Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 4

Capítulo 19: O Exército Marcha

Vamos voltar um pouco no tempo.

Jinshi estava em uma carruagem que balançava e sacolejava, sentado de frente para um homem com uma expressão azeda no rosto. Mas talvez “carruagem” não fosse bem a palavra certa. Puxada por nada menos que dez cavalos, aquilo era mais uma casa sobre rodas. O chão estava coberto com uma pele de animal, e havia uma mesa no meio da cabine.

Lakan, homem conhecido por seu sorriso irônico, agora encarava um mapa com evidente irritação. Atrás dele, seu filho adotivo observava as expressões de Lakan e de Jinshi enquanto enfiava um recibo nas dobras da própria túnica. Esse homem, Lahan, era a segunda pessoa mais mão-de-vaca que Jinshi já tinha conhecido, perdendo apenas para a madame da casa Verdigris, mas, nessa ocasião, ele estava mais do que disposto a admitir que Lahan tinha salvado seu pescoço.

Ele sentia que podia ser atacado a qualquer momento. A intervenção do eunuco Luomen tinha conseguido acalmar o pior da fúria de Lakan, mas ela ainda ardia sob a superfície. Atrás de Jinshi, Gaoshun permanecia atento, pronto para sacar a espada à cintura num instante. Era esse o tipo de retaliação que se arriscava ao levantar a mão contra Jinshi, mas, naquele momento, Lakan provavelmente não se importava. Jinshi suspeitava que ele ficaria igualmente satisfeito em se atirar sobre ele e espancá-lo até deixá-lo inconsciente.

O homem estava simplesmente preocupado demais. Lahan, porém, estava servindo como um freio útil para controlá-lo. — Pai, pergunto apenas hipoteticamente, mas se um homem cometesse violência contra um membro da família imperial, o crime não recairia apenas sobre ele, recairia? — Era uma pergunta indireta, sem dúvida, mas bastava para impedir Lakan de fazer algo precipitado.

Atacar Jinshi significaria o fim da família de alguém. Nem mesmo a filha de Lakan, Maomao, seria poupada. Lakan não era fácil de enganar, e sabia exatamente quem Jinshi era, foi por isso que ele pediu que ele mobilizasse o exército. Jinshi suspeitava que Lahan também tinha adivinhado a verdade. Por quê? Quando perguntou, recebeu a resposta mais típica possível de alguém do clã La: — Porque sua altura, peso, peito e torso são exatamente o mesmo número. Pessoas assim são muito, muito raras. — Como sempre, a maneira de Lahan enxergar as coisas era praticamente indecifrável para os outros. — Você é incrivelmente belo; é uma pena não ter nascido mulher — acrescentou.

Isso fez a pele de Jinshi se arrepiar. Era verdade que o primo de Maomao parecia e agia muito como ela, mas, infelizmente, Jinshi não atirava para esse lado.

Ainda assim, ele reconhecia talento quando via, e tinha obtido permissão especial para que aquele oficial civil o acompanhasse naquela expedição militar.

Hoje, Jinshi não era o eunuco Jinshi. Seus cabelos estavam presos por um grampo de prata, e ele vestia não o habitual traje oficial preto, mas uma armadura e um elmo azul-arroxeados, com espesso acolchoamento de algodão por baixo.

— Espero que ele saiba distinguir vitória e derrota melhor do que conseguimos distinguir se ele é homem ou mulher. — Era Lakan. Ele estava certo em uma coisa: chegou a hora de Jinshi abandonar a pele de eunuco. Eles lideravam um exército e tentavam coordenar vários planos ao mesmo tempo.

— Tem certeza disso? — perguntou Jinshi.

— Não haverá problemas — assegurou Lahan. O mapa diante deles mostrava uma fortaleza com montanhas às costas. O mapa era antigo, já que o forte não era usado havia bastante tempo, mas encontraram soldados que já haviam servido ali para atualizá-lo e garantir o máximo de precisão possível.

Lahan acreditava que armas de fogo estavam sendo produzidas naquela fortaleza. As regiões do norte tinham madeira em abundância. Muitos desejavam desesperadamente controlar o lugar para explorar seus recursos de madeira, mas o clã Shi o defendia com firmeza.

Haviam fontes termais nas proximidades também. Uma excelente fonte de enxofre. Mas havia mais um ingrediente necessário para criar pólvora.

— E quanto ao salitre?

— Pequenos animais gostam de hibernar na região, talvez por causa das fontes termais. Há grandes cavernas nas redondezas. — Isso implicava a presença de grandes quantidades de guano de morcego. Seria possível produzir salitre a partir dos excrementos.

Jinshi resmungou. Se os defensores tinham armas de fogo, era improvável que usassem feifas individuais contra uma força invasora. Não, eles teriam algo nas muralhas da fortaleza projetado para devastar um inimigo em avanço de uma só vez: canhões. Canhões; esse seria o verdadeiro perigo.

Mas, se Jinshi conseguia pensar nisso, podia ter certeza de que Lakan já estava plenamente ciente da possibilidade. Para ele, o mapa provavelmente não passava de um tabuleiro de Go. Ele apontou para o penhasco atrás da fortaleza.

— É teoricamente possível dominá-los antes que consigam usar os canhões — disse Lahan com firmeza.

— Você ouviu o cérebro de ábaco — disse Lakan, dando um leve tapa na cabeça do filho adotivo. A pólvora necessária para fazer um canhão funcionar molhava com facilidade. Talvez mantivessem a pólvora perto das armas o tempo todo, mas, se fosse o caso, estaria guardada em um arsenal para permanecer seca. A fortaleza ficava em grande altitude, e a neve caía ali com frequência. Os batedores relataram que, naquela mesma noite, a neve vinha caindo pesada.

Se as forças de Jinshi simplesmente avançassem sobre a fortaleza, seriam alvos fáceis. Por isso, Lakan sugeriu destruir o depósito de pólvora, negando ao inimigo o uso dos canhões. E o método que idealizou para isso era bizarro. Bizarro, mas possível. Era isso que o tornava tão temível.

— Acho que será uma maneira muito econômica de resolver a situação — disse Lahan. Provavelmente foi essa única palavra, econômica, que o convenceu a aderir ao plano. No pouco tempo que passaram juntos, Jinshi sentia que já entendia perfeitamente como a mente dele funcionava.

— Precisamos arrombar o lugar e encontrar Maomao. O papai vai salvá-la!

Jinshi conteve uma careta diante da palavra “papai”. Não podia ser visto fazendo esse tipo de expressão.

Ele mordeu o lábio ao pensar na jovem de estatura pequena. Ela tinha sido levada como refém, ou havia outro motivo? Talvez até tenha ido por vontade própria? Fosse o que fosse, ela estava no acampamento inimigo, e ele queria resgatá-la o mais rápido possível.

Jinshi fechou o punho. — Então faremos isso — declarou.

— Espere um momento, por favor — disse Gaoshun. Franziu a testa e se ajoelhou diante dele. — Eu vejo um problema.

— Que tipo de problema? — Lakan e Lahan pareciam tão perplexos quanto Jinshi.

— Meus senhores se esqueceram da natureza deste exército?

Eles lideravam uma força mais do que suficiente para lidar com uma fortaleza daquele porte. Se seguissem o plano de Lakan, poderiam esperar praticamente nenhuma baixa.

— Vocês estão sugerindo que o Exército Proibido se rebaixaria a uma emboscada?

Jinshi engoliu em seco e levou a mão ao grampo de cabelo em sua cabeça. Ele era esculpido na forma de um qilin: o símbolo da família imperial.

Ele passou tanto tempo como eunuco que, às vezes, sentia que corria o risco de esquecer sua verdadeira identidade. Naquele momento, porém, ele não era Jinshi, e, considerando quem era, cabia a ele subjugar o inimigo de forma ousada e aberta.

Ele entendia tudo isso. Ainda assim, as palavras que saíram de sua boca o traíram. — Concordo com o grande comandante.

— Entendido, senhor — disse Gaoshun, recuando obedientemente. Seus olhos estavam fixos no homem atrás dele, e seu olhar penetrante fez os pelos da nuca de Jinshi se arrepiarem.

— Excelente. Não estou interessado em transformar meu próprio crânio numa taça de bebida — disse Lakan. Então bufou e saiu da carruagem, passando pela cortina. Era verdade que não estavam andando muito rápido, mas ainda assim era um salto. Jinshi achou que Lakan parecia cambalear levemente ao tocar o chão. Ele estava bem?

Lahan trabalhava o ábaco com furor, certificando-se de que não havia erros nos cálculos.

Os pensamentos de Jinshi foram interrompidos por uma voz. — …getsu. — Era Gaoshun, chamando-o pelo seu verdadeiro nome. A ruga em sua testa parecia ter se aprofundado. — Você vai precisar mudar a forma como interage com a jovem senhorita depois disso. — Ele soava como se estivesse repreendendo uma criança.

— Eu sei. — Jinshi suspirou profundamente, o vapor de sua respiração se dissipando no ar frio. Ele estremeceu e puxou o manto branco com capuz sobre a cabeça.

○●○

Já passava da meia-noite quando ele ouviu as explosões. Perguntando-se o que estava acontecendo, Shishou se levantou, pegando a espada que sempre mantinha ao lado da cama.

Ele estava deitado, mas não conseguia dormir. A corte podia considerá-lo “o velho tanuki”, mas até ele tinha pequenas coisas que o mantinham acordado à noite. Aliás, como poderia dormir? Já fazia mais de uma década que tentava e descobria ser impossível.

Ele ouviu gritos no quarto ao lado, surpresa com o barulho, talvez, mas logo cessaram. As vozes das mulheres que se divertiam voltaram ao seu burburinho habitual. Separado por apenas uma parede, sua esposa devia estar desfrutando do vinho. Ela parecia se deleitar em conduzir as mulheres do clã à lascívia se envolvendo com homens pagos. Era assim que vinha se comportando quase todos os dias desde que a filha deles, Loulan, nasceu, fazendo questão de se perder no prazer onde Shishou soubesse.

As mulheres que estavam com ela tinham sido relutantes no começo, mas agora já apreciavam essas diversões. Sua esposa sempre escolhia mulheres que já eram casadas, que tinham tido filhos, cumprido seus deveres familiares. Ela sentia prazer em ver essas esposas virtuosas se corromperem.

Ela nem sempre tinha sido assim. Shishou saiu para a varanda e olhou para longe. Um ataque inimigo, pensou. As luzes do exército, talvez do Exército Proibido, ainda estavam distantes. Desta fortaleza em posição elevada, era possível enxergar muitos li à distância. Ele ainda tinha tempo para cochilar um pouco.

Então Shishou franziu o nariz: havia um cheiro estranho no ar. Era... enxofre? Estavam produzindo pólvora no porão. Será que houve uma explosão?

Claro. Ele ajeitou a gola da roupa. Precisava fazer algo, pensou, mas não se mexeu. Era patético, mas simplesmente não encontrava forças. O astuto velho tanuki, favorecido pela imperatriz regente e que nem mesmo o monarca reinante conseguia encarar nos olhos, esse não era o Shishou naquele momento. Até ele mesmo reconhecia isso.

Segurando a própria barriga (que começou a se projetar de forma abrupta e dramática depois de completar quarenta anos), ele avançou, um passo após o outro. Para sair e descobrir o que estava acontecendo, teria de passar pelo quarto da esposa. E isso o feria mais do que qualquer outra coisa.

A mulher presenteada a ele pelo antigo imperador, ou melhor, sua prometida, por quem ele esperou por vinte anos até tê-la de volta, criou espinhos durante seu tempo no palácio interno. Quando finalmente retornou para Shishou, ele já tinha uma esposa e uma filha: Suirei.

Ele nunca teve a intenção de se casar com outra pessoa. Nem mesmo a mulher que se tornou sua esposa provavelmente desejou aquilo. Ela nasceu no palácio interno, depois foi banida como filha ilegítima, embora seu pai não fosse outro senão o antigo imperador.

Tinha sido o desejo do antigo soberano. Um pedido feito quando sua saúde começou a declinar repentinamente, vinte anos antes. — Por favor, cuide da minha filha — ele disse.

A esposa de Shishou passou a ter não apenas espinhos, mas veneno.

Ele precisava fazer alguma coisa, e rápido. Repetia isso para si mesmo sem parar e, por fim, conseguiu abrir a porta. Os prostitutos arregalaram os olhos, e as mulheres, com o pouco de pudor que ainda lhes restava, se apressaram em se cobrir com os lençóis.

Enquanto isso, sua esposa estava deitada em um divã, dando uma longa tragada no cachimbo. Seus olhos eram afiados e cheios de desprezo. — Que barulho foi esse? — disse languidamente, deixando a fumaça roxa escapar de sua boca.

Shishou estava prestes a dizer que ia verificar quando a porta do corredor se escancarou. Loulan apareceu ali, coberta de fuligem.

— O que você está fazendo aqui nesse estado patético? — disse a esposa de Shishou.

— Você é a última pessoa que tem o direito de me perguntar isso — Loulan retrucou, lançando um olhar incisivo para as mulheres que disputavam os cobertores. — Todas vocês, que abandonaram seus filhos para se perderem em uma vida de excessos.

Uma das mulheres, chocada ao se lembrar do próprio filho pelas palavras de Loulan, tentou fugir do quarto, mas Loulan lhe deu um tapa no rosto. Quando a mulher caiu no chão, os prostitutos aproveitaram para escapar, percebendo o quão desesperadora a situação havia se tornado.

Shishou mal conseguia acreditar no que via: era sua própria filha. Ele sempre acreditou que sua Loulan era uma criança recatada e obediente. Ela vestia as roupas que a mãe mandava, como uma pequena boneca.

Enquanto isso, Loulan atravessou o quarto e abriu as portas dos armários encostados na parede. Quando abriu o maior deles, encontrou uma jovem espremida lá dentro.

— Minha querida irmã. Me desculpe. Levei um pouco mais de tempo do que pretendia.

A jovem tremia; estava amarrada nos pés e nas mãos, estava sendo castigada. Muito parecida com Loulan, ela era a outra filha de Shishou, Suirei.

Loulan soltou Suirei e esfregou suas costas com suavidade. Pela maneira como fazia tudo com tanta naturalidade e rapidez, era evidente que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Nem a segunda. O estômago de Shishou afundou ao perceber o quão quanto ele havia falhado.

Então Loulan se virou e olhou para o pai, Shishou. Ela sorriu para ele. — Pai. Pelo menos assuma a responsabilidade nestes últimos momentos. — Ele não teve tempo de perguntar responsabilidade pelo quê, porque ela continuou: — Você é o velho tanuki, o trapaceiro que se transforma, da vila das raposas. Vamos cumprir nossos papéis até o fim.

Outro estrondo ecoou, e desta vez toda a fortaleza tremeu. Shishou se apoiou na parede para não cair e voltou para a varanda para ver o que havia acontecido.

Ele viu flocos de neve espalhados por toda parte. Tudo a leste da fortaleza estava completamente branco, e ele não conseguia enxergar nada. No início, não entendeu o que tinha acontecido. Mas, conforme a névoa de neve começou a se dissipar, ele viu: o edifício que deveria estar ali estava soterrado. O arsenal, se lembrava bem. Agora estava parcialmente coberto de neve.

Enquanto ele encarava a cena, atônito, Loulan disse: — Você devia saber que esse era um oponente que nunca poderia vencer. Por favor, assuma a responsabilidade. — Ela acrescentou que cuidaria da mãe.

Então sua filha, com os cabelos levemente chamuscados balançando, caminhou até a mãe com uma postura quase majestosa e parou diante dela.

Assuma a responsabilidade, sua filha disse. Shishou cerrou os punhos, decidido.


Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora