Volume 3
Capítulo 17: A Caçada (Parte 1)
No dia seguinte, Jinshi e os outros partiram para a caçada. Jinshi vestia seu disfarce (embora parecesse irritado por ter de usá-lo) e continuava a se apresentar como Kousen, nome que, ao que tudo indicava, usaria durante toda a estadia. O disfarce fazia sentido. Alguém com a aparência de Jinshi andando livremente por ali seria, por si só, uma distração enorme. Aquilo não era o palácio; ninguém ali sabia que ele era um eunuco. Mas com o incidente do jantar ainda fresco na memória, Maomao não conseguia deixar de se perguntar o que exatamente ele estava escondendo. Optou por não aprofundar a questão. Só de imaginar o que teria acontecido se Jinshi tivesse circulado livremente durante a refeição, ela estremecia. Não era à toa que ele mantinha as janelas fechadas.
Assim, Maomao seguiu os caçadores em uma carruagem. Dentro dela havia vários criados da casa, além de lenha, panelas de sopa e uma variedade de outros utensílios de cozinha. Pelo visto, a intenção era preparar ali mesmo tudo o que fosse caçado.
A carruagem sacolejou pelos campos de gaoliang por cerca de meia hora, até que as montanhas surgiram à vista. Depois disso, seguiram a pé pelas encostas por mais uma hora, até chegarem a uma construção erguida em um ponto elevado, com uma vista impressionante. O verde ao redor era revigorante, e dava para ouvir água ao longe; parecia que havia uma grande cachoeira nas proximidades.
Os criados, já acostumados a tudo, começaram a preparar o fogo. Alguns pegaram jarros e foram buscar água. Maomao se perguntou se deveria ajudar em algo, mas as comitivas dos outros oficiais, que estavam com ela, não moviam um dedo sequer. Eles haviam se acomodado sob um toldo montado por alguns criados que tinham chegado mais cedo e conversavam animadamente. Os nobres iriam comer em outro local.
Provavelmente é mais seguro não fazer nada, pensou Maomao. Muitas vezes, quem tenta ajudar acaba mais atrapalhando do que contribuindo, e só conquista a antipatia dos outros. Os criados provavelmente ficariam até mais satisfeitos se fossem deixados em paz.
Enquanto caminhava sem rumo, Maomao avistou um cachorro, acompanhado de um dono familiar. Então o vira-lata trouxe o seu vira-lata. Era Lihaku, que em si já lembrava um grande cão amigável. Curiosa para saber o que ele fazia ali, Maomao se aproximou e se agachou ao seu lado. Ele estava ocupado esfregando a barriga do cachorro, mas, ao perceber a presença de alguém, lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Olá? — disse ele.
— Olá — respondeu Maomao.
— Hm? Essa voz… Ah! — Ele bateu as mãos uma na outra e assentiu. — Senhorita, é você! O que está fazendo aqui? E ainda por cima tão mais bonita do que de costume!
— Que bom que finalmente percebeu. — Entre a ausência de sardas e o fato de não estar usando suas roupas habituais, parecia que ele não a reconheceu de imediato. Como sempre, era um homem com talento especial para ser rude.
— Tá, mas falando sério, por que você está aqui?
— Fui chamada pessoalmente para vir.
— Hein, isso é coisa grande. — Uma das boas qualidades de Lihaku era não pensar demais. Maomao havia falado com ele sem refletir muito, mas talvez aquele não fosse o melhor momento para revelar quem eram seus conhecidos. — Sabe, comigo foi a mesma coisa — continuou Lihaku. — Alguém pediu especificamente para eu fazer parte da unidade de guarda… — Ele soava um pouco contrariado, embora continuasse acariciando a barriga do cachorro. O animal usava coleira, e, pelo porte, Maomao deduziu que fosse um cão de caça. Infelizmente para ele, a caçada daquele dia seria feita com falcões; o cachorro teria de ficar de lado. Devia ser por isso que ele e Lihaku estavam ali, cuidando do acampamento.
— “Você fica só de olho no cachorro”, foi o que disseram. — Ao que tudo indicava, embora tivesse sido chamado pelo nome, os outros guarda-costas, todos homens orgulhosos, haviam praticamente o isolado. Lihaku vinha ascendendo na vida nos últimos tempos, mas quanto mais alto se subia, mais feroz se tornava a resistência.
Lihaku fez um bico, não por estar chateado, mas para produzir um som ridículo, algo como fsh fsh, soprando o ar pela boca. Parecia achar que estava assobiando.
— O senhor é péssimo nisso.
— É, obrigado. Dá um tempo. — Ele deu um tapinha na cabeça de Maomao, depois puxou um cordão pendurado no pescoço, do qual surgiu um tubo longo e estreito, vagamente parecido com uma flauta. Tendo desistido de assobiar, Lihaku levou o objeto aos lábios e soprou na direção do cachorro. O animal se levantou de um pulo e olhou diretamente para ele. Com uma sequência de sopros longos e curtos, Lihaku fez o cão sentar e levantar sob comando.
— Ele parece muito inteligente.
— E é mesmo. Quando preciso, faço ele vir correndo quilômetros de distância. — Em seguida, Lihaku deu três sopros curtos no apito, seguidos de quatro mais longos. O cachorro veio até ele e se sentou à sua frente, abanando o rabo.
— Ele é tão esperto, mas querem usar aquilo. — Lihaku ergueu o olhar para o céu. Maomao o acompanhou e viu, no azul acima deles, um pequeno ponto negro circulando. Pessoalmente, ela achava que, ao caçar nas montanhas, cheias de obstáculos físicos, era mais sensato usar um cachorro do que um falcão, mas talvez os falcões tivessem mais prestígio. Maomao não recusaria um coelho selvagem, embora desejasse muito mais carne de javali. Mas não se caçava javali com um pássaro.
Maomao contemplou a qualidade daquela floresta. Uma grande variedade de árvores crescia ali. E isso provavelmente significava uma grande variedade de ervas medicinais e cogumelos valiosos.
Acho que eles não querem que eu entre lá, pensou. Ela estava inquieta. Olhou em volta: Lihaku estava completamente absorto brincando com o cachorro. Não parecia que alguém notaria sua ausência. Mas ainda assim… ainda assim. Começou a caminhar sem rumo e, quando percebeu, o sol já havia passado do zênite.
O ar estava impregnado do aroma de carne chiando no fogo. Eles estavam no refúgio da montanha, onde o vinho corria solto e mulheres traziam a caça já preparada. Cerca de dez oficiais estavam sentados em cadeiras, e uma mesa próxima sustentava vários acompanhamentos. O salão tinha sido projetado para favorecer a circulação de ar, e baldes de água haviam sido colocados aos pés dos convidados. Criados com grandes leques estavam presentes, e era evidente que todos os esforços tinham sido feitos para aliviar o calor sufocante de uma caçada de verão. Shihoku-shu tinha um clima mais ameno, apropriado para quem buscava fugir do calor, mas naquele dia o tempo firme e a brisa úmida conspiravam para deixar tudo abafado.
Os servos, sempre solícitos, passavam oferecendo comida. Carne extra havia sido preparada para complementar o que foi obtido na caçada, que não seria suficiente para todos. Além disso, ao contrário do peixe, a caça nem sempre ficava no auge do sabor logo após ser abatida.
Maomao permanecia atrás de Gaoshun, observando a cena com certo distanciamento. Gaoshun tinha um assento próprio; damas de companhia e damas da corte em geral permaneciam de prontidão atrás dos diversos oficiais.
Agora que penso nisso… Fora dos aposentos de seu mestre, Gaoshun não passava tanto tempo assim com Jinshi. Em vez disso, quem o acompanhava era Basen, e Maomao acabava naturalmente ficando ao lado de Gaoshun.
Um homem de aparência estranha ocupava o lugar de honra. Seu rosto estava oculto por uma máscara, e ele não havia sequer tocado na comida. Nem no vinho. Basen permanecia atento atrás dele.
Ele precisa usar isso até aqui? Deve ser difícil, pensou Maomao. Aquilo não lhe dizia muito respeito, de qualquer forma. As moças que serviam o vinho lançavam olhares furtivos ao visitante mascarado, que, claro, era Jinshi. Por mais estranho que fosse seu acessório, ele era o convidado mais importante ali. Tornar-se amante de algum alto funcionário traria, por definição, mais segurança do que acabar casada com alguém medíocre. E todas as mulheres ali pareciam astutas o bastante para saber disso.
Não eram só as mulheres que lhe davam atenção, o homem corpulento sentado ao lado de Jinshi vivia cochichando com ele. Era uma forma bastante íntima de falar, talvez fosse imaginação de Maomao, mas o tom soava levemente impertinente. Jinshi respondia apenas com pequenos acenos de cabeça.
Então aquele é Shishou? Maomao imaginou. Ela conhecia o nome, mas não se lembrava bem de seu rosto. A posição do assento, porém, era um forte indício de sua identidade. O que será que estão conversando?
Shishou interrompeu a fala e se afastou de Jinshi. A mão de Jinshi continuava tremendo, e o semblante de Basen havia empalidecido de vez.
Algo que ele disse? Maomao se inclinou e sussurrou para Gaoshun. Ela conhecia bem os modos de Jinshi. Pensasse o que pensasse de sua personalidade, sua aparência externa era sempre imperturbável. Vê-lo daquele jeito era muito estranho. Disse a Gaoshun que achava que havia algo errado com ele. Gaoshun, porém, apenas balançou a cabeça e a instruiu a não fazer nada.
Jinshi se levantou, dizendo que precisava resolver um “pequeno assunto”. Basen fez menção de ir atrás dele, mas foi detido por alguns oficiais de alta patente ao redor.
Gaoshun puxou levemente a manga de Maomao. — É hora de trocar — disse ele.
Maomao entendeu de imediato. Assentiu, chamou um dos outros criados que aguardavam do lado de fora e, em seguida, passou a seguir Jinshi, que caminhava de forma instável. Ele deixou a residência com cuidado para não chamar atenção e seguiu em direção às árvores.
Maomao teria de acompanhá-lo, mas antes precisava de algo. Pegou uma garrafa de gargalo longo cheia de água.
— Posso levar isto? — perguntou a uma serva que preparava a comida.
— Claro, pode pegar. — A serva, visivelmente atarefada, respondeu sem sequer olhá-la. Maomao usou uma colher para acrescentar um pouco de alguma coisa à água. Depois, seguiu com a garrafa em direção à mata.
Pouco depois de entrar entre as árvores, ela avistou uma figura apoiada no tronco de uma delas.
— Mestre J—
Ela ia dizer Jinshi, mas levou a mão à boca antes que o nome escapasse. Não sabia bem porquê, mas ele estava usando um pseudônimo ali. Qual era mesmo? Tentou se lembrar.
— É você… — disse uma voz tensa por trás da máscara, antes que ela conseguisse se recordar do nome.
— Você precisa tirar isso — disse ela, tentando remover a máscara de seu rosto, mas Jinshi resistiu com força.
— Não posso.
— Claro que pode. Não tem ninguém aqui. — Não era justamente por isso que ele tinha vindo até ali? Não havia lugar para ficar sozinho na residência. Jinshi tinha seus próprios aposentos, é verdade, mas sempre havia damas da corte por perto, prontas para atender a qualquer necessidade.
— Mas alguém pode aparecer.
Argh, isso é tão frustrante! Maomao apoiou o homem trêmulo em seu ombro e começou a arrastá-lo.
— Se está tão preocupado com alguém ver, então é só ir para um lugar onde ninguém vá.
Eles avançaram ainda mais pela floresta. Agora dava para ver um penhasco, com uma cachoeira imensa e belíssima. A cortina de água era hipnotizante; parecia um manto de penas brancas, como as que os deuses poderiam usar. A água despencava em vários níveis, formando uma cena que devia ser impressionante até mesmo vista de cima. Percebendo que devia ser dali que a água era coletada, Maomao mergulhou o lenço no rio e o deslizou sob a máscara de Jinshi, tentando refrescar seu rosto.
Então o chão aos seus pés explodiu.
O quê?! Houve um ruído intenso de asas batendo enquanto pássaros se dispersaram. Foi Jinshi quem reagiu: ele agarrou Maomao nos braços e começou a correr. Mas, mais uma vez, a terra diante deles se lançou ao ar. A brisa trouxe consigo um cheiro característico de enxofre.
— Aquilo foi uma feifa?! — Jinshi sibilou, ainda caminhando de forma instável. Ele parecia surpreendentemente calmo diante do que era, obviamente, um acontecimento inesperado. A feifa, que significa “explosão voadora”, era uma arma que utilizava pólvora. Às vezes era usada em caçadas, mas seria muito difícil afirmar que aquele incidente específico tinha sido apenas um erro.
Jinshi pensou por um instante, então apertou Maomao com mais força.
— Desculpa. Isso vai ficar um pouco dramático.
Ele começou a correr com Maomao nos braços, e então saltou em direção à cachoeira.
Um pouco, o caramba! Maomao pensou, enquanto despencavam em meio a cortina de água.
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