Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 9: A Vila do Papel

Depois de viajarem dois dias para o oeste de carruagem, chegaram ao vilarejo que era a terra natal do médico charlatão. Ela ficava ao lado de algumas montanhas e de uma floresta, rio abaixo da nascente do grande rio que dividia o país ao meio. Valas acompanhavam o rio, mas parecia que apenas ervas daninhas cresciam nos campos.

Maomao olhou atentamente para eles, e o charlatão, que adorava falar, foi gentil o bastante para explicar. Ele manteve a voz baixa, talvez por deferência a Basen, que estava sentado na diagonal em frente a eles. Jinshi sentou-se ao lado de Basen, mas o charlatão ainda não tinha descoberto quem ele era.

— Aquilo é cevada — disse ele.

— Cevada, senhor? Parece extraordinariamente bem irrigada.

As valas percorriam todo o redor dos campos, mas Maomao não achava que a cevada precisasse de tanta água.

Maomao, a gata, estava aos seus pés. Ela se cansou de andar na cesta e alternava entre se esticar nos joelhos do médico e espiar pela janela. Ela, pelo menos, parecia saber quem Jinshi era, e às vezes se aninhava contra seus tornozelos. Basen mantinha distância dela, talvez nunca tivesse lidado com gatos antes. Parecia haver muitas coisas com as quais ele não lidava muito bem.

— Aquilo é para a temporada de arroz do verão. Aqui eles cultivam duas safras por ano, veja bem: arroz e cevada.

— Ahh.

— Se você se limitar ao arroz de terras alagadas, pode plantar outra safra no mesmo campo sem esgotar o solo — acrescentou o charlatão.

Cultivar duas safras no mesmo ano significava retirar ainda mais nutrientes do solo, mas a água das plantações de arroz, na verdade, restaurava nutrientes na terra, protegendo contra o esgotamento. Uma forma ideal de cultivo para uma região tão rica em água.

Quando passaram além dos campos, a floresta entrou em vista, com o vilarejo aninhado próximo a ela.

— Parece haver uma grande variedade de recursos naturais por aqui — comentou Maomao. Tantos, pensou ela, que não parecia haver uma razão forte para se concentrar na produção de papel; mas havia outros fatores em jogo.

— Quando chegamos aqui, as terras planas já pertenciam a outra pessoa — explicou o charlatão. — Mas ninguém tinha dado muita atenção à floresta.

Aquela floresta, com a água das montanhas próximas correndo através dela, fornecia os recursos para a indústria de papel do vilarejo. Não havia o suficiente para produção em grande escala, mas eles conseguiram prosperar ao focar na qualidade. Felizmente, o rio também servia como um meio conveniente de transportar os produtos. Os dois grupos produziam coisas diferentes, então os moradores do vilarejo se davam bem com os habitantes originais da terra.

— Quando chegamos aqui, o proprietário da terra era um sujeito muito decente — disse o charlatão.

Porém, algo incomodava Maomao. Enquanto passavam pelos campos, seus olhos encontraram os de um agricultor que pisoteava a cevada. Aquilo era uma forma de fortalecer o grão, mas a maneira como ele fazia parecia quase furiosa. O olhar que ele lhe lançou era duro, sombrio.

Maomao fingiu que não tinha visto, voltando-se para continuar a conversa com o médico.

 

Quando chegaram ao vilarejo, foram recebidos por uma mulher que parecia ter por volta de quarenta anos. A suavidade de seus olhos, e a forma como pareciam levemente caídos, lembraram Maomao do próprio charlatão. Aquela mulher devia ser a irmã mais nova dele, concluiu ela.

O charlatão entregou a gata à mulher, que sorriu e acariciou seu pelo. Ele devia ter avisado com antecedência que traria o animal. Mas evidentemente não contou que viajaria com uma comitiva inteira, pois ela olhou para Maomao e os outros com surpresa.

— Ah, irmão mais velho, bem-vindo de volta — disse ela.

— Sim, obrigado. É bom estar de volta. — O charlatão parecia bastante calmo, mas lágrimas surgiram nos cantos de seus olhos. Era difícil culpá-lo, um homem vendo sua casa novamente pela primeira vez em mais de dez anos. — Eu gostaria de visitar os túmulos — disse ele. — Sabe... do pai e...

Eles deviam ter morrido enquanto ele estava no palácio interno. Ele fungou audivelmente.

— Sim, claro. Mas, se não se importar que eu pergunte…

A mulher lançou um olhar para Maomao e os outros. — Esses são… seus amigos? — Quando a mulher olhou para eles, Maomao percebeu que ela os avaliava como uma dona de casa calculando mentalmente as preparações do jantar. 

 

— Ah! Então este é seu superior do trabalho, e esta é sua assistente. Você poderia ter dito isso antes.

Então agora eu sou a assistente dele. Aquilo não era exatamente verdade, mas também não era exatamente mentira. O mesmo podia ser dito da palavra superior, mas como Basen escolheu não dizer nada, aparentemente pretendia seguir o jogo.

A tia Charlatã (ela tinha dito seu nome, mas foi difícil de entender e Maomao francamente não se lembrava, então simplesmente decidiu pensar nela assim) estava ocupada enchendo a mesa de comida. Peixe de água doce cozido no vapor com ervas, baozi em uma cesta de vapor e arroz frito dourado e brilhante, tudo parecia delicioso. Parecia perfeito, na verdade, considerando que ela teve que preparar tudo às pressas para dar conta do tamanho do grupo. Havia até uma mistura de peixe com mingau para a felina Maomao, que comeu com entusiasmo e sem a dignidade normalmente associada aos gatos. Ela certamente teria agarrado o peixe da mesa se achasse que conseguiria sair impune.

— Preciso dizer, nunca imaginei que um eunuco como você voltaria para casa com uma noiva jovem tão bonita.

— Ha ha ha!  Receio que não seja bem assim.

— Suponho que não!

A troca de provocações veio acompanhada do som de uma tigela batendo em algo duro. Maomao olhou e viu que Jinshi tinha deixado cair sua bandeja.

— Nossa! Não se preocupe, já trago outra bandeja para você — disse a Tia Charlatã, recusando-se a ignorar o homem com a inquietante cicatriz de queimadura.

Na opinião de Maomao, se Jinshi realmente ia interpretar o papel de servo, deveria ter ficado com a carruagem e comido rações de viagem ou algo assim. Basen provavelmente não permitiu. O disfarce de Jinshi era perfeito, Maomao esperava que eles não se entregassem por algum pequeno deslize como aquele.

Quando toda a comida estava na mesa, a família da Tia Charlatã chegou. Havia dois homens mais jovens e um homem de meia-idade com um lenço amarrado na cabeça. Presumivelmente, o homem de meia-idade era o marido da Tia Charlatã, e os outros eram seus filhos.

— Cunhado. Quanto tempo! — disse o marido, retirando o lenço e cumprimentando respeitosamente o charlatão.

— Sim, muito tempo mesmo — respondeu o charlatão, sorrindo.

Um dos filhos seguiu o pai ao cumprimentar o médico, mas o outro ignorou completamente o charlatão, sentando-se e começando a comer com entusiasmo.

— Pare com isso! Como ousa nem sequer cumprimentar seu tio! — disse a tia, lançando um olhar furioso ao rapaz.

— Irmão mais velho… — disse o outro filho, olhando para o jovem com expressão aflita.

Então ele era o mais novo, e o homem de atitude desagradável era o irmão mais velho.

O sobrinho Charlatão nº 1 abriu um baozi e deu uma mordida. Ele estava recheado de carne de porco, fazendo a boca de Maomao salivar.

— Você diz que devo respeitar meu tio? Ele é um eunuco que não aparece em casa há séculos. O que está fazendo aqui agora? E ainda arrastando um monte de visitantes com ele?

Diante disso, o charlatão exibiu um daqueles sorrisos constrangidos de sobrancelhas caídas nos quais parecia ser especialista. A essa altura ele já estava acostumado a ser ridicularizado por ser eunuco, mas sofrer tal zombaria do próprio sobrinho devia ser doloroso. Até Maomao se sentiu incomodada com a atitude do rapaz. Ela ia ficar sentada vendo aquele sujeito falar besteira e ainda comer toda a comida boa? Claro que não. Ela se sentou firmemente na cadeira.

— Se não se importarem, vou começar antes que esfrie — disse ela, e então habilmente pegou exatamente o pedaço de comida que o sobrinho estava prestes a pegar.

Ele lançou um olhar feio para ela, mas ela não se importou. Conhecia muitos criados e soldados muito maiores e mais fortes do que aquele sujeito. Basen parecia querer falar algo, mas se acalmou quando viu Maomao lidar com a situação. Jinshi, por sua vez, manteve a compostura.

A Tia Charlatã estava obviamente furiosa, porque quando trouxe o mingau e a sopa havia porções para todos, exceto para o filho mais velho. O marido e o filho mais novo, claramente sabendo o que era melhor para eles, escolheram não comentar. O filho mais velho, talvez sentindo-se injustiçado pela forma como a família o tratava, pegou outro baozi e saiu da sala com passos pesados.

Quando o rapaz foi embora, o marido da Tia Charlatã, coçando a cabeça com constrangimento, inclinou-se diante do médico.

— Sinto muito, cunhado. Ele não sabe o quanto você trabalhou por este vilarejo, o quanto se sacrificou. E ainda por cima na frente do seu superior.

— Ah, está tudo bem. Não me incomoda. Estou acostumado com coisas assim — respondeu o charlatão, embora parecesse bastante consciente da presença de Basen.

Maomao cutucou Basen com a ponta do dedo, e ele deu um pequeno salto antes de dizer:

— Nós é que devemos pedir desculpas por aparecer tão de repente.

Então ele conseguia ser educado quando a situação exigia. Que alívio. Provavelmente estava sendo incentivado a se comportar pelo olhar insistente que Jinshi lhe lançava.

— Muito bem, muito bem. Então está tudo certo — disse o charlatão, tomando um gole de mingau com satisfação.

Para ele, dizer que estava “acostumado com coisas assim” foi apenas um comentário casual, mas a Tia Charlatã claramente ficou perturbada com aquilo. Foi para impedir que ela fosse vendida ao palácio interno que o charlatão aceitou se tornar eunuco. E isso mesmo que, presumivelmente, os pais valorizassem mais um filho do que uma filha.

— No entanto… sei que não vim aqui apenas para jantar. Não há algo que vocês gostariam de conversar comigo? — disse o charlatão. O resto da família ficou em silêncio. Parecia que tinham chegado ao verdadeiro motivo dele ter voltado.

Quanto a Maomao, ela era apenas parte da plateia, então não tinha intenção alguma de parar de comer. O peixe cozido no vapor estava perfeitamente salgado, e as ervas apareciam de forma maravilhosa. Ela teria que perguntar à tia o que ela tinha feito.

O marido pousou os hashis de lado e olhou para o charlatão e então, após um instante, abaixou a cabeça.

— Cunhado, ouvimos dizer que você se tornou um médico renomado, tão famoso que até realizou o parto do próprio filho do Imperador. Você deve ter a atenção de Sua Majestade e pedimos que faça um favor pessoal a ele por nós.

— Hã?!

Realizou o parto do filho do Imperador? Na verdade, quem tinha feito o parto foi seu pai adotivo, Luomen, mas conhecendo o charlatão, ele talvez tenha exagerado a história em alguma de suas cartas. Mesmo assim, até Maomao tinha decência suficiente para ficar em silêncio naquele momento. Basen franziu levemente a testa, e Jinshi parecia olhar para algum ponto distante.

O charlatão, por sua vez, pousou os próprios hashis, com as sobrancelhas ainda mais caídas que o normal.

— Pedir que Sua Majestade me escute estaria muito além da minha posição.

— Mesmo tendo acompanhado o parto da concubina imperial?

Era impossível. Até os mais altos oficiais só às vezes tinham permissão para falar com o Imperador; até mesmo solicitar uma audiência pessoal poderia ser considerado um ato de desrespeito e custar a cabeça do charlatão. A própria Maomao teve a honra de falar com o Imperador várias vezes, mas em todas elas foi porque Sua Majestade permitiu pessoalmente. E agora Gyokuyou não era mais apenas uma concubina, mas a Imperatriz. Entrar em contato com ela seria difícil.

Nesse ritmo, parecia provável que o charlatão acabasse recebendo a tarefa de qualquer forma, e se Basen resolvesse interromper com algum comentário desajeitado, isso não ajudaria em nada. Então Maomao decidiu assumir a conversa.

— Um antigo médico do palácio interno se envolveu em assuntos que não eram de sua responsabilidade, e acabou sendo punido com mutilação e depois banido do palácio — disse ela.

Os outros pareceram assustados.

— Dizem que ele foi tolo o bastante para descobrir algo que não precisava saber, dizem que foi por isso que se meteu em problemas.

Ela estava falando do próprio pai, é verdade, mas não estava realmente mentindo. Por um instante se perguntou se era seguro dizer tanto quanto tinha dito, mas não houve reação de Basen nem de Jinshi, e ela ficou feliz por não ter provocado nenhuma travessura da parte deles.

A Tia Charlatã e sua família engoliram em seco e trocaram olhares inquietos. Seus ombros caíram.

O charlatão, porém, inclinou-se para frente, acenando com a mão.

— É verdade que provavelmente não posso falar com Sua Majestade, mas há outras pessoas com quem talvez eu consiga entrar em contato. Digam-me o que está acontecendo.

A Tia Charlatã e o marido trocaram um olhar. Maomao se perguntou se talvez estivesse se intrometendo, mas já que tinha chegado até ali queria ouvir o resto. Jinshi e Basen, aparentemente pensando o mesmo, não deram sinal de que pretendiam sair.

— Por favor, falem. Não posso prometer o quanto poderemos ajudar, mas pelo menos podemos ouvir — disse Basen. As palavras pertenciam mais propriamente a Jinshi, mas ali Basen falava em seu nome.

O charlatão olhou para eles, assentiu e então disse: — Vocês podem confiar nessas pessoas. — Foi um daqueles raros momentos em que ele dizia a coisa certa na hora certa.

— Bem… se você diz — respondeu lentamente a Tia Charlatã. Então ela começou a falar. — O problema tem a ver com os direitos de terra do vilarejo.

A terra onde o vilarejo foi construído, explicou ela, na verdade era alugada. O dono, que morava por perto, não a utilizava, então estava disposto a alugá-la por um preço baixo, mas, com o passar dos anos, os dois lados começaram a falar sobre vender a terra de vez. O proprietário da época era um homem tranquilo que se dava bem com os moradores do vilarejo, ou assim dizia a tia.

Alguns anos atrás, porém, aquele homem morreu, e seu filho assumiu como proprietário, e então as coisas começaram a mudar. Diferente do pai, o novo proprietário desprezava estrangeiros e tinha o péssimo hábito de olhar com desdém para os artesãos.  Quando a aldeia recebeu uma encomenda imperial para fornecer papel à corte, ele mal conseguiu suportar a situação.

Na época em que a qualidade do papel do vilarejo caiu, o novo proprietário apareceu várias vezes exigindo o pagamento da dívida. De acordo com o contrato com o proprietário anterior, a terra e a floresta eram emprestadas aos moradores por vinte anos. O valor do pagamento estava claramente estipulado, e o vilarejo sempre pagava em dia.

— Mas ele continuava insistindo que a colheita de arroz estava baixa porque estamos poluindo a água. Dizia que eles não tinham água suficiente para plantar arroz — disse o Filho nº 2, com expressão aflita no rosto. — Recentemente ficou ainda pior. Ele nos disse para pagar imediatamente ou sair da terra dele.

Ainda restavam cinco anos de contrato. O vilarejo dificilmente conseguiria reunir cinco anos de pagamento de uma só vez, e em tão pouco tempo. Mas estavam lidando com o proprietário da terra. Assim como Maomao não podia mandar na velha madame, o vilarejo precisava agir com cuidado.

— Se tivermos que sair, nossas casas e a maior parte do que temos terão que ficar aqui. E quem sabe quanto tempo levaríamos para encontrar outro lugar para viver?

— Achamos que eles simplesmente querem nos expulsar do vilarejo para se mudarem para cá e começarem a fabricar papel eles mesmos.

— Por que diabos eles fariam isso? Eles sabem plantar arroz e nós sabemos fazer papel, e cada um deveria cuidar do próprio trabalho — disse o charlatão, seu bigode fino balançando suavemente. Maomao, a gata, já tinha terminado de comer e não tinha nada para fazer. Ao ver aquilo, agachou-se, preparando-se para saltar no bigode.

— Pode parecer assim — disse a tia, balançando a cabeça. — Mas o imposto sobre os  grãos disparou de repente este ano.

— Enquanto o imposto sobre nosso papel diminuiu alguns anos atrás. Pode acreditar que isso não melhorou em nada as relações.

Ah, então é isso.

A redução do imposto sobre papel claramente vinha do desejo de tornar o papel mais comum e, no fim das contas, melhorar a alfabetização. Quanto ao aumento do imposto sobre o arroz, provavelmente pensaram que não seria um peso tão grande para uma região que produzia duas colheitas por ano. E, ao mesmo tempo, isso ajudaria a reforçar as reservas para o que estava por vir.

Maomao lançou um olhar discreto para Jinshi. Ele parecia calmo o suficiente, mas ela podia vê-lo se mexendo um pouco.

Isso deve ter a ver com os danos causados por insetos, pensou. Enviar colheitas das regiões abundantes para os lugares mais atingidos significaria menos gente morrendo de fome. Ela sabia que era simplesmente Jinshi e todo o governo tentando fazer o que podiam, e não achava que estivessem errados. Mas as pessoas que tiveram seus impostos aumentados estavam, compreensivelmente, infelizes. Devem ter achado que precisavam compensar a diferença de outras formas. Por exemplo, pressionando este vilarejo.

Mas como o charlatão tinha dito, não era como se alguém pudesse simplesmente se mudar para o vilarejo e começar a fabricar papel. Havia certas coisas que era preciso saber; sem experiência, não era algo óbvio de se fazer corretamente.

— O problema é que temos outra dificuldade também: ele — disse o marido, aparentemente se referindo ao jovem de atitude desagradável. — Por certos motivos, ele está mais do lado dos agricultores daqui.

— Meu irmão, ele... — O irmão mais novo sorriu de forma constrangida. — Como posso dizer isso? Ele foi... influenciado. — Ele parecia quase incapaz de dizer as palavras.

— Tenho vergonha de admitir, mas o rapaz não sabe muita coisa. Ele acha que todos os funcionários públicos são iguais. — Então era por isso que ele tinha atacado o charlatão, devia ver os eunucos como iguais aos burocratas que aumentaram os impostos. — É por isso que precisamos da sua ajuda.

O pedido era simples: conseguir que os impostos fossem reduzidos.

Isso não vai acontecer, pensou Maomao. Era impossível, mesmo com Jinshi sentado ali. Se uma ordem dada pela manhã fosse revogada à tarde, o país mergulharia no caos. Talvez fosse diferente se aquelas pessoas estivessem à beira da fome, mas, pelo que ela via, a situação não parecia tão grave assim.

Aquilo também colocava o médico charlatão em uma posição extremamente desconfortável. Na verdade, não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer. A gata sentou-se em seu colo, batendo em seu bigode trêmulo e deixando arranhões em seu queixo.

— Receio que eu seja apenas um eunuco, veja bem... — disse ele.

Os ombros da família caíram. O marido, porém, se recompôs da decepção e disse: 

— Haverá uma reunião amanhã. Talvez você possa ao menos nos acompanhar?

— Sim, isso eu posso fazer...

Ele lançou um olhar para Maomao. Ela repassou o olhar para Basen.

— Eu poderia participar também? — perguntou Basen. Ele tentou parecer despreocupado, mas não conseguia esconder o interesse; de certa forma, ele próprio estava diretamente envolvido na questão. — Gostaria de estar presente como uma terceira parte envolvida — explicou.

— Bem... — começou o marido, mas não continuou. Provavelmente não se importava com a presença de Basen, mas suspeitava que o proprietário da terra pudesse se opor.

— Ficarei apenas no fundo e não me meterei em nada. Só falarei se a outra parte se tornar agressiva demais — disse Basen.

O marido assentiu, ainda um pouco relutante.

— E eu estarei lá, é claro — disse o charlatão.

Não que ele vá ajudar em alguma coisa, pensou Maomao. Ela, porém, se perguntou se talvez também pudesse estar presente. Pegou a outra Maomao do colo do charlatão bem quando a gata dava mais um arranhão.

 

O marido da Tia Charlatã era o chefe do vilarejo, e a casa da família tinha espaço suficiente para hospedar alguns visitantes durante a noite. O grupo de Maomao planejava ficar em uma estalagem na estrada, mas acabaram ficando ali mesmo.

Maomao recebeu um pequeno quarto individual. O charlatão foi colocado no quarto principal, enquanto Jinshi e Basen ficaram em um grande quarto de hóspedes. Os guarda-costas foram alojados em um anexo. Havia camas e esteiras de sobra; trabalhadores temporários eram contratados quando chegava a época de pagar impostos, então havia bastante mobiliário disponível.

A Tia Charlatã se ofereceu para preparar o banho para eles, afinal, eram hóspedes, mas Basen recusou, dizendo que já tinham causado problemas mais do que suficientes. Para falar a verdade, Maomao gostaria muito de se lavar, mas não podia contradizer Basen, que provavelmente estava seguindo instruções discretas de Jinshi.

Em vez disso, Maomao pediu que levassem um balde ao seu quarto e se limpou com uma toalha. Apenas tirou o suor, a água estava fria demais para fazer mais do que isso, mas decidiu lavar o cabelo, que começava a ficar oleoso. Para isso, colocou água quente no balde, mas apenas uma xícara. Soltou os cabelos e, quando estavam bem molhados, adicionou um pouco de sabão. Esfregou o couro cabeludo com cuidado, metodicamente, retirando a sujeira. 

Enxaguou a espuma e envolveu o cabelo encharcado em uma toalha para secar. Seus pés estavam frios, então os mergulhou na água, que ainda estava morna. Enquanto secava o cabelo com cuidado, alguém bateu à porta.

— Pode entrar — disse ela. Mas não houve resposta do lado de fora. Intrigada, ela abriu um pouco a porta e espiou. Ela foi recebida pela visão de um homem inquietante com uma queimadura parado ali.

Ela não disse nada, apenas abriu a porta, e o homem inquietante, ou seja, Jinshi, entrou. A janela do quarto estava fechada, afinal, ela estava se lavando e o quarto ao lado pertencia a Jinshi e Basen. O quarto seguinte ficava um pouco distante.

— Pode falar. Acho que ninguém vai nos ouvir — disse ela.

— Interrompi você enquanto se lavava? — perguntou ele. Sua voz tinha aquela característica celestial. Evidentemente ele não decidiu tentar alterá-la desta vez, o que explicava por que ficou em silêncio antes.

— Só o meu cabelo. Peço desculpas por não estar mais apresentável — disse Maomao, continuando a secar a cabeça enquanto empurrava o balde para um canto do quarto. O espaço era apertado, e a cama era praticamente o único lugar para sentar, então Maomao permaneceu de pé, olhando para Jinshi.

— Você deveria se sentar — disse ele.

— Meu cabelo ainda está molhado — respondeu ela, lançando-lhe um olhar que esperava significar: afinal, por que você está aqui?

Jinshi tocou a queimadura na bochecha e mostrou a ela um pacote embrulhado em pano.

— Gostaria de me livrar disso por um tempo. Você acha que conseguiria reproduzir a maquiagem?

O pacote continha tinta vermelha, cola e um pó branco. A cola era feita com arroz bem triturado e era bastante pegajosa.

Ao examinar de perto, ela viu que a cicatriz de Jinshi começava a afinar; ele suava mesmo quando fazia frio, e quando se deitava para dormir a maquiagem começava a se desgastar.

— Provavelmente. Acho que consigo. — Ela poderia usar cola tingida para enrugar a pele, depois aplicar o pó branco por cima para obter mais ou menos o efeito correto. Acrescentar algumas sombras para deixar o rosto com aparência doentia completaria a ilusão.

— Se você puder, então. Remova isso por enquanto.

Ele mergulhou um lenço no balde.

Ah…

— O que foi?

— Deixe-me preparar água limpa.

— Não, isso seria trabalho demais. Esta está boa.

Maomao não disse mais nada, apenas encarou o balde. Não parecia muito sujo, mas...

— Há algum problema? — perguntou Jinshi.

— Não, senhor, nenhum.

Ela tinha mergulhado os pés no balde depois de lavar o cabelo, mas podia guardar isso para si mesma. Jinshi não parecia incomodado com a água usada, então decidiu que não havia necessidade de se preocupar em buscar mais.

Ela pegou o lenço úmido e esfregou o rosto dele. Era um lenço de algodão bonito e novo, mas logo ficou sujo de tinta e cola. Maomao achou um desperdício; era improvável que o tecido voltasse a ficar limpo daquele vermelho, mesmo com lavagem cuidadosa. Ela desejou que ele tivesse trazido um pano velho menos precioso para usar nisso.

Jinshi fechou os olhos e deixou que ela trabalhasse, aparentemente apreciando a sensação do pano quente e úmido. Ele parecia tão completamente desprevenido que ela chegou a se preocupar que algum assassino pudesse cortar sua cabeça enquanto ele descansava.

Micose no pé não pode passar para o rosto, pode?

Não que Maomao tivesse micose no pé, claro.

[Kessel: kkkkkkkk. Coitado do Jinshi!]

A cola se dissolveu, revelando a pele nua de Jinshi, lisa e saudável, embora houvesse outra ferida ali, uma real, ainda visível, atravessando-a. Ainda havia um pouco de vermelhidão ao redor da cicatriz; provavelmente diminuiria com o tempo, até certo ponto. Mas nunca desapareceria completamente. Ela ficaria com ele pelo resto da vida.

— Mestre Jinshi?

— Sim?

— Por que estamos passando pela casa do médico? E ainda comigo junto?

— Fica no caminho para nosso destino. Pensei que poderíamos dar uma olhada, já que passaríamos por aqui de qualquer forma.

— No caminho para nosso destino?

Para ela, isso significava: a viagem de volta para casa ia levar ainda mais tempo do que a ida. Para onde diabos estamos indo?

— Sinceramente, o momento é conveniente. Assim posso ver de perto a reação ao aumento dos impostos.

— Isso é verdade.

Todos os anos, quando os impostos eram coletados, a quantidade da colheita era comparada com a população local para garantir que ninguém estivesse sendo sobrecarregado. Mas, no fim das contas, eram apenas números, só podiam ser confiáveis até certo ponto.

— Além disso, algo estranho está acontecendo por aqui.

— O quê, senhor?

— Receio não saber exatamente. Só sei que seu primo trouxe o ábaco dele para analisar a situação, e ele acha que algo está errado.

A obsessão de Lahan por números era lendária. Ele era um excêntrico assumido que trabalhava dia e noite em busca de números cada vez mais belos, mesmo que nunca conseguisse torná-los perfeitos. Se ele tinha levado a questão a Jinshi, quase certamente havia algo acontecendo.

— Ele diz que há uma anomalia na quantidade de arroz enviada daqui nos últimos anos. — Excêntrico Lahan podia ser, mas dificilmente se enganaria em algo assim. — Foi isso que me trouxe aqui, mas veja o que mais encontramos. Não podemos permitir que produtores profissionais de papel sejam substituídos por um bando de amadores ignorantes justamente quando estamos tentando aumentar a produção.

Então aquilo era mais do que um simples passeio. Jinshi estava fazendo trabalho de verdade. Agora Maomao se sentia especialmente mal enquanto ele lavava o rosto com sua água de pés.

Jinshi devia estar ficando com sono, pois aos poucos foi se inclinando na cama até se deitar. Pensando em como ele podia dar trabalho, Maomao sentou-se na cama e começou a acariciar suavemente seus cabelos. Ele não usava perfume, mas ainda assim um leve aroma floral vinha dele. Afinal, o quanto ele se parecia com uma daquelas donzelas celestiais?

— Devo refazer sua queimadura agora? Ou prefere esperar até amanhã?

— Agora, por favor.

Sua voz sonolenta era ainda mais sedutora que o normal. Pensando que poderia causar um verdadeiro desastre se o expulsasse do quarto naquele momento, Maomao misturou a cola e a tinta com o dedo. Acrescentou um pouco de água para chegar à consistência certa e começou a aplicar ao redor da cicatriz.

Quem será que pensou nisso? Parecia extremamente convincente. Talvez não resistisse à água, mas eles estavam na estação seca, quando raramente chovia.

— O Mestre Basen não poderia fazer isso?

— Ele não tem exatamente o talento.

— Então foi por isso que você me trouxe?

— Esse não é o único motivo.

Jinshi parecia gostar de contato físico. Ele fechou os olhos como uma criança enquanto ela espalhava a cola com as pontas dos dedos.

— Não durma — advertiu ela. — Vou chamar o Mestre Basen primeiro.

— O quanto você acha que ele ajudaria se fizesse isso?

Não muito, na verdade. Diferente do pai, Gaoshun, Basen ainda não tinha o jeito. Francamente, ela achava que lhe faltava um pouco de firmeza como assistente de Jinshi.

— Por que ele é seu assistente, afinal? — perguntou antes de conseguir se impedir. Parte do problema era que ela não via Gaoshun havia bastante tempo e sentia falta do efeito tranquilizador que ele tinha nela. Sentia falta da ocasional malícia daquele homem de meia-idade.

Jinshi abriu lentamente os olhos um pouco mais; as pupilas escuras mostravam uma sombra de surpresa.

— Hmm. Sei como ele pode parecer, mas ele é... bem, perfeitamente competente quando importa.

— Com todo respeito, senhor, o senhor não parece muito convencido.

Talvez Jinshi fosse um pouco brando com Basen; afinal, eles eram irmãos de leite. Por outro lado, se Basen realmente se sentia à vontade perto de Jinshi, isso já era um tipo de talento por si só.

Maomao terminou a maquiagem da queimadura e estava prestes a lavar a mão pegajosa quando teve uma ideia. Com a mão limpa, pegou sua bagagem e tirou a placa de bronze que usava como espelho. Então tentou pintar aquela mistura ao redor da própria boca. Sorriu, parecendo um monstro.

— Isso está absolutamente horrível — disse Jinshi, rindo.

Maomao, pensando que poderia simplesmente lavar aquilo depois, sentiu vontade de pintar também ao redor dos olhos e das bochechas. Agora um rosto realmente perturbador flutuava na placa de bronze, quase como um cadáver.

Jinshi, completamente absorvido pelo espetáculo, tentava desesperadamente não rir. Ela quase ficou com pena dele, ele parecia estar sofrendo, mas se inclinou para terminar o trabalho.

Nesse momento, alguém bateu à porta e Basen anunciou: — Estou entrando. — A porta se abriu antes que pudessem detê-lo. Seus olhos arregalados foram recebidos pela visão de Jinshi aparentemente curvado de dor, e Maomao inclinada sobre ele, com o rosto e a mão cobertos de algo vermelho.

Ele não disse nada.

Eles não disseram nada.

Pouco depois, Basen não pôde dizer nada. Justo quando estava prestes a gritar por alguém, Maomao enfiou o lenço em sua boca aberta, enquanto Jinshi o imobilizava. Foi a coisa mais coordenada que os dois fizeram desde o dia em que se conheceram.

 

No dia seguinte, Maomao compareceu à reunião com os outros. Eles estavam em um restaurante no vilarejo onde o senhorio morava, não muito longe do vilarejo dos fabricantes de papel. Provavelmente não levaria nem uma hora para ir a pé de um lugar ao outro.

O restaurante, embora sombrio, era bastante grande. O lugar também funcionava como uma estalagem; provavelmente costumava receber viajantes da estrada, não os moradores locais. Na verdade, talvez Maomao tivesse acabado hospedada ali na noite anterior, se não tivessem terminado ficando na casa do charlatão.

Estavam presentes o cunhado do charlatão e seus dois filhos, além de três homens de meia-idade do vilarejo deles. Somando Maomao, Basen e Jinshi, o grupo totalizava dez pessoas. Maomao tinha suas dúvidas se Basen conseguiria proteger Jinshi adequadamente caso as coisas ficassem feias, mas, por outro lado, Jinshi parecia perfeitamente capaz de se proteger sozinho. Provavelmente ficaria tudo bem.

À sua frente estavam nada menos que quinze homens bem constituídos, um dos quais era um homem de meia-idade que se sentava imperiosamente no meio do grupo, acariciando a barba.

O velho e a velha que administravam o estabelecimento observavam todos com um claro ar de irritação. Provavelmente escolheram o lugar já esperando que a situação pudesse ficar violenta, e isso certamente não agradava os donos.

O charlatão estava visivelmente tremendo. Tirando a esposa do dono do restaurante, Maomao era a única mulher ali, e ele parecia preocupado com isso. Ninguém mais, porém, demonstrava qualquer interesse na garota magricela parecida com uma galinha no meio deles; se alguma coisa, alguns estavam cochichando e rindo entre si, tentando entender por que ela sequer estava ali.

Na verdade, não tinha sido fácil para Maomao vir. A Tia Charlatã tentou impedi-la, apontando que, embora ela não parecesse grande coisa, ainda era uma jovem solteira, e seria terrível se algum destino horrível a aguardasse naquele restaurante. Acima de tudo, disse que Maomao simplesmente não tinha lugar naquela reunião.

Mesmo assim, Maomao viu o charlatão olhando para ela com pena; além disso, estava curiosa sobre aquele suposto contrato. — Tenho alguns conhecidos que entendem desse tipo de coisa — acabou dizendo. — Não posso contar a eles o que eu vi? — De certa forma, ela estava esticando um pouco a verdade, mas serviria.

Quando ela colocou dessa forma, a tia, aparentemente imaginando que Maomao conhecia algum tipo de autoridade legal, concordou com relutância. Na verdade, Maomao estava se referindo a Jinshi e Basen, que já estavam com eles, mas não havia motivo para mencionar isso.

 

E assim Maomao acabou sentada um pouco afastada do grupo principal. A mulher do estabelecimento trouxe chá para ela, mas o lugar cheirava a álcool, talvez também houvesse uma taverna ali, e Maomao quase não conseguiu se conter para não pedir alguma bebida. Jinshi e Basen estavam sentados à mesa com ela.

— Era mesmo necessário você estar aqui? — perguntou Basen, retomando o assunto que já tinha rendido uma discussão longa entre a Tia e o charlatão. Se ele tinha objeções, deveria ter falado antes.

— O mestre médico pediu minha presença; teria sido desumano da minha parte abandoná-lo.

— Olha só como você fala… — Basen parecia querer insistir, mas o charlatão estava lançando olhares furtivos para Maomao desde que chegaram, então ele desistiu do assunto. Em vez disso, olhou ao redor e comentou: — Tenho que dizer, tem álcool demais aqui para um lugar desse tamanho.

As prateleiras estavam cheias de vinhos, mas a principal bebida parecia ser um vinho não refinado ou “turvo”, armazenado em um grande barril na cozinha; um álcool esbranquiçado e opaco. Na capital, bebidas “claras” ou destiladas eram as preferidas; aquilo parecia o clássico “vinho do interior”. Presumivelmente os viajantes recebiam as bebidas das prateleiras, enquanto os moradores locais eram servidos direto do barril.

Enquanto Maomao se distraía com as bebidas, a discussão começou.

— Trouxeram o dinheiro? — perguntou, naturalmente, o homem imperioso de meia-idade, soando como um vilão de terceira categoria de peça teatral. Maomao não tinha certeza se os homens de aparência rude ao redor dele eram agricultores arrendatários ou capangas contratados. O cunhado, seus filhos e amigos eram fortes, mas claramente estavam em menor número. Ela olhou ao redor, pensando para onde correria se a situação ficasse violenta.

— Supostamente ainda há tempo. Não podem reconsiderar? — perguntou humildemente o cunhado do charlatão. Entre ele e o senhorio havia uma folha de papel, provavelmente o contrato.

— O que há para pensar? Não estou emprestando aquela terra pela bondade do meu coração, sabe. Se não podem pagar, então quero vocês fora. — Ele não estava dando trégua. Parecia que aquela não era a primeira vez que tinham aquela conversa. — Olha, eu gosto de pensar que estamos sendo flexíveis. Oferecemos esperar até o ano que vem. Só pedimos que nos ensinem algumas coisas nesse meio-tempo.

Ridículo, pensou Maomao. Ou os artesãos iam embora imediatamente, ou no ano seguinte, e, se escolhessem esperar, isso só daria tempo para os outros aldeões aprenderem as técnicas de fabricação de papel. Eles claramente não tinham para onde ir agora, mas se esperassem, seriam obrigados a entregar seus segredos de ofício. Os agricultores provavelmente esperavam pegar também a encomenda imperial, encaixando-se perfeitamente na vida que antes era dos artesãos. Era o bastante para deixar qualquer um furioso, mas normalmente isso não passaria sem contestação. A prova estava bem ali sobre a mesa.

Mesmo assim, algo parecia estranho. Por que fazer os mestres papeleiros ensinarem agricultores a fabricar papel e depois expulsar os artesãos? Por que não usar a dívida como pressão para obrigá-los a trabalhar para o vilarejo agrícola? Será que odiavam tanto assim os estrangeiros? Maomao observou o homem de meia-idade, que olhava com desprezo para as pessoas do vilarejo papeleiro. Os filhos, em particular, pareciam ser alvo de seu olhar cheio de irritação.

Maomao se aproximou e ficou atrás do marido. O charlatão estava ao lado deles, o bigode tremendo.

— O que você pensa que está fazendo? — sibilou Basen. Mas Maomao o ignorou completamente.

O contrato tinha sido escrito mais de dez anos antes, mas o papel ainda parecia em excelente estado. Se fosse de qualidade inferior, teria ficado desgastado com o tempo. O documento realmente estipulava pagamentos mensais em um valor determinado ao longo de vinte anos, e ao final havia os huaya dos envolvidos, as chamadas “marcas florais”, usadas no lugar de assinaturas para indicar que o documento era válido e legítimo. Com tudo aparentemente em ordem, Maomao não conseguia entender por que o senhorio os pressionava daquela forma.

O filho mais novo, um homem perceptivo e ponderado, explicou em voz baixa:

— Ele afirma que o contrato é inválido.

— Mesmo tendo as marcas florais?

— Sim. As marcas são verdadeiras, mas... Bem, o senhorio anterior não sabia ler.

— Ele era analfabeto? — perguntou Maomao.

Isso não era incomum, mas ainda assim era estranho. Senhores de terra frequentemente precisavam revisar documentos assim e normalmente recebiam educação para isso.

— Ele era um genro.

Ah.

Agora fazia sentido. Se ele tivesse sido adotado pela família para assumir o lugar, tudo se encaixava. Provavelmente ele tinha sido filho de um arrendatário trabalhador, não teria tido tempo para estudar, e seu tempo teria se tornado ainda mais escasso depois do casamento, mesmo que tivesse pensado em aprender.

— Ele nunca costumava ir a um escriba; a esposa cuidava dessas coisas para ele.

Mas aquele contrato, ao que parecia, foi concluído depois da morte dela.

Hmmm. Maomao queria acreditar que era um contrato verdadeiro. O filho mais novo dizia que as marcas florais eram legítimas, o que implicava que o acordo foi concluído na presença do antigo proprietário da terra.

— O escriba ainda está por aqui? Ou a testemunha?

— Ambos faleceram, receio. — O contrato tinha sido assinado quinze anos antes, e nenhum dos dois já era jovem naquela época.

Isso só está piorando, pensou Maomao. Enquanto ela se atualizava, o senhorio continuava pressionando o cunhado do charlatão a fazer a escolha impossível. Os outros agricultores sorriam com malícia, e os artesãos pareciam encolher. O filho mais velho do cunhado, porém, mordia o lábio, com uma expressão conflituosa.

— Se vocês não acham que conseguem sair imediatamente, então acho que só resta uma escolha. Vamos mandar alguns dos jovens amanhã. Eles podem ajudar vocês, e vocês ensinam o trabalho. É melhor ensinar eles. Até o ano que vem.

Os punhos dos artesãos tremiam. O charlatão tinha vindo junto, mas não ajudaria em nada; era tão impotente quanto os outros. Só Maomao olhava ao redor, muito menos preocupada que os demais. Na verdade, ela ainda estava curiosa sobre aquele vinho. Ela teria que pedir um mais tarde, embora até ela soubesse que agora, no meio daquela situação, não era a hora.

Os papeleiros pareciam estar em um funeral. O senhorio, por outro lado, claramente se sentindo festivo, começou a pedir bebidas. — Uma rodada para mim e todos os meus rapazes — disse, e sua generosidade arrancou um grito de comemoração dos agricultores. A dona do estabelecimento trouxe bandejas cheias de copos de vinho, claramente contrariada.

Maomao farejou o ar. Hã? Ela olhou para o vinho que os agricultores estavam bebendo. Não era o turvo, era bebida clara. O próprio senhorio bebia algo diferente ainda, um líquido cor de âmbar que claramente era algum tipo de destilado. Aquilo veio de uma das prateleiras. Evidentemente ele aguentava bem a bebida.

O senhorio, ela entendia; claro que beberia o que mais gostava. Mas pedir bebida destilada até para os arrendatários, isso era extremamente generoso. Ainda mais quando havia mais do que vinho turvo suficiente ali mesmo.

Maomao pensou por um momento. Então, embora se sentisse mal pela mulher que carregava as bebidas de um lado para o outro, claramente irritada, levantou a mão e chamou a dona do estabelecimento.

— O que foi?

— Eu gostaria de um copo também, por favor. Do vinho.

A mulher praticamente deu de ombros e lhe entregou a bebida.

— Mocinha, de todos os momentos possíveis… — O charlatão parecia completamente exasperado com ela, assim como seu cunhado. Como era de se esperar, Basen também. Mas Jinshi fez um gesto para que ela pedisse mais.

Ah. Então ele percebeu? Maomao pediu copos para Jinshi e Basen. Em seguida esvaziou o próprio. Tinha um sabor doce e bem encorpado. Não era tão refinado quanto o da capital, mas não era ruim. Apesar da suavidade do gosto, havia uma ardência alcoólica bem definida.

Se tivesse um gosto ruim, isso já explicaria tudo. Mas, em vez disso… Maomao lambeu os lábios. Então havia um estabelecimento obrigado a lidar com clientes indisciplinados, e um barril inteiro de vinho turvo. Ainda assim, não era isso que serviam ao senhorio indisciplinado e aos agricultores. Huh. Então é essa a história, pensou Maomao. Ela se virou para o cunhado do charlatão, que ainda parecia exasperado.

— Com licença, há alguma destilaria por aqui?

— Não, nada desse tipo, pelo que sei...

— Foi o que imaginei. — Os lábios de Maomao se curvaram em um sorriso torto. Ela se levantou e foi até o senhorio barulhento e seus amigos, segurando o copo. Colocou o copo sobre a mesa com um barulho audível e lhes lançou um sorriso que lembrava o de um animal selvagem.

— O que você quer, garotinha? Vai nos servir bebida? — O senhorio sorriu com desdém e então caiu na gargalhada.

— M-Mocinha! — O charlatão praticamente se agarrou a ela, tentando entender o que ela estava fazendo. Basen quase se levantou também, mas com um discreto puxão na manga dado por Jinshi, sentou-se novamente.

Maomao riu e disse ao proprietário das terras: — Que tal um concurso de bebida, meu bom senhor? — Ela bateu no próprio peito de forma demonstrativa.

— Um concurso de bebida! Hah! Você tem coragem, vou admitir! — disse o senhorio, divertido com a jovem atrevida diante dele. Os agricultores gargalharam, os papeleiros pareciam desolados, e o charlatão estava quase fora de si. Apenas Jinshi e Basen, acostumados ao comportamento típico de Maomao, permaneceram impassíveis.

— Você não pode estar falando sério! — disse o cunhado do charlatão. Ele e seus filhos pareciam profundamente preocupados.

— Vai ficar tudo bem. Mas tenho uma pergunta: quanto ainda resta da dívida?

Depois de um segundo, o homem respondeu:

— São mil peças de prata por ano, e já pagamos metade deste ano, então restam 4.500.

Hmm. De fato, não era um valor que qualquer um estaria disposto a emprestar. Mesmo com a encomenda imperial, o vilarejo não era adequado para produção em grande escala, e não iria exatamente nadar em dinheiro.

Mas tudo que ela disse foi: — Entendo. — Ela se sentou com firmeza diante do senhorio. — Já que estamos fazendo isso, que tal uma aposta?

— Uma aposta! Assim que se fala! — Agora o senhorio, obviamente confiante em sua capacidade de beber, estava simplesmente zombando dela. — Então, você tem algo para apostar?

— Sim, vocês já viram. — Maomao bateu no próprio peito novamente. — Se me venderem a um cafetão, vou render pelo menos trezentas peças de prata.

Vários agricultores cuspiram a bebida, enquanto os artesãos ficaram sem palavras. Houve um estrondo, era Jinshi tinha se levantado da cadeira. Maomao, porém, apenas assentiu como se demonstrasse calma confiança.

— Hahahahaha! Trezentas! É um número grande para uma garotinha tão pequena. Você tem ideia de como funciona o mercado, menina?

Na verdade, sim. Por isso mesmo ela disse aquilo. Sentia que já tinha visto sua cota de jovens sendo vendidas.

— Nem a joia mais perfeita do mundo passa de cem, e você acha que… — O senhorio ria tanto que saliva voava de sua boca.

Maomao olhou para eles e riu. — Pff! — Ela fez questão de que percebessem que era um som de deboche. Os homens bêbados perceberam, como ela esperava, e metade deles começou a encará-la com raiva.

— Você só pensa assim porque um rabanete recém-arrancado da terra nunca vale mais que cinquenta peças de prata — declarou Maomao. — E pensar que vocês nem percebem isso!

Ela sentiu seu corpo ser puxado quando alguém a agarrou pela gola, levantando-a até ficar na ponta dos pés. Ah. Então sua comparação nada lisonjeira entre garotas do campo e raízes não passou despercebida. Jinshi estava prestes a agir, mas ela lançou um olhar de canto para ele. Se ele se envolvesse agora, só complicaria tudo.

— Repete isso! — berrou um agricultor, (vamos chamar ele de agricultor número 1), vermelho de raiva, avançando com os punhos erguidos. As mãos cerradas estavam negras da terra dos campos. Ela percebeu que, se ele a acertasse, não seria nada agradável.

Mas talvez eu tenha que aceitar isso, pensou ela. Ela chegou até ali, não podia recuar agora.

O charlatão tinha desmaiado, enquanto os outros aldeões assistiam horrorizados.

— Vocês nem sabem ler ou escrever — continuou Maomao. — Heh! Nunca vão sequer usar o papel, muito menos fazer um bom trabalho produzindo ele, mesmo que eles ensinem.

O punho veio em sua direção, mas nunca a atingiu. Em vez disso, houve um baque de algo batendo na mesa. Alguém se colocou entre Maomao e o agricultor furioso. Uma bolsa pesada estava agora sobre a mesa, e Jinshi estava entre os dois.

Ele virou a bolsa, e uma verdadeira chuva de prata se espalhou, tilintando ruidosamente. Todos na sala olharam, boquiabertos e de olhos arregalados, inclusive Basen, cuja boca abria e fechava inutilmente, completamente chocado. O que Jinshi está fazendo? Ele parecia pensar.

— Trezentas peças de prata seria barato para essa garota — disse Jinshi. Ele abaixou a voz mais do que o normal e usou sua beleza impressionante, mas inquietante para manter o ambiente sob controle. Quase casualmente, afastou a mão do homem que segurava Maomao.

Não saia mostrando prata assim! Maomao pensou, mas agora não tinha escolha a não ser seguir o jogo. Ela arrumou a gola, colocou um pé na cadeira e estufou o peito, tanto quanto podia. — Estão vendo? Homens que entendem de valor sabem o que estão vendo quando olham para mim.

O agricultor que estava prestes a bater nela rosnou e apenas lançou um olhar mortal. Maomao e Jinshi responderam com os sorrisos mais irritantes que conseguiram.

— Não precisamos aguentar isso, rapazes! Vamos ensinar bons modos a eles! — exclamou outro agricultor. Mas o senhorio levantou a mão. — Não se precipitem. — Os outros agricultores recuaram imediatamente. — Vocês colocaram dinheiro de verdade na mesa. Pelo que me diz respeito, temos uma aposta.

Então ele tinha aceitado. Maomao sorriu, uma expressão que talvez parecesse fora de lugar naquele momento, e tirou o pé da cadeira.

— Muito bem. Quem é o primeiro então?

As pessoas do vilarejo papeleiro olhavam para Maomao como se não acreditassem no que estava acontecendo. O homem e a mulher que administravam o estabelecimento pareciam, no mínimo, ansiosos. O médico charlatão ainda estava estendido no chão. Enquanto isso, Jinshi lançava a Maomao um olhar que dizia claramente que ele estava muito irritado com a situação; Basen parecia irritado porque Jinshi estava irritado. A bolsa cheia de moedas permanecia sobre a mesa.

— Deixe-me ser o primeiro a enfrentá-la! — gritou o homem que quase tinha acertado Maomao.

Perfeito.

 

Garrafas de vinho vazias estavam espalhadas pelo chão, junto com três homens grandes, o quarto acabava de se juntar a eles.

— Só pode estar brincando — disse o sobrinho do charlatão, que cuidava do tio incapacitado.

— Ora, ora, já acabou? — perguntou Maomao, esvaziando o que restava em seu copo. Era um destilado que queimava ao descer pela garganta. Muito melhor do que qualquer coisa que normalmente se esperaria encontrar em um estabelecimento rústico como aquele, mas ainda assim dificilmente mais inebriante que água para Maomao, acostumada a beber coisas muito mais fortes.

Foi erro deles pensar que poderiam se livrar dela rapidamente desafiando-a com bebidas destiladas altamente alcoólicas. Os próprios homens não estavam acostumados a beber algo tão forte, e logo acabaram desmaiados sob a mesa. (Estavam completamente bêbados, mas ninguém morreria por causa disso.) Maomao não tinha intenção nenhuma de pegar leve.

— Trezentas peças de prata? Não é um mau negócio — disse Jinshi ao ouvido dela. Imaginar que ele poderia tentar “comprá-la” de novo só aumentou sua determinação de não perder aquela disputa. Vale registrar que um cafetão disposto a negociar duro poderia conseguir uma garota do campo por apenas vinte peças de prata. Jinshi realmente tinha uma noção de valor bem distorcida.

De qualquer forma, com Jinshi ao lado dela, ela derrotou o primeiro agricultor. O segundo cometeu o erro de presumir que Maomao já estaria quase bêbada naquele ponto e a desafiou com um álcool mais forte, o que o derrubou com um único copo. O terceiro e o quarto caíram da mesma forma.

Era verdade que, em princípio, ela estava em desvantagem por enfrentar uma sequência de oponentes; mas, infelizmente para eles, Maomao superava todas as expectativas.

Quatro, pensou. Trezentos pelo primeiro, seiscentos depois do segundo, e 1.200 depois do terceiro. Com quatro derrotados, o total já chegava a 2.400 peças de prata.

Os agricultores restantes a encaravam com o rosto vermelho de raiva. Não sabiam ler, mas talvez conseguissem fazer um pouco de conta. Ainda restavam vários deles, mas se Maomao derrotasse só mais um, seus problemas acabariam. A dívida dos papeleiros era de 4.500 peças de prata.

Ela ficou contente por todos estarem bêbados. Conseguiu fazer cada um assinar um contrato simples sem pensar muito. Quatro contratos, na verdade. Os agricultores provavelmente acharam que eram apenas pedaços de papel, dava para perceber, porque até o estimado senhorio tinha pensado em usá-los como papel de rascunho.

Falando nele, o senhorio estava rosnando e franzindo a testa. Por fim, sentou-se diante dela. — Que tal um duelo? — O homem de bigode sorria, mas seus olhos eram duros.

Maomao bateu de leve na própria barriga. Tomara que eu aguente mais um. Até ela já começava a sentir os efeitos depois de beber com quatro homens até desmaiarem. O senhorio parecia saber lidar com a bebida, como convinha a alguém acostumado com destilados. 

Ele sorriu com desdém diante do desconforto evidente de Maomao, então olhou para o contrato. — Se acha que eu vou ser outro fraco, pense novamente. — Então ele rabiscou a assinatura no contrato e bateu o papel sobre a mesa. — Ei, irmão — ele disse para Jinshi. — Não vai tentar me dar o calote, vai?

Jinshi permaneceu em silêncio, de braços cruzados.

— Ninguém vai dar calote em ninguém — disse Maomao.

Então, sentindo que era sua única opção, tirou um pequeno frasco das dobras de sua roupa.

O grupo do senhorio imediatamente começou a fazer barulho.

— Ei! Que diabos é isso?

— Só estou um pouco cansada do gosto deste vinho. Pensei em dar uma melhorada — disse Maomao, pingando um pouco do conteúdo do frasco no líquido âmbar de seu copo.

O senhorio se inclinou para perto. — Ora, espere aí. Não vai dividir?

Bom, se ele insiste… Maomao entregou o frasco ao senhorio. Ele o examinou com atenção e despejou o resto do conteúdo no próprio copo.

— Deixa eu adivinhar... Alguma coisa para ajudar você a aguentar a bebida? — Ele sorriu para ela.

Maomao, sem expressão, levou o copo aos lábios e bebeu. O senhorio observou enquanto ela esvaziava o copo e, ao ver que ela não tinha sido afetada, sorriu novamente e bebeu o seu próprio copo até o fim.

Glup, glup, glup...

Crash. O senhorio caiu no chão. Um dos agricultores correu até ele e o ajudou a sentar, mas o homem de meia-idade estava claramente em estado de torpor.

— Ei, você! O que fez com ele?

— Não fiz nada. Coloquei a mesma coisa na minha bebida; vocês viram. — O senhorio acabou deitado no chão por um único motivo: ele estava completamente bêbado. — Acho que isso significa que eu ganhei a aposta.

Houve um silêncio coletivo. Durante esse tempo, Maomao se levantou e pegou os contratos que seus oponentes tinham assinado. Caminhou até o cunhado do charlatão sem sequer cambalear e entregou os papéis a ele. Por fim, virou-se para a dona do estabelecimento.

— Com licença. Onde fica o banheiro?

— Lá fora, à direita.

— Muito obrigada.

Maomao saiu do restaurante a passos rápidos. Ela tinha esvaziado várias garrafas de vinho; ninguém poderia culpá-la por precisar usar o banheiro. E nem mesmo ela era descarada o suficiente para se aliviar diante de uma plateia.

 

— Ei... o que você fez lá atrás? — perguntou o cunhado do charlatão, ainda segurando o maço de contratos, com expressão confusa.

— Nada demais. Como eu disse, queria mudar o sabor, então adicionei um pouco de álcool.

Maomao normalmente carregava algumas ervas e suprimentos médicos consigo, incluindo álcool para desinfetar. Como era destinado à limpeza, era muito mais concentrado que vinho comum; a maioria das pessoas cairia com apenas um gole, e o senhorio despejou aquilo no copo com toda alegria.

— Posso perguntar uma coisa? — disse o homem depois de um momento.

— Sim?

— Você colocou a mesma coisa no seu próprio copo, certo?

— Sim. Foi uma quantidade que eu sabia que conseguiria aguentar. Só esperava que tudo acabasse rápido.

Maomao suspeitava que, se fizesse algo minimamente estranho, seus oponentes cairiam na armadilha. Ficou feliz que tivesse funcionado. Ela poderia ter derrotado o senhorio bebendo da maneira tradicional... mas não tinha certeza se conseguiria aguentar tanto tempo.

— Ainda bem que cheguei ao banheiro a tempo — disse ela.

— Er... sim, isso é importante. Mas escute, eu sei que você estava confiante, mas arriscar a própria liberdade, e por nós ainda por cima...

— Desculpe, acho que houve um mal-entendido. — Maomao pegou os contratos dobrados das mãos do homem. — Estes são meus ganhos. Ah, mas preciso devolver o capital inicial. — Ela sorriu.

O cunhado ficou sem palavras, mas o charlatão, que finalmente começava a recobrar os sentidos, exclamou:

— E-Espere um segundo, mocinha! Estamos falando do sustento do nosso vilarejo!

— Pode até ser, mas eu não tenho nenhuma obrigação com isso, tenho? E além do mais, vocês não me deixaram terminar de falar. — Ela olhou para o senhorio, que se levantava do chão com ajuda de um capanga, segurando a cabeça e cambaleando. Pelo vômito no chão, parecia que tinham feito ele expulsar o álcool para recuperar a consciência. — Não teria sido melhor deixá-lo dormir mais um pouco? — perguntou.

— Aquela aposta não vale! — ele gritou. Ah. Ela esperava por isso. — Era só uma brincadeira para beber. Nunca falei sério!

— Mesmo assim, tenho contratos aqui. Assinados e com testemunhas. Não vai me dizer que também não consegue ler estes?

— Quem liga para contratos? Eu digo que são inválidos!

Maomao cruzou os braços e se posicionou diante do barril de vinho do restaurante. — Vejo que não temos escolha. — Ela bateu no barril e sorriu para Jinshi e Basen. — Vamos ter que contar ao governo que vocês estão sonegando impostos.

Seria possível ouvir um alfinete cair no restaurante. O senhorio a encarou de boca aberta, e os agricultores, os que ainda estavam de pé, balançaram com o choque. Os donos do restaurante pareciam ao mesmo tempo ansiosos e aliviados. Já os papeleiros se entreolhavam, depois olhavam para Maomao. O charlatão apenas inclinou a cabeça, confuso.

Aquela era a origem dos números estranhos que tinham preocupado Jinshi.

— Sonegando impostos? O que isso quer dizer? — perguntou finalmente o filho mais velho, ainda rebelde.

— Produzir vinho exige permissão do governo. Fazer para consumo próprio é uma coisa, mas servir em um restaurante para lucrar? Isso certamente deveria gerar tributação.

Qualquer negócio precisava pagar impostos, e a taxa sempre era maior para luxos e confortos. Um bar pagava mais impostos que um restaurante (e a taxa subia ainda mais se fosse um bordel, como a Vovó nunca se cansava de reclamar).

Maomao tinha se perguntado por que aquele restaurante aceitaria sediar a discussão com o senhorio. Pensou que talvez fosse porque eram arrendatários dele, mas foi a grande quantidade de vinho que chamou sua atenção. Não seria uma bênção para um restaurante poder estocar grande quantidade de uma excelente bebida por um preço baixo? Era o tipo de oferta impossível de ignorar, mesmo que trouxesse alguns problemas.

Era por isso, suspeitava Maomao, que o senhorio não tinha pedido o vinho turvo quando quis beber. Os agricultores provavelmente eram os produtores, por que ele pediria algo que já bebia à vontade?

— E talvez os ingredientes também estejam fora dos registros? — disse ela. Produzir vinho exigia arroz ou cevada, naquele caso, parecia ser arroz. Isso a fez lembrar da acusação do senhorio: — Eles estão poluindo a água e reduzindo a colheita de arroz. Não há água suficiente para cultivar, foi o que disseram. — disse ela, repetindo a reclamação. — Mas isso não é verdade, não é? Na verdade, a colheita de arroz está melhor do que nunca.

Se os campos recebiam a terra e as folhas trazidas pela água do alto do rio, isso ajudaria a evitar o esgotamento do solo. Os papeleiros não jogavam nada tóxico na água; no máximo, o que chegava rio abaixo era o farelo de arroz usado na cola e talvez algumas lascas de madeira da produção do papel. Na opinião de Maomao, eram excelentes fertilizantes. Ela até achava que esse talvez tivesse sido o motivo de o antigo proprietário ter considerado vender a terra aos aldeões.

Os agricultores talvez não entendessem exatamente por que a colheita tinha melhorado tanto, mas sabiam que melhorou, e alguém decidiu manter os artesãos ali. Depois, em algum momento, decidiram esconder a renda extra transformando o arroz em vinho. Isso seria dupla sonegação de impostos.

Dizer tudo isso em voz alta iria contra os ensinamentos de seu pai, então ela guardou tudo isso para si mesma, mas as expressões do senhorio e dos agricultores deixavam claro que ela tinha acertado.

— V-Você tem alguma prova? — exigiu um dos agricultores.

— É, isso mesmo! Consegue provar? — disse outro.

Provar? Talvez sim, talvez não. Mas Jinshi estava ali, então ela tinha testemunhas.

— Não se preocupem — disse Maomao. — Se são inocentes, então não devem se importar que um oficial revire suas casas, certo? — Ela fez questão de sorrir ao dizer isso. Os agricultores, que até então gritavam indignados, ficaram em silêncio. Ahh. Bingo.

— Você tem coragem, garota — disse o senhorio, segurando a cabeça ainda girando. — Mas se acha que pode falar assim e sair impune...

Maomao olhou para ele de cima. — Eu poderia dizer a mesma coisa para você. Olhe em volta e pense bem antes de falar. — Pelo menos um terço dos homens dele estava caído no chão bêbado, inclusive ele próprio. Os outros ainda estavam de pé, mas longe de estarem sóbrios. Enquanto isso, o grupo de Maomao tinha seis homens fortes que não beberam uma gota. (Claro, ela não estava contando o charlatão, ele nunca ajudaria em uma luta.) Acima de tudo, tinham Jinshi e Basen, além dos guarda-costas que entrariam correndo se algo ameaçasse qualquer um dos dois.

Os donos do restaurante tentavam claramente se manter fora daquilo. Maomao não queria resolver a situação com violência, mas se os agricultores partissem para a briga, tinha certeza de que seus aliados responderiam.

Ela balançou os contratos diante deles, sorrindo com o máximo de desprezo. — Fiquem à vontade para ir chamar ajuda. Enquanto isso, vamos enviar estes documentos para as autoridades no cavalo mais rápido que tivermos. — Ela estava tão feliz que quase cantava as palavras. Por acaso, alguém muito mais assustador do que qualquer autoridade aleatória estava bem ali com eles.

— Mocinha, você está um pouco... diferente do normal — disse o charlatão, mas ela decidiu ignorá-lo. Em vez disso, ela olhou para o senhorio e os agricultores, que não tinham resposta nenhuma para ela. Por fim, ela sussurrou no ouvido do senhorio: — Se vai jogar o jogo, esteja pronto para receber na mesma moeda.

Ela quase podia ouvir os dentes dele rangerem. Então olhou friamente para o homem ainda no chão. — Afinal, o que os aldeões fizeram para você?

Assim que terminou de falar, a porta do restaurante se abriu com um estrondo. Uma jovem com um robe bem arrumado estava parada ali. Ao ver a cena, empalideceu e correu até o senhorio caído. Maomao pensou que ela fosse cuidar dele, mas, em vez disso, a jovem caiu de joelhos e abaixou a cabeça. — Tenho certeza de que meu pai fez exigências absurdas de novo — disse ela. — Mas, por favor! Ele não merece isso! — Ela se curvou ainda mais profundamente, não para Maomao, mas para os papeleiros.

— Er... não fomos nós — disse o filho mais novo, balançando a cabeça. Mas a jovem não se moveu. Ficou com a testa pressionada no chão, ignorando o cabelo completamente bagunçado.

— Sinto muito. Por favor, perdoem ele. Perdoem meu pai teimoso e idiota. — Era como se ela não ouvisse o que os outros estavam dizendo.

Foi então que o filho mais velho finalmente agiu. — Nós não maltrataríamos ninguém. Muito menos o seu pai. — Ele segurou os ombros da jovem, ajudando-a a se acalmar e levantar a cabeça. As lágrimas ainda escorriam por seu rosto, mas ela olhou para ele e assentiu.

O senhorio reagiu escandalizado. — Você! Seu ninguém vindo de lugar nenhum! Fique longe da minha filha! — Ele tentou se levantar, mas as pernas ainda estavam fracas e ele caiu de novo.

— Pai!

— Sogro!

— Não sou seu maldito sogro e nunca vou ser!

Ora, ora, ora. Maomao ficou sóbria na mesma hora. O segundo sobrinho do charlatão olhava para o irmão com certo cansaço.

— Não me diga… —  disse Maomao

— A essa altura, acho que não preciso dizer — respondeu ele.

De repente ficou óbvio por que o filho mais velho parecia tão inclinado ao lado dos agricultores, e por que o senhorio odiava tanto os estrangeiros e queria expulsá-los. Por mais satisfeita que estivesse por resolver o mistério, Maomao não conseguiu deixar de pensar que talvez fosse melhor nunca ter descoberto. Era como assistir a uma comédia ruim se desenrolando diante de seus olhos.

— Meu irmão é muito... sincero.

— Isso não vai ajudar em nada se ele destruir o vilarejo inteiro por causa disso — disse Maomao, expressando o que todos os papeleiros pensavam. Todos concordaram com a cabeça. Tinha sido um erro trazer o irmão mais velho para aquela reunião, mas então ela lembrou que ele era parente do charlatão. E bem… ele era o que era.

Espera... eu vou aceitar isso mesmo?! Ela ia mesmo assistir um vilarejo inteiro ser destruído por causa de uma farsa ridícula?

O problema era que, para as pessoas envolvidas, aquilo não era uma farsa. Era completamente sério. Poderia ser mais absurdo? Mais idiota? Mais estúpido?

Por fim, Maomao, já sem paciência, sentou-se com força em uma cadeira. — Traga-me um pouco de vinho — ela disse, gesticulando para a dona do restaurante.

— Você vai continuar bebendo? — perguntou a mulher.

— Ah, ainda estou longe do meu limite.

Vários olhares incrédulos recaíram sobre ela, mas isso não a incomodou.

Talvez o vinho realmente tivesse subido um pouco mais à cabeça do que ela imaginava: só depois de ficar sóbria percebeu que tinha falado muito mais do que de costume.

 

No final, ficou decidido que o vilarejo dos artesãos poderia pagar o restante da dívida nos próximos cinco anos, como originalmente combinado. Quanto ao pagamento do senhorio a Maomao, ficou acertado que ele enviaria uma certa quantidade de arroz regularmente para a Casa Verdigris durante os próximos dez anos. Talvez ela tenha sido um pouco branda com ele, mas Maomao tinha certeza de que autoridades logo apareceriam para fazer uma inspeção. Diziam, porém, que não tentariam recuperar impostos passados, o que já era bastante generoso.

[Noelle: Maomao visionária kkkk]

[Kessel: Uma mestra da negociação. Deixou até a madame feliz nisso!]

E o que aconteceu com o sobrinho do charlatão e a filha do senhorio?

Como se eu me importasse!

E foi isso. Não havia mais nada a dizer sobre o assunto.


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora