Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 14: A Capital do Oeste: Segundo Dia

No dia seguinte, Maomao se viu convocada por ninguém menos que Lahan.

— Verdade, verdade, acho que deixei de mencionar — disse o homem de olhos de raposa e cabelo despenteado, enquanto tomava um gole de chá. Ao lado dele estava o gentil Rikuson. Eles estavam em um pavilhão na mansão, e o oásis próximo deixava o lugar arejado e fresco. A casa inteira parecia ter sido construída para aproveitar ao máximo qualquer chance de se refrescar. — Eu mesmo recebi ordens de vir até aqui por vários motivos. Há, digamos, assuntos de negócios a tratar.

Cada pessoa tinha seus talentos, supôs Maomao, e era de se esperar que Lahan aparecesse sempre que números complicados estivessem envolvidos. Quanto ao motivo de Rikuson estar com ele...

— Meu superior não quis deixar a capital, então vim no lugar dele.

— Hah — comentou Maomao. — Parece um superior bem inútil, com todo respeito.

— Aprecio sua franqueza, Maomao, mas aqui e agora acho melhor um pouco de discrição. — Era algo raro: um comentário sério vindo de Lahan. De qualquer forma, Maomao entendia perfeitamente; por isso havia tomado cuidado para adotar um tom educado.

Já era tarde depois do encontro com Basen e depois com Jinshi, então Maomao foi direto para cama, mas, aparentemente, todos os outros ficaram acordados, e o resultado não foi nada bonito. Parecia ter sido uma grande confusão, mas Maomao fez o possível para ignorar tudo. Ainda tinha marcas vermelhas nela onde Basen a segurou, e sua principal preocupação no momento era se livrar delas.

Falando em Jinshi e Basen, eles tiveram uma reunião esta tarde. Toda essa história de conduzir política durante o jantar e ficar sondando os outros o tempo todo parecia uma enorme dor de cabeça para Maomao. Já seria ruim o bastante lidar com Gyokuen, que agora tinha uma filha imperatriz, mas misturar estrangeiros nisso só tornava tudo ainda mais desagradável.

— Então, sobre o que você queria falar comigo? — perguntou Maomao.

— Sim, isso. — Lahan empurrou os óculos para cima com o dedo indicador. Em seguida, tirou um pedaço de papel das dobras de sua roupa. Era um cartaz de procurada, ricamente detalhado.

— Hã...

A imagem mostrava uma mulher ainda relativamente jovem, de traços elegantes. Só isso não a tornava muito diferente de várias outras, mas o cartaz trazia uma descrição adicional: “olhos vermelhos; cabelo branco; pele pálida”. Isso restringia bastante as possibilidades. Na verdade, Maomao só conseguia pensar em uma pessoa que se encaixava nisso.

— A Dama Branca? Nós fomos vê-la juntos.

— Fomos, sim — disse Lahan, e então mostrou um segundo papel.

— E esse quem é?

Outro cartaz de procurado, dessa vez de um homem. Infelizmente, as ilustrações nunca pareciam exatamente com a pessoa real, e Maomao raramente se dava ao trabalho de lembrar o rosto de gente que não lhe interessava. Em resumo, ela não fazia ideia de quem era.

Lahan colocou os cartazes lado a lado.

Hm? Algo cutucou a memória de Maomao, uma sensação de que talvez já tivesse visto aquele homem em algum lugar.

— Encontramos esse homem há alguns dias — disse Lahan.

— Isso mesmo — acrescentou Rikuson. — Tenho certeza.

— O senhor Rikuson nunca esquece um rosto.

— Talvez seja meu único talento — disse ele, modestamente. Bem, ele ainda não parecia exatamente adequado para a vida militar. Mas, considerando que o estrategista excêntrico que era seu superior não conseguia diferenciar um rosto de outro, ter alguém como Rikuson por perto não fazia mal. Aquele sujeito do monóculo tinha um talento quase sobre-humano para avaliar a utilidade das pessoas.

— Quando exatamente foi isso?

— Há cerca de dois dias atrás. Acho que ele não esperava que o encontrássemos — ele estava disfarçado como um dos carregadores que traziam as mercadorias das carruagens. E mais... — A carga em questão pertencia a um mercador de Shaoh.

Shaoh: um país além da região desértica a oeste de Li. Ficava em uma posição bastante delicada; ao sul havia montanhas, mas nos outros três lados era cercado por nações maiores. Pelo que Maomao lembrava, as duas emissárias especiais que visitaram a corte no ano anterior vinham de Shaoh.

E uma dessas emissárias fornecia armas de fogo feifa ao clã Shi.

O rosto de Maomao se fechou.

— Isso é ruim, não é?

— Em termos gerais, eu diria que sim.

Isso significava que as mesmas pessoas que causavam problemas na capital agora apareciam entre os mercadores de Shaoh. E, se estavam ligados à Dama Branca, havia grande chance de estarem traficando ópio e envolvidos com os bandidos. Até Maomao, que não entendia muito de política, percebia que se outra nação abrigava gente assim, era um péssimo sinal.

— Para piorar, Shaoh gosta de se isolar. — Ou seja, mesmo que quiséssemos capturar um criminoso, não poderíamos simplesmente agir livremente por lá. — Normalmente, não conseguiríamos colocar as mãos nele — continuou Lahan. Ainda assim, é difícil imaginar que alguém que veio para outro país estivesse agindo totalmente por conta própria, sem relação com seu governo. — Mas não podemos dizer nada sobre isso. Esse é o problema.

O testemunho deles vinha, no fim das contas, de um único soldado que supostamente tinha boa memória. Independentemente do que Rikuson dissesse, qualquer um poderia argumentar que ele era apenas uma pessoa, e que poderia estar enganado. Lahan poderia tentar informar a capital, mas mesmo com o cavalo mais rápido do mundo, levaria mais de dez dias para a mensagem chegar, e o mesmo tempo para trazer uma resposta.

Era por isso, aparentemente, que ele havia procurado Maomao.

— Onde você quer chegar? — ela perguntou.

— Quero que você esteja no banquete. Foi por isso que você ganhou um quarto, não foi? Aqui e agora, você é uma princesa do clã La.

[Kessel: Finalmente!!!! <3]

Maomao não disse nada, mas sua expressão fez Lahan franzir a testa.

— Cof cof. Por favor, não mostre suas presas... digo, seus dentes para mim. Quem sabe quem pode estar olhando? Veja, até o senhor Rikuson está com medo de você.

— Eu não vi absolutamente nada, senhor e senhorita. — Rikuson encarava o céu azul com toda a atenção, como se nada estivesse acontecendo. Talvez ele fosse uma pessoa melhor do que Maomao havia imaginado.

Em resumo, as negociações em questão tornavam aquele homem importante demais para ser ignorado, fosse ele um mercador de verdade ou não. Mas, se houvesse algo além do que aparentava nele, poderia haver problemas. Se ele fosse mesmo legítimo, será que a Dama Branca estava com ele? E, se estivesse, poderia ter preparado algum veneno desconhecido com sua alquimia? Ou talvez usassem narcóticos. Talvez até já tivessem outro plano em andamento.

— Pode haver venenos raros envolvidos. Não está curiosa? — disse Lahan. Um golpe baixo. Se ele achava que isso faria Maomao concordar... — Se pegarmos o homem, você poderá investigar exatamente que tipo de venenos são.

Dessa vez, ela não disse nada, e seu rosto permaneceu impassível.

— Claro, se não você não estiver interessada, então tudo bem...

Maomao soltou um suspiro, e Lahan abriu um sorriso. Sim, era verdade: ele a tinha na mão. Mas ela odiava concordar de graça. Receberia uma recompensa, claro, mas talvez pudesse pedir algo mais. A concubina Lishu passou por sua mente.

— Então você consegue lembrar de qualquer pessoa que vê uma única vez, certo? — perguntou ela, voltando-se para Rikuson.

Ele finalmente baixou o olhar.

— Sim, senhorita. Não é um talento muito interessante, admito.

— Certo. Então consegue determinar, pelos rostos, se as pessoas são parentes de sangue? Tipo, pai e filho?

— Posso tentar — disse Rikuson. Toda criança herda algumas características físicas dos pais, e Maomao pensou que talvez ele conseguisse perceber isso. Mas ele continuou: — No entanto, seria apenas minha opinião subjetiva. Sem um motivo muito forte, dificilmente poderia ser considerado prova de alguma coisa.

— Ele tem razão — interrompeu Lahan, recebendo um olhar irritado de Maomao.

— Não existe nenhum jeito, então?

Lahan também parecia enxergar um mundo que os outros não viam. Ela gostaria de usar isso de alguma forma.

— Você acha que qualquer “prova” que eu descobrisse seria aceita pelos outros? — ele perguntou.

Maomao teve que concordar. Sem critérios claros e mensuráveis, não havia como estabelecer a verdade dos julgamentos dele, mesmo que estivesse certo. Crianças podiam herdar diversas características dos pais, mas não seriam idênticas, e isso apenas sugeriria possibilidades. Se ao menos houvesse algum padrão que todos pudessem aceitar.

— Peço desculpas por não poder ajudar mais — disse Rikuson.

— Por favor, não se preocupe com isso.

— Perdoe-me se estou sendo intrometido — acrescentou ele, hesitante —, mas talvez você pudesse visitar a mansão do Mestre Lakan às vezes?

Depois de um longo silêncio, Maomao respondeu: — Talvez eu possa pedir que você nunca mais mencione isso. — Seu rosto se contorceu de desgosto. Rikuson parecia uma pessoa perfeitamente decente, mas não parecia entender que existem coisas que se dizem e coisas que não se dizem.

— Minhas desculpas. Acho melhor eu voltar ao trabalho. — Ele abaixou a cabeça em reverência e saiu apressado do pavilhão.

Lahan olhou para Maomao, sem conseguir formar uma expressão definida.

— Você não tem interesse em ir?

— Para esse seu banquete? Sabe de uma coisa? Esquece. — Com Rikuson fora, ela falou com bem menos educação.

— Ah, não fique assim. Essas mercadorias do mercador do oeste... você não quer algumas?

Então ele continuaria tentando suborná-la. Bem, claro que queria. Maomao ficou em silêncio, e Lahan a observou com atenção, pensativo.

— Pensando bem… — disse ele, depois de um momento.

— Sim? — Só porque estava irritada não significava que ela não pudesse manter um mínimo de educação. Ela tomou um gole de chá que o criado trouxe.

— Ontem à noite... você e o senhor Basen... aconteceu alguma coisa?

Maomao teve maturidade suficiente para não cuspir o chá, mas ele de repente pareceu muito amargo. Ela engoliu o mais rápido possível. O que aquilo tinha a ver com pais e filhos?

— O senhor Basen é vir…

— Eu sei, eu sei, não precisa dizer. Pelo amor de Deus, pare. Você não precisa sair espalhando os segredos mais constrangedores de um homem para todo mundo.

Ele tinha razão; foi indelicado da parte dela. Mesmo sendo óbvio só de olhar, dava para entender por que um jovem não gostaria de anunciar isso. Se ele realmente se incomodava, sua irmã Pairin certamente ficaria feliz em ensiná-lo. Pairin gostava de homens musculosos, por que não agradá-la?

— Você não está pensando em nada... inapropriado, está? — Lahan sorriu maliciosamente.

— Não sei do que você está falando.

Ela com certeza não estava imaginando empurrar Basen para o quarto de Pairin.

— Tenho certeza que não. Nesse caso... — Ele respirou fundo e disse algo impensável: — Talvez você se interesse em pedir ao irmão mais novo do Imperador para plantar a semente dele em sua barriga.

[Kessel: Gente… kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Só ele mesmo para falar desse jeito assim na lata!]

Por um momento, Maomao pensou que ninguém a culparia se jogasse o resto do chá nele, mas como estavam na casa de outra pessoa, se conteve. Ainda assim, não respondeu.

— Eu te conheço: você gostaria de experimentar dar à luz, só pela experiência. Mas não tem interesse em crianças em si. Eu, por outro lado, ficaria feliz em criar o filho do irmão mais novo do Imperador, e faria isso muito bem. Enquanto isso, você poderia fazer o que quisesse, ou deixar de fazer o que não quisesse. Não estou dizendo que você precisa se tornar esposa dele oficialmente. Bastam alguns... deslizes. Você dá à luz, eu ganho um herdeiro; todos saem felizes.

[Noelle: Gente o Lahan é demais kkkkkkkkk]

— Então faça um você mesmo — rosnou Maomao.

— Eu faria, mas simplesmente não consigo encontrar a parceira ideal.

A “parceira ideal” de Lahan provavelmente era apenas a versão feminina de Jinshi, alguém capaz de fazer o país inteiro se ajoelhar. Mulheres assim não nasciam em árvores.

— É realmente um desperdício ele ser o irmão mais novo do Imperador. Pensar que, mesmo com aquela cicatriz na bochecha, ainda assim ninguém o supera em beleza.

— Por que você não corta o que mais você valoriza e faz um transplante de útero? Aí alguém planta uma semente em você.

— Dá para fazer isso? — Era assustador o quanto Lahan perguntou aquilo com sinceridade. Quando Maomao respondeu que não, ele olhou para o chão, visivelmente desapontado. Então ele era heterossexual, mas evidentemente não tinha problema com mudanças de sexo. Maomao não entendia seus padrões.

Então Jinshi estava fora de cogitação, mas, se alguém tivesse um filho dele, a criança poderia se parecer com ele. Talvez fosse isso que Lahan queria. Talvez esperasse que, com Maomao, de aparência tão comum, como mãe, os traços de Jinshi se destacassem mais. E agora tentava inventar um pretexto para fazer isso acontecer. Um herdeiro, claro. Ambos sabiam o que aconteceria se fosse uma menina.

— Prometo cuidar da criança e criá-la por toda a vida — disse Lahan. Ou seja, criá-la até poder fazê-la sua esposa. Ele realmente pensava a longo prazo.

Maomao quase o classificou como pedófilo naquele momento, mas talvez aquilo apenas demonstrasse o quanto ele era obcecado pela beleza de Jinshi. Ela não duvidava que acreditasse que uma mulher com sequer uma fração daquela aparência seria uma das mais belas já vistas. Também não duvidava de que Lahan era completamente inútil, e que, se alguém pedisse indicação de homens decentes, ele seria a única pessoa que ela jamais apresentaria. Nunca.

— Enfim, dê uma chance! — disse ele, olhando para ela com olhos cheios de expectativa. Maomao bebeu o resto do chá e saiu do pavilhão, fazendo questão de pisar no pé de Lahan ao sair.

 

Quando voltou ao quarto, havia um alfaiate esperando ela. Será que Lahan tinha mandado chamá-lo? Ele já tinha algumas roupas prontas e queria ajustar o caimento. O padrão e os adornos eram um pouco diferentes do que Maomao estava acostumada; havia uma saia que quase parecia parte de um vestido ocidental.

— Agora, senhorita, se a senhora puder ter a gentileza de se trocar para mim.

O alfaiate, com um batom vermelho vivo, a fez experimentar uma grande variedade de roupas. Se aquilo era obra de Lahan, ele estava sendo surpreendentemente generoso. Maomao passou a próxima hora sendo tratada como uma boneca de vestir.

Quando o alfaiate finalmente foi embora, Maomao se deitou na cama. Só então percebeu algo sobre a mesa: uma caixa de madeira de paulownia, de excelente qualidade.

Acho que devo usar o que estiver aí dentro. Talvez fosse um enfeite para o cinto, pensou, mas ao abrir encontrou um grampo de cabelo de prata. Por um instante, imaginou que aquele grampo que nunca esperou ver de novo tivesse voltado de alguma forma para ela.

Era uma peça linda, entalhada com a imagem da lua e flores e papoulas. Linda, sim, mas Maomao sorriu ao perceber o significado das papoulas. Ainda assim, colocou o grampo no cabelo. Estranhamente, parecia combinar com ela, e o fato de continuar usando o acessório depois disso era algo pouco típico para ela.

[Noelle: O Jinshi é um fofo né <3]

 

Naquela noite, houve um banquete no grande salão. Todas as figuras importantes estavam presentes, incluindo aqueles que vieram da capital. Grandes homens que antes olhavam para Jinshi com desejo ou desprezo, quando ele supostamente era um eunuco, agora se atropelavam para encher sua taça. Maomao precisou se conter para não rir.

Maomao se sentou meio passo atrás de Lahan, que já estava acomodado. Homens e mulheres normalmente não se sentavam juntos, mas Maomao estava sendo tratada como convidada. Em outro ponto do salão, Jinshi estava sentado com Gyokuen, e na diagonal deles havia um homem de meia-idade, de porte mediano.

— Ele é... bem, dá para ver — disse Lahan. Apesar da escolha ambígua de palavras, Maomao entendeu exatamente o que ele queria dizer. Uryuu, o pai de Lishu. Podia-se dizer que ele se parecia com a concubina, mas também podia se dizer que não. Só para garantir, ela olhou novamente para Lahan. Ele entendeu perfeitamente o que ela quis dizer, mas deu a única resposta apropriada: — Com quem exatamente eu devo comparar?

Ele tinha razão; o assunto da concubina Lishu não deveria ser exposto assim. Maomao foi descuidada, mas o fato de Lahan ter adivinhado tão rápido o que ela estava pensando sugeria que rumores já circulavam pela corte.

Além disso, como estava fora do palácio interno por uma permissão especial, Lishu cobria o rosto com um véu sempre que estava na presença de um homem. Não era exatamente proibido mostrar o rosto, mas ela provavelmente tentava evitar ao máximo. E ela nem sequer estava presente naquele jantar. Em vez disso, uma jovem estava sentada ao lado de Uryuu. Ela não parava de lançar olhares furtivos para Jinshi. Pelo corte da roupa e pela forma como escondia a boca com o leque dobrável, Maomao percebeu que era a meia-irmã que havia esbofeteado Lishu.

A meia-irmã puxou a manga do pai e disse algo a ele; em seguida, Uryuu, num gesto típico de pai que faz qualquer coisa pela filha querida, voltou-se para Jinshi e começou a conversar, claramente tentando apresentar sua garotinha.

Maomao absorveu a cena. A meia-irmã obviamente tinha uma obsessão bem superficial com aparência. Para ser sincera, toda a situação, homens e mulheres misturados, parecia estranha para Maomao. Suas próprias “credenciais” para estar ali se resumiam ao fato de ser parente de Lahan, e ela se perguntava se realmente era apropriado estar naquele lugar. Talvez esse fosse justamente o ponto.

Vários dos outros homens presentes pareciam pensar como Uryuu; dava para ver que estavam ansiosos pela chance de apresentar Jinshi às suas filhas. A filha de Gyokuen já era imperatriz, o que permitia ao dono da casa manter uma expressão tranquila diante da situação. Na verdade, ele parecia se divertir observando como Jinshi lidava com aquilo. Sim, ele realmente era o pai da imperatriz Gyokuyou.

[Kessel: Tal pai, tal filha. kkkkkkkkk]

Até mesmo as criadas coravam ao notar a beleza de Jinshi, mas isso não era o suficiente para fazê-las esquecer do trabalho. Estavam sempre atentas para que nenhuma taça ficasse vazia. Sempre que um prato era retirado, o próximo vinha logo em seguida, mas, infelizmente, os altos oficiais não comiam muito. Uryuu, por exemplo: beliscou um pouco de arroz e um pedaço de cordeiro com osso, mas recusou todo o resto, exceto o álcool.

Lahan parecia gostar bastante do peixe; era praticamente tudo o que ele comia. Isso pareceu tranquilizar um pouco os chefs.

Maomao experimentou um pouco do peixe também. Era peixe branco, conservado em salmoura e sal, provavelmente assim conseguiram preservá-lo ali. Tinha um cheiro um pouco estranho, mas devia ser fermentado, não estragado. Acostumada com o peixe fresco da capital, Maomao achou que deixava a desejar, mas Lahan parecia preferir o peixe fedorento à carne de cordeiro.

Maomao, pouco se importando com isso, comeu à vontade. As filhas dos oficiais se limitavam a pequenos goles de suco para não borrar o batom dos lábios, mas Maomao não ligava para isso. As roupas elegantes que vestia aparentemente eram aceitáveis, mas, se estivesse com suas roupas habituais, provavelmente a expulsariam como uma criada imunda. Mais de um pai se aproximou do “senhor Lahan” para perguntar quem era sua “honrada irmã mais nova”, mas, ao perceberem que a jovem os cumprimentava com o rosto sujo de sopa de galinha, apenas sorriam sem graça e se retiravam. Não demoraria para surgirem rumores de que a família de Maomao era excêntrica.

Nada muito incomum foi servido no jantar, mas, ao contrário de um banquete típico da corte, ali as pessoas se serviam de grandes travessas compartilhadas. Se houvesse veneno, teria que ser colocado diretamente pelos criados.

Como será que essa refeição vai se desenrolar?

Ela conhecia banquetes, mas as roupas exóticas sugeriam que seria algo diferente de tudo que Maomao já viu. Seu velho lhe contou que, no oeste, banquetes eram mais sobre dançar do que comer, mas ela não entendia muito bem isso. E seria difícil verificar venenos em uma situação que ela mal conseguia imaginar.

Por exemplo, quando não se sabia quem comeria de um prato específico, era preciso observar com atenção os criados que serviam a comida. E, sem conhecer os ingredientes exatos, seria fácil confundir um tempero com uma erva venenosa. Assim, Maomao tentou prestar atenção nos sabores e na aparência dos pratos enquanto comia.

Normalmente, a regra número um em um banquete formal como aquele era comer o mínimo possível, mas, com todo respeito ao pai da imperatriz Gyokuyou, isso simplesmente não era algo que Maomao conseguiria fazer.

Enquanto comia, alguém colocou uma taça de vinho ao seu lado. Pensando que era apenas um criado diligente, ela ergueu os olhos, e percebeu que vinha do homem sentado ao seu lado. Parecia que ele não se importava em receber bebida dos criados, mas não pretendia beber ele mesmo. Então era o homem bonitinho que estava sendo tão atencioso.

— Muito obrigada, mestre Rikuson — disse Maomao.

— Não precisa usar títulos comigo, senhorita Maomao. — O “senhorita” foi o suficiente para fazer Maomao franzir o cenho. Mas seria igualmente irritante corrigi-lo diretamente, e aquilo parecia ser apenas uma leve provocação da parte dele. Ela simplesmente não sabia como falar com aquele cara.

— Rikuson, então. — Parecia estranho, mas ela faria qualquer coisa para evitar que ele a chamasse de “jovem dama” novamente.

Rikuson, aparentemente satisfeito, sorriu.

— Nesse caso, Maomao. Eu não sou muito bom com bebida, então ficaria feliz se você bebesse por mim.

Bem, com um convite desses, como ela poderia recusar?

E precisamos garantir que não há nada de errado com o vinho.

Ela levou a taça aos lábios. Era vinho de uva, não muito forte. Tomou um gole de água para limpar o paladar e então partiu para o próximo prato. Os criados definitivamente não priorizavam Maomao, então ela precisava se servir sozinha. Ainda assim, essa mistura de homens e mulheres era estranha; a maioria esperava que alguém como ela permanecesse discretamente em segundo plano.

— É isso que você queria?

— Sim, obrigada.

Foi Rikuson quem estendeu a mão e pegou o prato que Maomao queria. Parecia que não era por acaso que ele servia aquele estrategista excêntrico, sua boa índole devia ter ajudado a sobreviver ao serviço. Rikuson começou a chamar os criados de tempos em tempos, dizendo que queria isso ou que estava sem aquilo. A princípio parecia que ele só estava exigindo bastante deles, mas então Maomao percebeu que ele observava atentamente seus rostos e corpos.

Ele está memorizando todos eles, pensou. Mais um motivo para Maomao não se esforçar em lembrar os rostos dos serviçais. Podia deixar isso com ele, enquanto ela se concentrava na comida.

— Esse é um grampo de cabelo muito bonito — disse Rikuson.

— Você acha?

Então ele também sabia puxar conversa. Maomao lembrou que ainda estava usando o grampo da caixa de madeira de paulownia. Não era chamativo, mas até um olhar destreinado perceberia que era de ótima qualidade. Ela já tinha notado algumas jovens bem-nascidas lançando olhares para seu cabelo, e agora entendia o motivo.

Posso vender depois, pensou.

Quase ao mesmo tempo, ouviu-se o barulho de louças se quebrando. Ela olhou na direção do som e viu uma serviçal aterrorizada e Uryuu com a mão erguida.

— Eu já disse que não quero isso! — gritou ele.

— E-eu sinto muito... — A mulher começou a recolher os pedaços, claramente apavorada. O prato havia quicado no chão e se espatifado contra a parede; o conteúdo se espalhou por todo lado.

Que desperdício. Maomao entendia: os cozinheiros tiveram todo aquele trabalho preparando o peixe, e a criada provavelmente queria garantir que fosse consumido. Ainda assim, ela tinha sido um pouco insistente demais.

Os outros presentes pareciam chocados. Uryuu, percebendo a confusão que causou, tentou recuperar a compostura. — Céus, olhem só para mim. Peço desculpas — disse ele, sorrindo para os presentes, mas isso não trouxe a comida de volta ao prato. Havia rumores pouco favoráveis sobre Uryuu e, mesmo assim, sua reação parecia especialmente impetuosa.

Gyokuen acariciou a barba e cochichou algo para outro criado. Provavelmente ordenando que a mulher fosse punida, ou até demitida. Só restava esperar que a misericórdia fosse uma das qualidades que ele compartilhava com a filha.

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