Volume 3
Capítulo 5: Fungo Cadavérico (Parte 1)
Maomao agora ensinava Xiaolan a ler e escrever na lavanderia quase todos os dias. Evidentemente, Xiaolan não era a única empregada que queria aprimorar sua alfabetização, pois cada vez mais mulheres eram vistas espiando os caracteres rabiscados na poeira e tentando imitá-los. "Cada vez mais", porém, na prática significava apenas cerca de cinco pessoas, incluindo Xiaolan; as demais continuavam perfeitamente satisfeitas em passar o tempo fofocando como sempre faziam.
O lado ruim da dedicação de Xiaolan aos estudos foi que Maomao ouvia menos rumores do palácio. Assim, ela só soube dessa história em particular por meio do médico charlatão.
— Uma das damas do palácio desapareceu?
— É o que dizem. Uma reviravolta terrível — disse o charlatão, acariciando sua barba rala. Maomao tomou um gole de chá sem graça enquanto ouvia. — O período de serviço dela estava quase no fim, e ela até tinha juntado um dote razoável, então ela deveria se casar e sair do palácio. Fico imaginando o que poderia ter acontecido com ela.
Corria o boato de que a mulher havia conhecido um funcionário público em uma das festas no jardim no ano retrasado e que eles vinham se comunicando por cartas desde então. Era o velho truque de dar um prendedor de cabelo. Mulheres competentes, mesmo que não servissem a uma das concubinas de alto escalão, podiam ter permissão para sair do palácio interno para ajudar em tarefas específicas. Para uma pessoa tão distinta simplesmente desaparecer era algo bastante estranho.
— Não que isso nunca aconteça — murmurou o charlatão. Com essas palavras, Maomao sentiu como se pudesse esbarrar nos podres do palácio interno, e não gostou da ideia. Um jardim com duas mil mulheres certamente teria suas histórias. Às vezes, mulheres até se suicidavam por causa de problemas com colegas no palácio, embora Maomao nunca tivesse conhecido pessoalmente ninguém que tivesse feito isso. Outras vezes, a “família” de uma mulher podia achar conveniente que ela deixasse o serviço do palácio, e ela desaparecia sem aviso prévio e sem sequer uma palavra de despedida. Havia um entendimento tácito de que tais desaparecimentos não seriam investigados a fundo. Nesse caso, porém, como a mulher deveria se casar, estranhas especulações começaram a circular.
— Dizem que a moça foi comprada pela própria Matrona das Servas, então ninguém quis se intrometer muito — disse o médico enquanto mordia um biscoito de arroz.
— Que bom — respondeu Maomao. Ela simplesmente tentou continuar com seu trabalho de sempre. A história não tinha nada a ver com ela.
Pelo menos, ela pensava que não.
Quando Maomao retornou ao Pavilhão de Jade, encontrou alguns nobres muito elegantes no pátio, onde alguns móveis haviam sido movidos para criar um chá que exalava sofisticação. De um lado da mesa estava Gyokuyou. Sua barriga já estava bem maior, mas ela usava estrategicamente os arbustos ao redor para disfarçar a protuberância sempre que possível; além disso, vestia roupas que escondiam o formato exato de seu corpo. Isso impedia que as pessoas percebessem sua gravidez à primeira vista. Hongniang estava ao lado de sua senhora, com uma expressão tensa.
O fato de Gyokuyou permanecer sempre dentro de seu palácio era mais um fator que levantava suspeitas, então ela estava se deixando ser vista ali. Mesmo assim, qualquer um que fosse descobrir já teria descoberto há muito tempo, pensou Maomao. A questão era se esse "qualquer um" significava alguém bom ou ruim.
Quando viu que Maomao havia retornado, Gyokuyou sugeriu que entrassem. Ela se levantou e Hongniang caminhou ao seu lado para ocultar o perfil da concubina. Ela sabia exatamente de qual ângulo sua senhora seria mais visível.
Jinshi lançou um olhar furtivo para Maomao.
Algo devia estar acontecendo, pensou ela, e os seguiu até a área de recepção do pavilhão. — Com licença — disse ao entrar. A Concubina Gyokuyou a observava com sua habitual agitação, enquanto Hongniang mal conseguia disfarçar o cansaço. Quanto a quem havia convocado Maomao, ele estava sentado em uma cadeira, tomando chá com ar descontraído. Gaoshun estava ao lado dele, com uma expressão indignada.
— Você me chamou? — Maomao olhou alternadamente para Gyokuyou e Jinshi.
— Sim. Acredito que ele tenha assuntos a tratar com você — Gyokuyou gesticulou para Jinshi com a palma da mão aberta. Era sempre assim que começava.
— Tenho sim, e se não se importar, podemos encontrar um lugar para conversar em particular.
— Ah, não precisa se incomodar. Pode falar aqui mesmo — disse a concubina ruiva, visivelmente um pouco irritada.
[Kessel: A cor do cabelo da Gyokuyou é frequentemente descrita como ruiva dentro da light novel. Acredita-se que a escolha da cor salmão, meio rosa, pro anime foi para ajudar na diferenciação das personagens da obra, já que suas vestimentas são comumente nessa tonalidade avermelhada e rosada]
— Receio que não possamos. Não seria bom para mim ficar aqui por muito tempo, e além disso, a princesa parece estar quase pronta para o seu cochilo.
O choro de uma criança podia ser ouvido do lado de fora. Estava quase na hora do cochilo da tarde de Lingli, mas antes de dormir, ela sempre tomava um pouco do leite materno. Eles teriam que pensar em desmamá-la em breve, mas isso ainda levaria algum tempo.
Gyokuyou assumiu uma expressão quase infantil. A concubina estava grávida de seu segundo filho, mas ainda era jovem, com apenas vinte anos. O sangue exótico em suas veias lhe conferia uma aparência bastante adulta, acentuada por sua personalidade pragmática; juntos, esses fatores poderiam fazê-la parecer bem mais velha e experiente, mas ela ainda transbordava curiosidade juvenil.
— Lady Gyokuyou, permita-me sugerir que ceda desta vez — Hongniang, sempre atenta para garantir que o trabalho fosse feito, abriu a porta do quarto. Guiyuan estava do lado de fora, segurando a criança e aparentando um claro constrangimento. Hongniang pegou Lingli e a estendeu para Gyokuyou. A princesa estendeu a mão e agarrou o colarinho da concubina.
O semblante de Gyokuyou ainda estava sombrio, mas ela dificilmente conseguiria deixar sua querida e doce filha passar fome, e finalmente permitiu que Maomao e Jinshi se retirassem do quarto.
Os dois deixaram o Pavilhão de Jade e seguiram, como tantas vezes, até o escritório da Matrona das Servas.
Esse homem precisa de um local próprio, pensou Maomao. Ela teve uma ideia: talvez pudessem reformar o depósito extra no consultório médico. Assim, o charlatão se sentiria na obrigação de lhes trazer chá quando fossem visitá-los, pelo menos. Maomao poderia relaxar e a Matrona das Servas pararia de ser constantemente interrompida. Seria matar três coelhos com uma cajadada só.
O quarto da Matrona era amplo, mas despojado, sem muitos elementos que despertassem interesse, e como haviam expulsado todas as pessoas, não havia ninguém para lhes trazer chá.
A pedido de Gaoshun, Maomao sentou-se em uma das cadeiras simples. — Do que o senhor precisa? — perguntou.
— Creio que você aiba que Sua Majestade tem distribuído romances de ficção às concubinas ultimamente.
Jinshi simplesmente presumia que ela sabia sobre eles. O que, claro, ela sabia, então assentiu. — Sim, senhor. Pelo que entendi, depois que as concubinas terminam de ler, elas devem permitir que suas damas de companhia os leiam também, e depois as damas abaixo delas. Algumas cópias também estão circulando. Isso até inspirou algumas mulheres a aprenderem a ler.
Jinshi deu um leve sorriso ao ouvir isso. Maomao percebeu que ela estava certa; ele havia planejado tudo desde o início.
Gaoshun entregou um pergaminho a Jinshi, que o desenrolou sobre a mesa.
— O que é isto? — perguntou Maomao.
— Meu objetivo, embora ainda estejamos nos estágios iniciais, é criar algo assim a longo prazo — O pergaminho mostrava a planta da parte de trás do palácio interno. Um espaço aberto que atualmente era a praça, porém, havia vários edifícios. — Na praça do mercado, acredito que o que tenho em mente poderia ser chamado de instituto de estudos práticos.
Em outras palavras, uma escola.
Os olhos de Maomao se arregalaram em apreciação. Ela suspeitava que ele provavelmente já estivesse pensando dessa forma, mas ficou impressionada com a rapidez com que ele agiu. Embora muitas vezes olhasse para Jinshi como se estivesse observando um inseto ou alguma sujeira, hoje ela o encarava como se estivesse olhando para um cavalo. Era um sinal do quanto ela gostava da ideia, mas por algum motivo Jinshi e Gaoshun recuaram.
— Aconteceu alguma coisa, senhores?
— Não, é só que... não parece certo — disse Jinshi.
Até Gaoshun tinha algo a dizer. — Sim, o que aconteceu com sua expressão normal? Você não está se sentindo bem?
[Noelle: Os pobi estranhando a boa face da garota, kkkkkkkkk]
Maomao deixou as pálpebras caírem, o que lhe conferiu um ar mais cético; Jinshi soltou um suspiro de alívio e inclinou-se para a frente novamente. Por que ele parecia tão... satisfeito? Será que o eunuco era, na verdade, um masoquista secreto?
— O que você acha? — perguntou ele, já tendo recuperado a compostura.
Maomao coçou o queixo pensativamente. Não era uma má ideia. Na verdade, era uma ótima ideia. Primeiro, eles distribuíram romances pelo palácio interno por intermédio do Imperador para avaliar a reação. Eles haviam conseguido chamar a atenção das jovens, e ela percebeu que a ideia era mais do que um mero impulso.
— Acho excelente. Há algumas pessoas aqui que realmente querem aprender e, ainda mais importante, isso lhes fará bem depois que o período de serviço terminar.
— Sim, certamente — disse Jinshi, começando a sorrir. A expressão poderia ter causado alguns desmaios nas pessoas se ele não tivesse expulsado todas.
Uma coisa, porém, incomodava Maomao. Ela encarava o pergaminho atentamente.
— O que foi? — perguntou Jinshi, ansioso.
Maomao apontou para algo nos planos. O local projetado para o “instituto” ficava no quadrante sul da parte posterior do palácio, na praça próxima ao portão principal. Era grande o suficiente e facilitaria o transporte de materiais até lá, o que certamente era uma vantagem. O Imperador teria que tolerar isso durante a construção, mas, como a ideia era dele, talvez não fosse um grande problema.
Nem todos, porém, estavam dispostos a aceitar novidades. Maomao olhou fixamente para Jinshi. Ele assentiu, silenciosamente dando-lhe permissão para falar o que pensava, então ela disse: — O quarteirão sul é onde se encontram as concubinas de alta e média classe. Muitas delas, embora talvez não todas, são damas de grande orgulho.
Com o edifício na posição planejada, não apenas o Imperador, mas todas as concubinas ficariam constantemente expostas à visão de pessoas analfabetas reunidas para receber educação. Certamente, nem todos veriam isso com bons olhos.
Jinshi permaneceu em silêncio. Como um dos eunucos do palácio interno, ele conhecia bem o lugar. Ele entenderia o que Maomao estava insinuando. As concubinas fingiriam apoio, mas algumas poderiam secretamente iniciar campanhas de assédio. As próprias concubinas talvez não ousariam sujar as próprias mãos, mas poderiam empregar suas damas de companhia ou criadas para fazer o trabalho sujo. Elas não atacariam o prédio em si, mas sim as outras mulheres do palácio que começassem a frequentá-lo.
— Acho que o setor norte seria preferível — declarou Jinshi. O norte era a parte mais isolada do do palácio interno. Pouquíssimas concubinas iam para lá por vontade própria.
— Sim, senhor. E ouso dizer que não há necessidade de construir uma instalação completamente nova lá. O senhor poderia simplesmente reformar uma das muitas estruturas abandonadas já disponíveis.
Francamente, pensou Maomao, seria um desperdício de recursos construir algo novo. Não importava quanta influência Jinshi tivesse, era de se esperar que ele arrancasse o próprio nariz se isso economizasse dinheiro.
Maomao, porém, não havia terminado de dar ideias. — Mais uma coisa, senhor — disse ela. — Eu sugeriria que, em vez de construir o local abertamente como uma escola, ele fosse apresentado como um centro de treinamento profissional para aqueles que aspiram melhores posições. Uma escola é vista apenas como um lugar para estudar. É preciso atrair elas, deixando claro que frequentar o instituto ajudará a ter o que comer.
— Você acha?
— Sim. As filhas dos agricultores estão constantemente cientes dos perigos da fome. E por falar em alimentação, talvez você pudesse oferecer um lanche durante os intervalos de vez em quando.
— Lanches diários, excelente ideia — disse Jinshi, assentindo com a cabeça.
— Não senhor, só de vez em quando. Vocês não devem alimentá-las todos os dias.
— Por que não?
Se fossem oferecidos lanches diariamente, algumas pessoas só viriam quando quisessem comer. Torne os lanches imprevisíveis, elimine a garantia de que alguém poderá comer nessas aulas, e as pessoas viriam todos os dias para garantir que não perderiam uma refeição gratuita.
— Você acha mesmo?
— Que jogador já se viciou em um jogo onde ganhava sempre?
Jinshi não respondeu. A ideia geral dele era boa, mas ela percebia traços de ingenuidade, fruto de sua boa educação. Ele parecia reconhecer o mesmo, por isso estava ali, pedindo a opinião dela.
— Estas são apenas as minhas observações subjetivas; talvez você queira pedir a opinião de outras pessoas também — disse ela. Ela não tinha mais observações a fazer, mas decidiu que já havia dito o suficiente. Não podia deixar que simplesmente concordassem com tudo o que ela dizia e pensava.
Ela não tinha certeza se era necessário sair do Pavilhão de Jade para ter essa conversa. Olhou para Jinshi, perguntando-se se já podia ir embora, mas então Gaoshun tirou mais papéis do bolso.
— Há mais uma coisa — disse Jinshi. — O quanto você entende de cogumelos?
Maomao franziu a testa, curiosa para saber do que se tratava. — Sempre fui às montanhas algumas vezes por ano para procurá-los, pois são importantes tanto para cozinhar quanto para fazer remédios. — Havia muitos cogumelos venenosos por lá, mas também uma boa quantidade daqueles que podiam ser transformados em valiosos remédios. — Eles te interessam? — Maomao se esforçou para conter o sorriso que ameaçava se espalhar por seu rosto.
— Todo ano, por volta desta época, algumas mulheres do palácio sofrem de intoxicação alimentar. Nós já avisamos, mas sempre tem alguém que ignora.
— Alguns apetites são simplesmente maiores do que outros — disse Maomao. Ninguém ia passar fome no palácio interno, mas havia quem achasse as refeições oferecidas insuficientes. Os únicos que podiam esperar um lanche durante o dia eram as acompanhantes das concubinas, ou aquelas com quem alguém se dignasse a compartilhar uma guloseima.
— No ano passado, supostamente, alguém até comeu cogumelos alucinógenos no consultório médico, junto com o próprio médico.
Maomao não comentou nada sobre isso.
— E parece que as frutas desaparecem dos pomares com uma regularidade surpreendente.
Ou isso. Em segredo, ela queria protestar, dizendo que aqueles cogumelos não eram venenosos, mas sim deliciosos. Quanto às frutas, ela apenas contribuiu para abrir espaço para que as restantes amadurecessem melhor. Pelo menos, essa era a sua desculpa.
— Portanto, o que eu quero é impedir que alguma dama da corte se desvie do caminho. Quero me livrar dos cogumelos antes que alguém os coma acidentalmente. Enquanto fazemos isso, quero que me diga exatamente que tipo de veneno cada um contém. Você estará dispensada de suas obrigações no Pavilhão de Jade, exceto pela degustação de comida.
Hum... Maomao assentiu com a cabeça, mas achava tudo aquilo um pouco estranho. Até então, não haviam dito nada que não pudesse ter sido discutido na presença da Concubina Gyokuyou. Aliás, teria sido conveniente para ela saber toda a história sobre as inspeções de cogumelos. Ainda há algo que ele não está me contando, pensou Maomao, mas não era tão ingênua a ponto de dizer isso em voz alta. Na verdade, estava perfeitamente satisfeita com o pedido de Jinshi.
O trabalho seria, no mínimo, interessante.
Ela disse apenas: — Muito bem, senhor — com um leve sorriso nos lábios.
Havia muitos lugares onde cogumelos poderiam crescer no palácio interno. Era frequentemente chamado de jardim das mulheres, mas muitas plantas de verdade também cresciam ali, incluindo canteiros de flores e árvores cuidadosamente cultivados, pomares e pinhais. A umidade da estação quente logo significaria cogumelos por toda parte.
Uma das coisas mais complicadas sobre os cogumelos era que os comestíveis e os venenosos muitas vezes eram muito parecidos. Cogumelos ostra e cogumelos-da-lua, por exemplo, eram facilmente confundidos, e já houve casos de intoxicação alimentar no distrito do prazer quando clientes, sem querer, deram o cogumelo errado de presente.
Alguns lugares eram mais propícios ao crescimento de cogumelos do que outros. Cogumelos ostra cresciam praticamente em qualquer lugar, mas cogumelos-da-lua eram mais comuns nas montanhas. Maomao duvidava que encontraria algum desses no palácio interno.
Se fossem realizar uma caça aos cogumelos, Maomao imaginou que poderiam ignorar os locais frequentados pelos jardineiros. Isso incluía qualquer lugar onde o Imperador costumava ir para admirar as flores. A maioria desses lugares ficava no distrito sul, onde residiam as concubinas de alto e médio escalão, e que, portanto, era repleto de damas orgulhosas. Essas áreas seriam mantidas livres de cogumelos.
Então, por onde devemos começar? Maomao pensou, olhando para as plantas que Jinshi havia fornecido, com os pés mal tocando o chão.
— B-Bem-vinda de volta — disse Yinghua, parecendo um pouco insegura.
— Obrigada, é bom estar de volta.
— Ei! Você não pode entrar aí desse jeito! — disse Yinghua, ajeitando delicadamente a cabeça e as roupas de Maomao. Ela tinha folhas no cabelo e galhos presos nas vestes. Devia ser daquela árvore que ela tinha escalado. — Não sei o que estão fazendo você fazer lá fora, mas eu queria que você parasse de voltar tão desarrumada.
Tão desarrumada, pensou Maomao. Yinghua certamente falava a verdade nua e crua. Maomao assentiu, porém; ela tinha que respeitar o fato de que estavam tentando manter as coisas higiênicas, visto que havia uma criança pequena e uma mulher grávida por perto. Ela foi trocar de roupa rapidamente e se sacudiu.
Foi um dia muito gratificante para Maomao. Ela havia colhido uma cesta inteira cheia de cogumelos, incluindo vários medicinais. Ela disse ao charlatão que eram venenosos; imaginou que isso o impediria de comê-los. É verdade que ele mal parecia conseguir se conter mesmo assim, mas ela teria que confiar nele. Maomao (a gata) provou ser mais esperta que o charlatão; ela nem sequer olhou para os cogumelos. Tendo encontrado uma abundância de fungos incomuns, porém, Maomao (a humana) estava se sentindo bastante satisfeita.
— Maomao, você meio que... tem um cheiro... de alguma coisa — disse Yinghua.
— É mesmo?
Agora que pensava nisso, seu nariz ardeu um pouco quando ela saiu para colher cogumelos. Talvez fosse por causa de toda a correria. Ou talvez fosse por causa daquele lugar que Shisui tinha mencionado. Havia muitos cogumelos lá. A água residual transbordando parecia ser um bom fertilizante.
— Lady Gyokuyou vai jantar. Depois de se trocar, você poderia…?
Ah, sim: o dia ainda não havia terminado, percebeu Maomao. Parecia um pouco mais cedo do que o habitual para o jantar, mas não seria bom que a provadora de comida se atrasasse.
— Estou indo — disse ela, e voltou rapidamente para o seu quarto.
Ao chegar aos aposentos da Concubina Gyokuyou, a mulher estava amarrando um cordão preto no pulso. Era um costume típico nos aposentos da corte quando alguém de posição nobre falecia, mas este cordão era menos elaborado do que os usados quando o príncipe herdeiro morreu. Gyokuyou estava vestida como sempre; já Hongniang usava roupas mais simples do que o habitual.
— Desculpe. Acho que cheguei um pouco cedo — disse a Concubina Gyokuyou.
— Não tem problema, minha senhora.
Hongniang deve ter percebido a pergunta implícita no rosto de Maomao, porque disse:
— Preciso sair depois do jantar hoje. Sinto muito, mas preciso que você venha comigo.
— Sim, senhora.
Ela compreendeu perfeitamente por que Hongniang estava vestida de forma tão sombria. Hongniang também deu a Maomao uma faixa preta. Elas estavam a caminho de um funeral, supôs Maomao. Tais coisas eram normalmente consideradas impróprias para o palácio interno, onde o Filho do Céu poderia nascer, mas eles simplesmente davam outro nome e faziam mesmo assim. Pelo fato de Hongniang estar presente no lugar de Gyokuyou, Maomao suspeitou que se tratava de uma das concubinas de médio ou baixo escalão que havia falecido.
— Pode usar as roupas que está vestindo, mas tire esse elástico de cabelo — instruiu Hongniang. Maomao assentiu e pegou o primeiro prato para provar e ver se estava envenenado.
Hongniang levou Maomao a um local ritualístico no quarteirão norte. Num país que tanto apreciava cerimônias e ritos como este, até mesmo o palácio interno tinha um pequeno espaço reservado para eles. Normalmente, este local era despojado de adornos, mas os eunucos claramente se esforçaram para prepará-lo para este funeral em pouco tempo.
Esperava-se que Gyokuyou comandasse um ritual cerca de uma vez por ano, mas até então, durante o tempo em que Maomao esteve a seu serviço, essa função ainda não lhe havia sido atribuída. Tais funções eram geralmente prerrogativas dos homens, mas, nas circunstâncias especiais do palácio interno, as mulheres podiam assumir o cargo. A responsabilidade passava de uma concubina superior para a seguinte, em sequência.
Os presentes no funeral formaram duas filas em frente ao altar, onde ofereciam flores distribuídas por mulheres que pareciam ser damas de companhia da falecida concubina. Maomao ficou atrás de Hongniang e aceitou uma flor de uma das damas. Contudo, o aroma não era o habitual para essas flores. Talvez mais uma característica singular do palácio interno?
Hum? Maomao notou que a mão da mulher que lhe dera a flor estava vermelha. Seria uma erupção cutânea? A mão estava visivelmente inchada. Maomao olhou para o próprio braço esquerdo, uma das cicatrizes ali lembrava o inchaço da mulher.
Esses pensamentos ainda rondavam a cabeça de Maomao enquanto ela se aproximava do altar para oferecer sua flor. Havia um grande caixão coberto com um pano branco. Talvez ela fosse transferida mais tarde. Através do pano, Maomao mal conseguia distinguir uma silhueta humana lá dentro.
Segundo Hongniang, a concubina falecida era filha de um alto funcionário, uma mulher de posição notável entre as concubinas de médio escalão, mas Maomao deduziu, pelo tom de Hongniang, que a mulher não era muito simpática. Cerca de um ano antes, sua saúde começou a declinar. Ela se trancava em seu quarto, mas não voltava para a casa da família. O Imperador nunca a visitava. — Ela certamente poderia ter voltado para casa se quisesse — comentou Hongniang com um tom ácido na voz. Então, justamente quando a concubina estava mais frágil, o tempo esquentou e ela teve uma intoxicação alimentar.
Era incomum para Hongniang, normalmente tão disciplinada, criticar um morto daquela maneira. Quando as duas saíram do cortejo de flores, Maomao perguntou baixinho:
— Ela fez alguma coisa?
Era uma pergunta casual; ela não esperava necessariamente que Hongniang lhe contasse. Era mais do que uma dama de companhia precisava saber.
Para sua surpresa, porém, Hongniang sussurrou de volta: — Você se lembra de alguém que tentou envenenar Lady Gyokuyou? Nunca encontraram o culpado, mas… — Hongniang olhou para o caixão.
Agora fazia sentido. Hongniang era extremamente leal; é claro que ela se ressentia de qualquer pessoa que suspeitasse de tentar prejudicar sua senhora. Ela poderia até estar secretamente aliviada pela morte da mulher.
Espere... Uma ideia surgiu na mente de Maomao. Essa concubina do meio, morta por intoxicação alimentar, havia tentado assassinar Gyokuyou. Justamente Gyokuyou, que estava grávida e, portanto, mais cautelosa do que o normal perto das outras concubinas e mulheres do palácio. Além disso, havia o pedido de Jinshi, no dia anterior, para que Maomao encontrasse todos os cogumelos venenosos. Ele havia tomado tanto cuidado para que Gyokuyou e as outras não soubessem o que ele havia pedido.
Deixando de lado qualquer sentimento pelas residentes do Pavilhão de Jade, era impossível afirmar com certeza que Gyokuyou não havia envenenado a concubina de médio escalão antes que a falecida pudesse fazer o mesmo com ela. Intoxicação alimentar era a explicação oficial, mas se a causa tivesse sido um cogumelo, tudo faria sentido. Maomao conseguia facilmente imaginar o que aconteceria se as outras mulheres do Pavilhão de Jade soubessem o que Jinshi estava pensando. Até mesmo o belo eunuco poderia esperar uma mudança em sua recepção ali se descobrissem. Maomao às vezes pensava que Jinshi talvez fosse um aliado pessoal demais de Gyokuyou, mas neste caso, pelo menos, ele estava sendo escrupulosamente justo.
Duvido que a Concubina Gyokuyou tivesse algo a ver com isso. Ela podia não gostar da outra concubina, mas havia inúmeras maneiras de quebrar o espírito de uma oponente e garantir que ele não retornasse. Tentar envenenar alguém só por precaução, caso essa pessoa tentasse envenená-la (de novo), parecia um grande problema. Sempre havia a possibilidade de serem descobertas. Hongniang e as outras três garotas do Pavilhão de Jade também não pareciam ser do tipo que recorreriam a métodos tão desonestos.
Não, em qualquer tentativa de envenenamento, a principal suspeita no Pavilhão de Jade seria Maomao.
Hum! Se o objetivo de Jinshi com a questão dos cogumelos era avaliar a reação de Maomao, ela não ficou chateada. Na verdade, ficou até um pouco impressionada. Maomao não tinha feito nada para sujar as mãos, é claro. Fico imaginando que tipo de intoxicação alimentar matou aquela mulher.
Maomao ficaria muito feliz em descobrir, mas suspirou, sabendo que seria difícil. Ela estava prestes a seguir Hongniang de volta ao Pavilhão de Jade quando houve um estrondo enorme. Virou-se e viu que uma mulher com o rosto envolto em bandagens havia derrubado o altar. O arroz e o vinho da oferenda estavam espalhados pelo chão.
A pele vermelha e inchada podia ser vista espreitando por baixo das bandagens da mulher. Suas vestes eram simples, mas de tecido fino, não como os uniformes usados pelas criadas. Ela não era uma simples dama da corte, nem uma dama de companhia, suspeitou Maomao.
— Pare com isso! — gritou uma dama da corte enquanto agarrava a intrusa, mas a outra mulher se desvencilhou e ficou em frente ao caixão, onde arrancou o pano branco que o cobria. As mulheres reunidas ofegaram, gritaram e se dispersaram. Até mesmo a robusta Hongniang soltou um grito.
Uma mulher jazia ali, vestida de branco. A pele do seu rosto estava vermelha e inchada, e metade do cabelo havia caído. Ela parecia ter sido frita em óleo, certamente não era o que se poderia chamar de uma flor desabrochando do palácio.
A intrusa sorriu por entre as bandagens. — hahaha! Viram só? Quem semeia vento colhe tempestade! — gritou, mesmo quando um grupo de eunucos chegou para contê-la. — Vocês são mais horríveis do que eu jamais fui! — Sua risada ecoou no crepúsculo.
Maomao observou as duas, o cadáver e o que conseguia ver do rosto da outra mulher por entre as bandagens. Os ferimentos, quase como queimaduras, lhe pareceram familiares.
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