Volume 4
Capítulo 22: Nas Garras da Raposa
Quando Maomao abriu os olhos, encontrou um belo nobre diante dela. Por algum motivo, ele estava inclinado sobre ela, estendendo a mão em direção à sua gola.
Ela lançou a Jinshi um olhar fulminante, fazendo-o exclamar:
— E-Eu... — ele gaguejou, tropeçando nas palavras e agitando as mãos como se tentasse provar a própria inocência.
Normalmente, ela teria sustentado o olhar por mais tempo, mas não pôde deixar de notar um curativo em seu rosto.
— Mestre Jinshi, o que é isso? — perguntou, ajeitando a gola da própria blusa.
— Não é nada. Um arranhão. — Ele tentou esconder com a mão. Maomao franziu a testa, irritada.
— Deixe-me ver.
— Mal vale a pena lhe mostrar.
Isso, é claro, só deixou a Maomao ainda mais interessada. Ela se inclinou para a frente, avançando tão rápido que Jinshi recuou levemente.
Quando finalmente o encurralou contra a parede, Maomao estendeu a mão devagar. Por um momento, ela não disse nada. Seu rosto perfeito, como uma joia impecável, agora tinha um ferimento costurado que descia em diagonal pela bochecha direita. Não era apenas um arranhão superficial; algo rasgou a pele dele.
Os pontos estavam irregulares; seria melhor refazê-los o quanto antes. Maomao gostaria de fazer isso ali mesmo, mas suas mãos tremiam de exaustão extrema.
— O senhor esteve na luta — disse ela.
— Eu não podia simplesmente ficar sentado enquanto outros se colocavam em perigo, podia?
— Por que não? O senhor é importante o suficiente. — A irritação já transparecia em sua voz. — Eu gostaria que não se colocasse em perigo. Se você se machucar, só vai causar problemas para todos ao seu redor.
Ele coçou a cabeça e sorriu com certa amargura. — Sim, admito que foi bastante injusto da minha parte fazer isso com Basen. É impressionante como Gaoshun pode ser forte quando quer. Começou a colocar o curativo novamente de maneira desajeitada, mas Maomao o tomou dele.
— Eu certamente não pretendia me ferir — disse Jinshi.
— E quem pretende?
— É que... alguém me fez um pedido muito incomum. — Ele franziu a testa. Havia tristeza em seus olhos negros como obsidiana. — Você era próxima de Loulan?
A pergunta pareceu abrupta demais. — Relativamente — respondeu Maomao.
— Eram amigas?
— Não sei dizer.
Ela realmente não sabia. Pensou que o relacionamento fosse algo próximo de amizade, ou pelo menos assim parecia para ela. Mas o que Loulan pensava, não podia afirmar. Conversar com Xiaolan e Loulan, ou melhor, Shisui, não tinha sido ruim assim.
— Havia muitas coisas que eu não sabia sobre ela.
— O mesmo, ao que parece, aconteceu comigo. — A dor no rosto de Jinshi se intensificou. — E agora perdemos a chance de compreendê-la.
Maomao entendeu o que ele quis dizer. — Entendo, senhor.
Claro. Maomao sabia que seria assim. Quando Shisui saiu daquele quarto, confiou algo a ela, e então partiu, sabendo que encontraria seu destino. Tudo o que Maomao podia fazer era honrar o que lhe foi confiado...
— Mestre Jinshi, o senhor não quer descansar?
— Sim... estou terrivelmente cansado.
Sua aparência não estava boa. Jinshi provavelmente estava em condições muito piores que Maomao, embora fosse ela que tivesse sido sequestrada. Ele tinha olheiras profundas, e seus lábios estavam secos e sem cor.
O óbvio seria que ele voltasse à própria carruagem para dormir, mas, para surpresa de Maomao, ele se deitou sobre a pele estendida no veículo dela.
Maomao deixou a frustração aparecer no rosto.
— Preciso pedir que não durma aqui, Mestre Jinshi.
— Por quê? Estou cansado.
— Certamente não preciso explicar, preciso? — Maomao olhou ao redor. Havia cinco “embrulhos” na carruagem com eles: as crianças do clã Shi. — Este lugar está impuro.
— Eu sei disso.
— Então por que…
Antes que pudesse terminar, ele agarrou seu pulso e a puxou para perto. Sua mão estava muito fria.
Eles acabaram deitados frente a frente sobre a pele de animal.
— Então por que você está aqui?
— Até eu sei ter piedade de crianças — disse ela, repetindo as palavras que havia ensaiado.
— Você sabe? Tenho minhas dúvidas. — Ainda deitado, Jinshi inclinou a cabeça. — Seu mestre de medicina não a proibiu de tocar em cadáveres?
Maldito seja ele por se lembrar disso! Maomao conteve o impulso de franzir o cenho abertamente.
— Considerando que ele achou necessário impor tal proibição, não acho que você dure muito tempo em um lugar como este — disse Jinshi. Ele escolhia os piores momentos para ter intuições afiadas.
Maomao tentou pensar em alguma forma de escapar daquele olhar tão atento. Enquanto estava imóvel, Jinshi estendeu a mão outra vez. Ele puxou de volta a gola dela. — E o que aconteceu com você? — perguntou ele, franzindo a testa. A pele sob sua gola tinha um hematoma escuro e feio onde Shenmei a atingiu com o leque.
Maomao ficou um pouco constrangida, mas decidiu que seria melhor encerrar aquilo logo. — Encontrei alguém que não foi muito gentil.
— Você foi atacada — disse Jinshi, com uma voz fria.
— Era uma mulher — acrescentou Maomao, fazendo questão de dizer. Jinshi parecia excessivamente preocupado com a castidade alheia. Ela se encolheu quando ele passou os dedos pelo hematoma.
— Não acha que vai ficar cicatriz?
— Disso? Vai sumir antes que perceba. — Incomodada com o toque, ela se afastou, mas Jinshi apenas estendeu ainda mais as mãos. Por fim, Maomao se sentou e ajeitou a gola.
— Não vá ficar com uma cicatriz — disse ele.
— Eu poderia dizer o mesmo ao senhor.
Jinshi franziu o cenho. — Eu sou homem. O que isso importa em mim?
— Ah, o senhor supera em muito “um homem”.
— Como se eu me importasse.
— Então eu também não me importo. Se uma cicatriz for suficiente para anular meu valor, que seja.
— Depois de tudo que você me disse... — Jinshi não se sentou, mas também não soltou o pulso dela. Parte do calor começava a voltar à sua mão. — Eu sou alguém cujo valor pode ser anulado por uma cicatriz? Não sou nada além do meu rosto? — Sua mão apertou o pulso dela.
Maomao balançou a cabeça instintivamente. — Francamente, uma cicatriz talvez lhe faça bem — disse ela, com mais sinceramente do que pretendia. Jinshi era bonito demais; deixava todos ao redor desconcertados. E as pessoas se concentram demais em sua aparência. Mesmo que não fosse tão delicado e frágil quanto parecia, pensou Maomao; ele era feito de algo mais resistente. Em sua opinião, apenas um punhado de pessoas ao redor dele percebia isso.
— Você não acha que isso te deixa mais viril do que antes? — disse ela. Ela notou que seus lábios se contraíram ao ouvir isso. Ele olhou ao redor, inquieto, piscou e balançou a cabeça.
— O que houve, senhor?
Jinshi coçou a nuca com a mão livre.
— Dadas as circunstâncias, pensei que talvez devesse apenas suportar em silêncio...
— Não há nada para suportar. Se está cansado, então apresse-se e…
…e saia daqui para descansar: era o que ela ia dizer. Mas não era a sonolência que Jinshi estava tentando suportar. Ele puxou seu pulso outra vez e, quando ela se sentou de frente para ele, segurou a parte superior de seu outro braço.
— Quando olhei seu ferimento, tentei agir o mais calmamente possível — disse ele. Seu rosto perturbadoramente belo se aproximava cada vez mais do dela; ela podia sentir o calor de sua respiração em sua pele. — Estou surpreso... quero dizer, acho que pareci mais calmo do que esperava.
— Hã?
Naquele momento, ela se lembrou: já não estiveram numa situação muito parecida antes? E não foi bastante comprometedora? Suas costas estavam pressionadas contra um dos suportes da carruagem; não havia para onde fugir.
— Mestre Jinshi, não seria melhor você dormir um pouco?
— Ainda estou bem.
Como ele podia dizer isso com aquelas olheiras enormes?
— Vou refazer seus pontos, senhor. Deixe-me pegar alguns analgésicos...
— Posso aguentar mais meia hora.
— Meia hora, é?
Jinshi a ignorou. Talvez fosse o cansaço que fazia seus olhos parecerem os de um cão selvagem.
Isso não é bom… Ela se debateu, mas ele era mais forte.
Jinshi se aproximava cada vez mais, e quando seus narizes quase se tocaram... ouviu-se um barulho seco.
Jinshi praticamente saltou. — O-O que foi isso? — Quando percebeu que o som viera do lugar onde as crianças descansavam, ficou ainda mais atônito. Isso foi perfeito para Maomao, que o empurrou e correu até a origem do ruído. Ela tocou os pulsos das crianças enroladas uma a uma.
Não... Não… Então sentiu o pulso da terceira criança.
Os pequenos lábios tremeram; havia um sopro quase imperceptível de respiração. Ela encontrou um pulso, fraco, mas detectável.
— Se ao menos esses pequenos fossem insetos, talvez pudessem dormir durante o inverno — disse Shisui. Aqueles insetos que produziam um som como sino, as fêmeas devoravam os machos, e depois também morriam. Apenas a prole sobrevivia, hibernando nos meses frios.
Shisui comparou seu clã a insetos e deu a Maomao outra pista também.
Havia outro país onde, às vezes, a droga era usada em práticas secretas. Podia matar uma pessoa e depois trazê-la de volta à vida. Matava com veneno, mas com o tempo o veneno se dissipava e, quando era completamente neutralizado, o morto revivia.
Suirei ensinou a Maomao sobre a droga da ressurreição. Aquilo também fazia parte do plano de Shisui?
— Eles estão vivos? — perguntou Jinshi atrás dela, mas Maomao não tinha tempo para responder. Ela massageava os corpos das crianças, desesperada para fazer o efeito da ressurreição funcionar. Foi por isso que Shisui a trouxe até ali.
Maomao não sabia o que Jinshi faria com as crianças revividas, mas não tinha tempo para explicar, nem a si mesma nem a eles. — Água quente! Mestre Jinshi, por favor, traga água quente. E algo para aquecê-los. Roupas, comida, não importa.
— Deixar os “mortos” descansarem, é? — Jinshi soltou uma risada baixa. — Ela me enganou. A raposa conseguiu o que queria.
— Mestre Jinshi! — gritou Maomao. Ele parecia estar murmurando para si mesmo, mas ela não podia se dar ao luxo de se importar.
— Sim, claro — disse ele, e ela teve a impressão de que havia quase um tom alegre em sua voz. Sua expressão estava muito mais suave do que antes, embora ainda carregasse certa decepção.
Maomao concentrou-se totalmente nas crianças, que começavam a respirar aos poucos. Quando Jinshi voltou com cobertores e um balde de água quente, inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:
— Podemos continuar isso depois?
— Claro, tanto faz — respondeu Maomao, ocupada demais para pensar muito sobre o assunto. Ela tinha os pequenos com quem se preocupar.
[Noelle: Homem sendo homem kkkkkkkkkkk]
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