Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: noelletokito


Volume 4

Capítulo 4: Os Novos Eunucos

No consultório médico, Maomao, a gatinha, estava enrolada na perna do charlatão, implorando por um peixe. Como de costume, o consultório estava aberto, mas estranhamente vazio. Maomao (não a gatinha) estava ali pesquisando ervas que pudessem servir como anestésicos.

Assim que retornou ao palácio interno, ela perguntou ao médico sobre o procedimento para fazer eunucos. Ela havia aprendido um pouco com seu pai, mas não o suficiente. Esperava aprender mais com o charlatão, mas, como era de se esperar, ele não conseguiu lhe dizer nada que seu pai já não soubesse.

— De novo com isso, mocinha? — perguntou ele. Seus lábios estavam franzidos e ele tinha uma expressão abatida.

Maomao (a gatinha) conseguiu facilmente derrubar o peixe da mão dele e roubá-lo. Talvez graças à sua dieta melhorada, sua pelagem tenha ficado brilhante; daria uma escova maravilhosa, mas até então Gaoshun e o médico haviam impedido Maomao de arrancar qualquer pelo da gatinha.

— Já não se fazem mais eunucos. Não há necessidade de aprender a fazer isso. — Sua expressão tornou-se distante. Deve ter sido terrivelmente doloroso.

Maomao pensou em algo. — Como os eunucos entram no palácio interno? — perguntou ela.

O médico balançou um talo de rabo-de-raposa para a gatinha arranhar enquanto respondia: — Como? Bem, eles se submetem à cirurgia para se tornarem eunucos.

— Não, não é isso que eu quero dizer — Ela queria saber como se confirmava que eles eram, de fato, eunucos. 

— Antigamente, eles deixavam você entrar se tivesse um comprovante por escrito de que havia feito a cirurgia. Mas agora… — O charlatão corou e baixou a cabeça, um pouco envergonhado. Ele agia quase tão ingênuo quanto Lishu. — Hoje em dia eles, hum, apalpam. Para ver se tem alguma coisa lá ou não.

— Eles agarram para conferir?

— Que pergunta, senhorita! — disse o médico, exasperado. Essas inspeções não eram comuns antigamente, mas havia muitos casos de pessoas tentando se passar por eunucos, e por isso as verificações foram implementadas. — As pessoas falsificavam os documentos ou conseguiam procurações. Algumas pessoas fazem qualquer coisa por algumas moedas.

As inspeções são conduzidas por três oficiais, cada um representando um departamento diferente do governo. Antes, segundo o médico, faziam inspeções visuais nos candidatos a entrar no palácio interno, mas alguns oficiais se sentiam extremamente desconfortáveis com o processo, e ele acabou sendo abolido. 

Hã? Maomao inclinou a cabeça, curiosa. — Eles só fazem essa inspeção na primeira vez que um eunuco entra no palácio interno?

— Não, em princípio, toda vez que você chega. Mas, depois que eles te reconhecem, geralmente te deixam passar.

Maomao não disse nada de imediato, mas continuou a inclinar a cabeça para o lado enquanto olhava para as ervas anestésicas. Talvez... Mas balançou a cabeça negativamente. O médico, entretanto, desviou o olhar da gatinha e mudou de assunto. Mais ou menos. 

— Falando em eunucos, sabia que alguns novatos se juntaram a nós?

— Eu ouvi rumores.

— Sim, homens mais jovens pela primeira vez em muito tempo. Acho que estão sendo uma grande distração! — Ele tocou seu bigode ralo de peixe e suspirou. Normalmente, tornar-se eunuco fazia com que um homem perdesse quaisquer traços específicos de masculinidade, mas em alguns casos, como o do charlatão, um bigode ou algo parecido podia permanecer. Talvez fosse a única fonte de orgulho do médico.

As mulheres jovens, especialmente as mais inocentes, costumavam ser muito exigentes com a higiene. Preferiam os eunucos, com sua aparência quase neutra em termos de gênero, a homens com excesso de pelos no corpo ou comportamento intimidador.

— Desta vez, o alvoroço é ainda maior porque há muitos bonitos — continuou o médico. — Por enquanto, eles ainda estão nos bastidores, então está tudo bem, mas se um deles se mostrar capaz o suficiente para ser promovido a um cargo superior, isso pode ser um problema sério. Espero que as coisas se acalmem antes disso. — Engraçado como o charlatão parecia não se importar com nada disso, quando era ele quem ficava apreensivo toda vez que Jinshi estava por perto. Além disso, se ele já podia comentar sobre a aparência dos eunucos, devia tê-los visto logo depois do exame.

— Ouvi dizer que houve um grande alvoroço quando uma das concubinas de baixo escalão se interessou demais por um dos novos eunucos enquanto ele aquecia os banhos.

— Hum. Suponho que tal comportamento não possa ser ignorado — disse Maomao. As concubinas de baixo escalão raramente tinham esperança de atrair a atenção do Imperador. Não era incomum encontrar uma mulher insatisfeita nos seus aposentos do palácio interno. Sem dúvida, havia algumas damas da corte que haviam tido amantes eunucos.

Que vida difícil, pensou Maomao enquanto começava a limpar as ervas.

○●○

— Quando você vai contar para ela?

Era a enésima vez que ele perguntava. Jinshi lançou um olhar fulminante para seu assistente. — No momento certo.

— Ah, sim! ‘No momento certo.’ Claro. — Gaoshun estava parado ao lado da mesa no escritório de Jinshi, fingindo-se impassível. Bem, sua testa estava franzida, mas isso era típico dele. — Eu entendo o quão nervoso você está, mas você está demonstrando isso de forma um pouco exagerada, e está piorando as coisas.

— ...Com qualquer outra dama da corte, isso seria suficiente.

— Xiaomao parecia estar olhando para um caracol que havia perdido a concha! — Em outras palavras, uma lesma?

— Chega disso — resmungou Jinshi. Ele olhou para os papéis, separou-os entre os viáveis ​​e os inviáveis ​​e começou a aplicar seu selo.

Não havia mais ninguém no escritório. O soldado de guarda do lado de fora provavelmente estava bocejando. O local era estrategicamente posicionado para que soubessem assim que alguém se aproximasse. Somente em tais circunstâncias Gaoshun lhe falaria sobre um assunto como esse.

— Eu sei. — Jinshi bateu o selo na mesa e passou o maço de papéis para Gaoshun. O outro os aceitou sem dizer uma palavra, endireitou-os e os colocou em uma cesta que um subordinado levaria embora.

— Você precisa tomar sua decisão logo, ou isso vai te assombrar no futuro — disse Gaoshun.

— Tem certeza de que não é melhor assim?

Jinshi sabia perfeitamente o que Gaoshun estava pensando. Ele estava sugerindo que Jinshi trouxesse a apotecária, Maomao, completamente  pra o seu círculo. Ou seja...

— Isso faria o estrategista sair da toca, posso lhe garantir — acrescentou Jinshi. Ele já conseguia imaginar: o homem de monóculo se intrometendo. Ele era louco pela filhinha. E era uma incógnita, alguém que até o Imperador precisava vigiar.

— Então, combata o veneno com veneno, por assim dizer — disse Gaoshun calmamente.

Lakan, “o estrategista”, ocupava uma posição singular dentro do palácio. Embora oficialmente detivesse o título de Grande Comandante, não pertencia a nenhuma facção específica, não havia formado nenhuma nova facção e vagava de um lado para o outro, sem rumo definido. Era o prego que se destacava, e normalmente já teria sido martelado há muito tempo, mas isso não acontecia.

O homem que recuperou sua herança de seu pai e meio-irmão mais de dez anos antes, para agora liderar o clã La, era um guerreiro à altura do nome. Seu gênio extraordinário o impulsionou a uma ascensão meteórica na hierarquia. Muitos, sem dúvida, o consideravam um estorvo, e alguns, diziam as más línguas, tentaram derrubá-lo do poder. Mas foi Lakan quem sobreviveu. Ele fez mais do que queimar aqueles que tentaram detê-lo; um homem chegou a perder sua família inteira, teoricamente, “desaparecidos”. O mais assustador era que nem a posição social nem o sangue nobre intimidavam Lakan.

Era impossível saber o que se passava na cabeça daquele homem. Mas ele conseguia ver coisas que os outros não viam e usá-las para escrever um roteiro que arrastava seus oponentes para o fundo do poço.

Existia, portanto, um entendimento tácito entre os habitantes do palácio de que não se devia ter qualquer contato com Lakan, a menos que fosse estritamente necessário. Se você não o prejudicasse, ele não o prejudicaria. Mas não ter nada a ver com ele também significava não torná-lo seu aliado.

— Todos os meus papéis ficariam cobertos de gordura — disse Jinshi, lembrando-se de como Lakan não hesitava em comer salgadinhos gordurosos em seu escritório.

— Teríamos que conviver com isso — disse Gaoshun, franzindo ainda mais a testa. Para ser sincero, ele não estava muito entusiasmado com o método, mas ainda assim queria contar a verdade a Maomao. Ignorar a linhagem e deixá-la saber o que realmente estava acontecendo. Por que ela e eles estavam naquela situação e por que tiveram que esconder tudo. Sim, ele queria que ela soubesse a verdade. Mas, ao mesmo tempo, estava um pouco apavorado com a possibilidade de sua reação.

Jinshi soltou um longo suspiro e decidiu começar sua próxima tarefa. Era um trabalho nos bastidores do palácio, pedidos escritos submetidos pelas concubinas ao senhor do local.

— Parece haver muitos deles hoje em dia.

— Sim — disse Gaoshun. — O de sempre, presumo. Talvez junto com itens relacionados aos acontecimentos do outro dia.

Os lacres já estavam rompidos. Ele, ou talvez outro funcionário, já deve tê-los verificado uma vez.

Jinshi abriu a primeira carta e deu uma olhada rápida, depois pegou a segunda. Enquanto olhava para uma terceira e depois para uma quarta, foi se acomodando gradualmente na cadeira, até que se viu olhando para o teto, pressionando o ponto abaixo dos olhos.

Boa parte do material dizia respeito a apenas uma das quatro concubinas de alto escalão, Loulan. As queixas eram variadas: ela tinha muitas damas de companhia em comparação com as outras concubinas. Suas roupas eram muito extravagantes e poluíam a paisagem do palácio. Eram queixas comuns, motivadas em grande parte por inveja. Nada de novo.

Além disso, houve relatos de que algumas damas da corte estavam olhando para os novos eunucos com intenções românticas.

— Eu já esperava por isso — murmurou Jinshi. 

— Sim, senhor.

Os eunucos recém-chegados foram todos designados para trabalhos nos bastidores: aquecer a água do banho, lavar a roupa e outras tarefas que exigiam principalmente força física. O número de eunucos havia diminuído proporcionalmente ao número de damas da corte, então o trabalho braçal era considerado prioritário em suas tarefas. Se algum deles demonstrasse alguma aptidão especial, poderia ser transferido posteriormente para algum departamento que pudesse utilizar suas habilidades, mas essas pessoas haviam sido escravas de tribos bárbaras; era preciso cautela. Quanto às mulheres, seu fervor diminuiria com o tempo, mas, por uma questão de formalidade, ele teria que ficar de olho na situação por enquanto.

— Que dor de cabeça.

— A vida continua, senhor.

Foi através de muitas conversas como essa que Jinshi terminou sua papelada.

Assim, Jinshi chegou ao palácio interno no dia seguinte para observar os novos eunucos.

Ele perguntou à pessoa que supervisionava as tarefas diárias no palácio interno como estavam os recém-chegados, afinal, aquecer a água do banho e lavar a roupa exigiam água de poço. Enquanto conversavam, Jinshi olhou ao redor.

Ele viu cinco pessoas que supôs serem os recém-chegados; como ainda não haviam sido designados a um departamento específico, todos usavam faixas brancas. Eram mais jovens que os outros eunucos, mas seus rostos estavam abatidos, talvez indicando o tempo que passaram na escravidão. Pareciam retraídos, talvez também um legado de sua estadia com as tribos. O modo como se moviam apressadamente, com medo, sugeria que haviam estado sob o jugo dos bárbaros por muito tempo.

Jinshi e o atual Imperador concordavam em reduzir o número de funcionários do palácio interno, mas esse era outro aspecto da questão. Essas pessoas, tendo sido castradas e escravizadas, precisam de algum tempo para se readaptar à liberdade. De certa forma, tê-las servindo no palácio interno era a melhor maneira de ajudá-las nessa adaptação.

Enquanto os observava, Jinshi compreendeu a raiz do problema. Um dos recém-chegados tinha um rosto verdadeiramente encantador. Parecia neutro em termos de gênero, como era comum em rostos de eunucos, mas as bochechas encovadas lhe conferiam um toque galante. Contudo, o eunuco parecia evitar usar a mão esquerda em seu trabalho.

— O que há de errado com ele? — perguntou Jinshi.

— Aparentemente, ele foi espancado brutalmente, a ponto de causar paralisia no lado esquerdo do corpo. — Disseram também que ele ficou com cicatrizes horríveis, por isso tentava mostrar o mínimo de pele possível.

— Entendo… — Encher a água dos banhos não seria a melhor tarefa para ele, então. Ele era mais fraco que os outros eunucos e, portanto, mais lento no trabalho. Além disso, a tendência de seu rosto atrair admiradores o torna inadequado para trabalhar no populoso quarteirão sul. — Mas ele é bem popular, não é?

— Sim. Ele é muito inteligente e extremamente atencioso com as mulheres.

Ao longe, eles puderam ver algumas damas da corte conversando. Gaoshun olhou fixamente para Jinshi.

— Que foi?

— Olha quem fala — disse ele com certo incômodo.

De fato, Jinshi havia atraído sua galeria habitual. Elas voltaram seus olhares mais encantadores para ele; ele sorriu de volta para elas, mas caminhou até o eunuco com a expressão mais profissional que conseguiu demonstrar.

Ao se aproximar dos recém-chegados, os eunucos mais experientes os cutucaram gentilmente, e eles entenderam o recado e inclinaram a cabeça. Seus braços, onde se projetavam das mangas, pareciam maltratados. Jinshi viu vergões que presumiu serem resultado de chicotadas. Ele podia perfeitamente entender por que eles desejavam se cobrir.

Mesmo enquanto observava tudo aquilo, Jinshi sabia que não podia demonstrar nenhuma reação óbvia. Ele simplesmente fez uma breve exortação aos novos eunucos para que trabalhassem duro e garantiu-lhes que, se o fizessem, poderiam ascender socialmente. Estava prestes a partir quando houve um estrondo.

Ele se virou na direção do som, curioso para saber o que poderia ser. Uma dama da corte estava parada ali, pálida e com uma expressão atônita. Um eunuco furioso gritava com ela. Ao lado deles, havia uma carroça tombada, com seu conteúdo, gelo precioso, acolchoado com juncos e tecido, espalhado pelo chão.

Presumivelmente, o gelo se destinava a uma das concubinas. Os estoques nas câmaras de gelo estavam diminuindo nessa época, tornando um recurso já escasso ainda mais valioso.

Jinshi achou que reconheceu a jovem aterrorizada. Enquanto ainda tentava se lembrar de onde a conhecia, outra mulher se aproximou correndo. Outra mulher familiar, pequena e distante.

Ah, então a jovem era amiga de Maomao. Devia ser por isso que ela lhe parecia familiar. Ele não tinha muita certeza do que fazer, então decidiu começar observando como as coisas se desenrolaria.


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