Volume 3
Capítulo 15: Histórias Assustadoras
As tão prometidas novas damas da corte finalmente chegaram. Três delas foram designadas ao Pavilhão Jade; todas, exceto Maomao, pareciam já conhecê-las. Maomao observou as três recém-chegadas e pensou imediatamente: Hum. Os nomes delas não combinam com a aparência.
Maomao só costumava guardar na memória aquilo que realmente despertava seu interesse, então demorou um pouco até conseguir puxar conversa com as novas garotas. Bem, ela nunca tinha sido muito falante mesmo, então um simples “ei, e aí” já resolveria. Havia, porém, um problema maior a ser resolvido.
— Maomao, está na hora de você voltar para o seu quarto — disse Yinghua, com as mãos na cintura.
— Disseram que este era o meu quarto! — retrucou Maomao, praticamente se agarrando ao pequeno depósito que lhe haviam dado no jardim do Pavilhão Jade. Ela o tinha abastecido com ferramentas e ervas secas, afinal, tinha acabado de terminar de trazer tudo de seus antigos aposentos.
— Aquilo era só uma brincadeira, obviamente! Por que você levou tão a sério?
Que tipo de exemplo isso daria às novas garotas? Yinghua queria saber.
— Não tem problema. É só me deixar ficar aqui.
— Não pode! Anda, as meninas estão olhando! — a cena era digna de nota: Maomao agarrada a um pilar do depósito, enquanto Yinghua tentava arrancá-la dali. A chefe das damas de companhia, Hongniang jamais toleraria duas subordinadas fazendo um espetáculo daqueles: Maomao e Yinghua levaram um boa surra cada uma.
Maomao acabou voltando para o antigo quarto. Mas quando Hongniang viu a quantidade absurda de equipamentos e ingredientes guardados no depósito, pareceu finalmente aceitar a realidade; ela relatou o assunto à concubina Gyokuyou, que, sempre interessada em coisas curiosas, riu e disse que Maomao podia fazer o que quisesse com o depósito. Ela teria de dormir em seus aposentos, mas fora isso podia agir como bem entendesse.
Maomao se maravilhou com a chefe excelente que tinha, mas Yinghua, como era de se esperar, parecia contrariada. Agora, observava Maomao começar a trabalhar alegremente no pequeno prédio. A reunião do chá tinha terminado, e não havia mais obrigações até o jantar. Com as três garotas novas, a quantidade de trabalho de cada uma tinha despencado drasticamente.
Argh. Isso não vai dar certo.
Aquele comentário que Yinghua fizera, Maomao não achava realmente que fosse da conta dela, mas provavelmente tinha sido dito por preocupação, na esperança de que Maomao começasse a se dar bem com as recém-chegadas o quanto antes. No lanche daquele dia, Yinghua também tinha se esforçado para envolver Maomao e o novo trio na conversa. Ela era cuidadosa desse jeito.
Maomao pousou o cogumelo da família Polyporaceae que segurava e olhou para fora do depósito, na direção de Yinghua. Depois de um momento, disse:
— Desculpa. Eu sei que andei meio centrada demais em mim mesma.
— Para mim tanto faz — respondeu Yinghua, ainda com os lábios franzidos. Maomao a observou, sem ousar sair de trás da parede.
— Quero dizer, você pode fazer o que quiser. Mas… — Yinghua virou-se, ficando com a parede entre ela e Maomao, e então disse: — Vou te pegar emprestada hoje à noite, tudo bem?
Ela agarrou a mão de Maomao e sorriu com um sorriso bastante intimidador.
Socorro.
— Somos as únicas que estão livres hoje à noite, Maomao! É o momento perfeito! — ela sacudia a mão de Maomao com força, claramente empolgada.
Ela me pegou, pensou Maomao, soltando um suspiro enquanto encarava a esperta dama de companhia.
Maomao acabou sendo levada a um prédio decadente no quarteirão norte do palácio interno. Ela tinha temido que Hongniang não desse permissão para saírem tão tarde da noite, mas, para sua surpresa, ela foi bastante flexível.
— Uma pessoa precisa participar desse tipo de coisa de vez em quando — disse.
“Esse tipo de coisa”? Maomao se perguntava o que estava acontecendo, mas ainda assim seguiu Yinghua, caminhando à luz de uma pequena lanterna. A brisa estava quente demais e desconfortável, e insetos zumbiam perto de seus ouvidos o tempo todo, mas ela não reclamou. Elas pararam diante da entrada do prédio.
— Aqui, Maomao, coloca isto — disse Yinghua, estendendo um pano fino.
— Não vai ficar quente?
— Não se preocupe, você vai se refrescar logo. Anda.
Maomao ficou confusa, mas fez o que lhe foi pedido. Yinghua bateu à porta, e uma mulher do palácio apareceu do lado de dentro.
— Sejam bem-vindas. Duas participantes, certo?
— Sim, obrigada.
— É um prazer recebê-las.
Yinghua fez uma reverência, e Maomao a imitou. A mulher que as recebeu sorriu e entregou a cada uma uma pequena chama, mas pediu que apagassem a lanterna. Mesmo à luz fraca, ela era bonita, embora talvez um pouco mais velha que a média das habitantes do palácio interno.
O interior do prédio parecia tão desgastado quanto o exterior. Não tanto como se tivesse envelhecido com o tempo, mas como se tivesse se deteriorado rapidamente depois de deixar de ser usado. Tinha sido limpo apenas o mínimo necessário; alguns acabamentos eram ruins, e o piso rangia.
— Este prédio foi usado na época do antigo Imperador — informou a mulher. Por mais cheio que o palácio interno parecesse agora, durante o reinado anterior havia ainda mais mulheres ali. Reunidas de todo o país, trancadas naquele lugar para gerar um filho para o soberano. Agora, com menos damas, o prédio ficava desabitado, embora em momentos como aquele ainda pudesse ser utilizado. Mas para quê?
Quando chegaram a uma grande sala no fim do corredor, cerca de dez outras pessoas já estavam lá, sentadas em círculo, com os rostos em sua maioria cobertos por panos. Cada uma segurava uma chama tremeluzente, criando uma atmosfera sinistra.
O que estavam fazendo ali? O que mais se fazia numa noite de verão?
— Muito bem. Vamos começar — disse a mulher que as havia recebido, sentando-se. Ao que parecia, ela era a anfitriã. — Todas estão com suas histórias prontas?
Ela tirou um punhado de gravetos para servir de sorteio.
— Esta noite — disse — vamos saborear treze histórias de gelar o sangue.
A forma como a luz dançava sobre seu rosto sorridente a tornava verdadeiramente perturbadora.
Ao que tudo indicava, Maomao teria uma noite de histórias assustadoras pela frente.
Uma mulher sentou-se em cada um dos quatro pontos cardeais, com duas a mais entre cada uma delas. Maomao conteve um suspiro ao se sentar, com um pano sobre a cabeça, ocultando metade do rosto. A primeira mulher a falar parecia um pouco nervosa, contando sua história de maneira tão hesitante que era difícil levá-la a sério. A história em si não passava de mais um dos muitos boatos do palácio interno, longe de ser algo capaz de causar arrepios.
Quando a segunda contadora estava prestes a começar, Maomao sentiu uma cutucada à direita. Não podia ser Yinghua, que estava sentada à sua esquerda.
— Boa noite! — sussurrou uma voz doce.
— Olá — respondeu Maomao.
Ela reconheceu a outra mulher, mesmo com metade do rosto coberto: era Shisui. Na pouca luz, não a tinha notado antes.
Sonolenta, Shisui ofereceu algo a Maomao. Ela achou que havia sentido um cheiro de litoral, então percebeu que era uma lula seca.
— Quer? — perguntou Shisui.
— Quero! — Maomao deu uma grande mordida, mastigando devagar para não fazer barulho.
A segunda mulher contou uma história de terror perfeitamente comum, mas ao menos era uma história de terror, ao contrário da tentativa da primeira, e conseguiu assustar algumas das presentes. De fato, o pano escorregou do rosto de Yinghua, e de vez em quando era possível vê-la espiando por entre os dedos. Isso era problema dela, mas ela também se agarrava a Maomao ocasionalmente. Ela era assustadoramente forte para alguém de tamanho relativamente pequeno, e algumas vezes quase estrangulou Maomao.
Então ela é medrosa, mas ainda assim gosta disso, pensou Maomao. Não era tão incomum. Provavelmente tinha convidado Maomao porque tinha medo de vir sozinha.
Maomao não era particularmente fã de encontros de contar histórias assim, mas eles pareciam amplamente aceitos no palácio interno, onde havia tão poucas distrações. Afinal, até Hongniang tinha concordado em deixá-las vir, e Shisui também estava presente, embora Maomao tivesse a impressão de que Shisui teria aparecido com ou sem permissão.
E assim foi, até que metade das mulheres tivesse contado suas histórias. Cada vez que um conto terminava, uma das luzes da sala era apagada, de modo que agora havia apenas metade da iluminação inicial. Chegou a vez da sétima mulher contar sua história. Maomao ouviu distraidamente, mastigando um pedaço de lula. A chama da mulher tremeu sobre seu rosto pálido enquanto ela começava a falar.
○●○
Esta é uma história da minha cidade natal. Lá existe uma floresta na qual todos sempre foram advertidos a não entrar. Dizem que, se alguém entrar, será amaldiçoado, e sua alma será consumida por fantasmas. Houve uma vez, porém, alguém que não deu ouvidos. Alguém que entrou mesmo assim.
Veja, naquele ano a colheita tinha sido especialmente ruim. Não a ponto de causar fome generalizada, mas havia uma casa em que o provedor tinha acabado de morrer, deixando apenas uma criança e sua mãe. Ninguém tinha recursos sobrando para ajudá-las, e a criança estava sempre com fome.
Um dia, a criança entrou na floresta proibida, pensando que talvez houvesse algo para comer ali, e de fato voltou com todo tipo de nozes e frutas, que mostrou à mãe, sorrindo.
— Lá dentro tem muita coisa para comer — disse a ela.
A mãe tentou impedir que a criança dissesse mais alguma coisa, mas já era tarde demais. O chefe da vila os convocou e os lembrou de que não deveriam entrar na floresta. Depois disso, não tiveram escolha senão se manter afastados. Afinal, caso contrário, seriam rejeitados por toda a vila. Não importava quanta comida houvesse lá, eles tinham de desistir dela.
Mas então algo muito estranho aconteceu. Naquela noite, algumas pessoas viram uma luz tremeluzente flutuando perto da casa da mãe e da criança e, na manhã seguinte, os dois estavam desmaiados.
Os moradores, com medo da maldição, não se aproximaram, e logo eles morreram. A criança morreu primeiro. Antes de morrer, porém, a mãe disse:
— Escutem. Tenho algo maravilhoso para contar a vocês.
Ela sorriu ao dizer isso e, ao tentar contar o que quer que fosse, morreu.
Até hoje, ninguém na minha vila sabe o que ela queria dizer, mas todos evitam aquela floresta. Bem, quase todos. De vez em quando, alguém decide entrar mesmo assim. E, quando isso acontece, naquela noite, uma pequena chama dançante visita a casa da pessoa e rouba sua alma.
○●○
Ah, entendi, pensou Maomao, ouvindo aquela história bastante comum como se tudo fizesse sentido. Para ela, não havia exatamente um “susto” real ali, mas todas as outras estavam tremendo enquanto escutavam. Provavelmente era a atmosfera do lugar; tudo foi pensado para provocar esse tipo de reação.
Ela finalmente engoliu a lula seca, agora bem macia, e imediatamente lhe ofereceram outro pedaço.
— Você parece muito calma — sussurrou Shisui para ela.
Assim como Maomao, ela não mostrava sinal algum de ter ficado abalada com a história.
— Acho que sim.
— Por quê?
— Eu conto depois. — Revelar ali e naquele momento o segredo por trás da história só estragaria tudo. Mas, muitas vezes, esse tipo de conto escondia um fundo de verdade.
Maomao continuou ouvindo enquanto as histórias se sucediam. Yinghua seguia apertando sua mão com força, agarrando-se a ela sempre que surgia algo minimamente assustador.
No devido momento, chegou a vez de Shisui contar sua história. Maomao esfregou os olhos. Estava se sentindo letárgica e cansada. Não só havia mais de dez pessoas amontoadas numa sala pequena, como todas usavam perfume em excesso, talvez preocupadas com qualquer cheiro corporal. Maomao, com seu olfato apurado, começava a ficar um pouco tonta com aquele aroma.
Shisui, por sua vez, deslizou o pano para fora da cabeça e ergueu a chama perto do rosto. Ela sempre pareceu jovem para sua altura, mas seus traços equilibrados assumiram certa autoridade imponente à luz dançante.
— Esta é uma história que vem de um país muito distante, a leste — disse ela, baixando a voz delicada para causar efeito.
Aos poucos, deixou de soar como uma jovem e passou a lembrar, aos ouvidos de Maomao, uma contadora de histórias veterana.
○●○
Nessa terra havia um monge famoso. Certo dia, o senhor de uma província vizinha morreu, e o monge foi até lá para realizar o funeral. Esta história fala sobre a viagem de volta dele para casa.
Havia duas cadeias de montanhas que o monge precisava atravessar no caminho de volta ao seu templo. Era impossível fazer o trajeto em um único dia, então ele teria de encontrar abrigo para passar a noite.
A ida tinha sido tranquila. O tempo estava bom, a distância passou rápido, e por fim o monge decidiu passar a noite no templo de outro monge que conhecia.
Pensando que a viagem de retorno seria tão agradável quanto a ida, o monge se surpreendeu ao perceber que seus pés estavam estranhamente pesados no caminho de volta. O sol já começava a se pôr antes mesmo dele ter percorrido dois terços da distância que esperava, e ele estava longe do templo onde planejava dormir. Esse monge seguia regras especialmente rigorosas, de modo que não tinha acompanhantes nem cavalo.
Parece que cometi um erro de julgamento...
Ele se encontrava numa planície ampla, coberta de capim-dos-pampas, e conseguia ouvir cães selvagens uivando à distância. Se tentasse acampar ali, poderia ser atacado. Assim, o monge acelerou o passo e logo encontrou uma velha cabana camponesa de teto de palha. Aproximou-se apressado da porta e bateu.
— Com licença! Tem alguém em casa?
Da cabana surgiu um jovem casal. O monge explicou sua situação e implorou que o deixassem passar a noite ali, nem que fosse necessário dormir no canto de um depósito.
— Nossa, o senhor deve estar exausto da estrada.
A jovem esposa recebeu o monge com grande hospitalidade. Ofereceu-lhe berinjela e pepino e, embora dissesse que não eram nada demais, ele achou a refeição deliciosa. O marido, por sua vez, observava o monge com desconfiança. E quem poderia culpá-lo, com um viajante desconhecido aparecendo de repente na casa de um casal jovem?
O monge possuía poucos pertences, incluindo apenas uma quantia mínima de dinheiro para pagar a hospedagem. Ainda assim, o casal o tratou como um convidado de honra, preparando-lhe um lugar para dormir no cômodo ao lado.
Profundamente grato pela cama macia, o monge se perguntou se havia algo que pudesse fazer para retribuir. A única coisa que lhe ocorreu foi recitar um sutra, e foi isso que fez, sentando-se e entoando um texto sagrado. Normalmente, ele se concentrava totalmente ao recitar as escrituras, mas naquela noite estava estranhamente consciente aos sons ao redor. Ouvia o vento passando pela relva, junto com um som semelhante ao de um sino. Talvez insetos.
O monge continuou a recitar, mas prestava atenção, e então percebeu que o som de sino era, na verdade, uma voz humana.
— O que vamos fazer, querido?
Era a dona da casa.
— Não há o que fazer. Já basta.
Outro sino: a voz do marido. Ao monge, soaram estranhas, mas, uma vez que começava a recitar um sutra, ele nunca parava até terminar.
— Ora, ora, querido, isso nunca vai dar certo. Eu não quero ficar sozinha.
A mulher estava elevando a voz. Eles não pareciam achar que o monge pudesse ouvi-los, mas os ouvidos dele eram melhores que os da maioria. Ele sabia que era errado escutar escondido e tentou se concentrar na recitação, mas não conseguiu impedir que as vozes chegassem até ele.
— Pense o que quiser. — Era a esposa novamente. — Eu vou fazer assim mesmo.
— Fazer o quê, exatamente?
Um arrepio percorreu a espinha do monge. Ele deveria parar de recitar e intervir na discussão ou…?
Não. Não podia parar. Precisava continuar entoando o texto sagrado. Não sabia por quê; apenas sentia que precisava.
Sim, por quê? Por que todo o seu corpo tremia? Estava arrepiado da cabeça aos pés, até o topo do crânio, raspado havia tanto tempo.
O que é isso?
— Venha, vamos fazer isso.
A porta de correr instável se abriu em silêncio, revelando a mulher segurando um machado, os olhos enlouquecidos. O monge deixou os olhos se moverem para olhá-la, mas, com a boca, continuou a recitar.
— Onde está aquele monge? Para onde ele foi?
A mulher golpeou o ar com o machado bem diante do monge. Vuuush! Mas parecia não notá-lo.
— Onde ele está?! Fugiu?
A mulher saiu do cômodo, sua sombra se esticando e assumindo formas estranhas. Formas inumanas. E então outra sombra bizarra se juntou a ela.
— Procure, meu amor. Precisamos encontrá-lo. Senão… senão…
A mulher estava em pânico. Por que ela estava em pânico?
— Caso contrário, você…
Soou um triiim, como um sino. Em seguida, veio um som de mastigação, como se alguém estivesse roendo papel.
A mastigação continuou, sem parar. Durante todo esse tempo, o monge jamais interrompeu a recitação do sutra sagrado.
No instante em que o som cessou, ele saiu para fora. Não se despediu do jovem casal, não olhou para eles; simplesmente deixou a casa.
Ali, encontrou no chão a asa acastanhada de um inseto.
Triiim, triiim.
Ouviu o som de um inseto vindo do capim-dos-pampas, e então ele se dissipou.
O monge uniu as mãos em oração sobre a asa rasgada e, ainda recitando, seguiu caminhando noite adentro.
○●○
Todos ouviram a história de Shisui com atenção absoluta. Maomao refletiu sobre como a entonação e a forma de contar eram importantes: normalmente tão aérea e inocente, enquanto narrava a história Shisui soava como uma pessoa completamente diferente. E também parecia diferente, com a luz da chama tremeluzindo sobre seu rosto.
Ela quase parece… familiar, pensou Maomao distraidamente, observando Shisui de perfil, mas então a outra garota olhou para ela e sorriu. Apagou a chama e descartou o pavio e o óleo no braseiro no centro da sala.
— Certo, agora é a sua vez — disse Shisui, voltando a sorrir de forma ingênua.
Ah, sim, Maomao percebeu, se fosse participar de uma reunião de histórias assustadoras, mais cedo ou mais tarde teria de contar uma também. Ela assentiu.
O que eu deveria dizer?
Maomao não era do tipo que acreditava nesse tipo de história, o que tornava difícil inventar algo envolvente. Sem outra opção, decidiu contar uma história que tinha ouvido do velho que a criou.
— Isso aconteceu algumas décadas atrás — começou. — Diziam que uma pequena chama flutuante, considerada a alma errante de um humano, aparecia perto de um cemitério.
Agora que Maomao era a contadora, Yinghua soltou sua mão, puxando o pano sobre si mesma até que apenas os olhos ficassem visíveis.
— Achando aquilo muito estranho, alguns jovens corajosos decidiram investigar a verdade. E quando fizeram isso…
Maomao viu Yinghua morder o lábio. Se tinha tanto medo, devia simplesmente tapar os ouvidos, pensou.
— … descobriram que a explicação era perfeitamente mundana. Um homem que morava na região andava entre as tumbas. Alguém apenas tinha dito que a luz era uma alma inquieta.
Infelizmente, a história que Maomao contava não era exatamente o relato sinistro que todos esperavam. Yinghua soltou um suspiro que soou ao mesmo tempo aliviado e decepcionado.
— Ele era apenas um ladrão de túmulos comum.
A testa de Yinghua bateu com força no ombro de Maomao.
Então ela olhou diretamente para Maomao e disse:
— Ladrão de túmulos?
— Sim. Ele era obcecado por uma maldição estranha e tentava preparar uma mistura que supostamente curava todo tipo de doença. Você tritura fígados humanos e depois esfrega tudo pelo corpo…
Pá. Dessa vez, Yinghua acertou a testa de Maomao.
— Essa é a história — disse Maomao, esfregando a cabeça.
Em seguida foi a vez de Yinghua, mas sua história era tudo menos coerente. Ainda assim, ela conseguiu terminar, e então restou apenas uma luz. Quem a segurava era a mulher que as havia recebido.
Pensando bem…
Com uma mulher sentada em cada ponto cardeal, e duas a mais entre cada uma delas, isso totalizava doze participantes. Mas aquela mulher havia falado em treze histórias. Maomao se perguntava o que estava acontecendo ali.
A última mulher contou um conto da época do antigo imperador. Falou de um momento em que o número de mulheres do palácio tinha crescido demais, quando apenas algumas poucas compartilhavam o leito de Sua Majestade.
Maomao simplesmente não conseguia acompanhar o que ela dizia. Sua cabeça girava. Ela fitava o braseiro à frente, sem foco.
Hã?
A narradora chegou a alguma conclusão assustadora, provocando um arrepio em todas as outras, mas Maomao mal ouviu suas palavras.
— Agora, quanto à décima terceira história…
A anfitriã estava prestes a lançar a última luz no braseiro quando Maomao se levantou e abriu a janela.
— Ei, Maomao! — Yinghua tentou impedi-la, mas Maomao não cedeu.
O vento invadiu a sala, fazendo os panos que cobriam os rostos voarem. Maomao puxou uma lufada de ar fresco e a soltou em seguida.
Não é de se admirar que eu estivesse ficando tonta, pensou. Todas as luzes apagadas tinham sido colocadas no braseiro. Havia carvão ali dentro, e os pavios restantes tinham reacendido. Coloque um monte de carvão meio consumido numa sala apertada e feche a janela, e, claro, só uma coisa pode acontecer.
Maomao foi até algumas das mulheres que pareciam perigosamente abatidas, sentadas ao redor do braseiro, e as levou para o local onde a circulação de ar era melhor. Yinghua, percebendo a situação um pouco tarde, começou a ajudar também.
Queimar uma chama em um espaço sem ventilação produzia gases prejudiciais ao corpo humano. Era por isso que ela vinha se sentindo cada vez mais entorpecida conforme a noite avançava.
Demorei demais para notar, repreendeu-se Maomao, repreendeu-se por que não tinha percebido antes. Ao mesmo tempo, se deu conta de que sua atitude tinha sido um tanto rude com a anfitriã. Virou-se para a outra mulher do palácio para pedir desculpas, mas não a viu.
— … Bah, eu estava tão perto — pensou ter ouvido alguém dizer, mas não havia ninguém ali.
— Então, o que foi aquela história? — perguntou Shisui. A reunião tinha se desfeito, e todas iam se dispersando aos poucos. Yinghua lançava a Maomao um olhar que parecia perguntar quem é essa garota? Shisui ainda mantinha o pano sobre a cabeça, aparentemente satisfeita assim.
— Que história? — perguntou Maomao.
Shisui se referia à história da chama na floresta. Ela não tinha esquecido que Maomao prometeu contar o segredo por trás do conto.
— A proibição de entrar na mata pode ter sido uma superstição, mas isso não quer dizer que não houvesse um bom motivo por trás dela.
Por exemplo, suponha que a floresta fosse perigosa. Suponha que estivesse cheia de alimentos, mas também de coisas que não podiam e não deviam ser comidas. Isso poderia ter dado origem à proibição. E então? Imagine que alguém novo tivesse chegado à região, alguém que não tivesse crescido na vila. Com o passar dos anos, “não se deve comer o que cresce na floresta, pois faz mal” acabou se transformando simplesmente em “não entrem na floresta”. E justamente porque todos respeitavam a restrição com tanto rigor, ninguém mais sabia distinguir o que era ou não comestível ali.
Tudo isso levava à seguinte conclusão: atormentados pela fome causada pela escassez da colheita, a mãe e a criança tentaram se sustentar com a abundância da floresta. Sabendo que estavam violando os costumes da vila, porém, faziam isso em segredo, quando ninguém podia vê-los. Entravam sorrateiramente na floresta nos breves momentos do crepúsculo, quando ainda havia luz, mas já era difícil enxergar as pessoas, e colhiam cogumelos e frutas silvestres. Voltavam para casa ao pôr do sol, sem jamais saber exatamente o que tinham apanhado.
— Existe um fungo chamado cogumelo-luar — disse Maomao. Ele se parecia muito com o cogumelo-ostra comum. — Parece perfeitamente comestível, mas na verdade é venenoso e provoca náusea quando ingerido. Como o nome sugere, ele tem uma característica incomum.
Mais especificamente, o cogumelo brilhava no escuro. O corpo frutífero era, de fato, bastante saboroso, tão saboroso, inclusive, que ela não conseguiu resistir a picar um e comer um pouco, até que o velho que a criara a obrigou a pôr tudo para fora, uma de suas lembranças mais agradáveis.
De todo modo, a mãe e a criança tinham colhido os cogumelos antes que eles começassem a brilhar, por isso nunca souberam o que carregavam enquanto caminhavam pelo caminho escuro. O brilho dos cogumelos no cesto poderia ter parecido, para algum observador distante, como as chamas flutuantes que diziam ser almas humanas errantes.
Enquanto isso, quando a mulher e a criança chegavam em casa e acendiam uma luz, o fungo deixava de brilhar, parecendo perfeitamente normal enquanto esvaziavam a colheita e a comiam. Cogumelos-luar normalmente não eram venenosos o suficiente para matar, mas e se fossem consumidos por alguém severamente desnutrido? A criança morreria primeiro, seguida pela mãe.
Restava ainda a questão do que a mulher tentou dizer no final. Talvez tivesse tentado contar aos outros moradores algo como “há cogumelos deliciosos na floresta”. Um pequeno ato de vingança contra os vizinhos que haviam se recusado a ajudá-la ou a ajudar seu filho.
— Então era isso! — Shisui sacudiu o pano, parecendo satisfeita. Em seguida, disse: — Bom, eu vou por aqui! — e saiu correndo em passinhos leves, como uma garotinha. Ela parecia a Maomao alguém de espírito livre, pouco interessada no que os outros pensavam, embora Maomao não fosse exatamente alguém que pudesse julgar.
— Hã. Então não era tão assustador assim — disse Yinghua. Ela estufava o peito modesto com bravura, bem diferente de como tinha agido antes. — Aposto que as outras histórias também têm explicações desse tipo.
— Talvez — respondeu Maomao. — Quem sabe.
Juntas, ela e Yinghua voltaram para o Pavilhão Jade.
— Oh, vocês voltaram mais cedo do que eu esperava — disse Hongniang, que as aguardava. Ela costurava, fazendo pequenos ajustes para a princesa, que crescia rapidamente.
— É, as coisas ficaram meio agitadas no final — disse Yinghua.
— Imagino — respondeu Hongniang, como se isso explicasse tudo. — Depois que a dama que sempre organizava essas reuniões morreu no ano passado, eu fiquei um pouco preocupada com quem assumiria o lugar dela.
Hongniang pousou a agulha, suspirou suavemente e esfregou os ombros.
— Ela era uma mulher atenciosa. Eu mesma devo muito à bondade dela. Lamento que tudo tenha terminado para ela antes mesmo de conseguir sair do palácio interno.
Maomao observou a expressão de Yinghua: a bravata de antes se desfazia, e o rosto dela ficava pálido.
— Ah… sobre essa dama…
— Isso fica só entre nós, mas ela foi uma das companheiras de leito do antigo Imperador. Não gosto muito de encontros assim, mas era uma das poucas distrações que ela tinha, e teria sido mesquinho impedi-la. Depois que ela faleceu no ano passado, admito que fiquei triste ao pensar que a tradição simplesmente desapareceria. Fico contente que alguém tenha assumido para mantê-la viva.
Hongniang guardou os instrumentos de costura numa caixa de madeira laqueada e, com mais um suspiro, foi para o quarto. Maomao não conseguiu deixar de pensar que a história de Hongniang soava estranhamente familiar, e então percebeu que lembrava o conto que a anfitriã tinha narrado. Não recordava os detalhes exatos, mas, a julgar pela expressão impassível de Yinghua, ela pensava a mesma coisa.
Hum. Maomao cruzou os braços, pensativa. O mundo estava cheio de coisas que ela não compreendia. De qualquer forma, ficou aliviada que a reunião havia terminado antes que elas mesmas se tornassem a décima terceira história.
Apavorada, Yinghua insistiu para que Maomao dormisse com ela naquela noite, deixando Maomao sufocada demais para conseguir dormir direito.
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