Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 7: A Serpente Branca Imortal

Tudo começou com uma história contada por um cliente.

— Bem, pelo menos isso explica por que tem tido tão poucos fregueses ultimamente — disse Meimei, a irmã mais velha de Maomao, reclinada de lado enquanto colocava uma pedra de Go no tabuleiro. A aprendiz designada para ela estava sentada do outro lado, parecendo nervosa ao posicionar algumas pedras. Parecia que elas estavam resolvendo problemas de estratégia de vida ou morte.

— Homens grandes e importantes não se cansam de coisas estranhas e novas — disse Joka, soltando uma baforada de fumaça do cachimbo. Enquanto isso, Maomao preparava suas ferramentas; suas irmãs haviam pedido que ela lhes aplicasse moxabustão. A vida dessas mulheres era dura, e às vezes elas precisavam de uma chance de relaxar e extravasar. Por isso, em dias como aquele, em que não tinham trabalho de verdade para fazer.

Meimei disse que foi o homem com quem ela jogou Go na noite anterior quem contou a história. Ele afirmou que havia alguém ainda mais impressionante que as Três Princesas da Casa Verdigris por aí, uma jovem que parecia uma imortal mística.

— Acho que estamos velhas demais para eles hoje em dia — Joka quase cuspiu. — E pensar que antes nos tratavam como joias!

— Sim, claro — disse Maomao, em tom conciliador, enquanto incentivava Joka a se deitar de bruços e começava a colocar ervas em pontos específicos ao redor de seu corpo antes de acendê-las. — Ahhh — gemeu Joka sensualmente. Seus dedos dos pés quase se curvaram. Maomao desejava poder tranquilizar a irmã, dizendo-lhe que ela ainda era mais do que mulher suficiente.

— Ele disse que o cabelo dela é completamente branco — contou Meimei. — E se fosse só isso, bem, alguém poderia dizer: então é só uma garota de cabelo branco. Mas... Ele disse que os olhos dela também são vermelho-vivos.

Cabelo branco e olhos vermelhos? Isso realmente era incomum, reconheceu Maomao com um aceno. Terminando com Joka, ela começou a colocar a moxa em Meimei. Meimei estendeu uma perna esguia para fora da barra do robe. Maomao afastou o tecido com cuidado para não chamuscar, então acendeu as ervas.

— Não só cabelo branco, mas olhos vermelhos também? Então ela é albina? — perguntou Maomao.

— Provavelmente — disse Meimei, enquanto ela e Joka assentiam. A aprendiz que segurava as pedras de Go, sem conseguir acompanhar direito, puxou a manga de Maomao. Era a garota que quase havia começado a chorar ao ver Jinshi comer os gafanhotos. Maomao descobriu que o nome dela era Zulin. O nome da irmã mais velha dela era parecido, mas a garota mais velha pretendia mudá-lo para simbolizar o rompimento com o pai. E Maomao não tinha a menor intenção de se dar ao trabalho de memorizar um nome que logo iria mudar.

Maomao lançou um olhar para a garota, mas quando a viu recuar assustada, acabou cedendo. — Muito raramente, uma pessoa nasce sem cor na pele. A pele e o cabelo ficam brancos, e os olhos parecem vermelhos porque dá para ver o sangue dentro deles. Chamamos essas pessoas de albinas.

Isso também acontecia com animais. Cobras e raposas brancas eram consideradas auspiciosas e veneradas como deuses, mas e quanto às pessoas? Maomao tinha ouvido falar de uma terra distante em que crianças albinas eram consideradas panaceias e às vezes eram comidas. Mas ela não dava muito crédito à história.  O velho Luomen, pai de Maomao, lhe disse que os cabelos e a pele branca representavam nada mais do que uma falta de coloração; fora isso, pessoas albinas eram iguais a qualquer outra pessoa.

Uma vez, apenas uma vez, Maomao capturou uma cobra branca. Foi uma das criaturas mais estranhas que ela já encontrou. Quanto a essa mulher albina, parecia que o fascínio das pessoas a levou a tratá-la como uma imortal. Em outras palavras, ela era vista como um bom presságio, não como algo ruim.

— Aqueles idiotas pomposos logo vão se cansar dela — disse Joka.

— Não sei — respondeu Meimei, esticando a outra perna. — Eles dizem que ela realmente pode usar artes imortais.

Isso fez Maomao erguer uma sobrancelha. Segundo a história de Meimei, essa mulher podia ler a mente das pessoas e transformar metais. Aquilo soava tão absurdo quanto qualquer coisa que Maomao já tinha ouvido, mas tolos e seu dinheiro logo se separavam, especialmente tolos com muito dinheiro. A “imortal” começou em um pequeno espaço de apresentações, mas agora estava alugando o maior teatro da capital.

Ela fazia apenas um espetáculo por noite, e os homens ricos que normalmente frequentavam o distrito dos prazeres estavam formando filas para vê-la. As mulheres dali tinham bons motivos para reclamar. E quando um de seus clientes finalmente aparecia depois de uma longa ausência, tudo o que ele conseguia falar era da beleza sobrenatural dessa imortal feminina e de seus poderes incríveis. Não era exatamente o tipo de conversa que acendia a chama do romance.

A queda de vinte por cento na renda do bordel foi suficiente para fazer a madame bater o cachimbo em qualquer coisa que estivesse por perto. As cortesãs de classe média continuavam recebendo tantos clientes quanto antes, mas a Casa Verdigris era um bordel de alto nível. Seu sucesso dependia da capacidade de atrair os melhores clientes.

— Quem precisa ver um espetáculo mais de uma vez? — murmurou Maomao.

Ela pretendia falar só para si mesma, mas Ukyou, o chefe dos criados, respondeu:

— Ah, você ficaria surpresa.

Ukyou, um homem de cerca de quarenta anos, andava ocupado ultimamente cuidando tanto de Chou-u quanto de Sazen. Parecia que ele finalmente tinha conseguido um momento para respirar antes de acenderem as lanternas da noite. Ele estava devorando um grande pão recheado de carne no lugar de um almoço tardio. Maomao lhe ofereceu um pouco de chá (feito com folhas que sobraram); ele disse — Obrigado — e tomou um gole para engolir a comida.

— Você conhece liandan-shu, certo?

— Você está trazendo isso à tona agora?

Liandan-shu era uma arte que buscava ajudar uma pessoa a alcançar um estado de imortalidade. Foi o bastante para fazer os olhos de Maomao brilharem quando o seu velho lhe contou sobre isso, mas ele rapidamente acrescentou que ela nunca deveria tentar praticá-la. Podia ser algo bastante duvidoso.

— Você quer dizer que ela finge ter o poder da imortalidade?

— Talvez. Ela tem aquela aparência incomum, e dizem que consegue ler a mente das pessoas.

— Ah.

Os grandes e poderosos podem chegar céticos, mas quando essa mulher lhes dizia o que estavam pensando, como eles se sentiam? Qualquer sensação de terem sido feitos de tolos podia ser transmutada, por assim dizer, em fé. E isso talvez os convencesse de que algum elixir da imortalidade realmente existia.

Mas se isso não for a coisa mais estúpida que eu já ouvi...

Maomao conhecia alguém que, depois de muitas tentativas de criar um elixir da imortalidade, conseguiu produzir uma droga de “ressurreição”. Um feito e tanto para um médico, mas os efeitos colaterais ainda deixavam muito a desejar.

Maomao cerrou os punhos. Ela sabia que era inútil desejar que aquele médico estivesse ali, mas, se estivesse, talvez pudesse dar uma ideia melhor de como evitar danos causados pela praga de insetos. O desastre ainda não tinha chegado. Se fizessem algo agora, talvez conseguissem mudar as coisas. Jinshi e seus conhecidos mais próximos estavam quebrando a cabeça em busca de qualquer medida preventiva possível, mas o restante das pessoas importantes do país tratava o assunto com descaso, quando muito.

Maomao pensou nas supostas habilidades dessa mulher.

— Então o quê? Ela afirma ter um elixir da imortalidade, e é assim que atrai clientes?

— Não faço ideia — disse Ukyou. — Só ouvi o que os guarda-costas dos figurões estavam dizendo. — Ele enfiou o resto do pão de carne na boca e terminou o chá. Era hora de acender as lanternas. — Se você está tão curiosa, por que não vai ver o espetáculo?

— Você acha que eu pagaria tanto para ver tão pouco?

— Então implore para alguém te levar. — Ele piscou de forma amigável e foi embora.

Implorar para quem? pensou Maomao, soltando um resmungo de desgosto. Ninguém tem tanto tempo sobrando.

 

Vários dias depois, Maomao recebeu uma visita inesperada.

— De todas as pessoas que eu pensei que poderiam aparecer, nunca imaginei ele — disse Ukyou, coçando o queixo. Ele estava frequentemente na Casa Verdigris ultimamente para cuidar das crianças. Mal trouxe o visitante até Maomao e já desapareceu de novo.

— Sim... De todas as pessoas... — disse Maomao.

— Eu agradeceria se você fosse um pouco mais educada — bufou o visitante. Era um homem baixo, com óculos redondos emoldurando olhos afiados, parecidos com os de uma raposa, e carregava um ábaco. Seu nome era Lahan, sim, do clã La. Ele era sobrinho e filho adotivo do estrategista excêntrico, e tinha vindo convidar Maomao para assistir ao famoso espetáculo. Ele até trouxe alguns amigos para acompanhá-los.

— Eu não sabia que você tinha interesse em... entretenimento — disse Maomao, que havia preparado um chá morno com algumas folhas usadas, apenas por formalidade.

— Quando o mundo inteiro parece interessado, como eu não ficaria intrigado? — Lahan empurrou os óculos para cima no nariz de forma enfática.

Ao lado dele estava um homem que Maomao não reconhecia, sorrindo amplamente. Provavelmente ainda não tinha trinta anos; tinha traços delicados e uma expressão tranquila. Maomao inclinou a cabeça brevemente em um cumprimento educado antes de voltar a conversar com Lahan.

— Dizem que essa mulher albina é bastante bonita — comentou ele. Maomao sabia muito bem que Lahan não tinha interesse especial em coisas bonitas. Diferente dos homens comuns, ele afirmava ver beleza na forma dos números. Evidentemente, o filho adotivo do excêntrico também era bastante incomum.

— E por que você está me convidando?

— Não me diga que isso não te interessa.

Nisso ele estava certo, pelo menos. Mas o que Lahan ganharia levando-a junto? Maomao olhou ao redor.

— Se você está preocupado com meu pai, ele não está aqui. E também não estará lá.

— Você está falando sério? — Maomao não duvidaria de que Lahan fosse capaz de usá-la como cordeiro sacrificial para ganhar o favor do estrategista excêntrico.

— Estou. No entanto, um dos subordinados dele estará conosco. — Lahan indicou o homem ao seu lado. Maomao franziu a testa antes que pudesse se conter.

— Não olhe para mim desse jeito — disse o jovem, magoado. — Lak… — Ele estava prestes a dizer o nome, mas ao ver o rosto de Maomao rapidamente disfarçou com uma tosse. — Ahem. Posso, er... me referir a ele como o estrategista?

A expressão de Maomao voltou a algo minimamente apresentável, o que fez o homem soltar um suspiro de alívio.

— Sou subordinado do estrategista. Meu nome é Rikuson.

[Kessel: Finalmente a estreia do Rikuson… não darei spoilers. hehe]

— Maomao — disse ela após um instante.

— Sim, já ouvi falar de você.

Maomao lançou um olhar penetrante para Lahan. Por que o excêntrico não estava ali pessoalmente? Por que enviar alguém em seu lugar? O homem de cabelo crespo e óculos abriu os braços em um gesto impotente. — Parece que meu pai não vai sair de casa por um tempo. — Não parecia que esse fato tornava sua vida mais fácil.

— Hm. — O comentário parecia significativo, mas Maomao não via nada de bom para si em investigar aquilo. — Ainda não sei por que você está me convidando. — Lahan nunca fazia nada sem calcular o possível benefício; ele era a única pessoa que Maomao conhecia capaz de rivalizar com a velha madame em pura avareza.

— Haverá algumas negociações com o oeste em breve, e estávamos pensando em pedir que essa trupe se apresente para eles.

— Continue.

— Haverá mulheres na delegação, veja bem, e pensei que seria sensato ter a perspectiva de uma mulher sobre a apresentação.

— Mentira — disparou Maomao. Sim, Rikuson estava ali, mas ela não tinha a menor intenção de cuidar das maneiras só porque um dos capangas do estrategista estava presente.

Lahan abriu as mãos novamente, desta vez de forma mais deliberada. Francamente, o gesto era irritante. Maomao suspeitava que ele só havia dado aquela desculpa para ver se ela chamaria o blefe.

De repente, Rikuson interveio: — Na verdade… — Ele parecia desconfortável. Ansioso, até. Como se não soubesse bem como explicar. — Meu... ahem. Meu superior. O estrategista. Ele deixou escapar que... de fato está curioso sobre isso. É simples assim.

Rikuson, motivado pelo que aparentemente foi apenas um comentário casual, começou a investigar essa trupe de artistas. Ele não encontrou nenhuma base para o que o estrategista disse, a menos que fosse apenas o instinto vagamente sobrenatural do próprio homem.

— Mas ouvi um rumor sobre eles que me deixou curioso — disse ele. Então, com um ar de admiração, passou a contar a história que tinha escutado.

 

Espero que isso não acabe virando mais problema, pensou Maomao enquanto vestia um casaco acolchoado de algodão, uma peça excelente que ela tinha conseguido de graça na loja de roupas. A cor era mais chamativa do que ela normalmente preferia, mas não ia recusar roupas grátis, muito menos deixar de usá-las.

Bem agasalhada, saiu para a carruagem que a aguardava. Já estava escuro, e flocos de neve caíam lentamente do céu. Ela havia instruído Ukyou a dar o jantar a Chou-u; se tivesse contado ao garoto para onde estava indo, ele só teria insistido em ir junto.

— Vamos? — perguntou Rikuson, abrindo educadamente a porta da carruagem para ela como se fosse uma princesa. Lahan já estava sentado lá dentro. Ele usava um par de óculos diferente do habitual, talvez sua ideia de se arrumar para a ocasião. Rikuson sentou-se ao lado dele, e então o cocheiro estalou as rédeas.

 

O teatro onde a suposta mística se apresentava ficava na extremidade leste da parte central da capital. Localizado perto das residências de alto padrão, era a área mais elegante de uma cidade cujos cantos estavam repletos de lojas. Aquele prédio, porém, normalmente era usado por trupes de teatro; uma única mulher, mesmo uma suposta imortal, apresentando um espetáculo sozinha era algo bastante incomum.

Ela parece ser uma mística bem popular, pensou Maomao: quando desceram da carruagem, já havia uma multidão inteira formando fila. Um homem recolhia moedas e conduzia os clientes para dentro.

A mulher era conhecida como Pai-niangniang, “a Senhora Branca”, por causa de sua aparência. Era um nome bastante grandioso para uma simples artista.

[Kessel: O que a Maomao quis dizer com isso, é que Niangniang é um nome chinês que pode é historicamente usado como: senhora, mãe, imperatriz ou deusa. Apesar de que nesse contexto a tradução sugere o uso de “senhora” (Pai nesse contexto seria Branca), existiam outras formas de se referir a ela como senhora sem utilizar o caractere niangniang que é diretamente associado a imperatriz e as deusas, por isso Maomao se impressiona.] 

— O que é isso? — perguntou Maomao, embora não tivesse pretendido dizer em voz alta. Todos os clientes estavam vestidos com roupas finas, mas a maioria cobria o rosto com véus ou máscaras estranhas, apenas alguns permanecendo descobertos.

Lahan colocou um véu agradável ao toque sobre a cabeça de Maomao, e então ele, Rikuson e o homem robusto que servia como guarda-costas colocaram máscaras que escondiam a metade do rosto.

— É o costume — explicou Lahan. — As coisas correm muito melhor quando você tem algum pretexto para fingir que não reconhece ninguém.

Em outras palavras, alguns dos ricos e poderosos atraídos por aquele espetáculo podiam acabar se divertindo um pouco demais. Ou talvez isso fizesse parte do encanto da atmosfera carnavalesca: a chance de se entregar à sensação do estranho.

Ela deve ter patrocinadores, pensou Maomao ao ver o preço dos ingressos, seria difícil alugar um teatro tão refinado cobrando aquilo. Até a maioria das peças completas era financiada por patrocinadores; um espetáculo solo de uma artista itinerante precisaria ainda mais disso. Ao mesmo tempo, Maomao mal conseguia imaginar algo relacionado à economia que escapasse a Lahan; ela o viu olhando ao redor, o ábaco funcionando dentro de sua cabeça.

Dentro havia um palco, com cerca de duas dúzias de mesas dispostas à frente. O teto era abobadado, permitindo uma boa visão também do segundo andar. O lugar provavelmente comportava cem espectadores ou mais. Havia construções maiores no palácio interno que acomodavam mais pessoas, mas aquele teatro tinha sido projetado para garantir que todos tivessem alguma visão do palco. Em deferência ao público, os pilares e vigas eram esculpidos com padrões delicados e belos.

Uma enorme lanterna pendia do teto, banhando o espaço com uma luz turva. Maomao e os outros sentaram-se no lado esquerdo, duas fileiras atrás do palco. As mesas acomodavam quatro pessoas, o que significava que, com o guarda-costas, tinham o número perfeito. Os assentos centrais da primeira fileira estavam ocupados por um homem corpulento e uma jovem agarrada ao braço dele.

— A seção central é a mais popular. Faz o preço subir a níveis absurdos — informou Lahan, claramente irritado. Ainda assim, os lugares onde estavam também não deviam ser baratos. Devia ser uma fonte de irritação para alguém tão mão-de-vaca como ele.

— Acho que poderíamos ter ficado um pouco mais atrás — disse Rikuson. Era verdade que os melhores lugares sugerem algo sobre o poder e a riqueza de quem os ocupava, era evidente que o homem no centro da primeira fileira tinha bastante dinheiro, se nada mais. (Maomao parecia lembrar de um comerciante que estava vivendo muito bem no distrito dos prazeres recentemente, alguém não muito diferente dele.)

Mal tinham se sentado quando garçonetes sorridentes apareceram oferecendo bebidas, e alguns bolinhos assados foram servidos como petisco. Uma combinação incomum, observou Maomao. Ela aproximou o nariz da bebida para cheirar.

— É álcool. Não vai beber? — perguntou Lahan.

Na verdade, Maomao gostava de álcool. Mas queria estar com a cabeça clara quando visse essa tal Senhora Branca.

— Depois. Ou você prefere que eu verifique se tem veneno? — disse ela.

— Não se preocupe. — Lahan também deixou a bebida sobre a mesa — ele não era muito melhor em lidar com bebida do que o estrategista excêntrico. Rikuson, seguindo o exemplo de Lahan, não deu nenhum sinal de que tocaria nos refrescos.

— Você não vai beber? — perguntou Maomao a ele.

— Não seria adequado que eu fosse o único a acabar menos que sóbrio.

E, claro, o guarda-costas não beberia, embora sua boca, que não estava escondida pela máscara, revelasse sua decepção.

Uma rápida olhada ao redor sugeria que o álcool era bem saboroso, e pelo número de pessoas comendo os bolinhos, parecia que a combinação funcionava bem. Maomao, embora achasse que Rikuson não precisava ser tão cuidadoso assim, voltou sua atenção para o palco.

Uma névoa branca se espalhava pelo salão escuro. Ao som de um gongo, a atração principal apareceu no palco como um feixe de luz. Sua pele era branca, suas roupas eram brancas, e seu cabelo branco não estava preso, mas caía livremente pelas costas. Contra esse campo branco, seus lábios e olhos vermelhos se destacavam intensamente.

Enquanto o som do gongo ecoava pelo salão, a Senhora Branca caminhou até o centro do palco, onde uma bela mesa a aguardava. Ela parou diante dela, pegou uma folha de papel que estava ali e a mostrou ao público; nela havia um diagrama representando o palco e a própria mesa.

Um homem vestido de branco entrou no palco. Seu cabelo era preto, mas fora isso sua aparência lembrava bastante a da Senhora; era claramente seu assistente. Ele pegou o diagrama dela e o prendeu na parede do palco. Em seguida ele se virou para ele e arremessou algo, algum tipo de arma de arremesso, talvez. O objeto longo e fino atravessou o papel e ficou preso. A parede obviamente havia sido preparada com antecedência para facilitar que a faca se fixasse.

Agora havia um buraco no papel. E ele ficava precisamente na posição da segunda fileira à esquerda.

— Quem, se nos permite perguntar, está sentado neste lugar? — perguntou o assistente.

— Somos nós, não é? — perguntou Lahan a Maomao.

— Sim, senhor, parece que sim — respondeu ela.

— O que devemos fazer?

— Receio não saber, senhor...

Lahan tinha pouco interesse no assunto, e Rikuson dificilmente parecia o tipo de pessoa que subiria ao palco para fazer graça. O guarda, claro, estava ali para, bem, guardá-los.

— Que tal você ir? — disse Lahan, apontando para Maomao. — É uma ótima chance de vê-la trabalhar de perto.

Maomao ficou em silêncio por um momento, pensando no que deveria fazer, mas decidiu que era uma oportunidade que não podia perder.

— Voltarei em alguns minutos, então — disse, e subiu ao palco.

A Senhora Branca parecia ainda mais radiante sob a luz tremeluzente da lanterna, sua pele tão pálida que as veias eram visíveis por baixo. Claramente não era alguém apenas fingindo ser albina com pó.

— Por favor, escreva um número. Qualquer número — disse ela, sua voz mal audível. O homem ao seu lado repetiu a instrução alto o suficiente para que todo o teatro ouvisse. A Senhora continuou: — Por favor, não me deixe ver o que você escreveu. Dobre o papel quando terminar, pequeno o suficiente para que ninguém veja o que está nele.

Então ela e o assistente viraram as costas para Maomao. Maomao pegou o pincel que havia sido deixado ali e começou a escrever, ele já estava carregado de tinta, tanta que quase dificultava a escrita. A sensação um pouco desagradável da tinta sugeria que eles não tinham se preocupado em conseguir instrumentos de escrita de grande qualidade. Havia um apoio sobre a mesa para impedir que a tinta atravessasse o papel.

Eles não precisavam deixar a tinta tão pegajosa, pensou Maomao. Parecia quase granulada. Apenas uma daquelas coisas estranhas que a incomodavam.

Quando terminou de escrever o número, dobrou o papel e disse: — Terminei.

A Senhora Branca e o assistente se viraram novamente. O homem retirou a mesa do palco e a substituiu por algo trazido em um carrinho barulhento. Parecia uma caixa com uma coleção de cilindros estranhos encaixados na parte inferior. Cem cilindros, dispostos em dez linhas e dez colunas.

— Posso pedir que coloque o papel dentro de um desses tubos? — disse a Senhora Branca. Então ela e o homem viraram-se novamente. Maomao não achou que aquilo fosse realmente necessário; os tubos não eram visíveis nem do palco nem das cadeiras da plateia. Ainda assim, ela amassou o papel ainda mais e o enfiou em um dos tubos. O papel era macio, mas o tubo era estreito e ela teve que fazer um pouco de força. Com um bom empurrão, conseguiu, embora não invejasse a pessoa que teria de tirá-lo depois. Quando terminou, colocou um véu fino sobre a caixa para que os tubos não pudessem ser vistos.

Então o assistente da Senhora pegou a caixa e a levou até outra mesa em um canto do palco. O véu, leve e fino, ondulava enquanto ele caminhava.

— Está pronto — anunciou. Imediatamente houve um estrondo do gongo. O som pegou Maomao de surpresa, e ela ficou feliz por estar usando um véu também, para que ninguém visse seus olhos se arregalarem.

Quanto à Senhora Branca, ela sorriu e estendeu a mão. Maomao entendeu a deixa e também estendeu a sua; sentiu dedos pálidos e frios segurarem seu pulso. Desta vez houve um tilintar de sinos. A Senhora Branca encarou Maomao intensamente.

Ah... Ela deve ter a visão fraca, pensou Maomao, percebendo que os olhos da mulher às vezes se moviam em direções diferentes. Seus olhos também não tinham pigmento. A vida devia ser difícil para ela.

Enquanto Maomao se perdia nesses pensamentos, porém, a Senhora Branca disse: — O número que você escreveu é sete.

Maomao se sobressaltou. — Está correto.

Os lábios vermelhos se curvaram em um sorriso malicioso. Quando Maomao encontrou aqueles olhos carmesim, eles a fizeram lembrar da cobra branca que capturou uma vez, muito tempo atrás. Ela também tinha olhos vermelhos e pele branca. Quando Maomao tentou assá-la, seu velho ficou furioso; disse que era uma mensageira dos deuses e que ela não podia comê-la. Maomao sabia que não era mensageira divina alguma. Era apenas um animal que tinha pele branca por razões completamente comuns. Mas seu pai, para sua frustração, às vezes era assim, trazendo argumentos ilógicos nos momentos mais improváveis.

Justo quando Maomao sentiu que aqueles grandes olhos redondos estavam prestes a engoli-la, o gongo soou novamente. Talvez fosse a névoa no salão que a fazia sentir tanto calor, que fazia sua cabeça doer. Ela sentiu um lampejo de irritação com a sensação de que uma mosca zumbia perto de seus ouvidos, mas então a Senhora Branca falou outra vez.

— Terceira linha de cima para baixo, segunda da esquerda.

Maomao hesitou.

— E então?

O assistente removeu o véu para revelar ao público o que havia dentro da caixa. Ele pegou o tubo três linhas abaixo do topo e dois da esquerda e enfiou uma haste fina nele.

Pop!

O papel que Maomao havia enfiado saiu voando. O homem o desdobrou para revelar o número sete, na própria letra de Maomao, é claro.

 

Maomao voltou para seu lugar, pensando no que poderia estar acontecendo. O salão estava cheio de vozes animadas e alegres; grande parte do público parecia agradavelmente bêbada. Lahan e os outros, porém, esperavam atentamente o retorno de Maomao.

— Então me diga, o que foi aquilo? — perguntou Lahan, agora cheio de entusiasmo.

— Não faço ideia.

— Espere... Ela colocou alguma moedinha na sua mão, por acaso?

— Diferente de alguns de nós, eu não trabalho desse jeito.

— Bem, eu também não! Não há beleza nisso.

Esse homem não fazia sentido para Maomao, ele adorava até as menores moedas, mas afirmava que havia uma diferença entre beleza e impureza nelas. Mas ela percebeu Rikuson rindo baixinho para si mesmo.

— Você pode ver que eu não tenho nada — disse Maomao, abrindo as mãos e arregaçando as mangas para provar que não tinha sido subornada.

— Então alguém te viu?

— Duvido muito.

Apenas a Senhora Branca e seu assistente estavam no palco com ela. Maomao não achava que alguém tivesse observado enquanto ela escrevia o número, e o cano em que ela colocou o papel havia ficado oculto pelo pano. Mas talvez... pensou.

Ela olhou em direção ao palco, banhado pelo brilho irregular da lanterna pendurada no teto. Tinha pensado que talvez houvesse um espelho pelo qual os artistas pudessem ver qual número ela havia escrito, mas não parecia ser o caso. Parecia que seria difícil pendurar algo assim no teto e, de qualquer forma, seria preciso ter algo do tipo para começar.

Acima de tudo, porém, os olhos da Senhora Branca eram ruins demais para isso. Tudo a mais de um shaku diante dela provavelmente parecia embaçado. Maomao ainda estava refletindo sobre isso quando a próxima parte da apresentação começou. Uma nova mesa foi trazida e diversos utensílios foram dispostos sobre ela. A Senhora usou um par de hashis para pegar um pequeno e fino pedaço de metal dentre eles. Ela também escolheu um prato.

O assistente pegou o metal e o prato, colocou-os em uma bandeja e começou a caminhar pelo teatro com eles. O pedaço de metal parecia não ser mais do que uma lâmina de bronze polido; o prato, por sua vez, era fundo, para que o líquido nele não derramasse. O assistente pulou o segundo andar, evidentemente ele não tinha tempo de subir até lá, provocando alguns gritos de protesto vindos de cima. Mas isso, na opinião de Maomao, era apenas o que se ganhava por se sentar nos lugares baratos.

Quando o homem voltou ao palco, a Senhora Branca pegou de volta a lâmina de metal e o prato. Então colocou o metal no prato e colocou o prato em um fogo que havia sido aceso quase sem que ninguém percebesse. Ela começou a entoar algo que parecia um tipo de feitiço, e então começou a dançar. No salão sombrio e enevoado, seu corpo inteiro parecia brilhar.

Quando a dança terminou, a Senhora pegou os hashis e retirou o pedaço de metal do fogo.

A cor havia mudado. O tom avermelhado do bronze havia se transformado em um prateado puro. Várias pessoas na primeira fila exclamaram maravilhadas.

— O bronze virou prata! — alguém gritou.

— O quê? Sério?!

Os que estavam mais atrás não conseguiam ver exatamente o que acontecia no palco, mas podiam ver a reação das outras pessoas e avançaram com interesse. Os guardas conseguiram impedir que alguém subisse ao palco, mas ainda assim era perto o bastante para ver o que estava acontecendo.

A Senhora estava banhando o metal em algum tipo de líquido, depois o secando com um pano. Desta vez, ela o expôs diretamente ao fogo.

Os gritos ficaram mais altos: — A prata virou ouro!

De fato, a lâmina prateada havia se transformado em um ouro cintilante. A Senhora a sacudiu com os hashis, tirando o excesso de calor enquanto a colocava no prato. Seu assistente a ergueu para que todos pudessem ver claramente o ouro brilhante.

— Você consegue explicar isso? — perguntou Lahan a Maomao, limpando os óculos.

Maomao sorriu de canto. — Sim, depois. Por enquanto, vamos aproveitar o espetáculo. — Seus olhos estavam brilhando, na verdade, ela relutava em desviar o olhar da apresentação no palco. Com Lahan, sua voz ganhou um tom que ela normalmente reservava para usar no distrito dos prazeres; poderia soar um pouco estranho para Rikuson, mas considerando que ele servia alguém extremamente estranho, talvez estivesse disposto a não se incomodar com isso.

Maomao tinha outras coisas na cabeça, de qualquer forma. Isso é fascinante, pensou ela, tão ansiosa para ver a variedade de técnicas incomuns que quase se esqueceu de piscar. A mulher talvez não fosse uma imortal, mas era claro que não podiam descartá-la tão facilmente.

 

A Senhora Branca passou então a mostrar uma grande variedade de entretenimentos intrigantes. Ela colocou uma pedra molhada sobre um pedaço de papel e recitou um feitiço sobre ela; pouco depois, eles pegaram fogo. Produziu borboletas aparentemente do nada e, enquanto voavam para longe, elas também pareciam se incinerar, transformando-se em cinzas no meio do voo. Cada exibição arrancava um coro de exclamações da plateia.

Por fim, a Senhora ergueu um líquido prateado cintilante. Com todos os olhos do salão fixos naquela substância misteriosa, ela o despejou em um pequeno copo e o bebeu de uma vez.

Maomao quase engasgou, mal resistindo ao impulso de saltar do assento. Felizmente se conteve antes de se levantar e, em vez disso, concentrou o olhar intensamente na Senhora.

— Espero que tenham tido outra noite agradável em meu espetáculo — disse a Senhora com um sorriso, e então desceu do palco. Enquanto isso, os membros da plateia continuaram enchendo o teatro com conversas animadas sobre o que tinham acabado de testemunhar. Os olhos de algumas pessoas tremeluziam como se estivessem em chamas, enquanto outras olhavam com adoração para o lugar onde a imortal havia estado. Apenas o grupo de Maomao parecia menos envolvido do que o restante, talvez em parte porque não tinham se entregado ao vinho.

— Ela realmente é algo especial — comentou Rikuson, finalmente pegando sua taça. Maomao, porém, instintivamente o deteve, olhando para ele com inquietação. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele.

— Sim — disse Maomao, pegando sua própria taça.

Ela cheirou o conteúdo, depois colocou uma única gota de vinho sobre a pele. Quando viu como ele se comportava, tomou o menor gole possível da bebida.

— Está misturado com alguma coisa — disse ela.

Não havia muito álcool de fato. Era mais próximo de um suco, bem fácil de beber, mas também tinha vários outros sabores conflitantes. Parecia que as bebidas tinham sido adulteradas com diversas outras substâncias, talvez incluindo um pouco de sal.

— Não é venenoso — disse Maomao. Mas, apesar do baixo teor alcoólico, parecia provável que tivesse um efeito forte. Era isso.

E havia também a luz vacilante das lanternas. A sala escurecida. A névoa estranha e a mulher fantasmagórica no palco. Os fenômenos incomuns que o público havia testemunhado.

Bem, agora.

Tudo isso era mais do que suficiente para inspirar fé cega em alguém. Maomao se perguntou quantas pessoas da plateia tinham sido levadas exatamente a isso. Enquanto refletia sobre o assunto, continuou a bebericar sua bebida. Definitivamente é um pouco salgado, pensou. Ela seria melhor sem sal, refletiu e foi então que algo lhe ocorreu.

Ela mergulhou um dedo na bebida, depois o passou sobre a mesa, usando o suco como tinta.

— O que você está fazendo? — perguntou Lahan.

— Você queria saber o que está acontecendo? Aqui está. — Maomao olhou ao redor para eles. Se aquilo é assim, então aquilo outro também deve ter algum truque. Ela desejou ter olhado ao redor com mais atenção quando estava no palco. Havia algo ali? Lá em cima estava mais enevoado do que nos assentos, mais quente, fazendo sua cabeça doer e interferindo com sua concentração de um jeito estranho.

Névoa... Vapor...

Ela suspeitava que fosse vapor, talvez de algo sendo fervido atrás do palco. Isso explicaria o calor também. Mas então por que isso fazia sua cabeça doer? Ela teve a sensação de que havia uma mosca zumbindo ao redor de seus ouvidos. O que era aquilo?

Hm? Justo quando sentiu que estava começando a ter uma pista do que poderia ser, ela vislumbrou a Senhora Branca nas espreitas do palco. Maomao colocou os dedos na boca, fechou os lábios e soprou.

— Por que você está assobiando? Que jeito vulgar de mostrar apreciação — disse Lahan, olhando para ela com os olhos semicerrados.

O assobio de Maomao não foi muito alto, enquanto o burburinho ao redor era barulhento. O som não deveria ter ido longe. E ainda assim, ela viu a Senhora olhar ao redor quando ela assobiou.

Hah. Agora entendi. Maomao sorriu e começou a comer bolinhos.

 

Lá fora estava frio. Eles poderiam facilmente ter esperado até voltar para a Casa Verdigris para falar sobre o que tinham visto, mas Lahan e os outros pareciam ansiosos para descobrir o que estava acontecendo o mais rápido possível, então decidiram parar em um restaurante e conversar ali. Maomao escolheu um lugar do lado caro, o que deixou Lahan nada satisfeito, mas ela não poderia se importar menos. Um garçom os conduziu até seus lugares e, quando já estavam sentados ao redor de uma mesa redonda, Maomao pediu quaisquer pratos que o garçom recomendasse, junto com uma garrafa do melhor álcool da casa.

— Você já ouviu falar em moderação? — resmungou Lahan.

— O grande ganhador disse o quê?

— Minha família comprou algo muito caro no ano passado; estamos praticamente falidos.

Ela sabia muito bem, ele tinha comprado da Casa Verdigris.

Primeiro, Maomao decidiu explicar como a Senhora Branca havia transformado bronze em prata e ouro.

— É muito parecido com o que chamam de transmutação.

Talvez ela devesse simplesmente ter dito liandan-shu. Na verdade, fazer pólvora entrava na mesma categoria. A transmutação era uma subcategoria de liandan-shu, uma forma de transformar metais comuns em metais nobres.

Maomao brincou com a colher que o garçom havia trazido. A arte do liandan-shu tinha como objetivo prolongar a vida das pessoas, mas muitas das coisas atribuídas a ela eram pura bobagem. As histórias falavam de um imperador antigo obcecado em alcançar a imortalidade, que acabou perdendo a vida tentando obtê-la por meios equivocados.

Sim, as duas coisas eram bastante parecidas.

— Mas, se eu tivesse que distinguir, diria que é mais próximo do que chamam de alquimia no ocidente.

— Ocidente? — perguntou Lahan, e Maomao assentiu.

— Sim. — Lahan pareceu um pouco desconcertado com o fato de Maomao falar de forma mais educada com Rikuson do que com ele. Talvez já pudesse falar casualmente com Rikuson também, refletiu Maomao. — Meu velho me contou sobre isso, mas eu nunca tinha visto com meus próprios olhos antes. Aquele pedaço de metal não se transformou em prata ou ouro de verdade. Ele simplesmente tinha um revestimento metálico que podia ser queimado no fogo para mudar de um para o outro.

Maomao queria ter tentado fazer aquilo ela mesma, mas seu velho se recusou a contar os ingredientes necessários. Embora suspeitasse que, mesmo que ele tivesse contado, provavelmente não seriam coisas que ela conseguiria em uma humilde botica.

— Do que você está falando? O que é esse “revestimento”?

— É quando você envolve um metal numa “casca” de outro metal — disse Maomao, prendendo a colher entre os dedos das duas mãos. — Se quiser saber mais, deveria perguntar ao meu pai. E, se puder me contar o que descobrir... Não, você tem que me contar. — Seus olhos brilharam.

O papel que se incendiava sozinho podia ser explicado com subprodutos daquele processo, e se as borboletas também tivessem sido feitas de papel, isso poderia explicá-las. Além disso, a visão do público tinha sido prejudicada pela névoa no teatro, e eles estavam bebendo um vinho feito especificamente para induzir uma espécie de torpor alcoólico. Até mesmo ela, Lahan e os outros, que não tinham bebido, quase tinham sido enganados; nenhum dos outros espectadores embriagados teria suspeitado de nada.

Aliás, as borboletas de papel lembravam muito um truque tradicional de um país insular ao leste. Ele envolvia recortar formas em um papel muito fino e de alta qualidade.

— Então explique como ela conseguiu ler sua mente — disse Lahan, ainda confuso.

— Sim, sobre isso... — Maomao estava justamente decidindo como explicar quando o garçom voltou com a sopa antes da refeição.

Talvez isso funcione, pensou Maomao, mergulhando a colher na tigela de sopa.

— Papel — disse ela.

— Olha só você, dando ordens — disse Lahan, franzindo a testa para ela, mas mesmo assim tirou um pedaço de papel das dobras de sua roupa e entregou. Maomao passou a colher cheia de sopa sobre o papel, produzindo um rabisco infantil. Ela abanou o papel rapidamente para secá-lo, e o rabisco desapareceu.

— Está vendo? — perguntou ela.

— As áreas molhadas encolheram um pouco.

— Observação boa demais.

— Bah. Mostre um pouco de respeito pelo seu irmão adotivo.

Absolutamente não.

Rikuson falou: — Então... o que isso tem a ver com o que vimos?

— Observe. — Maomao foi até uma das lanternas na parede, removeu cuidadosamente a armação e segurou o papel sobre a chama exposta.

Lahan e Rikuson pareceram chocados e, embora isso fosse satisfatório, aquilo não deveria ser novidade para eles. Jinshi e Gaoshun teriam entendido muito antes, pensou Maomao. As partes da página molhadas com sopa chamuscaram e escureceram na chama.

— Viram?

— Mal. O que isso tem a ver com ler a mente de alguém?

Maomao enfiou a colher na boca de Lahan. 

— Que gosto tem?

— Parece caldo de frutos do mar. E um pouco salgado.

— Isso. Tem sal.

— E daí?

Bem, havia sal ali. Especificamente naquela tinta granulada que ela tinha usado. Não era de se admirar que tivesse sido tão desagradável escrever com aquilo.

— Havia sal na tinta. Se misturar bem, você não necessariamente vê, assim como não vê aqui nesta sopa. Mas ele estava lá, do mesmo jeito que está aqui.

Expor ao fogo revelava claramente que havia mais do que apenas água presente.

— Você está dizendo que ela queimou o papel para revelar o número? Como?

— Não, ela não fez isso, mas existem outros jeitos.

Havia uma prancheta de escrita escura sob o papel que Maomao tinha usado. Bastante tinta teria penetrado nela.

Lahan olhou para o papel levemente escurecido, traçando as linhas com o dedo.

— Então era isso que estava acontecendo.

— Sim. Eu acredito que sim. Era algo misturado na tinta.

Não precisava ser sal; qualquer coisa que pudesse se misturar à tinta, mas permanecesse quando ela secasse, serviria. Suponha, por exemplo, que fosse sal. Maomao teria escrito o número com a tinta salgada, que teria penetrado na prancheta por baixo. Quando a tinta secasse, o numeral salgado apareceria, um padrão de pó branco sobre a prancheta escura.

— Entendo, entendo — disse Rikuson, batendo as mãos ao compreender. — E os tubos? Como ela sabia em qual você colocou o papel?

— Ah, aquilo?

Maomao rasgou o papel em dois, dobrou as metades e fez um furo no meio. Enfiou um dedo nelas e soprou entre os dois pedaços, produzindo um assobio opaco.

— Imagino que vocês saibam como uma flauta funciona.

— Você sopra nela e sai um som.

— E como você muda esse som?

— Mudando quantos buracos o ar atravessa. Até eu sei disso.

Ele ainda não tinha entendido? Não, talvez não: ele não tinha visto de perto os tubos onde ela escondeu o papel.

— E se os tubos funcionassem como os buracos de uma flauta?

— Desculpe, mas eu não ouvi nenhum som.

O teatro estava cheio de sinos e gongos. Mas havia outro som, escondido pelos ruídos mais altos.

— Tive uma dor de cabeça bem forte enquanto estava lá. Suspeito que havia um som tão agudo que não podia ser ouvido — disse Maomao.

Barulhos altos podiam machucar os ouvidos. Ela suspeitava que, mesmo sem perceber conscientemente um som, ele poderia incomodá-la de forma subconsciente.

— Um som agudo?

— Sim.

Maomao soprou sua flauta.

— Ouviram isso?

— Claro que ouvi.

— E isto aqui?

Ela deixou o som mais agudo, assobiando do mesmo jeito que tinha feito na caverna com Jinshi. Lahan fez uma careta, e Rikuson pareceu confuso por um instante. O guarda-costas, porém, estreitou os olhos.

— Eu ouvi também — disse Lahan.

— Eu... meio que ouvi — relatou Rikuson.

Então o guarda, parecendo inseguro se podia participar da conversa, disse: — Eu não ouvi nada… — Maomao sentiu um pouco de pena dele; ele estava obviamente constrangido.

— Tudo bem — disse ela. — É assim mesmo. Fica mais difícil ouvir conforme a gente envelhece.

O guarda devia ter uns trinta e poucos anos. Ele parecia claramente chocado ao perceber que não conseguia ouvir o som, sua reação o fez parecer um pouco com Gaoshun. Talvez todas as pessoas de meia-idade reagissem assim.

— Nem todo mundo consegue ouvir sons na mesma frequência — informou Maomao. — Existem variações até entre pessoas da mesma idade. Do mesmo jeito que algumas pessoas têm visão melhor que outras, algumas têm audição melhor. — Além disso, Maomao suspeitava, embora não tivesse como provar que, às vezes, pessoas com visão ruim compensavam desenvolvendo uma audição melhor.

— Acho que aquela mística tem uma audição extremamente sensível — disse ela. Como a forma que a Senhora reagiu ao assobio de Maomao a uma distância considerável e apesar de todo o barulho ao redor. Maomao suspeitava que a Senhora Branca praticava distinguir sons de assobio regularmente. Aquilo a fez lembrar do cão de caça com que Lihaku tinha brincado durante a excursão deles. Também explicaria por que não havia flautas no conjunto musical da apresentação da Senhora Branca.

Tanto as flautas verticais quanto as horizontais produzem mudanças de som abrindo e fechando uma série de furos ao longo do instrumento. Suponha que os cem tubos naquela caixa fossem equivalentes aos furos de uma flauta. Maomao empurrar o papel dentro de um deles seria como fechar um furo no instrumento.

— Você está sugerindo que ela conseguia distinguir cem sons diferentes, e assim sabia qual tubo era? Se aquela caixa era como uma flauta, o que servia para soprar nela?

— Existe um método bem simples.

E se, com os gongos e sinos como sinal, alguém soprasse na “flauta” dez vezes? A caixa tinha sido coberta com um véu, então não seria problema para a assistente da Senhora estar por perto, operando algo que forçasse o ar através dos tubos. Nem seria preciso aprender cem sons diferentes: dez já bastariam.

— Quanto a como sopravam nos tubos, a névoa explica.

A névoa era vapor, o que significava que estavam fervendo água em algum lugar para produzi-la. E se a mesa tivesse sido projetada para que o vapor entrasse por baixo? O público estava tão focado no que havia em cima da mesa que não notaria pequenos dispositivos por baixo.

— Agora faz sentido?

— Hm.

Lahan e os outros assentiram.

— Tem mais uma coisa — disse Maomao, lembrando-se do líquido prateado que a Senhora bebeu no final do espetáculo. — Aquilo é um veneno extremamente potente. Não sei se ela realmente bebeu ou não, mas definitivamente não é algo para tentar em casa. Vocês deveriam avisar outros altos oficiais sobre isso quando tiverem oportunidade. — Ela lançou a Lahan o olhar mais sério que conseguiu.

 

Alguns dias depois, a Senhora Branca e seu espetáculo desapareceram sem deixar rastro. Em seu lugar restou apenas uma série de misteriosas intoxicações alimentares entre os comerciantes da capital.

Qual teria sido seu objetivo? A “imortal feminina” que parecia uma serpente branca havia desaparecido, mas o mistério permanecia.

Muito, muito tempo atrás, os poderosos buscaram um elixir da imortalidade e consumiram uma prata que parecia água, acreditando que ela prolongaria suas vidas. Mal sabiam que tudo o que faria seria encurtá-las.

Por causa de seu movimento, o metal passou a ser chamado de mercúrio. Maomao se perguntou o que tinha acontecido com a Senhora Branca depois de beber aquilo. Ela apenas fingiu ou realmente o consumiu? Se o mercúrio fosse expelido do corpo ainda em estado líquido, não seria tão venenoso. Mas, se fosse dissolvido em vapor e inalado, ou combinado com outra substância para formar algo novo, então seria extremamente tóxico.

Houve um tempo em que ele era considerado um remédio. A diferença entre um medicamento e um veneno muitas vezes era apenas uma questão de aplicação, refletiu Maomao, observando o vermelho vivo de um pedaço de cinábrio, e decidiu tirar todo o assunto da cabeça.

[Kessel: Eu deixei para falar no final, mas o título do capítulo é um conto milenar chinês muito interessante. Conta a história de um espírito de serpente que decide se tornar humana para experimentar o amor pela primeira vez. Bonita referência da Natsu!]


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