Volume 4
Capítulo 5: Gelo
Xiaolan deveria ser dois anos mais nova que Maomao. Ela havia sido vendida para o palácio interno por sua família, mas não havia nenhum vestígio desse passado sombrio em sua personalidade. Talvez fosse sua origem humilde como agricultora que lhe conferia um apetite insaciável por doces; bastava mostrar-lhe um doce e ela o devorava imediatamente. Ela estava preocupada em perder seu sustento ao deixar o palácio interno e vinha aprendendo a escrever e tentando criar contatos para se preparar para a vida após o término de seu contrato. Tudo muito profissional da parte dela. Ela ainda era jovem em alguns aspectos, no entanto, e isso se manifestava em ocasionais crises de ansiedade.
Uma das concubinas no banho pareceu ter gostado dela e lhe deu um pequeno prendedor de cabelo. Era algo insignificante, mas Xiaolan, que já ficava feliz só de receber uma faixa de cabelo, estava radiante. Essa alegria a dominou até um instante antes, quando ela corria sem prestar muita atenção por onde andava e acabou esbarrando em uma carroça que estava parada em seu caminho.
E assim nos encontramos no momento presente.
— O que eu vou fazer agora?! Não dá tempo de pegar outra carga! — O eunuco que puxava a carroça cheia de gelo gritou para ela com voz anasalada. A carga estava espalhada de forma patética pelo chão. — Não é como se eu pudesse simplesmente lavar tudo e fingir que nada aconteceu!
— Eu sinto muito. Me des…
Ela tentava se desculpar, mas o eunuco continuava a pressioná-la. Xiaolan estava pálida como um fantasma e tremia por inteiro.
Talvez você pense que é apenas gelo, mas esta era a época em que as cigarras ainda cantavam. As câmaras de gelo nas regiões montanhosas frias haviam se enchido durante o inverno, e agora, na estação quente, pedaços eram cortados do grande bloco. Cada um dos pedaços que jaziam no chão naquele momento provavelmente valia o suficiente para comprar uma vida humana.
— Argh! Que diabos eu vou fazer?!
A raiva do eunuco era compreensível. Ele talvez não fosse enforcado por essa ofensa, mas uma boa surra provavelmente o aguardava. Ele agarrou o capuz e o atirou no chão. Enquanto isso, o gelo derretia rápido demais.
Maomao agachou-se no chão e pegou um dos pedaços de gelo enlameados, ainda envoltos em juncos e pano. — Para qual concubina era destinado? — perguntou ela ao eunuco, agarrando-se à mais tênue esperança. Havia apenas algumas damas que poderiam ter encomendado uma carga tão grande de gelo. Uma das quatro mulheres favoritas do imperador, ou talvez uma concubina de médio escalão com uma família muito rica.
— Concubina Loulan! — disse o eunuco.
Os ombros de Maomao caíram. Talvez pudessem ter argumentado com qualquer uma das outras concubinas de alto escalão, mas tinha que ser com Loulan. Ela adorava ostentação e provavelmente pretendia aproveitar o frescor da noite enquanto saboreava um doce gelado. O eunuco tinha razão: não podiam lhe dar algo que tivesse estado na lama.
Ainda bem que Shisui e Seki-u não estão aqui, pensou Maomao. Nenhuma das duas tinha ido ao grande banho público hoje; ambas tinham outros compromissos. Shisui sozinha talvez não fosse um problema, ela tinha um lado surpreendentemente calmo e sereno, mas se Seki-u estivesse com elas, teria começado a chorar ou gritar e só teria aumentado a confusão.
E agora? Maomao se perguntou. Aquela quantia era muito maior do que qualquer pagamento que pudessem fazer, e, mais importante, corriam o risco de irritar uma das concubinas de alto escalão. Se ao menos tivessem algo que pudesse substituir o gelo.
Maomao olhou para o gelo estilhaçado. Não havia como simplesmente lavá-lo e ainda usá-lo. Mas...
— O que vai acontecer com isto? — perguntou ela, erguendo um pedaço do gelo envolto em junco.
— Nada, está perdido. Faça o que quiser com ele — respondeu o eunuco rispidamente.
— Muito bem.
O eunuco estava obviamente furioso. Sem dúvida, estava quebrando a cabeça para encontrar uma desculpa que o salvasse. De qualquer forma, o gelo era valioso e não adiantaria nada vê-lo derreter.
Xiaolan ficou ali parada, com o rosto pálido, os pensamentos provavelmente paralisados pelo terror do castigo que poderia esperar receber.
Maomao coçou a cabeça. Eles tinham gelo, mas era intragável. Nesse caso...
— Com licença, mas e se a gente preparasse algum substituto para isso?
— Hrm? Do que você está falando? — O eunuco fuzilou Maomao com o olhar, como se não acreditasse por um segundo que ela fosse capaz de fazer aquilo.
— Você disse que podemos fazer o que quisermos com isso, certo? Talvez eu possa preparar algo diferente em troca, e você poderia levar para a concubina Loulan? — Maomao pegou o gelo, imaginando que já lhe haviam permitido isso. O eunuco a encarava com um olhar fulminante. Ele obviamente não confiava nela, mas também não queria se deixar derrotar facilmente. Estava disposto a se agarrar até à menor esperança.
— A concubina estará esperando o lanche dela em uma hora — disse ele.
— Uma hora — repetiu Maomao. Talvez fosse tempo suficiente. Isso se ela conseguisse encontrar os ingredientes necessários.
Naquele instante, seus olhos encontraram os de uma pessoa com um sorriso delicado. Certo indivíduo magnífico estava entre as damas da corte e os eunucos, observando a comoção à distância. Ele parecia estar bastante à vontade. Ao seu lado estava Gaoshun, com uma expressão enigmática.
Sim, Jinshi estava sorrindo, mas para Maomao ele parecia terrivelmente travesso. Ela mordeu o lábio e olhou para Xiaolan. Ficar ali parada não ia adiantar nada. Ela pegou a mão da outra garota e a puxou para longe, determinada a aproveitar ao máximo o que tinha à disposição.
No momento em que saíram da área, a tensão finalmente se dissipou e Xiaolan começou a chorar copiosamente. Maomao a deixou com o charlatão. Então, ela se aproximou de Jinshi, que estava convenientemente parado do lado de fora do consultório médico.
— Precisa de algo? — ele perguntou.
— Posso usar um espaço na cozinha? E ficaria muito grato se você pudesse me emprestar alguns ingredientes.
— Nossa, que exigente, não é? — Jinshi disse arrastando as palavras. Mas ela não tinha tempo para isso. Precisava se apressar, ou o gelo derreteria todo. — Vai me recompensar, então?
— Não há nada que alguém como eu possa oferecer a alguém da sua estatura, Mestre Jinshi. Mesmo assim, peço-lhe que me empreste o que preciso. — Ele não poderia estar realmente a convidando a fazer exigências ou oferecer recompensa. Havia coisas além da condição de alguém, e havia coisas ainda mais além da condição de alguém. Mas ela dificilmente conseguiria dizer isso em voz alta.
— Não é como se fosse sua culpa.
— Não, eu suponho que não.
Teria sido fácil simplesmente abandonar Xiaolan à própria sorte. Afinal, ela era a pessoa mais fácil de alimentar com rumores e fofocas. Maomao sempre lhe trazia lanches e lembrancinhas para compensá-la por sua tagarelice; não era como se ela devesse algo à outra mulher. A culpa foi da própria Xiaolan por não prestar atenção por onde andava.
Mas… pensou Maomao.
— Acho que não conseguiria dormir à noite se não a ajudasse. — Era a coisa mais sincera que ela podia dizer: não tinha outro motivo para fazer aquilo.
Por um segundo, ela pensou ter visto Jinshi fazer uma careta, mas então ele olhou para o chão e uma risadinha discreta escapou de seus lábios.
— Então, é só uma questão de dormir bem.
— Sim, senhor. Uma noite mal dormida afetaria meu trabalho no dia seguinte.
— Bem, não gostaríamos disso. — Jinshi sorriu. — Tenho algumas condições.
— Cite-as.
— Escute quando uma pessoa estiver falando.
Maomao inclinou a cabeça, surpresa com o fato de a "condição" dele ser tão óbvia e óbvia. — Só isso? Tem certeza?
— Quem é que parece incapaz de fazer ‘apenas’ isso?
Maomao pareceu ainda mais perplexa. Ela percebeu que Jinshi franziu a testa visivelmente.
[Kessel: kkkkkkkkkkkkk. Tadinho, ele só quer atenção!]
— Muito bem — disse ele — podemos adicionar outra condição, então. Qual seria uma boa? — Uma sombra pareceu se projetar sobre seu rosto enquanto ele olhava para o chão, e Maomao começou a ter um pressentimento muito ruim, mas naquele momento não havia mais ninguém a quem ela pudesse pedir ajuda. Ocorreu-lhe que talvez pudesse recorrer à concubina Gyokuyou, mas em uma questão que envolvia a concubina Loulan, pareceu-lhe melhor recorrer ao nominalmente neutro Jinshi.
O que será que ele está planejando para mim? Ela se perguntou. Então balançou a cabeça negativamente. Seu elástico de cabelo caiu no chão, será que tinha ficado tão frouxo? Jinshi olhou para ele.
— Você não usa prendedor de cabelo? — perguntou.
— Eu tenho que trabalhar — respondeu ela.
— Com trabalho ou sem trabalho, as outras damas do Pavilhão Jade conseguem ser pelo menos um pouco mais elegantes do que você.
Ele podia dizer o que quisesse; Maomao só tinha alguns acessórios. Alguns elásticos de cabelo bonitos e fáceis de usar, além do prendedor de cabelo e do colar que ela ganhou na festa no jardim...
— Eu sei que te dei um. Diga-me que você não o vendeu.
— Eu não o vendi, senhor. — Ainda.
Ela vinha pensando nisso, mas ainda não tinha encontrado uma solução. Deveria interpretar isso como uma ordem para não vender?
— Então use ele.
Ela pausou. — Só isso, senhor?
— Algum problema com isso?
Ela tinha certeza de que Jinshi lhe daria alguma tarefa impossível, mas se ele se contentasse apenas em fazê-la usar um prendedor de cabelo, para ela estava tudo bem.
— Quando você vier até mim usando isso, então eu lhe direi… — Sua voz era baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo. Então, ele olhou Maomao nos olhos. — Deixarei tudo pronto para você imediatamente. Siga-me, depressa.
Ele se virou. Maomao deu um tapinha nas costas de Xiaolan, cujas lágrimas finalmente começaram a secar, e o seguiu.
A cozinha fervilhava com os preparativos para o jantar, mas de alguma forma conseguiram reservar um cantinho para Maomao. Felizmente, havia fogões disponíveis, o que permitiu cozinhar para todas as damas da corte ao mesmo tempo. Sim, talvez fosse possível executar o plano de Maomao no consultório médico, mas poderia ser considerado uma falta de educação para com a concubina abordá-lo da mesma forma que Maomao preparava seus próprios lanches. Claro, ela frequentemente fazia remédios para a concubina Gyokuyou dessa maneira, mas isso era uma exceção.
Após ter preparado um lugar para ela, Jinshi foi arrastado de volta ao seu trabalho por um Gaoshun nada entusiasmado. Em vez disso, um dos eunucos sentou-se numa cadeira para supervisionar Maomao e Xiaolan. O eunuco que carregava o gelo também estava lá, olhando ao redor da cozinha com extrema preocupação.
— Maomao, você tem certeza de que consegue fazer um substituto para essa sobremesa gelada? — perguntou Xiaolan, ansiosa.
— Acho que sim — respondeu Maomao. Ela já tinha visto aquilo ser feito uma vez. Contanto que sua memória não lhe traísse, ela achava que conseguiria fazer dar certo.
Sobre a mesa havia uma tigela grande de cerâmica e uma menor de metal. Seus ingredientes incluem leite de vaca, açúcar e diversas frutas, entre outras coisas. Ela entendia por que Xiaolan estaria inquieta: alguns dos itens ali não pareciam pertencer a uma cozinha.
Ela ficou contente por haver leite de vaca. Entre as concubinas, havia uma mulher que adorava manteiga e só a comia se fosse feita fresca todos os dias. Mas o leite estragava rápido, e Maomao não sabia o que teria feito se não o tivesse. Então, ela o colocou na tigela de metal, adicionou açúcar e bateu com um batedor de arame. Tecnicamente, o batedor era para chá, mas era perfeito para incorporar bastante ar à mistura.
— Aqui, misture isso – disse Maomao à Xiaolan.
— C-Claro…
Como não tinham tempo para perder, Maomao deu a tarefa mais tediosa para Xiaolan e passou para a próxima coisa. Ela colocou o gelo sobre a mesa e o quebrou com um martelo.
— O que você está fazendo?! — Xiaolan gritou enquanto os pedaços de gelo ficavam cada vez menores.
— Não se preocupe comigo. Bata como se sua vida dependesse disso. — Maomao colocou os pedaços de gelo na tigela grande, adicionou um pouco de água e jogou uma generosa porção de sal. Xiaolan balançou a cabeça enquanto observava. — Aqui, Xiaolan, coloque isso aqui. — Eles pegaram a tigela de metal e a colocaram na água com gelo e sal. Então, continuaram a mexer vigorosamente.
A expressão de Xiaolan passou gradualmente de surpresa para choque, com os olhos arregalados. — Hã? Não acredito!
O leite começou a solidificar e a grudar na superfície do metal. Maomao raspou-o com o batedor e continuou a mexer. — Corte essas frutas em pedaços bem pequenos — instruiu ela.
— S-Sim, claro… — Xiaolan pegou um cutelo e picou a fruta, colocando-a em um prato. Maomao mexeu o máximo que pôde, e o leite lentamente adquiriu uma consistência sólida, porém cremosa.
— Feito! — disse Xiaolan.
— Aqui dentro. — Maomao largou o batedor e começou a misturar as frutas com uma colher, depois despejou a mistura em uma tigela de vidro. Sentindo que ainda não era suficiente, porém, acrescentou algumas frutas cozidas e adocicadas por cima.
Nesse instante, ela ouviu um soluço distinto. Os olhos de Xiaolan, que até pouco tempo atrás estavam marejados, brilhavam intensamente.
— Isso é…?
— Como você pode ver. Sorvete.
Se ela tivesse tido mais tempo, poderia ter acrescentado ovos, ou talvez algumas ervas para dar um aroma agradável. Mas ela não teve tempo, e foi só isso.
— Como você fez isso? — perguntou Xiaolan.
— Podemos conversar sobre isso mais tarde. Agora precisamos nos apressar, ou não chegaremos a tempo.
— Eu sei, mas… — Xiaolan olhou para Maomao com um olhar suplicante. — Temos que garantir que o sabor esteja bom, não é?
Percebendo o que Xiaolan queria dizer, Maomao pegou um pouco do que restava na superfície do recipiente de metal com sua colher e colocou na boca de Xiaolan. Enquanto o sorvete gelado derretia em sua boca, o rosto de Xiaolan se iluminava com alegria, seus dedos se abrindo e fechando.
Evidentemente, a sobremesa é um sucesso.
— Aqui está! Está pronto! Conseguimos! Pode levar para a senhora concubina!” Eles colocaram o sorvete na tigela, usando o que restava do gelo, e entregaram ao eunuco. Tanto o homem que os vigiava quanto o que transportava o gelo olharam para eles com os olhos arregalados.
— Você realmente conseguiu? — perguntou o eunuco, com ceticismo.
Em resposta, Maomao simplesmente colocou uma colherada da sobremesa na boca. Sua expressão mudou para uma de êxtase.
— Acho que isso será aceitável — disse Maomao. O eunuco, com os olhos ainda arregalados, estendeu a mão para pegar outra colherada, mas ela afastou-lhe a mão com um tapa. Ele olhou para ela com um ar um tanto desanimado. — Vamos lá! — disse ela. — Antes que derreta!
— Sim, claro. — O eunuco colocou o recipiente cuidadosamente em uma cesta, embrulhou-o em um pano e saiu correndo. O guarda pareceu um pouco invejoso, mas, vendo que seu trabalho estava feito, levantou-se e foi embora.
Finalmente, Maomao e Xiaolan se entreolharam.
— Graças a Deus tudo correu bem — suspirou Xiaolan.
— Ainda não sabemos. A verdadeira questão é se a concubina vai gostar — disse Maomao. Ela havia perguntado a Jinshi se Loulan tinha alguma preferência ou aversão específica, então as chances de a concubina simplesmente rejeitar o sorvete eram pequenas. E ela achava que tinha feito bastante, incluindo o suficiente para a verificação de veneno que inevitavelmente seria necessária.
— Ah, não me provoque assim. Enfim, vamos lá, vamos comer o resto antes que derreta!
— É, melhor comer logo! — disse uma nova voz.
Maomao e Xiaolan olharam assustadas e viram Shisui com a tigela de sorvete firmemente nas mãos.
— Ei, o que você está fazendo aqui? — perguntou Xiaolan.
— É, sabe como é. Houve uma espécie de confusão, e antes que eu percebesse, larguei o que estava fazendo e vim investigar.
— Você é a pior! — exclamou Xiaolan.
Maomao concordou em particular, embora ela própria não estivesse em posição de criticar.
— Passamos por momentos horríveis... Ah! Shisui! Não coma tudo sozinha! Você não pode simplesmente roubar o trabalho árduo de outra pessoa!
— Ixxo está delixioso!
— Pare com isso! Deixe um pouco para mim!
Shisui fugiu, com a colher ainda na boca, e Xiaolan a perseguia de perto.
Acho que não fiz o suficiente. Maomao, pensando se o resto do gelo daria para preparar outro lanche, começou a colocar os ingredientes na tigela novamente.
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