Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 4

Capítulo 21: Como Tudo Começou

Houve um assobio agudo. Jinshi sentiu a ansiedade diminuir um pouco. O assobio era o sinal de que a missão tinha sido cumprida: vários sons curtos se houvesse problema, um longo se estivesse tudo bem. Lihaku devia ter conseguido tirar Maomao da fortaleza em segurança.

Jinshi saiu de um longo corredor. Ele se lembrou das plantas que tinha estudado no caminho até ali: à sua frente deveria haver uma grande sala aberta, depois um escritório e, por fim, os aposentos.

Basen vinha logo atrás de Jinshi. Normalmente, aquele seria o lugar de Gaoshun, mas Gaoshun tinha sua própria tarefa a cumprir. Mas Basen tinha o hábito de ficar um pouco nervoso quando substituía seu pai.

— Não fique tão tenso — aconselhou Jinshi em voz baixa, para que apenas Basen ouvisse. Dois outros oficiais os seguiam.

— Então permita que eu vá na frente — disse Basen. Jinshi entendeu o que ele queria dizer, ele queria que Jinshi fosse protegido tanto pela frente quanto por trás. Jinshi deu uma leve risada e foi empurrar a porta pesada, mas um mau pressentimento o atingiu de repente. Mandou os outros recuarem, para não ficarem de frente da porta. Então ele a abriu e imediatamente se atirou contra a parede.

Um estrondo quase ensurdecedor passou por ele.

— O que foi isso?! — exigiu Basen, franzindo a testa.

— Nada que eu já não esperasse.

Se estavam produzindo pólvora ali, era de se supor que eles usariam feifas na batalha. Havia restrições quanto aos lugares onde essas armas podiam ser usadas, eram vulneráveis ao mau tempo e, mesmo funcionando bem, levavam tempo para serem recarregadas. Além disso, era preciso ao menos um tanto de espaço, assim como nesta fortaleza.

Foi exatamente como Jinshi previu, na grande sala além da porta, alguns homens tentavam recarregar suas armas freneticamente. — Vamos! — gritou Jinshi. No mesmo instante, os homens na sala tentaram abandonar as armas e sacar as espadas, mas era tarde demais.

As feifas eram pensadas para serem usadas por várias pessoas se revezando nos disparos. Aqueles homens tinham errado a primeira salva, e não havia tempo para colocar novas balas. Eram cerca de cinco, todos vestidos com roupas luxuosas. Jinshi reconheceu vários rostos. O cheiro característico de pólvora impregnava a grande sala com piso de pedra.

— Onde está Shishou? — perguntou. Ele presumiu que todos ali fossem membros do clã Shi. Os soldados deles os haviam abandonado ao perceberem que a batalha estava perdida; as feifas eram uma tentativa desesperada de virar o jogo. — Não estão com vontade de falar?

— N-Nós não sabemos! Isso nunca foi o nosso plano! — exclamou um dos homens, os olhos fixos em Jinshi. Ele gritava com tanta agitação que saliva voava de sua boca. Basen rapidamente o conteve, temendo que ele se atirasse contra Jinshi. — Fomos enganados! Somos apenas peões! — chorou o homem, enquanto Basen o pressionava contra o chão.

— Seu desgraçado…! — Basen, tomado pela fúria, empurrou o rosto do homem ainda mais contra o piso. — Temos provas, provas, de que vocês desviaram fundos nacionais para reconstruir esta fortaleza! E ficaram aqui de armas em punho contra nós, mesmo que esse fosse o único crime de vocês, sabem muito bem o que isso significa! — Basen pressionou a lâmina nua da espada contra o pescoço do homem. Ele, praticamente espumando, parecia completamente desesperado.

— Eu j-juro, nós não sabíamos! Eu não sabia! Ele disse que era para o bem do país. Fizemos tudo pela nossa nação...

Whoosh. A espada desceu, e faíscas voaram ao atingir o piso de pedra. O homem, com os olhos quase saltando das órbitas, parou de balbuciar. Uma mancha escura se espalhou pelo chão sob ele. Os outros permaneceram em silêncio, talvez para não sofrer a mesma humilhação, mas o medo em seus olhos era absoluto.

Jinshi queria poder dizer para não olharem para ele daquela forma,  mas como poderia? Eles podiam implorar por misericórdia com os olhos, mas o julgamento era irrevogável. Tudo o que Jinshi podia fazer agora era manter-se firme e deixar que as pontas afiadas das emoções deles o atravessassem.

— Sejam gentis. A espada agora ou a forca depois. Ao menos poderiam ter a decência de acabar logo com ele.

Basen e os outros soldados assumiram posições de combate quando uma voz se aproximou, acompanhada de passos pesados. Um homem corpulento entrou lentamente na sala: Shishou. Ele segurava uma feifa na mão.

Jinshi encarou o homem conhecido como o velho tanuki. — Você parece bastante tranquilo, Shishou. — Ele tirou um pergaminho das dobras da roupa. Selado com a insígnia pessoal do Imperador ordenando a prisão de todo o clã Shi.

Movendo-se devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, Shishou apontou a arma.

— Você perdeu o juízo? — perguntou um dos soldados em voz baixa. Shishou não carregava pederneira, e o homem parecia presumir que isso significava que ele não poderia disparar.

Mas Jinshi agarrou Basen com uma mão e outro subordinado com a outra e puxou ambos para o chão. A explosão veio em seguida. A bala ricocheteou na parede e atingiu na perna o homem do clã Shi que estava no chão. Um sujeito extremamente azarado. Seu grito ecoou pela sala.

— Ah, que vergonha. Você não atirou em um animal com isso, só para ver como era? — disse Shishou ao homem que gritava. — E eu estava tão ansioso para testar em um humano de verdade. Que pena.

Jinshi percebeu a completa ausência de emoção na voz de Shishou, como se estivesse lendo um roteiro. Ou seria apenas imaginação de Jinshi?

— Hmm. Parece que este é o fim. O que eu não daria por um pouco mais de tempo… — Então Shishou largou o feifa. Olhou para Jinshi e, por um instante, seu rosto suavizou. O que ele estava tentando dizer?

Jinshi nunca teve a chance de perguntar. Talvez Shishou não tivesse respondido, mesmo que ele tivesse perguntado.

— Vão! — gritou Basen, ainda no chão.

Sangue espirrou.

Três espadas se cravaram quase ao mesmo tempo na barriga volumosa de Shishou. Ele nem gritou, apenas olhou para cima. Uma espuma avermelhada borbulhava em sua boca, e seus olhos estavam vermelhos. Ainda assim, não caiu, apenas fitou o teto, os braços abertos. Aquilo eram risadas ou ele estava amaldiçoando algo?

Não havia nada de especial no teto. Talvez ele estivesse olhando além dele, para algo ainda mais alto. Jinshi não entendia; sentia como se estivesse assistindo a uma apresentação, como se aquele lugar fosse o teatro de Shishou e aquele momento, seu palco.

Sem jamais revelar o que o fascinava acima de si, Shishou morreu. Talvez anticlimático. Mas ele se foi.

Além da grande sala havia um corredor cheio de mulheres com roupas leves e homens extravagantes. As mulheres falavam sem parar, ansiosas para dizer quem estava lá dentro em troca de suas próprias vidas. Os homens insistiam que não eram membros do clã Shi, ao contrário das mulheres. Jinshi entendia o impulso de salvar a própria vida, mas não suportava o espetáculo de todos traindo todos para se salvarem. Deixou que seus subordinados os prendessem.

Disseram-lhe que a ex-concubina Loulan e sua mãe, Shenmei, estavam na sala mais interna. Mas, quando chegaram lá, Basen, que entrou primeiro, exclamou:

— Não tem ninguém aqui!

Encontraram apenas uma grande cama no centro do aposento e alguns sofás. Havia roupas espalhadas por toda parte, além de vinho derramado e cachimbos, e um aroma adocicado que parecia se agarrar ao ar. Era fácil imaginar o que tinham feito ali dentro. O rosto de Basen estava vermelho, mas não de raiva.

Jinshi, meio atordoado, jogou o incensário de lado. Algumas ervas secas se espalharam pelo chão. Se a garota apotecária estivesse ali, saberia o que eram e quais efeitos causavam.

— Para onde elas foram? — Não havia ninguém na varanda da sala ao lado. — Será que elas pularam?

Enquanto examinavam a varanda, Jinshi refletiu. A sala por onde tinham passado e a que ocupavam agora deveriam ter aproximadamente o mesmo tamanho, de acordo com as plantas, mas algo estava errado. A segunda parecia menor. Ele foi de um cômodo ao outro. Havia apenas uma porta para a sala mais interna, e do outro lado ficava a varanda. A falta de móveis fazia parecer mais espaçosa, mas a distância da parede até a varanda era visivelmente menor do que as dimensões da outra sala.

Ele voltou mais uma vez e, desta vez, examinou uma cômoda encostada na parede. Ela correspondia exatamente à dimensão que faltava no outro aposento.

Em silêncio, abriu a cômoda. Enfiou a mão para dentro, passando por uma coleção de roupas extravagantes. Apesar da estrutura aparentemente sólida, o fundo parecia fino demais. Com um leve empurrão, percebeu que ela se levantava.

Ele se inclinou para dentro, ficando de quatro para espiar dentro dele. Onde ele esperava encontrar uma parede, havia um espaço aberto. Um túnel secreto. E ele podia ver uma luz fraca.

— Bang! — disse uma voz, em tom brincalhão. Jinshi deu de cara com o cano de uma arma apontado diretamente para seu rosto. Loulan estava ali, dentro do túnel, segurando algum tipo de arma de fogo muito mais complexa do que as feifas que ele conhecia. Era como a que Shishou tinha usado antes, mas menor, mais portátil; cabia até mesmo em um espaço apertado como aquele. Ele ficou chocado ao perceber que ali não produziam apenas pólvora, mas também as mais novas armas de fogo.

— Permita-me chamá-lo de Mestre Jinshi. Por conveniência — disse Loulan, ainda mantendo a arma apontada para ele. Ela estava coberta de fuligem, e o cabelo chamuscado. A vela no castiçal que carregava tremulava cada vez que ela falava. — Poderia fazer a gentileza de vir comigo?

— E se eu recusar?

— Se eu estivesse disposta a permitir isso, não estaria ameaçando você.

Jinshi quase ficou impressionado com a audácia dela. Ele observou a feifa de modelo atual, notando tudo o que havia de novo e diferente nela. Ele ergueu as mãos. — Entendido.

E, com isso, ele seguiu Loulan pelo túnel.

As plantas que Jinshi estudou não mostravam nenhum túnel secreto. Talvez isso anulasse o propósito de mantê-los em segredo. Ou talvez Shishou tivesse acrescentado aquela passagem apenas recentemente.

O túnel era estreito, e Loulan andou de costas para manter a arma apontada para Jinshi. Talvez fosse mais fácil se ele fosse à frente e ela mantivesse a arma encostada em suas costas, mas provavelmente ela temia que ele tentasse arrancá-la de suas mãos ao passar por ela.

— Estou um pouco surpresa por você simplesmente estar vindo comigo — disse Loulan.

— E, ainda assim, foi você quem mandou — respondeu ele, quase despreocupado. Loulan deu uma risadinha. Estranhamente, ele achou que ela parecia muito mais humana do que no palácio interno.

— Com certeza seria fácil para você tirar isso de mim, não?

Sim. Jinshi não tinha certeza absoluta, mas suspeitava que seria mais do que capaz de dominá-la. Mas não disse nada, apenas permaneceu em silêncio.

Não devia haver muito ar no túnel, pois a vela continuava tremulando. Pouco antes de se apagar, chegaram a uma sala secreta. A chama recuperou a força, devia haver alguma abertura deixando o ar entrar, e sua luz revelou outras duas mulheres. Uma era uma jovem que se parecia muito com Loulan, embora tivesse um hematoma escuro no rosto.

— Ah, Suirei, minha querida irmã. Ela ainda não fez nada terrível com você, fez?

A outra mulher balançou a cabeça em movimentos curtos e rápidos. Suirei, esse era o nome da dama da corte que havia voltado dos mortos. E aquele era o rosto do eunuco que entrou no palácio interno há pouco tempo.

Então Jinshi olhou para a terceira mulher na sala, de meia-idade, vestindo roupas e maquiagem que pareciam para ele extravagantes demais, sem qualquer senso de dignidade adequado à sua idade. Aquilo o fez lembrar de como Loulan se apresentava no palácio interno.

O único mobiliário do cômodo eram duas cadeiras e uma única escrivaninha.

— Loulan — começou a mulher de meia-idade — este homem é...

— Sim, mãe. Eu o trouxe aqui para realizar o seu desejo.

Shenmei, mãe de Loulan, lançou a Jinshi um olhar carregado de fúria aberta.

Mas Loulan continuou: — Eu sei o quanto você sempre o odiou. A aparência dele. É por causa de quem ele a faz lembrar? Ou simplesmente porque sempre teve inveja dele, sempre se ressentiu por ele ser muito mais bonito do que você?

— Loulan! — Shenmei repreendeu a filha. Mas Loulan nem sequer se abalou, quem tremia era Suirei. Ela parecia muito diferente do que Jinshi ouviu falar.

— Desculpe. Talvez isso tenha ido longe demais para uma brincadeira. Então permita-me fazer uma pequena encenação para você. Um aquecimento antes do evento principal.

Em seguida, ela colocou a vela sobre a mesa, prendeu a feifa na faixa da cintura e, com calma e clareza, começou a contar uma história.

A história de Loulan se passava na época do imperador anterior.

O governante imbecil era um fantoche da própria mãe quando o assunto era política. (Era uma forma extremamente desrespeitosa de se referir ao antigo imperador; o que impediu Jinshi de se irritar foi saber que era verdade demais.)

Jinshi nunca achou o homem que chamava de Pai assustador. Mas a mulher que ficava atrás dele, a imperatriz regente, essa sim era aterrorizante.

Jinshi perseguiu um fragmento de memória antiga. Ele não sabia ao certo como foram os últimos dias da imperatriz regente. Só lembrava que o antigo imperador morreu logo depois, como se tivesse pressa em seguir a mãe para a próxima vida.

Cada vez mais impaciente com a falta de interesse do filho por mulheres adultas, a imperatriz regente encheu o palácio interno com as mais belas damas. E então ordenou ao chefe de uma das famílias do norte que oferecesse sua filha, que seria apresentada, ao menos oficialmente, como uma das concubinas de alto escalão do governante.

— O que você está dizendo, Loulan? — perguntou Shenmei, confusa com a história da filha. O relato não seguia o rumo que ela conhecia.

Loulan cobriu a boca com a manga e riu. — É a primeira vez que ouve essa história, mãe? O avô murmurava como um mantra em seu leito de morte, enquanto definhava pela doença.

Não havia nada de novo na ideia de tornar nominalmente a filha de um alto oficial uma concubina para, na prática, mantê-la como refém. Isso acontecia ao longo da história.

— Sabe por que o palácio interno ficou tão grande? — perguntou Loulan a Jinshi.

— Ouvi dizer que foi por instigação de seu pai, sussurrando ao ouvido da imperatriz regente.

Essa era a visão geral na corte: que Shishou havia se infiltrado no círculo íntimo da notoriamente cautelosa imperatriz regente. Originalmente, Shishou era apenas o filho pouco notável de um ramo da família Shi, mas, graças à própria astúcia e ao sangue que corria em suas veias, foi adotado pela casa principal, que carecia de herdeiro, e recebeu o nome Shishou.

A casa principal era a família de Shenmei. Ela já estava prometida a Shishou antes mesmo do imperador entregá-la a ele.

— Isso mesmo — disse Loulan. — Acredito que ele sugeriu a expansão do palácio interno como um novo programa de obras públicas.

Uma forma elegante de dizer, pensou Jinshi. Uma maneira de contornar a questão sempre que surgia o assunto da diminuição do palácio interno.

— Ele propôs isso em conexão com o comércio de escravos.

Os olhos de Jinshi se arregalaram. Shenmei pareceu tão surpresa quanto ele. Suirei, por sua vez, permaneceu inexpressiva.

Loulan riu baixinho para Jinshi, depois voltou-se para Shenmei. — Você realmente não sabia de nada disso, sabia, mãe? Não sabe o que o avô fez para despertar a ira da imperatriz regente. Por que precisou oferecer a própria filha ao palácio interno para mantê-lo na linha.

A escravidão era comum naquela época; o palácio inclusive empregava eunucos escravizados. Mas Loulan falava em comércio de escravos.

O sistema de escravidão sancionado pelo governo de Li funcionava com princípios semelhantes aos dos bordéis: quando uma pessoa trabalhava o suficiente para quitar seu preço de compra ou cumpria um período determinado de serviço, podia ser considerada emancipada. Mas isso valia apenas dentro das fronteiras do país. A exportação de escravos para outras nações era proibida e, ainda assim...

— Parece que os escravos são uma mercadoria bastante lucrativa. Proibido ou não, nunca faltam pessoas dispostas a colocar a mão nesse mercado específico. Naquela época, ao que parece, jovens damas alcançavam preços especialmente altos.

Com uma de suas filhas mais proeminentes mantida como refém, o clã Shi foi forçado a reduzir suas operações no comércio de escravos. Mas o negócio não desapareceu por completo, e o que restou dizia-se estar centrado no palácio interno. Isso não envolvia apenas jovens mulheres, mas frequentemente homens também, que muitas vezes eram castrados antes de serem vendidos como escravos.

Essa foi a sugestão de Shishou: usar o palácio interno para abrigar as mulheres que, de outra forma, seriam vendidas ao exterior. Seu raciocínio se alinhava perfeitamente ao da imperatriz regente, que viu na proposta uma maneira de matar dois coelhos com uma cajadada só, politicamente e em relação ao filho.

Os pais sentiam culpa por terem de vender as filhas e, se pudessem escolher, prefeririam vê-las servir no palácio interno a serem enviadas como escravas. Dois anos de serviço também provavelmente lhes dariam alguma habilidade ou educação que diminuísse as chances de caírem na escravidão depois. Acima de tudo, servir no palácio interno era uma qualificação respeitável por si só. Infelizmente, com a expansão dramática do palácio, os planos de educação e afins acabaram ficando de lado.

— Mas, claro, a imperatriz regente tinha mais de uma carta na manga, e meu pai também.

Ao conquistar a confiança dela, ele esperava restaurar a reputação do clã Shi. E, se isso se mostrasse impossível...

— Eu sei que as coisas foram difíceis para você, mãe. Se era assim que tudo ia terminar, eu gostaria que você tivesse fugido antes de tudo começar. Depois de todo o esforço que o pai fez para lhe dar essa chance.

Ela estava se referindo à passagem secreta que levava para fora do palácio interno? Era para isso que ela servia? Jinshi se perguntou.

O rosto de Shenmei estava tempestuoso.

— Foi porque você não conseguiu confiar em um homem que disse que jogaria fora sua posição para partir com você?

— Loulan, sua pirralha... — Sulcos profundos se formaram no rosto de Shenmei quando ela olhou para a filha, mas não foi Loulan quem pareceu intimidada, e sim Suirei. Shenmei pareceu perceber isso; lançou a Suirei um olhar como se estivesse encarando sujeira no chão. — Claro que eu não confiei nele. Como poderia? O corpo do meu pai mal tinha esfriado quando ele assumiu o comando da família e se casou com a mãe dessa vadia!

Suirei observava Shenmei, ainda tremendo.

Loulan soltou outra risadinha e se aproximou de Suirei. Pegou a mão daquela irmã de outra mãe, colocou a outra mão na gola dela e puxou algo que pendia de seu pescoço. Muito parecido com o próprio grampo de prata de Jinshi, havia um pingente preso a um cordão. Mas, enquanto o de Jinshi representava um qilin, o de Suirei tinha a forma de um pássaro. Quem o conhecesse saberia que era uma fênix. Assim como o qilin, apenas poucos escolhidos tinham o direito de usar aquele símbolo.

— Acho que Sua Antiga Majestade deve ter se sentido culpado. Preocupado com o bebê que ele expulsou do palácio interno. Porque parece que ele a visitava com bastante frequência, graças aos bons ofícios do meu Pai.

Foi Shishou quem acolheu secretamente a médica e a criança que haviam sido banidas do palácio interno. Com o tempo, a criança cresceu; Shishou assumiu o comando de sua família, e a jovem atingiu a idade de se casar.

— O imperador negou a própria filha uma vez, mas com o tempo deve ter aceitado que ela era dele. Porque sabe o que ele disse ao meu Pai?

“Você poderia, por gentileza, aceitar minha filha como sua esposa?”

Shishou, em quem a imperatriz reinante confiava e que era quase como um parente para o antigo imperador, deve ter parecido o genro ideal ao soberano. O antigo imperador jurou conceder qualquer desejo que Shishou tivesse, como ele poderia recusar?

Assim, o antigo chefe do clã Shi, que havia atraído tanta desconfiança da imperatriz reinante, morreu em seu leito de morte, e a liderança passou para Shishou, em quem ela confiava. Já não havia necessidade de manter Shenmei como refém. Era o imperador quem tinha a palavra final sobre o destino das flores do palácio interno. Shishou se casou com a filha do soberano, e uma criança nasceu deles. Deram a ela o nome Shisui, concedendo-lhe o nome do clã, Shi. Essa mulher agora era conhecida como Suirei.

— E assim você, Mãe, foi graciosamente concedida ao pai.

O antigo imperador era um tolo e falhou completamente em entender o efeito que aquela escolha teria sobre sua filha. A mãe de Suirei morreu de “doença” pouco tempo depois, e Suirei foi acolhida pelo antigo médico do palácio interno. Mais tarde, esse mesmo homem seria contratado e levado a esta mesma fortaleza para criar um elixir da imortalidade, mas essa é outra história.

Mais ou menos na mesma época em que o médico acolheu Suirei, o antigo imperador passou a se trancar em seus aposentos, e por mais de dez anos, até sua morte, nada se ouviu sobre ele. Restando apenas uma única joia de prata, a garota agora conhecida como Suirei nunca soube que era neta do antigo imperador e, depois que Loulan nasceu, foi tratada como nada mais que uma filha de uma concubina. Até mesmo seu nome foi tirado dela e dado à irmãzinha recém-nascida.

— Você… você está mentindo. Já chega dessas bobagens sem sentido! — Shenmei, diante da verdade, recuou.

A história devia ter sido chocante para Suirei também, mas ela parecia quase impassível. Ainda assim, continuava olhando para Shenmei com inquietação. Talvez Suirei soubesse de tudo desde o início.

Loulan, ainda sorrindo, se aproximou de Shenmei. — Bobagens, Mãe? E depois do papai trabalhar o resto da vida por você. Sabendo o tempo todo que aquilo só podia terminar em destruição. A senhora nem sabe por que o Mestre Jinshi está aqui, sabe? — Ela olhou para a mãe com desprezo e então se voltou para Jinshi. — Conte para nós como foi o fim da vida do meu pai.

— Ele morreu... rindo — disse Jinshi. Ele não sabia o que aquele riso significava, pois não fazia ideia do que Shishou estava pensando. Mas, depois de ouvir a história de Loulan, começou a sentir que talvez houvesse outra perspectiva. Chegou até a se perguntar se não havia interpretado errado a rebelião do clã Shi o tempo todo.

— Aquele homem... Poder era tudo o que ele sempre quis. Tenho certeza de que só se casou comigo para reivindicar a liderança da família. — O rosto de Shenmei se contorceu.

Loulan, porém, voltou a sorrir. — E ainda assim, dentro do clã, era a senhora quem mandava, não era, Mãe? A senhora entende que tipo de pessoas eram aqueles membros da família que se esforçaram tanto para bajulá-la?

Eram tolos, aceitavam subornos e desviavam dinheiro, mas viviam puxando o saco de Shenmei, sabendo que, se tivessem o favor dela, Shishou, o chefe nominal do clã, não diria nada. Afinal, ele era apenas um filho adotivo, um menino que tropeçou para dentro da família; por mais influência que tivesse na corte, dentro do clã seu poder era mínimo. Shenmei afastou sistematicamente qualquer um que dissesse algo de que ela não gostasse, até que, por fim, não restou nada que contivesse a podridão. E foi daí que nasceu um mal-entendido pernicioso.

Qual tinha sido a motivação por trás da expansão do palácio interno, por um lado, e do desvio de verbas do tesouro nacional, por outro? As duas coisas deviam ser vistas separadamente, não como obra exclusiva do clã Shi.

Loulan olhou para Jinshi e sorriu, pois percebeu que ele entendia o que ela queria dizer.

O comércio de escravos foi abolido com a ascensão do atual Imperador, sim, continuou na clandestinidade, mas foram as bases lançadas por Shishou e pela imperatriz reinante que permitiram que o sistema fosse encerrado com relativa facilidade. Agora Jinshi buscava algo que pudesse substituí-lo, à medida que o palácio interno encolhia novamente, e até nesse ponto o clã Shi conseguiu interferir.

— Todos sempre chamaram meu pai de tanuki, mas esquecem que tanukis são criaturas covardes. É porque sabem que, no fundo, são pequenos e fracos que se esforçam tanto para enganar todo mundo.

Com isso, Jinshi entendeu. Sabia por que Shishou morreu rindo: porque o tanuki covarde conseguiu enganar a todos até o último momento.

— O meu pai desempenhou bem o papel dele? Ele foi o vilão que precisava ser? — perguntou Loulan, um sorriso passando rapidamente pelo seu rosto.

Jinshi finalmente compreendeu o que Shishou pretendia. Ele buscou se tornar o mal necessário, reunindo toda a corrupção do país em um só lugar. Um papel que jamais seria recompensado, pelo qual nunca seria celebrado.

Jinshi fechou o punho com tanta força que as unhas cravaram na palma, fazendo o sangue brotar.

— Você tem alguma prova de que tudo isso é verdade?

— A corrupção que consumia a corte por dentro foi em grande parte eliminada, ou não foi?

— Como você poderia saber que seu plano daria certo?

— Se não desse, sempre poderíamos recorrer a um golpe de Estado. Se uma nação é fraca o bastante para ser arrastada por corrupção desse jeito, então é melhor que nem exista. — Loulan falou quase com indiferença.

— Vocês… vocês estavam planejando isso o tempo todo?! — exigiu Shenmei, a voz tremendo. — Você e ele... me enganaram esse tempo inteiro?!

— Enganar a senhora? Eu fiz exatamente o que a senhora mandou, Mãe. A senhora não disse que esta nação merecia virar pó? Então expulsou todos os membros do clã que não seguiam suas ordens e se cercou de bajuladores que acreditavam em cada palavra sua. A senhora realmente achou que um bando desses poderia derrotar o próprio exército do país?

Shenmei parecia furiosa com as palavras duras da filha. De repente, avançou sobre Loulan, e as proteções metálicas em suas unhas deixaram dois longos riscos vermelhos na lateral do rosto da filha.

— Não é para isso que isso serve? — exigiu Shenmei. Ela havia agarrado a feifa.

— Isso é mais do que a senhora consegue suportar, Mãe. Devolva, por favor.

— Fique quieta!

Mas Loulan apenas riu com deboche.

— O que é tão engraçado? — retrucou Shenmei.

— Mãe... A senhora soa como uma bandida de quinta categoria.

O rosto de Shenmei se distorceu horrivelmente, e ela disparou a arma. Jinshi se jogou no chão. Algo passou voando por ele, acompanhado de um estrondo ensurdecedor.

— Eu sou uma filha tão horrível. Se realmente quisesse a mesma coisa que o meu pai, nunca teria feito isso.

O rosto de Loulan estava marcado de sangue. Mas diante dela, Shenmei estava completamente coberta de sangue. Em sua mão restava o que sobrou da feifa que explodiu.

— Essas novas feifas são muito complicadas. Aquela era um protótipo. — Ela só a trouxe para intimidar Jinshi. Talvez estivesse apenas cheia de enchimento por dentro. — Nunca passou pela sua cabeça tirá-la de mim, Mestre Jinshi? Se estivesse procurando, teria tido inúmeras oportunidades.

— Presumi que você tinha algo que queria me contar.

— Hee hee! Se ao menos essa sua cabecinha bonita fosse tão vazia quanto parece. — Rindo (e sendo bastante rude), Loulan arrancou a feifa da mão ensanguentada de Shenmei e a jogou longe. Depois, deitou a mãe com cuidado, segurando sua mão trêmula. — Meu pai está morto. A senhora poderia ao menos derramar uma lágrima por ele. Ele esperou pela senhora a vida inteira. Se tivesse chorado... eu não teria dito o que disse.

Até que o antigo imperador fez seu pedido, Shishou permaneceu completamente casto, sem tomar sequer uma concubina. Era uma pureza que só podia ter sido sustentada por um homem cujo coração ainda batia exclusivamente pela mulher com quem fora prometido na juventude.

Shenmei não falou: ela não conseguia. Estilhaços de metal voaram e devastaram seu rosto na explosão. Não restava sombra alguma de sua antiga beleza, apenas um amontoado vermelho.

Suirei observava tudo tremendo.

— Devia haver outro jeito — disse Jinshi, levantando-se.

— Talvez — respondeu Loulan. — Mas é difícil dar a todos o que querem. Não somos sábios o bastante para isso.

Shenmei era simplesmente mesquinha. Queria destruir o país que a fez de tola. Já Shishou; tudo o que fez foi por causa de Shenmei. Mesmo que isso tenha se voltado contra ele, fez tudo por seus sentimentos por ela. E, ao mesmo tempo, era um servo leal incapaz de abandonar sua nação. E assim passou décadas e mais décadas desempenhando o papel de vilão, até o fim.

Jinshi não conseguia dizer o que Suirei estava pensando. Para ela, aquilo era sobre apaziguar os espíritos da mãe e da avó? E haveria algum alívio em seu olhar vazio ao se fixar em Shenmei, que lutava para respirar? Ou aquilo era apenas imaginação de Jinshi?

Quanto a Loulan...

— Sei que não estou em posição de exigir nada, mas talvez eu pudesse pedir dois favores?

— Quais são?

— Obrigada — disse primeiro, curvando-se profundamente. Sabia que não tinha motivo algum para esperar que Jinshi a ouvisse. Então tirou um pedaço de papel das dobras da roupa e o entregou a ele. Ele prendeu a respiração ao ver o que estava escrito, porque era algo inimaginável.

— Na verdade, eu esperava usar isso para negociar minha vida. Mas acho que agora não me levaria muito longe. Esse papel revela o que vai acontecer com este país. Se o clã Shi ainda existisse quando isso ocorresse, poderia piorar a situação e destruir a nação.

No pedaço de papel estava a previsão de algo muito pior do que aquela rebelião.

Os dedos de Loulan roçaram a pele de sua mãe. A respiração de Shenmei enfraquecia rapidamente.

— Qualquer membro do nosso clã com um pingo de juízo abandonou o nome Shi há muito tempo. E minha irmã mais velha fez o mesmo. Eles já morreram uma vez... então talvez eu possa pedir que o senhor os ignore.

Houve um breve silêncio. — Farei o que puder — disse Jinshi.

— Então vai deixar os “mortos” em paz? — Loulan repetiu, buscando confirmação. — Agradeço por isso.

Suirei, por ter ligação com o antigo imperador, não podia simplesmente ser ignorada.

— Muito obrigada. — Loulan inclinou a cabeça mais uma vez e pegou a mão de Shenmei. As unhas deformadas ainda estavam presas a ela, por um fio. Loulan as encaixou nas próprias pontas dos dedos.

No mesmo instante, Jinshi teve a sensação de que alguém se aproximava. Basen e os outros finalmente perceberam que ele estava desaparecido e, depois de algum tempo, conseguiram encontrar a passagem secreta. Loulan teria notado que eles estavam vindo?

— Meu segundo desejo, então. — Ela estendeu a mão na direção de Jinshi, avançando lentamente com os dedos decorados pelas longas unhas metálicas. Ela parecia estar se movendo em câmera lenta. Ele poderia ter se esquivado com facilidade, se quisesse. E ainda assim, Jinshi não se mexeu, mas aceitou.

A ponta cruel da unha cravou-se em sua bochecha, rasgando a pele e a carne. Algumas gotas de sangue respingaram em seu olho; ele o fechou com força, mas, com o outro aberto, fitou Loulan.

— Muito obrigada — ela repetiu, curvando-se pela terceira vez. Ela fez o que sua mãe, incapaz de escapar da morte, não teve chance de fazer, e marcou o rosto que Shenmei tanto detestava. Agora podia parecer um ato inútil, mas selava o destino de Loulan.

— Será que eu poderia ser uma atriz ainda melhor que meu pai? — comentou, e então se virou para Shenmei. — Querida mãe, fiz tudo o que podia. — Ainda sorrindo, abriu a porta diante deles, revelando a neve soprando lá fora. Estavam no telhado da fortaleza. Loulan rodopiou para fora, mangas ondulando, cabelos negros esvoaçando; os flocos dançantes a cercaram.

Basen e os outros estavam no corredor estreito, esperando o momento certo. Basen, com os olhos cheios de fúria, avançou sem compreender direito o que havia acontecido. Quando Loulan teve certeza de que ele estava no aposento, ergueu bem alto os dedos com as unhas longas. Mesmo sob a fraca luz da lua, era possível ver o sangue nelas. Loulan, com o rosto marcado por respingos vermelhos, parecia quase flutuar sobre a neve. E atrás dela estava Jinshi, com um corte recente na bochecha.

De repente, Loulan começou a rir, alto e prolongado. 

— Ahhh ha ha ha ha ha ha ha!

Sua voz ecoou sobre a neve. Soava selvagem, mas, ao menos em seus olhos, ainda havia lucidez.

Os rostos de Basen e de seus companheiros se contorceram em pura fúria.

A luz já havia se apagado nos olhos de Shenmei. Só se podia pensar que ela colheu o que plantou.

Suirei, ainda tremendo, estendeu a mão, mas não conseguiu alcançar Loulan.

Jinshi nada pôde fazer além de assistir aos últimos momentos dela, segurando o pedaço de papel que ela tinha lhe entregado.

Na neve, suas mangas batiam ao vento e seus cabelos chicoteavam o ar. Seu riso de repente foi acompanhado pelo estampido de tiros. Loulan continuou dançando enquanto as balas roçavam suas mangas e arranhavam sua bochecha. Então Jinshi teve certeza: aquele era o palco dela. E todos ao redor eram apenas coadjuvantes arrastados para sua encenação.

O palácio interno era um palco, o próprio país também, e talvez ela se visse como a vilã destinada a subvertê-los. Se seu pai, Shishou, era um tanuki, então talvez Loulan fosse uma raposa. Afinal, nas histórias, a vilã que levava um país à ruína sempre acabava sendo uma raposa sedutora.

Loulan continuou a dançar com leveza. Como conseguia se mover com tanta delicadeza em meio à neve profunda? Os soldados, surpreendidos, estavam mais preocupados em disparar suas feifas do que em persegui-la.

Ele deveria tê-la impedido?

Não, não podia.

Não podia estragar a performance da grande vilã de sua era. Nem sequer conseguia desviar os olhos.

Mais um disparo. Quantos já tinham sido?

Houve um baque, e Loulan parou de se mover. O cheiro inconfundível de pólvora queimando se espalhou pelo ar.

A bala a atingiu no peito. Ela cambaleou para trás, a dor se espalhando pelo seu rosto.

— Prendam-na! — gritou Basen para seus homens. A ideia pareceu repulsiva para Jinshi. Não era algo errado a se fazer. Mas era como se alguém tivesse contado o final de uma história que ele estava apreciando antes que ele mesmo chegasse a ele.

O sorriso voltou ao rosto contorcido de Loulan. Então desapareceu...

Não, apenas pareceu desaparecer. Ela tombou para trás, e não havia nada atrás dela. Exceto a queda do telhado.

Foi a última vez que Jinshi viu Loulan.

[Kessel: Senhoras e senhores, o show da melhor personagem dessa obra. Fantástica, como sempre!]

Seu corpo parecia absurdamente pesado, como se todo o cansaço dos últimos dias tivesse finalmente cobrado seu preço.

Assim que saíram da fortaleza, juntaram-se a uma unidade de reserva, e ele recebeu os primeiros socorros; alguém costurava o corte em sua bochecha. Era ele quem estava sendo suturado, então por que todos os outros pareciam sentir mais dor do que ele? Seria porque ele recusou anestesia?

Finalmente eles reencontraram Gaoshun, que imediatamente disse a Jinshi para dormir. Claro que Gaoshun estava ali, a versão oficial era que Jinshi estava com a retaguarda o tempo todo, então Gaoshun precisava ser visto lá.

Para falar a verdade, só agora Jinshi percebia que realmente não dormiu nos últimos dias.

— Como está a garota?

— Ela está bem, então vá dormir.

Ele parecia tão cansado assim? Talvez sim, mas não conseguia se permitir descansar. Gaoshun, claramente farto da teimosia de Jinshi, apontou para uma carruagem. — Eu recomendo que mantenha distância.

Jinshi o ignorou prontamente e entrou no veículo. Lá dentro encontrou uma jovem pequena, manchada de fuligem e salpicada de sangue, dormindo sobre várias mantas. Estava encolhida como um bebê, o que a fazia parecer ainda menor do que já era. Ao seu redor havia vários volumes embrulhados em panos brancos.

— As crianças mortas do clã Shi — explicou Gaoshun.

— Por que ela está dormindo com elas?

— Você sabe que é impossível fazê-la mudar de ideia quando ela coloca algo na cabeça.

Ele tinha razão; aquela jovem, Maomao, era teimosa de um jeito muito particular. Haveria algum motivo para ela querer estar ali?

— Ela está péssima.

— Olhe para si mesmo, senhor — disse Gaoshun, fazendo uma careta.

Doía em Jinshi lembrar da cena de Gaoshun espancando Basen depois que retornaram. Jinshi estava ferido, sim, e sabia que um soldado que falha em seu dever precisa ser punido, mas aquilo só aconteceu porque ele atendeu ao desejo daquela raposa que agora havia desaparecido.

— Esqueça de mim — disse de forma brusca. — De qualquer forma, você fez a escolha certa ao não deixar o estrategista vê-la. — Pelo que Jinshi soube, o homem não teve um pouso muito elegante ao saltar da carruagem e machucou as costas. Não conseguia dar um passo sozinho.

Jinshi subiu na carruagem. — Espere do lado de fora. — Gaoshun assentiu lentamente.

Jinshi observou o rosto de Maomao. Havia sangue nele, e sua orelha esquerda estava inchada, embora coberta por uma pomada. Nada daquilo teria acontecido com Maomao se ela nunca tivesse se envolvido com ele. O pensamento fez seu peito apertar.

Fora a orelha, ela não tinha ferimentos aparentes, mas ele notou um hematoma escuro em seu pescoço. Alguém a atingiu? E aquele sangue, devia ter vindo de algum lugar.

Lentamente, Jinshi estendeu a mão. E então…

— Com licença, Mestre Jinshi, mas posso perguntar o que o senhor está fazendo? 

Maomao olhou para ele como quem tenta espantar uma mosca irritante.


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