia uma grande quantidade de belezas marcantes. Segundo Lahan (o cretino), eram os números que compunham uma mulher que eram belos. Então uma mulher não era bonita em si, mas sim os números que a “formava”? Aquilo não fazia muito sentido para Maomao, mas aparentemente o sobrinho do estrategista excêntrico era, ele próprio, mais do que um pouco excêntrico. Ela suspeitava que ele via um mundo invisível para ela.
Mas então veio o momento em que, alisando o queixo, ele disse:
— Olhe para ela. O irmão mais novo do Imperador é mais bonito do que isso.
As palavras saíram com tanta naturalidade que foi aí que Maomao teve certeza de que ele não entendia absolutamente nada sobre como as mulheres pensam.
Lahan lançou um olhar para Maomao e, pelo modo avaliativo como a encarou, ela percebeu que os “números” que a compunham não eram do agrado dele.
— Com algum esforço, talvez você consiga gerar uma próxima geração bonita, pelo menos...
O que ele estava tentando dizer? E quem poderia culpar Maomao por esmagar os dedos dos pés dele?
Fazendo uma careta, Lahan entregou a Maomao um copo de suco, sem álcool. Ela o seguiu, claramente irritada.
Eles são todos tão grandes, pensou. A mistura de linhagens devia favorecer uma maior altura. Em parte, os ocidentais já eram mais altos, mas a combinação de diferentes linhagens parecia quase sempre resultar em pessoas maiores que seus pais. Maomao não podia falar sobre pessoas com certeza, mas quando se cruzavam plantas de espécies próximas, diziam que os indivíduos resultantes eram maiores.
Ela estava absorta, pensando em como gostaria de tentar isso em seu campo quando voltasse para casa, quando de repente percebeu que uma espécie de barreira havia se formado ao seu redor. Uma parede composta por uma mulher e dois homens. Um dos homens parecia ser um intérprete, mas o outro tinha mais aparência de servo do que de senhor. A mulher, com um vestido que enfatizava o peito conforme o costume, parecia ser a mais importante dos três. Era bonita, com cabelos de cor viva e olhos azul-celeste. Já era alta por natureza, e ainda aumentava a estatura com sapatos de salto.
Maomao não disse nada, mas encontrou o olhar de Lahan.
Ele não tinha falado algo sobre estreitar relações com mercadores do oeste? Aquela mulher não parecia uma comerciante. Mais importante, Maomao a reconheceu. O cabelo dourado, a pele quase translúcida, e o enfeite azul no cabelo. Ela era uma das emissárias especiais que haviam visitado a capital no ano anterior, ficaram marcadas pelo fato de uma usar um adorno vermelho e a outra, azul. Se ainda seguiam o mesmo código de cores, então aquela era a mais calma e madura das duas.
— Eu adoraria conversar mais com você — dizia ela. O sorriso era deslumbrante, mas assustava Maomao. Havia algo escondido por trás dele. Ainda assim, naquele momento, parecia menos sinistro do que familiar...
Concubina Gyokuyou. É o mesmo tipo de sorriso da Concubina Gyokuyou. Não cheirava a negócios, mas a política. Era isso que elas vieram fazer de verdade? Mercadores ocidentais, uma ova, pensou Maomao, erguendo a saia e seguindo Lahan.
Ayla… era esse o nome? Maomao tentou lembrar; ela já tinha ouvido ele uma vez. Era até admirável que se lembrasse, considerando como tendia a esquecer tudo o que não lhe interessava. Ayla era a outra emissária, aquela que aparentemente havia vendido feifas ao clã Shi pouco antes da rebelião do ano anterior. Aquela mulher tinha coragem de sobra, aproximando-se deles depois de algo assim.
O palácio do clã Yi havia sido construído à imitação do estilo arquitetônico ocidental, incluindo o salão de banquetes. Era um espaço amplo e aberto, cercado por várias salas onde os convidados podiam descansar ou ter conversas privadas, longe de olhares curiosos. E conversas privadas geralmente significavam que algo estava acontecendo.
Uma garota de pele cor de cevada dançava ao som de um instrumento que Maomao nunca tinha ouvido antes. Ninguém notaria se algumas pessoas saíssem discretamente da multidão, e, mesmo que notassem, seria falta de educação perguntar.
Mas por que ela veio falar com Lahan? O homem pequeno e de cabelo despenteado parecia quase cômico ao lado da alta beleza de cabelos dourados. A presença de terceiros, Maomao e os outros, afastava qualquer ideia de um encontro secreto.
Talvez seja exatamente por isso que ela o escolheu. A mulher tinha vindo à capital como emissária, mas parecia que casamento também estava em seus planos, e a própria Maomao havia participado para sabotar essas possibilidades. O pensamento a deixou um pouco inquieta: temia que a mulher ainda pudesse reconhecer o “espírito da lua”, mesmo agora vestido como homem e com uma cicatriz no rosto. Ainda assim, mesmo que reconhecesse Jinshi, provavelmente não poderia dizer nada em público.
Chá preto foi servido em uma delicada xícara de porcelana. A mesa tinha pernas curvas, assim como as cadeiras, e um lustre elaborado pendia do teto.
— Os gostos daqui parecem bastante... ocidentais, não? — disse Lahan. O comentário poderia soar depreciativo, mas era simplesmente verdade. Ele estava de bom humor, graças à bela companhia; mas, na mente dele provavelmente estava comparando ela com Jinshi.
— É verdade — respondeu a mulher. — Embora alguns móveis já possam ser considerados ultrapassados. — O local estava bem conservado e os móveis em bom estado, mas muitos pareciam herdados dos donos anteriores, e já tinham passado de moda.
As paredes da sala eram grossas, o suficiente para impedir que alguém escutasse do lado de fora. O intérprete se retirou, deixando apenas os quatro, dois de cada lado da mesa.
— Sinto-me honrado por ter sido escolhido para esta conversa. Confesso que preferiria falar com você a sós, apenas nós dois… — Lahan mal parecia uma versão masculina de Maomao; ela não fazia ideia de onde ele tirava a audácia para falar assim.
— Isso depende do que deseja discutir... Mestre Ra-han. — A mulher falava com fluência, mas parecia ter dificuldade com a pronúncia do Lahan. Bem, não era dos mais fáceis. Talvez isso também explicasse por que Lahan evitava expressões rebuscadas ou tortuosas, isso facilitava a compreensão. Maomao acompanhava a conversa sem dificuldade; já o servo da mulher exibia uma expressão tensa, esforçando-se para entender.
— Acredito que demonstrou interesse em produtos vindos de regiões ainda mais a oeste — disse a mulher.
— Sim. Eu me surpreenderia se alguém não tivesse interesse nisso.
Ele precisa pagar a dívida. Já fazia quase um ano desde que o pai adotivo de Lahan fez uma compra caríssima no bordel. Metade do valor já havia sido paga, mas a outra metade ainda precisava ser quitada, com a casa como garantia. Conhecendo a velha madame, no momento em que o prazo acabasse, ela apareceria com seus capangas. Provavelmente começaria a leiloar os móveis ali mesmo.
— Heh heh! Então acho que vamos nos dar muito bem — disse a mulher, tirando um pedaço de pergaminho cuidadosamente tratado, coberto de símbolos que Maomao presumiu serem números. O sorriso de Lahan se ampliou.
— Uma proposta muito interessante, mas ambos sairemos ganhando com isso? O preço não me causa objeção, mas é a primeira vez que alguém me traz algo assim. Confesso que fico pensando que, se tivermos que transportar o grão até vocês, será difícil manter lucro.
— Sim, talvez. Mas garanto que não iniciei este empreendimento sem planejamento. Se utilizarmos rotas marítimas, poderemos transportar grandes quantidades, e, mais importante, o valor do grão e do arroz aumentará em meu país.
Agora a mulher abriu um mapa.
Ah, ótimo. Justo quando achei que iam falar de política...
Era sobre dinheiro, afinal. Bem, Maomao tinha a sensação de que talvez houvesse política envolvida também, mas não tinha certeza. Francamente, ela não se importava. Ficou ali, pensando em formas de usar um cacto, parecendo prestes a bocejar a qualquer momento.
Até que, de repente, ouviu algo que não pôde ignorar. Era a mulher falando:
— Muito em breve, insetos trarão uma catástrofe ao meu país. A “catástrofe do norte”.
Assustada, Maomao quase bateu na mesa, conseguindo parar a mão no último instante. Ainda assim, o movimento foi suficiente para revelar seu interesse.
O norte: ao norte de Shaoh ficava Hokuaren. Maomao ficou chocada ao perceber que o mesmo assunto que tanto preocupava Jinshi e seus aliados surgia ali, naquele momento. A mulher, a ex-emissária, sorriu para ela. E então disse:
— Se essa proposta não der certo, tenho um favor a pedir.
Sua expressão se tensionou.
— Você nos ajudaria a fugir do nosso país?
Problemas tendem a se acumular, pensou Maomao mais uma vez. Ah, como eles se acumulam.
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