Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 4

Capítulo 18: Feifa

Isso realmente foi útil, pensou Maomao. Vários pedaços de algo que parecia carne de peixe estavam espetados na ponta do seu grampo, o grampo de cabelo que Shisui tinha dado a ela podia ser dividido em dois, e a parte pontuda servia como um espeto perfeito.

Maomao engoliu em seco ao ver a gordura pingar da carne chiando no fogo. Eu só queria um pouco de sal. Ou pasta de soja! É, se eu pudesse ter qualquer coisa que quisesse...

Quando a carne ficou bem assada, ela soprou com vontade, as bochechas infladas. Parecia ter um pouco de ossos, mas quem não tem cão, caça com gato.

O gosto lembrava frango, mas tinha um sabor marcante de peixe, porque o fogo usava óleo de peixe. A carne era suculenta e cheia de nutrientes, afinal, já estava quase na época de hibernação, e a gordura manchava os lábios de Maomao.

Enquanto mastigava, ela percebeu algum tipo de alvoroço do lado de fora. Ainda assim, queria grelhar o que tinha capturado antes que o fogo se apagasse, então ignorou o barulho, espetou outro pedaço de carne e começou a assar. Não conseguiu evitar murmurar: 

— Eu realmente queria um pouco de sal...

Foi quando percebeu que havia um homem parado diante dela, olhando-a boquiaberto.

— O que você está fazendo?

— Estou comendo. Você por acaso não teria um pouco de sal?

— Claro que eu não tenho sal nenhum!

Bem, ela admitia que era pedir demais.

O homem olhou ao redor do cômodo e então levou a mão à boca com um: — Ugh! — Parecia estar tentando não vomitar. Havia algo nele que soava familiar para Maomao, ao observá-lo melhor, percebeu que era o guarda que tinha participado da discussão com ela mais cedo. O que ele estava fazendo ali?

— O que você está, ah, comendo?

— Cobra, senhor.

— ...Eu preferia que você tivesse dito peixe.

Esse guarda dizia as coisas mais estranhas, pensou Maomao. Mas tudo bem. Ela enfiou o restante da carne assada na boca e engoliu.

— Achei que isto fosse uma câmara de tortura — disse o guarda.

— É suponho que, para alguns, seria um inferno na terra.

Muitos talvez desejassem nunca pôr os pés naquele cômodo, mas para Maomao era um verdadeiro tesouro. A câmara apertada tinha quase uma centena de cobras e insetos venenosos. Algumas estavam cortadas em pedaços ou sem cabeça. As demais se arrastavam lentamente, já que a temperatura estava bastante baixa.

Como podem ser tão estúpidos? Perguntou-se Maomao. O que esperavam, usando cobras no inverno? Normalmente, esses animais já estariam até hibernando nessa época, claro que se moviam devagar. Para alguém tão experiente em capturar cobras quanto Maomao, não havia nada mais simples do que agarrá-las e torcer-lhes o pescoço. E os insetos não se moviam mais rápido. Além disso, não era de se esperar que as cobras comessem os insetos? Alguns sapos idiotas avançavam com avidez sobre os insetos tóxicos e depois caíam duros por causa do veneno.

Usando o grampo como se fosse uma verruma e o grampo de cabelo que recebeu de Jinshi como se fosse uma adaga, Maomao primeiro matou as cobras venenosas mais perigosas. Eles devem ter tido dificuldade para capturar tantas nessa época do ano, mas a maioria das serpentes na caixa eram inofensivas, sem veneno. Até entre os insetos e os sapos, apenas cerca de metade eram realmente venenosos.

Maomao sentiu vontade de provar alguns daqueles venenos, mas não era o momento. Depois de lidar com as cobras claramente peçonhentas, passou às que não tinha certeza. As inofensivas ela deixou em paz. Cobras não atacam pessoas sem motivo, e novamente, não estavam exatamente se movendo com rapidez.

Ainda assim, Maomao não estava nem um pouco disposta a ter cobras se enrolando nela naquele espaço apertado, então sentou-se sobre a caixa onde elas tinham sido mantidas e espalhou cinzas ao redor. Ela sempre carregava remédios nas dobras de suas vestes; era o seu jeito. Teria preferido tabaco, mas, dadas as circunstâncias, o melhor que podia fazer era queimar algumas ervas particularmente pungentes e espalhá-las. (Ela pegou emprestado a lamparina no lugar de uma fogueira de verdade.)



O guarda a olhava como se não pudesse acreditar no que estava vendo.

— Eu nem precisava ter vindo — ele resmungou.

— Sim, aliás, por que você está aqui? — ela perguntou.

Ele pareceu um pouco emburrado. — A senhorita Suirei e... e o pirralho me pediram. Disseram que era porque você estava presa aqui que a gente não estava sendo punido. O pirralho não parava de falar que eu tinha que te resgatar, disse que me daria isto. — O guarda segurava um ornamento de jade. Era, de fato, uma recompensa bem generosa. Então ele olhou ao redor, o rosto pálido. — Tenho que reconhecer. Eu teria enlouquecido aqui dentro. Não acho que teria aguentado. A senhorita Suirei disse que eu devia sair daqui, rápido. Parece que algo perigoso vai acontecer.

As dobras das vestes do guarda estavam visivelmente estufadas, como se ele tivesse acabado de saquear um prédio em chamas. Quando Maomao olhou para fora, viu um homem inconsciente no chão, aparentemente obra do seu antigo carcereiro.

— Acho que você também devia fugir — disse o homem que a tinha resgatado. — O sinal de fumaça já foi enviado.

— Sinal de fumaça?

— É. O aviso de que um exército de vingança está vindo da capital. É por isso que há tanto barulho. — E também por isso o guarda tinha conseguido chegar até ela com tanta facilidade.

— Obrigada. Você me ajudou muito — disse Maomao, com sincera gratidão. Se tivesse ficado presa ali, a situação poderia ter terminado mal.

— Certo, bem, eu estou indo embora — disse o homem. — Um último conselho, se você quiser ouvir. Bem em frente daqui tem uma escadaria que desce, mas é melhor evitar. Muita coisa ruim acontece lá embaixo, e é um lugar bem movimentado. Se for fugir, fique longe das escadas. Vá até os estábulos e roube um cavalo ou algo assim.

— Coisa ruim?

— Acho que estão fazendo pólvora. Você vai perceber na hora, o cheiro é horrível.

Os olhos de Maomao brilharam. — Mais uma vez obrigada. Estou indo.

— Ei! Você estava mesmo me ouvindo? — o homem gritou, mas Maomao o ignorou e seguiu direto para o porão.

[Noelle: Essa garota é perturbada kkkk]

Maomao desceu as escadas, mantendo uma das mãos apoiada na parede fria. As pedras transmitem as vibrações do que quer que estivesse acontecendo mais abaixo. Quando finalmente conseguiu vislumbrar o nível inferior, descobriu várias dezenas de homens trabalhando. As roupas deles deixavam os ombros à mostra, e ela sentiu um cheiro característico, não tanto de enxofre queimando, mas de fezes de animais fermentando. Então aquela era a origem do odor que, de vez em quando, subia até onde ela estava.

Havia uma pilha de montinhos pretos. Esterco de animais de fazenda? Perguntou-se Maomao. Mas era pequeno demais para isso, mais próximo do tamanho de fezes de rato ou de alguma outra criatura pequena. Ela tinha ouvido dizer que excrementos de animais selvagens podiam servir como componente do salitre, seria isso que eles estavam fazendo?

O porão estava mais quente do que ela esperava; provavelmente mantinham a temperatura alta para ajudar a secar a pólvora que produziam. Francamente, era assustador. Havia um braseiro afastado, cercado por uma cortina para evitar faíscas, mas e se alguma escapasse mesmo assim? Será que os homens ali sabiam o quão perigoso aquele ambiente era? Mesmo que nada explodisse, respirar aquele ar por muito tempo acabaria sendo tóxico por si só. Não era um bom lugar para trabalhar.

A pólvora pronta era levada para fora por outra saída. Enquanto observava, Maomao ouviu passos atrás dela. Escondeu-se rapidamente atrás de uma prateleira próxima, o coração batendo tão forte nos ouvidos que temeu que quem passasse pudesse escutá-la.

Quando finalmente viu quem era, só conseguiu encarar: era Shisui, com uma expressão sombria. Por outro lado, talvez fosse mais apropriado chamá-la de Loulan, vestida como estava com um traje ostensivo muito parecido com o da mãe. Ela parecia completamente deslocada naquele porão sombrio que cheirava a excremento.

— Loula… — começou Maomao, mas Loulan não pareceu ouvir; havia algo feroz em seus olhos enquanto ela avançava para dentro do porão. Os homens começaram a murmurar ao notá-la. Um deles deu um passo à frente, inquieto, devia ser o encarregado.

— Jovem senho…

— Saiam daqui, agora — disse Loulan, a voz ecoando pelo salão subterrâneo. Os homens se entreolharam, sem entender o que estava acontecendo. — Esta fortaleza vai cair em breve. Quero que vocês saiam antes que isso aconteça.

Ela tirou uma grande bolsa das dobras das vestes e a jogou no chão. Moedas de prata se espalharam, atraindo a atenção dos homens; eles começaram a se empurrar para pegar o dinheiro. Quando Loulan se certificou de que todas as moedas tinham sido recolhidas, ergueu a lanterna que segurava acima da cabeça, e a arremessou com toda a força.

Ela não pode estar falando sério.

A lamparina voou pelo ar e caiu bem no meio da pólvora que estava secando.

— Certo, saiam daqui. Se conseguirem — disse ela, com aquele sorriso inocente no rosto. Maomao cobriu imediatamente os ouvidos e se jogou no chão. As palmas das mãos mal conseguiram amortecer o estrondo que atacou seus tímpanos. Vários homens a chutaram ou pisaram nela enquanto se atropelavam para fugir.

As explosões se espalharam, primeiro o carvão e depois os excrementos de animais pegando fogo.

Tenho que sair daqui, rápido, pensou Maomao, mas naquele exato momento viu alguém tropeçar dramaticamente de lado. Vários pares de pés pisaram no tecido refinado da roupa da figura, manchando-o. Maomao agarrou a mão da pessoa e puxou.

— Oh? O que você está fazendo aqui, Maomao? Achei que estivesse em uma das celas. — Loulan, com o cabelo completamente despenteado, olhava para ela com perplexidade. Não, não parecia Loulan, naquele momento, seu ar inocente fazia-a parecer Shisui.

— Eu ia te perguntar a mesma coisa — disse Maomao, com um toque de irritação. Loulan então estendeu a mão e tocou a bochecha dela, a orelha direita.

— Você está bem? Não se machucou?

— Meu guarda me ajudou. E as cobras estavam deliciosas, obrigada. — Maomao entendia que tinha sido deliberado, o modo como Loulan sugeriu o taibon como punição; aquilo acabou fazendo parte do plano dela, à sua própria maneira. E fazia tempo que Maomao não comia carne de cobra; ela tinha apreciado.

— Hum, não tenho certeza do que você quer dizer com isso. Embora eu esperasse que a punição combinasse com você.

Ela não sabia do que Maomao estava falando? Vindo da garota que comia insetos feliz da vida, pensou Maomao. Mas não importava; naquele momento, precisavam sair dali.

— Vamos sair daqui, rápido. — Maomao pressionou a manga contra a boca de Loulan e começou a procurar uma forma de escapar do porão sem serem vistas. Com a intenção de deixar a fortaleza o mais rápido possível, tentou arrastar a outra mulher consigo. Loulan, porém, fez menção de subir as escadas.

— O fogo só vai se espalhar — disse Maomao.

— Tudo bem. Eu preciso subir.

Então Loulan começou a subir os degraus, a saia danificada arrastando atrás dela. A fumaça agora subia em ondas, invadindo o nariz de Maomao e fazendo seus olhos lacrimejarem. Se o fogo não as alcançasse, os gases tóxicos alcançariam.

— Espera. Você vem também?

Não acredito que eu sou tão idiota, pensou Maomao, e então disse:

— Acho que sim.

Teria sido simples para Maomao fugir sozinha; os homens de antes já corriam para a saída da fortaleza, empurrando-se para serem os primeiros a sair.

— Se minha mãe descobrir, não vai ser nada bonito. Eu a conheço. Ela vai querer saber como isso aconteceu, mesmo que isso signifique ficar por aqui. Vamos ter sorte se escaparmos só com algumas chicotadas.

Loulan parecia abatida; não soava como alguém falando da própria mãe.

— Pelo menos parece que ela valorizou você enquanto crescia, Loulan.

Loulan tinha dito antes algo sobre apanhar se não conseguisse amarrar o cabelo ou fazer uma massagem direito. Mas era difícil imaginar aquilo acontecendo com alguém com sua posição social.

— Minha mãe... Ela nem consegue lembrar do meu verdadeiro rosto. — Desde que conseguia se lembrar, Loulan era pintada com batom e pó para clarear o rosto. Qualquer felicidade ou tristeza que demonstrava era para a mãe, como se fosse uma boneca. Como se usasse uma máscara.

Antes dos dez anos, ela soube da existência da irmã mais velha quando uma das criadas morreu depois de uma surra especialmente violenta dada pela mãe de Loulan, e seu pai acolheu a filha da mulher. Quando Loulan viu a mãe confrontar o pai por causa disso, o cabelo espalhado como o de um demônio enfurecido, teve certeza de estar vendo o próprio inferno.

— Mamãe sempre foi cruel com minha irmã mais velha — disse Loulan. Ela percebeu que Shenmei devia ter sido igualmente brutal com a mãe de Suirei, o que levou à morte da mulher. E então descobriu por que Shenmei odiava tanto a irmã mais velha. — Ela perguntou se ele pretendia fazê-la de tola na frente da mãe e da filha. Disse que a filha era igual à mãe, uma prostituta que faria sabe-se lá o quê. Foi a coisa mais estranha ver alguém com roupas tão magníficas dizer palavras tão sujas.

— Será que Suirei é...? — Maomao lembrou-se do que Shenmei tinha dito ao lamber o sangue de Suirei.

— Você não ouviu os rumores no palácio interno? Havia uma dama da corte, a primeira vítima do antigo imperador, que tiraram o filho dela. Aquela mulher era a avó da minha irmã mais velha.

Essa mulher tinha morrido sozinha e abandonada no palácio interno. Nos últimos anos, diziam que seu único prazer era reunir histórias assustadoras.

— Lembra quando quase todo mundo ficou sufocado contando histórias de terror? Pode ter sido obra daquela velha senhora. Depois de minha mãe ter feito coisas tão terríveis com ela, como ela não me odiaria, sendo eu filha dela? — Loulan riu baixinho.

— Nem podemos afirmar se fantasmas realmente existem — respondeu Maomao. Não tinha como saber. Pelo menos, na opinião dela.

— Por que não me surpreende que você diga isso? — disse Loulan, sorrindo. — Eu queria tanto ver minha irmã mais velha. Às vezes eu me infiltrava na casa dela vestida como criada. Mamãe nunca me reconhecia e me fazia trabalhar. — Loulan, porém, naturalmente não tinha treinamento para aquelas tarefas e muitas vezes sentia o golpe do leque dobrável de Shenmei. Apesar das pancadas, continuava indo ver a irmã. E, de alguma forma, Shenmei nunca percebia quem estava “disciplinando”. Via apenas uma criada insignificante, não a sua boneca preciosa que obedecia a cada palavra.

— Você sabe por que meu pai e minha mãe se casaram? — disse Loulan. — Eles só queriam me ter. Meu pai carregava o sangue da vila oculta, supostamente a mesma linhagem de Wang Mu.

Maomao se lembrou das máscaras de raposa. Loulan havia pintado um padrão no dela como um tanuki mercurial. Talvez, para ela, o mundo das cores fosse o mesmo que tinha sido para Wang Mu.

— Mamãe vivia me dizendo que o que eles queriam era que eu me tornasse uma nova Wang Mu. — Com isso, Loulan parou diante de um quarto no terceiro andar. Se Maomao se separasse dela agora, nunca descobriria o que Loulan estava planejando, e ela queria saber.

— Ei... — Maomao hesitou por um segundo, sem saber como continuar. Estava falando com Loulan ou com Shisui? Não tinha certeza, mas, no fundo, sabia quem era a mulher diante dela. E então disse: — ...Shisui.

— Sim? — perguntou Shisui, sorrindo, com a mão na porta.

— Eu sei que havia substâncias circulando no palácio interno feitas para provocar aborto. Você também guardava alguma? — Shisui continuava sorrindo. — Para usar em si mesma?

A expressão dela não mudou. Ela apenas abriu a porta.

— Você realmente é perspicaz, Maomao. Eu sabia que tinha sido a escolha certa trazer você aqui.

Maomao se lembrou da história assustadora que Shisui tinha contado, sobre os insetos com um canto como o som de um sino. Era um tipo de inseto que Shisui tinha capturado certa vez no palácio interno. E o antigo apotecário dali havia escrito extensamente sobre eles em seus livros. Era possível mantê-los em uma gaiola; produziam o som mais bonito. Mas, quando o outono chegava, os insetos se devoravam. A fêmea comia o macho. Fazia parte do ciclo reprodutivo deles.

Aquele parecia ter sido o ponto da história de Shisui, mas por que ela escolheu contar aquela história naquele momento? Agora Maomao achava que sabia. Ela estava falando de si mesma.

Se ela engravidasse, devoraria o pai da criança.

A gaiola era o palácio interno; os insetos macho e fêmea, o Imperador e suas mulheres. Não era uma alegoria muito respeitosa, mas se encaixava perfeitamente. Shisui tinha medo disso. Perto da área onde ela capturava os insetos, havia plantas lanternas-chinesas e flores-brancas, ingredientes para um abortivo.

Elas entraram no quarto. Havia uma cama grande, com crianças dormindo sobre ela. Kyou-u também estava ali; só ele estava no chão.

Deve ter rolado da cama, pensou Maomao. Ela odiava acordá-los, mas precisavam tirar as crianças dali. Aproximou-se da cama, e parou. 

— O que é isso?

Havia algo errado. Saliva escorria da boca das crianças, e as mãos delas se agarravam aos lençóis. A pele estava fria. Maomao segurou o pulso de uma delas e procurou sentir a pulsação.

— Ele não está respirando.

Sobre a mesa ao lado da cama havia uma jarra e copos suficientes para todas as crianças. Shisui, com os olhos cheios de compaixão, aproximou-se da cama e estendeu a mão para tocar as crianças.

Furiosa, Maomao ergueu a mão dramaticamente, mas conteve o impulso de fazê-la descer sobre Shisui.

— Você envenenou elas?

— Era remédio...

Maomao fechou a mão trêmula em punho.

— Nós já revelamos nossas cartas — disse Shisui. — Não consegue ver? Todo o nosso clã será executado. — Inclusive as crianças pequenas. Elas também seriam levadas à forca, sem entender o que seus pais tinham feito. — Misturei com um suco doce para elas. Em um quarto agradável e aquecido, depois de termos apreciado juntos um pergaminho ilustrado. Será que alguma delas ficou triste? Será que queriam dormir com as mães? Me desculpem, pequeninas. Mas as mães de vocês eram amigas da minha. Kyou-u chegou tarde... Deve ter sido porque estava tentando ajudar você, Maomao. — Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dela. — Ele, eu acho que sabia. Vi ele morder o lábio, mas mesmo assim bebeu todo o suco. Eu realmente não queria trazer ele aqui.

— E por que você me trouxe aqui?

Shisui sorriu como se Maomao devesse saber.

— Eu esperava que houvesse outra maneira de trazer você até aqui, mas simplesmente não deu certo.

Então era assim. Maomao deixou a mão cair. Houve um estrondo pesado vindo de fora, mas ela não conseguia desviar o olhar do rosto de Shisui.

— Dizem que mamãe não era assim antes, mas eu duvido. Pelo menos, desde que eu nasci, é assim que ela é. Ela atormentava minha irmã mais velha toda vez que a via, e também as jovens damas de companhia. Ensinava suas parentes mulheres a beber e a se entregar aos homens. Papai nunca dizia nada; ele nunca conseguia enfrentá-la. Só esperava que ela o perdoasse.

A mãe de Shisui, Shenmei, era maluca. Era evidente.

— Ela é como um inseto, que consome o marido quando nasce um filho. Na verdade, os insetos são melhores. Pelo menos fazem isso para que seus filhotes sobrevivam.

Shisui odiava a ideia de se tornar mãe, tanto que preparava e consumia seus próprios abortivos. Maomao sentia que estava descobrindo o motivo mais importante disso. Nem todas as mães eram como Shenmei. Mas Shenmei era a única mãe que Shisui tinha.

— Tomei a liberdade de aprender um pouco sobre o seu passado, Maomao. Parece que sua criação não foi tão diferente que da minha irmã. — Ou seja, talvez tivesse sido criada por um antigo médico, ou que seu pai biológico fosse um alto oficial.

— Eu não tenho pai nem mãe. Só meu pai adotivo — disse Maomao.

— Hee! Minha irmã diz o mesmo tipo de coisa. Bem, acho que faz sentido. Ela vive jurando que não é minha irmã mais velha.

Onde Shisui queria chegar?

— Acho que ela tem razão. Não tem como ela ser minha irmã. Nosso pai é um tanuki. Tenho certeza de que ele tem algum grande plano, tentando colocar as mãos na linhagem do Imperador.

Não era irmã de Shisui? Aquela era a forma dela de dizer que a Suirei não tinha ligação com o clã Shi?

Que mentirosa.

Shisui era, de fato, muito parecida com Suirei, especialmente com a expressão inexpressiva que agora usava. Ela adorava a irmã mais velha, e ainda assim, naquele momento, negava que aquele vínculo existisse.

— Se ao menos esses pequeninos fossem insetos, talvez pudessem dormir durante o inverno — disse Shisui, passando a mão nas crianças mais uma vez.

Sim, se fossem insetos...

Maomao entendeu. Agora sabia por que Shisui a queria ali. Olhou para ela sem dizer nada. Havia um brilho de lágrimas nos olhos de Shisui. Maomao estava prestes a estender a mão, mas Shisui balançou a cabeça.

Ela também pode fugir! Mas nem mesmo ela fazia ideia do que Shisui poderia fazer depois disso. Maomao não entendia nada de política; pouco se importava com o assunto. Só queria aprender o máximo possível sobre medicina, pesquisar, estudar e inventar novos remédios. Era tudo o que desejava da vida.

Deveria ser suficiente.

Esqueça os outros. Coloque a si mesma em primeiro lugar. O que pensaram que aconteceria ao trazê-la até ali?

Ainda assim, Maomao estendeu a mão.

Shisui a afastou. — Eu tenho o meu próprio papel a cumprir. Por favor, não me impeça.

— Há algum sentido nisso? — Maomao não sabia para onde Shisui estava indo, mas o desfecho era fácil de imaginar.

— Teimosia. Minha.

— Apenas esqueça isso!

Shisui sorriu de forma travessa. — Pense assim, Maomao. Digamos que lhe apresentassem um veneno que você nunca viu antes, e dissessem que teria apenas uma chance de experimentá-lo. O que você faria?

— Eu beberia até a última gota — respondeu imediatamente. Que outra resposta poderia haver?

— Imaginei. — Shisui se levantou, sorrindo, e saiu do quarto, com passos leves como se estivesse simplesmente indo às compras.

Ela está indo embora...

Maomao não sabia o que fazer; não tinha ideia do que aquele momento exigia. Tentou encontrar as palavras certas, mas nada saiu. Só conseguiu estender a mão e segurar a de Shisui.

— Pelo menos me deixe fazer uma oração.

— Uma oração? Isso não combina com você, Maomao.

— De vez em quando. Uma vez na vida. — Maomao tirou o grampo de cabelo dos próprios cabelos e o colocou na gola de Shisui.

— Você sabe que esse não é o meu cabelo, certo?

— Se eu colocar no seu cabelo, você vai ficar bonita demais. — A cabeça de Shisui já estava cheia de grampos. Diziam que esses adornos afastavam espíritos malignos, mas tantos de uma vez pareciam mais capazes de atraí-los. — Me devolva algum dia. Foi um presente.

— Você é boba. Vou vender.

— Tudo bem, então. — Aquele prendedor em particular era simples, mas de uma qualidade incomum. Quem o tinha dado a ela podia ser especialmente teimoso, então havia toda a possibilidade de que, assim como o dono original, ele encontrasse um jeito de voltar para ela.

— Você está com fuligem. — Maomao ergueu um espelho que estava ao lado da cama.

— Ah, é mesmo. Estou parecendo um tanuki. — Shisui riu. Riu, e então olhou para Maomao. — Você sabe o que precisa fazer. — Ela se virou.

A porta se fechou com um estalo. Os passos dela ficaram cada vez mais distantes.

Maomao se viu olhando para o teto sem saber bem por quê. Apenas inclinou a cabeça para trás e ficou encarando. O prédio tremia com uma sequência de explosões cada vez mais altas.


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Kessel: Acho essa cena tão forte e bonita. A oração da Maomao. Vou colocar o painel do mangá aqui, para vocês também poderem visualizar a cena.

 

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