Volume 5
Capítulo 13: A Capital do Oeste: Primeiro Dia
Essa enxurrada de problemas permaneceu sem resolução, mas a boa notícia foi que eles chegaram ao seu destino sem mais complicações. Jinshi, talvez ciente da presença de Ah-Duo e da Concubina Lishu, nem mesmo provocou Maomao, que por sua parte passou bastante tempo com Suirei. Ambas eram apotecárias, mas tendo aprendido com mestres diferentes, tinham seus próprios modos de misturar remédios, e era divertido descobrir novas abordagens.
Gradualmente o verde ao redor deles foi desaparecendo, substituído por uma vista ampla de seixos e areia. Era a primeira vez que Maomao via a areia se estender tão longe que parecia água, e ela não conseguiu suprimir um som de espanto. Ela enrolou um pano na cabeça para que a areia não entrasse em seus olhos, e embora a luz do sol refletida no solo pudesse ser ofuscante, quando acamparam para passar a noite estava surpreendentemente frio. Isso estava muito além de qualquer coisa que Maomao imaginou para esta viagem. Ela ficou grata por quem quer que tivesse arrumado suas roupas ter antecipado a situação, mas se sentiu um pouco mais em conflito pelo fato de que eles tinham ido tão longe a ponto de arrumar até mesmo roupas íntimas para ela.
Eles haviam sido alertados para tomarem cuidado à noite, quando escorpiões e cobras venenosas estavam mais ativos: Suirei, com sua fobia de tais criaturas, montou uma verdadeira muralha de incenso repelente de insetos e cobras, de modo que eles mal viram algo do tipo. Para a grande decepção de Maomao.
Se havia uma pessoa que estava em uma situação ainda pior do que Maomao, era a Concubina Lishu. Por ser uma concubina, ela raramente mostrava o rosto entre o resto da companhia, e com suas damas de companhia sempre grudadas nela, a jovem reclusa não tinha muitas chances para uma conversa adequada. O que mais se aproximava de um alívio pra ela era quando Ah-Duo era atenciosa o suficiente para ir conversar com ela de vez em quando.
Ah-Duo... Como ela reagiria se descobrisse que Lishu na verdade era secretamente filha do Imperador? Sua Majestade não teve outras concubinas além dela quando era o herdeiro aparente. Ah-Duo se sentiria em conflito sobre a notícia ou reagiria com naturalidade? Uma coisa era certa: isso daria uma nova perspectiva a tudo o que ela parecia estar fazendo por pura bondade. Na verdade, isso levantaria a possibilidade de que ela soubesse disso o tempo todo.
Argh. Eu não quero pensar nisso.
É claro que Sua Majestade não colocaria, e jamais colocou, a mão em uma jovem mulher tão infantil, bem, não apenas infantil, mas literalmente ainda uma menina. Mas o que isso significava então para Jinshi como um candidato? Não era tão incomum que os poderosos se casassem com parentes próximos. Sobrinhas e tias, até meias-irmãs, haviam sido admitidas no palácio interno no passado. O problema era que se uma linhagem sanguínea ficasse muito homogênea, poderia tornar todos os seus membros vulneráveis a uma única doença, por exemplo, que poderia exterminar todos. Maomao se pegou se perguntando se os erros do reinado do antigo imperador seriam repetidos.
De qualquer forma, ela suspirou aliviada quando chegaram à capital do oeste. A cidade havia crescido em torno de um oásis, um recurso tão precioso no deserto, e o vento arenoso soprava pelas ruas que fervilhavam com uma vida bem diferente daquela que se encontrava à porta do Imperador. Se a cidade real era disposta com as linhas retas e limpas e com interseções como um tabuleiro de Go, a capital do oeste parecia um assunto bem mais caótico.
— Eu ouvi falar sobre isso. Você pode ver como seria fácil se perder aqui — disse Jinshi, a primeira vez que Maomao ouviu sua voz em bastante tempo. Ah-Duo parecia ter adivinhado quem ele era, mas os outros ainda pareciam não fazer ideia. Exceto talvez Suirei, mas se ela tinha descoberto, manteve silêncio sobre o assunto.
Só se pode imaginar como Lishu reagiria se descobrisse que o "belo príncipe" foi seu companheiro de viagem todo esse tempo. Será que ela o veria como um potencial candidato a marido, ou talvez como um meio-irmão, ou melhor, um tio?
Jinshi finalmente lavou a queimadura de sua bochecha de uma vez por todas, embora usar a maquiagem por quase um mês tivesse deixado uma mancha em sua bochecha, e ele a esfregou constrangido.
As outras eminências e os mensageiros de outras nações já haviam chegado, e a capital do oeste tinha uma atmosfera festiva. Havia um mercado montado, e o som de fogos de artifício podia ser ouvido. Entre paredes leitosas e telhados vermelhos empoeirados havia toldos esticados para afastar o sol. No açougue, não era apenas frango que eles viam, mas também ovelhas. Maomao quase se distraiu com os pratos fortemente temperados sendo servidos nas barracas de rua, mas a comitiva continuou de forma determinada em direção a uma mansão próxima a fonte de água.
Os materiais de construção da casa, madeira, e muita dela, falavam do poder do dono da casa. A proximidade com a fonte de água significava que havia bastante vegetação. Não havia muitas plantas de folhas largas às quais Maomao estava acostumada, mas ela viu uma variedade de vida vegetal desconhecida.
Diante de um portão magnífico, um senhor de meia-idade de aparência gentil e vários servos estavam esperando por eles. Primeiro Jinshi, depois Ah-Duo, desceram da carruagem. A aparência de Jinshi causou grande espanto, até mesmo entre sua própria comitiva. Então eles realmente não sabiam que era ele.
Parado diante deles estava um nobre radiante e adorável. Maomao se viu cativada pelo rosto do homem; o olhar bondoso em seus olhos transmitia uma sensação de intimidade.
— Bem-vindos, bem-vindas; vocês fizeram uma longa viagem. Sou You Gyokuen, o líder desta terra.
Ele agia de forma extremamente familiar, mas parecia estar se aproximando deles de boa-fé.
— Devo agradecer-lhes por cuidarem tão bem da minha filha.
Ah! Maomao finalmente entendeu quem era o homem de meia-idade, e por que ele parecia tão familiar. Seu cabelo e olhos eram escuros, mas seu jeito era muito parecido com o de Gyokuyou.
— Nada é pior do que uma viagem muito longa seguida por uma conversa muito longa. Vocês encontrarão produtos de higiene pessoal em seus quartos. Por favor, não tenham pressa e relaxem.
— Bem, isso é um alívio. Obrigado — disse Jinshi e entrou na casa, com Maomao logo atrás.
Eles têm certeza sobre isso? Maomao pensou, chocada quando viu o quarto que lhe foi designado. Claro, ela estava ali como serva do irmão mais novo do Imperador, então dificilmente poderiam enfiá-la em algum canto empoeirado, mas o quarto para o qual a levaram estava muito além de sua posição. Um tapete espesso e luxuoso cobria o chão, pela sensação, não era apenas pele; havia seda ou algo parecido misturado. A cama com dossel estava coberta com uma cortina delicadamente bordada, enquanto a mesa estava posta com um copo de vidro com uma alça de prata. Havia uma cesta de jujubas secas, e o conjunto parecia algo saído de um rolo de imagem de uma fantasia estrangeira.
[Kessel: Acho tão engraçado como a Maomao realmente não se tocou que, acima de tudo, ela é a Princesa do Clã La. Imagina a vida luxuosa que ela teria se assumisse esse papel?]
Eles não vão roubar nosso dinheiro mais tarde, vão? Maomao pensou distraída enquanto mordia uma das frutas. Sem a água da polpa, a doçura estava mais concentrada, estava boa, mas um pouco doce demais para Maomao, que decidiu parar em apenas uma.
Ela gostaria de explorar a mansão um pouco, mas pensou que alguém poderia ficar com raiva dela por vaguear sem permissão. Pelo menos hoje, cada um iria comer por conta própria e descansar um pouco. A partir de amanhã, haveria vários dias de banquetes e festas de jantar, enquanto as tardes seriam preenchidas com reuniões e negócios. Pessoas importantes às vezes pareciam querer celebrar cada pequena coisa com uma grande festa, independentemente de quão cansados os convidados pudessem estar se sentindo, mas como sua filha, Gyokuen era muito atencioso para fazer isso com seus visitantes.
Maomao ficou particularmente grata que ele até preparou um banho para eles, considerando que a água devia estar entre as coisas mais preciosas ali. Mesmo que ela achasse a banheira, esculpida de uma única peça massiva de mármore, um pouco intimidante.
Ela saiu do banho e foi para a varanda. Seu cabelo parecia que ia secar rapidamente, mas ali fora ela ficaria coberta de poeira novamente, então fez menção de voltar para dentro, mas o som de vozes conversando a fez parar de repente. Ela olhou ao redor mas não viu ninguém. As vozes pareciam vir do quarto ao lado. Ora, ora. Não vão abaixar o tom?
Não adiantava nada as paredes dos quartos serem deliberadamente grossas se eles simplesmente deixavam as janelas abertas. Ela podia ouvir tudo. Ela se encostou na grade, depois se inclinou um pouco sobre ela. Uma coisa é escutar sem querer e outra coisa é bisbilhotar.
— O que você está fazendo aqui?
Hmm. Uma voz de mulher, ainda jovem. O quarto ao lado pertencia à Concubina Lishu, mas a voz não era dela. Em seguida veio algo murmurado tão suavemente que Maomao não conseguiu entender, talvez fosse Lishu.
— Oh, sério? E daí? Você só quer ficar no meu caminho! Você está sempre no meu caminho! — A mulher estava obviamente irritada com Lishu. Em algum nível, Maomao estava realmente feliz em ouvir alguém sendo abertamente hostil pela primeira vez. Mas as palavras foram seguidas pelo som de um tapa.
Maomao voltou para seu quarto, depois espiou o corredor. Do quarto ao lado emergiu uma mulher que praticamente exalava elegância. Ela escondia a boca com um leque dobrável, mas seu nariz estava claramente empinado. As damas de companhia que aguardavam do lado de fora fizeram uma reverência; duas delas seguiram a jovem dama, enquanto a última entrou no quarto. Expulsar todos para que as duas mulheres pudessem ter sua briga era tudo bem, mas talvez Maomao devesse aconselhar a jovem dama que na próxima vez ela deveria fechar as janelas também.
Quando ela teve certeza de que a mulher desconhecida desapareceu no próximo corredor, Maomao foi bater na porta do quarto de Lishu. A dama de companhia atendeu, parecendo aliviada quando viu que não era a jovem mulher voltando para mais.
— Posso entrar? — Maomao perguntou, alto o suficiente para que Lishu pudesse ouvi-la. A dama de companhia recuou para dentro do quarto em um trote rápido, mas logo voltou. — Por favor, entre — disse ela. Maomao sabia que a chefe de damas de companhia habitual de Lishu não estava com ela nesta viagem, mas a substituta parecia bastante profissional.
A Concubina Lishu estava sentada em uma cadeira quando Maomao entrou, mas pelo estado desarrumado dos cobertores na cama, Maomao adivinhou que a jovem concubina tentou se enterrar debaixo dos cobertores depois daquele encontro desagradável. O travesseiro estava salpicado com manchas úmidas, e o cabelo de Lishu estava levemente despenteado. Ela não olhava diretamente para Maomao, não porque não quisesse fazer contato visual, mas parecia que tentava esconder a marca do tapa em sua bochecha, que parecia vermelha e quente.
— Posso ver? — Maomao incentivou. Lishu não disse nada, mas quando percebeu que Maomao estava perfeitamente ciente do que aconteceu, ela obedientemente levantou a cabeça. — Talvez você pudesse buscar um pouco de água para nós — Maomao disse à dama de companhia pragmática. A mulher lhe deu um olhar francamente desconfiado, e Maomao decidiu pressioná-la um pouco: — Minha nossa, e você estava tão disposta a deixar o quarto para a última visitante. — Isso fez a mulher se mover.
Maomao ficou em frente a Lishu e pegou seu queixo em suas mãos. Sua bochecha estava quente, mas logo esfriaria. — Posso ver o interior de sua boca? Só por precaução?
Lishu pareceu um pouco envergonhada, mas abriu a boca como Maomao pediu. Seus dentes brancos e bonitos estavam todos seguros, e não parecia haver cortes em suas bochechas ou em sua língua. Mas o que é isso? Maomao, intrigada, encarou fixamente a boca da jovem mulher. Lishu começou a ficar cada vez mais sem graça, até que Maomao finalmente se sentiu mal o suficiente para parar de olhar.
— Parece que você teve uma visitante bastante violenta. Posso perguntar quem era? — Maomao disse.
— Era minha meia-irmã — Lishu respondeu.
Após a morte da mãe de Lishu, seu pai Uryuu rapidamente tomou outra esposa. Sua nova esposa já tinha sido concubina dele, e Lishu já tinha meio-irmãos naquela época. A jovem anterior, uma irmã mais velha, era uma delas. Os pais de Lishu eram primos de segundo grau e, assim como no clã Shi, a mãe de Lishu pertencia à casa principal do clã U, que então adotou seu pai. O que diferia do clã Shi era o tratamento de Lishu, filha da esposa legítima de Uryuu. Os pais da mãe de Lishu, os avós de Lishu, já haviam morrido, deixando o verdadeiro poder nas mãos de Uryuu. Ele questionou a castidade de sua esposa e, como resultado, ignorou completamente Lishu, algo um tanto insignificante, pensou Maomao, considerando que ele já tinha filhos com uma concubina. Se ela realmente fosse secretamente filha do Imperador, seu pai não teria visto isso como uma vantagem a ser explorada por si só? E, de qualquer forma, ao que tudo indicava, ele favorecia a irmã mais velha de Lishu.
— Todas aquelas perguntas sobre pais e filhos... Foram talvez inspiradas por sua honorável irmã mais velha? — Maomao perguntou. Lishu não respondeu, mas Maomao tomou seu silêncio como afirmação. — E a razão pela qual você recusou-se a terminar de expressar completamente seu pensamento quando se tratava daqueles bandidos, foi porque você tinha uma certa suspeita sobre quem estava por trás disso?
Maomao não queria pensar nisso, mas não era de forma alguma impossível que uma irmã mais velha ficasse com ciúmes de uma mais nova e tentasse mandá-la assassinar.
Desta vez Lishu reagiu: — Receio não saber. — Mas sua expressão, pelo menos, transmitiu que ela havia sido vítima de considerável crueldade.
Como eles iriam comer individualmente esta noite, Maomao teve uma ideia. — Posso jantar com você esta noite, milady? Talvez pudéssemos chamar à Lady Ah-Duo para se juntar a nós.
Ao ouvir o nome de Ah-Duo, o rosto de Lishu se iluminou. Maomao tinha plena certeza de que Ah-Duo aceitaria o pedido, e isso lhe daria uma boa desculpa para verificar se havia veneno na comida de Lishu. Alguém que estava disposto a enviar assassinos bandidos certamente não hesitaria em se rebaixar a envenenar uma refeição.
Maomao não sabia de quem Lishu poderia realmente ser filha, mas, fosse de quem fosse, não era culpa dela. Esse pensamento a fez sentir pena da jovem, sim, até Maomao tinha ao menos essa dose de compaixão.
Ah-Duo aceitou de bom grado o convite para o jantar. Quando ela pediu que todas as refeições fossem levadas para um único lugar, o chef preparou com atenção uma sala para elas, um espaço com teto abobadado de vidro colorido, que provavelmente tinha sido trazido de terras ainda mais a oeste. Quando a luz incidia sobre ele, brilhava como uma joia.
— Que lugar impressionante — disse Ah-Duo, acariciando o queixo e assentindo, como se soubesse bem do que se tratava. Os olhos da Concubina Lishu brilhavam quase tanto quanto o vidro. Já Maomao se perguntava o que eles haviam feito com o material para obter aquelas cores. — Tem certeza de que podemos usar isso? — perguntou Ah-Duo ao chef, que sorriu.
— A jovem senhorita costumava comer aqui com suas amigas o tempo todo, mas o lugar quase não tem sido usado nos últimos anos. — (A jovem senhorita... será que ele quis dizer a Imperatriz Gyokuyou?) — Toda a estrutura foi trazida de outra terra, onde originalmente servia como local de culto para a divindade deles. Fiquem à vontade, desde que isso não as incomode. Naturalmente, não encontrarão nenhum fiel por aqui!
Justo: ainda assim, parecia um pouco estranho. O país não tinha uma política de erradicar hereges, mas Maomao também não gostaria de ser pressionada a se converter.
— Não me incomoda — disse Ah-Duo.
— Se Lady Ah-Duo aceita, então com certeza...
— Como será que fizeram esse vidro?
Satisfeito ao ver que não haveria problemas, o chef ordenou que um criado começasse a arrumar a mesa. O lugar estava impecavelmente limpo; ele passou o dedo pelas superfícies como uma sogra exigente à procura de poeira, mas não encontrou nada.
Ah-Duo comentou que havia convidado Suirei, mas ela tinha recusado. Ah-Duo parecia estranhamente afeiçoada a Suirei, mas havia um detalhe curioso na situação: com quatro pessoas ali, aquilo quase lembraria um encontro duplo, mesmo sendo todas mulheres.
Maomao teve a impressão de que alguma sombra, alguma figura escondida, as observava com saudade do outro lado do corredor, mas decidiu ignorar. Em vez disso, as três aproveitaram a atmosfera exótica e a refeição deliciosa.
— Ficarei feliz em arrumar tudo aqui — disse Maomao. O jantar havia terminado, e ela decidiu mandar Ah-Duo e a Concubina Lishu de volta primeiro. O quarto de Ah-Duo ficava na diagonal em relação ao de Lishu, então ela estava confiante de que não teriam nenhum problema com a irmã mais velha da concubina, que costumava intimidá-la.
— Eu ajudo — ofereceu Ah-Duo.
— Não precisa, senhora. Eu só vou chamar um criado.
Ah-Duo havia dispensado o criado depois que a comida chegou, dizendo que queria conversar. Na verdade, porém, foram principalmente ela e Lishu que falaram, enquanto Maomao fazia apenas intervenções educadas de vez em quando. Conversaram sobre o que havia acontecido na viagem, compartilharam lembranças passageiras e comentaram como a cidade era animada. Uma conversa comum, sem dúvida, mas Lishu claramente estava se divertindo; sorriu o tempo todo.
A residência da família de Gyokuyou acabou sendo bastante grande; Maomao quase se perdeu tentando encontrar um criado.
Acho que devia virar à direita aqui... pensou enquanto caminhava, quando percebeu alguém atrás dela. Cada vez que andava, ouvia passos acompanhando os seus, mas eles paravam sempre que ela parava. Ao se virar, encontrou Basen, olhando para ela de forma constrangida.
Ela não disse nada.
Ele não disse nada.
Por fim, ela perguntou:
— Aconteceu alguma coisa, senhor?
— Ah, não... nada — respondeu ele, mas, péssimo mentiroso que era, desviou os olhos.
— O senhor está perdido?
— Q-quem, eu? Não...
Maomao começou a se perguntar seriamente se Basen conseguiria sobreviver como braço direito de Jinshi. Era quase cômico observá-lo. Pressioná-lo agora seria cruel, então ela decidiu fingir que acreditava.
— Já que está aqui, poderia me acompanhar até meu quarto? Fica bem longe, no anexo.
— Sim, suponho que isso seria o mínimo de cavalheirismo — disse Basen. Pelo que Maomao lembrava, o quarto dele ficava no prédio ao lado do dela. Se o levasse até lá, nem ele conseguiria se perder no resto do caminho.
Que trabalho dava esse homem. Maomao era gentil o bastante para ajudar, mas não para entretê-lo com conversa, não sendo ele tão complicado assim. Ela pensou que caminhariam em silêncio, mas Basen acabou puxando assunto.
— Diga, você sabe que tipo de pessoa é a Concubina Lishu? — perguntou ele, suas palavras pontuadas pelo bater de seus passos.
— Acho que o Mestre Jinshi estaria em melhor posição para responder isso do que eu. Talvez devesse perguntar a ele.
— Esse é o problema. Não posso — respondeu Basen, muito sério.
Ah. Entendi. Ele sabia que um dos objetivos da viagem era encontrar uma esposa para Jinshi, e estava tentando avaliar uma das candidatas, a relativamente fácil de entender Lishu.
— Acho que é uma pergunta bem complicada — disse Maomao, após um momento.
Lishu podia ser tímida e chorona, e ainda parecia muito jovem em vários sentidos, mas, ao mesmo tempo, isso também significava que ela ainda preservava sua inocência. Nem todo mundo gostava de alguém tão infantil, mas Lishu era, no fundo, uma pessoa adorável, que podia despertar o instinto protetor de um homem.
— Você está falando sério?
— Por que duvidaria de mim?
Basen cruzou os braços e a encarou; Maomao fez um gesto para que ele a seguisse e o conduziu para fora do corredor, escondendo-se atrás de uma rocha no jardim. Estava frio, e ela queria resolver aquilo logo.
— Porque tanto o Mestre Jinshi quanto meu pai hesitaram quando ouviram esse nome.
— Hesitaram em quê? — perguntou ela, fingindo ignorância. Se ele soubesse dos rumores de que Lishu era filha do Imperador, Maomao tentaria contornar o assunto.
Mas Basen começou a murmurar rapidamente:
— Ela é do clã U, e eles têm exagerado um pouco do poder ultimamente. Não o suficiente para recusá-la, mas... Não, na verdade...
— Por favor, não fique falando sozinho, senhor — disse Maomao, ignorando convenientemente o próprio hábito.
— Você não vai contar a ninguém o que vou dizer?
— Se essa é a condição, prefiro nem ouvir.
— Você já ouviu até aqui! Deixe eu desabafar! — Ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela: — Estão falando em dar a Concubina Lishu em casamento. Especificamente, para o Mestre Jinshi.
— Oh céus.
Ela já sabia, então sua surpresa foi superficial. Isso pareceu irritar Basen.
— Isso não te incomoda? Não acha isso horrível?
— Cof... Acho que devo me preocupar mais comigo mesma do que com os outros. Já que eu passei da idade, afinal.
— Agora que você falou, faz sentido.
O fato dele concordar tão facilmente talvez explicasse por que ele não era muito popular entre as mulheres.
Jinshi e a Concubina Lishu. Eles tinham idades ideais: ele, vinte; ela, dezesseis. Em aparência, Jinshi parecia um pouco mais velho, mais maduro, mas ainda assim formariam um casal perfeitamente comum. Tirando o filho da Imperatriz Gyokuyou, Jinshi tinha uma reivindicação bastante forte ao trono; enquanto isso, Lishu provavelmente prosperaria mais ao lado dele, que ainda não tinha outras esposas, do que em meio à competição brutal do palácio interno.
Nessa situação, Lishu talvez não se tornasse a mãe da nação, mas poderia ao menos ser esposa de um primeiro-ministro. É verdade que isso a tornaria inimiga de todas as mulheres do país e de uma parcela nada desprezível dos homens, mas sua posição também impediria que ela fosse facilmente descartada.
Pessoas poderosas precisavam usar o casamento como ferramenta política. Para elas, o “amor livre” defendido por Pairin, irmã de Maomao, não passava de fantasia. Mesmo considerando a possibilidade de Lishu ser parente próxima de Jinshi, ainda assim, tinham mães diferentes. Tudo ficaria bem. Talvez não fosse o ideal do ponto de vista da saúde, mas Basen provavelmente não sabia dessa parte da situação de qualquer maneira.
No momento, Lishu parecia a candidata mais forte. Maomao encarou o homem ao seu lado: Basen, irmão de leite de Jinshi, devia entender isso tão bem quanto ela. Ainda assim, a ideia claramente o incomodava. Maomao achava que sabia o por quê. Em resumo: ele estava imaginando Lishu como cunhada. Queria avaliar por si mesmo se ela era digna do belo e competente mestre a quem servia.
— Meu pai não parecia nada satisfeito — disse Basen. Parecia que era isso que o havia feito tocar no assunto.
Compreensível, pensou Maomao. Afinal, Gaoshun provavelmente sabia mais sobre o nascimento de Jinshi e de Lishu do que Basen.
Quanto ao próprio Jinshi, ele provavelmente poderia se decidir de qualquer maneira em relação a Lishu. Ela era certamente bonita o suficiente e, com mais alguns anos, provavelmente ganharia um pouco de maturidade. Não era especialmente talentosa, mas também não parecia do tipo que tornaria a vida dele difícil. Tudo bem, sua família era complicada, mas que casamento não traz algum problema com os parentes?
— Talvez ela tenha algum defeito — disse Basen, quase ansioso demais.
Talvez não devesse colocar dessa forma, Maomao o aconselhou em voz baixa. Se alguém o ouvisse, ele poderia acabar apanhando.
— Se está tão preocupado, por que não vai vê-la você mesmo?
— O quê?
— Claro, você não a conhece agora, e, nesta viagem, ela usa véu sempre que aparece diante de um homem. Mas ela vai se soltar à medida que se acostumar com você. Pelo menos um pouco.
De fato, Lishu já conversava às vezes na presença de Suirei. Nunca falava diretamente com ela, ela acreditava que Suirei era homem, mas ainda assim. Maomao só ficou feliz por Lishu não ter conhecido Suirei na época do palácio interno. Talvez tenham se cruzado uma ou duas vezes, mas nada que tivesse ficado na memória de Lishu.
— Foram você e seus homens que salvaram a carruagem de Lady Ah-Duo, não foram? É a desculpa perfeita para visitá-la, e se aproximar um pouco da Concubina Lishu.
— Ah... sim... — respondeu Basen, meio sem convicção, sem encará-la. — Só fico preocupado... Bem, ela é uma mulher... E mulheres não têm medo de alguém como eu?
Hã? Maomao não fazia ideia do que ele queria dizer.
— Isso vindo do homem que mal saiu do meu bordel com a virgindade intacta.
— Fique quieta sobre isso! — exclamou Basen, corando intensamente ao lembrar de Pairin. Infelizmente, o grito chamou atenção. Ouviram passos se aproximando.
Basen tampou a boca de Maomao com a mão, com tanta força que ela quase gemeu de dor. Foi ele que gritou! Pensou, irritada, mas permaneceu em silêncio.
— Tem alguém aí? — perguntou uma voz educadamente. Pareciam várias pessoas se aproximando. Maomao achou que conseguia ouvir o coração de Basen disparado ao lado dela; ele ainda não a soltava. Força ele tem, pelo menos, pensou ela, desconfortável, esperando que ele a largasse logo.
Era difícil enxergar no escuro, mas pareciam três homens. Eles pararam, mas um deles se aproximou mais, até ficar a apenas alguns passos de Maomao e Basen.
— Acho que devo ter me enganado — disse o homem, virando-se para ir embora.
Então, porém, uma voz familiar falou: — Talvez. Mas onde diabos foi parar o Basen?
Basen conteve um suspiro; agora seu coração parecia ainda mais acelerado. Ouviu-se um estalo: um galho quebrando.
Ah, por...
Era Jinshi, procurando por Basen. E com ele estavam ninguém menos que Lahan, o homem de óculos, e Rikuson, um cara estiloso na casa dos trinta.
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