Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 2: Ukyou

Maomao se perguntou como aquilo era possível. A fortaleza de Shishou deveria ter sido isolada; não fazia sentido que algo de lá estivesse aqui. Mesmo que os pertences do clã tivessem sido retirados da fortaleza, o fato dela ter encontrado um deles aqui neste mercado implicava que havia algum negócio suspeito no meio do caminho.

Hrrmm.

Bem, se esse era o jogo em andamento, então Maomao tinha uma ideia.

 

Ela encontrou o culpado rapidamente. E como? Era bem simples.

— Mocinha, você não pode me chamar até aqui por causa dessas coisas.

O interlocutor irritado, era Lihaku, e apesar da reclamação, ele estava ansioso para dar uma boa olhada na Casa Verdigris. Eles estavam na farmácia de Maomao, e o porte avantajado de Lihaku fazia o lugar parecer ainda mais apertado do que o normal.

— Eu não tenho tempo para sair atrás de ladrõeszinhos — acrescentou Lihaku, olhando para o teto do átrio, na esperança de vislumbrar um rosto como uma flor desabrochando. Mais especificamente, Pairin, uma das Três Princesas da Casa Verdigris.

Lihaku, um soldado e conhecido de Maomao, era completamente apaixonado por Pairin. Ir a um bordel, porém, exigia dinheiro, então Maomao, como amiga de Pairin, sabia que Lihaku viria correndo sempre que ela tivesse um pedido a fazer. E o pedido de hoje era este: que ele ficasse de olho no mercado para qualquer mercadoria roubada que pudesse estar circulando. Especificamente, livros.

Enciclopédias eram incomuns; se uma tivesse sido roubada, seria fácil rastrear quando fosse vendida. E como o ladrão poderia ir a várias lojas além do sebo que Maomao havia visitado, ela queria que Lihaku permanecesse atento.

— Há! Bom, você vai ficar feliz em saber que eu estou de olho no lugar desde cedo.

— Você não pediu para um dos seus subordinados fazer isso?

Pelo visto, ele estava tão determinado a causar uma boa impressão que resolveu cuidar do assunto pessoalmente. Considerando que ainda era época de frio, era um esforço respeitável vigiar um lugar assim.

Lihaku entregou a Maomao um embrulho. Um presente de bolinhos de arroz. Ele acompanhou o gesto com outro olhar para o átrio. Ele parecia sugerir que ele e Maomao tomassem chá juntos, e que ela chamasse Pairin para fazer um lanche com eles. Mas Maomao ainda precisava de algo dele primeiro.

— Onde está o seu prisioneiro?

— Lá fora. Um dos seus homens está vigiando ele.

— Ah.

Maomao olhou pela janela e viu dois dos guardas do bordel, um de cada lado de um homem magro, sem barba. Ele usava roupas relativamente pesadas, na verdade, Maomao reconheceu a jaqueta acolchoada de algodão. Estava empoeirada e claramente não era lavada há dias, mas ela conhecia aquela peça.

Bem, ora... Onde ela já tinha visto ele antes?

— Ei! — chamou Lihaku, mas Maomao o ignorou; calçou os sapatos e foi até os homens. Entre os dois guardas corpulentos, o ladrão parecia menor do que realmente era.

— Não chegue mais perto. Ele é perigoso — disse um dos guardas, um criado antigo da casa, segurando Maomao pela gola. Ela odiava ser tratada como um gato, mas era assim desde que era pequena. Ela não se deu ao trabalho de se contorcer para se soltar, apenas olhou para o ladrão.

Ele não disse nada. Ela também não. Mas os olhos deles se encontraram, e ele examinou o rosto dela por um segundo, então empalideceu. Abriu a boca e, ao invés de qualquer outra coisa, gritou:

— Garota da cobra! — Gritou tão alto que espalhou gotículas de saliva.

— Ei, acho que você quis dizer garota gato — brincou o guarda. O outro riu.

Ahhh, Maomao ficou furiosa.

Ela não tinha muita memória para rostos, e a aparência do homem estava alterada pelas bochechas encovadas, mas tinha quase certeza de que ele estava na fortaleza. Era ele quem guardava o quarto dela, quem ajudou ela a escapar da câmara de tortura. O mesmo que interrompeu sua deliciosa refeição de carne de cobra.

Pelo menos agora faz sentido, pensou ela. Quando ele mandou ela correr, dizendo que era perigoso, parecia alguém que tinha acabado de saquear um prédio em chamas. Como guardava o quarto dela, teria sido simples pegar os livros de lá.

— O que foi, mocinha? — Lihaku chegou perto e olhou para o homem, que tremia visivelmente. Se descobrissem que ele era um fugitivo daquela fortaleza, tratariam ele como algo muito pior que um ladrão.

Hmm. Talvez, pensou Maomao, pudesse usar isso a seu favor.

— Desculpe, senhor. Ele é um conhecido meu.

— Hã? — disse Lihaku, surpreso com a franqueza da declaração. Maomao lançou um sorriso torto ao criminoso.

Lihaku parecia desconfiado, mas quando Maomao tirou alguns petiscos e chamou Pairin, ele logo foi atrás dela, praticamente abanando o rabo. E foi assim que Maomao ficou na farmácia: ela, o ladrão e...

— Sabe, você não precisa mesmo ficar aqui — disse, lançando um olhar fulminante ao criado antigo. Todos os outros tinham ido para o intervalo do chá, mas aquele homem insistiu em acompanhar Maomao. Ele habilmente pegou um punhado de bolinhos.

— Receio que não posso deixar vocês dois sozinhos. Se alguma coisa, cof, acontecesse, eu levaria bronca do “Sr. Raposa” e do “Sr. Máscara”.

A raposa se referia ao estrategista de monóculo, enquanto a máscara provavelmente era Jinshi, que cobria o rosto sempre que vinha aqui. Mesmo com a cicatriz, ele ainda era uma joia valiosa de homem. A aparência dele chamaria atenção, e a posição dele só complicava as coisas.

— Não se preocupe — acrescentou o criado. — Estou só sentado aqui, comendo bolinhos. Não vou ouvir nada.

Dito isso, ele se sentou junto à parede. Ele tinha uns quarenta anos e estava na Casa Verdigris desde antes de Maomao nascer. Ele conquistou a confiança da madame por sempre agir com diligência e precisão. O nome dele era Ukyou.

Ele vai contar tudo para a velha. Eu sei que vai. Ou seja, ela teria que limitar a conversa a coisas que não se importaria que a madame soubesse. Coisas que não trariam problemas se ela descobrisse...

Maomao olhou para o homem sentado à sua frente. Dois livros estavam sobre a mesa, entre eles: o que ela encontrou no sebo e o que o ladrão pretendia vender hoje. 

— O que aconteceu com o resto dos livros? — perguntou.

O homem se recusou a olhar para ela, como uma criança teimosa. Não era uma boa imagem para um homem adulto.

Não tenho tempo para isso. Se ele vendeu em outras lojas, alguém já poderia ter comprado. Maomao bateu o punho na mesa.

— Aquele soldado que vimos? Ele participou do ataque à fortaleza — disse ela, em voz baixa e lenta. — Você quer mesmo que eu conte a ele que você estava lá?

O homem ficou ainda mais pálido. Maomao odiava ameaçar ele depois dele ter ajudado ela, mas não era hora para escrúpulos. Ela precisava saber para onde os livros foram.

Ukyou mastigava um bolinho com calma, demorando em cada mordida. Ele podia parecer tranquilo, mas se a situação ficasse física, ele era claramente forte o suficiente para dominar alguém como aquele sujeito.

O homem franziu o cenho, lutando consigo mesmo, mas no fim abaixou a cabeça, derrotado.

— Eu ainda tenho três dos outros volumes. Dois eu vendi em outra cidade, e o resto eu deixei pra trás.

Se o fogo das explosões não alcançou o quarto de Maomao, talvez ainda fosse possível recuperar os volumes restantes. O verdadeiro problema eram os dois livros vendidos. Os que estavam na mesa tratavam de pássaros e peixes.

— Você vendeu o que era sobre insetos?

— Não. Ainda tenho um deles.

Um deles? Isso despertou a curiosidade de Maomao. O volume sobre pássaros tinha um número. Se havia um I, devia haver um II.

— Você pode trazê-lo para mim imediatamente?

— Você promete que não vai me entregar?

— Depende se você estiver disposto a cooperar — pressionou Maomao.

Ukyou, que estava encostado na parede, suspirou profundamente. — Ah, Maomao. Agora você está só ameaçando ele. — Ele se ajeitou no chão apertado da loja e deu um tapinha amigável no ombro do homem. — Escuta, você deve estar com fome, não é? Parece que passou por muita coisa. Que tal relaxar?

O ladrão não disse nada. Ukyou saiu da loja e logo voltou com uma bandeja com uma tigela de arroz e um acompanhamento. O acompanhamento era apenas os gafanhotos cozidos que sobraram, mas assim que Ukyou ofereceu os hashis, o ladrão pegou. Maomao ficou surpresa com o entusiasmo dele.

Ukyou deu um tapinha no ombro dela. — Ainda não. — O ladrão, praticamente obcecado pela comida, nem olhava para eles. Ukyou baixou a voz. — Olha para ele. Acho que ele teve uma jornada difícil até a capital. Talvez tenha vendido os livros, mas parece que era isso ou passar fome. Os livros parecem ter sido bem cuidados. Não acho que ele seja uma má pessoa.

— Você pode estar certo... — disse Maomao, mas estava morrendo de curiosidade sobre o destino dos outros livros.

— Você tem que saber quando usar a cenoura e quando usar o chicote.

— Eu sei disso, droga. — Se a velha madame era o chicote da Casa Verdigris, aquele homem parecia ser a cenoura. Não era alto nem particularmente marcante, mas a decência dele conquistava as cortesãs.

De repente, o ladrão parou de enfiar comida na boca. Ukyou olhou curioso.

— O que foi?

— Isso está horrível.

— Você não gosta de gafanhotos?

— Isso não é gafanhoto — disse o homem, segurando um dos insetos com os hashis.

— Não é?

— Aqui podem chamar tudo de gafanhoto, mas os fazendeiros fazem distinção.

— Que tipo de distinção? — Maomao e Ukyou se inclinaram para observar.

Ele começou a trabalhar na montanha de insetos cozidos, pegando um por um, mordendo e separando em pilhas. A proporção ficou perto de oito para um.

— Esses são gafanhotos gregários. Fazendeiros cozinham e comem. Mas esses aqui são gafanhotos comuns. Parecem iguais, mas o gosto é horrível.

— São tão diferentes assim? — perguntou Ukyou. Ele nunca percebeu a distinção. Nem Maomao; ela sempre classificou tudo junto.

— Dá uma mordida que você entende. Quando tiram as pernas e cozinham, todos ficam da mesma cor, então os menos escrupulosos vendem para comerciantes ignorantes. Os gafanhotos comuns dão má fama aos gafanhotos gregários.

Ahá. O Senhor Proprietário teria sido a vítima perfeita para um golpe desses. Com apenas um gafanhoto gregário para cada oito gafanhotos comuns, claro que o prato ficava horrível. Maomao pegou um gafanhoto gregário e colocou na boca. O ladrão estava certo: tinha mais consistência e sabor melhor.

O homem lançou um olhar sombrio aos gafanhotos. Antes que Maomao falasse, Ukyou disse:

— Se tem algo acontecendo, conte para nós.

— Pode haver fome este ano.

Ao ouvir isso, Maomao praticamente pulou na direção dele.

— Você também acha?!

— E-Ei, calma. Não posso ter certeza. Mas quando há muito mais gafanhotos gregários do que gafanhotos comuns em um ano, geralmente significa uma praga de insetos na próxima estação.

Era uma questão simples de proporção. E combinava com o que Chou-u havia dito. Maomao olhou novamente para o homem. — Você parece saber bastante sobre insetos para um guarda. E eu lembro que naquele quarto havia coisas muito mais obviamente valiosas do que um conjunto de enciclopédias, mas você escolheu os livros. Por quê? Não seria mais fácil pegar outra coisa?

O homem coçou a nuca, constrangido.

— Eu, na verdade... não queria vender as enciclopédias.

— Mas você disse ao livreiro que voltaria com mais.

— Tem que puxar conversa com esse tipo, senão não consegue bom preço. Além disso, eu esperava comprar de volta se conseguisse dinheiro. Quer dizer, ninguém compra enciclopédia por vontade própria.

Aham... Alguém compraria, Maomao quis dizer, mas se conteve.

O homem parecia ter apenas a roupa do corpo. Ainda era inverno, então isso era aceitável, mas o rosto estava sujo; ele estava tão imundo que Maomao hesitou antes de deixar ele entrar na farmácia. De qualquer forma, não seria fácil ganhar dinheiro com aquela aparência.

— O cara que vivia confinado na fortaleza. Eu que levava as refeições dele. — Os olhos de Maomao se arregalaram; aquilo era inesperado. — Acho que levaram ele para criar algum tipo de nova droga ou algo assim, mas não era só isso que ele pesquisava.

— O que mais?

— Isso aqui — disse o homem, indicando o gafanhoto.

— Quer dizer como evitar uma praga?

Então era isso que o antecessor dela tentava descobrir. Maomao engoliu em seco e estava prestes a pressionar ele mais quando houve um grande estrondo e a porta da loja se abriu com força.

— Ei, Sardenta! Posso comer seus bolinhos ou não?

Era Chou-u, segurando um espeto de bolinhos em cada mão.

O ladrão piscou várias vezes. 

— O quê? Jovem Senh…

Antes que terminasse, Maomao pegou um remédio que estava triturando e jogou na boca aberta do homem.

— Ugh! Que amargo! — Ele quase se contorceu. Ela se sentiu mal, mas ele estava prestes a dizer algo extremamente inconveniente para todos. Faria de novo se fosse preciso.

Eu devia ter percebido... Claro que ele conhecia Chou-u. Ele disse que ajudou ela porque Chou-u pediu. Publicamente, o clã Shi foi exterminado até a raiz. O fato de um deles estar ali era uma péssima notícia.

Chou-u observou o homem se debater, claramente se divertindo, como se se perguntasse o que aquele estranho ridículo estava fazendo.

— Sim, claro, coma esses bolinhos idiotas — disse Maomao. — Só vai embora.

— Não me mande embora! Eu sou o quê, um bichinho de estimação? — reclamou Chou-u. Ele não parecia reconhecer o homem, porque não deu atenção.

— Ei, Chou-u, que tal eu deixar você subir nos meus ombros?

— Uau, sério? Que demais! Me levanta!

Maomao foi grata a Ukyou pela distração bem calculada.

Não posso ter certeza... mas pelo menos preciso avisar ele, pensou Maomao, curvando os dedos enquanto contava os dias até Jinshi vir novamente visitá-la.


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora