Volume 3
Capítulo 8: O Espírito da Lua
Boatos podem ter caudas longas e, quanto mais longe e mais amplamente se espalham, mais divergem da realidade. Às vezes, eles deixam de ser boatos inteiramente. Essas histórias aumentadas tornam-se folclore compartilhado ou até mitos.
[Kessel: Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade…]
Este fato era algo que Maomao estava aprendendo no momento em um nível muito pessoal. Jinshi, em uma de suas visitas regulares ao Pavilhão de Jade, estava neste instante perguntando a ela sobre justamente um desses boatos que viraram lendas...
— Você conhece a história da beleza de outro mundo que, dizem que, chorava lágrimas de pérola? — ele perguntou, com o rosto absolutamente sério. A Concubina Gyokuyou teve que conter o riso. Nunca se sabia o que ele diria em seguida.
Maomao quis responder que estava olhando para uma beleza de outro mundo bem agora, mas ela se conteve. A história à qual o eunuco deslumbrante estava mencionando era bem antiga. Dizia-se que, há muito tempo, havia uma mulher no distrito do prazer mais bonita do que qualquer pessoa, tão adorável quanto um espírito da lua. Ele estava perguntando se ela sabia quem poderia ter sido.
E por que ele estava perguntando isso? Bem:
— É um pedido pessoal da emissária da embaixada.
Ao que parecia, o bisavô do emissário transmitiu histórias sobre uma mulher radiante de uma terra distante, e o interesse nesta figura nunca abandonou o emissário. O pedido era profundamente difícil, de fato praticamente impossível, mas por se tratar de um ilustre convidado diplomático, eles eram obrigados a fazer tudo que estivesse ao alcance deles. Foi por isso que Jinshi procurou Maomao, com seu conhecimento do distrito do prazer, para ver se ela poderia reconhecer a quem aquela história se referia.
— Eu entendo, é claro, que a história é de décadas atrás — disse Jinshi. — Esta mulher deve ser idosa, na melhor das hipóteses. Vai saber se ela ainda está viva?
— Oh, ela está viva — disse Maomao categoricamente. Jinshi olhou para ela, com a boca levemente entreaberta. Gaoshun parecia da mesma forma, mas os olhos da Concubina Gyokuyou estavam brilhando. Hongniang (naturalmente) soltou um suspiro diante do interesse excessivo de sua senhora.
Sim, Maomao conhecia a história de uma beleza de outro mundo que tinha lágrimas de pérola. Ela a conhecia muito bem.
— Então a história é verdadeira?! — disse Jinshi.
— Verdadeira? Senhor, você mesmo já conheceu ela pessoalmente.
Jinshi esteve na Casa Verdigris, a casa de Maomao, por assim dizer, e ele certamente a viu: fumando seu cachimbo, avaliando implacavelmente todos os que chegavam perto do estabelecimento. Uma velha astuta...
Jinshi e Gaoshun olharam um para o outro, levemente horrorizados. Eles conseguiam pensar em apenas uma pessoa que se encaixava nessa descrição. A velha madame.
O tempo é uma coisa cruel: a aparência de toda mulher desaparece com ele, não importa o quão bonita ela tenha sido um dia; seu coração torna-se desolado e ela fica obcecada por dinheiro.
Os olhos de Gyokuyou ainda brilhavam, mas talvez fosse melhor se ela não ouvisse isso.
— Tenho certeza de que ela viria correndo se o preço fosse alto o suficiente — disse Maomao. — O que o senhor acha?
Houve uma pausa constrangedora antes de Jinshi responder: — Não tenho muita certeza se isso funcionaria. — Não era apenas uma questão de destruir um sonho cultivado por tanto tempo. A essa altura, a situação poderia facilmente se transformar em uma crise diplomática. Se o pedido era por uma mulher de beleza etérea, eles não podiam apresentar uma ameixa seca.
Jinshi devia saber perfeitamente bem que a madame, em seu estado atual, não serviria, mas ele deve ter pensado que Maomao teria alguma resposta.
— Certamente eles entendem que o tempo passa — disse Maomao. — E certamente já foram recebidos com o devido estilo.
— Sobre isso... — Jinshi contou a ela que muitas mulheres bonitas já tinham sido convocadas e um banquete tinha sido realizado, mas a outra parte não mostrou nenhum sinal de satisfação. Na verdade, risadinhas de deboche foram a única resposta.
Quem faria isso? Maomao pensou. Mesmo admitindo que o leste e o oeste pudessem ter padrões de beleza diferentes, ela sentia que as mulheres daqui deveriam ser adequadamente impressionantes.
— Me perdoe a pergunta, talvez pudéssemos enviar alguém para eles à noite?
Hongniang franziu o rosto diante de sua franqueza, mas, de uma perspectiva diplomática, essa era uma forma de abordar a questão.
— Não acho que isso funcionaria também — disse Jinshi, coçando a nuca e franzindo a testa. — É que o emissário em questão é uma mulher, entende?
Ah. Agora ela entendia com o que ele estava lidando.
Depois disso, a história realmente começou a vir à tona: o alto funcionário encarregado de receber a missão diplomática tinha procurado Jinshi praticamente em lágrimas. Já era difícil o suficiente tentar perseguir o fantasma de uma mulher bonita, mas eles estavam fazendo isso para outra mulher. E um membro do mesmo sexo sempre seria o juiz mais severo possível.
Em termos de aparência, Jinshi tinha beleza suficiente para encantar qualquer pessoa, embora fosse, de fato, um homem. Ele possuía todas as qualidades necessárias para roubar qualquer coração. Poderia-se pensar que ele tinha nascido exatamente para esta situação. Mas bastava imaginar o caos que isso poderia desencadear. E se a outra parte se apaixonasse por ele e o tornasse uma condição para quaisquer acordos diplomáticos? No caso deste eunuco, não era algo impossível de se imaginar. Ou pior, se exigissem uma visita noturna dele? ele não tinha o equipamento necessário. Talvez uma mulher não fosse tão dada a tais jogos, mas, independentemente disso, é melhor prevenir do que remediar...
— E esta emissária, ela é realmente importante o suficiente para tudo isso?
— Talvez você entenda se eu disser que ela detém o entroncamento comercial entre o oeste e o norte.
Maomao assentiu. Ela entendia bem. Isso também explicava por que a caravana desta vez teve uma escala tão descomunal, e que todos os envolvidos esperavam abrir novas rotas de comércio. Ao mesmo tempo, estavam tentando sondar uns aos outros. O território desta nação possuía uma grande variedade de recursos, e ocasionalmente ouvia-se boatos de que alguns dos ataques realizados pelas tribos bárbaras eram instigados por outros países.
Ainda sim, embora o país da emissária parecesse ocupar uma posição perigosamente delicada, eles haviam atravessado séculos sem ser conquistados por nenhuma outra nação. Havia uma razão para isso. Aquele país, um grande centro comercial onde é comum casamentos entre diferentes povos, transbordava de homens bonitos e mulheres com rara formosura. Mercadores viajantes juravam que mesmo os agricultores salpicados de lama cavando batatas na terra poderiam ser considerados belezas avassaladoras em outras terras.
Então o que a velha fez? Maomao se perguntou. Se alguém de um lugar como aquele saiu convencido de que ela era um espírito da lua, então ela devia ser de fato uma visão e tanto.
— Talvez possamos misturar um alucinógeno ao perfume?
— Você faz isso? — Jinshi perguntou após um segundo.
— Eu não faço, mas parece o caminho mais rápido — disse Maomao calmamente. Jinshi simplesmente balançou a cabeça.
Imaginei que não. Isso seria apenas mais um problema diplomático prestes a acontecer.
— Estou tentando me agarrar a qualquer fio de esperança aqui — disse Jinshi. — Você tem alguma informação sobre o que pode ter acontecido durante aquela visita de tanto tempo atrás?
O toque de desespero em sua atitude era novo para ela. Ele realmente estava no limite. Gyokuyou cobriu a boca com um leque e deu uma risadinha. Será que ela sabia de algo?
— Vou tentar encontrar algo em que o senhor possa se agarrar, então — disse Maomao, e resolveu enviar uma carta para a Casa Verdigris.
Vários dias depois, a velha madame chegou com um dos subordinados de Jinshi. Eles estavam no mesmo prédio onde Maomao se encontrou com Lihaku. Nenhum estranho, nem mesmo uma mulher, tinha permissão para simplesmente entrar no palácio interno.
— Muito bem, do que se trata essa bobagem? — a madame exigiu, lançando um olhar avaliador pela sala. Seus olhos diziam: isso foi o melhor que você conseguiu fazer? Seus movimentos ao entrar eram ágeis e vivos, como se esta mulher, já com mais de setenta anos, pudesse facilmente viver até os cem.
— Me disseram que você uma vez entreteve um emissário especial de outro país?
— Isso mesmo. Deve ter sido há uns bons cinquenta anos. Isso foi há dois imperadores atrás. — A velha sorriu presunçosamente e começou a falar.
Não fazia tanto tempo desde que o imperador da época mudou a capital para sua localização atual. Esta cidade foi construída sobre as ruínas de algo mais antigo, ela tinha as vantagens de ser perto do oceano e de um grande rio. Houve certa resistência em transformar repentinamente a cidade, famosa em todos os cantos como um destino turístico, na capital de toda a nação, mas a mudança finalmente seguiu adiante.
Como sempre foi um lugar onde as pessoas se reuniam, já havia um bairro do prazer lá. A velha, que não era tão velha na época, foi considerada uma das cortesãs de maior prestígio na cidade. Imagine: agora, ela era menos que uma flor desabrochando e mais para um galho murcho.
— Não havia um palácio bonito naquela época como agora. Os figurões provavelmente estavam perdendo o sono sobre onde receber este emissário. Finalmente, decidiram por algumas ruínas que não tinham sido reconstruídas. Havia um pomar na área, com um laguinho agradável e um prédio por perto. Acho que costumava ser famoso, eles costumavam realizar rituais lá ou algo assim.
E quem deveriam convocar para se apresentar senão esta mulher, chamada diretamente do distrito do prazer? Outras doze cortesãs, aproximadamente, foram convidadas a participar também, mas a madame seria a estrela. Suas realizações como cortesã foram um ponto levado em conta, mas o motivo principal era o seu corpo. O emissário vinha de uma terra onde muitas linhagens se misturavam, e pessoas de beleza física excepcional eram abundantes. Se você não fosse alta e bem proporcionada, as pessoas do país do emissário poderiam considerá-la uma criança, mesmo que fosse adulta. Ainda mais se você pretendesse subir ao palco.
— Todos os olhos estavam em mim, e isso significava que eu tinha muito o que preparar — disse ela.
A recepção seria realizada no pomar à noite, e um grande esforço foi despendido para se livrar de qualquer inseto. Mas eles foram eliminados até o último verme em uma folha, disse a madame, de modo que não tinha nenhum inseto voando por perto. Todo impedimento possível foi removido para que a vista do banquete fosse a mais majestosa possível, até a fase da lua foi calculada.
Cada fator possível foi levado em conta, mas não importa o quão duro os oficiais trabalhassem, sempre há aqueles que estão destinados a atrapalhar.
— Então o dia chegou, e algum sacana estragou a minha roupa. Eu não podia acreditar!
Segundo ela, insetos mortos tinham sido esfregados nas roupas que ela deveria usar. Mesmo naquela idade jovem, no entanto, a madame não se deixou abalar por esse tipo de coisa, ela escondeu as manchas com acessórios posicionados de forma inteligente e um manto externo fino e seguiu com o trabalho. O público a exaltou aos céus, e quem quer que tivesse lhe desejado mal devia estar rangendo os dentes e lamentando toda a situação.
— Vovó, você já me contou essa história antes. Muitas vezes. Não tem nada de novo que possa acrescentar? — Maomao conteve um bocejo de cansaço.
O punho da madame a tirou desse estado. — Se você acha que é engraçadinha, está muito enganada — a velha bufou. Então, ela pegou um embrulho de pano aos seus pés e o abriu sobre a mesa para revelar um desenho. Estava feito sob um pedaço de pano grosso esticado em uma moldura de madeira, e foi feito com cores intensas em vez de tinta preta. Além disso, era no estilo ocidental, com as cores fornecidas não por água, mas por óleo.
O cenário era retratado em camadas de azul claro, uma lua cheia, de alguma forma ao mesmo tempo obscura e clara, refletia na superfície de uma água. No centro da pintura, havia uma mulher com um lenço esvoaçante. Ela estava cercada por pontos de luz pintados delicadamente, talvez reflexos da lua.
Foi a primeira vez que Maomao viu a pintura. A velha deve ter guardado aquilo com carinho.
Maomao olhou para o rosto belo na pintura, depois encarou a velha murcha à sua frente.
Então ela suspirou.
Olhou mais uma vez para o espírito da lua na imagem, depois novamente para a avarenta ressequida e gananciosa.
— Tem algo a dizer, garota?
— Nada mesmo.
Ela não precisava dizer para que ambas entendessem: o tempo era cruel.
A "vovó" se recompôs e continuou: — Dizem que o emissário encomendou esta pintura depois que voltou para casa, se puderem acreditar. Ele nunca mais pôs os pés neste país, mas a enviou junto com uma das caravanas.
Ah... Então pintaram ela para ser mais bonita do que realmente era.
— Você disse alguma coisa?
— Nada mesmo. — A velha não tinha apenas ouvidos diabolicamente aguçados, mas uma intuição à altura. — Você só fez o mesmo trabalho que sempre fazia, certo, vovó? Ele realmente gostou tanto assim de você?
— Não posso dizer que eu mesma entendo, mas o intérprete disse que ele me chamou de deusa da lua ou algo assim.
Maomao não disse nada.
— Cuidado com o jeito que você olha para as pessoas!
A velha era capaz de ser objetiva. Ela podia ter sido vendida para o trabalho de cortesã, mas duvidava que realmente merecesse esse tipo de adulação.
Maomao passou a mão pelo cabelo e franziu os lábios. Mesmo que pudessem produzir uma mulher que se parecesse exatamente com a desta pintura, e então fizessem essa pessoa encontrar a missão diplomática, era difícil imaginar que eles ficariam verdadeiramente satisfeitos. Algo sempre estaria faltando. O fato de estarem tentando impressionar uma mulher desta vez tornaria as coisas mais difíceis do que antes.
— Vovó, o visitante elogiou algo específico sobre você no banquete?
— Não sei bem como responder a isso...
— Alguma coisa. Qualquer coisa.
Maomao recebeu um tapa pelo seu esforço, ela tinha deixado sua atitude ficar casual demais. A velha a estava avisando para não agir de forma tão informal quando houvesse homens por perto, mesmo que fossem eunucos.
— Bem, não é uma memória muito boa para mim — disse a velha. — Houve aquela brincadeira terrível, e o lugar estava cheio de insetos. Foi o pior.
— Insetos?
— Isso mesmo! Disseram que tinham se livrado de todos eles, mas quando você acende tochas do lado de fora, os insetos voam em bando para elas. — Ela parecia totalmente desanimada.
Elas conversaram um pouco mais depois disso, mas não saiu muita coisa dali.
No escritório da Matrona das Servas, Maomao mostrou a pintura da madame para Jinshi e Gaoshun. Eles só conseguiram soltar um gemido.
— Devo tentar encontrar alguém que se pareça com isso? — Gaoshun perguntou a Jinshi.
— É melhor tentar. — Eles não tinham outras ideias, por enquanto.
Esperando ser útil, Maomao disse: — Na época, a madame tinha cerca de 175 centímetros de altura.
— Bem alta — Jinshi comentou.
— Sim. Braços e pernas longas ficam especialmente bem ao realizar uma dança.
A madame estava muito menor agora do que costumava ser, embora ainda fosse mais alta que Maomao. Para ser bem sincera, seria difícil encontrar alguém tão grande que também se parecesse exatamente com a mulher na imagem.
— Posso sugerir que encontrem alguém com a altura certa, mesmo que o rosto não se pareça tanto com o da pintura? — disse Maomao.
— Existem realmente tantas mulheres assim por aí? — Jinshi perguntou. Não apenas alta, mas bonita também, era uma exigência elevada.
— As próprias emissárias não serão baixas. Se a mulher for muito pequena, nunca funcionará — disse Gaoshun. Ele evidentemente concordava com a estratégia de Maomao. Seu comentário confirmava que as mulheres desta outra terra eram grandes, elas poderiam considerar alguém do tamanho de Maomao como nada mais que uma criança.
Mas nesse exato momento, Gaoshun disse "emissárias", no plural. O que seria aquilo?
— Mas elas serão exigentes com a aparência dela também! — disse Jinshi, de forma um tanto acalorada. Isso fazia parecer que as próprias emissárias eram bem-parecidas. Belezas estrangeiras, Maomao se perguntou se elas seriam parecidas com a Concubina Gyokuyou.
Os dois eunucos ficaram trocando caretas. Maomao os encarou.
Jinshi olhou para ela, intrigado. — O que foi?
— Oh, não... Eu estava apenas pensando que temos alguém muito adequado para o papel.
— Quem? Alguma cortesã do seu bordel?
— Não, senhor, receio que não haja ninguém alto o suficiente na Casa Verdigris.
Uma beleza de quase dois metros de altura, então? Maomao conseguia pensar em uma pessoa. Ela encarou Jinshi fixamente. Gaoshun percebeu e começou a fazer o mesmo. — Oh! — ele disse, enquanto as peças se encaixavam.
Houve uma longa pausa.
— O que exatamente você está tentando dizer? — Jinshi exigiu, começando a parecer irritado.
Uma beleza, uma pessoa bonita, de 175 centímetros ou mais? Sim, Maomao conseguia pensar em uma.
Curiosamente, o local do banquete anterior era nos terrenos do palácio interno. Tinha sido praticamente abandonado na época, mas o palácio interno cresceu desde então, e a área estava agora em uso. Maomao não tinha muita clareza sobre a história, mas contos diziam que esta terra já foi habitada por um grupo de pessoas diferente que agora se foi, dizimados por uma doença infecciosa. A tribo possuía uma cultura arquitetônica avançada, e tinha deixado para trás as muralhas externas e o sistema de esgoto que agora servia ao palácio interno.
Uma das explicações defendia que, quando os atuais habitantes da área chegaram de longe, trouxeram consigo a doença que exterminou a população anterior. Maomao perguntou ao seu velho sobre isso, mas ele disse a ela que não deveria repetir a história para estranhos. Afinal, era apenas uma teoria, e certas pessoas poderiam não gostar.
O local do banquete, em todo caso, era um pomar de pêssegos no bairro norte. Havia de fato um lago junto com um prédio que parecia um antigo santuário. Mesmo agora, o lugar poderia facilmente servir como local para um banquete.
Enquanto Maomao perambulava pela área, ouviu passos animados atrás de si. Virando-se, encontrou sua visão dominada por uma jovem saltando em sua direção com os braços abertos, a moça prosseguiu até colidir com ela e cair por cima dela.
— Ha ha! Maomao! O que você está fazendo aqui?
— Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.
Maomao conhecia essa garota, o tom ligeiramente avoado a denunciava: era Shisui. Ela era aberta e amigável, o que era de se esperar de qualquer pessoa que conseguisse ser a parceira de fofocas de Xiaolan. Maomao não queria falar por mais ninguém, mas Shisui certamente parecia estar aproveitando a vida no palácio interno.
— Havia algo que eu tinha que fazer aqui — respondeu Shisui com um sorriso, apontando para o bosque. O conjunto de pessegueiros, um tanto descuidado, estava dando pequenos frutos naquele momento.
— Você quer dizer, tipo pegar um lanche?
— Não! Aqui. — Shisui correu até o pomar e voltou com algo. — Olhe!
Ela deixou cair o que parecia ser uma folha murcha na palma da mão de Maomao. Estava estranhamente pesada, no entanto, como se algo estivesse escondido dentro dela. Maomao a desenrolou e examinou atentamente: pousada na folha, estava uma pupa. Era um insetinho gordinho e fofo à sua maneira, mas um inseto era um inseto. Maomao olhou para Shisui com desconfiança. — Talvez você não devesse. As pessoas geralmente só usam isso para pegadinhas.
— O quê? Esses carinhas fofos?
Maomao devolveu o inseto para Shisui. Ela pegou com tanta ternura o inseto como se fosse uma criança humana e o colocou em uma gaiola de insetos. A gaiola era de boa fabricação, mas muito usada, Maomao se perguntou onde ela a tinha conseguido.
— Este lugar é incrível — disse Shisui. — Tantos insetos que eu nunca vi antes.
— Ah, sério? — respondeu Maomao de forma monótona. Ela poderia ter parecido mais interessada se estivessem falando sobre medicina. Francamente, ela simplesmente não se importava tanto com insetos quanto com as ervas.
— E este inseto aqui, eu fiquei realmente surpresa ao encontrar um. Eu só o tinha visto em livros antes. Ele vem de outro país do outro lado do mar.
Aquele outro país era um lugar que antigamente enviou mercadores para negociar aqui. Sempre havia a possibilidade de que mercadorias de outro lugar trouxessem consigo alguns dos insetos locais. Estes, por acaso, encontraram um lar agradável nesta nova terra e se estabeleceram.
Maomao, com o interesse despertado por essa informação, olhou novamente para a gaiola. Além do inseto que Shisui havia colocado nela há pouco, havia vários casulos também.
— Então é algum tipo de borboleta.
— Não, é uma mariposa. Elas normalmente são noturnas, então imagino que todas as mariposas adultas estejam se escondendo. — Shisui agachou-se no chão e pegou um graveto caído por perto, então desenhou na terra uma mariposa com grandes antenas. — Elas são realmente lindas. Têm asas brancas, por isso brilham à noite.
— Humpf — disse Maomao. Parando para pensar, a velha madame disse que os insetos por aqui tinham sido exterminados para aquele banquete há muito tempo, isso incluía as mariposas? Por mais bonitas que pudessem ser, insetos eram insetos.
— Você deveria tentar vir aqui à noite algum dia, Maomao. Com o luar descendo sobre tudo, é simplesmente deslumbrante. É como se você tivesse se perdendo em um pomar de pêssegos sagrado.
— Poupe-me do exagero... — Maomao parou de repente, saltou sobre os pés e inspecionou a gaiola de insetos de Shisui novamente. —Me fala, essas mariposas. Elas se reproduzem assim que saem de seus casulos?
— Nossa, você não mede as palavras. Imagino que sim. Aparentemente, os adultos não conseguem comer, então morrem bem rápido.
Maomao engoliu em seco, então encarou Shisui com um olhar fixo. — Você consegue distinguir a diferença entre os machos e as fêmeas desta espécie?
— Sim, na maior parte...
Poderia isso ser a chave para tudo?
Ela talvez tivesse acabado de descobrir. Talvez soubesse o que era aquilo que tanto encantou o emissário durante a dança da madame. Recriar isso exigiria um bocado de esforço e uma vítima para o sacrifício.
— Shisui!
— Hã? O que está acontecendo?
Maomao pegou Shisui pelos ombros e disse que havia algo em que queria sua ajuda. Maomao pensou consigo mesma que seu rosto devia ser algo terrível de se contemplar.
O banquete seria dali a cinco dias. Teria sido ideal realizá-lo ainda antes, mas a mudança repentina de local para o bairro norte do palácio interno exigia tempo para os preparativos. A ideia de realizar a recepção na área isolada do norte naturalmente provocou certa resistência, mas quando disseram aos opositores que isso era com o intuito de conceder um desejo antigo aos seus visitantes, eles aceitaram a contragosto.
A proibição de homens no palácio interno foi temporariamente suspensa no bairro norte. Poucas damas viviam lá de qualquer maneira, e alguns dos salões em desuso puderam ser transformados em dormitórios temporários para os poucos dias em que estariam lá.
Acabou sendo algo especialmente bom que a recente descoberta de um cadáver no bairro norte tenha sido mantida em segredo. Não teria servido a ninguém ter rumores desagradáveis circulando.
Com todo esse esforço sendo feito para realizar o banquete, foi decidido que as concubinas de alto escalão também poderiam comparecer, mas algumas medidas deveriam ser tomadas em nome da modéstia. Elas, e na verdade todos os presentes, seriam acomodados não ao ar livre, mas em carruagens modificadas, para que pudessem desfrutar das festividades por trás de telas que preservariam sua privacidade. As próprias carruagens seriam organizadas ao redor do lago.
Alguns oficiais até disseram que isso poderia ser melhor do que um banquete comum, era fácil colocar incenso repelente de insetos em uma carruagem e, dentro de seus limites, era possível, até certo ponto, relaxar. As cortinas ficariam levantadas na maior parte do tempo, mas ter paredes em três lados significava uma preocupação consideravelmente menor sobre quem poderia estar observando.
As concubinas estavam dentro das carruagens, mas suas damas de companhia estavam do lado de fora, e estava claro que a atenção de todos estava voltada para o lugar de honra, onde ficavam duas carruagens, cada uma ocupada por uma beleza de cabelos dourados e olhos da cor do céu azul claro. Foi somente ao vê-las que as cortesãs perceberam que havia duas emissárias, em vez de uma, como foi amplamente anunciado. Embora as duas mulheres fossem muito parecidas, não eram gêmeas nem irmãs, mas sim primas, descendentes do mesmo avô.
Não muito longe estava Sua Majestade, ladeado em ambos os lados pelas concubinas de alto escalão.
Agora eu entendo, pensou Maomao, sua mente voltando à história de Gaoshun de alguns dias atrás.
Em parte por respeito à ocasião, as emissárias vestiam trajes ocidentais. Maomao tinha certeza de que elas apareceriam em trajes tradicionais ocidentais, mas suas roupas eram de algum local ainda mais longe ao oeste, com saias volumosas presas na cintura.
As carruagens certamente estavam parecendo uma boa ideia para os assentos do banquete. Mesmo considerando que os padrões de beleza diferiam entre lugares e tempos, essas mulheres eram de uma beleza sobrenatural. Alguns dos oficiais quase se atropelaram quando viram as visitantes (cujas roupas enfatizavam o peito), mas os guarda-costas delas lançaram olhares afiados para evitar que tivessem qualquer ideia.
Acho que você realmente não pode confiar em oficiais menos competentes, pensou Maomao. No quesito beleza, as concubinas de alto escalão do palácio interno eram certamente páreas para as emissárias. Mas as damas visitantes, com seus cabelos e olhos incomuns, tinham a vantagem de provocar curiosidade. É verdade, havia a Concubina Gyokuyou, com seu cabelo ruivo e olhos verdes e o toque de exotismo que vinha de ser uma princesa estrangeira, mas ela já era uma figura conhecida. As emissárias, que eram completamente novas para todos ali, despertavam muito mais empolgação.
Além disso, Jinshi não tinha intenção de fazer um espetáculo com as concubinas, ele não ia permitir que elas fossem usadas para fazer as emissárias brilharem em comparação. Esse era um dos motivos para as telas nas carruagens, não apenas para esconder a condição de Gyokuyou.
Era possível perceber uma motivação política para o envio de mulheres como emissárias. Serem mulheres não significava que fossem menos capazes, mas Maomao estava exasperada com o ar de superioridade que uma das emissárias emanava. Por acaso, a concubina favorita do Imperador no momento também era uma mulher com sangue estrangeiro.
Talvez os espelhos que enviaram às concubinas tivessem sido parcialmente planejados como uma provocação. E esse não era o único desafio que as emissárias impunham, elas podiam ter vindo sob o pretexto da diplomacia, mas estavam também, na prática, garantindo que Sua Majestade as visse. Elas deviam ter, de fato, muita confiança em sua aparência.
Por que havia duas? Alguns chegaram a sugerir que elas esperavam lançar seu feitiço não apenas sobre Sua Majestade, mas também sobre o irmão mais novo do Imperador. Era bastante comum que dois irmãos se casassem com duas irmãs. Não era de admirar que os oficiais estivessem tão agitados.
Infelizmente para qualquer plano que as emissárias pudessem ter, o recluso irmão mais novo do Imperador não estava presente no banquete desta noite.
Quanto a Maomao, ela não estava com a Concubina Gyokuyou, mas fazia preparativos em outro lugar. A prova da comida havia terminado, os convidados haviam passado a desfrutar de bebidas e petiscos enquanto assistiam às apresentações.
Era a noite após a lua cheia, não havia nuvens, então a lua estava refletida no lago, como se houvesse uma no céu e outra na água. Com o palco construído tendo o lago atrás de si, as tochas cintilantes pareciam um pouco exageradas.
As apresentações musicais ostentavam uma verdadeira orquestra: o huqin, o erhu, o yangqin e a flauta reta, junto com um arranjo de gongs chamado yuan luo. Havia outros instrumentos, também, alguns que Maomao não reconhecia. A maioria das apresentações musicais nesta terra apresentava relativamente poucos instrumentos, mas eles pareciam ter se empenhado ao máximo para as visitantes.
Danças de espadas, esquetes e outros entretenimentos foram realizados junto com a música. Maomao lançou um olhar furtivo para as emissárias. Ambas estavam rindo, mas embora seus rostos fossem semelhantes, a da direita parecia quase desdenhosa em seu divertimento.
Talvez ela esteja dizendo que isso não é exatamente o que ela esperava, pensou Maomao. Ela não achava que a emissária tivesse vindo aqui esperando ver a dama que tanto encantou seu bisavô, provavelmente não acreditava que houvesse qualquer mulher no mundo mais bonita do que ela mesma. Na verdade, ela foi ouvida dizendo que era "uma pena" que as concubinas de alto escalão fossem acomodadas em carruagens e escondidas por telas. (Melhor não mencionar exatamente por que ela achava que era uma pena.) Maomao pôde ver o rosto da outra emissária escurecer com aquilo.
Ambas as mulheres falavam a língua do país de Maomao, mas a emissária mais calma e composta tinha menos sotaque do que sua companheira, que parecia manter sua fala ao mínimo, como se temesse dizer algo que não devesse.
Poucos momentos antes, a emissária de aparência orgulhosa havia se inclinado para fora de sua carruagem. Os servos próximos se apressaram em oferecer as mãos, mas ela recusou e saiu da carruagem por conta própria. Ela usava saltos altos e uma saia longa, o que provocou muitos murmúrios entre os espectadores, mas ela parecia bastante confiante, nem um pouco perturbada pela conversa fiada. Ela estava acostumada a isso. A maneira como ela andava quase parecia destinada à exibição.
— Boa noite, senhor. — O murmúrio apenas se intensificou quando a mulher parou, logo em frente à carruagem de Sua Majestade, onde fez uma reverência lenta, suas feições esculpidas parecendo brilhar ao luar. Sua pele parecia tão pálida que poderia ser translúcida, e o dourado de seu cabelo brilhava. — Aqui está você sentado tão longe de nós, embora tenha organizado este belo banquete. Desejava que estivesse um pouco mais perto de nós, para que pudéssemos conversar.
Apesar de seu leve sotaque, ela falava com bastante fluidez, um domínio da língua perfeitamente respeitável para uma diplomata. Os guarda-costas do Imperador pareciam perdidos, sem saber o que fazer. Mas quando viu a emissária dar um passo polido para trás, o Imperador pareceu decidir que ela não tinha intenção maliciosa, e instruiu seus guardas a recuarem.
Credo, olhe só para isso, pensou Maomao, lançando um olhar para as carruagens das quatro damas que flanqueavam a do Imperador. Ela quase achou que podia ver o problema surgindo. A concubina Lishu poderia não fazer parte deste episódio, mas ela só conseguia imaginar o que Gyokuyou e Lihua estariam pensando. Ela não tinha certeza de como Loulan se sentiria sobre isso, mas aproximar-se de Sua Majestade tão ousadamente era, no mínimo, indecoroso. Caramba, isso está me dando arrepios...
Hongniang estava do lado de fora da carruagem de Gyokuyou, com o rosto tenso. Seu orgulho como dama de companhia chefe a impedia de parecer qualquer coisa que não fosse composta, mas secretamente ela provavelmente queria ranger os dentes e cerrar os punhos.
A emissária aproximou-se lentamente da carruagem de Sua Majestade, com um ar provocador. Ela foi detida, não pelos guardas, nem pelo Imperador, nem por qualquer uma das concubinas, mas pela outra emissária.
— Acho que é hora de você voltar e se sentar — disse a outra mulher gentilmente. — Eles tiveram todo esse trabalho para organizar uma bela apresentação para nós. O mínimo que você poderia fazer é aproveitá-la. — Embora usassem trajes semelhantes, a emissária calma tinha um ornamento de cabelo azul, enquanto a outra mulher usava um vermelho.
A mulher com o acessório vermelho parecia nada satisfeita, mas a mulher com o acessório azul sussurrou algo em seu ouvido e ela foi, finalmente, convencida a voltar para sua carruagem.
Eu me pergunto o que ela disse, pensou Maomao. Ela estava se sentindo ansiosa. Achava que entendia agora por que o outro país enviou duas emissárias. Para ela, porém, não importava o gênero das emissárias, ou quantas delas haviam, ou por que estavam aqui. Sua prioridade agora era realizar seu trabalho com sucesso.
Ela entrou no prédio e falou com alguém lá dentro. — Como as coisas estão indo?
— Fizemos tudo o que pudemos. — A resposta não veio da pessoa com quem Maomao falou, mas de Gaoshun. Seus olhos pareciam estranhamente vagos, e seu rosto estava pálido, como se tivesse visto algo que não deveria existir neste mundo.
Maomao olhou para dentro. Quando viu a figura ali, sentiu o sangue sumir de seu próprio rosto. Sim, ela sabia muito bem agora porque Gaoshun parecia tão perturbado. Parado ali estava algo que não deveria existir neste mundo. Algo que poderia ter parado o coração de alguém com menos coragem do que Maomao. — Acho que o banquete terminará em breve — disse ela.
— Muito bem — disse Gaoshun, colocando um pano escuro sobre a figura ali dentro, conforme Maomao instruiu. Ela ouviu um sino tocar, momento em que pegou a mão da figura.
— Vamos lá, então — disse ela, e seguiu em direção ao palco.
Os convidados de honra seriam os primeiros a sair quando o banquete terminasse. Como os assentos também eram carruagens, os convidados não precisavam ir a lugar nenhum, as carruagens simplesmente começariam a se mover. Assim que começaram a rodar, a música flutuou pelo ar. Todos os outros eram obrigados a manter seus lugares até que os convidados de honra estivessem fora de vista.
As rodas da carruagem chacoalhavam. Maomao guiou a figura sob o pano escuro entre o pomar de pêssegos e o lago. As outras carruagens estavam voltadas para o lago, sua visão deste ponto estava obscurecida pelos salgueiros balançantes. Apenas as emissárias podiam ver Maomao e a figura. Elas não iriam interceptar as carruagens das emissárias, elas simplesmente estariam na beira da estrada enquanto os convidados passavam. Elas apenas tinham que ficar perto do pomar, sem nenhum problema.
As emissárias notaram Maomao e a figura. Justo quando estavam prestes a ignorá-los como nada mais do que um par de criadas, Maomao puxou o pano escuro.
Cabelos negros, presos em dois laços e coroados por uma tiara cravejada de pérolas, flutuavam sob o céu noturno. Um bastão de cabelo brilhava em um lado da cabeça da figura, um grampo cintilava no outro, e o cabelo que não estava preso dançava pelas costas.
Os lábios da figura eram finos, mas brilhavam em vermelho, e suas sobrancelhas longas desciam em direção a olhos amendoados acentuados em verde, entre aquelas sobrancelhas em formato de ramos de salgueiro, havia uma elegante marca de flor. A bainha arrastada de seu traje, um vestido branco de mangas longas e gola fechada, dançava ao vento. A figura parecia ter surgido do próprio luar.
Maomao tentou estudar as reações das emissárias sem levantar o olhar. Elas pareciam assustadas, ela conseguia ver a cor de seus olhos mesmo sob o luar fraco. Talvez elas vissem alguém com cabelos e olhos negros perfeitamente comuns. No entanto, embora tais características fossem muito comuns neste país, a pessoa diante delas agora era uma beleza da qual era impossível desviar o olhar.
Maomao, ainda com a cabeça curvada, deixou o pano preto cair no chão. No mesmo instante, apertou a mão da figura. Ela não tinha certeza, mas achou que a silhueta na carruagem da emissária sobressaltou-se. Se a mulher na carruagem logo atrás pudesse ver isso, as chances eram de que estivesse tendo a mesma reação. Simplesmente olhar para esta figura era o suficiente para fazer você sentir como se seu coração estivesse em um torno, como se pudesse explodir a qualquer momento. Como se você tivesse sido violentamente envenenado.
Os guardas estavam igualmente congelados, mas a carruagem continuou a avançar lentamente. Eles haviam combinado isso com o cocheiro de forma antecipada, encontraram alguém que fosse imune a esse tipo de coisa e ordenaram estritamente que não olhasse. Em uma estrada reta e desimpedida, eles provavelmente poderiam dirigir por uns bons dez segundos de olhos fechados.
Maomao não tinha certeza se aprovava a maneira como os guardas se deixavam hipnotizar , mas sabia que Gaoshun e os outros estavam prontos para intervir caso algo acontecesse.
No meio de tudo isso, começou.
Um lenço esvoaçou, e luzes levemente brilhantes flutuavam se aproximando. A figura deslumbrante caminhou para frente, o vestido branco parecendo que estava flutuando. Maomao fez menção de soltar a mão da figura, mas sentiu que ele a segurava com firmeza.
Aquele filho de uma...
Maomao não teve outra escolha senão caminhar ao lado, tentando tornar-se o mais imperceptível possível. A segunda carruagem já estava passando, com a segunda emissária fazendo uma expressão muito semelhante à da primeira.
Cada vez que o lenço ondulava, o número de luzes pálidas e flutuantes crescia. Às vezes, elas pousavam na tiara ou nos ombros da figura, multiplicando-se o tempo todo.
As carruagens não pararam. Maomao sabia que os guarda-costas estavam olhando na direção deles, atônitos, mas contanto que as emissárias permanecessem em seus veículos, os guardas não podiam fazer nada além de observar.
Dezenas, centenas de pequenas luzes cercavam Maomao e a figura com sua beleza sobre-humana. As carruagens pararam em frente ao lago, e as emissárias se inclinaram para fora em direção a elas. Nesse ponto, a figura finalmente soltou a mão de Maomao e ela se retirou silenciosamente.
A figura deslumbrante ficou ali parada, agitando o lenço tendo como cenário os salgueiros ondulantes, as luzes dançantes e a lua refletida na água.
Isso, talvez, fosse o que o bisavô das emissárias viu tantos anos atrás. Aqueles que estavam presentes mal podiam acreditar que a figura era deste mundo. Era como se uma das ninfas celestiais tivesse se perdido e descido à terra, e o assobio distante da flauta soava como a música do reino celestial.
Enquanto todos assistiam, a beldade ergueu a mão. Seus lábios vermelhos se curvaram em um sorriso mais sedutor jamais visto. O vento pegou o lenço, e os ramos de salgueiro balançaram como se quisessem esconder a ninfa. Os pontos de luz se espalharam por toda parte.
No mesmo instante, um gongo de bronze anunciou o fim da música, e uma chuva de flores começou a cair. Antes mesmo dos espectadores conseguirem se perguntara de onde as pétalas tinham vindo, a ninfa já havia partido. O lenço branco flutuou lentamente até o chão, e as luzes se dissiparam.
Uma das emissárias saiu de sua carruagem, querendo saber o que havia acontecido. Ela devia ser a mais ousada entre as duas.
Eu sabia que isso seria um problema, pensou Maomao. Eles deveriam ter saído enquanto ainda era tempo.
A emissária avistou Maomao e a encurralou. Ela era quase uma cabeça mais alta que a pequena mulher do palácio, e suas feições faciais acentuadas lhe conferiam uma beleza imponente. Ela falava rapidamente, em meio a uma enxurrada de gestos. Estava claramente perguntando pela ninfa que desapareceu, mas, em sua empolgação, havia passado a falar em sua língua nativa.
Maomao simplesmente apontou para cima, em direção à lua suspensa no céu. Ela esperou um instante e então disse o nome da deusa mencionada naquela terra distante do oeste. Ela não tinha certeza se sua pronúncia estava totalmente correta, mas sua intenção pareceu ser compreendida. O queixo da emissária caiu, e foi como se algo brilhante dentro dela tivesse sido reduzido a pó.
A outra emissária aproximou-se e pegou a mulher agitada pelos ombros. Maomao baixou a cabeça lentamente, então se virou e saiu como se nada tivesse acontecido.
— Parece que tudo ocorreu bem — disse Gaoshun, que esperava no prédio do outro lado do lago. Ele estava com vários outros oficiais, cada um segurando gaiolas de insetos contendo uma multidão de grandes mariposas, com asas nem totalmente azuis nem totalmente verdes, as mesmas lagartas que Shisui estava coletando.
Com a ajuda dela, Maomao passou os dias seguintes reunindo o máximo desses insetos que puderam encontrar. Não as larvas, mas cada adulto e até cada casulo que parecia estar prestes a eclodir. Nenhum esforço foi feito para exterminar os insetos no pomar de pêssegos desta vez, então havia ainda mais deles do que ela esperava.
Maomao lembrou-se da pintura que a velha madame tinha mostrado a ela, repleta de pontos de luz pálida. Esta era a verdade por trás deles.
Se isso não é uma coincidência, nada mais é.
A velha disse que tinha sido vítima de uma pegadinha e também disse que havia uma quantidade enorme de bichos. A travessura supostamente envolveu esfregar os insetos mortos em suas roupas.
Alguns insetos usam um odor específico para atrair membros do sexo oposto, um fato do qual Maomao já tinha utilizado ao seu favor ao coletá-los para ingredientes medicinais. Ela suspeitava que os insetos esfregados nas roupas da madame fossem fêmeas, e os que se aglomeraram ao redor dela fossem machos. A velha, Maomao tinha certeza, foi até a beira do lago e estava agitando seu lenço tentando espantar os insetos. Nada mais do que isso. Mas, para pelo menos um observador, ela parecia um espírito lunar etéreo envolto em luz.
Ainda sim, coincidências podem ser perigosas.
Foi esse evento que consolidou o status da madame dentro do distrito do prazer. Quem poderia imaginar que a pegadinha resultaria em algo tão extraordinário?
Assim, Maomao contou com a ajuda de Shisui para encontrar as mariposas fêmeas entre a coleção delas e usou o odor para perfumar as roupas. Shisui foi bastante prestativa em tudo, Maomao teria que encontrar uma maneira de agradecê-la.
Era óbvio o que aconteceria quando uma multidão inteira de mariposas machos se congregasse em torno do cheiro das fêmeas. E o efeito quase transcendente que isso teria sobre alguém já dotado de uma beleza avassaladora, ainda mais sob uma luz de uma lua quase cheia. Isso a fazia pensar no "hibisco sob as estrelas".
— Sim, eu diria que sim. Era isso que você queria? — Maomao olhou para as carruagens do outro lado do lago. As emissárias haviam partido, e os outros participantes do banquete estavam indo embora lentamente. O esforço para organizar as coisas de modo que eles não vissem nada não foi pequeno. Aquele momento, afinal, não era algo que todos poderiam testemunhar. Poderia transformar algumas pessoas em destroços balbuciantes, incapazes de realizar suas funções.
Poderia, possivelmente, colocar o país de joelhos.
— Eu fiz o que você me disse — veio uma voz carregada de irritação. Era Jinshi, envolto em um pano completamente encharcado. Ele deixou o cabelo solto, o que o deixava com uma aparência bastante incomum.
Sua performance foi excepcional. Depois disso, ele teve que fazer o caminho de um lado ao outro do lago, debaixo d'água, vestindo roupas pesadas. Deve ter exigido uma força física bem considerável.
Quanto ao que exatamente eles tinham feito, talvez fosse melhor não perguntar mais.
— Fizemos tudo o que podíamos. Seja qual for o resultado, pouco me importa. — Jinshi estava esfregando o rosto, produzindo uma mancha vermelha de maquiagem em seu lenço. — Meu cabelo ainda está molhado! — Ele parecia um pouco contrariado. Normalmente, a atenciosa senhora Suiren o ajudaria a secá-lo, mas ela não estava ali.
Gaoshun olhou fixamente para Maomao. Ele estava sempre tentando fazer com que ela cuidasse dessas coisas, era sempre uma dor de cabeça. Naquele momento, porém, todos os outros oficiais presentes estavam olhando para ela também. Ela desejava que eles não a olhassem com tanta piedade.
Deixe que ele seque o próprio cabelo, pensou ela, mas por fim pegou uma toalha limpa e começou a secar o cabelo de Jinshi.
Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios