Volume 3
Capítulo 3: A Caravana
A estação estava mudando, trazendo umidade e calor desagradáveis. Maomao refletia sobre como o tempo passava rápido demais enquanto colhia ervas aromáticas para usar como repelentes de insetos.
— Acho que está na hora de fazer umas mudanças no vestuário — Hongniang, a chefe das damas da Concubina Gyokuyou, disse, e se ela achava que era hora, então era. Assim, as damas de companhia se viram trabalhando arduamente entre as roupas.
— Tanta roupa antiquada e sem graça! — Yinghua resmungou, parada em frente a uma cômoda. Ela, Maomao e Ailan estavam cuidando disso enquanto Guiyuan cuidava da jovem princesa. — Ailan, pega aquela coisa na prateleira de cima para mim! — Yinghua instruiu, esticando o pescoço para olhar a prateleira. Ailan era a mais alta delas, um fato que a deixava constrangida, mas era bem conveniente para alcançar os locais mais altos. Depois de puxar um baú do alto da prateleira, as (bem mais baixas) Maomao e Yinghua inspecionaram o conteúdo dele. Elas separaram as roupas em diferentes categorias e colocaram em varais para arejar na sombra.
— Hmm. Eu acho que essa não seria tão constrangedora — Yinghua disse. Ela estava separando as roupas entre aquelas que alguém ainda teria coragem de usar e as que não. Para Maomao, todas as roupas pareciam igualmente pomposas, mas Yinghua estava acostumada com estilos mais refinados e se provou mais criteriosa. — Esse tipo de roupa já foi muito popular antes. Mas é melhor evitar modismos. Uma vez que a moda passa, você fica presa com roupas que não poderá mais usar.
Maomao levou as roupas consideradas inviáveis e as enfiou de volta ao baú, depois saiu-se arrastando pelo corredor. Essas vestimentas poderiam ser antigas ou ultrapassadas, mas elas ainda pertenciam a uma das concubinas da mais alta classe. Elas foram feitas com o melhor dos materiais, e poderiam ser reparadas ou reaproveitadas e então presenteadas a outras pessoas. Não para as damas de companhia do Pavilhão de Jade pessoalmente, mas para suas famílias. As damas de companhia eventualmente recebiam prendedores de cabelos ou outros acessórios, mas roupas como essas não eram coisas que poderiam ser desfiladas pelo palácio interno. Os artesãos consertarão as roupas, e então suas novas versões serão distribuídas na terra natal da Gyokuyou.
Puxando uma nova caixa, Ailan disse, como se a ideia tivesse surgido em sua mente agora: — Sabe, ouvi dizer que novas damas de companhia chegarão em breve. Com a Lady Gyokuyou grávida, precisaremos de mais gente por aqui, mas isso atrairia atenção se fôssemos o único palácio a receber novas mulheres. Então, em vez disso, eles estão dando a oportunidade para todas as concubinas expandirem suas funcionárias.
Yinghua, levemente boquiaberta, respondeu: — O quê, de repente assim? Quer dizer, estou feliz de escutar isso, mas…
— Eles encontraram um bom motivo, — disse Ailan — pense um pouco à respeito. Quando uma das concubinas aparecer com mais de cinquenta acompanhantes, como as outras mulheres devem se sentir?
— Sim, entendo o que quer dizer. — respondeu Yinghua, com o seu rosto escurecendo por um instante.
Maomao também entendeu o que Ailan estava dizendo. Ou melhor, a quem se referia: Concubina Loulan, que havia entrado no palácio interno com enorme pompa. Para a Concubina favorita do Imperador, por outro lado, ter apenas cinco mulheres a acompanhando não pegava muito bem.
— Ela sequer tentou ter menos acompanhantes? — perguntou Yinghua.
— Cuidado, Yinghua, ou você vai sentir novamente o gosto do martelo de ferro da Hongniang — Ailan respondeu. Yinghua imediatamente levou as mãos à boca. Maomao, enquanto isso, concentrava-se em colocar as roupas indesejadas em baús e em levá-los para fora. Dessa maneira elas seguiram, conversando e trabalhando, até terem descartado quase metade das roupas de verão.
— Nós nos livramos de muita coisa — disse Maomao, impressionada — mas como faremos daqui para frente?
— Não se preocupe, — disse Ailan, como um sorriso — nós já encomendamos novos conjuntos de vestimentas com os artesãos.
— E a caravana está chegando em breve. Nós podemos comprar mais — acrescentou Yinghua. Ailan lançou-lhe um olhar de reprovação por ter lhe roubado os holofotes.
— Uma caravana? — questionou Maomao.
— Sim, exatamente — Yinghua respondeu, passando a mão por uma das peças de roupa para sentir a textura do tecido. — É esperado que ela seja ainda maior durante essa época. — A empolgação era evidente em seu tom de voz. Talvez pensar sobre isso tenha feito sua mão parar de se mover.
Antigamente, as caravanas eram formadas por grupos de mercadores que atravessavam o deserto juntos, mas hoje em dia se referem a quaisquer vendedores ambulantes que visitassem a região, dispostos a negociar. Algumas vezes eles traziam objetos incomuns de terras estranhas, então o termo não era exatamente incorreto, mas ainda sim não parecia muito adequado.
A última caravana havia passado ali durante o tempo em que Maomao estava efetivamente exilada do palácio interno, e a anterior a essa, ela era apenas uma empregada, impossibilitada de se envolver em tais festividades. Ela já havia lidado com mercadores no distrito dos prazeres, então eles não fascinavam ela, mas a ideia era compreensivelmente excitante no palácio interno, onde as distrações eram menores e raras.
— Você deveria dar uma olhada, Maomao. Nós vamos garantir que você tenha um tempinho em sua escala de trabalho. A Lady Gyokuyou geralmente dá um troco para gente em situações como essas. — disse a sorridente Yinghua.
Aconteceu justamente quando o sorriso começava a se formar em seu rosto: Maomao e Ailan congelaram. Yinghua, confusa, olhou na direção delas e ambas apontaram para algo atrás dela.
Yinghua se virou lentamente, apenas para encontrar Hongniang espreitando-a, como se fosse dar o bote a qualquer momento. A chefe das damas tinha um sorriso tenso e torto no rosto. Yinghua quase engasgou, mas conseguiu esboçar um sorriso fraco.
— Eu ouço bastante falação, mas vejo pouca organização — disse Hongniang.
— C-como é?!
Maomao e Ailan, por sua vez, prontamente começaram a dobrar as roupas. A boca de Yinghua se abriu inconformada com a súbita traição.
Eu realmente quero esses trocados, pensou Maomao.
O incidente, supostamente, custou a Yinghua um pouco da sua verba de compras.
O palácio interno era um local grande, maior que algumas cidades. As mulheres que trabalham aqui existem puramente para servir as concubinas, para manter os prédios funcionando, e para nutrir a ínfima chance de que o Imperador as escolha como companheiras de leito. Essa situação peculiar gerava um cotidiano bem diferente da rotina usual das cidades. Como as funções das mulheres do palácio se dividiam em limpar, lavar roupa e cozinhar, era melhor pensar nesse lugar não como uma cidade em si, mas como uma única e grandiosa casa em que todas moravam juntas.
No entanto, neste lugar gigante, era impossível encontrar uma coisa em particular que pudesse ser esperada. O quê seria? Uma loja, de qualquer tipo.
— Isso parece muito divertido!
Maomao respondeu ao comentário de Xiaolan com uma pergunta: — Você acha mesmo? — Xiaolan ainda parecia uma garota em alguns aspectos.
As damas da corte passeavam alegremente entre as tendas armadas na praça. As tendas estavam muito próximas umas das outras, e com quase duas mil mulheres servindo no palácio interno, não havia sequer espaço para as criadas de posição inferior sequer darem uma olhada. Incapazes de sequer admirar as mercadorias, o máximo que podiam fazer era viver “indiretamente”, observando as outras damas as admirarem em seu lugar.
Maomao e Xiaolan estavam encostadas no parapeito do quarto onde as criadas dormiam. Como as concubinas e suas damas de companhia estavam todas se divertindo hoje, não havia nada em que as criadas devessem se preocupar.
— Que sorte as delas… eu queria poder comprar novas roupas — Xiaolan suspirou, apoiando o queixo no corrimão.
— Mas você não tem lugar nenhum para vestir elas.
— Eu sei disso. Mas eu ainda quero!
As mulheres de posição mais baixa do palácio geralmente recebem uniformes de trabalho (três no verão, dois no inverno) e novas vestimentas são apenas providenciadas quando as anteriores se desgastam. Outras necessidades, incluindo roupas íntimas e tiaras, também eram fornecidas. As refeições eram servidas diariamente no refeitório.
As famílias das damas de corte de melhor linhagem podiam enviar presentes junto com suas cartas, enquanto as damas de companhia das concubinas podiam receber roupas e acessórios de suas senhoras, sem falar nos lanchinhos. Gyokuyou, por exemplo, havia dado papel para a Ailan, para que ela fizesse cópias de seu livro.
Sem lojas por perto, nada disso era fácil de encontrar. Para Xiaolan, que não tinha nenhum apoiador poderoso, nenhum apoiador de qualquer tipo, na verdade, as chances de adquirir novos pertences pessoais eram raras, e quando surgiam, desapareciam num instante. Só depois que as outras senhoras examinavam as mercadorias é que ela tinha a chance de escolher o que sobrasse e comprar o que pudesse com a pouca economia que tinha na bolsa.
Foi uma sensação estranha ver todas essas lojas enfileiradas aqui no palácio interno. A animação no ar era palpável.
E só o nosso charlatão para servir a todos eles, pensou Maomao.
Alguém poderia supor que qualquer doença num lugar tão grande se espalharia como fogo em palha seca, mas na prática não era o caso. As condições sanitárias no palácio interno eram excelentes. As mulheres do palácio passavam grande parte do tempo limpando, e os dejetos eram tratados com eficiência. Quando se acumulavam em quantidade suficiente, eram despejados nos esgotos, de onde seguiam, não para o fosso, mas para um grande rio. Dessa forma, o fosso permanecia livre de sujeira e mau cheiro.
O antigo imperador havia utilizado este local porque já existia um sistema de esgoto ali, uma tecnologia aparentemente vinda do Ocidente. Corria o boato de que o palácio interno foi outrora uma cidade de verdade, remodelada para servir ao seu propósito atual. Tanto as muralhas quanto o fosso pertenciam àquela cidade, de modo que, apesar de seu tamanho, a construção do palácio interno foi, na verdade, bastante econômica. Talvez não fosse surpreendente saber que a principal idealizadora do projeto foi a altiva, porém eficiente, imperatriz reinante.
Essas medidas sanitárias por si só já eram suficientes para evitar surtos de doenças, embora, se alguém ficasse particularmente doente, era mandada de volta para casa, para sua família. Assim, o pequeno mundo do palácio interno girava, com ou sem um charlatão como médico.
— Maomao, acho que consigo um tempinho livre no último dia — disse Xiaolan. Seus olhos brilhavam, aparentemente, era um convite para ir às compras com ela. Maomao teve que admitir que ficou feliz com o convite. Ela respondeu a Xiaolan com um tapinha na cabeça.
Ao retornar ao Pavilhão de Jade, Maomao foi recebida pela visão de algumas damas de companhia cansadas, porém satisfeitas. Enquanto ela estava fora ociosa, ou melhor, “sem praticamente nada para fazer”, alguns mercadores haviam chegado ao pavilhão. As damas de mais alta posição do palácio não precisavam se dar ao trabalho de ir às lojas; as lojas vinham até elas.
As comerciantes eram todas mulheres, pois de que outra forma seriam admitidas no palácio interno? Mesmo assim, havia mais eunucos guarda-costas do que o habitual, por precaução. Eram homens conhecidos, e as moças tomavam chá, a atmosfera doméstica do pavilhão era intocada pela presença dos guardas adicionais.
— Sua Majestade disse que Lady Gyokuyou poderia escolher o que quisesse! — Yinghua parecia tão satisfeita como se ela mesma tivesse recebido essa permissão. Ela havia ficado terrivelmente decepcionada por ter seu dinheiro para gastos reduzido pela metade, mas parecia ter se recuperado.
Sobre a mesa havia um deslumbrante colar de jade da mesma cor dos olhos de Gyokuyou. Havia também vidro de quartzo e uma caixa de acessórios incrustada com madrepérola. A princesa Lingli estava completamente satisfeita com um lindo vestido de seda que havia recebido e, além das roupas para a concubina, um pequeno robe para Lingli estava pendurado na parede.
— Talvez tenhamos nos empolgado um pouco demais — disse Gyokuyou com um toque de preocupação.
— Se alguma coisa, senhora, acho que a senhora poderia ter comprado mais — disse sua dama de companhia principal, Hongniang, com certa ênfase. — Tenho certeza de que as outras damas também compraram.
Hongniang escolheu uma forma contida de se expressar, mas Maomao podia facilmente imaginar o que ela queria dizer. As damas de companhia de Lihua no Pavilhão de Cristal, só conversam e trabalham pouco, sem dúvida se fartaram em compras. A Concubina Lihua tinha muito dinheiro para gastar e, presumivelmente, muito foi de fato gasto.
Já no Pavilhão de Diamante, as damas de companhia da Concubina Lishu, pode-se supor, instigaram sua senhora a comprar coisas que desejavam. O melhor que se podia esperar era que elas não tivessem desviado nada.
Quanto ao Pavilhão Granada... bem, a predileção da Concubina Loulan pelo consumo ostensivo de roupas falava por si só.
A Concubina Gyokuyou, que, em contraste, mal havia comprado o suficiente para encher um único cômodo, pareceu francamente moderada a Maomao, especialmente para alguém com a afeição pessoal do Imperador.
As concubinas recebiam um salário proporcional às suas “funções”, mas também eram reembolsadas por roupas e acessórios, considerados despesas necessárias. As concubinas de alta, média e baixa hierarquia somavam quase cem pessoas, e Maomao se perguntou se o tesouro nacional conseguiria arcar com esse ritmo. Mas isso era algo com que ela não precisava se preocupar.
— De qualquer forma, outros virão amanhã, então vou guardar as compras de hoje. — Hongniang começou a tirar as roupas da parede, entregando-as a Maomao. Cada uma era ricamente colorida e agradável ao toque.
Foi então que Maomao percebeu que essas roupas eram de um modelo ligeiramente diferente das que Gyokuyou normalmente preferia. Hm? A concubina geralmente gostava de combinar um vestido sem mangas com uma saia longa e depois usar uma sobreveste com mangas largas por cima, mas esses vestidos tinham mangas adequadas, acompanhados de saias que deveriam ser amarradas com uma faixa logo abaixo do peito.
Maomao tinha uma boa ideia do motivo. A Concubina Gyokuyou logo teria dificuldade em amarrar faixas na cintura.
— Era só esse tipo de coisa que eles tinham? — perguntou Maomao.
— O quê? — respondeu Hongniang — Os mercadores juravam que era a maior moda.
Então era só isso que elas tinham. As damas de companhia trocaram olhares interrogativos. As mulheres do Pavilhão de Jade tinham feito suas compras pensando apenas em Gyokuyou. Mas normalmente se esperaria uma seleção maior. E se considerássemos a suposição feita pelos mercadores…
Não, Maomao deve estar exagerando nas teorias. Pelo menos, espero que sim.
Porque se tivessem trazido deliberadamente apenas esse tipo de roupa para a Concubina Gyokuyou, isso poderia sugerir que estavam tentando sondá-la.
— Acho que amanhã você deveria perguntar a elas se não têm alguns trajes com faixas mais baixas — disse Maomao. Ela pensou que talvez não fosse da sua conta, mas Gyokuyou e Hongniang pareceram entender o que ela queria dizer. As outras três damas de companhia se entreolharam novamente, mas a insinuação de Maomao claramente passou despercebida por elas.
— É uma boa ideia. Precisamos de um pouco mais de variedade — disse Gyokuyou, colocando algumas roupas em cima de uma caixa. Talvez fosse imaginação dela, mas Maomao achou ter visto um brilho intenso nos olhos da senhora.
A caravana ficaria por cinco dias, durante os quais as damas do palácio interno teriam uma oportunidade incomum de fazer compras. As concubinas de mais alta patente não precisavam ir às lojas, então foram primeiro as concubinas de patente média e baixa e suas damas de companhia que circularam entre as tendas dos comerciantes, seguidas pelas mulheres de cargos administrativos, cada uma reduzindo ainda mais a seleção à medida que compravam o que lhes chamava a atenção. Somente no último dia as mulheres de patente mais baixa tiveram a oportunidade de examinar o que restava. O fato de até isso parecer uma perspectiva empolgante demonstrava o quão poucas distrações havia por ali.
Essa caravana atravessou o deserto trazendo consigo muitas mercadorias incomuns de terras exóticas. Deve ter passado também pela terra natal de Gyokuyou, pois as mulheres do Pavilhão de Jade pareciam visivelmente nostálgicas enquanto observavam o artesanato.
Maomao estava muito mais interessada em quaisquer remédios ou drogas que pudessem estar disponíveis, mas, compreensivelmente, era proibido trazê-los diretamente para o palácio interno; folhas de chá e especiarias, vendidas quase como um detalhe secundário, eram o máximo que os mercadores conseguiam encontrar.
No último dia, Maomao, com um pouco de dinheiro para gastos dado pela Concubina Gyokuyou, foi ao mercado com Xiaolan, como havia prometido.
— Nossa, não acredito! — Xiaolan mal tinha um tostão e não podia comprar nada do que estava exposto, mas isso não impediu que seus olhos brilhassem ao ver uma variedade de peças de vidro ocidentais. Maomao achou a simplicidade de Xiaolan encantadora.
— Esta, por favor. — Maomao escolheu uma tiara especialmente bonita e a prendeu delicadamente no cabelo de Xiaolan. O tom rosa-pêssego profundo combinava perfeitamente com a energia dela. Xiaolan levou apenas um segundo para perceber que algo tinha acontecido e, em seguida, quase derrubou Maomao de tanto abraçá-la. Maomao se perguntou se seria assim ter uma irmãzinha.
— Você não vai comprar nenhuma roupa, Maomao? — perguntou Xiaolan.
— Não preciso de nenhuma.
Em parte, ela não queria fazer alarde comprando coisas na frente de Xiaolan, mas, mais importante, ela realmente não estava interessada em roupas. Ela se sentia muito mais atraída pelo chá e pelas especiarias. Xiaolan, quase eufórica com sua nova tiara, ficou mais do que feliz em acompanhar Maomao às lojas que mais lhe interessavam. Ela tinha um sorriso enorme no rosto o tempo todo. Aparentemente, era muito divertido para ela ficar olhando as vitrines dessas barraquinhas improvisadas que serviam de mercado.
Maomao estava determinada a comprar chá e especiarias. As damas do Pavilhão de Jade se revezaram para ir ao mercado nos últimos três dias da visita da caravana, e Maomao disse que ficaria feliz em ir no último dia. Esse era o motivo.
Último dia significa descontos.
Maomao não estava interessada em jóias, roupas da moda ou qualquer coisa do tipo. Os bens que ela procurava tinham pouca importância para todos os outros, então ela tinha certeza de que sobraria bastante. Além disso, aquele era o palácio interno, um lugar especial. Um pouco de furto bem-humorado era de se esperar.
Se eles acham que vão conseguir me enganar…
Maomao era astuta. Afinal, ela passou a maior parte da vida observando a velha patroa fazer negócios.
Ela parou em uma das lojas que vendiam chá. Um aquário de quartzo em formato de peixinho dourado estava cheio de pequenos botões delicados amarrados em forma de bolas. Chá de jasmim. Quando em infusão na água quente, os botões se abriam, tão agradáveis de se ver quanto de sentir o aroma encantador do chá. Infelizmente, a maior parte já havia sido vendida; restavam apenas três botões.
— Eu irei levar isso — disse Maomao.
Mas, naquele mesmo instante, outra voz disse: — Esta, por favor! — Maomao olhou para o lado e viu alguém apontando para a mesma tigela. Era uma dama da corte, cerca de meia cabeça mais alta que Maomao, embora, apesar da altura, parecesse e soasse bastante jovem. O contraste fez Maomao piscar. Ela não conseguia se livrar da sensação de já ter visto aquela garota em algum lugar.
A outra garota parecia quase tão confusa quanto Maomao e então exclamou: — Ah! — com os olhos brilhando.
— Como está sua gatinha? — ela perguntou.
Isso despertou a memória de Maomao. Era a garota que a ajudou a capturar o gatinho, apelidado de Advertidora de Ladrões. Maomao ainda não sabia o nome dela.
— Ela está bem. Ela está morando no consultório médico por enquanto.
A outra garota deu um largo sorriso. Ela parecia ter uma rica gama de expressões, todas muito comunicativas.
— Ah! Shisui! Você conseguiu folga? — disse Xiaolan, interrompendo a conversa entre as duas. Elas deviam se conhecer. Pensando bem, Shisui estava usando o mesmo uniforme que Xiaolan, o do shangfu, ou Serviço de Guarda-Roupa. Ela devia ir à lavanderia com bastante frequência; foi só por acaso que Maomao não a tinha encontrado antes.
— É, eles me devem pelo menos isso!
— Você tem razão — disse Xiaolan. Era uma conversa inocente e amigável.
Maomao percebeu que a vendedora de chá estava olhando para elas. Então, comprou os três bulbos de chá de jasmim restantes e pediu que fossem embalados separadamente. A mulher não ficou muito satisfeita com a ideia, mas quando Maomao pediu também um dos outros chás que sobraram, ela acabou cedendo.
Então Maomao distribuiu os pacotes, um para Xiaolan e um para Shisui, ficando com o último para si.
— Talvez devêssemos conversar em outro lugar para não atrapalhar — sugeriu, apontando para o prédio do consultório.
No consultório médico, o charlatão olhava para o mercado com inveja. Como sempre, parecia ter muito tempo livre. A natureza do seu trabalho o impedia de sair do consultório, mesmo que quase ninguém aparecesse por lá. Devia ser difícil para ele. Passava o tempo ajudando a gatinha a se lamber. Era um homem muito afável, e quando chegavam visitantes, fazia de tudo para recebê-los com hospitalidade.
— Nossa, moça, eu não fazia ideia de que a senhora tinha amigos — Não foi exatamente uma coisa delicada de se dizer, mas, por outro lado, também não é mentira.
Xiaolan entrou no consultório médico com certa apreensão, mas seus olhos brilharam ao ouvir a gata miar. Shisui também tinha um brilho nos olhos.
— Ah, ela é adorável — disse Shisui. — Qual o nome dela?
Houve uma longa pausa. Finalmente, Maomao respondeu: — Advertidora de Ladrões.
— Hã? Que nome estranho é esse?
— Então é só chamá-la de “gatinha”.
Sim, gatinha, isso já era suficiente. Chamá-la de "Maomao" era muito mais estranho do que o nome que o Imperador lhe deu.
Xiaolan e Shisui raramente visitavam o consultório médico; para começar, normalmente estavam muito ocupados com o trabalho. Hoje, porém, havia um clima festivo e todos estavam se divertindo. Por precaução, o depósito que continha os medicamentos mais importantes havia sido trancado. É verdade que era, sem dúvida, problemático que Maomao, que tecnicamente não fazia parte da equipe, soubesse onde estava a chave, mas se ela contasse a alguém, eles simplesmente esconderiam dela, e ela não queria isso.
Maomao aqueceu a água enquanto o charlatão preparava os doces. Ela decidiu usar um recipiente de quartzo em vez de um bule de chá hoje. Na verdade, era para fazer remédios, não bebidas, mas quando se tinha um chá de alta qualidade como o de jasmim à mão, usar cerâmica parecia um desperdício. Ela usou água morna para aquecer o recipiente gelado, depois o esvaziou antes de colocar um bulbo redondo dentro e despejar água quase fervendo sobre ele.
— Oh, uau! — exclamou Xiaolan, impressionada com o aroma intenso que emanava da lâmpada aberta. — Maomao, isso é aquilo que você comprou antes?
Maomao assentiu com a cabeça. Shisui, por sua vez, destacou-se pelo silêncio; talvez já tivesse visto chá de jasmim antes.
— A água não deve estar fervendo, apenas relativamente morna — disse Maomao — Não que eu tenha muitas oportunidades de prepará-la. — As folhas de chá provavelmente se conservariam por um tempo, se necessário.
O médico apareceu, oferecendo-lhe solícitos biscoitos de arroz e bolos da lua. Os bolos eram um pouco grandes, então ele os cortou em pedaços com um cutelo simples. Os olhos de Xiaolan já brilhavam enquanto ela tentava avaliar qual fatia era a maior. Há poucos instantes, ela parecia insegura se era sequer aceitável entrar no consultório do médico. Agora, já conversava amigavelmente com o charlatão. Talvez fosse sua juventude que a tornasse tão adaptável. Shisui também conversava descontraidamente com ele. O charlatão estava claramente muito satisfeito. Muitas das mulheres do palácio interno tratavam homens como ele com certa frieza por ele ser um eunuco, então encontrar alguém como Xiaolan devia ser um alívio.
— Sinto que devo lembrar a vocês, mocinhas, que isto não é um parquinho. É só desta vez, entenderam? — Ele repetiu esse ponto várias vezes; parecia ser sua maneira indireta de dizer que, na verdade, elas eram muito bem-vindas para voltar (ele mal conseguia dizer isso com tantas palavras).
— É sempre assim? Parece uma grande festa lá fora — disse Shisui, dando uma mordida em um bolo lunar. Isso lembrou Maomao de que a outra mulher era a mais nova dama da corte entre elas. A chegada da Concubina Loulan havia trazido muitas delas para o palácio interno. Shisui provavelmente estava lá havia menos de seis meses.
— Mais ou menos. Parece que está demorando mais do que o normal — Xiaolan, com a gatinha em seus joelhos, enfiou um bolo lunar. na boca. A gatinha estava ficando um pouco interessada demais nas migalhas, então Maomao a pegou no colo e lhe deu um pouco de peixe.
— Hum, sim — disse o médico, pigarreando com ar importante e limpando algumas migalhas do seu bigode de peixe. — Uma embaixada especial de outro país nos visitará em breve, sabe?
Ele deveria estar nos dizendo isso? Maomao se perguntou enquanto tomava um gole de chá. Ela estava ansiosa para conseguir água quente, mas começava a achar que talvez tivesse sido um erro trazer as outras duas meninas ao consultório médico.
— Nossa, então alguém muito importante virá — disse Xiaolan. Seus olhos brilhavam novamente, mas Maomao colocou outro pedaço de bolo lunar. no prato e a atenção de Xiaolan imediatamente se voltou para o novo lanche. Maomao quebrou a cabeça pensando em outro assunto para conversar, mas foi Shisui quem salvou o dia.
— Ei, tem vindo um cheiro estranho da zona norte ultimamente. Você sabe alguma coisa sobre isso?
— Um cheiro estranho, você diz? Bem, aquela área não é muito bem cuidada. Talvez o esgoto esteja entupido ou algo assim — disse o charlatão. Um bloqueio nos túneis de esgoto certamente poderia criar um odor detectável na superfície.
— Não reparei! Nunca vou à zona norte — disse Xiaolan, enquanto comia seu segundo bolo lunar. — Você trabalha lá às vezes?
— Hehe. Acontece que a grama está especialmente densa naquela área — Shisui sorriu e tirou um maço de papéis das dobras de seu robe. Pareciam papéis de embrulho para lanches, mas estavam cobertos de desenhos a tinta. Maomao os observou com interesse, mas Xiaolan e o médico recuaram, pois os desenhos eram representações detalhadas de insetos. Um pincel de ponta fina havia sido usado para que até os detalhes mais sutis fossem capturados, e o nome de cada inseto estava cuidadosamente inscrito no canto superior direito de cada imagem.
— É um ótimo trabalho — disse Maomao, e ela falava sério. Não havia linhas desnecessárias; as ilustrações pareciam dignas de uma enciclopédia. Havia até mesmo representações cuidadosas das patas traseiras.
— Obrigada. Uma das melhores coisas deste lugar são os diferentes insetos. Tenho muitas oportunidades de desenhá-los — disse Shisui, satisfeita por ter encontrado alguém que a entendia. Xiaolan e o charlatão, enquanto isso, faziam um esforço para não olhar para as representações realistas demais.
Os insetos eram outra coisa que podia ser usada como ingrediente medicinal. Não davam muita importância a isso no distrito dos prazeres, tendia a incomodar as mulheres, mas muitos remédios à base de insetos eram bastante eficazes. As ootecas do louva-a-deus eram um excelente estimulante do vigor, enquanto as minhocas tinham propriedades antipiréticas.
[N/T: Ootecas são cápsulas que protegem os ovos dos insetos, como baratas, por exemplo.]
— Os pomares ao sul são tão bem cuidados que não têm muitos insetos, mas há muitos na parte norte. É muito desolado. Sabe, no bom sentido. Há muitas aranhas grandes por lá.
— Aranhas?!
Maomao ouviu dizer que a seda de aranha podia ajudar a estancar sangramentos, mas coletar o material era tão trabalhoso que ela ainda não tivera a oportunidade de experimentar. O comentário de Shisui acendeu uma chama nos olhos de Maomao.
— Quer ver? Posso te levar lá.
— Quero sim, me leva lá!
Maomao e Shisui estavam estranhamente em sintonia. Xiaolan e o médico observavam a conversa deles com distanciamento. A gatinha, com a barriga cheia, levantou uma das patas traseiras e coçou atrás das orelhas.
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