Volume 4
Capítulo 3: O Fantasma Dançante
Seki-u pareceu muito chateada ao perceber que a jovem que se retirava era uma das concubinas de alto escalão. Mas, uma vez que Maomao ouviu a história, teria sido impossível impedi-la de se envolver nela.
E assim, na noite seguinte, Hongniang disse a Maomao: — O senhor Jinshi está chamando por você — A degustação de comida havia terminado; Maomao, que estava tomando seu mingau de arroz, rapidamente limpou sua tigela. Seki-u, que estava comendo com ela, franziu a testa, mas não chegou a dizer nada.
No dia anterior, durante os banhos, Maomao havia recomendado que a concubina Lishu consultasse Jinshi sobre o fantasma. Maomao não podia aconselhá-la diretamente sobre o assunto, principalmente porque a expressão no rosto de Seki-u dizia que ela jamais permitiria. Mas Maomao sabia que, se Lishu perguntasse a Jinshi sobre isso, havia grandes chances de que o assunto fosse encaminhado a ela. E agora parece que ela estava certa...
Eu não planejei tudo isso em detalhes.
Maomao sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ser conduzida para a sala de estar. Gyokuyou estava lá junto com Hongniang, assim como Jinshi e Gaoshun. Jinshi ostentava seu habitual sorriso angelical, mas ela achou que podia ver sua boca se contraindo. Tudo o que ela conseguiu pensar foi: droga.
Durante a expedição de caça com Jinshi, pouco tempo antes, Maomao descobriu um terrível segredo. Todos os homens no palácio interno, com exceção do Imperador, deveriam ser eunucos, mas ela descobriu que um deles não era. O próprio Jinshi. Digamos apenas que ele possuía um exemplar bastante impressionante. Maomao não estava interessada em se lembrar de nada além disso.
Maomao finalmente conseguiu seus bezoares de boi e teria ficado feliz em fingir que nada mais tinha acontecido, mas Jinshi parecia ter outros planos. Era a primeira vez que se viam de verdade desde a viagem, e embora seus lábios estivessem sorrindo, seus olhos não.
— Hehehe. E que tipo de pedido o traz aqui hoje? — perguntou a concubina Gyokuyou, sorrindo. Sua curiosidade natural a fazia querer se intrometer em todos os assuntos que Jinshi trazia a Maomao. Este caso em particular, porém, tinha a ver com a concubina Lishu. Como Jinshi abordaria o assunto?
— Parece que um fantasma apareceu nos aposentos de uma das outras concubinas.
— Minha Nossa! — exclamou a concubina de cabelos vermelhos, mas seus olhos brilhavam. Ao lado dela, Hongniang pressionava a mão na testa como quem diz: "de novo?".
Maomao não pôde deixar de notar que Jinshi tinha ido direto ao ponto. Ela apreciou que ele não estivesse enrolando, mas Gyokuyou era perspicaz o suficiente para quase certamente deduzir de quem ele estava se referindo.
— Que terrível. Qual concubina é? Preciso visitá-la para me certificar de que ela esteja bem.
— Lady Gyokuyou, você não pode sair no seu estado atual.
— Ah, não? Então talvez eu possa enviar alguém em meu nome. Você e Maomao poderiam ir juntas. Ou, se você estiver ocupada, talvez eu possa enviar Yinghua com ela.
“Certificar-se de que ela estava bem" era provavelmente a última coisa na mente de Gyokuyou; ela só queria os detalhes picantes. Não fazia sentido esconder a identidade de Lishu agora; a verdade viria à tona assim que Seki-u abrisse a boca.
Jinshi devia saber disso, mas talvez por algum desejo de se vingar de Gyokuyou, ele respondeu:
— Concubina Gyokuyou, este é um assunto de absoluto sigilo, portanto, peço-lhe que não a visite nem envie ninguém. Sendo assim, poderia devolvê-la a mim?
— Talvez eu possa emprestá-la a você.
O objetivo de toda essa troca de presentes era, claro, Maomao. Ela, Gaoshun e Hongniang suspiraram ao mesmo tempo: será que iriam presenciar uma repetição da última vez?
— Não, eu quero que você a devolva para mim: essa garota aqui! Maomao! — Jinshi parou em frente a Maomao e pressionou um dedo em sua cabeça. Em seguida, deixou-o deslizar pelos cabelos dela. — E quando ela voltar, acredito que você não conseguirá nenhuma informação dela — Sua mão roçou a bochecha dela, o dedo mínimo e o anelar deslizando sobre seus lábios. — Porque me vou me esforçar para mantê-la em silêncio.
Então ele saiu da sala, caminhando com uma elegância impossível. Gaoshun, visivelmente chocado, o seguiu. As outras ocupantes da sala olharam para Maomao boquiabertas, mas ela tinha uma expressão muito parecida com a delas.
Foi Gyokuyou quem se recuperou primeiro. — O que aconteceu entre vocês dois? — Seu olhar, ainda atordoado, fixou-se em Maomao, que achou o olhar dolorosamente constrangedor.
Gyokuyou a interrogou pelos próximos trinta minutos, mas Maomao apenas dizia: — A culpa foi do sapo — Ela começava a pensar que alguns bezoares de boi tinham sido um preço muito baixo para um segredo que teria que levar para o túmulo.
Maomao se perguntava que tipo de aparição era aquele “fantasma”. Para ser sincera, ela não acreditava nessas coisas. Houve o incidente na reunião de histórias de terror há algum tempo, mas Maomao não fazia ideia se havia algo de sobrenatural nisso. Yinghua, no entanto, estava convencida de que tinha sido um fantasma, e Maomao não contestou.
Chame-os de espíritos ou o que quiser; não importava. Maomao não acreditava que as pessoas pudessem ser mortas por forças sobrenaturais malignas. Quando alguém morria, sempre havia uma razão: veneno, ferimento ou doença. Ao ponto de que, se uma "maldição" ou algo semelhante alguma vez realmente matou alguém, na visão de Maomao, foi apenas porque a pessoa adoeceu por acreditar ser vítima de tais forças.
De qualquer forma, Maomao acabou acompanhando Jinshi até o Pavilhão Diamante. Pessoalmente, ela achava que aquilo não era necessariamente algo que justificasse a atenção pessoal dele, que talvez Gaoshun ou alguém do mesmo nível pudesse ter resolvido a situação perfeitamente bem, mas talvez ela estivesse enganada.
Quando chegaram ao Pavilhão Diamante, em meio aos bosques de bambus, foi apenas a chefe das damas de companhia que os recebeu. Mas ao perceberem a presença de Jinshi, as outras damas prontamente sacudiram a poeira de suas roupas, passaram os dedos pelos cabelos e formaram uma fila na entrada do pavilhão.
Jinshi olhou para elas com um sorriso. Maomao sentiu uma carranca desagradável se aproximando, mas Gaoshun a encarou com o olhar de um bodhisattva. Ele sabia muito bem que Jinshi não estava bem desde que eles voltaram da caçada. Ele a bombardeou com perguntas sobre isso, mas ela não tinha certeza do quanto deveria dizer e só deu respostas ambíguas. Será que Gaoshun sabia que Jinshi não era um eunuco? Será que ele próprio era mais uma exceção à regra?
Convencida de que pensar em tudo aquilo não a levaria a lugar nenhum, Maomao simplesmente os seguiu até o Pavilhão Diamante.
A concubina Lishu era surpreendentemente fácil de decifrar: seu rosto estava pálido quando chegaram, mas ao ver Jinshi, corou imediatamente; e então, quando chegaram ao assunto principal, o sangue sumiu de suas bochechas novamente. Ela podia não ser a senhora que a Maomao serve, mas ainda assim era um tanto alarmante perceber que alguém como ela era uma das quatro concubinas mais importantes.
Suponho que esse possa ser um dos motivos pelos quais Sua Majestade não a escolheu como companheira de cama, pensou Maomao. Ela se encantou com a imagem do Imperador como um homem atencioso e perspicaz, mas então concluiu que provavelmente era porque o tamanho dos seios não despertava seu apetite. Lishu estava ainda mais longe dos noventa centímetros preferidos de Sua Majestade do que a própria Maomao.
— Por aqui, por favor. — A chefe das damas de companhia falou em nome de sua pálida patroa. Uma verdadeira multidão de outras damas de companhia as seguia, mas seu principal objetivo parecia ser Jinshi; para ser franco, elas atrapalhavam. Para usar uma metáfora, poderíamos dizer que era como uma bela flor rodeada por uma multidão de borboletas. Mas as damas de companhia eram muito mais barulhentas do que borboletas, e o efeito geral era mais parecido com uma nuvem de moscas zumbindo ao redor da cabeça de um peixe.
Se elas soubessem que ele não é um eunuco…
Ugh. Maomao nem queria pensar nisso.
Enquanto ela pensava que ele devia se apressar e cortar logo (uma ideia nada elegante, é verdade), eles chegaram à área de banho. Jinshi e os outros eunucos pararam por um instante, mas eram sempre os eunucos que traziam a água quente para o banho, então certamente não havia problema.
[Kessel: A Maomao querendo cortar o sapo dele fora… kkkkkkk]
— Aqui. — A chefe das damas de companhia parou diante do vestiário; a concubina Lishu estava a certa distância, com receio de se aproximar demais. — A concubina disse que estava aqui quando viu uma figura misteriosa — Ela gesticulou na direção da janela do vestiário. Não havia nada além, apenas uma parede lisa: um depósito podia ser visto através da janela. Normalmente, a janela estaria coberta por uma tela de bambu, mas por acaso estava aberta e a concubina havia dado uma espiada por ela.
— Pode descrever a figura para mim? — Maomao olhou para Lishu, que segurava a saia com força e olhava para o chão. Ela parecia tão jovem. Não tinha nenhuma autoridade que, normalmente, se associava a uma concubina.
— Ainda está falando disso? — perguntou uma das damas de companhia, com uma voz anasalada, evidentemente inspirada pela postura acovardada de sua senhora. — A senhora está desesperada para chamar a atenção, Lady Lishu. Tenho certeza de que não é nada com que se preocupar. A senhora deve ter visto coisas.
A mulher deu um passo à frente com ar de importância, lançando um olhar sedutor para Jinshi, só para garantir. Ela era bonita, as mulheres do palácio interno eram, quase por definição, mas havia um brilho perigoso em seus olhos, acentuado pelo delineador.
— Eu diria que é dever da chefe das damas de companhia repreender sua senhora por tal comportamento — disse a mulher, balançando a cabeça e suspirando. As outras damas de companhia se aglomeraram ao seu redor como se estivessem literalmente formando uma fila atrás dela. A chefe das damas de companhia pareceu se encolher.
Ahá, pensou Maomao. A mulher arrogante devia ser a antiga chefe das damas de companhia. Ter sido rebaixada em favor da provadora de comida, deve ter irritado-a bastante. Provavelmente a provocava assim todos os dias.
Jinshi, que sem dúvida deduzia isso tão bem quanto Maomao, sorriu e deu um passo em direção à dama presunçosa. — Você fala com razão — disse ele. — Mas meu dever é ouvir quando uma concubina tem algo a dizer. Imploro que não me tire a oportunidade de cumprir esse dever.
Sua voz era doce como néctar, e as damas de companhia apenas assentiram em concordância com tudo o que ele dizia. A maioria das damas do palácio interno era, digamos, inexperiente com homens, o que tornava suas reações a ele divertidamente fáceis de decifrar. Então Jinshi acrescentou suavemente que desejava tomar um chá, uma estratégia eficaz para esvaziar o salão. As damas de companhia praticamente se atropelaram para preparar a bebida. Na verdade, outra dama de companhia já havia preparado o chá há muito tempo, mas elas não sabiam disso. Ele realmente sabia como fazer seu trabalho.
— Agora, minha senhora, poderia ter a gentileza de me dizer o que lhe preocupa?
Assim apaziguada por Jinshi, a concubina Lishu deitou-se em seu sofá e finalmente começou a falar.
○●○
Fui tomar banho como de costume. Pessoalmente, prefiro água morna, mas minhas damas de companhia sempre a esquentam bastante, então tomo banho um pouco tarde, para dar tempo da água esfriar.
Ultimamente, tenho tido a impressão de que minhas damas de companhia não gostam muito de mim. Mas pelo menos não reclamam de eu tomar banho sozinha, o que é um hábito meu desde os tempos do convento. Só sou acompanhada quando troco de roupa, onde conto com a ajuda de Kanan, quer dizer, minha chefe das damas de companhia.
Aconteceu quando terminei o banho e fui para o vestiário. Senti um pouco de calor enquanto me secava, então levantei a cortina. A janela estava fechada, então não entrava muito ar. Mas então vi um lampejo. A princípio, pensei que fosse a cortina batendo com a brisa, mas não. Eu tinha fechado a janela antes de entrar na banheira, então não deveria haver nenhuma brisa. Mesmo assim, ela estava batendo.
Então olhei para o lado e vi: um rosto grande e redondo flutuando ali, tremeluzindo e dançando, usando a cortina como um manto.
O rosto estava sorrindo. E o tempo todo, olhava diretamente para mim.
○●○
A própria lembrança era claramente assustadora, pois Lishu se abraçou e tremeu enquanto estava deitada no sofá. Kanan massageou seus ombros suavemente.
Nossa, e ela costumava ser tão má com ela. Então as pessoas realmente podem mudar, refletiu Maomao enquanto tomava um gole de chá. O chá que Jinshi havia pedido mais cedo ainda não tinha chegado; parecia haver uma discussão sobre quem teria o privilégio de trazê-lo para ele.
Havia biscoitos de amêndoa para acompanhar o chá, um lanche bastante cosmopolita. Eram crocantes e pareciam durar bem, então Maomao ficava olhando para Kanan, imaginando se conseguiria convencê-la a pegar alguns como lembrança.
— Você não acha que poderia haver alguém por perto? — perguntou Jinshi. — Talvez tenha visto uma dama do palácio e a confundido com um espírito?
Lishu e Kanan balançaram a cabeça negativamente. — Kanan estava comigo — disse Lishu.
— Ela veio correndo quando me ouviu gritar. E ela também viu o fantasma. — Aparentemente, apesar do medo, Kanan se aproximou da aparição de rosto redondo na esperança de descobrir sua verdadeira identidade. — Mas então o fantasma desapareceu. Não havia ninguém por perto, é claro, e a cortina estava imóvel como se nunca tivesse se movido. A janela também estava fechada. Aquele cômodo quase não recebe circulação de ar.
Maomao murmurou um — Hmm! — e juntou as mãos, observando o local que Lishu havia descrito. Toda a disposição parecia estranha para ela. Quem construiria um depósito bem ao lado de um banheiro? Nos pavilhões Jade e Cristal, o banheiro era uma estrutura separada, com um cômodo adjacente onde a concubina podia relaxar após o banho. O banheiro talvez não fosse separado no Pavilhão Diamante, mas certamente um lugar para relaxar seria mais apropriado do que um depósito.
Ela estava prestes a lançar um olhar furtivo para Jinshi, mas repensou a ideia e olhou para Gaoshun. Ele observava Jinshi com uma expressão de preocupação no rosto. Jinshi acenou para eles, e Maomao interpretou isso como uma permissão para perguntar o que quer que estivesse em sua mente.
— Este lugar sempre foi um depósito? — perguntou ela. Ela não conseguia se livrar da sensação de que provavelmente havia uma pergunta mais direta a fazer, mas decidiu começar com a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Não, não era assim antes — disse Kanan.
— Então por que agora?
— Hum, bem… — Kanan se levantou, parecendo um pouco desconfortável, e foi até o depósito em frente ao banheiro. Ela apontou para dentro, entre as fileiras de prateleiras e pilhas de objetos diversos.
— Ah, entendi — disse Maomao. Ela avistou manchas pretas na parede, mofo, descobriu ao inspecionar mais de perto. Uma vez que se instalava dessa forma, seria necessário mais do que uma simples esfregada para se livrar dele. A proximidade do banheiro devia ter causado um problema de umidade ali. E, no entanto, os pavilhões Jade e Cristal não tinham problemas com mofo. As damas de companhia do Pavilhão Jade provavelmente teriam investigado para descobrir a origem do mofo e resolveriam a raiz do problema, mas não se podia esperar tal dedicação das damas do Pavilhão Diamante. Aliás, as damas do Pavilhão Jade, com sua limpeza diligente, eram de certa forma excepcionais. Ali, elas decidiram varrer o problema para debaixo do tapete, por assim dizer, simplesmente transformando o cômodo em um depósito.
No entanto, o problema ia além de um pouco de mofo: em alguns lugares, a parede estava macia e flexível ao toque. Podia até estar apodrecida até os alicerces.
— Eu não imaginava que este prédio era tão antigo.
— Não é. Foi construído quando Lady Lishu entrou pela primeira vez no palácio interno.
Maomao franziu a testa: será que a estrutura ficou tão instável em tão pouco tempo? Então, ela percebeu que havia uma janela bem ao lado da parte apodrecida. Era a cortina que Lishu tinha dito que estava balançando.
Acariciando o queixo, Maomao dirigiu-se à área de banho; atravessou o vestiário e espreitou a banheira de madeira de cipreste.
— Aqui está. — As palavras escaparam de seus lábios quase sem que ela percebesse. Ela havia encontrado um pequeno orifício redondo no fundo da banheira. Ao lado da banheira, havia um ralo. O palácio interno havia sido construído sobre um antigo sistema de esgoto, uma de suas grandes comodidades, e o ralo, sem dúvida, levava a ele.
Em sua mente, Maomao esboçou a localização do banho em relação ao depósito, e então acrescentou o fluxo do esgoto. Em seguida, disse: — Lady Lishu — e olhou para a concubina. — Naquele dia, por acaso a senhora puxou a tampa do ralo da banheira sem querer?
Lishu piscou. — Como você sabia?
Agora Maomao tinha certeza. Caminhou rapidamente de volta para a parede infestada de mofo e tentou mover uma prateleira para poder ver melhor o chão apodrecido. Não tinha forças para fazer isso sozinha, mas o sempre perspicaz Gaoshun logo se aproximou e a ajudou.
Ao moverem a prateleira, revelaram um ponto no chão tão macio que parecia que cederia se ela pulasse ali. Uma rachadura havia se formado entre o chão e a parede.
— Seria possível verificar em uma planta se o esgoto passa diretamente sob este local? — perguntou Maomao. Mais uma vez, foi Gaoshun quem respondeu prontamente ao seu pedido. Ele instruiu outro eunuco a trazer uma planta do Pavilhão Diamante.
Como Maomao suspeitava, o sistema de esgoto passava diretamente sob o piso do depósito. — Com água quente passando logo abaixo do piso e vapor subindo, essa parede naturalmente ficaria propensa a apodrecer — disse ela. — E se um pouco de vapor escapasse por essa fresta, poderia criar uma corrente de ar mesmo com a janela fechada.
Isso explicava o bater da cortina.
A concubina Lishu olhou para Maomao boquiaberta, mas então seus olhos se arregalaram e ela disse: — M-Mas então, como você explica esse rosto redondo?
Maomao murmurou pensativa e acariciou o queixo novamente. Ela olhou para a posição da cortina e para o local onde supôs que Lishu tivesse visto o rosto. Então, virou-se lentamente naquele ponto. Com a parede às suas costas, avistou uma prateleira na diagonal de onde estava. Nela havia algo coberto com um pano. Aproximou-se e removeu a cobertura, revelando um espelho de latão. Parecia incrivelmente bem polido para algo deixado em um depósito; ainda brilhava mesmo agora.
— Isso é…
— Sim, senhora?
Lishu olhou para o chão. — Isso é muito importante para mim. Por favor, tenha cuidado.
Bem, não era como se Maomao tivesse a intenção de quebrá-lo. No entanto, ela se conteve e não o tocou, preferindo encarar a superfície do espelho. Era quase exatamente do tamanho de um rosto humano.
— Há quanto tempo isso está aqui? — perguntou ela.
— Eu o usava o tempo todo, mas desde que o novo espelho chegou com as emissárias especiais, ele foi colocado aqui.
As emissárias trouxeram espelhos de corpo inteiro para as concubinas, o que significava que eles mostravam muito mais do que esta placa de latão, e com muito mais clareza. Não haveria comparação e nenhum motivo para não guardar esta peça em um depósito.
— E, no entanto, parece ter sido polido todos os dias — observou Maomao. O latão embaçava rapidamente. Para o espelho manter-se tão reflexivo, deve ser limpo com frequência.
Lishu olhou para o espelho com certa solidão. Ela parecia muito mais apegada a ele do que ao novo presente.
— Já que está aqui, dê uma olhada — sugeriu Maomao. Ela pegou o espelho, segurando-o com cuidado pelo pano, e o entregou a Lishu. — Será mais fácil de ver se houver bastante luz. — Dito isso, Maomao abriu a cortina, deixando o sol entrar. O espelho, extremamente polido, captou a luz e a refletiu. — Talvez fique mais nítido se você o segurar assim. — Maomao ajustou a posição do espelho nas mãos da concubina. A luz atingiu a superfície de latão e, em seguida, refletiu-se na parede branca.
Todos os presentes reagiram com espanto: a luz formou um círculo perfeito na parede, no qual flutuava o rosto de uma mulher sorridente.
Jinshi foi o primeiro a falar: — O que é isto? — Ele olhou fixamente para a parede como se não pudesse acreditar no que estava vendo.
Agora entendi, pensou Maomao. — Já tinha ouvido falar dos chamados espelhos mágicos, mas esta é a primeira vez que vejo um — disse ela. Eram espelhos de bronze que realmente pareciam mágicos: quando a luz os atingia, refletiam uma imagem ou uma mensagem. Às vezes, também eram chamados de "espelhos transparentes" por causa da maneira como a luz parecia torná-los translúcidos quando os atingia. Tinham uma longa história, embora técnicas muito especializadas fossem necessárias para fabricá-los.
Luomen, o pai adotivo de Maomao, possuía um vasto conhecimento que ia muito além de drogas e medicina. Desde pequena, ele a entretinha com histórias intrigantes e fatos surpreendentes, e este era um deles.
Presumivelmente, o pano simplesmente se soltou do espelho naquela noite. A superfície polida do espelho captou a luz da lua e projetou sua imagem na parede. O resultado foi o rosto flutuante. Um "fantasma" criado por pura coincidência.
— Este rosto… — Lishu fungou, ignorando as lágrimas que escorriam por suas bochechas enquanto se olhava no espelho. — De alguma forma, parece com a minha pobre mãe, que já faleceu. — Ela apertou a placa de bronze com força, os lábios se contraindo em angústia e o nariz escorrendo livremente. Francamente, aquilo roubou qualquer resquício de autoridade que uma concubina deveria ter, mas também era muito característico dela. Aquela garota era uma das “quatro damas” do Imperador, mas, na verdade, com a idade que tinha, ainda deveria estar crescendo.
Agora Maomao entendia por que ela tanto prezava aquele espelho. Era uma lembrança de sua mãe. Talvez ela esperasse que sua filha sentisse que, mesmo no palácio interno, tão distante, ela sempre estaria ao seu lado. A própria Maomao não sabia ao certo o que era uma mãe. Mas era claramente algo tão importante que inspirava emoções profundas nessa concubina.
Ainda com o nariz escorrendo de forma indecorosa, Lishu se agarrou ao espelho. A imagem na parede havia desaparecido, mas sem dúvida ela ainda conseguia ver aquele sorriso gentil em sua mente.
— Será que a mãe está zangada por eu ter trocado os espelhos? Talvez seja por isso que ela apareceu.
— Foi uma mera coincidência, minha senhora — disse Maomao, com indiferença.
— Dizem que ela adorava dançar. Dar à luz a mim debilitou tanto o seu corpo que ela não conseguia mais dançar. Ela morreu sem nunca mais poder fazê-lo. Será que ela voltou como um fantasma para dançar?
— Fantasmas não existem.
Lishu pareceu não ouvir a fria declaração de Maomao. Kanan pegou um lenço e começou a enxugar o rosto de sua senhora.
A cena perdeu seu caráter comovente quando alguém anunciou: — Seu chá está pronto, senhor.
Ao que tudo indicava, a antiga chefe das damas de companhia venceu a disputa para entregar a bebida. Ela chegou trazendo um chá perfumado acompanhado de alguns petiscos. Exibia um sorriso servil para Jinshi, mas ao ver sua patroa soluçando e com o nariz escorrendo, sua expressão se transformou em desprezo. Contudo, logo recuperou o sorriso e aproximou-se lentamente da concubina.
— Lady Lishu, por que está chorando? Deveria ter vergonha de fazer esse escândalo na frente dessas pessoas. — Ela era a imagem de uma serva diligente repreendendo sua venerada senhora. Mas era tarde demais para esconder sua verdadeira atitude de Maomao. A maneira como ela se mostrava tão exemplar para esses homens importantes, mas prontamente voltava à sua postura normal na ausência deles, não era melhor do que a de uma cortesã de terceira categoria. E como tantas mulheres desse tipo, ela sabia reconhecer uma ferida aberta quando a via.
— Oh, meu Deus, ainda temos este espelho? — disse a dama de companhia, olhando para a placa de bronze. — E depois daquelas emissárias terem sido tão gentis em lhe dar um espelho novo tão lindo. Certamente você não precisa mais deste. Por que não o oferece a outra pessoa? — Ela arrancou o espelho das mãos frouxas de Lishu e sorriu enquanto o avaliava. Sem dúvida, ela o queria para si.
— ...volva.
O som vinha da concubina Lishu, mas ela estava encolhida e sua voz era tão baixa quanto um sussurro, e a dama de companhia não percebeu. Ela estava ocupada demais enfiando o espelho nas dobras do robe como se fosse um tesouro valioso. Estava prestes a voltar a servir o chá a Jinshi quando Lishu estendeu a mão e segurou sua manga.
— Devolva.
— O que foi, minha senhora?
— Devolva! — Ela puxou a gola da mulher, agarrando o espelho. A antiga dama de companhia ficou horrorizada, e as outras mulheres de Lishu, que chegaram apressadas e atrasadas, também franziram a testa.
— Que comportamento horrível, e na frente de convidados! Você deveria ter vergonha.
O choro, os gestos de agarrar: isoladamente, pareciam refletir negativamente sobre a concubina Lishu. Simplesmente dava a impressão de que ela havia perdido a paciência. Independentemente do que as outras damas de companhia pudessem ter pensado por terem chegado atrasadas, Maomao, Jinshi e as demais sabiam que estavam testemunhando apenas o desfecho daquela luta.
Jinshi foi o primeiro a agir. — Parece que esse espelho é um tesouro pessoal dela. Questiono se é sensato tirá-lo dela sem entender completamente o que é. — Seu tom era gentil e suas palavras, escolhidas com delicadeza, mas era inegavelmente uma crítica. Ele parou diante da dama de companhia, que ajeitava a gola da camisa, e estendeu uma de suas grandes mãos. Ela corou violentamente, pois parecia que ele ia acariciar seus cabelos, mas, em vez disso, puxou o prendedor de cabelo que ela usava.
Era uma peça belíssima, finamente esculpida; Jinshi olhou com os olhos semicerrados para o brasão que ostentava. — Isso também lhe foi concedido? — perguntou ele. — Mesmo que tenha sido, surpreende-me que nunca tenha aprendido que uma mera dama de companhia que usa o brasão de uma concubina de alto escalão está a almejar algo além de sua posição. — Mais uma vez, seu tom era gentil e seu sorriso não se desfez. Mas isso tornava tudo ainda mais assustador.
Jinshi certamente sabia que a concubina Lishu estava à mercê de suas damas de companhia. Ele se absteve de tornar o assunto público porque isso arruinaria a reputação de Lishu, além de que, como eunuco, não seria da sua alçada se envolver. Com provas físicas em mãos, porém, ele agora estava livre para expressar sua opinião. E ele deixou isso bem claro.
— Espero que, no futuro, você evite ultrapassar os limites — disse ele. Aquele sorriso irresistivelmente encantador estava estampado em seu rosto. A antiga chefe das damas de companhia simplesmente desabou no chão; as outras mulheres, evidentemente lembrando-se de suas próprias transgressões, empalideceram.
Nossa, ele é assustador, pensou Maomao. Jinshi tomava seu chá como se nada tivesse acontecido.
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