Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 4

Capítulo 15: A Fortaleza

Elas deixaram o vilarejo das fontes termais e seguiram sacolejando numa carruagem por meio dia, até chegarem a algo que parecia uma fortaleza. Maomao foi deixada em um dos aposentos.

— Eu nunca tive a intenção de trazer você para cá — informou Suirei. Sua bochecha estava vermelha e inchada. Ela sempre parecia quieta e séria, mas agora sua expressão estava mais sombria do que nunca. Ela nunca tinha sido exatamente do tipo alegre, mas uma nuvem parecia pairar sobre ela. Maomao entendia o motivo, depois de ter presenciado o que aconteceu no armazém.

Maomao tinha se esgueirado para dentro do armazém, onde foi descoberta por uma mulher de meia-idade chamada Shenmei. E Shenmei chamou Shisui pelo nome Loulan.

Agora eu entendo, pensou Maomao. Ela já suspeitava, seria estranho se ela não tivesse percebido nada. Maomao encontrou a Concubina Loulan apenas uma vez, quando deu uma aula especial para as quatro favoritas do Imperador e suas damas de companhia. Loulan, vestida com roupas extravagantes, assistiu à explicação sem demonstrar nenhuma emoção. A Concubina Gyokuyou, que estava claramente se divertindo, e a Concubina Lihua, sempre estudiosa, haviam feito perguntas. A Concubina Lishu não estava em condições de perguntar nada, pelo que Maomao se lembrava. Mas a Concubina Loulan não só não fez pergunta nenhuma como quase não falou durante todo o tempo.

Na época, Maomao não pensou muito nisso, é claro que uma nobre não se sentiria obrigada a conversar com uma simples criada como ela, mas agora ela entendia. Maomao percebeu que Shisui, não, Loulan, era bem-educada pelos objetos que possuía e pelas nuances do seu comportamento. Ela se escondeu da Imperatriz Viúva para que não percebessem quem Shisui realmente era. Provavelmente pelo mesmo motivo tinha ido até outra concubina quando Lishu apareceu no banho. Maomao, por sua vez, não notou nada de estranho quando se conheceram por causa de Maomao, a gata, então Loulan não tomou muito cuidado perto dela depois disso.

Mas ela é uma ótima atriz. Tirando sua notável predileção por insetos, Loulan era uma jovem perfeitamente comum. Podia beliscar petiscos com Xiaolan e conversar sobre os últimos boatos. Ela era como um tanuki, famoso por sua habilidade de se transformar. Seu disfarce enganou a todos.

— Vamos chicoteá-la — disse Shenmei ao encontrar Maomao. Ela soava quase animada; sua voz tinha a mesma leveza de quem sugere um chá no jardim. — Você acha que cem chibatadas bastam? Vá preparar o poste de açoite.

— Lady Shenmei... — começou Suirei. A mão de Shenmei se moveu no instante em que ela começou a falar, o leque que ela segurava atingiu novamente a bochecha de Suirei. Suirei deu um passo atrás, mas permaneceu inexpressiva e olhou para o chão. Estava pálida, e sua mão tremia levemente; sua respiração estava tão ofegante quanto depois do encontro com a cobra.

Isso é ruim, muito ruim, pensou Maomao, sentindo o suor brotar pelo corpo. Agora entendia por que Kyou-u tremia tanto: aquela mulher era perigosa. Havia certos nobres que você nunca ia querer encontrar, e aquela mulher era uma dessas pessoas. Pior ainda, Maomao era menos que um inseto aos olhos dela. Ela foi pega bisbilhotando onde não devia; claro que a mulher daria um fim nela sob o pretexto de “discipliná-la”.

— E quanto a essa criancinha? O que faremos com ele? Suponho que também precise aprender boas maneiras. — Kyou-u, apavorado, agarrou-se a Maomao.

— Honrada mãe... — Loulan, com um chamativo adorno de cabelo balançando entre os fios, deu um passo à frente, a voz fria como o tilintar de um sino. — A senhora não disse que precisávamos de um novo apotecário? — Então olhou para Maomao, mas seus olhos estavam vazios, como os de uma boneca de porcelana.

O rosto de Shenmei se contorceu por um segundo, mas ela logo cobriu a boca com o leque e examinou Maomao.

— Ela não se parece com nenhum apotecário que eu já tenha visto.

— Eu concordo. Mas, acredite ou não, ela tem mais de trinta anos. Passou a vida testando remédios em si mesma, a ponto de envelhecer mais lentamente que as pessoas comuns.

Loulan pegou a mão esquerda de Maomao e arregaçou sua manga, revelando o braço envolto em ataduras. — Não sei qual das misturas foi. Mas uma delas parece estar ligada ao elixir da imortalidade. Talvez ela o encontre, desde que não fracasse e morra como o último homem. — Loulan soava completamente indiferente.

Elixir da imortalidade? “O último homem”?

Shenmei franziu a testa, claramente desapontada. — Se você diz. Então, que seja. — Ela jogou o xale do vestido para trás e se virou para a emissária estrangeira que observava atrás dela. — Vamos retornar a nossa conversa, Lady Ayla?

Shenmei conseguiu soar condescendente mesmo usando o tratamento respeitoso. A emissária estrangeira, com o véu sobre a cabeça, seguiu atrás dela. Ainda assim, ambas eram mulheres de grande orgulho, e cada uma lançava olhares nada amigáveis à outra enquanto caminhavam.

Maomao estava prestes a suspirar de alívio quando Shenmei parou. — Essa sua apotecária não pode trabalhar direito neste lugar. Vamos levá-la de volta à fortaleza conosco. — Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios pintados.

O que nos traz ao momento presente.

Maomao se viu em um depósito que, segundo lhe disseram, era o aposento usado pelo apotecário anterior. Estava um pouco desorganizado, mas havia vários objetos típicos de apotecário espalhados, além de um baú de vime abarrotado de livros.

Maomao olhou para Suirei. — Vocês são meias-irmãs? De mães diferentes? — Não era bem uma pergunta, mas uma confirmação.

— Ela é a única que me trata como irmã mais velha.

O que mais havia a dizer, exceto que isso explicava muita coisa? Maomao ouviu que Loulan era a única filha de Shishou. Considerando o quão temível era a esposa dele, ela dificilmente pareceria do tipo que trataria de forma igual uma criança que não tivesse gerado. Na verdade, parecia que mal queria que Suirei existisse.

— Lady Shenmei me despreza. Isso a leva a fazer essas coisas — disse Suirei, esfregando a bochecha vermelha e inchada.

Maomao teve um pensamento. — Posso perguntar uma coisa?

— O quê?

— É possível que Shisui seja o seu primeiro nome?

Loulan parecia gostar excessivamente do nome Shisui. Era um nome perfeitamente comum, mas combinava o “Shi” do clã Shi com o “sui” de Suirei. Simples demais para um pseudônimo. Além disso, as versões mais comuns usariam o caractere “roxo” para shi, ou talvez “descendente”. Loulan escolheu caracteres incomuns, mas o som era o mesmo.

— É isso mesmo — disse Suirei. — Mas quando Lady Shenmei voltou do palácio interno, ela não suportava a ideia de mim. Ela odiava que um dos caracteres do meu nome estivesse ligado ao clã.

Primeiro Shenmei expulsou a jovem Suirei e sua mãe da mansão, depois as tratou como criadas. Por fim, ela tomou até o nome de Suirei, entregando-o à própria filha biológica como se fosse um simples apelido de infância. Como se tivesse feito isso por puro despeito.

Assim, Shishou tinha duas filhas, mas uma tinha sido criada no colo de toda a elegância da corte, oferecida como uma flor ao Imperador, enquanto a outra foi envolta em escuridão para semear discórdia no palácio interno. Agora Maomao entendia por que os assassinos haviam tentado matar Jinshi, se fossem agentes de Shishou. Até Maomao já ouviu mais de uma vez sobre a grande divergência de opinião entre os dois homens a respeito de como o palácio interno deveria ser administrado.

Mas algo ainda incomodava Maomao. Ela tirou o grampo de cabelo e o observou. Shisui, não, Loulan, disse que era valioso. Mas havia alguém que podia se dar ao luxo de simplesmente dá-lo de presente. Alguém que exercia grande influência mesmo fora do palácio interno, apesar da pouca idade. 

Jinshi. O homem que era mais do que um simples eunuco, na verdade, que nem sequer era um eunuco. Maomao encarou o grampo de cabelo, e então parou.

— O que foi? — perguntou Suirei, observando-a.

— Quando você entrou no palácio interno como eunuco, como fizeram o exame?

— Pergunta meio repentina, não é? — disse Suirei, olhando para o chão. Quase parecia envergonhada. Mas então respondeu: — É um exame físico. Eles apalpam você por cima das roupas íntimas. Nem precisa tirar nada.

Foi assim que Suirei conseguiu entrar. Ela nunca teve o que eles estavam procurando, e provavelmente nunca ocorreu a eles que uma mulher pudesse entrar disfarçada de eunuco. Era mais fácil do que fazer um homem passar pelo mesmo teste.

— Existe alguma chance de um homem não castrado conseguir?

— Três oficiais examinam você, de três departamentos diferentes. Seria difícil subornar todo mundo.

Se um dos três não aceitasse o suborno, os outros poderiam esperar algo pior do que uma simples surra quando viesse à tona que haviam deixado um homem entrar no palácio interno. Risco demais por uns trocados. Nunca que seria possível convencer todos a cooperar.

Então, como Jinshi entrou?

— Só alguns poucos homens podem entrar e sair do palácio interno quando querem... — Ou seja, o Imperador e seus parentes diretos. Não... As idades não batem. Mas...

Ela sempre achou que Jinshi era mais jovem do que aparentava. Não uma criança, ela não chegou a tanto, mas ele transmitia uma impressão claramente juvenil. Embora suspeitasse que pouquíssimas outras mulheres no palácio interno concordariam com ela.

Maomao permaneceu em silêncio por um longo momento.

— No que você está pensando? — perguntou Suirei.

— Ah, em nada.

Certo, melhor deixar isso de lado por enquanto.

Pensando bem, parecia que Jinshi havia tentado ter alguma conversa importante com ela durante aquela caçada, será que tinha a ver com isso? Se ela não percebeu, a culpa era dele por ter aqueles bezoares de boi tão incríveis por perto. Bezoares de boi deixavam as pessoas loucas. Coisas assustadoras!

Mas, de qualquer forma, ela precisava pensar na situação atual em que se encontrava. Tinham viajado cerca de meio dia de carruagem desde a vila das fontes termais. Pela posição do sol que ela conseguiu vislumbrar através da cortina, eles haviam seguido para o norte. Em parte do trajeto, a paisagem ficou branca, e começou a nevar.

Então estamos bem ao norte ou nas montanhas, pensou Maomao. Shenmei tinha falado de uma fortaleza. E, de fato, o lugar tinha muralhas altas ao redor e um penhasco na parte de trás. Mais uma fortaleza do que um castelo. Aquela mulher tão refinada... em uma fortaleza? Ela não parecia do tipo que pisaria em um lugar assim. Por outro lado, isso poderia ser apenas preconceito de Maomao; por experiência própria, ela sabia como mulheres nobres podiam ser difíceis e teimosas. Ainda assim, aquilo parecia exagero.

Era quase como se Shenmei se visse em guerra.

Espera...!

Maomao pensou na feifa que tinha visto no armazém. Pensou em como era estranho que uma emissária estrangeira como a mulher chamada Ayla estivesse num lugar como aquele. Então é isso que está acontecendo...

Já fazia algum tempo que circulavam rumores de que os emissários estavam em negociações secretas com alguém. E se fosse com o clã Shi? E se fosse assim que a feifa novinha em folha tivesse chegado?

E se a arma tivesse sido desmontada para que pudessem entendê-la e, assim, produzir mais?

— Vocês estão planejando começar uma guerra?

Suirei, que já estava prestes a sair do quarto, parou.

— Não cabe a mim decidir isso. Considerando o que Lady Loulan disse, eu sugiro que você comece a preparar o remédio.

— Ah, não precisa pedir duas vezes. Nem precisa pedir.

— Ótimo. Vai ter comida. Há um banheiro no próximo cômodo, no fim do corredor, se você precisar. E, faça o que fizer, não deixe Lady Shenmei irritada.

É... Faça o que eu fizer...

Maomao não sabia que tipo de punição a aguardava se ignorasse aquele conselho. Mas Suirei saiu do quarto sem olhar para trás.

Certo, o que fazer agora? Maomao olhou ao redor, pensativa. A entrada estava trancada; as janelas tinham grades, e o chão lá fora estava coberto por uma espessa camada de neve branca. Suirei nem se deu ao trabalho de dizer para ela não tentar fugir. Era porque escapar era impossível? Ou era o jeito dela de dizer: se for tentar, pelo menos faça direito?

Ela abriu a porta e encontrou um corredor estreito; no fim dele ficava o banheiro. Normalmente, instalações assim ficavam do lado de fora ou, no mínimo, no térreo, mas ela estava no terceiro andar. Não devia ser nada fácil manter aquilo limpo. Pelo visto, porém, estavam mais preocupados em impedir qualquer chance de fuga do que com praticidade.

Disseram que havia outro apotecário aqui antes de mim... Ele também ficou confinado? Disseram que ele morreu ao testar uma das próprias fórmulas. Hum. Faz sentido... e ao mesmo tempo, não. Maomao cruzou os braços e decidiu deixar o assunto de lado por enquanto. Havia coisas mais importantes a fazer.

Sim, coisas como...

Maomao começou a sorrir ao se aproximar do grande baú de vime bem fechado e levantar a tampa. Ele estava praticamente transbordando de livros. Ela também estava curiosa sobre o armário de remédios encostado na parede, mas aquilo podia esperar.

— Ah... Ahhh! — exclamou, sem perceber. Para ela, o baú de vime era praticamente um baú de tesouro. Começou a vasculhar o conteúdo, rindo como uma louca.

[Noelle: Só a Maomao mesmo que fica rindo como louca quando está em uma situação de sequestro kkkk]

Era sempre Suirei quem trazia suas refeições, que consistiam em sopa e um acompanhamento de legumes, nada mal, mesmo que geralmente estivessem um pouco frios. Havia muitos ingredientes secos; quase poderiam ser considerados rações de viagem.

Maomao sentou-se na cama com as pernas cruzadas. Já tinha folheado todos os livros do quarto. Achava que tinha levado cerca de cinco dias, embora fosse difícil ter certeza. Não era exatamente educado apoiar o queixo nas mãos com os cotovelos à frente, mas não havia ninguém ali para repreendê-la.

Uma guerra. Que coisa mais absurda de se esbarrar.

Maomao lançou um olhar pela janela por um instante. Lá fora, tudo era branco, a colheita provavelmente já tinha acabado, e eles estavam entrando na época do ano em que não havia trabalho no campo. Ela achava que já tinha ouvido alguém dizer que guerra era algo que acontecia quando os agricultores tinham tempo livre demais.

Pelo que conseguia ver pela janela, estavam em terreno muito elevado, com uma montanha às costas. Não era um lugar ruim para uma fortaleza. Ela desenhou um mapa na mesa com o dedo. Se estavam nas terras do norte, Shihoku-shu, então aquela fortaleza devia ficar bem na fronteira do país.

Maomao se jogou de costas na cama, puxando os próprios cabelos. Tentou imaginar um semicírculo ao norte da capital. Dez dias de barco. Depois a caminhada até a vila das fontes termais, e mais meio dia de carruagem. Havia montanhas naquela região?

Se eu soubesse que as coisas iam acabar assim, teria estudado!

Ela parecia lembrar que o exame para damas da corte incluía algumas questões de geografia. Mas toda vez que abria o livro para estudar, acabava dormindo, então mal se recordava do conteúdo. Lembrava-se, sim, de Suiren, dama de companhia de Jinshi, cutucando-a para acordá-la.

Agora eu até sinto falta dos cutucões.

Foi então que Maomao ouviu vozes exaltadas no corredor. Reconheceu uma delas. Curiosa, saltou da cama e encostou o ouvido na porta.

— Jovem mestre, você não pode brincar aí!

— Ah, por quê? Eu ainda não explorei esse lado!

Era Kyou-u. Devem tê-lo trazido junto com Maomao, ela se lembrava de Suirei franzindo a testa com a ideia. Também podia ouvir outras crianças atrás dele.

Espera... Tem outras crianças aqui?

— O que você está fazendo? Vai perder o lanche!

— Tanto faz! Ei, guarda um pouco pra mim!

Abalada pela percepção de que havia crianças naquela fortaleza, Maomao escorregou pela parede até sentar no chão e soltou um longo suspiro. O lugar podia ter sido construído como uma fortaleza, mas era óbvio demais o que aconteceria se fossem sitiados.

Até onde Maomao sabia, o atual Imperador era um governante relativamente misericordioso. Ainda assim, havia limites que não podiam ser ultrapassados. Uma dama da corte que tentou assassinar uma concubina de alto escalão foi condenada à forca, e sua família, mutilada. Certas medidas eram inevitáveis para que o Imperador mantivesse sua autoridade.

Então, imagine o que aconteceria se uma rebelião daquela escala fosse descoberta. Nenhum membro do clã seria deixado vivo. Nem mesmo crianças ou bebês. Era por isso que as crianças estavam ali? Porque alguém que entendia o que estava em jogo as trouxe para cá?

Maomao suspirou novamente. Abraçou os joelhos contra o peito e apoiou o queixo neles. Devia simplesmente esquecer todo mundo. Não tinha tempo para pensar nessas coisas.

E, ainda assim, seu coração estava insuportavelmente, inevitavelmente pesado.


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