Volume 4
Capítulo 16: Lahan
Algum tempo depois do meio-dia, um homem baixinho, com olhos de raposa, apareceu no escritório de Jinshi: Lahan. Gaoshun e Basen estavam ali com Jinshi, e lidavam com uma pilha de documentos ainda maior do que o normal.
— Então foi isso que aconteceu — disse Jinshi.
— É só uma hipótese, mas sim, é o que eu acho.
Lahan era um homem notável. Ser excêntrico, mas extraordinariamente bom em algo específico, parecia ser um traço da família La. Ao analisar minuciosamente o movimento de mercadorias e de metal, ele descobriu que o clã Shi estava tramando alguma coisa.
Lahan apontou para um ponto no mapa: uma fortaleza abandonada. Para qualquer um, até mesmo para uma família cujo serviço leal remonta aos tempos de Wang Mu, reconstruir uma fortaleza desativada para uso próprio só podia ser considerado um ato de traição. Jinshi quis levar as mãos à cabeça mas, em respeito ao fato de que já havia ali uma dupla de pai e filho com rugas profundas nas testas, ele se conteve.
Assim que disse a si mesmo que precisava se concentrar no que fazer, ouviu-se o tilintar da campainha da porta. Passos se aproximaram, e então a porta foi aberta com força.
— Posso perguntar o que está fazendo aqui? — A pergunta veio de ninguém menos que do estrategista de monóculo.
— Ah... Pai. — Lahan, que até um instante antes parecia tão confiante, franziu o cenho, dobrou o mapa sobre a mesa e apertou os lábios.
— Lahan, você não pode simplesmente invadir os escritórios de nobres! As pessoas vão entender errado. Muito errado! — Dizendo isso, Lakan se acomodou no sofá do escritório, o mesmo que ele próprio mandou trazer em uma de suas visitas anteriores. Ainda não o tinha levado de volta, então ele continuava ali.
[Noelle: kkkkkk eu racho o bico que ele tem um sofá dele no escritório do Jinshi kkkkk]
— Especialmente quando ninguém consegue dizer se o nobre que você está visitando é homem ou mulher — acrescentou, malicioso. Basen, ao lado de Jinshi, estava prestes a dar um passo à frente e retrucar, mas Gaoshun estendeu a mão para contê-lo.
Eles entendiam por que Lakan estava furioso. A filha dele tinha sido sequestrada bem debaixo do nariz deles, bem no palácio interno. Era um homem que já tinha invadido o palácio para procurar a filha; a única surpresa era ter demorado tanto para aparecer diante de Jinshi. Muito bem; Jinshi suportaria seus ataques. Era sua responsabilidade. Mas ele duvidava que Lakan tivesse vindo ali apenas para insultá-lo.
Lahan recuou, abatido, e se posicionou atrás de Gaoshun. Então havia coisas que nem mesmo aquele jovem conseguia enfrentar. Ele parecia sussurrar algo para Gaoshun; Basen o observava com desconfiança, claramente se perguntando quem era aquele intruso com ábaco.
Gaoshun chamou um mensageiro. O que quer que estivesse fazendo não parecia interessar ao estrategista, que se esticou no sofá e lançou a Jinshi um olhar frio.
— Eu entendo o que está dizendo, Mestre Estrategista. Foi minha própria negligência que causou isso — disse Jinshi. E ele entendia mesmo: ainda que fosse a primeira vez que ouvia falar da passagem secreta, ainda que ninguém soubesse dela antes, ela tinha sido usada para sequestro e fuga, e a responsabilidade recai sobre ele.
— Nunca ouvi palavras mais verdadeiras — disse Lakan. — O que eu quero agora é que você resgate minha filha. Imediatamente.
Ah, como tudo seria simples se ele fosse capaz de fazer isso! Naquele momento, Jinshi era claramente o inimigo de Lakan, e todos na corte sabiam que não era bom ter Lakan como inimigo. Ainda assim, até o estrategista devia perceber que um confronto aberto com Jinshi não serviria a ninguém. Ele tinha outro adversário, não Jinshi, mas Shishou.
Jinshi pensou no que levou o estrategista até seu escritório. O homem à sua frente não estava interessado em capturar os responsáveis por uma possível rebelião contra o trono: sua prioridade era resgatar sua querida e doce filha. Jinshi não conseguia imaginar exatamente o que ele estava pensando, mas era óbvio que ele decidiu que a maneira mais rápida de conseguir o que queria era indo até ele.
Um oficial de baixo escalão entrou com chá, mas, ao ver quem estava presente, e perceber a tensão no ar, pousou as xícaras rapidamente e saiu. Ninguém tocou no chá fumegante, que aos poucos foi esfriando. Se ao menos suas cabeças pudessem esfriar com a mesma facilidade, mas não era o caso.
— Você faz um trabalho lamentável nesse seu estado lamentável. E acha que as coisas simplesmente vão se resolver assim?
Jinshi entendia perfeitamente o que Lakan considerava “lamentável” nele. Sabia que o estrategista o enxergava por completo. Via que Jinshi tinha esculpido aquela posição para si como uma forma de fugir, porque não tinha confiança no lugar que deveria ocupar de verdade.
O olho por trás do monóculo se estreitou. Talvez Lakan estivesse tentando se sentir um pouco melhor, nem que fosse minimamente, ao encurralar Jinshi em seu próprio escritório. Basen parecia pronto para se lançar sobre Lakan, mas Gaoshun o conteve. Lahan observava, claramente desconfortável.
Os outros sons pareciam se dissipar em segundo plano; Jinshi ouvia com clareza apenas as palavras do estrategista. — O que mais você acha que pode fazer nesse seu disfarce lamentável de meio-homem? — A voz era implacável e cruel.
Por um longo momento, Jinshi não soube como responder. Finalmente abriu a boca, mas outra voz, mais calma, falou antes dele.
— Peço desculpas. Não fazia ideia de que o senhor nos via de forma tão depreciativa.
Eles perceberam um velho curvado parado na entrada. Atrás dele, alguns eunucos respiravam com dificuldade; carregavam um palanquim no qual evidentemente o tinham trazido às pressas. O velho, Luomen, fez um gesto de cabeça para eles e entrou no escritório, arrastando uma das pernas.
— Não, é claro, que tenha sido minha preferência pessoal me tornar um eunuco — disse.
Lakan acenou as mãos, em leve pânico, na direção do velho encolhido. — Ho-honrado Tio! Eu não quis dizer isso. Não estava falando do senhor!
— Não? E, ainda assim, aqui estou eu, um lamentável meio-homem. Nem consigo andar direito. Reduzido a passear de palanquim como um príncipe! De qualquer forma, não sou também culpado por não ter cuidado de Maomao adequadamente? — Seu semblante era quase de uma avó; seu olhar brando pousava sobre o estrategista de olhos de raposa. O militar de monóculo parecia tão acuado que chegava a ser quase ridículo.
— Ufa. Bem na hora... — murmurou Lahan atrás deles. Quando sussurrou para Gaoshun, devia ter sugerido que chamasse Luomen.
Lakan, Lahan e Luomen juntos formavam uma cena e tanto. Lakan, imperioso até pouco antes, agora parecia um garoto tentando acalmar a mãe aflita. Jinshi quase riu alto, mas se conteve com esforço. Ele olhou de relance para Gaoshun, que também tinha sulcos profundos na testa, provavelmente também segurando o riso. Apenas Basen parecia alheio ao que acontecia, um ponto de interrogação quase flutuando sobre sua cabeça enquanto ouvia a troca entre tio e sobrinho.
— Você sempre tende a ficar agressivo quando está com raiva. Mas precisa pensar com quem está lidando quando age.
— Eu sei disso, Honrado Tio. Até eu sei disso. Eu só respondi à altura do que foi dito a mim. Não vim aqui com a menor intenção de ir tão longe.
Jinshi mal tinha dito algo a Lakan, mas escolheu permanecer em silêncio sobre isso. Era o mais prudente.
— Assim espero. Talvez você possa dizer a ele o que realmente o trouxe aqui, então. Educadamente. — Luomen deu um leve tapinha no ombro de Lakan.
Em silêncio, Lakan se virou para Jinshi. Então se levantou, ajoelhou-se diante dele e pressionou o punho contra a palma da mão em um gesto de respeito.
— Venho em súplica. Humildemente peço que mobilize o exército para atacar o rebelde Shishou.
Lakan era um grande comandante, ou seja, secretário de assuntos militares. Jinshi entendia o que significava para alguém naquela posição pedir a mobilização do exército.
— O clã Shi parece estar fabricando feifas do tipo mais recente há anos — acrescentou Lahan. — Temos provas mais do que suficientes de sua traição.
Ele espalhou novamente sobre a mesa os documentos que já tinha mostrado a Jinshi. E isso sem mencionar a tentativa de assassinato contra Jinshi ou a fuga de Loulan do palácio interno.
— A corrupção deve ser erradicada e destruída o mais rápido possível — disse Luomen, embora tenha feito uma careta ao falar. O médico bondoso se entristecia profundamente com a ideia de guerra, mesmo contra rebeldes.
Além disso, ele sabia o que significava Lakan fazer aquele pedido a Jinshi. Por que o estrategista o tinha chamado de “meio-homem”.
Para que o governo agisse contra o clã Shi, seria necessário mobilizar o Exército Proibido, uma força comandada diretamente pelo Imperador. Não seria um capitão veterano como Lakan quem lideraria essas tropas, mas aquele que estava no ápice desta nação.
O Imperador, porém, não podia simplesmente se levantar e marchar para fora da capital. Sendo assim, seria necessário um substituto.
— Por quanto tempo pretende continuar nos enganando com essa falsa aparência? — disse Lakan, observando Jinshi através do monóculo. Ou melhor, observando o homem Ka Zuigetsu, que vestia “Jinshi” como uma segunda pele.
Zuigetsu engoliu em seco. Sempre soube que aquele momento chegaria. E agora tinha chegado.
Era hora de encarar isso.
[Noelle: Ah eu amo essa cena no anime, ela fica tão icônica <3]
[Kessel: É a melhor cena da obra inteira, até agora. Simplesmente o Clã La, suplicando pelo resgate de sua princesa, mesmo que isso signifique a guerra.]
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