Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 4

Epílogo

A capital estava em completo alvoroço naquele dia. O Imperador finalmente havia escolhido uma Imperatriz, e, ao mesmo tempo, um novo Príncipe Herdeiro foi apresentado. O clima de celebração, alimentado pela expectativa do ano-novo que já vinha crescendo, chegou até mesmo ao distrito dos prazeres, e as jovens aprendizes mal se continham de tanta empolgação.

O nome da Imperatriz era Gyokuyou, e o Príncipe Herdeiro era seu filho. A criança nasceu em segurança.

Por mais alegre que isso fosse, também significava que Maomao agora estava sem ocupação, e assim a encontramos de volta à sua decrépita farmácia, moendo ervas.

— Ei, Sardenta, que tal um lanche? — Um garoto jovem o bastante para que sua voz ainda não tivesse mudado abriu a porta e entrou. Seu nome era Chou-u: um pirralho com um vão ridículo entre os dentes da frente. Eles tinham abandonado o nome antigo dele. O fato de seu nome novo soar um pouco parecido com o antigo era uma tática desesperada, já que o garoto parecia guardar uma vaga lembrança de como era chamado antes.

Era óbvio que ele ainda era uma criança indisciplinada, mas fazia apenas alguns dias que finalmente conseguiu voltar a se levantar e andar por aí. Até então, ele estava numa espécie de torpor; era impossível dizer se aquilo se devia à juventude ou à pura sorte por ele conseguir estar tão ativo de novo.

Por fim, as cinco crianças haviam despertado. Maomao se esforçou ao máximo para mantê-las respirando, inclusive mandando chamar Suirei, que foi transferida para outro lugar, para ajudar nas “ressurreições”. Ela disse que os experimentos ainda não estavam concluídos. Sem dúvida teria preferido esperar até entender melhor os efeitos do remédio antes de fazer algo assim. Mas as circunstâncias não deixaram outra escolha senão dar a medicação às crianças. Como resultado, várias delas sofreram efeitos colaterais.

Chou-u foi a última das cinco crianças a acordar.

Essas crianças, que de outra forma teriam ido para a forca com seus pais, receberam novos nomes e foram acolhidas em um novo lar. Chou-u, porém, permaneceu no distrito dos prazeres. Para o bem ou para o mal, ele havia perdido a memória. Ele também ficou com uma leve paralisia em metade do corpo, mas, dadas as circunstâncias, era preciso dizer que ele teve sorte. Por um tempo, pareceu que talvez ele nunca acordasse.

Ninguém parecia saber exatamente como as crianças tinham sobrevivido, mas, de qualquer forma, elas iriam viver com a ex-concubina Ah-Duo. Alguns argumentaram que elas deveriam ser enviadas para lugares diferentes, mas Ah-Duo achou que isso seria desnecessariamente cruel.

Maomao ficou espantada quando viu a ex-concubina: por algum motivo, ela vestia roupas masculinas, mas parecia muito mais viva do que jamais pareceu quando vivia no palácio interno. Mas o que realmente chocou Maomao, foi a semelhança dela com Jinshi.

Eu já desconfiava. Seria possível…

[Noelle: Ao mesmo tempo que a gente sabe o porquê da semelhança, me pergunto o motivo dela se parecer com o antigo imperador pedófilo, por que se Jinshi se parece muito com os dois, deveria fazer mais sentido essa semelhança né?]

Não, não. Melhor parar com essa linha de pensamento. Maomao forçou para longe a fantasia que certa vez alimentou.

Ah-Duo acolheu não apenas as crianças, mas também Suirei. Sim, ela foi uma pedra no sapato do palácio interno, mas era possível considerar suas circunstâncias; acima de tudo, o fato do sangue do antigo imperador correr em suas veias pesava a seu favor. Ela seria vigiada de perto, certamente, mas sua vida seria poupada.

Chou-u foi enviado ao distrito dos prazeres porque acreditavam que, sem as memórias, seria melhor criá-lo separado das outras crianças. Maomao achava que aquilo tinha tudo para dar errado, mas não era problema dela. Ou pelo menos não deveria ser, então o que aquele pirralho estava fazendo na loja dela? Eles insistiram que aquele era o lugar mais seguro para ele, mas Maomao não fazia a menor ideia do porquê.

O pirralho começou a fuçar no armário de remédios, e Maomao lhe deu um belo de um cascudo no topo da cabeça.

— Ai! Por que você fez isso?!

— Isso não é para você comer — disse Maomao, arrancando dele o pacote de biscoitos de arroz caros que uma de suas irmãs lhe deu. Em vez disso, ela jogou para ele um pedaço de açúcar mascavo da mesma gaveta. Aquilo pareceu satisfazer Chou-u, que saiu da loja mastigando. Havia um guarda bem-humorado que às vezes brincava com ele; provavelmente era para lá que estava indo.

Dizem que crianças são altamente adaptáveis, e Chou-u era a prova viva. Em vez de ficar deprimido por causa da amnésia, ele se deliciava com as belas mulheres que o mimavam e com o sujeito simpático que era seu companheiro de brincadeiras. Na verdade, no momento ele quase não parecia ter nenhuma reclamação. A velha madame, por sua vez, foi bem compensada por acolhê-lo, e nada aquecia mais seu coração do que um ganho financeiro inesperado. Em outras palavras, levaria um tempo até que ela sentisse necessidade de se irritar com ele.

Maomao se largou preguiçosamente no chão, mastigando os biscoitos de arroz salgados. Ela dobrou uma almofada velha e surrada, colocou-a sob a cabeça e se deitou, olhando para o teto.

Seu velho, Luomen, não voltaria ao distrito dos prazeres; por ora, decidiu-se que ele ficaria no palácio. Ele foi banido (sob fundamentos duvidosos, sim), mas era um homem de talento extraordinário. Sem dúvida o Imperador relutava em deixá-lo partir.

E por que Maomao estava ali, em vez de voltar a servir Jinshi? Também havia um motivo para isso também.

Seki-u visitou Maomao em certo momento. (Embora soubesse que Maomao era apotecária, ficou surpresa ao descobrir que o distrito dos prazeres era sua base de operações.) — Eu não ia conseguir dormir se não entregasse isso a você — disse ela, entregando-lhe duas cartas escritas em papel rudimentar. — O nome do remetente era um que haviam praticado repetidas vezes, escrevendo na terra: eram de Xiaolan.

Xiaolan estava bastante solitária, informou Seki-u, já que Maomao e Shisui haviam desaparecido ao mesmo tempo. Ao que parecia, a versão oficial era de que ambas tinham sido dispensadas do palácio interno.

— Ela ficou bem abatida com isso — disse Seki-u. — Você podia pelo menos ter se despedido dela. — Ela passou a descrever em detalhes como Xiaolan estava; Maomao começou a perceber que, incapaz de deixar Xiaolan completamente sozinha, Seki-u assumiu o papel de amiga dela. — Não há muito trabalho que ela possa fazer, mas ser alegre como ela é já ajuda bastante.

Xiaolan não conseguiu permanecer no palácio interno, mas uma das concubinas de baixo escalão simpatizou com ela e escreveu uma carta de recomendação; agora ela era criada da irmã mais nova da concubina, na casa da família. Maomao não tinha dúvidas de que a encantadora Xiaolan logo estaria plenamente integrada ao lar.

Uma das cartas era endereçada a Maomao, mas a outra era para Shisui. Maomao abriu a que era destinada a ela. A caligrafia deixava a desejar, claramente obra de alguém ainda aprendendo os caracteres, mas o esforço dedicado à carta, descrevendo sua situação atual, era evidente. Havia erros e correções em alguns pontos, mas papel ainda era um recurso luxuoso demais para que Xiaolan reescrevesse tudo do zero; em vez disso, simplesmente rabiscou sobre os erros.

No finalzinho, ela escreveu: “Espero poder ver você de novo algum dia. Quero mais sorvete!

[Kessel: Que dó da Xiaolan. Especialmente agora que já pudemos ver o ponto de vista dela dos eventos do primeiro e do segundo volume da Light Novel. Se você não sabe o que eu estou falando, preste atenção no final deste capítulo! Não vai se arrepender!]

Quanto à carta para Shisui, Maomao a pegou, mas não a abriu. Mas suspeitava que, qualquer que fosse o conteúdo, aquela última linha provavelmente seria a mesma.

Ela sentiu algo quente escorrer suavemente por sua bochecha. Ploft, caiu sobre o papel, borrando os caracteres.

Eles não haviam encontrado o corpo de Shisui. Ela foi atingida por uma feifa e depois caiu do telhado da fortaleza, mas, por mais que revirassem os montes de neve abaixo, não encontraram nada. Disseram que procurariam novamente quando a neve derretesse na primavera. Maomao, por sua parte, esperava que nunca encontrassem.

Vou ter que buscar mais ingredientes medicinais.

Maomao tinha muito trabalho no distrito dos prazeres, provavelmente bem mais do que jamais teve no palácio. Seu velho havia deixado um estoque de remédios antes de partir, mas aquilo já tinha acabado, e ela suspeitava que os campos também já estivessem mortos.

Ela não via Jinshi desde que deixaram a fortaleza Shi. Mesmo que quisesse, ele não era exatamente o tipo de pessoa a quem se pudesse simplesmente abordar e pedir uma audiência.

Não havia como um homem que assumiu o comando de um exército, e carregava a cicatriz no rosto como prova, continuar fingindo ser um eunuco no palácio interno. Jinshi devia ter finalmente voltado a ser quem realmente era. Maomao não sabia seu verdadeiro nome; e mesmo que soubesse, não poderia usá-lo. Os mundos em que viviam eram simplesmente diferentes demais.

Quanto ao ferimento dele, havia muitos médicos perfeitamente competentes por perto; ele não precisava de Maomao. Inferno, seu velho estava lá no palácio. Maomao não poderia fazer nada para ajudar, mesmo que estivesse presente.

De qualquer forma, agora que Jinshi não era mais um eunuco, não poderia manter uma garota de baixa posição ao seu lado. Ele também não precisaria mais se esgueirar e espionar. Então, no fim das contas, era melhor que Maomao tivesse voltado à farmácia no distrito dos prazeres. Pelo menos, com seu pai não estando mais ali, a madame provavelmente pararia de tentar vendê-la.

Ugh... Que cansaço...

Ela passou a noite anterior inteira preparando remédios. Criar novos fármacos era um desafio. Você pode misturar vários ingredientes tentando aumentar a potência de um efeito, mas às vezes acaba criando um veneno por acidente. Ela fez vários novos cortes no braço esquerdo para testá-los, mas simplesmente não conseguia alcançar o resultado que queria. Ela até tentou esfregar um pouco de sua mistura no ferimento da orelha (por que desperdiçar, afinal?), mas aquilo não lhe disse muita coisa. Depois de tantos anos, parecia ter desenvolvido uma tolerância bastante alta à dor.

Tenho que cortar mais fundo se quiser ter certeza. Maomao olhou para a mão esquerda, então amarrou firmemente um barbante ao redor do dedo mínimo. Levantou-se e pegou uma pequena faca de um armário. Lá vai!

No instante em que estava prestes a baixar a lâmina, uma voz bela a interrompeu:

— O que você está fazendo?

Sem dizer nada, ela se virou e viu um homem usando uma máscara incomum parado na entrada da loja. Atrás dele estavam um homem de meia-idade familiar, com uma aparência nitidamente exausta de tanto trabalho, e a madame, esfregando as mãos e oferecendo-lhes um sorriso bajulador.

— Já terminou todo o seu trabalho? — perguntou Maomao, desamarrando o barbante do dedo e guardando a faca no armário.

— Uma pessoa não tem direito a uma pausa de vez em quando?

A madame serviu o chá e disse: — Por favor, relaxem — ainda usando aquele sorriso. A bebida era feita com as melhores folhas de chá branco dela e vinha acompanhada de pequenos pedaços de açúcar finamente esculpidos, o tipo de luxo normalmente reservado aos convidados das Três Princesas. — Tem certeza de que este é um local adequado para a reunião, senhor? — perguntou, embora por algum motivo estivesse se dirigindo a Gaoshun. Ele assentiu, e a senhora idosa, parecendo levemente desapontada, saiu do cômodo e fechou a porta com outro: — Relaxem. Sem pressa.

O que está acontecendo aqui? Maomao se perguntou.

Jinshi finalmente retirou a máscara, revelando o rosto, como uma joia perfeita, exceto pela cicatriz que descia por uma de suas bochechas. Maomao deu um tapa na almofada dobrada para ajeitá-la e a colocou diante de Jinshi, que se sentou prontamente, embora sem muita elegância.

— Tenho certeza de que o senhor tem trabalhado duro — disse Maomao, colocando o chá e os petiscos diante dele.

Ele tomou um gole da bebida. — Não vou fingir que tem sido fácil. Lidar com o pessoal tem sido um pesadelo e, além disso, ainda há a questão do território do clã Shi para resolver. — Ele soltou um longo suspiro, franzindo a testa. Era impressão de Maomao ou Gaoshun estava influenciando ele?

Ela tinha ouvido dizer que os membros do clã Shi já haviam sido executados, a maioria deles estava na fortaleza, de qualquer forma. O território deles ficaria sob controle do governo e, com a riqueza dos recursos de madeira do norte, era esperado que rendesse uma bela receita aos cofres do país. Sem o clã Shi atuando como intermediário, poderiam reduzir os impostos na região e ainda assim lucrar bastante. E havia tantas coisas que se podia fazer com madeira.

Espero que transformem em papel. Maomao sorriu, torcendo para que houvesse no norte o tipo certo de árvores para produzir folhas de boa qualidade. Ela estava pensando que o fracasso do país em iniciar uma indústria de papel até agora provavelmente se devia à interferência do clã Shi quando percebeu que estava triturando remédio em um pilão.

— Não finja que eu não estou aqui — disse Jinshi.

— Desculpe, senhor. Velho hábito.

— Não tem problema. Não se preocupe com isso.

Jinshi mordeu um dos petiscos e terminou o chá. Quando Maomao se levantou para servir mais, encontrou Jinshi segurando seu pulso.

— Sim, senhor? O que foi?

Ele a puxou, obrigando-a a se sentar novamente. Ele observava intensamente o lado do rosto dela, encarando sua orelha. Ela tinha quase certeza de que o hematoma de onde foi atingida já tinha sumido.

Ele tem um cheiro… doce. Não era o aroma dos petiscos, mas do perfume dele. Suiren sempre teve bom gosto, refletiu Maomao, a imagem da criada levemente travessa passando por sua mente.

— Talvez esteja na hora de pedir que você cumpra sua promessa — disse Jinshi.

Promessa? Maomao olhou para o teto, tentando se lembrar, e Jinshi fez uma careta.

— Não finja que se esqueceu. Eu consegui os ingredientes para o seu sorvete, não consegui?

Ah! Nossa! Aquilo! Ela quase bateu palmas ao se lembrar. Mas então voltou a encarar o teto quando a natureza exata daquela promessa lhe veio à mente.

— O que foi?

— Ah, é… nada. É sobre… cof… seu grampo de cabelo. —  A voz de Maomao quase sumiu. — Eu, é… dei para alguém.

Jinshi não disse nada, mas o rosto dele se contraiu, menos de raiva do que de decepção. Maomao sabia que aquilo era ruim; esforçou-se para pensar em alguma forma de apaziguá-lo.

— Mas eles podem encontrá-lo na primavera!

— Por que encontrariam?

— Bem, e também… talvez não encontrem. — Era melhor que não encontrassem. Porque, se não encontrassem… — Ele pode acabar voltando para uma das lojas da capital eventualmente.

— Você vendeu?!

— Não, senhor, eu não vendi! — Hum. Isso estava ficando complicado. O que deveria dizer? — Eu dei para Shisui… quer dizer, para Loulan. Eu disse que ela deveria devolver algum dia.

— Então é disso que você está falando — disse Jinshi, olhando diretamente para ela. — Nesse caso, talvez eu peça que cumpra sua outra promessa.

Outra promessa. Outra promessa. Ah!

— Você quer dizer ouvir quando alguém estiver falando comigo?

— Essa mesma — disse Jinshi, satisfeito.

Maomao se virou para ele e adotou uma postura formal. — Muito bem, senhor. Pode falar. — Mas Jinshi não disse nada.

— Pode falar — repetiu Maomao. Ele continuou em silêncio, apenas encarando-a. — O senhor não tinha algo a dizer?

— Tinha, sim. Mas, pensando bem, tenho certeza de que você já sabe aquilo que eu ia contar. — Provavelmente ele estava se referindo à questão de sua verdadeira posição, mas Maomao já sabia disso. Não faria sentido ele contar agora.

— Então é outra coisa? — sugeriu ela.

— Outra coisa… — começou Jinshi, mas não continuou. Nenhum dos dois falou, e o silêncio se estendeu.

Ué, então ele não tinha nada a dizer afinal? Maomao pensou. Ela estava prestes a se levantar, ansiosa para voltar aos seus remédios, quando de repente Jinshi se aproximou e envolveu o pescoço dela com os braços.

— Posso perguntar, senhor, o que exatamente o senhor está fazendo?

Ela sentiu algo úmido e quente roçar seu pescoço, não, envolvê-lo. Ela sentiu dentes; percebeu que estava sendo mordida de maneira doce e gentil.

— Agora você entende o que isso significa? — perguntou Jinshi.

— Bem, a saliva humana pode ser tóxica. Assim como a mordida de um animal selvagem precisa ser cuidadosamente desinfetada para não infeccionar, o mesmo cuidado deve ser tomado com a mordida de uma pessoa.

Jinshi não disse absolutamente nada.

— Eu gostaria de voltar ao meu trabalho, senhor.

— Eu sei que é preciso mais do que um pouco de toxina para afetar você.

Ele mordeu com um pouco mais de força. Começou a doer um pouco, e ela então deu um tapa nas costas dele. Ele só apertou os dentes ainda mais e, antes que pudesse se conter, Maomao começou a socá-lo nos ombros. Finalmente ela sentiu os lábios dele se afastarem de seu pescoço. Um fio de saliva se estendeu entre eles por um bom shaku antes de se romper.

[Kessel: Shaku é uma unidade de medida, assim como o li. Representa cerca de 30 centímetros de comprimento.]

— O quê, vai me morder até a morte?

— Às vezes eu tenho vontade.

Maomao estava se perguntando o que havia de errado com aquele homem quando se viu envolvida em um abraço.

Jinshi sorriu maliciosamente. — Agora, onde estávamos?

De perto, ela viu que os pontos ainda não tinham sido retirados da bochecha dele, embora estivessem mais bem feitos do que antes, sugerindo que haviam sido refeitos. Será que foi trabalho do meu velho? Ela se viu levando a mão ao rosto de Jinshi. Os olhos dele suavizaram em um sorriso, parecendo de algum modo inocentes.

— E você também é venenosa? — Jinshi estava estendendo a mão para o queixo de Maomao quando:

— Sardenta! — Houve um estrondo quando a janela em frente à entrada, por onde os clientes pegavam remédios, foi escancarada. — Olha isso! Eu sei que você queria um desses! — Era Chou-u, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo. Ele segurava um lagarto acima da cabeça.

— Ooh! Você conseguiu um! — Maomao escapou de Jinshi, cuja cabeça pendeu desanimada, e pegou o lagarto, colocando-o diretamente em um pote.

— Hã? O que aquele cara está fazendo no chão?

— Ele está muito cansado do trabalho. Aqui, sua recompensa. — Maomao entregou a ele um pedaço de açúcar mascavo. Chou-u saiu correndo novamente.

Do chão, ouviu-se Jinshi rosnar: — Sabia que deveria tê-lo mandado para a forca… — Ele realmente soava como um animal selvagem. Talvez fosse a cicatriz na bochecha que fazia Jinshi parecer menos andrógino do que antes; era como se agora estivesse desenhado com traços mais ousados agora.

Maomao percebeu uma pequena fresta na porta e um olho espiando por ela. Ela abriu a porta com barulho, encontrando uma madame muito assustada e Gaoshun.

— Vovó, prepare um quarto. Escolha um incenso que induza o sono.

— Sim, claro — disse a senhora, estalando a língua com desapontamento.

Enquanto a velha se afastava, Maomao voltou o olhar para Jinshi, ainda deitado no chão. — O senhor parece extremamente cansado, Mestre Jinshi — disse ela. Ele apenas a encarou de forma vaga. — Acho melhor você descansar.

— Sim, tudo bem. Vou fazer isso.

É o melhor mesmo, pensou Maomao, mas Jinshi não se moveu.

— Mestre Jinshi? — Ela se agachou e sacudiu os ombros dele. Hm, pensando bem… talvez eu possa simplesmente chamá-lo de Jinshi agora.

Mas enquanto ela refletia sobre isso, Jinshi disse: — Este será meu travesseiro — e apoiou a cabeça diretamente nos joelhos de Maomao. O topo da cabeça dele pressionava seu estômago, e os braços dele envolviam suas costas.

— Mestre Jinshi…

Ele não disse nada. Estava dormindo ou apenas fingindo?

A madame colocou discretamente uma almofada fina e um incenso em um canto do cômodo, depois saiu. Maomao suspirou e pegou o pilão. O cheiro do remédio que ela triturava se misturava ao incenso, e o som do pilão acompanhava a respiração tranquila de Jinshi.

Minhas pernas vão ficar dormentes, pensou Maomao, enquanto começava a preparar um novo remédio.

○●○

Dias após o início do novo ano, o homem ainda não tinha tido tempo para descansar. Houve algum tipo de confusão na capital, mas ali, naquela cidade portuária distante, fosse o que fosse, parecia irrelevante, não fazia a menor diferença para ele. O que realmente importava para aquele homem era vender suas mercadorias enquanto o clima festivo durasse. Durante as celebrações, os homens queriam mostrar seu melhor lado às mulheres. Todo comerciante sabia disso, e todo comerciante tirava proveito.

A banca ao ar livre dele tinha de tudo, desde anéis que pareciam brinquedos infantis até colares importados sofisticados. Era uma coleção bem variada, mas combinava perfeitamente com um momento em que os fogos de artifício estouravam por toda parte.

— Obrigado pela preferência!

Ah, mais uma venda. Mais um homem sem o menor senso de valor. Aquele cliente estava indo embora com um par de brincos que deixariam até uma criança brincando de se fantasiar constrangida. Ele disse que voltaria para sua vila e os daria à sua amada, mas quando ela visse o que ele chamava de bom gosto, teria sorte se recebesse algo além de uma risada de desprezo.

Ainda assim, comerciante era comerciante, e era seu trabalho exaltar a mercadoria, até mesmo as porcarias. Convencer o cliente de que valia a pena se desfazer das moedas suadas que tinha ganho.

O cliente mais recente do mercador praticamente saiu pulando quando uma jovem apareceu na banca, alguém que ele não reconhecia. Uma curiosa, sem dúvida. A roupa dela era surrada e um pouco suja. O tecido, porém, era de boa qualidade, num estilo comum bem mais ao norte dali.

Ele estava prestes a enxotá-la, para que não atrapalhasse sua próxima venda, quando ela ergueu os olhos para ele. — Ei, moço, isso é uma cigarra?

— Ah, sim. Antigamente eram feitas com joias. — Ele não pretendia simplesmente responder à pergunta, a aparência dela, muito mais refinada do que as roupas sugerem, devia tê-lo pego de surpresa. Havia um vestígio de inocência na expressão dela, mas seu corpo era claramente o de uma mulher adulta.

— Hã, que legal! Joias, é? — Ela cutucou o inseto cravejado de pedras com o dedo.

— Ei, estou tentando vender isso! Se não vai comprar, então não toque! — A cigarra não era frágil, mas ele não deixaria que ela passasse aqueles dedos encardidos por toda a peça. Depois de um instante, perguntou: — Você vai comprar?

— Hmm… Eu não tenho muito dinheiro…

— Então esquece, garota. — Não importava o quão bonita fosse. Você tinha que impor limites em algum momento.

A cigarra devia ter capturado completamente a atenção da jovem, porque ela não conseguia tirar os olhos dela. Ele se perguntou como ela reagiria se dissesse que supostamente a peça foi feita para ser colocada na boca de uma pessoa morta. Sim, isso provavelmente a assustaria o bastante para fazê-la ir embora. Ele estava prestes a contar esse detalhe quando:

— Aqui. — A jovem tirou um grampo de cabelo das dobras da própria roupa.

— O que é isso?

— Pagamento em troca. Quer?

— Hmmm…

O homem semicerrou os olhos para ela e pegou o objeto. Fosse o que fosse, aquele enfeite de cabelo não parecia algo que valesse muito. Por outro lado, a beleza e o acabamento refinado mostravam que não era o tipo de peça encontrada numa joalheria comum. Havia um dano em uma parte, uma pena; isso reduziria bastante o valor. Mas era o único defeito. Era estranho, a parte achatada do enfeite mostrava um vestígio como se tivesse sido perfurada. Quase como se algo redondo tivesse ficado preso ali dentro.

— E então?

— Certo, isso serve muito bem.

O comerciante pensou em perguntar de onde aquilo tinha vindo, só por precaução, mas desistiu. Não, era melhor agradecer à própria sorte por ter colocado as mãos em algo assim. O brasão naquele enfeite já era excelente por si só. Ele poderia usar a base trabalhada e substituir a decoração por outra coisa, e ainda venderia por um bom preço.

— Então vou levar isto! — A jovem ergueu a cigarra cravejada de joias contra o sol, fazendo-a reluzir, e riu. O sorriso sincero dela fazia até as roupas sujas parecerem brilhar. O comerciante pensou no jardim de flores do Imperador, no palácio interno, aquela jovem devia ser o tipo de flor que desabrochava ali.

Atraído pelo sorriso dela, o homem se pegou falando antes que pudesse se conter.

— Uma coisinha bonita como você… se fizesse parte do jardim de flores do Imperador, poderia ter todos os luxos que quisesse. Sabe, a concubina favorita de Sua Majestade, qual era mesmo o nome dela? Eh…

— O senhor quer dizer a Concubina Gyokuyou?

— Isso, essa mesma. Disseram que ela é a Imperatriz agora.

Às vezes o livreiro vendia retratos dela. Caros demais para o povo comum comprar, mas ótimos para atrair clientes.

— Ah, Gyokuyou… — A jovem, ainda com um olho fixo no prêmio que segurava, olhou ao redor até encontrar algo: um pescador separando peixes e algas da rede. — Sabe, moço… meu nome é Tamamo.

— Tamamo? Não é uma palavra elegante para alga? Parece um nome digno da bênção do oceano.

— Pois é, né? Eu tenho muita curiosidade sobre o que existe do outro lado do mar.

A garota chamada Tamamo sorriu e olhou para um barco atracado no porto, uma embarcação que tinha vindo de um país insular distante. Vários dos produtos que trouxeram já tinham até chegado àquela mesma banca.

A garota deu um pulinho e abriu um sorriso radiante. — Certo, obrigada. Tchau! — Ela acenou alegremente para o comerciante e saiu correndo em direção ao cais.


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Kessel: Como prometido, vim explicar o que eu quis dizer com aquilo da Xiaolan. Caso não saibam, a autora Natsu Hyüga, em parceria com a MangaUp! (gigantesca empresa de mangás) está lançando The Apothecary Diaries: Xiaolan's Story ou Diários de uma Apotecária: As Histórias de Xiaolan! Trata-se de um mangá spinoff, com a Xiaolan sendo a protagonista da obra, contando as suas visões a respeito dos acontecimentos da história até aqui no palácio interno. Mas não apenas isso, pois a obra aprofunda a narrativa principal, incluindo respondendo alguns mistérios que não foram solucionados pela Maomao! Não apenas isso, como introduz personagens novos que só apareceriam na obra no futuro, revela também os bastidores do palácio interno (como por exemplo como foi feita a troca da chefe das damas de companhia da Concubina Lishu), entre outras coisas! 

E, é claro, a tradução de todos os capítulos já lançados até aqui, foram feitas pela gente! Você pode acompanhar a obra entrando em nosso Discord ou simplesmente clicando no link que vou deixar no final para que você acompanhe a jornada da personagem mais fofinha da obra toda! Até o momento, já saíram oito capítulos, todos devidamente traduzidos, e eles já adaptaram o primeiro volume inteiro da Light Novel. O oitavo, na verdade, já iniciou o segundo volume! A frequência de postagem é um pouco baixa, não nego, geralmente temos novos capítulos a cada mês ou dois meses, mas ainda sim, vale a pena acompanhar. Em nosso Discord anunciaremos sempre que um capítulo novo for postado, para que você não tenha que ficar conferindo por si só! Junte-se à nossa comunidade!

Sakura Mangás: Clique aqui para acompanhar os Diários de uma Apotecária: As Histórias de Xiaolan!
MangaDex: Clique aqui para acompanhar os Diários de uma Apotecária: As Histórias de Xiaolan!

O primeiro link é um site brasileiro, já o segundo, é um dos maiores sites internacionais de mangás que existe. Lembre-se de, no caso do segundo, acompanhar a tradução brasileira postada por mim, Kessel. (Por enquanto só há a minha, mas pode existir alguma outra pessoa traduzindo no futuro, então deixo o aviso!)

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora