Volume 5
Capítulo 6: O Último Volume
O filho de Gaoshun, Basen, apareceu batendo à porta da farmácia com vários volumes da enciclopédia. Maomao ofereceu ao jovem, que parecia tão contrariado como sempre, a almofada surrada e serviu chá para ele.
— O Mestre Jinshi está ocupado — disse Basen. Evidentemente querendo dizer que ele não tinha tempo sobrando para ir até ali.
O motivo dele ainda usar o “nome de eunuco” de Jinshi era em parte como um pseudônimo, mas principalmente porque Basen simplesmente não conseguia pronunciar o nome verdadeiro dele. Os nomes dos nobres não devem ser ditos levianamente diante de plebeus.
As cortesãs da Casa Verdigris estavam agitadas ao ver Maomao recebendo alguém que não era a habitual beleza acompanhada de seu assistente. A madame, em especial, tentava agir com naturalidade, mas Maomao conseguia ver o ábaco funcionando na cabeça dela.
Diferente de quando estava com Jinshi, a porta da loja permanecia aberta enquanto Basen estava presente, tudo completamente visível para o mundo. Talvez fosse um gesto de consideração da parte dele, uma forma de mostrar que nada impróprio estava acontecendo entre os dois.
— Trouxe o que você pediu — disse Basen, desfazendo um embrulho de pano para revelar vários livros grossos, um dos quais Maomao reconheceu imediatamente. Uma enciclopédia de insetos, parte de uma coleção que também incluía volumes sobre pássaros, peixes e plantas. Os interesses de Maomao eram principalmente herbais; ela devorou o volume sobre plantas, mas o de insetos apenas folheou por cima.
Espero que esteja aqui, pensou. Sazen disse que seu predecessor estava pesquisando sobre gafanhotos. Tinha que estar aqui. Mas ela não via nada. Por mais que procurasse, não encontrava qualquer menção a eles. Por fim, até Basen começou a folhear as páginas, procurando a entrada que parecia ter evaporado.
— Não está aqui? — ele perguntou por fim.
— Ao que parece, não.
— Você disse que estaria.
E daí se eu disse? O que não estava ali, não estava. Ainda assim, era no mínimo estranho. Será que Sazen enganou os dois? Pouco provável; o que ele ganharia com isso?
— Alguém mexeu nesse livro enquanto estava guardado? — perguntou Maomao, mesmo sabendo que isso lançava suspeita sobre o soldado que o trouxe.
— Quem teria interesse em uma coisa dessas?
— Cada um gosta do que gosta.
Mesmo assim, a possibilidade parecia remota. Se alguém fosse saquear o lugar, haveria coisas bem mais obviamente valiosas para levar.
Maomao soltou um gemido desanimado, mas então viu alguém se aproximando da loja. Alguém que se movia com a graça de um salgueiro ao vento suave e, ao mesmo tempo, generosamente dotada, era sua irmã mais velha, Pairin.
Maomao a observou enquanto um semblante fechado surgia em seu rosto. A madame vinha logo atrás de Pairin, sem fazer o menor esforço para impedi-la. Pelo visto, ela já tinha avaliado Basen.
Pairin era uma cortesã muito agradável. Era a mais velha ainda em atividade na Casa Verdigris, mas sua beleza permanecia intacta, e ela ainda chamava a atenção de muitos homens. O cachorrão, Lihaku, era um ótimo exemplo. Diziam também que ela era a melhor dançarina da capital. Sem falar que era uma excelente irmã mais velha; sempre gentil com as cortesãs mais novas e as aprendizes.
Mas não era isenta de defeitos.
Pairin se aproximou e ficou atrás de Basen, então passou um belo e bem desenhado dedo pela bochecha dele.
Basen quase pulou da própria pele, embora de algum jeito tenha permanecido sentado enquanto fazia isso. Não, não fazia muito sentido, mas aparentemente ele era ágil o bastante para “pular” sem sequer se levantar.
[Kessel: A melhor tradução seria que a alma do Basen quase saiu do próprio corpo, mas aí o restante do parágrafo não faria muito sentido. Mantive, portanto, dessa forma. Mas foi isso que a Natsu quis dizer.]
— Irmã...
— Oh, me desculpe. Ele estava com um pouco de poeira no ombro.
Não havia a menor chance daquilo ser verdade. Se a poeira estava no ombro, por que tocar a bochecha dele?
Cada movimento de Pairin era calculado e elegante; cada gesto exalava feminilidade. Seus olhos sorriam com suavidade, mas para Maomao ela parecia uma carnívora faminta. Pairin estava “tomando chá” nos últimos dias; ou seja, não estava atendendo clientes. Isso não significava que ela não conseguia atrair clientes pagantes, pelo contrário, era um sinal de que trabalhar todos os dias era algo abaixo dela. Mas havia um detalhe: Pairin não gostava de ficar “tomando chá”. Seu apetite estava ficando insatisfeito.
— O-O que está acontecendo?! — Basen tentou recuar, mas a loja era pequena; logo Pairin o encurralou.
— Nossa, ainda está aqui. Pronto, fique parado que eu tiro para você.
Maomao afastou seu almofariz e pilão e os colocou numa prateleira antes que Basen tropeçasse neles. A bandeja com as xícaras e os petiscos, ela segurou nas mãos.
Ela vai dar a primeira vez de graça.
O rosto de Basen estava ao mesmo tempo pálido e vermelho. Se Lihaku aparecesse exatamente naquele momento, as coisas ficariam realmente interessantes. Maomao calçou os sapatos e comeu um dos petiscos que estava protegendo. Não eram tão bons quanto os que traziam quando Jinshi visitava, bem típico da velha. Ainda assim, eram luxuosos o suficiente: finos biscoitos de arroz com um leve sabor de camarão. Exatamente do tipo que Maomao gostava.
Ah! Já sei! Ele é virgem, pensou ela. Havia algo nele que entregava isso. Agora tudo fazia sentido, concluiu, encostando-se na parede e dando outra mordida no biscoito, depois tomando um gole de chá. Ela viu uma aprendiz olhando para ela com inveja, mas não podia simplesmente dar um petisco à garota bem na frente da madame. Em vez disso, decidiu não comer o último biscoito e guardá-lo para a menina depois.
— Argh! Eu já entreguei o que me mandaram trazer. Estou indo embora! — disse Basen, tentando apertar o cinto de novo (Pairin quase conseguiu tirá-lo) enquanto fugia da loja. Maomao se perguntou se deveria avisá-lo que sua roupa íntima estava aparecendo.
— Ahh — disse Pairin, sentando-se. — Um virgem, e eu quase tive ele!
Então ela pensava o mesmo. Pairin seria uma irmã mais velha exemplar, se não fosse por comportamentos assim. E Maomao sentia que ela piorava a cada ano.
— E pensar que, com uma provinha, já seria o paraíso... — disse a madame, em tom de pesar.
Tenho quase certeza de que você quer dizer inferno, pensou Maomao.
Era melhor avisar Lihaku para se apressar e juntar logo o dinheiro para tirar Pairin dali. Antes que Chou-u ficasse velho o bastante para chamar a atenção da princesa.
Sazen estava varrendo perto do portão da frente. Até ficar forte o suficiente para servir como um criado de verdade, ele estava preso a tarefas que eram basicamente trabalho de aprendiz. Era assim que Ukyou, o capataz dos criados homens, administrava as coisas. Se o candidato parecesse confortável demais com trabalho braçal, Ukyou decidia que ele não tinha o que era preciso para se tornar um membro valioso da equipe e, no devido tempo, era dispensado. Homens que demonstravam indignação por fazer tarefas de meninas jovens e tentavam aprender outros ofícios eram mantidos.
Ver Sazen cantarolando enquanto varria não deixou dúvidas na mente de Maomao de que ele não duraria muito ali.
[Noelle: Coitado kkkk ser adaptável tinha que ser uma coisa boa uai kkk]
— Ei — disse Maomao, de forma brusca.
— Hm? — Tendo trocado as roupas sujas e raspado a barba, Sazen parecia vários anos mais jovem.
— O livro está aqui. — Ela mostrou os volumes que Basen trouxe, agora embrulhados em um pano de transporte. Houve um baque audível quando ela os colocou no chão. — E não é o que você disse que seria.
Incluindo os livros que Sazen já tinha consigo, a enciclopédia inteira somava quatorze volumes. Nenhum deles, porém, parecia conter algo sobre gafanhotos. Maomao se lembrava dos quatorze livros daquele quartinho, então sabia que a quantidade batia.
— O quê? Mas isso não faz sentido. — Sazen desfez o pano e examinou os livros. Ele estreitou os olhos, analisando-os de perto, e então seu rosto escureceu. — Não estão todos aqui.
— São todos os livros que estavam naquela sala — disse Maomao, confiante de que ao menos até quatorze ela sabia contar.
— Não, estou falando especificamente desses. — Sazen pegou os volumes sobre insetos. Eram dois, claramente marcados como I e II. — Devia haver três volumes sobre insetos.
— O quê?
Isso significava que havia pelo menos um livro que nunca esteve naquela sala ou que alguém o retirou antes de Maomao chegar.
— Huh! Quem iria querer levar algo assim? — disse Sazen.
— Pelo jeito, você levaria.
— Não, não. Na época do velho, o livro estava lá, eu sei que estava.
O “velho” era provavelmente o médico que foi banido do palácio interno. Diziam que ele pesquisava um elixir da imortalidade, ou pelo menos era o que Maomao ouviu.
— Será que enterraram ele com o livro ou algo assim? — disse Sazen.
— Por que fariam isso?
— É tradição na minha cidade natal.
Ela não estava perguntando sobre a terra de Sazen, estava? Mas ficou curiosa sobre o “velho”.
— Afinal, como ele morreu? — Teria sido apenas de velhice? Se estivesse vivo, teria aproximadamente a idade do velho de Maomao, então não seria tão surpreendente. Também diziam que o médico falecido estudou no oeste em algum momento, então talvez os dois se conhecessem.
— Ah... Bem. Foi um experimento que deu errado.
— Deu errado?
— Eles estavam tentando criar um elixir da imortalidade, certo? E, para isso, é preciso testar, não é?
Isso quer dizer...
Havia algo que Maomao vinha se perguntando, algo sobre a droga de ressurreição usada em Chou-u e nas outras crianças. Chou-u sofreu apenas uma leve paralisia, mas um remédio que efetivamente matava e depois trazia alguém de volta à vida jamais funcionaria tão bem logo na primeira tentativa. Eles deviam ter feito uma série de experimentos, aumentando gradualmente as chances de sucesso.
Então como realizaram esses testes? Usaram ratos, sim, mas para ter certeza de que funcionaria, em algum momento seria preciso testar em seres humanos de verdade.
— Ei... o que há de errado com você? — Sazen fez uma careta.
Por um instante, Maomao se perguntou o motivo, mas logo percebeu: estava sorrindo de orelha a orelha de um jeito assustador.
— Me diga. Onde enterraram ele?
— Não faço ideia. Eu não era responsável por esse tipo de coisa.
— Quem era?
Sazen coçou a cabeça. — Acho que você conheceria ela pelo nome de Suirei. Ela era ajudante do velho. Sabe, a sem expressão. A meia-irmã mais velha da jovem senhora, acho que era assim que chamavam ela.
Um choque percorreu Maomao e, antes que percebesse, ela acertou o ombro de Sazen com toda a força. Como não tinha percebido antes? Suirei: um membro sobrevivente do clã Shi, neta do imperador anterior e meia-irmã de Shisui.
— Ai! Por que você fez isso?!
— Já entendi! Você continua varrendo. Nada de corpo mole!
Maomao enrolou o livro novamente no tecido e voltou correndo para a loja para escrever uma carta.
Ela pediu a um criado que entregasse a mensagem o mais rápido possível. Escrever diretamente para Jinshi seria ultrapassar os limites, então normalmente ela endereçava as cartas a Gaoshun ou a Basen, mas, como Basen nem sempre parecia estar muito bem, quase sempre escrevia para Gaoshun.
A manhã seguinte chegou depressa, e com ela veio uma resposta à sua carta, seguida de perto por uma carruagem para buscá-la. Ela a levaria até onde Suirei estava, Maomao tinha ouvido que agora ela vivia com a Ah-Duo, uma ex-concubina de alto escalão. Maomao entregou os volumes da enciclopédia a um criado que veio com a carruagem e então fechou a porta da loja.
— Ah, você vai sair? Que sorte a sua! — disse Chou-u, puxando a manga de Maomao. Ela franziu a testa para ele. — Me leva também!
— De jeito nenhum.
Não apenas Suirei, mas as outras crianças do clã Shi também viviam com Ah-Duo. Manter Chou-u longe delas era justamente o motivo dele estar ali; ela não ia levá-lo direto até elas.
— Chata! Você fica com toda a diversão!
— Eu vou trabalhar. Talvez você possa passar o tempo limpando a frente da loja ou algo assim.
Ela deu um tapinha na cabeça dele e o entregou para Ukyou. Ukyou, que gostava de crianças, saiu com Chou-u montado em seus ombros.
A nova garota, filha do homem pobre, também estava por ali. A irmã mais velha dela estava em período de avaliação como aprendiz. A madame tinha deixado claro que, se ela não aprendesse direito, seria dispensada sem mais nem menos. O pai das meninas já tinha ido buscá-las várias vezes, mas em todas os criados o expulsaram. Ele também tentou pressionar Maomao, mas foi a própria filha que disse que queria ser cortesã. Maomao não tinha se envolvido naquela época e não estava envolvida agora, e, acima de tudo, ainda não tinha recebido dinheiro nenhum.
Anda logo e me paga... Ela esperava que o pagamento refletisse o sucesso completo dos seus esforços. Maomao olhou para Chou-u, ainda nos ombros de Ukyou. E o que vamos fazer com ele? Se ele não tivesse ficado parcialmente paralisado, poderiam treiná-lo como um dos criados, mas ser segurança em um bordel exigia certa capacidade física.
Talvez eu devesse fazer dele um apotecário, pensou Maomao. No momento, porém, Chou-u não demonstrava nenhum interesse por medicina. Já Maomao, na idade dele, conhecia mais de cem fórmulas diferentes. Como ele pode não se interessar por isso, sendo tão fascinante? Maomao entrou na carruagem, emburrada.
A residência de Ah-Duo era grandiosa e luxuosa, como convinha a uma vila imperial. Maomao foi obrigada a trocar de roupa antes de descer da carruagem. Sabia que Ah-Duo não ligava muito para essas formalidades, mas o decoro exigia.
Assim, Maomao se viu caminhando, segurando a barra da saia longa para não sujar. Passou por um portão magnífico e atravessou um pátio coberto de cascalho. Era como uma pintura: pedras ornamentais, cascalho e musgo. A beleza do lugar transmitia claramente o orgulho do jardineiro pelo próprio trabalho.
Após uma breve caminhada, Maomao chegou a um aposento onde encontrou Ah-Duo, a dona da casa, e outra pessoa, ambas vestidas como homens.
— Seja bem-vinda. — A voz de Ah-Duo estava tão clara e firme como sempre; talvez até mais do que antes.
A pessoa ao lado dela era Suirei. Talvez estivesse vestida com roupas masculinas por já estar acostumada a isso, ou talvez houvesse outro motivo. Continuava tão inexpressiva como sempre e permanecia um passo atrás de Ah-Duo.
— Acho que não precisamos de formalidades. Estarei presente, mas não se preocupe comigo. Por favor, conversem livremente. — Dizendo isso, Ah-Duo se sentou em um sofá, depois fez um gesto para Maomao, que, como convidada, sentou-se em seguida, e por fim Suirei também se acomodou.
“Não se preocupe comigo”. Fácil falar. Como Maomao poderia não se preocupar? Apesar da dificuldade em atender ao pedido, ela pegou os volumes da enciclopédia trazidos pelo criado e os colocou sobre a mesa. Bem, se fosse algo que elas não quisessem que Ah-Duo soubesse, Jinshi teria lidado com a situação de outra forma. Maomao não tinha escolha a não ser seguir em frente.
— Você reconhece isto?
— Meu mentor estava utilizando eles — respondeu Suirei, com um tom mais educado que o habitual, talvez por causa da presença de Ah-Duo.
— São todos?
Suirei inclinou a cabeça e observou os livros. Depois de um momento, disse:
— Está faltando um. Acredito que deveriam ser quinze volumes.
— E você sabe onde pode estar o volume que falta?
— Receio que não — disse ela suavemente, e não parecia estar mentindo. Afinal, que motivo teria para mentir? Qualquer ligação dela com o clã Shi já não tinha importância, mas ela também não podia se mostrar em público. O único caminho que lhe restava era viver isolada em um lugar como aquele. Maomao não sabia o que aconteceria com ela, o que o Imperador tinha planejado, mas achava um desperdício. Suirei era uma apotecária talentosa.
Se ela não sabia onde estava o livro, então restava a próxima pergunta.
— E esse seu mentor. Você sabe onde ele está?
O pequeno sobressalto que isso provocou em Suirei não passou despercebido por Maomao. Ah-Duo tomou um gole de chá e observou as duas.
— Eu sabia. Ele está vivo — disse Maomao, mais como afirmação do que como pergunta. — Ele deve ter testado a droga de ressurreição em si mesmo.
Suirei abaixou o olhar e então fechou os olhos lentamente. Por fim, assentiu, resignada. — Isso mesmo. Era o único jeito dele conseguir sair daquela fortaleza.
Então o mentor de Suirei tinha tomado a droga de ressurreição ele mesmo, sob o pretexto de conduzir um experimento. E, pelo modo como ela falava, ele tinha sobrevivido.
Mas Suirei acrescentou: — Você não vai conseguir descobrir o que quer saber por meio dele. Não faz diferença falar com ele ou não.
— O que você quer dizer? — perguntou Maomao.
Os olhos de Suirei se arregalaram levemente. — O garoto. Chou-u, é assim que você chama ele agora, não é? Você sabe o que aconteceu com ele. Não consegue ligar os pontos?
Chou-u tinha tomado a droga, morrido e voltado à vida. Mas ficou com o movimento de um lado do corpo prejudicado e também perdeu as memórias.
— Você está sugerindo que seu mentor perdeu a memória?
— Não exatamente, mas você está no caminho certo. Na verdade, talvez você já tenha cruzado com ele sem saber.
— Do que você está falando?
Os olhos de Suirei baixaram, tristes. — Você se lembra da cidade das águas termais?
— Sim. — Uma vila escondida que cultuava uma divindade raposa. A luz das lanternas ainda brilhava intensamente em sua memória.
— Um dos velhos acamados de lá era meu mentor. — A cidade das águas termais era um lugar de recuperação e revitalização, e havia mais de uma pessoa que se encaixava naquela descrição. — Ele não se lembra mais de quem ou do que já foi. Se ele estivesse bem, não acredito que ela teria imaginado envolver você em tudo aquilo.
O rosto de Suirei escureceu ao pronunciar “ela”. Maomao não sabia que tipo de relação as meia-irmãs Suirei e Shisui tinham construído, mas suspeitava fortemente que Suirei era inteligente o suficiente para perceber que ela própria tinha sido um dos motivos das ações de Shisui. Shisui talvez quisesse ajudar o país a prosperar, mas também queria tirar a irmã mais velha do controle da mãe.
— Entendo... — disse Maomao, o corpo ficando mole de decepção. Finalmente tinha ousado ter esperança de encontrar respostas.
Não, ainda era cedo demais para desistir. — Nesse caso, quero saber sobre a pesquisa com gafanhotos que seu mentor estava conduzindo. — Maomao colocou diante de Suirei os dois volumes sobre insetos, mas a outra mulher balançou a cabeça novamente.
— Eu não contribuí em nada com essa pesquisa. Eu odeio insetos. Isso era mais a especialidade dela.
— Ah.
Suirei tinha desenvolvido uma fobia de cobras e insetos por causa da “disciplina”. na verdade, da tortura à qual foi submetida. E a outra garota a quem Suirei se referia já não estava mais ali. Os ombros de Maomao caíram outra vez.
— Quando meu mentor recebeu a ordem de criar o elixir da imortalidade, quase toda a pesquisa que ele tinha feito até então foi destruída. Ele conseguiu preservar pouco mais do que estava naquele aposento.
Então destruíram o resto do trabalho dele para forçá-lo a se concentrar no elixir. O mentor de Suirei, determinado a continuar o projeto dos gafanhotos, usou Sazen, que era responsável por providenciar seus suprimentos, para conduzir algumas investigações.
De repente, Ah-Duo, que tinha permanecido em silêncio durante toda a conversa, falou: — Agora entendo. — Ela pousou a xícara de chá sobre a mesa e olhou para Suirei. — “Ela” parece ter sido uma jovem extremamente inteligente.
— Não importa o quão inteligente ela fosse. Ela se foi agora. — E nada poderia trazê-la de volta. Suirei parecia ter se resignado ao desaparecimento da irmã. Maomao fechou o punho.
— E você acha que alguém tão inteligente assim não teria deixado nada para trás?
A mente de Maomao girou. Houve um baque: ela apoiou a mão na mesa quando Suirei se levantou abruptamente.
— Minhas desculpas — disse Suirei.
— De modo algum. Não precisa ficar tão tensa — respondeu Ah-Duo. — Eu odeio formalidades desnecessárias. Relaxe. Você sabe que não faço questão de cerimônias.
Não, pensou Maomao, este era um momento apropriado para um pedido de desculpas. Mesmo assim, o que Ah-Duo tinha dito cutucou algo em sua memória. O que era? O que era?
Ela tentou se lembrar. Algo que aconteceu na fortaleza? Ou talvez antes disso... Antes, no palácio interno. Ou na enfermaria? Não, não. Tinha que ser...
Maomao bateu na mesa. — A clínica! E a clínica? O que aconteceu com ela?!
Pouco antes de ser sequestrada do palácio interno, Maomao estava na clínica. Foi lá que viu, um livro na estante. Uma enciclopédia. Sobre insetos.
Se havia algo que ela era, era minuciosa. Maomao imaginou a jovem que não tornaria a ver e sorriu. A ideia de que ela encontrou o único momento possível para mostrar aquilo a Maomao superou a dor e fez seu sorriso se alargar.
Com o rosto travesso e sorridente de Shisui em mente, Maomao deu uma forte pancada na mesa.
Disseram a Maomao que a clínica foi temporariamente fechada. Era possível que nem todas as mulheres que trabalhavam ali soubessem do plano de fuga, mas as que sabiam cometeram um crime grave e o crime de Shenlü foi o mais grave de todos. Ela tentou cometer suicídio, mas foi impedida e presa.
Ainda assim, o palácio interno não podia funcionar sem a clínica, então ela foi reaberta, embora agora sob a supervisão de um eunuco. Mas tudo o que estava no local na época do sequestro de Maomao, foi confiscado, incluindo a enciclopédia.
— É isto que você está procurando? — perguntou Jinshi, entregando-lhe um livro. Ao que tudo indicava, ele tirou o dia de folga. Do lado de fora da farmácia, Gaoshun aceitou uma xícara de chá de uma das aprendizes.
— Se me permite — disse Maomao, pegando o volume e folheando até encontrar a parte com mais anotações nas margens. Ela abriu o livro devagar, e uma folha coberta de escrita caiu. Colocou o livro no chão para que Jinshi pudesse ver, depois pegou a folha com cuidado. — Sim, é isto.
A folha estava coberta de ilustrações detalhadas de insetos. Todos pareciam semelhantes e, como a legenda dizia “gafanhotos”, provavelmente eram isso mesmo. Algumas ilustrações mostravam o inseto inteiro; outras eram estudos detalhados das patas ou das asas. Havia até algumas cores, embora um pouco desbotadas.
As ilustrações parecem divididas em duas categorias principais, talvez três, se fossem mais precisas. Maomao as descreveu enquanto lia o texto. — Aparentemente, esta é a aparência normal de um gafanhoto — disse, apontando para uma figura pintada de verde. Era difícil perceber nas ilustrações do corpo inteiro, mas os estudos das asas sugeriam que as asas desses insetos eram um pouco mais curtas do que as dos outros dois tipos.
— E este é o tipo que se espera que prolifere este ano. — Ela continuou. — E é essa variedade que causa as pragas.
Jinshi era perfeitamente capaz de ler o texto sozinho, mas Maomao ainda queria dizer em voz alta. Isso ajudava a fixar a informação em sua mente e tornava mais fácil lembrar depois. Jinshi não a interrompeu; talvez pensasse o mesmo.
O gafanhoto marrom tinha asas mais longas que o verde.
Por fim, Maomao indicou a ilustração no centro, cujo tamanho ficava entre o verde e o marrom, e cuja cor também era uma mistura dos dois.
— E o texto especula que estes podem ter sido a causa dos danos limitados às colheitas no ano passado.
— Em outras palavras, um estágio de transição para o gafanhoto marrom.
— Ao que parece.
Sob certas circunstâncias, a coloração dos gafanhotos e o formato de suas asas mudavam. Essa mudança ocorria ao longo de várias gerações, e o número deles aumentava a cada nova ninhada. Quanto à questão de saber se o corpo mudava por causa do aumento populacional ou se a população aumentava por causa da mudança no corpo, o texto sugeria que talvez fosse a primeira opção. Em outras palavras, os insetos que causam danos limitados às colheitas prenunciavam uma destruição muito mais séria depois.
— Você está dizendo que haverá uma fome mais generalizada este ano?
— Sim, embora não possamos dizer qual será a escala exata.
Só que, se julgassem mal a situação, muitas e muitas pessoas poderiam morrer de fome. Alguém poderia zombar e dizer: — São só insetos — mas às vezes esses insetos podem bloquear o sol e devorar todas as plantações à vista. Maomao, que nasceu e cresceu na capital, nunca viu algo assim, mas várias das garotas do distrito dos prazeres eram filhas de agricultores vendidas quando uma praga como essa deixou suas famílias sem nada para comer.
E o momento não poderia ser pior. O país inteiro ainda comentava a destruição do clã Shi no ano anterior. Se uma grande praga acontecesse no ano seguinte à aniquilação do clã, isso seria um mau presságio para a nação como um todo.
Nada disso, porém, era o que Maomao ou Jinshi realmente queriam saber. O que desejavam descobrir era: se aquele homem estava pesquisando as pragas de insetos, ele encontrou alguma forma de detê-las?
Hrm...
No entanto, nenhuma das anotações sugeria algum composto químico especialmente eficaz. Apenas aconselhavam que, quando ocorressem danos em pequena escala, era crucial lidar com o problema antes que avançasse para o próximo estágio. Para isso, o texto enumerava algumas possibilidades. Todas se aproximavam de uma estratégia de “onda humana”: o melhor era destruir os insetos ainda na fase larval, e as notas descreviam como preparar vários inseticidas considerados particularmente eficazes. Os ingredientes eram relativamente fáceis de obter, sem dúvida escolhidos porque seria necessária uma grande quantidade do produto. Se os insetos já estivessem maduros, o texto recomendava montar fogueiras, um método antigo de lidar com insetos, especialmente no verão. Eles simplesmente voavam em direção ao fogo e se queimavam.
— Tudo isso, e no fim não aprendemos nada tão significativo assim — comentou Maomao.
— Discordo. As coisas poderiam ter sido muito piores se continuássemos sem saber de nada disso. Só a fórmula do inseticida já pode ser considerada um resultado valioso.
Jinshi coçou a cabeça, mas então tirou um grande mapa de dentro de seu manto. Ele mostrava o país de Li, da capital no centro até a província de Shihoku-shu, ao norte, e até mesmo as regiões do oeste. Vários locais estavam marcados com círculos em tinta escarlate. O nome da área central, aliás, era Kae-shu; quanto ao nome de Shihoku-shu, que incluía o próprio nome do clã Shi, ainda restava saber se mudaria no futuro, mas no momento não parecia haver nenhum movimento para alterá-lo.
— Estes são os locais das vilas agrícolas que relataram danos às colheitas — disse Jinshi. — Você percebe algo em comum entre eles?
— Receio não saber exatamente o que devo observar — respondeu Maomao. Ela tinha ouvido dizer que danos causados por insetos costumavam ocorrer em planícies abertas, e de fato todas as vilas marcadas ficavam em planícies. — Talvez estar em campo aberto dê espaço para os gafanhotos se multiplicarem.
— Talvez. Mas não há registro de danos graves por insetos nesta região há décadas. — Jinshi passou o dedo por uma parte específica do mapa, as terras do norte que antes pertenciam aos Shi. A região tinha recursos naturais abundantes e fazia fronteira com florestas e montanhas. Jinshi bateu o dedo com irritação sobre a área de floresta.
— Normalmente não se esperaria que uma floresta tivesse pássaros suficientes para comer os insetos? — disse Maomao.
— Engraçado você mencionar isso. — Jinshi coçou a cabeça, constrangido.
Shihoku-shu era, em princípio, rica em florestas, mas a madeira da região já foi praticamente toda extraída. A imperatriz reinante proibiu o desmatamento desenfreado das árvores do país, mas após sua morte, alguns membros menos escrupulosos do clã Shi retomaram a extração sem informar a capital. Aumentaram o preço da madeira vendida internamente para não levantar suspeitas e venderam o restante a nações vizinhas. O desmatamento continuou até que os recursos naturais da região ficaram seriamente esgotados.
— Deixa eu adivinhar. Por causa disso, não há mais pássaros, o que significa que nada controla uma praga de insetos.
— Parece uma suposição bastante razoável.
Que deprimente.
Então ao menos parte do desânimo de Jinshi podia ser explicada pela frustração com as expectativas frustradas em relação à madeira de Shihoku-shu. Ele provavelmente esperava compensar qualquer escassez de grãos vendendo madeira e usando o lucro para comprar alimento, mas isso arruinava o plano.
Espere...
Se ele estivesse certo, Maomao achava que podia imaginar por que a imperatriz reinante limitou a extração de madeira em primeiro lugar, mas pensaria nisso depois. Em vez disso, voltou aos diagramas da enciclopédia. Depois revisou a fórmula do inseticida várias vezes e, por fim, se levantou. Pegou outro livro da estante, folheou e mostrou a Jinshi.
— Não acho que essa fórmula vai produzir produto suficiente. Vou preparar outra coisa também, embora talvez não seja tão eficaz. — Então teve outra ideia. — Será que não seria possível queimar as áreas onde as larvas forem encontradas?
— Hrm. Depende do lugar, imagino. Concordo que o fogo pode ser a forma mais rápida...
Ela tentou pensar em mais sugestões. — Só consigo pensar em talvez proibir a caça aos pardais.
Pardais normalmente eram tratados como pragas, mas comiam insetos, e isso podia se tornar importante. Se agissem antes do grão amadurecer, talvez fosse possível limitar os danos. Mas era provável que isso provocasse protestos daqueles que viviam da caça aos pardais.
Era difícil dizer quanta destruição poderia ser evitada se todas aquelas ideias fossem colocadas em prática. Claro, podia ser que nada acontecesse de qualquer forma, mas, se assim fosse, seria apenas questão de sorte. O papel de quem praticava a política era eliminar a possibilidade de crise, mesmo que as pessoas nem sempre reconhecessem isso.
— Proibir a caça aos pardais? Se você introduzir isso de repente, pode acabar com uma rebelião nas mãos — disse Jinshi. Mesmo ali na capital havia lugares especializados em “culinária de pardal”. Era um prato comum; encontrava-se em qualquer lugar. — Talvez, se tivéssemos algo para substituí-los...
Um lampejo de inspiração atravessou a mente de Maomao. — E se você convencer as pessoas de que pratos com gafanhoto estão na moda na corte? — Assim, todos pensariam que os aristocratas estavam procurando gafanhotos para comer, e mais gente sairia para capturá-los. E, se o Imperador estivesse comendo, os nobres que seguiam seus caprichos certamente adotariam o hábito também.
Havia apenas um problema: Jinshi estava sentado ali, imóvel, o rosto normalmente deslumbrante completamente pálido.
Não acredito nesse cara, pensou Maomao. Ela quase teve vontade de trazer ali mesmo o restante dos gafanhotos cozidos.
Jinshi finalmente se mexeu, mas apenas para erguer o olhar, pressionar os dedos contra a testa e soltar um gemido. Parecia estar em conflito interno. Por fim, disse:
— Talvez possamos considerar isso... como último recurso.
— Se não houver muitos, nem será necessário — respondeu Maomao, um pouco decepcionada.
Ainda assim, dava para perceber que Jinshi estava mais decidido a agir do que antes. Pelo visto, ele odiava a ideia de comer gafanhotos nesse nível.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Maomao, fazendo Jinshi congelar outra vez.
— Cof. Mestre Jinshi?
— S-Sim, o que foi? — conseguiu dizer, gaguejando levemente.
— Não gostaria de fazer uma refeição antes de voltar? — perguntou Maomao, educada. Agora ela sorria abertamente.
E assim Jinshi decidiu jantar antes de partir. A farmácia, claro, era pequena demais para servir uma refeição adequada, então Maomao encontrou um cômodo desocupado para eles. Naturalmente, trouxe os gafanhotos restantes. Ela não tinha realmente a intenção de fazê-lo comer; era só uma brincadeira. Pretendia retirar o prato no mesmo instante em que Jinshi demonstrasse o menor sinal de incômodo. (Sem contar que a Vovó estava lançando a ela um olhar bastante ameaçador.)
No entanto...
— Diga Ahhh! — Maomao pegou um deles com os hashis e fingiu alimentá-lo com um entusiasmo nada habitual.
Jinshi a observou em silêncio.
Tudo bem, acho que já basta, pensou ela. Mas, naquele momento, Jinshi, com apenas um pouco de hesitação, mordeu o gafanhoto que Maomao lhe ofereceu como piada. Ela fez uma careta, e nem era ela quem estava comendo.
Ver Jinshi franzir a testa e mastigar era como testemunhar algo que não deveria ser visto. Era diferente, à sua maneira, de quando ela o viu maquiado como mulher, mas ainda assim parecia algo que não deveria existir neste mundo. Todos os presentes pareciam compartilhar da mesma sensação; tinham a expressão de quem foi atingido por um raio coletivo.
As mãos de Gaoshun tremiam. A aprendiz que trouxe a refeição parecia à beira das lágrimas, como se tivesse deixado sua boneca favorita cair na lama. Chou-u, que apareceu para roubar comida, franzia profundamente a testa e balançava a cabeça como se dissesse: — Isso é péssimo. — Até a madame exibia um olhar de repulsa.
Jinshi ignorou todos enquanto mastigava e engolia. Ainda parecia profundamente perturbado, mas mesmo assim lançou a Maomao um olhar suplicante.
— Mingau.
— Cof, imediatamente, senhor. — Ela estendeu a tigela de mingau, mas Jinshi não fez menção de pegá-la. Em vez disso, alternou o olhar entre o mingau e Maomao, e depois de volta para o mingau.

Uh... vai esfriar. Maomao separou um pedaço de lótus, tentando entender o que Jinshi queria dizer com aquilo. Talvez ele não tenha gostado dos ingredientes. Fosse como fosse, ele só ficava encarando o mingau. Então, finalmente, Jinshi praticamente comeu o lótus da mão dela. Maomao não disse nada, mas pensou: O que ele é, um bebê? Ela pegou um pouco de mingau junto com o lótus; parecia que ia derramar, então levou até a boca dele, e ele comeu com avidez.
Fazendo uma careta, Maomao pegou em seguida um gafanhoto com os hashis. Jinshi também franziu a testa, mas mesmo assim mordeu o inseto. Foi possível ouvir Gaoshun puxar o ar com força. Houve também um leve barulho, era a aprendiz, encolhida no chão, à beira das lágrimas. Chou-u deu tapinhas nas costas dela, tentando consolá-la. Maomao se perguntou se a cena era mesmo tão chocante assim. Talvez fosse demais para os olhos de uma criança.
— Vou tirar ela daqui, Sardenta. E o senhor aí devia assumir um pouco de responsabilidade por si mesmo.
Jinshi estava ocupado demais mastigando o gafanhoto para responder. Ele definitivamente não parecia estar gostando, mas quando Maomao estendeu outro em sua direção, ele obedeceu e comeu.
Chou-u levou a menina para fora da sala; a essa altura, o nariz dela já escorria.
Eu fiz uma coisa ruim, pensou Maomao. Jinshi, sendo tão bonito quanto era, evitava mostrar o rosto mais do que o necessário mesmo na Casa Verdigris. A madame não queria que as cortesãs o vissem, não se ele não fosse oferecer trabalho a elas. Por isso foi a garotinha muda, a mais nova das duas irmãs do bairro pobre, quem trouxe a refeição dele. Ela não foi formalmente vendida, mas, em vez de mandá-la de volta ao pai, decidiram deixá-la ficar na Casa Verdigris. Havia apenas um detalhe: a madame, claro, não era altruísta o bastante para oferecer moradia e comida de graça, então fez a menina trabalhar como uma aprendiz. A criança tinha um jeito claramente tímido, mas, se a alternativa fosse voltar para o pai, ela se esforçaria.
Chou-u, que se autoproclamava rei dos pirralhos, frequentemente intervinha em defesa da aprendiz nervosa. (— Afinal, ela é minha fiel subordinada — explicava ele, como se fossem membros de alguma gangue.)
Jinshi, que enfim conseguiu engolir o gafanhoto, voltou a olhar para Maomao.
Tá bom, já entendi, pensou ela, e levou mais lótus à boca dele.
Depois que Jinshi foi embora, Chou-u apareceu, agora já tendo terminado de proteger a aprendiz.
— Ei, Sardenta.
Para surpresa de Maomao, ele carregava um pincel e folhas de papel.
— De onde você tirou esse papel?
— Ah, a Vovó me deu.
— Aquela velha mão-de-vaca? — Ela contava cada moeda que passava por suas mãos. Maomao duvidava muito que tivesse simplesmente dado algo tão luxuoso quanto papel.
— Sei lá, tudo que eu sei é que ela disse que eu podia ficar. Enfim, senta ali.
— Para quê?
Maomao queria arrumar a loja e ir para casa, não satisfazer as exigências de uma criança. Já estava prestes a enxotá-lo quando ouviu uma voz envelhecida atrás dela. — Bah, escute o Chou-u. Durma aqui esta noite. Vai dar trabalho reacender o fogo quando você chegar em casa, não? Até já deixei um pijama separado pra você.
— Vovó, o que está acontecendo aqui? Ver algo tão perturbador assim deixou a senhora maluca? — Diante da madame agindo de forma tão gentil, as palavras simplesmente escaparam. Os nós dos dedos da Vovó acertaram a cabeça de Maomao com uma rapidez que ninguém esperaria de alguém tão idosa. Mesmo com um pé na cova, a velha ainda era mais alta que Maomao, e o golpe foi forte o bastante para fazê-la cambalear.
— Não me questione. Estendi um futon na sala que usamos mais cedo. Tome banho antes de dormir; a água ainda deve estar quente.
Isso me cheira mal, pensou Maomao, mas isso não a impediu de ir até a sala. Enquanto Chou-u estendia o papel, a madame preparava a tinta com toda solicitude.
Muito suspeito.
Suas irmãs Pairin e Joka também estavam ali, observando, embora Maomao não fizesse ideia do motivo. As duas estavam “tomando chá” naquele dia. As outras cortesãs estavam ocupadas com clientes.
— Vovó, a senhora não precisa cuidar do incenso? — perguntou Maomao.
— Ukyou está cuidando disso para mim. Vai ficar tudo bem.
Maomao ainda tentava entender por que estavam todos naquela sala, com trabalho a fazer, quando Chou-u terminou de preparar o pincel e simplesmente a encarou.
— O quê? — disse ela.
— Me diz que tipo de homem você gosta, Sardenta.
— Como é que é?
De todas as coisas que ela imaginou que ele poderia dizer, não esperava algo tão idiota. Pegou o pijama do cesto e começou a se preparar para o banho. A madame, porém, puxou sua manga para impedi-la.
— Vamos, fale sério.
— Maomao, querida, não deve contrariar nossa adorável madame — disse Pairin.
Até ela entrou na brincadeira!
Joka fumava um cachimbo com uma expressão indiferente. Os clientes deviam estar chegando àquela hora, mas aquela sala era usada para quem buscava discrição, e as chances de alguém aparecer ali eram mínimas. Nem mesmo a madame parecia estar inclinada a reclamar da falta de modos de Maomao.
— Vamos, Sardenta, fala logo. Que tipo? Você gosta dos altos? Bem musculosos?
Não acredito que estou fazendo isso, pensou Maomao, mas decidiu que seria melhor simplesmente entrar no jogo. Sentou-se no colchão e disse:
— Prefiro que não sejam muito altos.
Seus pés estavam frios, então ela os enfiou debaixo das cobertas.
— Hã! Certo.
— E prefiro que eles tenham um pouco de carne nos ossos, em vez de serem magros demais.
Se o homem fosse alto demais, a pequena Maomao teria que forçar o pescoço para olhar para ele. E, se fosse magro demais, as pessoas pensariam que ela não o alimentava direito, e ela não queria isso.
— E barba?
— Não me incomoda, mas não muito espessa.
Um bigode ou barba podia parecer másculo, mas, na opinião de Maomao, era igualmente capaz de transmitir sujeira. Ela sempre ficava irritada ao ver um homem que negligenciava tanto a própria aparência que ainda tinha arroz preso na barba.
— Vamos falar do rosto.
— Suave, não afiado. — Ela não queria alguém com aquele olhar intenso e astuto de raposa, na verdade, odiava isso. Pessoas assim, na sua opinião, podiam muito bem morrer queimadas.
— Suave a ponto das sobrancelhas caírem?
— Pode usar sua licença artística nessa parte.
— Hmm. Algo assim, então?
Chou-u levantou o papel para que todos vissem.
— Nossa, meio sem graça, não é? — disse Pairin, que gostava de homens mais robustos.
— Parece meio ingênuo, julgando por esse rosto — comentou a madame, pouco impressionada.
— Nossa. Nem pensar — foi tudo o que Joka disse. Embora fosse uma das Três Princesas, havia um grande problema que a tornava difícil como cortesã: ela detestava homens. Descartava a maioria sem nem pensar.
Finalmente, Maomao olhou bem para o retrato e ficou completamente em silêncio.
— O que foi? — perguntou a madame, observando-a.
— Nada. Só fiquei impressionada com a semelhança.
— Semelhança! Maomao, você está de olho em alguém especial? — provocou Pairin, mas a madame não pareceu nada satisfeita.
De fato, ela não o odiava, como diziam.
— Quem é esse homem, exatamente? — perguntou a madame.
— Bem... “Homem” talvez não seja a palavra certa. — Afinal, ele era um eunuco. — O retrato... está idêntico ao médico do palácio interno.
Seguiu-se um longo silêncio, enquanto todos assimilavam aquela resposta desanimadora. Então, um por um, saíram da sala.
— Que decepção — disse Pairin, que já estava pronta para mergulhar numa conversa romântica. Totalmente desanimada, foi a primeira a sair. Lançou um olhar para Maomao ao partir, mas ela fingiu não perceber. Depois saiu a madame, igualmente com ar de completo desinteresse. Chou-u, por sua vez, foi para o banho.
Por fim, restaram apenas Joka e Maomao. Joka fumava o cachimbo. A mulher mais velha abriu a janela, deixando entrar uma lufada de ar frio. Uma meia-lua pairava no céu, escuro como tinta derramada e salpicado de estrelas. Dali, podiam ver outras janelas com silhuetas de homens e mulheres. Uma sucessão de romances nascendo naquela noite no bordel, destinados a desaparecer com a luz da manhã.
Joka olhou para Maomao, a fumaça roxa escapando entre seus lábios.
— Não posso dizer que não simpatizo com você. Homens! Nunca se sabe quando os sentimentos deles vão mudar. E, se forem poderosos, pior ainda.
Ela pousou o cachimbo, o gesto ao mesmo tempo displicente e belo. Joka era a mais jovem das Três Princesas, e os clientes valorizavam muito a educação que ela recebeu como mulher promissora. Alguns diziam que, se você conseguisse acompanhar uma conversa com Joka, poderia esperar passar nos exames do serviço civil, e entre seus clientes habituais estavam jovens ricos que esperavam prestar as provas.
— Se você fosse mais como nossa irmã mais velha, Pairin, eu não a impediria. Ela é meio rebelde. Mas você é diferente. Pairin fica impaciente, mas eu queria que ela entendesse que você não é como ela. Na verdade, Maomao, você é mais parecida comigo.
Maomao achava que entendia onde Joka queria chegar. Quase certamente...
— Você nunca vai encontrar um príncipe perfeito cujo coração jamais mude. Essa é uma lição da qual ninguém escapa aqui. O que a confiança já trouxe de bom? — Joka pegou o cachimbo, ajeitou as cinzas e colocou mais tabaco, tirando uma brasa do braseiro. A fumaça branca a envolveu. — No fim das contas, eu sou uma prostituta, e você é filha de uma prostituta.
Essa era a realidade.
Maomao olhou para as cinzas caindo no braseiro e sentiu uma leve ruga se formar em sua testa.
— Mana, não acha que já fumou demais?
— Está tudo bem, de vez em quando. Esses burocratas sombrios odeiam ver uma mulher com um cachimbo.
Quando não estava entretendo clientes, pelo menos, ela fazia o que queria. Como se quisesse provar o seu ponto, ela deu outra longa tragada e soltou a fumaça no céu.
[Kessel: Não estou falando que desgosto das outras irmãs da Maomao (até porque adoro a Pairin e Meimei), mas a Joka é para mim, a mais interessante delas. Uma personagem muito bem escrita, adoro a relação delas.]
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