Volume 3
Capítulo 16: Combatendo o Calor
Maomao dirigiu-se à sala principal. Disseram que alguém a procurava por algum motivo. Quando chegou lá, encontrou um eunuco largado sobre o divã. Maomao fez uma reverência educada e então foi se colocar diante da concubina Gyokuyou.
— Lady Gyokuyou, a senhora me chamou?
— Ah, não fui eu — disse Gyokuyou, dando um gole em um suco morno. Normalmente, ela teria preferido um vinho de frutas bem gelado, com gelo luxuoso, mas Maomao a aconselhou a evitar isso por causa da gravidez. Hongniang tentava compensar o desconforto abanando-a.
— Sou eu quem tem um assunto para tratar com você — disse Jinshi, com o rosto tão belo como sempre. Gaoshun realizava para ele o mesmo serviço que Hongniang fazia para Gyokuyou, abanando-o com dedicação. Normalmente, essa seria uma tarefa para algum servo mais simples, o fato de não haver nenhum por perto sugeria que, mais uma vez, havia segredos envolvidos.
— Que tipo de assunto, senhor? — perguntou Maomao.
Jinshi olhou para Gyokuyou e disse: — Gostaria de tê-la de volta por alguns dias.
Ele claramente se referia a Maomao. Quanto a “tê-la de volta”, tecnicamente ela estava emprestada à concubina Gyokuyou para cuidar de sua saúde até o nascimento da criança. Normalmente, não se permitia retornar ao Palácio Interno depois de deixá-lo, mas parecia que uma dispensa especial havia sido concedida, junto com condições especiais.
— Céus. E o que vou fazer sem uma provadora de alimentos enquanto ela estiver fora? — perguntou Gyokuyou, de forma incisiva.
— Não precisa se preocupar com nada. Enquanto isso, emprestarei minha dama de companhia à senhora. Ela é bastante experiente com venenos, ainda que não tanto quanto esta jovem.
— Será que posso confiar nela?
— A senhora me fere com isso, lady.
Gyokuyou tinha um sorriso travesso no rosto. Quando Jinshi mencionou sua dama de companhia, Maomao só conseguia pensar em uma pessoa: Suiren, a dama de companhia já não tão jovem assim. Sim, ela certamente daria conta do recado no lugar de Maomao. Se nada mais, era muito astuta.
Mas, nesse caso, Maomao se perguntou, quem cuidaria de Jinshi? A atendente com ar de avó insistia em tratar aquele homem, que já era adulto, como um bebê, a ponto de Maomao nem ter certeza se ele conseguiria se vestir sozinho sem a ajuda dela.
[Noelle: Se ferrou Maomao kkkkk]
[Kessel: Virar babá dele deve ser o pior pesadelo da Maomao kkkk]
— Você disse alguns dias — falou Gyokuyou. — Está planejando ir a algum lugar?
— De fato. Fui convidado para uma caçada.
— Oh céus!
Caça, é? Maomao pensou. Que maneira tão sofisticada de passar o tempo. Será que haveria falcões envolvidos para perseguir a presa?
— É um convite do Lorde Shishou. — O sorriso de Jinshi era perfeito; não havia a menor rachadura em sua fachada.
Lorde Shishou, hein? Maomao pensou. Ela se lembrou que ele é um oficial importante, o pai da Concubina Loulan. Era impressão dela, ou aquilo cheirava a problema? Ela queria dizer a Jinshi para não arrastá-la para algo que acabaria sendo uma grande dor de cabeça. Mas, por outro lado, talvez uma caçada significasse que ela poderia comer carne fresca. Talvez eles fossem caçar cervos ou coelhos. Se fosse para escolher, eu não iria querer tanto a carne de coelho quanto um bolinho de arroz feito por um coelho. Um antigo conto de fadas dizia que um coelho da lua produzia remédios com um pilão.
— Isso parece cansativo. Tanto para você quanto para quem quer que o acompanhe.
— Há muita coisa em jogo, você entende.
— E você deseja pegar minha Maomao emprestada para isso?
— Sim. Pegá-la de volta emprestada.
Os olhos de Gyokuyou brilharam do jeito que sempre brilhavam quando ela se agarrava a algo que a divertia.
— Precisa mesmo ser a Maomao? Temos muitas garotas perfeitamente agradáveis aqui.
— Não. Já lhe disse que a quero de volta, e isso basta.
Talvez Maomao estivesse apenas imaginando as faíscas que pareciam voar entre Jinshi e Gyokuyou, ou talvez não. De qualquer forma, Maomao tomou o lugar de Hongniang no leque, pois ela já estava cansada.
— Hmmm — murmurou Gyokuyou. — Pois bem, agora fico pensando qual garota eu deveria lhe emprestar.
— Eu já disse qual garota eu quero. Tudo o que precisa fazer é devolvê-la para mim!
Gyokuyou soltou uma risadinha animada.
— Você continua chamando-a de “ela” e de “essa garota”.
— Sim? E o que tem isso? — disse Jinshi, um pouco irritado.
— Diga-me, Gaoshun. Como é mesmo que você chama a Maomao? — perguntou Gyokuyou ao reservado atendente, divertindo-se descaradamente.
— Eu, minha senhora? “Xiaomao.”
Apesar de sua postura séria, ele chamava Maomao por um apelido bastante carinhoso: “gatinha”. Na verdade, ele tinha um coração tão mole que, às vezes, ela o via passar pela enfermaria só para brincar com o filhotinho de gato.
[Noelle: essa cena me faz rir demais, e o Gaoshun é um fofo né kkkk]
[Kessel: Só lembrando que Mao significa gato(a) e que Xiao significa pequeno(a), portanto Xiaomao nada mais é do que gatinha ou pequena gata]
Gyokuyou voltou o olhar para Jinshi, percebendo que sua presa estava encurralada.
— Então, diga-me — falou ela —, como é que você costuma chamar a Maomao?
Jinshi não disse uma palavra.
— Certamente você não se limita a dizer “Maomao”. Ela não vai saber se você está falando dela ou do gato!
Cada vez mais desconfortável, Jinshi lançou um olhar na direção de Maomao.
Agora que ela mencionou isso… acho que ele nunca me chamou pelo meu nome nem uma única vez. Ela nunca tinha reparado antes. Não que eu me importe, na verdade. Ainda assim, o nível de desconforto de Jinshi lhe pareceu estranho. Hongniang cutucou-a com o cotovelo, como se quisesse dizer algo, mas Maomao não fazia ideia do quê.
Levou mais meia hora de alfinetadas de Gyokuyou até Jinshi conseguir o que queria, e, quando tudo terminou, os braços de Maomao já estavam cansados de tanto abanar.
Ao norte da capital ficava uma importante região produtora de grãos. Um grande rio corria de oeste a leste, e a paisagem era pontilhada por cidades e vilas agrícolas. Enquanto o sul cultivava arroz em áreas alagadas, o norte produzia trigo e gaoliang, um tipo de sorgo. Mais ao norte ainda havia florestas, e além delas, cadeias de montanhas. Ao norte da floresta começava o território de Shihoku-shu, a “Província Norte dos Shi”, e ali já se deixava a área sob controle direto do Imperador.
A região centrada na capital era conhecida como Ka-shu, a “Província de Ka”, e, além dela, havia outras três grandes províncias, junto com uma dúzia de territórios menores que funcionavam como zonas-tampão entre elas. O próprio nome da província já dava uma pista sobre seu papel nas coisas: naturalmente, o oficial “Shi”shou vinha de “Shi”hoku-shu.
— Está fazendo sentido? — perguntou Basen, interrompendo sua explicação, que ele conduzia com um tom um tanto presunçoso. Era um jovem de sobrancelhas sempre franzidas, talvez um ou dois anos mais velho que Maomao.
Como era mesmo o mito de fundação da nação? Maomao pensou consigo mesma. O país em que vivia se chamava Li. O nome consistia em um único caractere simples, mas carregava toda uma história grandiosa sobre a criação do país.
Na parte superior do caractere havia alguns traços que representavam uma planta; abaixo, o caractere de “espada” repetia-se três vezes. A planta representava “Ka”, um nome que significa literalmente “flor” e se referia aos ancestrais imperiais, mais especificamente, a Wang Mu, a mãe da linhagem imperial descrita nas antigas histórias. As espadas simbolizavam homens de bravura marcial; dizia-se que três guerreiros haviam acompanhado Wang Mu, daí as três espadas no nome do país.
Maomao parecia se lembrar de que havia muitas outras histórias irritantemente detalhadas associadas a isso, mas ela passou todo o tempo lutando contra bocejos enquanto ouvia, então não as recordava muito bem. A única outra coisa de que se lembrava era que havia uma diferença no tamanho das espadas: duas ficavam na parte inferior do caractere, enquanto a outra se erguia acima delas; a de cima era maior, e as duas de baixo, menores.
Isso também explicava por que o Imperador, normalmente tão imperturbável, mal conseguia encarar Shishou nos olhos. O norte, isto é, a espada mais alta, estava convocando altos oficiais, propondo uma longa e relaxante caçada. É verdade que o próprio Imperador não iria, mas muitas pessoas perfeitamente importantes estariam presentes.
Tudo isso estava sendo explicado a Maomao pelo guerreiro sentado à sua frente. Chacoalha, bate: eles estavam em uma carruagem, em movimento.
Uma carruagem puxada por cavalos, viajando em ritmo tranquilo, podia percorrer cerca de doze quilômetros em uma hora. Incluindo paradas para descanso e troca de cavalos, eles já estavam viajando havia meio dia.
Minha bunda está doendo, pensou Maomao. Ela quase deixou escapar seus sentimentos reais e sugeriu que fizessem algo para aliviar a situação, mas ao menos tinha uma almofada para sentar. Todos estavam no mesmo barco, então reclamar não levaria a nada. Em vez disso, olhou em silêncio pela janela. Seu cabelo estava arrumado de forma diferente do habitual, o que fazia sua cabeça parecer pesada. Seus ombros caíram. Se iriam ficar tanto tempo na estrada, certamente poderiam ter arrumado seu cabelo mais tarde.
Com convite de Shishou ou não, ir da capital até Shihoku-shu não era nada simples. Era longe demais para uma viagem de um dia ou mesmo de uma noite; o próprio Shishou mantinha uma residência na capital.
Sua família controlava a província de Shihoku-shu. Eles eram um dos clãs mencionados no mito de fundação e, por isso, carregavam o peso da história, mas os rumores que se ouviam sobre eles estavam longe de ser favoráveis.
Depois de terminar sua explicação (que não interessava nem um pouco a Maomao), Basen cruzou os braços e ficou em silêncio. Os oficiais subordinados que viajavam com eles pareciam cansados, cientes de que ficariam presos na mesma carruagem durante todo o trajeto. Mas não podiam dormir, pois, apesar de jovem, Basen evidentemente ocupava um posto elevado, e seria impensável cochilar diante de um superior. Ao menos Jinshi e Gaoshun estavam em outra carruagem.
Um fio de baba começou a escorrer do canto da boca de Maomao, mas isso era apenas um de seus encantos. Quando Basen percebeu, estalou a língua e disse:
— Não sei o que meu pai vê em uma garota como você…
Pai?
Isso explicava por que ele parecia tão familiar. Ele devia ser o filho de Gaoshun. No começo, Maomao se surpreendeu com a ideia de que um eunuco como Gaoshun pudesse ter um filho, mas, pensando melhor, percebeu que, claro, ele não nasceu eunuco. Pela idade, não seria estranho que tivesse um ou dois filhos.
Pouco depois, um lago cercado por construções surgiu à vista pela janela. Basen finalmente descruzou os braços, satisfeito por terem chegado, e seus subordinados demonstraram claro alívio. Maomao, esfregando as costas, observou distraída a cidade se aproximando. Os edifícios coloridos se destacavam contra o fundo das montanhas. Havia também canais de água e fileiras de grandes salgueiros curvando-se sobre caminhos de pedra. As construções se refletiam na água como em um espelho.
O antigo imperador havia visitado aquela região todos os anos: a altitude elevada mantinha o clima fresco, e muitos a usavam para fugir do calor. Em seus últimos anos, ele deixou de vir, e o atual Imperador também não visitou o lugar desde sua ascensão, mas tudo era bem cuidado pelo clã Shi, uma tarefa facilitada pelo fato deles viverem nas terras que governavam.
Maomao conseguia ver construções até mesmo nas encostas das montanhas, casas erguidas em degraus ao longo da inclinação. Tudo era disposto com cuidado, para não prejudicar a paisagem.
A carruagem parou diante de uma das residências mais esplêndidas de toda a cidade, luxuosa o suficiente para receber visitantes da capital, acostumados a todo tipo de conforto. O edifício de três andares, com pilares vermelhos chamativos, tinha telhas esculpidas em formas de animais; ao redor da mansão, um fosso estava cheio de carpas que pareciam damasco vivo. Uma cerca envernizada de preto exibia dragões e tigres em alguns pontos; o artesão claramente os soldou com extremo cuidado. Era uma decoração diferente do que se costumava ver na capital.
Maomao analisava tudo com atenção quando sentiu alguém cutucando elas nas costelas. Ela ergueu o olhar e viu Basen lançando-lhe um olhar severo; obedientemente, ela se colocou atrás dele.
Assim que chegaram aos aposentos, Jinshi se jogou no sofá. Os quartos dele e de Gaoshun ficavam no mesmo edifício; naquela ocasião, parecia que Gaoshun estava ali como convidado. Maomao deduziu que Basen, portanto, estava ali como assistente de Jinshi. Sobre a mesa havia um pano colorido de aparência um tanto abafada, e, após um instante, Maomao percebeu que se tratava de um capuz.
Entendi.
Ser bonito demais realmente era um crime. Pensar que ele precisava ir tão longe a ponto de usar um disfarce em uma viagem como aquela. Fazia sentido: um simples sorriso daquele homem poderia parar o coração de uma jovem desprevenida da cidade. Um rosto problemático, sem dúvida.
Pela disposição da casa, os quartos que ocupavam eram os melhores disponíveis para receber hóspedes. Dos móveis aos objetos decorativos, tudo era mais do que adequado até mesmo para visitantes da mais alta distinção. Ainda assim, Maomao não pôde deixar de notar o quanto o quarto estava quente, com as janelas fechadas e as velas acesas. Estava prestes a afrouxar a gola da roupa, mas percebeu que isso não seria apropriado e que teria de aguentar. A maquiagem em seu rosto, bem mais carregada do que o normal, parecia prestes a derreter.
Jinshi, por sua vez, havia aberto a camisa, então Maomao se permitiu encará-lo como se ele fosse um sapo esmagado pela primeira vez em muito tempo. O fato de apenas ela, Gaoshun e Basen estarem no recinto parecia fazer Jinshi achar aceitável aquela demonstração de relaxamento. Seria apenas a luz das velas que fazia as sombras brincarem em seu rosto? Ele parecia mais cansado do que de costume.
— E aqui? Que nome devo usar? — perguntou Basen para Gaoshun.
Foi Jinshi, porém, quem respondeu:
— Aqui no quarto, o de sempre está bom. Lá fora, Kousen.
— Entendido, mestre Kousen.
Maomao lançou um olhar confuso para Gaoshun; ele acariciou o queixo e olhou para Jinshi, enquanto Jinshi semicerrava os olhos e encarava Maomao.
— Há algum plano estranho em andamento? — perguntou ela.
— É que… — começou Gaoshun, mas Jinshi ergueu a mão para interrompê-lo.
— Eu é que devo explicar. Quanto a você, fique em silêncio.
— Claro, senhor — respondeu Gaoshun, praticamente se retirando da conversa — e deixando Maomao ainda mais confusa.
— Estou correta ao pensar que tanto o mestre Gaoshun quanto o mestre Jinshi estão aqui como convidados desta vez? — disse Maomao. Normalmente havia uma diferença de posição mais evidente entre os dois, mas ali ocupavam o mesmo edifício, ainda que em quartos distintos.
— Há gerações, o clã Ma serve a família do mestre Kousen — disse Basen, com um tom de irritação que Maomao não soube explicar. Suas sobrancelhas estavam franzidas como se ele estivesse resolvendo um quebra-cabeça mentalmente, uma expressão idêntica à de Gaoshun.
Então ele vem de boa linhagem, pensou Maomao, sentindo-se impressionada. Ela balançou a cabeça, provocando ainda mais consternação em Basen. Ele se aproximou apressado de Gaoshun e disse:
— Pai, o que significa isso?
Gaoshun pareceu aflito; então olhou para Jinshi antes de puxar Basen pelo braço até um canto do quarto e iniciar uma conversa sussurrada. Maomao conseguiu ver claramente o choque no rosto de Basen diante do que quer que Gaoshun estivesse dizendo. Ele pareceu argumentar, mas, sem dizer mais nada, Gaoshun simplesmente lhe deu um tapa na cabeça.
[Noelle: Independente da idade, o filho que já tem alta posição, ainda toma carrasca do pai kkkkkk]
Maomao se perguntou o que eles estavam fazendo lá, mas não ficou particularmente preocupada. Em vez disso, começou a organizar a bagagem. Se não cumprisse sua tarefa, acabaria levando uma bronca da Suiren mais tarde. Velha ou não, aquela assistente podia ser verdadeiramente assustadora.
A caçada seria realizada no dia seguinte; aquele dia seria passado na mansão. Um banquete noturno foi organizado no jardim, mas Jinshi e os outros não deram sinal de sair de seus quartos. Permaneceram recolhidos, com janelas e portas bem fechadas, passando o tempo lendo livros ou jogando Go. Os aposentos estavam quentes e abafados, mas pediram gelo para tornar a situação um pouco mais suportável. Ele foi trazido do depósito de gelo por um cavaleiro apressado, em pleno verão, um verdadeiro auge do luxo. Quando Gaoshun viu Maomao olhar para o gelo com extrema inveja, teve a gentileza de lhe passar discretamente um pedaço. Que eunuco realmente atencioso.
Pessoalmente, Maomao achava que poderiam resolver a maioria dos problemas simplesmente abrindo as janelas. Por fim, incapaz de se conter, perguntou:
— Por que não abrimos as janelas?
Ela se dirigia a Gaoshun, mas foi Jinshi quem respondeu:
— Faça a prova da comida do nosso jantar — instruiu ele, com um ar frustrado. Acrescentou que, depois disso, ela entenderia.
Maomao recebeu um pequeno prato de amostra do jantar e o provou como sempre fazia. Seguiu-se uma longa pausa.
— Entende agora? — perguntou Jinshi, lançando um olhar para a comida suntuosa, ainda com expressão exasperada. O jantar, disposto em um carrinho, parecia conter apenas ingredientes da mais alta qualidade.
— Entendo — respondeu Maomao. — Tartaruga-de-casco-mole.
A tartaruga-de-casco-mole era conhecida por nunca soltar o que agarrava com a boca. Seu sangue era considerado afrodisíaco, e presumia-se que a carne tivesse a mesma propriedade. Quando Maomao provou um gole do vinho servido antes da refeição, percebeu que, embora tivesse sido suavizado com suco de frutas, o teor alcoólico era bastante forte.
Não eram apenas os aperitivos e o aperitivo alcoólico: os ingredientes dos acompanhamentos, do prato principal e até da sobremesa pareciam calculados para deixar quem comesse mais energizado.
Gaoshun revirou a bagagem e tirou algumas rações portáteis. Pelo visto, eles teriam uma refeição modesta, apesar da comida magnífica à frente deles.
— Vocês não vão comer? Não está envenenado — disse Maomao.
— Pode não estar envenenado, mas ainda assim não é apropriado para consumo — respondeu Jinshi. — Aliás, fico impressionado com a sua capacidade de manter essa cara séria depois de comer isso.
Ele e Gaoshun a encaravam como se não acreditassem no que viam. Em um canto do quarto, Basen fervia um pouco de água. E isso quando já estava tão quente!
— O sabor é maravilhoso. Seria suspeito se sobrasse comida, então vocês não se importam se eu comer, certo?
— Tudo bem. Se é isso que você quer.
Jinshi franziu os lábios ao observar Maomao, visivelmente satisfeita, enquanto ela saboreava mais um gole da sopa de tartaruga.
Jinshi a observou atentamente.
— E então? Está bom?
— Está sim. Não tenho lembranças muito agradáveis envolvendo tartarugas-de-casco-mole, mas esta dá para encarar.
— O que quer dizer com lembranças? — perguntou Jinshi, pegando a terrina de sopa, agora interessado.
— Ah, nada importante.
Desde pequena, Maomao ajudava o pai adotivo. Isso incluía ir ao mercado comprar ingredientes para remédios e, certa vez, ela se deparou com um sujeito desagradável em uma dessas idas. Um exibicionista que havia desatado o cinto e aberto à frente da roupa. (Nem é preciso dizer que ele não usava roupa íntima.) Ele parecia aparecer com especial frequência no inverno, e ela sempre se perguntava se ele não sentia frio.
Assustada, Maomao tentou fugir e, no processo, deixou cair a compra que carregava.
— Acontece que era uma tartaruga-de-casco-mole viva, e…
— Chega! Já basta! Não preciso ouvir mais nada! — Jinshi pousou a terrina, com um olhar traumatizado nos olhos. Gaoshun e Basen, pai e filho, exibiam expressões semelhantes. Pelo visto, ela cometeu um deslize de novo.
Poxa, as cortesãs sempre adoram essa história… Aquilo a fez perceber mais uma vez, enquanto afastava o prato vazio, que ela simplesmente não falava a mesma língua que as pessoas de berço nobre. Ainda assim, que desperdício de uma boa refeição.
— Há muitas coisas boas aqui além da tartaruga. Vocês realmente não vão comer nada?
Ela ofereceu o restante; era comida demais para terminar sozinha. Não havia como carne seca (reidratada com água quente) e arroz cozido seco saciarem três homens adultos. Devia haver uma refeição enviada também ao quarto de Gaoshun; Maomao supôs que ele não a comeria por conter os mesmos tipos de ingredientes.
— Tem certeza de que está tudo bem? — arriscou Jinshi após um momento.
— Fique à vontade. — Seria um desperdício enorme deixar sobras, pensou Maomao.
— Tem certeza absoluta? — insistiu ele, encarando-a com intensidade. Ela não entendia por que ele estava sendo tão insistente. Então Gaoshun interveio, balançando a cabeça de leve várias vezes. Jinshi assentiu, relutante.
— Eu não preciso disso. Basen, você está livre para comer. Na verdade, estou lhe ordenando.
— Se esse é o seu desejo, mestre Kousen.
Basen se sentou como um servo obediente, e Maomao lhe passou uma taça de vinho. Ele a bebeu lentamente.
— Delicioso.
— Fico feliz em ouvir isso — disse Jinshi.
— No entanto…
— Sim?
Basen ficou completamente imóvel, e uma linha fina de sangue escorreu de seu nariz. Seu rosto estava vermelho vivo, e ele parecia travar uma batalha interna contra algo. Jinshi olhou-o nos olhos, e Basen estremeceu.
— Como — perguntou — essa garota ainda está de pé?
Ele olhava para Maomao com uma expressão realmente terrível, como se lutasse contra uma força que subia de dentro de seu corpo. Inclinava-se para frente, como se tentasse esconder uma parte muito específica de si. Ah, os sofrimentos da juventude.
— Nenhum motivo especial — disse Maomao, evasiva. A resposta simples era que aquela era sua constituição. Basen, ainda lutando, tentou cambalear até o quarto ao lado, mas acabou caindo no caminho.
— Você está bem? — perguntou Maomao.
— Deixe-o aí. Eu durmo no quarto dele — disse Jinshi. O aposento em frente deveria ser para seu servo. Era menor que o seu próprio quarto, mas grande o suficiente para dormir.
— Mestre Jinshi, posso ajudá-lo a levá-lo até o quarto — disse Gaoshun.
— Tenho certeza de que vocês dois estão cansados.
— Mas, senhor…
Se Jinshi dizia algo, havia pouco espaço para discussão; Gaoshun cedeu e ajudou o filho a se deitar na cama com dossel. Maomao também ajudou no que pôde. Achando que Basen parecia muito quente, ela afrouxou um pouco seu cinto, e a coloração de seu rosto melhorou. O sangue do nariz, porém, manchou os lençóis, o que foi uma pena.
Jinshi dormiu no quarto de Basen, enquanto Maomao usou o quarto em frente ao de Gaoshun. Talvez tenha sido uma consideração de Gaoshun que ela tivesse um quarto só para si, que normalmente abrigaria várias pessoas. Os guarda-costas que os acompanhavam ficaram com Gaoshun.
Era um luxo ter um quarto só para si, refletiu Maomao. Havia até uma banheira, então ela pôde se banhar e relaxar. Pequenos prazeres.
Entre em nosso servidor para receber notificações de novos capítulos e para conversar sobre a obra: https://discord.gg/wJpSHfeyFS
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios