Volume 4
Capítulo 14: O Escritório de Trabalho
Quando voltaram para a pousada, Suirei estava esperando por eles. Ela saiu no meio do dia para ir a algum lugar e eles não a viram desde então. Agora ela estava sentada a uma mesa com vários livros, lendo. Quando notou Maomao e os outros, fechou o livro com cuidado, a luz da lamparina tremeluzindo com o sopro de ar.
— Jantar? — ela perguntou.
— Se tiver alguma coisa para comer — respondeu Shisui, e Suirei pegou uma cesta da prateleira. Dentro havia pão youtiao frito. Ela serviu dois copos de leite de soja; o fato dela ter colocado um deles na frente de Maomao parecia significar que era aceitável para ela comer. Maomao pegou um pedaço de pão frio e meio duro e mergulhou no leite antes de comê-lo. O leite de soja era doce; parecia ter um toque luxuoso de mel.
O leite de soja era um simples subproduto da produção de tofu, mas o cheiro desagradável fazia com que a maioria das pessoas não gostasse muito dele. O aroma desse leite, porém, foi atenuado pela adição de gengibre fresco e era bastante agradável de beber.
As três mulheres sentaram-se ao redor da mesa redonda como se estivessem em três pontas de um triângulo, Maomao comendo em silêncio, Shisui relatando os acontecimentos do festival. Suirei olhou impassível para seu livro. Por um momento, Maomao pensou que o livro poderia ser sobre medicina e ela ficou muito interessada nele, mas acabou sendo uma enciclopédia de insetos. Não era um volume impresso e estava repleto de comentários manuscritos, tantos que mais parecia um caderno do que um livro propriamente dito.
Maomao olhou fixamente para Suirei.
— Que foi? — ela perguntou.
— Nada. Só pensei que já estava na hora de você cumprir sua parte do nosso acordo.
— Você quer dizer sobre a droga da ressurreição? — Ah, sempre é bom trabalhar com alguém que entende rápido. — Você entende a posição em que está? — Suirei exigiu. Maomao era, na verdade, uma refém, embora tenha sido muito bem tratada. Bastante razoável: se ela tentasse fugir, elas quase certamente a alcançariam meio que imediatamente. E se ela conseguisse escapar de alguma forma, não havia cidades ou vilarejos próximos onde ela pudesse pedir ajuda. E ela não sabia andar a cavalo, pelo menos não rapidamente. Mesmo assim, ela teria esperado pelo menos ficar confinada em algum lugar, ou talvez amarrada. A maneira como as duas mulheres agiam não parecia fazer sentido. Se ela perguntasse o que elas queriam, elas poderiam realmente contar, mas ela tinha coisas mais importantes em mente no momento.
— Baiacu e erva-do-diabo? E qual é a proporção? O que mais você adiciona? De quanto você precisa?
Suirei não respondeu imediatamente.
— Conte-me como é logo após você reviver. Presumo que você não seja capaz de se mover imediatamente. — Sem perceber o que estava fazendo, Maomao deslizou para mais perto de Suirei, provocando uma carranca na mulher. Sua mão estava tremendo. Isso não tinha acontecido antes.
Depois de outro momento, Suirei disse: — Não acho que você precise de erva-do-diabo.
— Não precisa? — Maomao respondeu.
— Foi escrito em uma fórmula de outro país. Mas acho que a intenção era manter um estado catatônico para produzir escravos artificialmente. Ouvi dizer que essa era a aplicação original da droga. — Então ela ergueu a mão esquerda, trêmula, um membro que já havia funcionado perfeitamente bem antes. O tremor foi resultado da droga da ressurreição. — Eu não voltei com nada pior que isso, mas um erro grave poderia ter custado minha memória.
Ela não falou como se isso fosse especulação; ela parecia certa, então deve ter havido outras cobaias além de Suirei. A criação de um medicamento exigia um preço proporcional. Tentativa e erro é o único meio de descobrir a maneira correta de proceder. Maomao estava bem ciente de que isso envolvia testes em humanos, mas ela não conseguia reprimir seus outros sentimentos sobre o assunto.
— E a fórmula revisada, então? — Maomao perguntou, inclinando-se lentamente em direção a Suirei, arregalando os olhos, sentindo arrepios por todo o corpo.
— Só testamos isso em animais — disse ela. Nada de humanos, então. Afinal de contas, pelo que sabiam, podiam estar errados: poderia acontecer que, sem a erva-do-diabo, o sujeito nunca mais revivesse. É claro que alguém tentaria isso primeiro em animais.
Os olhos de Maomao brilharam e ela se inclinou tão perto que ficou praticamente cara a cara com Suirei. Ela colocou a mão no próprio peito, indicando que aqui, bem aqui, estava a cobaia perfeita.
— Não tentaremos isso com você.
— Por que não? Fique à vontade!
— Você é nossa refém — disse Suirei categoricamente. Maomao teve que resistir à vontade de agarrá-la pelo colarinho e sacudi-la até que ela concordasse em lhe dar a droga. Ela não poderia desperdiçar a chance de descobrir mais sobre isso. Em vez disso, ela simplesmente recuou.
— Heehee! É tão bom ver vocês duas se dando bem — disse Shisui, dando uma mordida no pão frito. — Afinal, você e Maomao precisam de mais amigas, irmãzona.
— Cala a boca! — Suirei retrucou.
— Quieta! — Maomao disse quase na mesma hora.
Certamente não pretendiam falar em uníssono, mas foi o que aconteceu.
Maomao dormia no mesmo quarto que Suirei, enquanto Shisui ficava no outro quarto, aquele com apenas uma cama de solteiro. Ela reclamou que queria dormir com as outras garotas, mas Suirei a expulsou e ela foi embora resmungando consigo mesma.
Não era como se Maomao e Suirei estivessem passando a noite conversando e fofocando. Eles não tinham feito isso ontem à noite, e não fariam hoje à noite. Francamente, não havia muito que Maomao quisesse dizer a Suirei, mas mesmo que houvesse, ela duvidava que Suirei teria respondido muito.
Talvez Maomao devesse ter começado perguntando o que elas estavam tramando, mas ela nunca o fez. Finalmente, ela pensou que talvez devesse, mas quando abriu a boca, encontrou uma pergunta completamente diferente saindo.
— Então, você é bem próxima da Shisui, não é?
— Você acha?
— É o que parece para mim.
Esse foi o fim da conversa. Bem, então. Isso mostrava o quanto Shisui servia como amortecedor social para Suirei.
Quando acordou na manhã seguinte, Maomao descobriu uma montanha de livros sobre a mesa, enciclopédias ricamente ilustradas de ervas medicinais. Havia até alguns volumes estrangeiros misturados entre eles, retratando uma grande variedade de plantas que Maomao nunca tinha visto antes. Ela não conseguia ler a maioria desses livros, mas aqui e ali havia papéis enfiados entre as páginas com notas ou traduções.
— Estou saindo. Há um guarda lá fora, então não pense em fugir — disse Suirei ao sair da sala.
— Eu não me preocuparia. Acho que ela não vai querer — comentou Shisui, que já estava acordada e tomando mingau no café da manhã.
— O que você fez para colocarem um guarda te vigiando? — perguntou o merdinha, Kyou-u, que estava lá por algum motivo. Ele estava mergulhando um pouco de pão frito em seu mingau. Ele era chato, sim, mas Maomao não se incomodava; ela estava mais interessada em ler o tesouro de livros à sua frente.
— Huh? Não vai comer? — Shisui perguntou.
— Mais tarde. Posso esperar — disse Maomao, com a intenção de pelo menos virar as páginas. Shisui, no entanto, enfiou um pouco de pão amolecido com mingau na boca de Maomao. Ela mastigou gentilmente.
— Que tal uma muda de roupa? Você ainda está de pijama.
— Mais tarde. Posso esperar.
— Isso me incomoda. — Shisui afrouxou o cinto do pijama de Maomao; Maomao obedientemente estendeu os braços e continuou lendo enquanto Shisui colocava uma roupa sobre ela.
[Kessel: Desculpa, mas isso é LITERALMENTE a Fern cuidando da Frieren.]
— Nossa, olha essa garota. Ela deve pensar que é importante. Ela age como a Lady Shenmei — disse Kyou-u.
Shenmei? Maomao estava se perguntando quem era quando Shisui deu um tapa na lombar dela. Ela se levantou da cadeira para que Shisui pudesse colocar uma saia nela.
— Sim, obrigada, Kyou-u. Vá limpar sua tigela.
— Ah, por que eu deveria? Não é para isso que servem os criados?
— Então você não pode fazer nada sem os criados? Que coisa, ainda é uma criança, pelo que vejo...
Ela sabe manipular ele, pensou Maomao; e, de fato, o garotinho que tanto queria ser visto como um adulto deu meia-volta, pegou ruidosamente sua tigela, colocou-a em uma bandeja e a carregou para fora da sala. Maomao observou-o parcialmente e depois assentiu em aprovação. — Ele é de uma família decente, não é?
— Hehe. Nas terras do extremo leste, eles têm um ditado: 'os poderosos devem decair’. — Ela parecia estar dizendo que todos, não importa quão fortes, eventualmente envelheceriam. Que qualquer casa, por maior que fosse, acabaria por cair.
[Kessel: É basicamente o conceito ocidental de que todo império, um dia, cairá.]
Maomao folheou rapidamente os livros enquanto Shisui cuidava do cabelo. — Onde está seu grampo de cabelo de ontem, Maomao? — Maomao apontou silenciosamente para o quarto. Shisui entrou correndo e pegou o grampo de cabelo ao lado do travesseiro de Maomao. Depois ela penteou o cabelo de Maomao e o amarrou. Ela deixou um cacho cair ao lado de cada orelha, prendendo-as com laços de cabelo. — Este é um grampo de cabelo muito bom — disse ela. — Você tem que ter cuidado com isso. Você não iria querer que alguém roubasse e vendesse.
— Acha que vale muito?
— Vale muito? — Shisui balançou a mecha de cabelo na frente do rosto de Maomao. — Quem fez isso é um artesão muito talentoso. Não há muitos deles na capital. Se um especialista olhasse para isso, saberia quem o fez e, a partir daí, quem provavelmente fez o pedido. Basta olhar para o cuidado que eles colocaram no desenho que esculpiram, todos os pequenos detalhes que você nem percebe.
Maomao lembrou-se de uma vez, quando uma cortesã vendeu um acessório que um cliente lhe deu de presente, apenas para que o mesmo cliente o comprasse na loja de penhores e lhe desse novamente como presente. Não foi confortável. E ela sabia o quão persistente o doador daquele grampo de cabelo em particular poderia ser, deixando-a com a sensação incômoda de que um dia ele voltaria para ela.
— Não posso vendê-lo — disse ela, finalmente.
— A única coisa a fazer é derretê-lo novamente para metal — disse Shisui, mas de alguma forma Maomao achou que isso também parecia errado. — Ainda está... faltando alguma coisa — disse Shisui. Ela estendeu a mão e puxou o grampo de sua própria cabeça, colocando-o no cabelo de Maomao. — Pronto, agora está perfeito.
— Você está acostumada com isso.
— Você fica muito bom nisso quando leva uma surra por ser muito lenta — disse ela, as palavras soando tão naturais quanto qualquer outra coisa.
— Surra?
— Uhum.
Não era incomum que o empregador de uma serva a disciplinasse, mas isso soava estranho para Maomao.
— Se eu não conseguisse fazer uma massagem decente, derramavam água fervente sobre minhas mãos. Eu tinha tanto medo disso. — disse Shisui.
— Isso é assustador. Parece que sua senhora era uma pessoa terrível.
A velha madame havia disciplinado Maomao mais de uma vez, mas até aquela velha sabia onde traçar os limites. Acerte-os onde ninguém verá; dê um tapa nelas para que não deixe marcas. Claro, ela provavelmente estava pensando, pelo menos em parte, em garantir que não baixaria o valor de sua mercadoria, mas ainda assim era uma espécie de misericórdia.
— Hehe! Era minha mãe! — Shisui disse, rindo.
— Espero nunca conhecê-la — disse Maomao, perguntando-se que tipo de mãe trataria a filha dessa maneira. Não... Acho que algumas são piores, ela pensou, olhando para o dedo mindinho desfigurado em sua mão esquerda.
— Entendi. E é por isso que você precisa fazer apenas o que lhe é pedido, Maomao. — Shisui começou a guardar o pente. — Vou sair hoje — acrescentou ela. Então ela saiu da sala.
Talvez tenham se passado seis horas. Quando Maomao ficou com fome, a comida foi trazida para ela da cozinha da pousada. E havia tantos livros para ler. A única coisa que realmente a incomodava era que quando ela usava o banheiro, seu guarda, um homem, tinha que acompanhá-la.
Depois de ler os livros de capa a capa e aprender tudo o que continham neles, Maomao deu um grande bocejo. Ela estava dolorida por ficar sentada por tanto tempo. Ela colocou a cabeça para fora da janela para tomar um pouco de ar fresco. Seu quarto ficava no terceiro andar da pousada, o andar mais alto, e como não havia prédios mais altos ao redor, proporcionava uma vista espetacular.
Ela podia ver vapor subindo de fontes termais aqui e ali. Não, ela não podia espiar ninguém do seu ponto de vista elevado, os banhos estavam devidamente cobertos, mas mesmo assim, ela podia ver a maior parte da aldeia. Além da paliçada, um rio corria entre arrozais, e ela podia ver a floresta que cercava tudo. A colheita estava praticamente terminada, os arrozais despojados da colheita, que agora estava pendurada para secar.
Hmm?
Ela avistou um campo que não havia sido colhido. Só um canto, na verdade: ali, o arroz ainda não tinha amadurecido. Estava bem na sombra de um prédio, talvez um depósito para a colheita ou algo assim. Era uma peça arquitetônica bastante impressionante.
Ela lembrou-se do que as crianças tinham dito no dia anterior sobre um lugar onde o arroz não crescia bem. Talvez aquele canteiro não fosse colhido enquanto o proprietário esperava a colheita amadurecer. Maomao acariciou seu queixo: Hmm.
O canteiro não parecia desnutrido. E era estranho: a parte restante da colheita ocupava um quadrado perfeito, enfiado na sombra do prédio. Poderia ser...?
Ela se inclinou para fora, olhando atentamente para o canteiro de arroz, quando houve um grande estrondo. Maomao quase caiu pela janela de surpresa. Ela conseguiu agarrar a moldura da janela e então levou um segundo para acalmar a respiração.
— O que você está fazendo?
Foi o merdinha! Ele entrou na sala, abrindo a porta com toda a força que pôde. Maomao marchou até lá, parou na frente de Kyou-u e, sem dizer mais nada, deu-lhe um cascudo.
— Ai! Isso dói! O que há de errado com você?
— Você deveria aprender a entrar silenciosamente em um cômodo.
É verdade que ela o agrediu em parte por puro despeito, mas também foi culpa dele. Talvez se ele tivesse ficado calado.
Quando ela finalmente o soltou, Kyou-u olhou para ela com reprovação. — Tudo bem, chega. Onde está minha irmã mais velha?
— Não faço ideia. — Shisui não contou a Maomao para onde estava indo.
— Você deveria ter perguntado para ela!
Maomao não tinha certeza se Shisui teria respondido. De qualquer forma, o campo lhe interessava mais no momento.
— Por que você está olhando lá para fora?
— Você tem alguma ideia do que é aquele prédio? É um armazém?
— Quê?
Maomao apontou para a estrutura nos limites da aldeia. Era o maior dos vários prédios próximos.
— Ah, esse é o armazém do chefe. Acho que todos os campos ao redor pertencem a ele.
— Então eu estava certa…
— Uhum. Mas eles não usam muito — disse Kyou-u, abrindo a boca com aquela lacuna ridícula nos dentes da frente. — Temos esses outros armazéns com andares altos, para afastar os ratos, e é onde eles colocam tudo. Aquele prédio ali, acho que nem estão usando agora.
— Mas ainda está lá.
— Sim, porque o chefe é mesquinho. Ele não paga nem para derrubá-lo.
A resposta de Maomao foi um sincero: — Huh.
Huh? Ela se afastou da janela e começou a folhear freneticamente o livro que acabou de terminar. Tenho certeza que dizia...
Ela encontrou uma das páginas com um pedaço de papel colado e engoliu em seco.
Sem dúvida, Shisui e Suirei presumiram que ter tantos livros para ler manteria Maomao quieta, mas não conseguiram levar em conta a natureza de sua curiosidade. Foi uma força emocional que borbulhou dentro dela, preenchendo todo o seu corpo. Ela achava quase insuportável ficar sentada nesta sala lendo.
— E-Ei, o que está acontecendo? Você parece... assustadora. — disse Kyou-u.
Não! Droga. Suas peculiaridades estavam aparecendo novamente, e quando ela ficava assim, ela não conseguia impedi-las, mesmo sabendo racionalmente que deveria. Mesmo que estivessem prestes a levá-la a fazer algo absurdamente imprudente.
Mas se fosse de outra forma, ela não seria a Maomao.
— O quê, você quer ir lá? — Kyou-u perguntou.
Sim, mas havia um guarda do lado de fora. E não podia sair pela janela; estavam no terceiro andar. Na verdade, sair não era impossível: poderia usar lençóis como escada improvisada ou descer pela parede se realmente quisesse. Mas seria óbvio demais. A janela dava para a rua; seria notada e capturada novamente na mesma hora.
— Posso ir lá? — ela perguntou, sem realmente esperar muito.
Kyou-u sorriu para ela. — Não é impossível.
— Diga-me como. — Os olhos de Maomao estavam redondos. Kyou-u, evidentemente satisfeito com essa reação, trotou até o quarto ao lado, aquele onde Shisui dormia. — Vamos, me ajude — ele ordenou. Maomao se perguntou em que ela estava ajudando, afinal, era só empurrar uma cômoda. Ela empurrou, sem saber muito bem por que, mas então, com um forte rangido, o baú começou a se mover, revelando uma porta atrás dele. — Isso na verdade vai para o quarto ao lado — disse ele. — Esse é o meu quarto.
Colocar uma grande cômoda era certamente uma forma de dividir os cômodos da maneira desejada.
— E não há outro baú do outro lado da porta?
— Está tudo bem. Já mudei de lugar. Pensei que talvez pudesse dar um bom susto na irmã, mas essa coisa estava no caminho. — Então Kyou-u abriu a porta. Nem estava trancada; deve ter sido presumido que ninguém se daria ao trabalho de mover os baús de ambos os lados.
O espaço de Kyou-u foi organizado da mesma forma que os dormitórios que Maomao e as mulheres ocupavam. A cama estava coberta com uma confusão de papéis e pincéis. Ela se lembrou de um pensamento que teve quando estavam pintando as máscaras: que, apesar das aparências, o pirralho era um pequeno artista.
— Vamos, por aqui — disse Kyou-u, mas não estava apontando para a saída. O quarto parecia igual ao espaço de Maomao, mas a sala era um pouco diferente. Ao contrário da janela decorativa do seu quarto, esta tinha uma grande porta que dava para uma varanda. A varanda passava pelo quarto ao lado e pelo quarto além dele; havia divisórias, mas eram apenas barras decorativas pelas quais seria fácil passar.
— Vá o mais longe que puder e você verá o telhado de uma passarela coberta que leva a um prédio separado. Pule para baixo e você poderá escapar, sem problemas.
O prédio separado ficava atrás da pousada, então ela provavelmente passaria despercebida, desde que tomasse cuidado.
— Você realmente conhece o caminho.
— Heh heh. Sou o único que não tem que estudar. — Em outras palavras, ele saía furtivamente daqui todos os dias. O pirralho parecia muito bem informado sobre esta cidade para alguém que morava em uma pousada de viajantes; ele deve estar aqui há um bom tempo. Nessas pousadas de banhos termais, não era incomum as pessoas permanecerem por longos períodos em busca de cura de uma doença. Kyou-u, porém, não parecia enfraquecido por nenhum tipo de condição.
Maomao, não muito interessada no assunto, esgueirou-se pelas barras, grata por ser magra como um graveto. Kyou-u a seguiu. Ela olhou para ele como se perguntasse o que ele estava fazendo, e ele disse: — Se você vai se dar ao trabalho de fugir, acho que é melhor eu ir com você. — Ele parecia terrivelmente condescendente.
Bah. Tanto faz.
E foi assim que Maomao finalmente escapou.
Depois que Maomao saiu da pousada, o resto foi fácil. Ao contrário de quando ela entrou na aldeia, o guarda ficou mais do que feliz em deixá-la sair (talvez porque já estivesse escuro quando eles chegaram). Os campos, vazios após a colheita, davam-lhe uma boa visão para saber se havia alguém por perto, e ela não esperava nenhum problema com animais selvagens em plena luz do dia.
— Então… o que estamos fazendo? — Kyou-u perguntou.
— Há uma coisa que quero verificar — respondeu Maomao, e então eles estavam lá: parados em frente ao trecho de arroz ainda não colhido.
Kyou-u arrancou uma espiga do papo. — Acha que eles simplesmente não estão recebendo nutrição suficiente aqui?
— Improvável. — Maomao olhou para o armazém próximo ao campo. Havia uma grande janela na parede de gesso, uma abertura simples, sem grades nem nada, embora no momento estivesse bem fechada. Maomao pegou um galho e usou-o para comparar a largura da janela com a do canteiro de arroz. O canteiro de arroz era um pouco maior.
— Acho que esse arroz fica iluminado a noite toda — disse Maomao.
— Hã? O que você quer dizer com isso?
Uma planta em crescimento pode ser influenciada por mudanças no ambiente. Assim como Maomao induziu as suas rosas azuis a florescer fora de época, algo externo pode ter afetado este arroz. Geralmente, muita luz era benéfica para o crescimento das plantas, mas havia momentos em que poderia ser exatamente o oposto. Talvez a luz constante, mesmo durante a noite, tenha feito com que o arroz amadurecesse lentamente. Algo semelhante às vezes acontecia perto do distrito dos prazeres, um lugar que nunca dormia.
— Quer dizer que o arroz não cresceu porque está sempre iluminado? — Kyou-u perguntou.
— É o meu palpite — respondeu Maomao.
A julgar pela localização e tamanho da janela, ela parecia estar no caminho certo. Como não tinha grades, provavelmente ficava aberto durante os longos e quentes dias de trabalho do verão. Isso, no entanto, levantou uma questão: por que haveria uma luz acesa a noite toda num armazém supostamente abandonado?
Maomao pensou sobre isso. — Presumo que haja ratos aqui.
— Ah, sim. Não importa quantas armadilhas montamos, elas continuam vindo.
— Em outras palavras, você poderia capturar quantos quisesse.
Ela pensou no que Suirei havia dito. Sobre como a nova droga ainda não havia sido testada em seres humanos. No entanto, tinha sido testado em animais, e em que tipo de animal poderia ter sido testado? Algo pequeno e fácil de capturar, talvez? Além disso, os livros que Maomao recebeu continham várias notas marginais detalhando os resultados de experimentos em ratos.
Havia livros demais no quarto para que Suirei os estivesse carregando sozinha. Devem ter vindo de algum lugar da vila. Maomao deu uma volta rápida pelo armazém. Além da janela, havia uma única porta, mas estava trancada.
— Sai. — Kyou-u de repente tinha um pedaço de arame na mão; ele trabalhou ruidosamente na fechadura por um momento e logo abriu a trava simples.
Esse garoto é encrenca, pensou Maomao. Mas ela também estava grata pela ajuda dele. Eles entraram no armazém e o encontraram dividido em duas salas. Maomao decidiu começar pelo que tinha janela.
Ela encontrou exatamente o que esperava, e muito mais. O que ela esperava eram ratos em gaiolas; vinham acompanhados de uma verdadeira pilha de papéis cobertos de anotações, sem falar nos ossos de animais misteriosos, nas ervas secas e no que parecia ser uma espécie de vísceras. Eles carregavam um cheiro muito distinto.
Havia uma prateleira repleta de pequenos frascos. Um pedaço de papel foi fixado em cada um com a data, os ingredientes e as quantidades. Kyou-u estava olhando para eles com interesse, mas isso o distraiu da coisa muito mais chocante na sala.
Parecia um tubo de metal, mas estava em pedaços; teria sido impossível dizer o que era a partir dos pedaços individuais. Mas Maomao reconheceu isso. Era uma arma feifa, como as que os assassinos usaram no atentado contra a vida de Jinshi.
O que isso está fazendo aqui?
A presença deles explicaria muita coisa, mas Maomao não teve tempo de organizar seus pensamentos, pois ouviu um clique alto lá fora.
Maomao tapou a boca de Kyou-u com a mão e se escondeu em um canto da sala.
— Hum? — disse uma mulher lentamente. — Tem alguém aqui? — Seus passos ecoaram: clack clack clack. — Talvez alguém tenha esquecido de trancar a porta?
— Não, senhora, duvido muito — respondeu uma voz de homem. Mas houve mais de dois pares de passos.
— E ainda assim estava aberto. Quem deveria trancar? — As palavras foram lentas, quase lânguidas, mas, por algum motivo, seu tom causou um choque de medo em Maomao. E parecia que ela não era a única. Kyou-u estava tremendo em seus braços. Muito lentamente, ela tirou a mão da boca dele.
— …ad… — ele sussurrou. Maomao lançou-lhe um olhar interrogativo. — Isso é ruim. É ela… — Seu rosto estava distorcido.
Os passos se aproximaram e com eles veio outro aroma novo, misturando-se ao cheiro inconfundível que já enchia a sala. Houve um farfalhar de tecido que sugeria que a mulher estava olhando para um lado e depois para o outro, mas Maomao só conseguia ver seus pés. Ou melhor, os pés: pareciam ser seis pés de mulheres e quatro de homens. Ou seriam apenas dois pés pertencentes aos homens? O outro par estava vestido com uma roupa masculina, mas Maomao pensou tê-la reconhecido, era a mesma roupa que Suirei estava usando naquela manhã.
— Algum problema? — uma das mulheres perguntou. Ela tinha um sotaque característico, outra coisa que Maomao reconheceu. Ela começou a tremer toda, o suor escorrendo, mas ela viu: os olhos da mulher estavam cobertos por um véu. Cobriu o cabelo dela também, mas não conseguiu esconder a cor dos olhos. Um azul celeste penetrante: olhos de uma estrangeira.
— Não, não é nada. Parece que eu estava imaginando coisas. — A mulher se virou e fez menção de sair da sala. Maomao estava prestes a soltar um suspiro de alívio, mas então a mulher alcançou a cintura do homem, que Maomao presumiu ser um guarda.
No instante seguinte, Maomao recuperou o fôlego novamente enquanto uma mecha de seu cabelo caía no chão. Uma espada estava alojada na parede ao lado dela, ainda vibrando de forma audível. Aconteceu tão rapidamente que ela mal percebeu. A próxima coisa que ela percebeu, porém, foi que a cortina havia sido aberta e uma mulher mais velha estava olhando para ela. Ela estava na casa dos cinquenta, talvez, vestida com maquiagem e roupas ostentosas, ela era linda, mas o tempo inevitavelmente cobrou o seu preço.
A mulher usava acessórios de cabelo tão vibrantes quanto sua roupa, e havia protetores de unhas em seus dedos mindinho e anelar que estendiam as unhas por uns bons sete centímetros. Seus lábios pintados de vermelho curvaram-se graciosamente enquanto ela olhava para a garota franzina enrolada na sua frente.
— É apenas mais um rato — disse ela, e realmente parecia estar olhando para um roedor imundo. — Suirei.
— Sim, senhora. — Suirei deu um passo à frente, e a mulher bateu nela com força com o leque que ela segurava. Maomao engasgou em particular.
— Você precisa pelo menos manter seus ratos sob controle.
— Sinto muito, senhora — disse Suirei, com os olhos no chão.
— Hmm? Esse garoto, eu conheço ele.
— L-Lady Shenmei, me d-d-desculpe… — Kyou-u estava tremendo violentamente; tudo o que ele pôde fazer foi espremer as palavras.
— Esse é o honrado filho de Shirou — disse Suirei, enquanto pressionava a mão trêmula no rosto.
— Hm. — foi tudo o que Shenmei disse. Então ela se virou para a outra mulher que estava com ela. Essa pessoa tinha a idade certa para ser sua filha e, como a mulher chamada Shenmei, ela usava uma maquiagem berrante.
— Mamãe, querida, é apenas uma travessura de algumas criancinhas. Vamos nos apressar e ir embora — disse a outra mulher. Não havia nenhum vestígio do tom inocente que normalmente marcava sua fala. Ela deixou de lado a roupa de menina da aldeia em favor de um vestido luxuoso. Seu cabelo estava preso no alto e decorado com um acessório em forma de pássaro de terra estrangeira.
Então era isso que estava acontecendo...
Maomao decidiu deliberadamente não prosseguir com o assunto. Ela esteve prestes a perguntar quando a conexão com Suirei se tornou aparente, mas depois optou por não fazê-lo. Ela tinha tanta certeza de que não importava o que ela soubesse ou não, mas agora parecia que talvez devesse ter levado as coisas um pouco mais a sério.
Agora quem é o tanuki?
— Heh heh. Tive uma ideia. Já que eles estão aqui, por que não trazê-los juntos? — disse Shenmei. A idade havia diminuído um pouco sua beleza, mas em sua época ela devia ser incrivelmente adorável. Ela estava sorrindo, mas Maomao sentiu aquele sorriso agarrar seu coração como um torno de ferro.
— Você não se importa, não é, Loulan? — Shenmei disse, para Shisui.
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