Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: noelletokito


Volume 3

Capítulo 4: Óleo Perfumado

A caravana partiu deixando para trás um rastro intenso de óleo perfumado. Cada dama da corte que passava parecia exalar um perfume diferente. Cada aroma individualmente até poderia ser bastante agradável, mas misturados transformavam-se num pântano olfativo indistinto. Maomao, com seu olfato aguçado, achou isso um pouco incômodo. Para piorar a situação, o perfume importado do Ocidente não era sutil, mas carregava aromas intensos.

Maomao não foi a única que achou a vida um pouco mais difícil por causa da nova tendência. Quando foi à lavanderia, descobriu pilhas e pilhas de roupas impregnadas de perfume, e os eunucos responsáveis ​​pela limpeza franziam a testa enquanto buscavam balde após balde de água.

Essas modas tendiam a desaparecer tão repentinamente quanto surgiam. A febre das manicures havia diminuído, então todos precisavam de algo novo a que se apegar. Mas o interesse por romances continuou a florescer, talvez porque livros e perfumes eram completamente diferentes um do outro.

Xiaolan estava tão irritada quanto Maomao com os perfumes, já que isso significava mais trabalho para ela, mas continuou a estudar diligentemente para ler seu novo exemplar do romance. Maomao, que esperava que o empenho de Xiaolan diminuísse depois de alguns dias, ficou impressionada.

— Argh, que fedor! — Maomao resmungou para si mesma, enquanto colocava um cesto de roupa suja no chão. Só de estar ali, ela já se sentia embriagada pelos odores. Permaneceu ali, apática, mas aparentemente estava atrapalhando, porque uma criada com um cesto cheio de roupas esbarrou nela. Maomao acabou coberta por algumas peças.

— Sinto muito! — disse a empregada, ainda falando um pouco alto pelo susto.

Quem quer que fosse a dona da roupa, ela aparentemente também era adepta da última moda, pois as roupas exalavam um forte cheiro de rosas.

Rosas, hein? Será que Maomao estava errada em pensar em quanto dinheiro poderia ganhar com a água de rosas que fez no outro dia? Ela fez bastante, mas não usou nada por enquanto, apenas guardou, pois a essência de rosas poderia ter um impacto negativo na gravidez. Provavelmente não haveria problema, contanto que a Concubina Gyokuyou não usasse grandes quantidades, mas nunca se sabe, e era melhor ser cautelosa. Por isso, Maomao estava procurando uma oportunidade para vender a água de rosas no distrito dos prazeres antes que estragasse.

Ela arrancou a roupa pela cabeça com um rosnado. Em seguida, piscou e cheirou bem a peça. Isso alarmou a criada, mas Maomao a ignorou, jogando a roupa no cesto de roupa suja e enfiando o rosto em outro. Agora, os eunucos e outras criadas próximas a observavam, perplexas, mas o que isso importava para ela?

Maomao ia de um cesto para o outro, cheirando o conteúdo, e quando terminou, se esqueceu completamente de levar a própria roupa lavada de volta para casa. Em vez disso, saiu para algum lugar.

Maomao, mais do que ninguém, sabia onde as tendências tinham maior probabilidade de se consolidar. 

Naquele dia, os gritos das damas de companhia do Pavilhão de Cristal podiam ser ouvidos por todo o palácio interno.

O belo eunuco apareceu no Pavilhão de Jade naquela noite. Ela havia imaginado que ele apareceria. Em sua mão, ele segurava o que parecia ser um protesto escrito.

— Eu a imaginava como alguém com um pouco mais de discrição — disse Jinshi, sua exasperação habitual agora tingida de raiva. Atrás dele estavam Gaoshun (exasperação combinada com exaustão), a Concubina Gyokuyou (preocupada, mas inegavelmente intrigada) e Hongniang (por pouco não parecendo uma divindade furiosa). As outras damas de companhia dormiam com a Princesa Lingli, que já havia ido para a cama.

Quer dizer, eu sou… Maomao pensou, mas já era tarde demais.

Era necessário apresentar muitas provas para transformar especulação em certeza. O Pavilhão de Cristal era o lugar perfeito para obtê-las, e Maomao, pode-se dizer, sucumbiu à sua curiosidade.

[Kessel: A curiosidade matou o gato… nesse caso, a gata kkk]

— Peço desculpas. Deixei-me levar pela empolgação e fiz isso sem a permissão delas.

— Você parece uma velha tarada dando desculpas para si mesma.

Essa era a última coisa que Maomao queria ouvir de um tarado de verdade, mas por enquanto ela manteve os olhos no chão e tentou parecer arrependida. 

— Da próxima vez, vou perguntar antes de sair cheirando as coisas.

— Mas por que você estava cheirando as roupas?! — Jinshi parecia perturbado.

— Céus! — disse Gyokuyou, piscando; isso pareceu alertar Jinshi sobre a impressão que ele estava causando, pois sua expressão severa suavizou um pouco e ele recuperou parte de sua gentileza habitual.

De qualquer forma, Maomao havia aprendido a lição. Mais especificamente, aprendeu que precisaria consultar as pessoas antes de pegar em suas roupas e começar a cheirá-las. Aprendeu a não deixar que a empolgação a levasse a praticamente arrancar as roupas das pessoas para cheirá-las. E definitivamente aprendeu a não escolher as damas de companhia do Pavilhão de Cristal como alvos de suas cheiradas. Elas já a tratavam como um demônio ou um espírito maligno, mas agora pareciam considerá-la algo ainda pior.

Mesmo sabendo que isso poderia acontecer, Maomao precisava ter certeza.

Acho que já chega de penitência por agora, decidiu ela. Levantou a cabeça e olhou Jinshi diretamente nos olhos. Em sua mente, era até bom que a queixa tivesse trazido Jinshi até ali tão rapidamente. Ela acreditava que o assunto exigia uma decisão imediata.

— Eu tenho meus motivos.

Ela continuou encarando Jinshi por vários segundos. Finalmente, ele abriu a boca, embora mantivesse o rosto inexpressivo. — É melhor que seja um bom motivo.

— Mas é claro — disse Maomao com firmeza. Então, ela olhou para Gyokuyou e Hongniang e pediu um pouco de papel. Logo apareceram alguns. Eram da loja pessoal de Gyokuyou; francamente, eram melhores do que Maomao precisava naquele momento. Um pedaço de papel velho teria servido, pensou ela, mas era a única ali que vinha da pobreza e, portanto, a única a ter tal ideia. Ela começou a escrever caracteres rápidos e fluentes, enquanto os outros cercavam a mesa e a observavam.

A Concubina Gyokuyou leu em voz alta: — Rosa, benjoim, árvore-guarda-sol, incenso e canela? Esses são... tipos de perfume ou algo assim, certo?

Maomao assentiu com a cabeça. — Esses são os aromas e essências que detectei nas damas do palácio hoje.

— O que tem eles? — perguntou Jinshi, enfiando as mãos nas mangas.

— Nenhum deles estava presente em quantidade significativa — disse Maomao, encostando o pincel na pedra de tinta. — Mas todos são potencialmente prejudiciais à gravidez. — Isso lançou uma sombra sobre a plateia.

Ela continuou: — Além dos vários óleos de perfume, a caravana vendia especiarias e chás.

Ela mostrou os que havia comprado para si mesma. O chá de jasmim, junto com pimentas, pimenta-do-reino de preço moderado, sal grosso e canela, que poderia facilmente servir tanto na comida quanto na perfumaria. Tudo muito típico de Maomao, com sua preferência por comidas secas e picantes. Ela ficou um pouco constrangida com a quantidade que havia comprado, mas, bem, o dinheiro estava lá. Ela disse a si mesma que deveria ter percebido na hora, mas Maomao, ao que parece, não era imune à atmosfera festiva.

— O chá de jasmim tem potencial para induzir contrações — disse ela. — Não acho que uma pequena quantidade seja motivo de preocupação, mas para evitar qualquer possibilidade de aborto espontâneo, acho que você deveria se abster completamente dele.

Era o mesmo chá que Maomao, Xiaolan e as outras tinham bebido no consultório médico outro dia.

— E essas especiarias. Pimentas aparecem frequentemente nos abortivos usados ​​por prostitutas.

Maomao lançou um olhar para Gyokuyou. Ela compreendeu claramente que o assunto era sério; olhou para Maomao atentamente e assentiu. — Continue. — Hongniang parecia ansiosa para que Gyokuyou não fosse exposta a muitas conversas perturbadoras, mas respeitou a opinião da concubina o suficiente para não intervir.

— Então, usar esses ingredientes aumentará a probabilidade de um aborto espontâneo? — perguntou Jinshi.

Maomao não se comprometeu. Ele estava certo e errado ao mesmo tempo. — Cada um deles aumenta a possibilidade, mas nenhum deles garante que causará uma reação adversa. Presumindo que você não beba acidentalmente o óleo do perfume ou entre em contato com uma dose excepcionalmente alta.

Em quantidades normais, todos os ingredientes poderiam ser considerados praticamente seguros; caso contrário, não poderiam ser levados para o palácio interno. Mas cada item tinha múltiplas utilidades. Se os ingredientes fossem encontrados nos arredores do Pavilhão de Jade e, por engano, alguém os ingerisse, quem sabia o que poderia acontecer? E se essa pessoa fosse uma concubina grávida? Maomao lamentou não ter percebido isso antes.

— Vocês conseguem obter alguma informação sobre os mercadores que estavam aqui com a caravana? — perguntou ela.

— Podemos investigar, mas não espero listas detalhadas de suas mercadorias.

Os perfumes seriam simplesmente listados como perfumes, as especiarias como especiarias e o chá como chá. Tipos e variedades específicas provavelmente não seriam registrados. Todas as mercadorias recebidas haviam sido inspecionadas, o que dava a todos os envolvidos a sensação de que seu trabalho havia sido feito de forma satisfatória e deixava pouca margem para reclamações.

Mas uma coisa incomodava Maomao. — Isso não te lembra de... você sabe?

— Me lembrar de quê? — respondeu Jinshi, sem ter certeza do que sua observação vaga queria dizer.

Ela estava pensando em algo que parecia uma mercadoria perfeitamente aceitável para o palácio interno, mas que poderia ter um efeito colateral inesperado.

— O pó facial tóxico — disse Maomao, e um lampejo de compreensão pôde ser visto em todos os rostos da sala. No verão anterior, a princesa Lingli adoeceu por razões desconhecidas. Simultaneamente, o mesmo aconteceu com o filho da Concubina Lihua, o herdeiro aparente, que posteriormente faleceu. Agora, um clareador facial sem chumbo era usado no palácio interno, e o produto antigo não era mais permitido. Talvez isso os tivessem feito baixar a guarda.

— Você está sugerindo que alguém está tentando deliberadamente contrabandear veneno para o palácio interno? — Jinshi arriscou. Maomao não assentiu, mas também não balançou a cabeça negativamente. Tudo o que ela tinha no momento era especulação, não provas. Ela se sentia perto da resposta, mas sempre havia a possibilidade de estar errada.

Havia também a semelhança com um incidente anterior. Além disso, havia o fato de que a serva do palácio ressuscitada, Suirei, ainda estava à solta, e que seu passado e contatos permaneciam obscuros. Talvez Jinshi tivesse descoberto algo sobre o assunto, mas ele não tinha obrigação de contar a Maomao.

— Eu apenas notei que muitas substâncias potencialmente nocivas entraram no palácio interno. Nenhuma delas precisa ser tratada como venenosa — Ela estava disfarçando um pouco, apresentando tudo o que dizia como opinião. Não gostava da ideia de que os mercadores que haviam trazido os produtos para o palácio interno pudessem ser punidos por causa de algo que ela dissesse. Deixaria Jinshi tirar suas próprias conclusões. 

— Acho, no entanto, que seria prudente avisar também as outras concubinas.

Isso foi tudo o que ela disse.

A discussão deixou Maomao exausta. Ela se lembrou do que seu pai havia dito; quase podia ouvir a voz gentil e maternal do velho, alertando-a para não falar com base em suposições. Então, quanto do que ela havia dito era suposição e o quanto era certeza? A pergunta a deixou um pouco enjoada.

Maomao entrou na cozinha e aqueceu um pouco de água. Quando ferveu, misturou com água fria e despejou em uma xícara de vidro, onde o botão de chá de jasmim aguardava. A xícara era um utensílio caro, mas não tinha problema; ela se encarregaria de lavá-la bem depois.

Maomao já tinha terminado seu chá de jasmim, infelizmente, mas Shisui lhe devolveu o dela. Ela já tinha tomado um pouco, e disse que não precisava de mais. Maomao talvez preferisse que Shisui simplesmente aceitasse o presente, mas não queria discutir. De qualquer forma, ela gostava daquele chá. Suas "irmãs" a deixavam prová-lo às escondidas quando não havia clientes por perto, e bebê-lo agora a fazia lembrar do passado.

A flor começou a amolecer e se abrir na água morna. Maomao sentou-se em uma cadeira e a observou. O aroma perfumado preenchia o ar ao seu redor.

— Pensei que fosse venenosa, não é? — disse uma voz encantadora acima dela. Ela ergueu os olhos e viu um rosto tão belo quanto a voz, iluminado pela única lamparina de papel que queimava na cozinha. Já estava escuro lá fora. A luz da lamparina deu ao rosto de Jinshi um tom avermelhado, ele era realmente repulsivamente lindo.

— Muitos venenos têm propriedades medicinais em pequenas quantidades — respondeu ela. — Uma única xícara de chá dificilmente teria algum efeito. De qualquer forma, esta é a cozinha. Não é exatamente o tipo de lugar onde você deveria estar, Mestre Jinshi.

— Não discuta.

— Onde está o Mestre Gaoshun?

— Enviei ele para entregar uma mensagem.

A posição elevada do eunuco não impediu Maomao de franzir os lábios para ele. Ela ergueu o chá, com a flor de jasmim agora totalmente aberta, à luz da lamparina e o inspecionou. Então, tomou um gole, apreciando a forma como a flor flutuava na água. Ela sabia que era indelicado não oferecer chá a Jinshi, mas já era tarde. Era hora dele ir para casa.

— Além disso — acrescentou Maomao — não estou grávida.

— É verdade. — Por algum motivo, Jinshi desviou o olhar dela enquanto falava. Ele estava sentado na diagonal oposta a ela, quando foi que ele se sentou ali?

— Não vai me oferecer chá? — perguntou, observando a xícara de vidro e a flor.

— Que tipo de chá o senhor gostaria? — Maomao se levantou, resmungando baixinho sobre como Jinshi conseguia ser um incômodo. Havia uma prateleira abastecida com provisões para quando chegassem visitas. Talvez ele gostasse de um bom e simples chá branco.

Jinshi continuou a examinar o copo dela. — Gostaria de experimentar um pouco.

— Receio que seja o último — Ela havia servido a primeira infusão em seu copo; poderia adicionar mais água quente, mas Jinshi só conseguiria o resíduo.

— Não me importo. Quais outros efeitos este chá tem? — Jinshi se ajeitou na cadeira, observando as folhas.

— Ele promove o relaxamento, para começar. Pode ajudar com a insônia, mas também pode ajudar a despertar. Além disso, embora não seja recomendado durante a gravidez, ouvi dizer que pode ser útil durante o parto.

— Parece que os benefícios superam em muito os malefícios.

— Sim. É por isso que as pessoas muitas vezes se esquecem deles.

Teria sido aquela a única vez em que tanto chá de jasmim havia chegado ao palácio interno ou isso já aconteceu antes? Maomao não sabia. Podia ser uma simples coincidência, ou algo mais. Nem disso ela tinha certeza. Era possível que o chá, assim como as roupas, fosse uma forma de sondá-los. Um método para descobrir se alguém no palácio interno estava grávida.

Nas ocasiões anteriores em que as caravanas haviam visitado o palácio, Maomao ou estava trabalhando na residência de Jinshi, ou cuidando da Concubina Lihua no Pavilhão de Cristal ou simplesmente sem dinheiro, como aconteceu antes de ser designada para servir à Concubina Gyokuyou. Em outras palavras, por falta de oportunidade ou de recursos, ela sempre demonstrou total desinteresse pelos mercadores visitantes. Mesmo agora, se não fosse pela repentina moda dos óleos perfumados, Maomao provavelmente não teria notado nada. Afinal, individualmente, tudo o que a caravana trazia parecia ser de excelente qualidade e luxo.

— Serve chá branco?

Jinshi pareceu um pouco contrariado e não disse nada, mas não era culpa dela; se eles não tinham mais, não tinha mais. Maomao colocou a chaleira no fogo novamente e pôs algumas folhas em um pequeno bule. Ela retirou a chaleira antes que a água fervesse, pensando que água morna seria suficiente, e então despejou-a lentamente no bule, deixando as folhas em infusão. Em seguida, serviu o chá em uma xícara e a colocou diante de Jinshi. Ele a pegou, ainda com a expressão irritada.

Enquanto isso, Maomao fez questão de pegar seu copo de chá de jasmim. — Há outra condição que este chá pode ajudar a tratar — disse ela.

— Qual?

— Impotência. Principalmente em homens.

Jinshi a encarou com um olhar completamente desinteressado. Ops, pensou ela. Seu sarcasmo tinha funcionado um pouco demais. Ela correu até a prateleira para pegar alguns petiscos na esperança de melhorar o humor dele, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas costas.

Atrás dela, ouviu-o tomar um gole de chá. Então ele disse: — Isso realmente não é para mim. Vou para casa — E assim, sem mais nem menos, ele saiu.

Agora eu estraguei tudo, pensou ela, franzindo a testa. Quando foi pegar a xícara de chá dele, porém, descobriu que estava intacta. Em vez disso, seu chá de jasmim, do qual ela havia tomado apenas um gole, estava pela metade.

Ela bebeu cada gota do chá branco, furiosa.


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