Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 1: Gafanhotos

A manhã era um momento preguiçoso no distrito dos prazeres. Os pássaros enjaulados tinham cantado até o amanhecer, e quando os clientes finalmente iam embora, as máscaras polidas caíam. Pelo breve período até o sol estar alto no céu, elas dormiam como pedras.

Maomao saiu de seu barraco, bocejando. À sua frente, dava para ver o vapor subindo da Casa Verdigris, os servos provavelmente trabalhando duro para preparar os banhos da manhã. O ar frio arrepiava sua pele, o sol demorava a nascer. Seu simples casaco de algodão não era suficiente para mantê-la aquecida, e ela esfregou as mãos, o hálito formando uma névoa diante do rosto.

Fazia um mês desde que ela tinha deixado o palácio interno, e as celebrações de ano-novo já tinham terminado. O velho dela ficou no palácio, por isso Maomao estava ali, no distrito dos prazeres.

No barraco, ainda havia uma criança dormindo e Maomao decidiu deixá-lo assim, sabendo que aquele era o único momento do dia em que ele ficava quieto. O nome do garoto era Chou-u; ele era um sobrevivente do clã Shi, que foi exterminado, e no momento estava morando com Maomao. (Longa história.) O merdinha supostamente vinha de uma boa família, mas Maomao quase se pegava pensando se ele era mesmo um filho da riqueza. Ele era incrivelmente adaptável, a ponto de conseguir ficar ali, roncando, naquele casebre cheio de correntes de ar.

Ah, é mesmo, a Vovó queria falar comigo, pensou Maomao. Ela podia pegar um pouco de água quente na Casa Verdigris enquanto estivesse lá. Num clima desses, não dava para tomar banho com água fria. Tremendo, Maomao parou diante do poço, baixou o balde e começou a puxá-lo de volta.

 

Quando chegou à Casa Verdigris, as cortesãs já tinham terminado seus banhos e estavam fazendo as aprendizes secarem seus cabelos.

— Nossa, você chegou cedo hoje — disse Meimei, com o cabelo ainda brilhando de tão molhado. Ela era uma das “Três Princesas” do estabelecimento e, na prática, a irmã mais velha de Maomao. As cortesãs mais importantes tomavam banho primeiro, então ela já tinha terminado.

— Ah, oi, mana. Você sabe onde a Vovó está?

— A velha está conversando com o dono ali.

— Valeu.

Era a velha madame quem administrava o dia a dia da Casa Verdigris, mas ela não era a proprietária. O homem que era o dono passava por lá cerca de uma vez por mês para conversar com a madame sobre o bordel, as cortesãs e qualquer outra coisa que estivesse em sua cabeça. O dono era um homem que estava entrando na velhice e ficava totalmente intimidado pela madame, que o conhecia desde que ele era jovem. Na verdade, alguns fofoqueiros sussurravam que ele era filho da madame com o antigo proprietário, mas ninguém sabia a verdade.

Administrar um bordel não era a única preocupação do homem; ele também tinha outros negócios mais legítimos e, à primeira vista, parecia perfeitamente comum. Ele era tão bondoso que dava até para se perguntar se era mesmo seguro para ele fazer parte desse mundo — e nos dava medo pensar o que seria dos negócios do bordel se a velha madame um dia os deixasse.

— Ele não veio com mais uma daquelas ideias de negócio bizarras, veio?

— Quem sabe? — Meimei deu de ombros, exageradamente.

Naquele exato momento, a voz da madame ecoou pelo prédio:

— Seu idiota! Seu completo, total, absoluto idiota! O que você pensa que está fazendo?!

As irmãs se entreolharam.

— Acho que você estava certa — disse Meimei.

— Acho que sim.

O que o homem estava aprontando dessa vez?

Alguns minutos depois, a madame saiu de uma sala interna. O homem quase idoso, com a expressão completamente abatida, vinha atrás dela. Todos o chamavam de Senhor Proprietário. Era a única forma de lembrar quem realmente era o proprietário do lugar. Pelo jeito que o Senhor Proprietário esfregava a cabeça, parecia que ele tinha levado um bom cascudo da madame.

— Ah, Maomao, você está aqui — disse a madame.

— Estou sim, Vovó. Você pediu para eu vir, lembra?

— Sim, claro.

Droga, ela esqueceu. Maomao tinha certeza de que só tinha pensado aquilo, mas no instante seguinte sentiu os nós de dedos acertando o topo de sua cabeça. Às vezes ela se perguntava se a velha não era, na verdade, um espírito da montanha capaz de ler mentes. O Senhor Proprietário lançou a Maomao um olhar de simpatia. Ele até me lembra o charlatão...

Se ela estava sentindo um leve déjà vu, talvez fosse porque os dois homens realmente tinham uma certa semelhança.

— Eu conheço esse olhar. Você quer tomar banho. E tomar café da manhã também, imagino? Traga o garoto com você.

— Alguém está de bom humor.

— Eu tenho meus dias — disse a velha, antes de praticamente desfilar em direção à cozinha.

— Eu vou, ahn, me retirar então — disse o Senhor Proprietário, e fez exatamente isso. Que pena, pensou Maomao, observando-o sair. Ele geralmente fica para o café da manhã.

 

Ninguém disse uma palavra. Todos na sala de jantar estavam em choque.

Por fim, Pairin, sentada ao lado de Maomao, declarou: — Horrível. — Seu rosto estava torcido numa careta de nojo. Ela era considerada uma das três flores mais belas a florescer na Casa Verdigris, mas se algum de seus clientes a visse com aquela expressão, todas as fantasias deles seriam destruídas.

Quanto a Maomao, ela parecia alguém que tinha encontrado uma larva na própria água.

A mesa era comprida o bastante para acomodar cerca de vinte pessoas, e cada uma tinha uma tigela cheia de mingau de arroz, outra de sopa e uma terceira tigela menor, enquanto três grandes bandejas estavam dispostas ao longo da mesa. Na Casa Verdigris, as refeições normalmente consistiam em uma única tigela de sopa e, talvez, se você tivesse sorte, um acompanhamento modesto. Hoje, as tigelas menores continham peixe cru e vegetais em conserva, enquanto duas das bandejas tinham acompanhamentos separados, um café da manhã muito generoso para os padrões normais.

Algo escuro brilhava nas bandejas. Insetos normalmente tratados como pragas nos campos dos agricultores estavam ali sendo servidos como comida. Gafanhotos.

— Vovó, pode explicar isso?

— Cala a boca e come. É um presente do Senhor Proprietário.

Maomao entendia muito bem por que a velha estava irritada. O Senhor Proprietário tinha outros negócios além de administrar aquele bordel, negócios legítimos que lhe permitiam erguer a cabeça na respeitável sociedade. Mas ele dificilmente podia ser chamado de um empresário talentoso.

— A colheita foi ruim este ano. Acho que choraram até ele ceder. — A madame despejou vinagre preto no mingau com raiva.

O Senhor Proprietário trabalhava com colheitas. Os agricultores daquela nação entregavam parte da produção como imposto, e o estado comprava outra parte da safra. O negócio do Senhor Proprietário era comercializar o que restava.

— Eu não me importo se choraram até os olhos caírem. O que ele tinha na cabeça, deixando o vendedor ditar o preço? Ele também não vai conseguir vender isso. E olha a quantidade! — Uma montanha de gafanhotos fritos se erguia na bandeja, temperados da melhor forma possível com pasta de soja e açúcar. — Ele disse que comprou demais, que não iam durar e acabariam estragando. Então que jogasse fora, em vez de usar açúcar nisso!

Açúcar era caro! E ele tinha usado para cozinhar insetos. Quem ia comer aquilo? Ninguém, é claro. Por isso ele tinha tantos sobrando, e foi assim que acabaram na mesa da Casa Verdigris.

[Noelle: Se a Shisui tivesse ali iria fazer a festa kkkk]

O Senhor Proprietário considerou arcar com o prejuízo ele mesmo, por assim dizer, mas havia outra preocupação: ele tinha uma esposa que não via com bons olhos a profissão das mulheres da Casa Verdigris, e aparentemente ele preferiu os nós dos dedos da madame à fúria da esposa.

Maomao coçou a nuca. Ela estava acostumada a comida pouco refinada, mas nem ela ficou animada diante daquela montanha de insetos. Depois de dois ou três, já estaria pronta para declarar que estava satisfeita. E as cortesãs, muito menos habituadas a esse tipo de comida simples, franziram a testa abertamente e se recusaram até a tocar nos gafanhotos.

— Andem logo e comam! Vocês não param de falar que querem acompanhamentos; então aí estão. Cinco para cada uma, comam! — rosnou a velha. Todas se entreolharam, e finalmente o primeiro par de hashis avançou em direção à grande travessa.

Ora essa. Maomao ficou surpresa ao ver quem foi a primeira pessoa a colocar um dos gafanhotos na boca. Mas enquanto mastigava o inseto, uma expressão inconfundível de repulsa surgiu em seu rosto.

— Não é muito bom. É meio... crocante. Como se estivesse vazio.

A avaliação sem rodeios saiu em uma voz aguda, porque pertencia a Chou-u. Maomao tinha certeza de que o jovem lorde, com sua criação mimada, resistiria à ideia de colocar algo assim na boca, mas aparentemente não era o caso. Talvez a perda de suas memórias tivesse levado embora qualquer inibição aristocrática, ou talvez ele realmente já tivesse comido algo assim antes. Ou talvez fosse simplesmente a adaptabilidade de uma criança em ação.

— Uau, estou impressionada que você consegue engolir isso — disse Pairin, sentada ao lado de Maomao.

— Não é grande coisa, mas também não é como se não desse para comer. Mas é super crocante.

Crocante? Fazia algum sentido: se você removia as vísceras dos gafanhotos antes de cozinhá-los, então eles ficavam ocos por dentro. Por isso, Maomao não pensou muito no assunto quando pegou um gafanhoto e deu uma mordida sem entusiasmo.

Croc?!

Sim, era crocante, com certeza. Parecia muito mais oco por dentro do que os gafanhotos que ela já tinha comido antes, apesar de este ter sido cozido. Talvez fosse porque tudo o que estava em sua boca era a carapaça, uma camada externa ainda mais vazia do que a preparação comum de gafanhotos.

Chou-u estava ocupado negociando com Pairin: 

— Quer que eu coma o seu? Eu ajudo você se me der um bolinho lunar.

Maomao agarrou firmemente a cabeça dele e o empurrou de volta para seu assento.

— Ai! Ai, ai, ai, ai! — Chou-u gritou.

Maomao segurou um dos gafanhotos entre os hashis e lançou-lhe um olhar sombrio. Era um mau hábito seu: quando algo despertava seu interesse, ela simplesmente não conseguia deixar para lá.

 

— Quero que você faça umas comprinhas para mim.

Depois que o café da manhã terminou, a madame finalmente lembrou por que tinha chamado Maomao. Ela queria mandá-la ao mercado que ocupava a via central da cidade.

As cortesãs não tinham permissão para sair do bordel, mas os homens por ali eram cabeças-duras demais para confiar a eles as compras. Havia muitos produtos estranhos e incomuns disponíveis no mercado, mas também muitos vigaristas prontos para arrancar seu dinheiro. O mercado era um lugar barato para vender coisas, porque não era preciso manter uma loja fixa, mas, pelo mesmo motivo, não havia nada que identificasse os maus comerciantes e os lugares dos quais se deveria manter distância. Era preciso estar atento para encontrar boas compras.

— Quero que você compre incenso. O de sempre — disse a velha. Ela se referia ao incenso suave que ficava sempre queimando na entrada da Casa Verdigris. Era um item de consumo, então ela queria comprá-lo pelo menor preço possível, mas também não podia queimar algo de baixa qualidade na porta do seu estabelecimento.

— Tá bom. Quanto isso vale para você? — Maomao estendeu a mão, mas a madame apenas a afastou com um tapa.

— Café da manhã e água de banho para duas pessoas. Parece justo?

Velha mão-de-vaca, pensou Maomao, mas ela foi.

 

— Eeei, Sardenta! Compra um desses para mim!

— De jeito nenhum.

Chou-u apontava para uma barraca cheia de brinquedos enquanto Maomao o arrastava, puxando ele pela manga. Ela tinha total intenção de fazer as compras sozinha, mas o pirralho se jogou no chão, implorou e fez birra até que, no fim, ela precisou levá-lo. Agora caminhava pelo mercado, arrastando-o consigo.

Uma única rua enorme cortava o centro da capital; carruagens iam e vinham por ela e, na extremidade mais distante, ficava a morada daqueles que viviam “acima das nuvens”, o palácio. Todos os dias, a rua abrigava um mercado movimentado. Ver o palácio dali às vezes fazia Maomao sentir como se tivesse apenas sonhado que já trabalhou lá. Mas o simples fato de Chou-u estar com ela agora era prova de que ela viveu dentro daqueles muros, pois foi assim que ela se envolveu na sequência de acontecimentos que o trouxeram até ela.

A rebelião do clã Shi também tinha afetado o mercado, até certo ponto. As regiões do norte produziam grãos e madeira, e Maomao não conseguia afastar a sensação de que havia menos barracas do que o normal vendendo esse tipo de coisa. Em vez disso, via muitas frutas secas e tecidos vindos do sul e do oeste.

Havia outra coisa também, algo que fez Maomao franzir a testa assim que viu: insetos cozidos à venda. Gafanhotos de novo.

— Garanto que isso é horrível! Quem compraria uma coisa dessas? — disse Chou-u, fazendo Maomao tapar a boca dele com a mão e arrastá-lo dali, enquanto o dono da barraca os encarava ferozmente. — O que foi que eu fiz? — exigiu Chou-u. — É verdade, não é?

— Cale a boca — disse Maomao, olhando para ele com uma expressão quase tão severa quanto a do vendedor. Era por isso que ela odiava crianças, pensou ela.

— Cascas vazias assim nunca vão ser boas. — Então Chou-u acrescentou, mais baixo: — Cara, adeus colheita deste ano.

Maomao piscou. 

— Espera… O que você disse?

— Hã… Que aquilo vai ser ruim?

— Não, não. Depois disso.

Chou-u olhou para ela, curioso.

— Que a colheita está perdida este ano?

— Isso! Como você sabe disso?

— Hum… Hã… Como eu sei disso? — Chou-u coçou a cabeça com a mão direita; a esquerda pendia frouxa ao lado do corpo, às vezes se contraindo. Pois Chou-u tinha morrido uma vez e voltado à vida, e isso o deixou parcialmente paralisado e sem a maior parte das memórias. — Eu não lembro. Só lembro de ouvir que, quando os insetos ficam crocantes, significa que a colheita vai ser ruim.

Ele segurou a cabeça, murmurando pensativo. Maomao se perguntou se um bom sacolejo faria alguma lembrança voltar, mas ele estava tecnicamente sob sua responsabilidade temporária, então ela não queria ser rude demais. Mas se o que Chou-u dizia fosse verdade, poderia ser algo sério. Ela deu um tapa na testa dele, forte o suficiente apenas para impedir que ele ficasse ainda mais idiota. Ele inflou as bochechas em protesto.

— Sabe, acho que talvez eu consiga lembrar — disse ele.

— Sério? — perguntou Maomao. 

Chou-u então olhou rapidamente para as lojas ao redor.

— Sim! Se você me comprar alguma coisa, eu lembro! — disse, parecendo completamente satisfeito consigo mesmo.

Maomao não respondeu, mas puxou os cantos da boca de Chou-u o máximo que conseguiu. No vão bobo entre os dentes da frente, já dava para ver um dente novo nascendo.

 

Uma vez merdinha, sempre merdinha. Vai lembrar uma ova, pensou Maomao.

Chou-u estava desenhando feliz, apesar do galo na cabeça. Para a surpresa de Maomao, ele não quis um brinquedo, mas papel e pincel. Ela concordou em deixá-lo usar um de seus pincéis, mas o papel acabou sendo surpreendentemente caro. Talvez algo de sua criação refinada ainda permanecesse nele, porque ele conseguia distinguir papel de baixa qualidade do mais sofisticado. Ele andava pela loja murmurando: — Esse não presta — e — Aquele não presta — até encontrar o papel mais caro exposto.

Claro que Maomao não ia deixá-lo mandar nela daquele jeito, e escolheu algo que, embora não fosse tão bom, era perfeitamente utilizável. Papel era caro para um item descartável, mas não impossível de comprar. Ela esperava que, à medida que se tornasse mais comum, também ficasse mais barato. Chou-u parecia tão feliz segurando seu maço de folhas que ela decidiu perdoá-lo com apenas um único cascudo na cabeça.

Chou-u estava desenhando freneticamente desde que voltaram para a Casa Verdigris. Ele estava na loja com Maomao, enquanto ela preparava os abortivos e os remédios para resfriado que tinham encomendado. Disseram a ela para mantê-lo por perto, para que não causasse problemas às aprendizes (algumas tinham a idade dele) nem às cortesãs.

Quando voltou da entrega dos remédios em um bordel próximo, ela encontrou uma multidão na entrada da Casa Verdigris. Cortesãs, aprendizes e até alguns criados estavam ali.

O que está acontecendo? Ela se perguntou, estreitando os olhos para enxergar melhor e então percebeu que a multidão tinha se formado ao redor de seu pirralho irritante. Perguntando-se o que ele tinha aprontado desta vez, ela se apressou até ele, a multidão se abrindo até que ela ficou diante do pequeno merdinha. Ela descobriu uma folha branca com linhas dançando sobre ela.

— Nada de furar fila, Sardenta. Você tem que esperar como todo mundo.

— O que você está fazendo?

Chou-u estava sentado com uma tábua no colo, no lugar de uma mesa, desenhando um retrato. À sua frente, uma cortesã estava sentada numa cadeira, tentando parecer o mais calma e composta possível.

— Não está vendo? Estou desenhando um retrato. — O pincel deslizava fluido sobre o papel, produzindo algo que lembrava a mulher na cadeira, só que mais bonita. — Pronto! Terminei. — Chou-u deixou o pincel no pote de tinta e sacudiu bem o papel. O rosto de sua “modelo” se iluminou num sorriso. — Ora, mas veja só! — disse ela, tirando a bolsa e entregando cinco moedas, e não eram das pequenas.

— Foi um prazer fazer negócio — disse Chou-u, guardando o dinheiro nas dobras da roupa. A quantia era muito maior do que o trocado de qualquer criança.

— Ah, eu sou o próximo — disse um dos criados, sentando-se na cadeira. Ele não devia estar de guarda ou algo assim? O que estava fazendo ali, brincando? Se a madame o visse, ele ia se dar mal.

— Ah, desculpa, senhor. Acabou o papel. Vou comprar mais agora mesmo, então passa aqui amanhã, tá?

— Que nada! Estou esperando o dia inteiro!

— Desculpa mesmo, senhor. Amanhã faço o seu primeiro. Vou deixar você ainda mais viril!

Ele era muito bom nisso. Chou-u escapuliu da multidão e começou a correr em direção à papelaria. Maomao se lembrava de ter comprado um maço de dez folhas e já tinha acabado? Pelo menos três das pessoas ali seguravam retratos; com os preços dele, aquilo já era suficiente para recuperar o investimento no material.

Quem diria que ele tinha um talento desses? Maomao pensou, coçando a nuca e espiando a folha que uma cortesã próxima segurava.

— Seus inúteis! O que estão fazendo?! — O som da voz rouca da madame foi suficiente para acabar com o burburinho alegre e deixar todos pálidos. — Andem e preparem o lugar! Querem que os clientes fujam?

Lá estava a madame, brandindo uma vassoura. As cortesãs, aprendizes e criados se dispersaram como filhotes de aranha. Maomao estava prestes a ir para seu canto quando uma mão esquelética a agarrou.

— O que foi, Vovó?

— Você sabe muito bem o que é! É aquele garoto! Você pode ter concordado em acolhê-lo e pode estar recebendo uma ajuda para sustentá-lo, mas não pode deixar ele fazer o que quiser!

— Quem está ficando com o dinheiro é você, Vovó.

Sim, por algum motivo era a velha quem guardava todo o dinheiro que entrava. Tinha a ver com o fato de que Chou-u tinha, até certo ponto, livre acesso à Casa Verdigris. Mas um homem, mesmo uma criança, não podia realmente morar em um bordel, e também não podia ficar na casa dos criados. Por eliminação, ele ficou no barraco de Maomao.

— Ele está usando minhas instalações. Me deve uma parte dos lucros. Vou cobrar só dez por cento.

Velha gananciosa.

Maomao tinha certeza de que não falou em voz alta, mas misteriosamente sentiu um nó de dedo bater em sua cabeça.

— Você, limpe esse pincel e o pote de tinta.

— Por que eu?

— Não me questione. Só faça. Ou amanhã vai ter sopa de gafanhoto.

Velha! Maomao pensou, mas começou a limpar tudo de cara amarrada, mantendo uma mão sobre a cabeça.

 

Quando Chou-u voltou ao barraco naquela noite, Maomao o olhou de um jeito que deixava claro que não estava nada satisfeita.

— Sardenta, onde está meu pincel?

— Nada de pincel para garotos que não limpam a própria bagunça. — Maomao virou as costas para ele de propósito e colocou lenha no fogão.

— Não seja mesquinha comigo!

— Se eu sou mesquinha, aprendi com a madame. — Maomao mexeu o mingau na panela de barro sobre o fogo e provou um pouco. Achou que estava meio sem graça e acrescentou sal. — Aliás, ela disse que vai cobrar de você por usar o lugar.

— Eu sei! Vou fazer meus retratos em outro lugar a partir de agora.

Isso fez Maomao franzir a testa. Ela apoiou a concha na panela e foi até ele, que estava estendido sobre a esteira no chão. Agachou-se diante dele e o encarou.

— O quê?!

— Você vai ficar perto da Casa Verdigris. Não me importa se ela cobrar. Você não vai se afastar demais dos guardas. E nada de ir sozinho comprar papel.

— Ei, eu faço o que eu quiser. — Ele tentou desviar o olhar, mas Maomao agarrou sua cabeça e o forçou a encará-la.

— Sim, você faz o que quiser. Se não se importar em virar um pedaço de carne.

— Pedaço de carne? — Chou-u a encarou.

Ela não estava brincando. A Casa Verdigris era animada e amigável, mas ainda era o distrito dos prazeres, e o lado sombrio da capital estava sempre por perto. Maomao apontou para fora da janela do barraco.

— Você vai acabar como ela.

A luz de uma lanterna parecia flutuar na escuridão da noite. Era carregada por uma mulher, com o capuz cobrindo a cabeça e uma esteira de junco nos braços. À primeira vista, ela parecia comum. Mas então Chou-u prendeu a respiração e se levantou de repente. Ele devia ter notado que aquela andarilha da noite não tinha nariz. Também não tinha uma casa de verdade, então só podia atender clientes à beira da estrada. Mulheres como ela, as mais baixas entre as prostitutas, muitas vezes eram fisicamente devastadas por doenças venéreas. A mulher lá fora não parecia ter muito tempo de vida, mas, se quisesse sua próxima refeição, teria que encontrar um homem para atender.

O que ela estava fazendo por ali? Talvez o velho de Maomao, de coração bondoso como era, já tivesse dado remédio a ela alguma vez; ou talvez ela estivesse procurando restos de outro bordel. Fosse o que fosse, Maomao pensou, aquilo estava trazendo problemas para ela.

— Este não é um lugar seguro — disse ela. — Não importa se você é só uma criança. Tem gente por aí que faria fila para te matar se soubesse que você tem algumas moedas.

Em outras palavras, se não quisesse morrer, ele faria o que ela dissesse. Chou-u fez um biquinho, mas assentiu, os olhos cheios de lágrimas.

— Você entendeu? Então anda logo, come seu jantar e vai dormir. — Maomao voltou para diante do fogão e retomou a tarefa de mexer o mingau.

 

Chou-u já estava de pé quando Maomao acordou na manhã seguinte. Ela ouviu ele se movimentando e, ao erguer os olhos, viu a mesa coberta de papéis. Chou-u estava trabalhando vigorosamente com seu pincel.

Aquele merdinha...

Ele estava usando o pincel e o pote de tinta que ela tinha escondido. Maomao se levantou, pronta para acertá-lo com os nós dos dedos, quando uma das folhas deslizou da mesa e caiu no chão.

Hã? Curiosa, ela a pegou. Era o desenho de um inseto, feito com detalhes precisos. Na verdade, era realista demais; dava até um arrepio olhar para aquilo. Traz lembranças. Fez ela pensar na jovem criada, não… na concubina, que amava insetos. Aquela jovem, Shisui, também fazia desenhos assim. Maomao sentiu uma pontada ao lembrar.

[Kessel: Que dor. </3]

De repente, Chou-u se levantou.

— Terminei! — disse, entregando-lhe uma folha. — Acabei, Sardenta!

— Acabou o quê?

— Isso aqui! — Ele agitou o papel diante dela, visivelmente orgulhoso. Havia dois insetos levemente diferentes desenhados ali. — Tive um pouco de dificuldade para lembrar direito, mas acho que é isso. Acho que foi isso que eu vi junto com aquela coisa que falava sobre colheitas ruins. — Felizmente, os desenhos falavam com muito mais clareza do que ele; eram muito nítidos. — Esse é um gafanhoto normal. E aqui embaixo é um gafanhoto de quando vai ter colheita ruim.

Os dois gafanhotos tinham pernas de comprimentos diferentes e, embora fosse difícil perceber em uma ilustração em tinta, talvez a intensidade da coloração também variasse.

— Você tem certeza disso?

— Quase certeza. Foi meio que voltando aos poucos.

Chou-u ainda estava, em grande parte, com amnésia, mas aparentemente estava recuperando fragmentos da memória. Dependendo do que lembrasse, isso podia ser muito inconveniente, mas também podia ser extremamente importante.

Dois tipos de gafanhoto. Maomao precisava descobrir mais sobre isso. Uma praga de insetos podia destruir uma nação inteira ao devorar todas as colheitas. Os insetos sempre eram uma ameaça às plantações, mas uma praga era outra coisa completamente diferente. Eles comiam tudo e qualquer coisa; nos piores casos, podem até roer cordas de cânhamo e sandálias de palha. Maomao não sabia o que causava esses eventos, mas eles aconteciam pelo menos a cada poucas décadas. Por sorte, nada assim ocorreu desde a ascensão do Imperador atual.

[Noelle: As cordas de cânhamo são produzidas a partir de fibras naturais da planta Cannabis sativa. São utilizadas há milênios pela humanidade por conta da sua duração e resistência. É uma das fibras naturais mais fortes do mundo, ela não estica facilmente, o que dá uma ótima estabilidade e é resistente a mofo, bolor, e raios solares, por isso foi usada amplamente na marinha por séculos, já que não apodrecia facilmente em contato com a água salgada.]

Alguns insistiam que isso acontecia porque o governo do Imperador era humano e esclarecido, então o céu não via necessidade de enviar uma praga. Mas Maomao não acreditava nisso nem por um segundo. Era mera coincidência não ter havido pragas de insetos. O que significava que, se e quando uma praga surgisse, seria uma oportunidade para testar o poder do Imperador. Ele tinha punido recentemente o clã Shi, o mais poderoso do país. O momento não podia ser pior: se uma praga de gafanhotos acontecesse agora, muita gente assumiria que era uma repreensão divina pela destruição do clã Shi.

Bah. Não é problema meu. Não tem nada a ver comigo, pensou Maomao. Não tinha nada a ver com ela, mas ela já estava se movendo.

 

Antes que percebesse, Maomao estava a caminho de uma livraria específica.

Não tem como eles terem isso...

Os desenhos detalhados de Chou-u tinham despertado sua memória: ela já tinha visto ilustrações assim antes. Caminhou entre as lojas até chegar a uma particularmente escura e com cheiro de mofo. Um sino tilintou quando ela entrou, e o dono, largado ali como se fosse parte da mobília, acenou com a cabeça. Era toda a civilidade que ele estava disposto a oferecer; em seguida, pareceu voltar a cochilar. O lugar parecia deserto, sem clientes, mas ela sabia que a bolsa dele devia estar bem cheia ultimamente.

Afinal, ele fornece livros para o palácio interno...

A maior parte do estoque era de livros usados ou para aluguel. Havia alguns poucos exemplares novos à venda, mas não muitos. Se quisesse algo novo, provavelmente teria que encomendar. O dono deixava esses assuntos de negócios principalmente nas mãos dos filhos, vivendo ele próprio quase como um eremita.

Eles não vão ter isso.

A loja era especializada em ficção popular e ilustrações eróticas; nada que se pudesse chamar de material refinado. Ainda assim, Maomao tinha vindo ali porque, às vezes, era possível fazer descobertas inesperadas em lojas como essa...

Quase assim que entrou, ela esfregou os olhos. O que estava acontecendo ali? Franziu a testa. O que era aquilo, algum tipo de reviravolta conveniente de enredo? Ela apontou para um livro que estava sobre uma pilha numa mesa.

— Ei, senhor, posso dar uma olhada nisso?

— Hm — resmungou o livreiro; Maomao interpretou como permissão e pegou o livro. Era grosso e pesado, e a capa trazia a imagem de um pássaro.

Isso é ridículo. Na verdade, parecia impossível. E, no entanto, estava ali. O livro estava cheio de ilustrações de aves acompanhadas de descrições, e havia anotações manuscritas espalhadas pelas margens das páginas.

— Qual é a história desse aqui?

— Hm? Chegou ontem — respondeu o lojista, sem o menor entusiasmo. Soava mais como se quisesse que ela parasse de atrapalhar o cochilo.

— Chegou mais alguma coisa junto com ele?

— Só esse. Mas o homem disse que ia voltar, acho.

O rosto de Maomao começou a brilhar. Era a segunda vez que ela segurava aquele livro. Sim, era exatamente o mesmo que ela tinha visto antes, naquela época. No quarto onde ficou confinada. Era um dos livros que recebeu como material de pesquisa sobre o elixir da imortalidade e agora estava ali, em suas mãos.


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora